2. Escalonamento de matrizes
2.1 Operações elementares sobre as linhas de uma matriz
Algumas situações problemas representadas por matrizes requerem na sua resolução a aplicação de operações efetuadas com as linhas das matrizes envolvidas. Por exemplo, suponhamos que desejamos encontrar o ponto de interseção das retas r : 2x - y = 0, s : x 1y , isto é, um par x y, que seja solução para estas duas equações. Assim, deveremos resolver o sistema abaixo:
2
0
1
x y
x y
Se abstrairmos as incógnitas deste sistemas podemos representá-lo pela matriz:
A 2 1 0 1 1 1
Agora se dividirmos a primeira equação deste sistema por 2, obtemos um outro sistema que possui o mesmo conjunto solução do anterior,
x y
1
2
0
x- y = -1
. A matriz que representa este novo sistema é B
1 1 2 0 1 1 1 .
Observemos que a matriz B pode ser obtida da matriz A dividindo a primeira linha de A por 2.
Continuando em busca da solução do sistema, podemos substituir a primeira equação pela equação obtida quando subtraímos a segunda equação da primeira, ou seja:
0
1
2
1
x
y
x - y = -1
, cuja matriz associada C
0 1 2 1
1 1 1 pode ser obtida da matriz B
substituindo a primeira linha pela linha obtida quando subtraímos a segunda linha da primeira.
Observemos que fazer uma operação com uma equação do sistema corresponde a fazer uma operação semelhante com as linhas da matriz que o representa. Assim, se multiplicarmos a primeira equação do sistema anterior por 2, obteremos:
0
x y
2
x-y = -1
, D 0 1 2 1 1 1 .x y
1
0x + y = 2
, E 1 1 1 0 1 2Finalmente, substituindo a primeira equação do sistema anterior pela equação obtida quando somamos a primeira equação com a segunda, obtemos:
x y
0 1
0x + y = 2
, F 1 0 1 0 1 2Este último sistema nos fornece a solução procurada, isto é, o par 1 2 , .
Esta técnica de resolução de sistemas pode não ser a melhor no caso de sistemas simples, mas tem a vantagem de poder sempre ser aplicada e ser facilmente mecanizada. É particularmente útil no caso de sistemas com um grande número de incógnitas.
Observemos que poderíamos obter a solução trabalhando apenas com as matrizes que representam os sistemas, operando com as suas linhas. Estas operações são conhecidas como operações elementares sobre as linhas de uma matriz e são definidas a seguir.
Definição 1
São três as operações sobre as linhas de uma matriz:
(i) Multiplicação da i-ésima linha por um escalar não nulo t.
LitLi
Exemplos: 1 0 1 1 2 1 0 1 0 4 2 1 0 2 4 2 L L , 1 0 4 2 1 0 1 0 1 1 2 1 0 2 14 2 L L
(ii) Permuta das i-ésima e j-ésima linhas.
LiLj
Exemplos: 1 0 2 3 1 2 3 1 2 1 0 2 1 2 L L , 31 0 21 2 1 2 31 0 21 2 L L
(iii) Substituição da i-ésima linha pela i-ésima linha mais t vezes a j-ésima linha.
LiLitLj
Exemplos: 1 0 2 0 3 4 0 1 2 1 0 2 2 3 0 0 1 2 2 2 2 1 L L L , 1 0 2 2 3 0 0 1 2 1 0 2 0 3 4 0 1 2 2 2 2 1 L L L Definição 2Sejam A e B matrizes de mesma ordem. Dizemos que B é linha equivalente a A, se B pode ser obtida de A através de um número finito de operações elementares sobre as linhas de A.
A L L L L L L L L B 1 2 3 3 2 1 1 2 3 0 4 8 1 2 3 0 1 2 1 0 1 0 1 2 2 2 3 1 2 2 1 1 2 1 4 2 B L L L L L L L L A 1 0 1 0 1 2 1 2 3 0 1 2 1 2 3 0 4 8 1 2 3 3 2 1 1 1 2 2 2 4 2 2 2 3 1
Usaremos a notação ABpara significar que a matriz B é linha equivalente a A.
Observemos que matrizes linha equivalentes possuem mesma ordem, já que operações elementares sobre linhas de uma matriz conserva a ordem da matriz. Além disso, se AB então B , pois para cada operação elementar sobre as linhas de uma matriz, podemosA
encontar uma operação elementar inversa da mesma.
Definição 3
Dizemos que uma matriz é elementar se podemos obtê-la de uma matriz identidade através de apenas uma operação elementar sobre linhas.
Exemplos: 1 00 1 2 3 2 1 00 2 1 L L E , 1 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 1 0 1 0 1 0 0 3 1 2 L L E 1 0 0 1 1 3 0 1 1 1 3 2 3 L L L E
. As matrizes E1 , E e E2 3 são matrizes elementares.
Como cada matriz elementar é obtida por uma única operação elementar sobre linha, costumamos associar a matriz elementar com a operação pela qual ela foi obtida. Por exemplo, considerando a identidade de ordem dois, temos:
E1 1 0 2 L2 0 5 5 L E2 1 L1 L2 1 4 0 1 4 L Teorema 1
Seja A uma matriz e B a matriz obtida de A por apenas uma operação elementar sobre linhas. Então B EA , onde a matriz E é a matriz elementar associada a operação elementar efetuada sobre as linhas de A para obter a matriz B.
Dem] Para simplificarmos a demonstração consideraremos a matriz A
aij 3 x 2 e aoperação elementar L1tL1, então:
A a a a a a a ta ta a a a a B L tL 11 12 21 22 31 32 11 12 21 22 31 32 1 1 .
A matriz elementar associada a esta operação que pode ser multiplicada a esquerda de A é a matrizE t 0 0 0 1 0 0 0 1 . Assim, EA t a a a a a a ta ta a a a a B 0 0 0 1 0 0 0 1 11 12 21 22 31 32 11 12 21 22 31 32
Nos outros casos, a demonstração é feita de modo análogo.
Consideremos agora o exemplo a seguir,
A L L L L L L L B 1 2 3 3 2 1 1 2 3 0 4 8 1 2 3 0 1 2 0 1 2 1 2 3 2 2 3 1 2 2 1 2 1 4 1 2 3 E E E
As matrizes elementares associadas as operações efetuadas são:
E1 1 0 2 3 3 1 1 0 0 1 4 0 1 1 0 , E e E .
Pelo teorema 1 podemos escrever E E E A3 2 1 B , que é uma forma simplificada de
representar o conjunto das operações realizadas no exemplo anterior.
De modo análogo ao exemplo anterior, sejam E1, E2 e E3 as matrizes elementares
associadas as operações elementares efetuadas sobre as linhas de B para obtermos A, temos:
B L L L L L L L L A 1 0 1 0 1 2 1 2 3 0 1 2 1 2 3 0 4 8 1 2 3 3 2 1 1 1 2 2 2 4 2 2 2 3 1 E3 E2 E1
O teorema 1 nos permite escrever :E E E B A1 2 3 .
2.2 Matriz Linha Reduzida à Forma Escada
Definição 4
Dizemos que uma matriz A m x n é linha reduzida à forma escada (LRFE) se satisfaz as
condições a seguir:
(i) O primeiro elemento não nulo de uma linha não nula é 1.
(ii) Cada coluna que contém o primeiro elemento não nulo de alguma linha possui todos os seus outros elementos iguais a zero.
(iii) Toda linha nula ocorre abaixo de todas as linhas não nulas.
(iv) Se as linhas 1, ... , r são as linhas não nulas, e se o primeiro elemento não nulo da linha i ocorre na coluna ki , então k1k2 kr.
Exemplo: Consideremos a matriz A dada a seguir, A 0 1 3 0 4 0 2 0 0 0 1 5 0 0 0 0 0 0 0 1 3 0 0 0 0 0 0 0
Observemos inicialmente que: a primeira linha de A é não nula, o primeiro elemento não nulo desta linha é 1 e se encontra na coluna 2, que possui todos os outro elementos iguais a zero, satisfazendo assim as condições (i) e (ii) da definição anterior. É fácil verificar que as linhas 2 e 3 também satisfazem as estas condições. Além disso, a coluna em que aparece o primeiro elemento não nulo da linha 1 é a coluna 2, ou seja, k1 2. A coluna em que ocorre o primeiro elemento não nulo da linha 2 é a coluna 4, daí k2 4. E k3 6 pois, a coluna em
que aparece o primeiro elemento não nulo da linha três é a coluna 6. Como k1k2k3 , a
matriz A satisfaz também a quarta condição. Finalmente, a quarta linha de A é nula e ocorre abaixo de todas as outras linhas. Assim, a matriz A satisfaz também a condição (iii), e portanto A é uma matriz linha reduzida à forma escada.
Observemos que quarta condição equivale a dizer que o número de zeros que precede o primeiro elemento não nulo de uma linha aumenta a cada linha, até que sobrem somente linhas nulas, se houver, dando assim a forma escada à matriz.
Exemplos:
As matrizes dadas a seguir são linha reduzida à forma escada:
1 0 0 1 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 1 0 3 0 0 1 4 , , , ,
Observemos que matrizes quadradas LRFE ou é a matriz identidade ou possui uma linha nula.
As matrizes dadas a seguir não são linha reduzida à forma escada:
0 1 1 0 2 0 0 1 0 0 1 0 , , 1 0 6 7 0 0 1 0 ,
Consideremos agora uma matriz que não é LRFE, por exemplo, a matriz A dada a seguir:
A 2 4 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0
Podemos efetuar operações sobre as linhas de A de modo a obtermos uma matriz B na forma LRFE. De fato,
A L L L L L L L B 2 0 0 0 1 0 0 1 0 0 1 0 1 0 0 0 1 0 0 1 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 1 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1 1 1 2 2 1 2 3 1 2
Assim, a matriz B é linha equivalente a matriz A e está na forma LRFE. Isto é sempre possível qualquer que seja a matriz A, é o que nos garante o teorema a seguir, cuja demonstração se encontra no item (1) das leituras recomendadas.
Teorema 2
Toda matriz A é linha equivalente a uma única matriz B linha reduzida à forma escada. O processo de obtenção da matriz B LRFE que é linha equivalente a matriz A, através das operações elementares sobre linhas é chamado de escalonamento de A. Assim, no exemplo anterior, dizemos simplesmente que estamos escalonando a matriz A.
O teorema 2 nos permite definir os conceitos a seguir, que serão utilizados na discussão do número de soluções de um sistema de equações, no capítulo seguinte.
Definição 5
Seja B a matriz LRFE linha equivalente a matriz A. Chamamos posto de A, denotado por p(A), o número de linhas não nulas da matriz B. O número n(A) obtido quando subtraímos o posto de A do número de colunas de A é chamado de nulidade de A.
Exemplo 1. Consideremos a matriz A do exemplo anterior, ou seja, A 2 4 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 Como AB 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1 , temos que: p A 3 e n A 4 3 1.
Exemplo 2. Consideremos agora a matriz C 1 2 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0
. Observemos que C é uma matriz
LRFE. Assim, podemos calcular diretamente o posto e a nulidade de C:
p C 2 e n C 3 21.
Será que é possível construir uma matriz D4 x 3 cujo posto é 4? Pense nisso!
Considerando a matriz A m x n , observemos que o posto de A é no máximo igual ao número
de linhas de A, além disso, não pode ultrapassar o número de colunas de A, ou seja,
p A m e p A n.
2.3 Matrizes Elementares e Determinantes
Nosso objetivo nessa seção é estudarmos um método de calcular o determinante de matrizes utilizando as matrizes elementares. Consideraremos conhecidos os conceitos e propriedades de determinantes.
Consideremos inicialmente as matrizes elementares dadas a seguir: E t 1 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 E2 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1 E t 3 1 0 0 0 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1
Os determinantes dessas matrizes são facilmente calculados. Observemos que: det E1 tdet It , det E2 det I 1 e det E3det I1.
De modo geral, se E é uma matriz elementar associada a operação elementar : (i) LitLi , então det E t .
(ii) LiLj, então det E 1
(iii) Li LitLj, então det E 1
Consideremos agora uma matriz quadrada A e EnE E A2 1 B, então,
det EnE E A2 1 detB,
daí ,
detEndetE2detE1detAdetB, logo,
det det
det det det
A B
En E E
2 1.
Assim, o determinande de uma matriz quadrada A , pode ser calculado a partir do determinante de uma matriz B linha equivalente a A e dos determinantes das matrizes elementares associadas as operações elementares efetuadas sobre as linhas de A para obter B.
Exemplo:
Vamos utilizar o método acima para calcular o determinate da matriz A 2 5 6 1 2 4 0 0 2 . Escalonando A, A L L L L L L L L 2 5 6 1 2 4 0 0 2 1 2 4 2 5 6 0 0 2 1 2 4 0 1 2 0 0 2 1 0 8 0 1 2 0 0 2 1 2 2 2 2 1 1 1 2 2 E1 E2 E3 L1 L1 4L3 L2 L2 L3 L3 L3 1 2 1 0 0 0 1 2 0 0 2 1 0 0 0 1 0 0 0 2 1 0 0 0 1 0 0 0 1 . E4 E5 E6 Então, det
detdet det det det det det
A I E E E E E E 1 2 3 4 5 6 1 1 1 1 1 1 1 2 2