Frutas
DOCES
vidas
AMARGAS
A HISTÓRIA DÓS TRABALHADÓRES PÓR
TRAS DAS FRUTAS QUE CÓMEMÓS
I N FÓ RM E ÓXFAM B RASI L
© Oxfam Brasil, outubro de 2019
Este Informe foi escrito por Gustavo Ferroni e contou com as contribuições de Fernan-do Junqueira, Jorge Cordeiro, Katia Maia, Maitê Gauto, Marina Marçal, Muana Martins, Peter Williams, Poliana Dallabrida e Samantha Federici. Parte das pesquisas que de-ram base a esse documento fode-ram realizadas pelo Departamento Intersindical de Es-tatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e pela Papel Social a pedido da Oxfam Brasil. A diagramação foi feita por Brief Comunicação.
Esta publicação parte de uma série de informes produzidos para contribuir com o de-bate público sobre os temas de desigualdades, desenvolvimento e direitos humanos. O Informe pode ser utilizado livremente para fins de educação, pesquisa, campa-nha e incidência política desde que se indique a fonte de forma completa. Para mais informações sobre as questões aqui abordadas, por favor, envie um e-mail para [email protected].
Foto da capa: Mãos de um trabalhador rural de Petrolina - Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil As desigualdades no Brasil têm múltiplas origens e trazem sérias consequências para a garantia de direitos, o desenvolvimento sustentável e a justiça social. Um dos fato-res que contribui para essas desigualdades é a concentração de renda. Entre a maio-ria da população que tem uma renda baixa, a situação de trabalhadores e trabalha-doras rurais, em especial safristas (aqueles empregados temporariamente apenas na época da colheita), chama a atenção. A fruticultura do Nordeste é um setor econômico vibrante que fornece produtos aos principais mercados do mundo, como a Europa e a América do Norte, assim como às principais capitais do Brasil. Porém, grande parte das mulheres e homens que trabalham na produção dessas frutas não têm salários dignos e vivem em situação de vulnerabilidade, sem condições de prover uma vida decente para suas famílias. Os maiores supermercados do Brasil e do mundo têm au-mentado seu poder econômico nas cadeias de alimentos e ocupam um papel impor-tante, especialmente nas cadeias produtivas de frutas. Os supermercados deveriam reconhecer a situação de vulnerabilidade a qual estão submetidos os trabalhadores e trabalhadoras rurais e assumir um papel de liderança com seus fornecedores para que as frutas vendidas aos consumidores sejam plantadas e colhidas de forma a con-tribuir para a dignidade de quem as produz.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO 5 1. MÃOS CALEJADAS E ROSTOS MARCADOS: QUEM PERDE COM AS DESIGUALDADES NO BRASIL 9
O TRABALHO RURAL É UM DOS VETORES PARA AS DESIGUALDADES NO PAÍS 9
DESIGUALDADES DE RAÇA E GÊNERO 17
A IMPORTÂNCIA DA VALORIZAÇÃO DO SALÁRIO MÍNIMO PARA REDUZIR A POBREZA E AS DESIGUALDADES 18
Salário Digno 19
REFORMA TRABALHISTA, MAIS RISCOS E MENOS DIREITOS 20
2. Desenvolvimento nas regiões da fruticultura: a riqueza que não fica 21
DESIGUALDADES E DESENVOLVIMENTO NAS CIDADES CAMPEÃS DA FRUTICULTURA 21
3. EFEITO DOMINÓ: UMA VULNERABILIDADE LEVA A OUTRA, E LOGO CHEGAM OS ABUSOS 25
DESRESPEITO, INTIMIDAÇÃO E DUPLA JORNADA PARA AS MULHERES 26
POBREZA E ATÉ FOME 29
MÁS CONDIÇÕES DE TRABALHO 32
SAÚDE E CONTAMINAÇÃO 34
Governo Bolsonaro e os Agrotóxicos 34
4. É possível mudar: boas práticas que vêm do campo 39
EXEMPLOS DE BOAS PRÁTICAS ADOTADAS POR PRODUTORES 40 UM ACORDO COLETIVO QUE APONTA O CAMINHO PARA O TRABALHO DECENTE 41
A CONEXÃO COM SUPERMERCADOS 43
Supermercados da Europa e dos Estados Unidos 45
CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES 47 SUPERMERCADOS 47 PRODUTORES 48 GOVERNO 48 Notas 50 Oxfam 54
Parreiral em Petrolina (PE) Foto: Vitor Shimomura / Oxfam Brasil
Introdução
A b c das frutas Diga que tá bom, diga que tá bom Diga que tá Abacate é forte, açaí do norte De lado não deixa. Ameixa, acerola Araçá e amora, avelã e aí Quem vai descascar esse abacaxi?
(ABC das Frutas, Moraes Moreira)
Esta é uma história sobre comida, sobre as frutas que gostamos de comer em nosso dia-a-dia. Mas não é uma história bonita, nem divertida. É uma história sobre dificul-dades e superação, sobre a vida de mulheres e homens que trabalham na produção de frutas no Brasil.
Quando vamos aos supermercados comprar frutas para nossas famílias, esperamos um produto de qualidade, e, em geral, este é o caso para o sabor e a aparência da fru-ta; mas, muitas vezes não o é para a vida de quem a produziu.
A fruticultura do Nordeste brasileiro é um setor vibrante, que fornece produtos aos principais mercados do mundo e do Brasil. Ao mesmo tempo, é permeado por proble-mas estruturais que impedem milhares de homens e mulheres que ali trabalham de terem uma vida digna.
Os supermercados são um dos principais locais onde as frutas são compradas. Para que elas estejam nas mesas dos consumidores, milhares de pessoas trabalham no seu plantio, colheita e processamento. Se a fruta que comemos é doce e bonita, é porque alguém cuidou dela e garantiu que estivesse do jeito que gostamos. Mas a vida de muitas pessoas que plantam, colhem e processam essas frutas não tem a mesma beleza e doçura. Pelo contrário, muitas destas pessoas vivem em situação de pobre-za, com risco de passar fome, de serem contaminadas por agrotóxicos, ou mesmo sem poderem sonhar e com medo do futuro.
Por trás das frutas vendidas pelos três maiores supermercados do Brasil, - Carrefour, Pão de Açúcar e Grupo Big (ex-Walmart Brasil) - estão milhares de trabalhadores e trabalhadoras safristas que ano após ano são contratados por grandes produtores, em períodos curtos, demitidos no final da safra e depois recontratados (ou não) pelas mesmas fazendas, vivendo na incerteza de como será seu futuro.
Em geral, trabalhadores safristas são contratados por períodos que podem variar en-tre 30 dias, 3 meses e até 6 meses. Uma vez demitidos ao término da safra não existem muitas opções, já que nas regiões em que vivem o trabalho no campo é uma das pou-cas – senão a única – alternativa que têm. Para as mulheres é ainda pior porque, em geral, elas têm contratos mais curtos, já que trabalham no empacotamento e limpeza de frutas - o que demanda menos tempo durante o ano. Além disso, as mulheres têm a carga de trabalho não remunerado, cuidando dos filhos e da casa. Sem outras opções de emprego na região, elas buscam emprego no setor de frutas. São contratadas e demitidas, várias vezes por ano – em um círculo vicioso de expectativa, angústia e insegurança.
As mulheres e os homens não ganham o suficiente para sustentar a família. Os traba-lhadores do melão, manga e uva na Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte recebem, na média, um salário que é apenas 56% do que seria considerado um salário digno pela Organização Internacional do Trabalho (OIT)1. Estão em uma situação de alta
vulnera-bilidade, pela insegurança e dependência das empresas produtoras de fruta. Além disso, estas pessoas são expostas a um alto risco de contaminação por agrotóxico e nem sempre encontram as melhores condições para o trabalho. Essas pessoas estão no início da cadeia produtiva de frutas e é duro saber que é assim que começa o cami-nho das frutas até a mesa dos consumidores.
Na outra ponta, os supermercados possuem cada vez mais influência nas cadeias produtivas de alimentos frescos como as frutas. O Carrefour, Pão de Açúcar e Grupo Big controlam 46,6% do setor2 e são empresas reconhecidas por seus esforços em
sustentabilidade3. Elas podem liderar uma reformulação nas condições de trabalho
no plantio, colheita e processamento das frutas de seus fornecedores, a partir da implementação de políticas e práticas.
As empresas produtoras, que fornecem aos supermercados no Brasil e no exterior, são importantes exportadoras do agronegócio brasileiro e a cadeia produtiva das fru-tas gera quase R$ 40 bilhões por ano4. Estudos da Oxfam5 mostram, contudo, que nas
últimas décadas os maiores supermercados do mundo têm ficado com uma fatia cada vez maior do valor gerado pelas frutas e vegetais que vendem. As cadeias produtivas de alimentos estão mais concentradas (Figura 1), gerando um desequilíbrio de poder e colocando trabalhadores e trabalhadoras rurais em uma situação de maior vulnera-bilidade
FIGURA 1 – CONCENTRAÇÃO NA CADEIA DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
Fonte: A Hora de Mudar, Oxfam 2018.
i Bayer-Monsanto, Dupont-Dow e Chem-China Syngenta. Fonte: Friends of the Earth Europe, Heinrich Boll Foundation and Rosa Luxemburg Foundation. (2017). Agrifood Atlas: Facts and Figures about the Corporations that Control what we Eat. ii S.J Lowder, J. Skoet, T. Roney. (2017). The Number, Size and Distribution of Farms, Smallholder Farms and Family Farms Worldwide. World Development, 87, 16-29. UN Food and Agriculture Organisation. (2008). The State of Food and Agriculture 2008. Rome: FAO iii Archer Daniels Midland (ADM), Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Co. Fonte: Friends of the Earth Europe, Heinrich Boll Foundation and Rosa Luxemburg Foundation. (2017). Agrifood Atlas: Facts and Figures about the Corporations that Control what we Eat. Op Cit. iv Friends of the Earth Europe, Heinrich Boll Foundation e Rosa Luxemburg Foundation. (2017). Agrifood Atlas: Facts and Figures about the Corporations that Control what we Eat. v Ibid.
70% 60% 10 Insumos e serviços Três conglomerados dominam quase 60% do movimento global de sementes comerciais e agrotóxicos.i A grande maioria das propriedades rurais do mundo são pequenas e familiares.
Mas 1% de todas as propriedades tem mais
de 50 hectares, e controla 65% da terra agrícola do mundo.ii p. ex., trigo, milho e soja. Na União Europeia: Quatro empresas respondem por 70% do comércio de commodities agrícolas em termos globais, por receita.iii
50 fabricantes de alimentos respondem por metade de todas as vendas do
setor no mundo.iv
Apenas dez supermercados respondem por mais de metade de todas as vendas de alimentos no varejo.v Agropecuária Comercialização e beneficiamento Fabricação de alimentos Varejo e vendas
Entre 2018 e 2019, a Oxfam Brasil foi a campo escutar o que estas mulheres e homens que trabalham na produção de frutas tinham a dizer, e o resultado foi preocupante6.
Se há riqueza na cadeia produtiva das frutas, por que então os trabalhadores dizem que não estão bem? Esse é um exemplo de como as desigualdades acontecem. O so-frimento destas pessoas dá rosto e voz a quem perde com as desigualdades no Brasil. Elas são exemplos dos 20% mais pobres da população brasileira, que vivem sem ter seus direitos básicos garantidos e com uma renda média mensal que não passa de cerca de R$ 6807.
O Brasil é o terceiro maior produtor de fruta no mundo e vem se tornando um dos maio-res exportadomaio-res. Nos últimos anos, a exportação de frutas gerou cerca de US$ 800 milhões anuais, aproximadamente R$ 3,5 bilhões8. Durante o segundo semestre de
cada ano, o país se torna o principal fornecedor de frutas tropicais para a Europa e os Estados Unidos. São exportadas frutas como manga, mamão, melão, uva e melancia, entre outras9.
A produção de frutas em larga escala no Nordeste só é possível pelos projetos de irri-gação desenvolvidos a partir dos anos 1970, tanto no vale do Rio São Francisco, como na fronteira da Bahia com Pernambuco, e no Rio Grande do Norte e Ceará. A constru-ção desses polos teve sucesso em termos comerciais e econômicos, mas também foi marcada por um processo de exclusão de agricultores familiares que ali viviam e por conflitos de terras e de água, alguns dos quais persistem até hoje10.
Hoje, os estados de Pernambuco e Bahia são responsáveis por 62% das mangas pro-duzidas no país e por 35% da produção de uvas. O Ceará e o Rio Grande do Norte res-pondem por 75% da produção nacional de melão11.
Para cada 10 hectares de fruta, cerca de 25 pessoas são empregadas. Em compara-ção, a soja emprega, na média, apenas uma pessoa a cada 10 hectares12. Isso mostra
que as frutas geram mais empregos em áreas rurais do país, particularmente no Nor-deste, onde postos de trabalho são mais escassos. Só no ano de 2017, a produção de manga, melão e uva foi responsável pela criação de cerca 88 mil postos de trabalho. No entanto, cerca de 45% desses postos não duraram mais que seis meses no ano13,
como se pode ver na Figura 2.
FIGURA 2 - VÍNCULOS FORMAIS DE EMPREGOS ATIVOS E VÍNCULOS ENCERRADOS EM 31 DE DEZEMBRO DE 2017
Fruta
empregos Nº de gerados Nº de empregos mantidos até o final de ano Nº de demitidos aolongo do ano Variação
Melão Manga Uva 47% 53,5% 49,8% 22.790 22.172 43.507 12.053 10.310 21.805 10.737 11.862 21.702
* * *
“SE A MARGEM DE
LUCRO É TÃO GRANDE,
POR QUE NÃO MELHORAR
O SALÁRIO? POR
QUE NÃO MELHORAR
AS CONDIÇÕES DE
TRABALHO? EU
IMAGINO QUE DARIA.
POR QUE SE DESTRÓI
TANTO A NATUREZA
COM A APLICAÇÃO DE
AGROTÓXICOS, POR QUE
NÃO MUDA UM POUCO
PARA USAR MENOS
VENENO? EU ACREDITO
QUE É POSSÍVEL
PRODUZIR SEM USAR
MUITO VENENO E
VALORIZANDO MAIS O
TRABALHADOR.”
* * *
Jocelino Dantas - secretário de políticas agrícolas - FETARN (RN)
O trabalho por safra impede que os trabalhadores possam garantir o sustento de suas famílias com dignidade. Com as demissões periódicas, muitos passam a depender de parentes, bicos e de programas governamentais de transferência de renda.
A pesquisa realizada ainda identificou condições ruins de trabalho, e alguns abusos, inclusive em produtores com selos de certificação, indicando que ainda há muito a caminhar para o estabelecimento de relações que respeitem os direitos dos traba-lhadores rurais.
Os Princípios Orientadores da Organização das Nações Unidas (ONU) para Empresas e Direitos Humanos14 estabeleceram a responsabilidade das empresas em realizar a
de-vida diligência em suas cadeias de fornecimento para identificar, prevenir e remediar quaisquer casos de abusos de direitos. Os Princípios são claros ao estabelecer que as empresas devem “saber e demonstrar” que respeitam os direitos humanos15 além de
terem uma responsabilidade compartilhada pelo que ocorre em suas cadeias produti-vas: “empresas podem ser percebidas como cumplices nas ações de uma outra parte onde, por exemplo, elas se beneficiaram disto”16 . Assim sendo, as situações vividas
pelos trabalhadores na produção de frutas também dizem respeito àquelas empresas que compram o que por eles foi plantado, colhido e processado.
Um outro elemento nesse contexto é a pouca transparência na cadeia das frutas, o que torna mais difícil identificar fornecedores que não respeitam os direitos huma-nos. Alguns esforços estão sendo feitos pelo Carrefour, Pão de Açúcar e Grupo Big para garantir a rastreabilidade das frutas que vendem. Em suas lojas, o consumidor poderá ver que algumas frutas já possuem um QR Code17 que mostra a fazenda onde
foi produzida. Mas o que o QR Code não mostra são as condições de vida desses tra-balhadores, se eles são capazes de dar moradia, alimentar e educar seus filhos e de viver com dignidade.
Este Informe não pretende atacar a reputação dos supermercados, mas sim estimular que eles melhorem suas políticas e práticas exigidas de seus fornecedores. E isso não é tão difícil: existem boas práticas na fruticultura do Nordeste. Algumas empresas pagam mais aos seus trabalhadores do que o estabelecido pela convenção coletiva, outras subsidiam transporte, alimentação, oferecem melhores condições de trabalho e buscam proteger as mulheres grávidas, lactantes e mães recentes. A ideia de que “é melhor ter um emprego com poucos direitos que nenhum emprego” não cabe em um mundo ou em um país onde a riqueza segue gerando mais riqueza e mais concentra-ção.
O documento está dividido em quatro partes. A primeira parte mostra a situação so-cioeconômica destes trabalhadores e trabalhadoras e sua conexão com a desigual-dade no Brasil. A segunda parte aborda o desenvolvimento local nos principais mu-nicípios da fruticultura do Nordeste. A terceira parte traz relatos e histórias da vida desses trabalhadores e trabalhadoras e as dificuldades que eles enfrentam. E por fim, a última parte traz recomendações para os supermercados, produtores e governo.
* * *
“AS REDES DE
SUPERMERCADOS, COMO
QUALQUER GRANDE
CORPORAÇÃO, EXERCEM
UM PODER MUITO
GRANDE DENTRO DA
SOCIEDADE, E DEVEM
USAR ESSE PODER PARA
O BEM.”
* * *
Ileana Neiva Mousinho - procuradora - Ministério Público do Trabalho (RN)
Mãos segurando uma manga Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
1. Mãos calejadas
e rostos marcados:
quem perde com as
desigualdades no
Brasil
O TRABALHO RURAL É UM DOS VETORES PARA AS
DESIGUALDADES NO PAÍS
Infelizmente, o Brasil segue sendo um dos países mais desiguais do mundo. Cerca de 8% de nossa população vive abaixo da linha de pobreza extrema do Banco Mundial18.
Já os 20% mais pobres vivem com uma renda média familiar de R$ 68219.
Porém, entre 2002 e 2016 ocorreu uma valorização real de quase 80% do salário mí-nimo que, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), teve um efeito duas vezes maior na redução das desigualdades que os programas de transferência de renda20.
* * *
“A GENTE COSTUMA
DIZER QUE O
TRABALHADOR RURAL
SÓ COME 15 DIAS.
PORQUE COM O QUE
GANHA, NÃO DÁ PARA
PASSAR O MÊS. VEM
CONTA, VEM REMÉDIO,
VEM CALÇADO. SE
CHEGAR UM MÊS QUE UM
FILHO MEU ADOECER,
A GENTE VAI PASSAR
FOME, PORQUE EU NÃO
VOU DEIXAR O MEU
FILHO DOENTE.”
* * *
Robson – trabalhador – Vale do São Francisco
FIGURA 3 – DECIS, POR RENDA, DA POPULAÇÃO BRASILEIRA QUE TRABALHA. 2017
Fonte IBGE, PNAD Contínua 2017. Cálculo próprio
O trabalho é a fonte mais importante de renda para a maioria das famílias no Brasil e no mundo21. Cada vez mais, no entanto, ter um emprego não significa escapar da
pobre-za. Estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que um entre cada três trabalhadores de países em desenvolvimento vive em situação de pobreza22.
Esta é a situação de muitas pessoas que trabalham na produção de frutas como o me-lão, a manga e a uva no Nordeste brasileiro. Como muitas das ocupações na produção de frutas são temporárias, as pessoas só conseguem permanecer no emprego duran-te o período de safra, que normalmenduran-te vai de três a seis meses por ano. Esse período não é suficiente para garantir uma renda média anual que propicie uma vida digna para a trabalhadora ou o trabalhador e sua família. Cerca de 50% dos trabalhadores destas três frutas foram contratados e demitidos no mesmo ano23.
Utilizando o exemplo uma trabalhadora safrista do melão no Rio Grande do Norte24,
ela é a principal provedora de sua família, mas tem um contrato de apenas 3 meses. Por seu trabalho neste período receberá, em média, R$ 4.127,25 (excluindo possíveis descontos ou benefícios). Se for a única ocupação no ano, sua renda mensal média será de R$ 343,94.
* * *
“ACONTECE MUITO AQUI
NO ESTADO A QUESTÃO
DO SAFRISTA. ISSO
É UM NEGÓCIO MUITO
COMPLICADO PORQUE
O TRABALHADOR É
CONTRATADO POR UM
PERÍODO DO ANO, E
NO OUTRO ANO ELE
NÃO SABE SE VOLTA.
É UM PROCESSO DE
VULNERABILIDADE
MUITO GRANDE.”
* * *
Jocelino Dantas - secretário de políticas agrícolas - FETARN (RN) 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000 0%-10% 10%-20% 20%-30% 30%-40% 40%-50% 50%-60% 60%-70% 70%-80% 80%-90% 90%-100% R$ 0 - 400 R$ 401 - 930 R$ 931 - 937 R$ 938 - 1000 R$ 1001 - 1200 R$ 1201 - 1500 R$ 1501 - 2000 R$ 2001 - 2600 R$ 2601 - 4200 R$ > 4201
FIGURA 4 – DECIS, POR RENDA, DA POPULAÇÃO BRASILEIRA QUE TRABALHA. 2017. RENDA DO MELÃO
Se sua ocupação na produção de melão durar seis meses no ano, a mesma trabalha-dora terá recebido R$ 8.254,50 pelo período trabalhado. Caso não tenha outra renda no ano, sua renda mensal média será de R$ 687,88 - excluindo possíveis descontos ou benefícios.
Estes valores revelam que a renda proveniente do trabalho na produção do melão co-loca esta trabalhadora entre as pessoas mais pobres do país. Se ela conseguir um contrato de três meses estará, potencialmente, no nível mais baixo da distribuição de renda do Brasil. Se o contrato for de seis meses, ela estará no segundo nível mais baixo. Na produção do melão, o tempo de contratação de 39% dos trabalhadores é de até 5,9 meses25.
Mãos segurando um melão Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000 0%-10% 10%-20% 20%-30% 30%-40% 40%-50% 50%-60% 60%-70% 70%-80% 80%-90% 90%-100% R$ 0 - 400 R$ 401 - 930 R$ 931 - 937 R$ 938 - 1000 R$ 1001 - 1200 R$ 1201 - 1500 R$ 1501 - 2000 R$ 2001 - 2600 R$ 2601 - 4200 R$ > 4201
39%
Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2017 e RAIS/Ministério da Economia com base no número de vínculos ativos e inativos em 31 de dezembro de 2017. Subclasse CNAE (IBGE): 0119-9/07 Cultivo de melão. Cálculo próprio.
MULHERES DO MELÃO: MATERNIDADE E INCERTEZA DO FUTURO
Eridenes Cândida de Lima, 40 anos, é mãe e trabalha como safrista na produção do melão no Rio Grande do Norte. Há quatro safras ela vive a mesma expectativa de ser recrutada na época da colheita e a ansiedade de saber que será demitida ao final da mesma dela.
Eridenes (de camisa cinza), trabalhadora do melão no Rio Grande do Norte com sua mãe e filha Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
Quando é demitida após as safras, Eridenes vive de bicos. “Se tiver seguro desempre-go, dá uma aliviada enquanto eles não chamam. Se não tiver, tem que se virar”. Além dos bicos, ela precisa da ajuda da mãe, Terezinha, 59 anos, atualmente aposentada e que também trabalhou em empresas de frutas da região. “Quando eu não estou traba-lhando, minha mãe ajuda com dinheiro”.
Cinco meses por ano, Carmem Priscila Silva Souza, 25 anos, acorda às 5 horas da manhã, se despede do esposo e dos filhos gêmeos Valentina e Vinícius, de 4 anos, e segue de moto para trabalhar na produção do melão no Rio Grande do Norte por apenas cinco meses por ano.
Ela trabalha no campo, debaixo do sol, garantindo a qualidade e a beleza do melão. “Gente que não é acostumada a trabalhar, acha que é muito serviço, muito puxado, aí desiste no primeiro dia.”
A vida de safrista não é fácil. “Se eu não arrumar outro trabalho, fico esperando até começar outra safra. Nesse último ano eu só fiquei em casa mesmo.” Durante o perío-do que está empregada, Priscila recebe R$ 998. A região é perío-dominada pela fruticultura e as oportunidades fora de safra não são muitas. “Para qualquer trabalhador, esse valor é muito pouco, mas é melhor do que estar parado sem ganhar nada. Aqui é muito ruim de emprego.”
Carmem Priscilla, trabalhadora do melão no Rio Grande do Norte Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
Saindo do melão e mudando para a manga, o exemplo seria de um trabalhador da Bahia26. Ele também é o principal provedor de sua família, mas seu contrato de
safris-ta dura apenas três meses. Ao final deste período, ele receberá, em média, R$ 3.56127
(excluindo possíveis descontos e/ou benefícios). Caso esta seja sua única renda no ano, isto significará que ele deverá se manter e manter sua família com R$ 296,75 por mês.
Caso seu contrato seja de seis meses, ao final do período de trabalho terá recebido R$ 7.122 (excluindo possíveis descontos e/ou benefícios) e se não tiver outra ocupação no ano, terá uma renda mensal média de R$ 593,50.
Esta remuneração média para os trabalhadores da manga na Bahia colocaria, poten-cialmente, esse trabalhador no nível mais baixo da distribuição de renda do Brasil. Se o contrato for de seis meses, ele estaria potencialmente no segundo nível mais baixo. Em 2017, 52% dos trabalhadores da manga estavam entre esses dois níveis.
FIGURA 5 – DECIS, POR RENDA, DA POPULAÇÃO BRASILEIRA QUE TRABALHA. 2017. RENDA DA MANGA
* * *
“QUANDO EU ERA
MAIS NOVO, NÃO ERA
ISSO QUE EU SONHAVA
PARA MIM. NINGUÉM
VAI TER UM SONHO DE
TRABALHAR NESSAS
CONDIÇÕES. COM OS
MEUS 19 ANOS, EU
ESTUDAVA, EU PENSAVA
EM CRESCER NA VIDA
COM O ESTUDO, MAS AS
CONDIÇÕES NÃO DERAM.
O JEITO FOI ENCARAR
ESSE TRABALHO
MESMO. O CARA QUE
TRABALHA NUM NEGÓCIO
DESSE E TEM FILHO
PARA SUSTENTAR, VISA
ARRUMAR UM SERVIÇO
MELHOR”.
* * *
Pedro - trabalhador - Rio Grande do Norte 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000 0%-10% 10%-20% 20%-30% 30%-40% 40%-50% 50%-60% 60%-70% 70%-80% 80%-90% 90%-100% R$ 0 - 400 R$ 401 - 930 R$ 931 - 937 R$ 938 - 1000 R$ 1001 - 1200 R$ 1201 - 1500 R$ 1501 - 2000 R$ 2001 - 2600 R$ 2601 - 4200 R$ > 4201
52%
Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2017 e RAIS/Ministério da Economia com base no número de vínculos ativos e inativos em 31 de dezembro de 2017. Subclasse CNAE (IBGE): 0133-4/10 Cultivo de manga. Cálculo próprio.
Plantação de manga
Partindo para a produção da uva, pode-se ter o exemplo de uma trabalhadora de Per-nambuco que permanece durante três meses com uma remuneração média mensal de R$ 1.181,92. Ela receberá, ao fim do contrato, R$ 3.545,76 (excluindo possíveis des-contos e/ou benefícios). Se for a única ocupação no ano, sua renda média mensal no período de um ano será de R$ 295,48.
Em um contrato de seis meses, ela terá recebido R$ 7.091,52 (excluindo descontos e/ ou benefícios) e, se não tiver outra ocupação no ano, terá uma renda mensal média de R$ 590,96.
Considerando o contrato de três meses, a renda do trabalho na produção de uva colo-caria essa trabalhadora potencialmente no nível mais baixo da distribuição de renda do Brasil. Se o contrato for de seis meses, ela estaria potencialmente no segundo nível mais baixo. Em 2017, essa era a realidade de 46% dos trabalhadores da uva. FIGURA 6 – DECIS, POR RENDA, DA POPULAÇÃO BRASILEIRA QUE TRABALHA. 2017. RENDA DA UVA
* * *
“EU ME SINTO TRISTE
EM RELAÇÃO AO MEU
SALÁRIO. EU PODERIA
DAR UMA VIDA MAIS
DIGNA PARA A MINHA
FAMÍLIA. É TRISTE VOCÊ
CHEGAR AO FINAL DO
MÊS, TER QUE FAZER
SUAS COMPRAS E
CHEGAR EM CASA,
OLHAR PARA OS FILHOS,
E NÃO TER MAIS NADA
NO BOLSO.”
* * *
Robson – trabalhador – Vale do São Francisco
Trabalhador rural segurando uva Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000 0%-10% 10%-20% 20%-30% 30%-40% 40%-50% 50%-60% 60%-70% 70%-80% 80%-90% 90%-100% R$ 0 - 400 R$ 401 - 930 R$ 931 - 937 R$ 938 - 1000 R$ 1001 - 1200 R$ 1201 - 1500 R$ 1501 - 2000 R$ 2001 - 2600 R$ 2601 - 4200 R$ > 4201
46%
Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2017 e RAIS/Ministério da Economia com base no número de vínculos ativos e inativos em 31 de dezembro de 2017. Subclasse CNAE (IBGE): 0132-6/00 Cultivo de uva. Cálculo próprio.
DESIGUALDADES DE RAÇA E GÊNERO
A desigualdade de renda no Brasil é marcada por questões estruturais ainda não re-solvidas como o racismo e o machismo. Em 2017, a renda de uma pessoa negra foi em média 53% menor que de uma pessoa branca. As mulheres ganharam, em média, 38% menos que os homens.28
Os dados preliminares do Censo Agropecuário de 2017 apontam que a maioria das pes-soas ocupadas no Brasil rural são pretos e pardos, cerca de 53%29. Utilizando os dados
da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar Contínua (PNADC) é possível estimar que para os estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia cerca de dois terços das pessoas ocupadas na agricultura são negras30. Infelizmente, faltam dados
desa-gregados sobre o perfil racial dos trabalhadores das frutas no Nordeste.
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) e Relação Anu-al de Informações Sociais (RAIS) de 2017 mostram que as mulheres trabAnu-alhadoras do melão recebiam 88% do rendimento masculino, enquanto as da uva receberam 85% da remuneração dos homens. Já as mulheres trabalhadoras da manga apenas 5% a menos que os homens. Estes números mostram que apesar de manter a injustiça de gênero na diferença de pagamento, a situação destas frutas é melhor que a média nacional geral. Mas isto não deve ser comemorado, afinal receber 88% da média do rendimento masculino não é uma conquista, ainda mais tomando em conta que o ren-dimento masculino já é muito baixo e não é suficiente para prover as condições para uma vida digna. Além disso, a presença de mulheres trabalhando nestas frutas, em especial no melão e na manga, é consideravelmente mais baixa que a dos homens. Ao final de 2017 havia apenas 12% de mulheres empregadas no melão, 25% na manga e 38% na uva 31.
De acordo com um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a maioria das famílias chefiadas por mulheres no Brasil rural estava localizada no Nordeste32.
* * *
“TEM COISAS QUE
MULHER FAZ E O
HOMEM É CHEIO DE
FRESCURINHA E NÃO
FAZ, MAS A EMPRESA
DÁ MAIS VALOR PARA
OS HOMENS, MAS QUEM
BOTA O SERVIÇO PARA
GERAR SOMOS NÓS.”
* * *
Eridenes - trabalhadora - Rio Grande do Norte
A IMPORTÂNCIA DA VALORIZAÇÃO DO SALÁRIO MÍNIMO
PARA REDUZIR A POBREZA E AS DESIGUALDADES
Entre 2002 e 2016, o Brasil viveu um período de consistente valorização do salário mí-nimo. O governo federal e Congresso Nacional garantiram o aumento acima da inflação como forma de redistribuir a riqueza, reduzir a desigualdade de renda e, em especial, combater a pobreza. Esta política apresentou resultados e foi um dos fatores que im-pulsionaram a retirada de 36 milhões de pessoas da situação de pobreza33.
O aumento sistemático do salário mínimo e a dignidade do trabalhador rural
Os homens e mulheres que trabalham para produzir alimentos no Brasil rural, ao me-nos aqueles formalmente empregados, geralmente ganham em torno de um salário mínimo. Este é o caso dos trabalhadores da fruticultura do vale do São Francisco e do Rio Grande do Norte34.
Portanto, a política de valorização do salário mínimo é um mecanismo que tem impac-to direimpac-to na vida dessas pessoas35. As declarações do atual governo indicam que essa
política não será retomada e isso reduz a capacidade do país de enfrentar a pobreza e as desigualdades, deixando os trabalhadores rurais da fruticultura ainda mais vul-neráveis36.
Mesmo sendo valorizado ano após ano, o salário mínimo ainda está muito distante de ser um salário digno. De acordo com a Global Living Wage Coalition, um salário digno “deve ser suficiente para garantir um padrão de vida decente para o trabalhador e sua
família. Elementos de um padrão de vida decente incluem alimentação, água, moradia, educação, saúde, transporte, vestuário, outras necessidades essenciais e provisões para eventos inesperados” 37.
Independente das ações governamentais, as empresas que fazem parte da cadeia produtiva das frutas podem ter iniciativas que promovam salários mais dignos para os trabalhadores e trabalhadoras que planta, colhem e processam as frutas.
Salário digno para os trabalhadores da fruticultura
A OIT e a Global Living Wage Coalition propõem que o cálculo do salário digno (ou de-cente ou de bem-estar – o termo varia conforme a metodologia e tradução escolhida) deveria ser feito com base na metodologia Anker38. De uma maneira geral, essa
me-todologia propõe que se estime os gastos das famílias dos trabalhadores com base em uma cesta de custos: comida nutritiva, moradia decente, outras necessidades essenciais e uma pequena quantia para emergências. Estes custos são então dividi-dos pelo número médio de trabalhadores em período integral em uma típica família da região e se inclui potenciais deduções e impostos.
Algumas certificações agrícolas já abordam a questão do salário digno: a norma
Rain-forest Alliance propõe que as fazendas avancem em direção ao salário digno,
indican-do como calculá-lo39; a norma Fairtrade também está estudando como estabelecer
diretrizes para isto40.
* * *
“SE EU GANHASSE MAIS
QUE UM SALÁRIO JÁ
TINHA LEVANTADO UMA
CASINHA PARA MIM.
UMA CASA PRÓPRIA.
HOJE EU TENHO A MINHA
FAMÍLIA. EU QUERIA
UMA CASA PARA MIM
E MEUS FILHOS. DOIS
QUARTOS, UMA SALA,
COZINHA, BANHEIRO.
UM LUGAR PARA EU
FAZER AS MINHAS
COISAS PARA VENDER,
PORQUE EU GOSTO DE
COZINHAR. (...) DEPOIS
QUE A GENTE CASA, TEM
FILHOS, A GENTE PENSA
O MELHOR PARA ELES. ”
* * *
Priscila - trabalhadora - Rio Grande do Norte
SALÁRIO DIGNO
A discussão sobre salário digno, salário de bem-estar ou salário mínimo necessário encontra respaldo no artigo 7, inciso IV da Constituição Federal que define que o sa-lário mínimo deveria ser “capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às
de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo”. Globalmente a discussão de um living wage41 tem avançado para os
traba-lhadores em cadeias de fornecimento agrícolas.
A pedido da Oxfam Brasil, o DIEESE realizou uma análise preliminar sobre como definir este valor para a fruticultura do Nordeste42. Cálculos específicos devem ser
desen-volvidos para cada localidade e este deve ser um processo participativo, com envol-vimento dos sindicatos rurais locais. É preciso que as empresas que fazem parte das cadeias produtivas agrícolas avancem na discussão do salário digno.
Rio Grande do Norte | Jandaíra
No Rio Grande do Norte foi feito o cálculo, com base na metodologia Anker, tendo como parâmetro a cidade de Jandaíra. O valor obtido foi de R$ 1.820,62.
Vale do São Francisco | Petrolina e Juazeiro
No polo irrigado do Vale do São Francisco, o cálculo também seguiu a metodologia Anker e teve como base as cidades vizinhas de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). O valor obtido foi de R$ R$ 1.856,25 para Petrolina e de R$ 1.943,17 para Juazeiro.
Jandaíra R$ 1.820,62 Petrolina R$ 1.856,25 Juazeiro R$ 1.943,17
Considerando o salário médio do trabalhador da manga, do melão e da uva nos esta-dos da Bahia, Rio Grande do Norte e de Pernambuco, a diferença para o salário mini-mamente digno com base na metodologia Anker será de 40% para Jandaíra, 43% para Petrolina e 50% para Juazeiro – e 44% na média43 .
Trabalhador rural cuidando das feridas nas mãos
REFORMA TRABALHISTA, MAIS RISCOS E MENOS DIREITOS
Muitas das proteções das quais dependem os trabalhadores da fruticultura foram co-locadas em risco pela reforma trabalhista aprovada em 2017 como, por exemplo, a am-pliação das possibilidades de terceirização, incluindo as atividades fim, o que traz o risco de maior precariedade no vínculos empregatícios em um setor onde boa parte da força de trabalho é temporária (safristas). E a aprovação do regime de trabalho inter-mitente, em que o trabalhador fica disponível para a empresa, mas só recebe quando efetivamente é convocado, algo que potencialmente poderia ser utilizado durante as safras e momentos de pico. Talvez, um dos principais retrocessos para os trabalhado-res rurais tenha sido o fim do pagamento pela hora in itinere, isto é, o pagamento pelo tempo de deslocamento entre a casa e o trabalho, o que, no caso de trabalhadores rurais, pode ser significativo44.
A capacidade dos trabalhadores de se organizarem e articularem suas demandas também foi prejudicada pela reforma. O fim da dedução em folha da contribuição sin-dical, sem nenhum período de transição, deixou os sindicatos de trabalhadores rurais sem capacidade e sem recursos para preparar as negociações coletivas e articular suas bases. No mundo rural, a reforma chegou em um momento que os sindicatos de agricultores familiares e de trabalhadores rurais, chamados de ecléticos, estavam se separando e como consequência, muitos sindicatos de trabalhadores eram recém--criados o que fez com que o cenário ficasse ainda mais desafiador45.
Quando a reforma trabalhista foi anunciada, o governo naquele momento havia anun-ciado que as mudanças gerariam empregos e crescimento econômico46 . Um ano após
a reforma, no final de 2018, o cenário estava bem diferente do que o previsto. Cerca de, 600 mil pessoas haviam entrado para a informalidade, praticamente o dobro dos empregos formais gerados no período (372 mil)47 . A falta de resultados fez com que
o Brasil entrasse na lista da OIT de países que podem estar violando direitos traba-lhistas e que devem apresentar explicações à organização internacional48. O início do
atual governo trouxe novos retrocessos que estão afetando os trabalhadores rurais, sendo a dissolução do Ministério do Trabalho49 e Emprego um dos principais, já que
reduziu em importância o principal espaço de participação e diálogo para que estes trabalhadores pudessem ter suas demandas escutadas e atendidas. Em função de cortes orçamentários, foi reduzida a fiscalização das condições de trabalho e de tra-balho análogo à escravidão. O país já vivia um déficit nas fiscalizações, de acordo com o Ipea seria necessário praticamente quadruplicar o número de auditores fiscais do trabalho, saindo de dois mil e trezentos para oito mil a fim de garantir um patamar ide-al50. Estes retrocessos incluíram o Brasil, pela primeira vez, entre os 10 piores países
em relação aos direitos dos trabalhadores, no ranking que é elaborado pela
Interna-tional Trade Union Confederation (ITUC), identificando os países onde os trabalhadores
têm acesso limitado aos seus direitos, são expostos a práticas injustas de trabalho, enfrentam leis repressivas, sofrem resposta violenta por greves, protestos e a intimi-dação e ameaças de suas lideranças sindicais51 .
* * *
“COM O ADVENTO DA
REFORMA TRABALHISTA
JÁ TIVEMOS UMA
MUDANÇA SIGNIFICATIVA
PORQUE COMEÇOU A SE
FAZER UMA LEITURA
MUITO EQUIVOCADA QUE,
A PARTIR DA REFORMA,
NÃO EXISTE MAIS LEI. É
A LEI DO MAIS FORTE.”
* * *
Calisto Torres - chefe de fiscalização da
Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Rio Grande do Norte
2. Desenvolvimento
nas regiões da
fruticultura: a riqueza
que não fica
DESIGUALDADES E DESENVOLVIMENTO NAS CIDADES
CAMPEÃS DA FRUTICULTURA
O Brasil é um país extremamente desigual. Além das desigualdades de renda, riqueza, gênero e raça, temos as desigualdades regionais.
No passado, a fruticultura já foi tida como uma grande saída para o desenvolvimento regional do semiárido brasileiro. Porém ao se analisar a situação dos principais muni-cípios produtores de melão, manga e uva no vale do São Francisco e no Rio Grande do Norte, este não parece ser o caso.
Entre os 20 municípios que mais produzem melão no país, somente Mossoró, uma grande cidade no Rio Grande do Norte, com diversidade econômica, tem o IDHm (Índice de Desenvolvimento Humano municipal) superior à média nacional e é considerado alto pelo Atlas de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas52. O IDHm considerado
baixo pelo Atlas em 12 municípios que estão localizados nos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia e Piauí. A informação sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ajuda a sinalizar se a riqueza gerada pela fruticultura está ou não ge-rando desenvolvimento local e contribuindo para melhorar as condições de vida da população.53
Agrotóxico sendo aplicado em parreiral no município de Juazeiro Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
* * *
“AQUI, NA REGIÃO,
O SERVIÇO É MUITO
POUCO. NÃO ADIANTA
SAIR DE UM NEGÓCIO
DESSE E FICAR
DESEMPREGADO. NÃO
ADIANTA SAIR, RECEBER
O SEGURO E DEPOIS
FICAR A DEUS DARÁ.”
* * *
Pedro - Trabalhador - Rio Grande do Norte
Povoado no Ceará
FIGURA 7 – FAIXAS DE DESENVOLVIMENTO HUMANO MUNICIPAL
Já no caso dos 20 municípios que mais produzem manga, dos 11 localizados no Nor-deste, nenhum possui IDHm superior à média nacional. Destes municípios, cinco têm o IDHm considerado baixo e seis mediano54.
No caso da uva, a maior parte dos municípios campeões da produção está no Rio Gran-de do Sul, estado que é responsável por 50% da produção nacional. Pernambuco e Bahia, ou seja, o Vale do São Francisco, correspondem por cerca de 35%. Mas apenas três municípios destes estados do Nordeste estão entre os maiores produtores. Pe-trolina (PE) e Juazeiro (BA) têm o IDHm abaixo da média nacional, mas no nível mediano, já Lagoa Grande (PE) está no nível considerado baixo. Importante ressaltar que, em relação aos outros 17 municípios, todos estão acima da média nacional e no nível de IDHm considerado alto e até muito alto.
Para além do IDHm, também podemos fazer outra análise socioeconômica dos municí-pios que compõem a fruticultura irrigada no Vale do São Francisco e do Rio Grande do Norte. Com base nos dados sobre os benefícios previdenciários, que são importantes no combate à pobreza, na distribuição de renda e contribuem para o dinamismo da economia dos municípios da região, observamos que os montantes dos valores pagos para a previdência rural55 nos principais municípios produtores de uva, manga e melão
no Vale do São Francisco e no Rio Grande do Norte chega a ser maior que o PIB agro-pecuário local.
PERCENTUAL QUE O VALOR DOS BENEFÍCIOS DA PREVIDÊNCIA RURAL REPRESENTA NO PIB AGROPECUÁRIO DO MUNICÍPIO
Maiores Produtores de Melão no Rio Grande do Norte Maiores Produtores de uva e manga no Vale do São Francisco (BA, PE)
Açu (RN) 501,4% Belém do São Francisco (PE) 70,5%
Afonso Bezerra (RN) 141,6% Lagoa Grande (PE) 35%
Apodi (RN) 153,3% Orocó (PE) 16,2%
Baraúna (RN) 88,6% Petrolina (PE) 21,6%
Carnaúbais (RN) 91% Santa Maria da Boa Vista (PE) 41,2%
Governador Dix-Sept Rosado (RN) 253,5% Casa Nova (BA) 92,5%
Ipanguaçu (RN) 114% Curaçá (BA) 100,4%
Jandaíra (RN) 97,4% Dom Basílio (BA) 54,7%
Macau (RN) 79,5% Juazeiro (BA) 62,4%
Mossoró (RN) 71,4% Sobradinho (BA) 81,6%
Fonte: IBGE - Contas Nacionais - Estimativa da População Residente - PIB dos Municípios. Valores corrigidos pelo INPC/IBGE acumulado de 01/2017 a 12/2018. Cálculo feito pelo DIEESE a pedido da Oxfam Brasil.
Fonte: PNUD, Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil
* * *
“PARA QUALQUER
TRABALHADOR UM
SALÁRIO É MUITO
POUCO, MAS É MELHOR
DO QUE ESTAR PARADO
SEM GANHAR UM REAL.
AQUI É MUITO RUIM DE
EMPREGO.”
* * *
Priscila - trabalhadora - Rio Grande do Norte
0 0,499 0,500 0,599 0,600 0,699 0,700 0,799 0,800 1
Estes dados nos mostram que a previdência rural é tão relevante para a economia das principais cidades da fruticultura da uva, da manga e do melão no Nordeste quanto a própria atividade econômica. Diante deste cenário, deveríamos repensar o atual mo-delo de desenvolvimento da região. Temos trabalhadores da fruticultura vulneráveis, vivendo em situação de pobreza e sem uma remuneração digna em cidades com baixo desenvolvimento, que dependem mais da previdência rural que da atividade econô-mica levada pela agropecuária. É preciso que dentro deste modelo seja priorizada a remuneração e estabilidade destes trabalhadores e trabalhadoras, que teriam o po-tencial de dinamizar as economias locais.
Outro fator que pode contribuir para uma melhor compreensão da dinâmica econômi-ca e o desenvolvimento das principais cidades da fruticultura é o número de famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Família (PBF). O PBF é uma das principais políticas públicas de combate à pobreza e, em relação aos municípios que são os principais produtores de uva, melão e manga nos polos irrigados do Rio Grande do Norte e do Vale do São Francisco, constatamos que, em mais da metade dos casos, o percentual de famílias atendidas gira em entorno de 50%.
PERCENTUAL DE FAMÍLIAS ATENDIDAS PELO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA
Maiores Produtores de Melão no Rio Grande do Norte Maiores Produtores de uva e manga no Vale do São Francisco (BA, PE)
Açu (RN) 34,74 Belém do São Francisco (PE) 66,04
Afonso Bezerra (RN) 55,08 Lagoa Grande (PE) 42,82
Apodi (RN) 47,72 Orocó (PE) 68,77
Baraúna (RN) 37,28 Petrolina (PE) 25,92
Carnaúbais (RN) 56,36 Santa Maria da Boa Vista (PE) 63,92
Governador Dix-Sept Rosado (RN) 46,23 Casa Nova (BA) 55,49
Ipanguaçu (RN) 31,71 Curaçá (BA) 56,84
Jandaíra (RN) 50,93 Dom Basílio (BA) 40,48
Macau (RN) 29,64 Juazeiro (BA) 38,97
Mossoró (RN) 19,29 Sobradinho (BA) 41,88
3. Efeito dominó: uma
vulnerabilidade leva
a outra, e logo chegam
os abusos
Os baixos salários, a falta de oportunidades nas regiões dominadas pela fruticultu-ra e a extrema vulnefruticultu-rabilidade gefruticultu-rada pela rotatividade dos safristas, propiciam um cenário onde as pessoas que trabalham na produção de frutas, além de não terem condições de ter e prover uma vida digna para suas famílias, correm o risco de serem submetidas a abusos e violações de direitos.
É grande a precariedade de quem depende de poucas empresas da fruticultura para ter seu sustento e todo ano é demitido e recontratado por elas. Esta dinâmica sujeita os trabalhadores a uma situação de forte dependência e instabilidade, onde seu fu-turo e o fufu-turo de suas famílias estão sob constante ameaça.
Para entender a vida dos trabalhadores safristas das frutas, como a natureza de seu trabalho afeta sua capacidade de ter uma vida digna são apresentados de trabalha-dores e trabalhadoras que foram entrevistas durante as pesquisas realizadas para este Informe. Eles elucidam o que está por trás das frutas que se come.
Parreiral fazendo fertirrigação em Petrolina (PE)
Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
* * *
“A PESSOA TEM QUE
SAIR CONFORME A
REGRA DELES. ELES
MEIO QUE USAM AS
PESSOAS. COMO NÃO
TEM MUITO TRABALHO,
ELES ACHAM QUE A
PESSOA ESTÁ SUJEITA
A ELES, SUJEITA AOS
CAPRICHOS DELES.”
* * *
Pedro - trabalhador - Rio Grande do Norte
Alguns nomes foram alterados para proteger as identidades bem como não serão mencionados os produtores para os quais trabalham. As histórias de trabalhadoras e trabalhadores que não estão anônimos representam problemas gerais, que afetam a maioria, e não a prática ruim de uma ou outra fazenda.
Os relatos de trabalhadores e trabalhadoras retratados aqui expressam a opinião e experiência do(a) entrevistado(a) e não, necessariamente, da Oxfam Brasil. Não ne-cessariamente todos os relatos dos trabalhadores deste Informe referem-se a forne-cedores diretos do Carrefour, Pão de Açúcar e Grupo Big.
DESRESPEITO, INTIMIDAÇÃO E DUPLA JORNADA PARA AS
MULHERES
Além de lidar com a instabilidade, com a falta de uma renda decente e poderem prover uma vida digna para suas famílias, as trabalhadoras ainda têm que lidar com um am-biente de trabalho dominado pelos homens. Em um país permeado por um machismo estrutural que está presente nas relações sociais, a situação da mulher que trabalha na produção da fruta é difícil. Suas necessidades e particularidades de trabalhadora mulher, muitas vezes mãe, não são consideradas em um ambiente predominantemen-te masculino.
LAURA E MARIA* – MULHERES NA MANGA: JORNADA DUPLA E CONTRATOS CURTOS
Laura, 36 anos, trabalhou durante 20 dias no packing house (galpões onde as frutas são limpas e empacotadas) de uma empresa produtora de mangas do Rio Grande do Norte. Inicialmente, o contrato dela e das outras trabalhadoras admitidas naquela sa-fra era de 45 dias. Sem aviso prévio, parte das safristas foram demitidas. “Colocaram um pessoal para fora depois de 20 dias. Fui trabalhar e no final do dia o encarregado disse que a gente estava demitida. Não sei o porquê”, explica Laura. Este foi o único emprego de Laura em 2018.
Laura parcialmente oculta Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
O trabalho no packing house também pode trazer riscos. “Quando a manga desce na esteira, a gente pega os tamanhos para selecionar, e vai separando. A gente limpa a fruta [da cal] com um pano úmido. A mão fica toda preta por causa do leite da manga (...) é sem luva. Todo mundo sem luva. Prejudica a mão. Depois de uns dias, a pele co-meça a se descolar das mãos.”
* * *
“SE FIZER CONFUSÃO
COM ELES, PROCURAR
A JUSTIÇA POR CONTA
DE ALGUMA QUESTÃO,
ELES BOTAM A
PESSOA NUMA LISTA
E ELA NÃO CONSEGUE
EMPREGO NAS OUTRAS
EMPRESAS”
* * *
Pedro - trabalhador - Rio Grande do Norte
A rotina de Laura, que à época ainda amamentava a filha mais nova, era cansativa. A trabalhadora começava a jornada às 15h40 e saía a 1 hora da manhã. A filha ficava aos cuidados da avó. Laura recorda de um sábado em que pediu para sair mais cedo do trabalho. A filha estava doente, com febre alta. Na empresa, ela pediu para sair mais cedo, para levar a filha ao posto de saúde. “Eu já tinha terminado tudo e pedi que ele me liberasse mais cedo. Ele disse: ‘não, deixe dar o horário e aí você vai embora’. Eu fiquei na minha e esperei. Eu disse que a minha filha estava doente, que estava com febre, e tive que aguardar. Isso doeu muito. Eu chorei. Minha menina mamava ain-da. Doente, com febre. Isso dói em qualquer mãe”, lembra. “Mas eu tive que aguardar. Quem precisa, tem que aguardar. Se eu não precisasse, eu teria deixado o emprego e ido embora. Mas aqui a gente não tem opção de emprego”.
Pés de manga com cal
As mulheres do packing devem pedir permissão para ir ao banheiro e também relatam que o supervisor, sempre homem, controla tudo: ritmo do trabalho, a conversa com as colegas, o número de idas ao banheiro e o tempo gasto bebendo água. “A gente só vai no banheiro uma vez de manhã e uma vez à tarde. Às vezes, você pede para ir ao banheiro e conseguir ir 40 minutos, 50 minutos depois.”
*nomes fictícios para proteger a identidade das trabalhadoras
Maria, 28 anos, trabalha há seis anos como safrista no packing house de uma empresa de manga, “eu trabalho três meses ou 45 dias” no ano. Ela é responsável por limpar os frutos que caem da esteira envoltos em pó de cal. O pó de cal é aplicado para prote-ger a fruta dos raios solares. Mesmo trabalhando na mesma empresa durante estes 6 anos, Maria foi sempre demitida e recontratada. Mas não há garantia alguma de que conseguirá o trabalho no ano seguinte. Todo ano ela vive a mesma incerteza.
Maria é mãe de uma menina de 11 anos. “Você só trabalha três meses certo no ano. E o que você vai ganhando é pouco. Você não pode fazer tudo o que você quer. A minha filha mesmo, às vezes ela reclama. Ela tem 11 anos e não entende muita coisa. Eu fico sempre explicando: não posso”.
Maria e Laura também reclamam do tratamento dado às mulheres: “Você pode beber água, pode ir ao bebedouro, mas eles observam”, afirma Maria. “Se você demora no ba-nheiro, eles perguntam se você está com um problema de saúde. Esse tipo de coisa.”
Maria parcialmente oculta por uma árvore
Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
* * *
“EU ACHO QUE PODERIA
MELHORAR ESSA
INTIMIDAÇÃO. DE VIGIA.
VOCÊ TRABALHA COM O
PESSOAL OBSERVANDO
VOCÊ TODA HORA.”
* * *
Maria - trabalhadora - Rio Grande do Norte
POBREZA E ATÉ FOME
Sem uma remuneração estável e um salário digno, a vida das famílias que dependem da renda do trabalho na fruticultura fica muito difícil. Mas a realidade dessas pessoas é ainda pior, a vida de safristas os coloca ainda mais longe do que seria uma renda mínima para sobreviver ao longo do ano. A instabilidade vivida pelos safristas signi-fica que eles estão em alta vulnerabilidade e qualquer imprevisto pode lançá-los na pobreza extrema e na fome.
Essa instabilidade ainda lhes rouba a capacidade de planejar o futuro e até ter as-pirações e sonhos de uma vida melhor. Todo ano eles devem encarar a possibilidade de não serem recontratados na época da safra e se este será o momento em que vão passar fome, perder suas casas e cair na pobreza extrema.
Como vimos com o exemplo da previdência rural e do PBF, nestas regiões é o Estado brasileiro que apoia a população para garantir que não fiquem desamparados. No caso dos trabalhadores safristas, é interessante constatar como o Estado apoia e mantem estes trabalhadores, essenciais para a fruticultura, quando o próprio setor não provê o suficiente para que sobrevivam o ano todo.
* * *
“VOCÊ SABER QUE VAI
SE LEVANTAR AMANHÃ,
VAI TRABALHAR, MAS
NÃO VAI FICAR NADA
PARA SUA ESPOSA E
PARA OS SEUS FILHOS
COMEREM. COMO É QUE
SE TRABALHA DESSE
JEITO? (...) ÀS VEZES,
EU CHORO ESCONDIDO
DA MINHA MULHER E
DOS MEUS FILHOS.”
* * *
Robson - trabalhador - Vale do São Francisco
Carlos parcialmente oculto Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
ROBSON E CÍCERA – LUTANDO PELOS FILHOS
O casal Robson, 32 anos, e Cícera, 28 anos, estão juntos há 13 anos. Moram com os três filhos em uma casa ainda em construção, em um terreno ocupado na cidade de Curaçá na Bahia. Na casa, as paredes têm os tijolos expostos, o chão é de cimento e faltam janelas e portas, que nunca conseguiram comprar. “Só temos dinheiro para comer. Ainda assim, quando chega o final do mês, temos que pedir emprestado para não passar fome”, diz Cícera.
Robson trabalha há cinco anos no packing house de uma grande empresa produtora de manga e Cícera trabalha há 3 anos como safrista da mesma empresa, por aproxi-madamente 3 meses ao ano.
Robson, Cícera e os três filhos Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
“A gente tem um contrato de um mês. A partir dos 30 dias, se passar do período de experiência, continua por mais dois meses. No total, são, no máximo, quatro meses. Depois, eles colocam você para fora e você fica parada o resto do ano, esperando a nova safra”, conta Cícera.
Cícera espera ansiosamente pelos meses em que trabalha como safrista. É nesse cur-to período do ano, que ela consegue aumentar um pouco a renda da família e ajudar a pagar a dívida no mercado onde compram comida, muitas vezes no fiado.
Com a renda insuficiente para o casal e três filhos, Robson torce todos os meses para que nenhum integrante da família adoeça e precise de remédios, por exemplo. “A gen-te costuma dizer que o trabalhador rural só come 15 dias. Porque com o que ganha, não dá para passar o mês. Vem conta, vem remédio, vem calçado. Se chegar um mês que um filho meu adoecer, a gente vai passar fome, porque eu não vou deixar o meu filho doente”, explica Robson.
Há alguns anos, Ricardo, filho do meio, começou a ter convulsões. Cícera precisou voltar para a cidade natal, pedir dinheiro num carro de som para pagar o tratamento do filho. “Foi sofrimento para a gente. A gente não tinha uma casa [na época]. Ou a gente tirava o dinheiro para comprar a medicação dele ou pagava o aluguel”.
Apesar de não pagarem mais aluguel, hoje vivem com a ameaça do despejo enquanto o terreno ocupado não é regularizado. Mesmo sem pagar aluguel, não sobra nada para construir a atual casa da família. As paredes da residência não têm reboco, o chão não tem revestimento, o quarto que o casal dorme não tem janelas, o banheiro não tem porta. A entrada que separa a área interna da residência do quintal é improvisada com tijolos amontoados e os três filhos dormem juntos em uma única cama de casal. “Se eu pegar o meu salário e comprar uma porta, eu não consigo comprar comida”, diz Robson.
“Eu me sinto triste em relação ao meu salário. Eu poderia dar uma vida mais digna para a minha família. É triste você chegar ao final do mês, ter que fazer suas compras e chegar em casa, olhar para os filhos, e não ter mais nada no bolso para dizer ‘vamos ali no parque’, porque o salário não dá. Você escolhe: ou você faz as suas compras, ou você se diverte”, lamenta Robson.
Um presente triste e um futuro incerto são os sentimentos que acompanham Robson no trabalho. “Você saber que vai se levantar amanhã, vai trabalhar, mas não vai ficar nada para sua esposa e para os seus filhos comerem. Como é que se trabalha desse jeito? (...) às vezes, eu choro escondido da minha mulher e dos meus filhos”.
Quando Cícera trabalha, a vida da família melhora. “Tem como pagar as contas, tem como comprar mais comida, tem como a gente ter uma folga no salário. Nos meses em que ela trabalhou, conseguimos comprar uma janela e uma porta. Se ela trabalhasse durante todo o ano, assim como eu, viveríamos em um ambiente mais bonito, eu esta-ria menos preocupado”, diz Robson.
Robson, Cícera e os três filhos Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
MÁS CONDIÇÕES DE TRABALHO
A vulnerabilidade dos trabalhadores da fruticultura está ligada à condição dos safris-tas e à falta de oportunidades, o que os coloca em alta dependência do trabalho. Isto pode fazer com que violações ocorram e sejam toleradas por medo ou falta de opção. Apesar da fruticultura do Nordeste, que faz parte das cadeias produtivas dos gran-des supermercados do mundo ser razoavelmente avançada em termos de práticas de trabalho, ainda persistem abusos e violações. É estranho e inconsistente encontrar violações em empresas produtoras que, em outras localidades, são conhecidas por suas boas práticas. Também é importante notar que muitos dos grandes produtores possuem certificações56 como a Global Gap, Rainforest Alliance e Fairtrade. A presença
de práticas ruins mostra que existem lacunas nos sistemas das certificações e que as empresas compradoras, como os supermercados, não podem depender apenas delas e deveriam realizar mais esforços para monitorar a situação dos trabalhadores.
* * *
“A FRUTA É BEM
TRATADA NO CAMPO,
MAS O TRABALHADOR
NÃO É TRATADO COMO A
FRUTA.”
* * *
Robson - trabalhador - Vale do São Francisco
Trabalhador rural segurando uma manga Foto: Tatiana Cardeal / Oxfam Brasil
PEDRO E LUCAS* - DESRESPEITO E HUMILHAÇÃO
Pedro, 29 anos, trabalha nos campos de uma grande pro-dutora de mamão e outras frutas no Rio Grande do Norte. Ele caminha no corredor entre as árvores, em seu traba-lho de aplicar agrotóxicos nos frutos. Logo a sua frente, um trator bombardeia a área com uma solução de defen-sivos, deixando todo o ambiente coberto pela substân-cia. Pedro usa equipamentos de proteção, mas diz que eles são inadequados. Ele conta que, ao final da ativida-de, está com quase todo o corpo molhado pela substân-cia, que atravessa a roupa que deveria protegê-lo. Não há banheiro ou refeitório. Não há sequer água cor-rente para os trabalhadores lavarem as mãos após a apli-cação de agrotóxicos. “É uma humilhação. Trabalhamos para dar lucro para eles, mas a empresa não se preocupa com as condições do trabalho”, desabafa.
Sem refeitório no campo, a alimentação é feita no depó-sito, em meio a equipamentos de trabalho e frascos de agrotóxico e adubo. “É um galpão sujo. Tem umas pias, mas não funcionam. Está tudo abandonado. Tem uns ba-nheiros que não tem água, não tem nada. Não presta para usar. Tem que comer embaixo de um pé de pau, dentro da casa de bomba, junto com os produtos como o adubo, veneno. A gente come assim lá”, diz Pedro.
Segundo ele, não há geladeira para acondicionar a comi-da ou micro-oncomi-das para esquentá-la. “O armazenamen-to é numa sacola em cima da minha moarmazenamen-tocicleta. Põe o transporte embaixo de uma árvore e a sua marmita fica lá. Não tem um local adequado para guardar a refeição. A geladeira só pode ser usada pelo pessoal escritório.” Muitas vezes, a comida trazida de casa estraga, pois os trabalhadores as deixam sob o intenso calor da região desde o momento em que chegam ao trabalho, às 6h30. “A comida azeda. Quando é na hora do almoço, não tem condições de comer. O pessoal passa o dia com fome”. Lucas, 25 anos, saiu do ensino médio direto para os cam-pos de mamão. Quando começou a trabalhar na empresa ainda em 2013, ficou 10 meses sem carteira assinada.
Mas o dinheiro do salário não dava para sustentar a espo-sa e o filho bebê. “Com esse espo-salário não dava para pagar as contas. Sempre ficava uma dívida. Pagávamos o que era mais urgente, como a alimentação e a energia elétri-ca. O que não dava, ficava para o mês seguinte”.
Ele relata que a empresa não oferecia nenhum auxílio. “O salário que eles pagavam era um salário mínimo. De benefício, não tinha nada. Eu era tratorista, trabalhava com veneno, e eles não me pagavam insalubridade ou adicional noturno, porque sempre eu trabalhava à noite para eles”.
As condições de trabalho no campo eram precárias – não havia água, refeitório ou banheiro. “Nós levamos o almo-ço de casa e água. Levamos 5 litros de água, que é o que conseguimos levar numa moto. Se a água acabar, você tem que terminar o dia daquele jeito. O almoço, a gente leva de casa o que dá para fazer de manhã. Eles não dis-ponibilizam refeitório”.
O medo do desemprego está presente na vida dos traba-lhadores da fruta “As empresas se aproveitam. Eles mes-mos dizem isso: ‘se você não trabalhar aqui, você vai tra-balhar aonde? Eu fui pedir uma melhoria para a empresa, para ver se eles colocavam água, pelo menos. Eles fala-ram que não tinha como colocar água porque não tinham como trazer. E se a gente pedisse para sair daqui?’. Eles falaram: vocês que sabem. Aqui o trabalho é fraco e quem vai sofrer as consequências são vocês”.
O desrespeito marcava a relação de trabalho: “Eu me sinto humilhado. Trabalhar desse jeito, sem ter nenhum recurso para a gente. Trabalho porque preciso mesmo. Todo mundo reclamava. A gente chegou a fazer reunião com eles, mas não deu em nada. Só fizeram promessas. A gente fazia reunião com o gerente geral, mas ele sempre escorregava, dizia que o tempo dele era curto”.
*nomes fictícios para proteger a identidade dos trabalha-dores
SAÚDE E CONTAMINAÇÃO
De acordo com os últimos dados disponíveis, o Brasil seria o maior consumidor de agrotóxicos no mundo57. Ao mesmo tempo quase metade dos princípios ativos
libera-dos no país são proibilibera-dos na Europa58. Esse cenário é preocupante para consumidores
e para os trabalhadores rurais que são expostos diariamente a essas substâncias. Entre 2007 e 2017, cerca de 111 mil pessoas foram registradas pelo Ministério da Saú-de como tendo sido expostas ou intoxicadas por agrotóxicos no país59. O problema
é que existe uma subnotificação da exposição por agrotóxicos. Trabalhadores rurais procuram os serviços de saúde, mas muitos médicos se recusam a classificar os pro-blemas apresentados como contaminação. De acordo com Ileana Neiva Mousinho, Procuradora do Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte, “a Previdência Social tem concedido benefícios sob o código B31, considerado benefícios de nature-za previdenciária, e não acidentária. (...)O que o Ministério Público tem colocado nessa atividade de propulsão de políticas públicas é a necessidade tanto do Instituto Na-cional de Seguridade Social (INSS) quanto do Sistema Único de Saúde (SUS) pesquisa-rem o nexo com a utilização de agrotóxicos”60. Daniel Araújo Saldanha, diretor de Meio
Ambiente e Saúde do Trabalhador do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras As-salariados Rurais de Petrolina, identifica um problema similar ao relatado pela Procu-radora. Segundo ele, são poucos os médicos que dão diagnóstico de contaminação e os exames utilizados não seriam os mais adequados, pois a contaminação ocorreria pelo acúmulo da substância no corpo ao longo do tempo: “pela medicina, não relacio-na ao agrotóxico. Inclusive, o exame de colinesterase61 que é feito comumente aqui
na região não indica agrotóxico no sangue do trabalhador. Ele tem um nível de 3 mil a 11 mil, nessa faixa. Se der 7 mil, 8 mil, não está intoxicado. Existe ali um acúmulo, mas ainda não está intoxicado. Essa é a visão do exame de colinesterase, que, a meu ver, não é o exame indicado para mostrar que há agrotóxico no sangue do trabalhador”62.
GOVERNO BOLSONARO E OS AGROTÓXICOS
Dos cerca de 290 produtos aprovados entre janeiro e julho de 2019, 41% deles se-riam de alta toxicidade e 32% banidos na União Europeia. Trata-se de um recorde no número de autorizações e aumenta a insegurança com relação ao potencial de contaminação dos trabalhadores, do meio ambiente e dos consumidores63.
Além da quantidade de produtos aprovados, o governo propôs uma nova manei-ra de classificar e rotular os agrotóxicos no país. Independentemente de entmanei-rar no mérito de qual sistema é o ideal, na prática, essa mudança rebaixa muitos agrotóxicos que antes estavam classificados como extremamente tóxicos, que representavam 34% do total. A nova tabela liberada pela Agência Nacional de Vi-gilância Sanitária (ANVISA) apenas 2,2% dos agrotóxicos estão agora classifica-dos desta maneira64.
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“HÁ UM RECEIO DE
MÉDICOS DA REGIÃO
DE AFIRMAR QUE
TAL SITUAÇÃO É
DECORRENTE DO USO
OU DA EXPOSIÇÃO
AO AGROTÓXICO.
PERCEBEMOS QUE
NOS HOSPITAIS
AUMENTAM OS CASOS
DE TRABALHADORES
COM CÂNCER. FICA A
SUSPEITA DE QUE SEJA
DO USO INDISCRIMINADO
DE AGROTÓXICO.”
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José Manoel dos Santos - diretor - Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Assalariados Rurais de Juazeiro (BA)
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“QUANDO A GENTE
TERMINA DE APLICAR
[AGROTÓXICO], NÃO
TEM ONDE A GENTE
LAVAR AS MÃOS, TOMAR
UM BANHO. TERMINOU
DE APLICAR, TIRA O
MACACÃO E ESPERA
A HORA DE COMEÇAR
DE NOVO. NÃO TEM
UM LOCAL PARA VOCÊ
TOMAR UM BANHO,
UMA ÁGUA, UM LOCAL
PARA VOCÊ FAZER AS
SUAS NECESSIDADES.
O BANHEIRO, SE VOCÊ
QUISER, É O MATO. A
ÁGUA...SE VOCÊ QUISER
LAVAR AS MÃOS, É A
AGUA DA GARRAFA QUE
VOCÊ USA PARA BEBER.
NÃO DÃO SABÃO, SÓ
AGUA MESMO.”
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Pedro - trabalhador - Rio Grande do Norte