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Eduardo e Pier Paolo: encontro, desencontro, reencontro

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Academic year: 2021

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em julho 24, 2020

As nossas vidas no limite do humano, entrevista

com Franco Rella, por Antonio Gnoli

O texto que o diretor estava enviando ao consagrado dramaturgo e ator napolitano era o argumento de Porno-Teo-Kolossal, projeto adiado para filmar Salò o le 120 giornate di Sodoma (Saló ou os 120 dias de Sodoma, 1975). As primeiras notícias sobre Porno-Teo-Kolossal remontam a 1966. Segundo Sergio Citti, constante colaborador do cineasta, enquanto rodavam “La terra vista dalla luna” (“A terra vista da lua”), que integrou Le streghe (As bruxas, 1966), o produtor Dino De Laurentiis propôs a Pasolini a realização de um programa natalino, de uma hora, para uma rede televisiva norte-americana. “Assim surgiu uma ideia sobre os Reis Magos, que Pier Paolo queria intitular I Re magi randagi [Os reis magos errantes]”, relata Citti. Fato confirmado na realização seguinte, “Che cosa sono le nuvole?” (“O que são as nuvens?”), terceiro episódio do filme Capriccio all’italiana (Capricho à italiana, 1967).

Eduardo e Pier Paolo: encontro, desencontro,

reencontro, por Mariarosaria Fabris

em junho 12, 2020

No dia 24 de setembro de 1975, Pier Paolo Pasolini endereçava uma carta a Eduardo De Filippo:

Caro Eduardo, aqui vai enfim por escrito o filme do qual lhe falo já faz anos. Substancialmente está tudo aí. Faltam os diálogos, ainda provisórios, porque conto muito com sua colaboração, até mesmo improvisada, enquanto filmamos. Confio-lhe completamente Epifanio: por princípio, por parti pris, por escolha. E é você. O “você” do sonho, aparentemente idealizado; para todos os efeitos, real. [...]

Eu mesmo o li por inteiro hoje – há pouco – pela primeira vez, e fiquei traumatizado, transtornado por seu engajamento “ideológico”, precisamente, de “poema”, e esmagado por sua envergadura organizativa.

Espero, com toda a minha paixão, não só que você goste do filme e que aceite fazê-lo, mas que me ajude e me encoraje a enfrentar tal empreitada.

“Che cosa sono le nuvole?” deveria ter constituído o segundo segmento de Che cos’è il cinema? [O que é o cinema?] ou Smandolinate [Bandolinadas, ou antes, composições poéticas melosas e amaneiradas]. O diretor refere-se ao projeto, no

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prólogo desse episódio, ao focalizar os cartazes das quatro partes que o comporiam – “La terra vista dalla luna”, “Che cosa sono le nuvole?”, “Le avventure del re magio randagio e il suo schiavetto Schiaffo” [As aventuras do rei mago errante e de seu pequeno escravo Tapa] e “Mandolini” [Bandolins] –, todas interpretadas por Totò (que viria a falecer em 15 de abril de 1967). Enquanto no primeiro cartaz, já rasgado e jogado no chão, está escrito “ontem”, os demais anunciam os espetáculos para “hoje”, “amanhã” e em “breve”, respectivamente.

A ideia inicial é enviada pelo cineasta, entre 15 e 29 de dezembro de 1968, a Giulia Maria Crespi – em cuja propriedade rural ele tinha filmado algumas sequências de Teorema (Teorema, 1968) –, que lhe havia solicitado uma história para os filhos declamarem no Natal. Pasolini retoma o projeto em 1973, tendo elaborado um argumento de setenta e cinco laudas intitulado Il cinema, e o conclui em 1975.

Nos dois volumes que reúnem toda a produção cinematográfica pasoliniana, Per il cinema (2001), os organizadores Walter Siti e Franco Zabagli incluem apenas o argumento (1967-1975), mas outros autores relatam que, terminada a montagem da polêmica obra inspirada no Marquês de Sade, o cineasta e Sergio Citti escreveram o roteiro de Porno-Teo-Kolossal, o qual será posteriormente aproveitado em parte por Citti em I magi randagi (1996), filme que, no entanto, não parece ter muito a ver com a proposta inicial.

Retomando o tom picaresco, fabuloso e apologético de Uccellacci e uccellini (Gaviões e passarinhos, 1966) e acrescentando-lhe boas pitadas de erotismo, Pasolini torna a pôr em cena dois andarilhos (Epifanio/Eduardo De Filippo e Nunzio/Ninetto Davoli), que, desta vez, perseguem uma Estrela-Guia, metáfora da Ideologia, numa longa viagem por três emblemáticas cidades ocidentais – Sodoma/Roma, Gomorra/Milão e Numância/Paris – e uma cidade oriental, Ur, onde “o Messias nasceu, mas passou muito tempo, e está até morto e esquecido”, descoberta que corresponde ao fim de toda e qualquer utopia.

O assassinato do cineasta, na praia de Óstia (Roma), na noite de 1 para 2 de novembro de 1975, põe fim ao projeto. No filme Pasolini (2014), no entanto, o diretor norte-americano Abel Ferrara rodou algumas partes do roteiro pasoliniano. Com Ninetto Davoli no papel de Epifanio e Riccardo Scamarcio no de Nunzio, o resultado foi pífio: se Scamarcio não teve a espontaneidade e a malícia pícara que caracterizou Ninetto em Uccellacci e uccellini, Davoli não esteve à altura do personagem concebido para Eduardo, por não possuir os dotes interpretativos nem a verve irônica do artista napolitano.

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Num depoimento dado à emissora televisiva Rai 3, no dia seguinte ao do crime, Eduardo De Filippo assim se refere ao nefasto acontecimento:

Olhe, não é porque estamos neste momento em que desapareceu e por cima de um jeito tão cruel, porque eu sei distinguir um morto de outro morto e um vivo de outro vivo. Pasolini era realmente um homem adorável, indefeso, era uma criatura angélica, uma criatura que perdemos e que não mais encontraremos como homem, mas, como poeta, sua voz eleva-se ainda mais e tenho certeza de que mesmo os opositores de Pasolini hoje começarão a entender sua mensagem e o que quis nos dizer, e terá muita serventia, nos ajudará muito e talvez não acrescentemos nada mais, não precisa dizer mais nada.

A morte de Pasolini toca profundamente Eduardo, o qual, ainda em 1975, lhe dedica a poesia Pier Paolo, em que fala do pequeno monumento erguido no local do nefasto acontecimento, formado por dezoito pedras, as quais, tanto podem ser vistas como uma barreira ao apedrejamento a que a mídia estava submetendo o poeta por causa das

circunstâncias de seu

desaparecimento, quanto podem simbolizar sua árdua luta para transformar em instrumento para defender as próprias ideias as “pedras” que lhe atiraram ao longo da vida.

É o mesmo monumento focalizado no final do capítulo um de Caro diario (Caro diário, 1993), quando Nanni Moretti dá aos espectadores uma “aula” de cinema: um longo plano-sequência acompanha a moto do protagonista enquanto percorre a praia de Óstia, plano este interrompido por um corte que introduz o marco funerário. Dessa forma, Moretti transforma em imagem as teorias cinematográficas desenvolvidas por Pasolini no ensaio “Cinema di poesia” (“Cinema de poesia”, 1965), segundo as quais, num filme, a vida se reproduz no plano-sequência, cujo fluxo contínuo de imagens é interrompido pelo corte, o que, porém, lhe dá significado, assim como a morte dá um sentido à trajetória humana.

Pier Paolo

Non li toccate quei diciotto sassi

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che fanno aiuola con a capo issata la “spalliera” di Cristo.

I fiori, sì, quando saranno secchi, quelli toglieteli,

ma la “spalliera”, povera e sovrana,

e quei diciotto irregolari sassi, messi a difesa

di una voce altissima, non li togliete più! Penserà il vento

a levigarli, per addolcirne gli angoli pungenti; penserà il sole a renderli cocenti, arroventati

come il suo pensiero; cadrà la pioggia e li farà lucenti, come la luce delle sue parole; penserà la “spalliera” a darci ancora

la fede e la speranza in Cristo povero.

Pier Paolo

Não toquem nelas nas dezoito pedras feito um canteiro, à cabeceira, ergue-se

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o “espaldar” de Cristo.

As flores, sim, ao ficarem secas, podem tirá-las,

mas o “espaldar”, pobre e soberano,

e as dezoito irregulares pedras, lá, a defender

uma voz altíssima, não os tirem mais! O vento cuidará de alisá-las, amaciando os cantos pontiagudos; o sol cuidará de torná-las ardentes, abrasantes

como seu pensamento; cairá a chuva e as deixará luzentes, como a luz de suas palavras; o “espaldar” cuidará de dar-nos ainda a fé e a esperança no Cristo pobre. ______________________________

[1] SITI, Walter; ZABAGLI, Franco (org.). “Porno-Teo-Kolossal (1967-1975)” [Note e notizie sui testi]. In: PASOLINI, Pier Paolo. Per il cinema.

Milano: Mondadori, 2001, p. 3230.

[2] SITI, Walter; ZABAGLI, Franco (org.). “Appendice a Porno-Teo-Kolossal” (1967-1975)” [Note e notizie sui testi]. In: PASOLINI, Pier Paolo. Per il

cinema, cit., p. 3233.

[3] CF. FABRIS, Mariarosaria. “Escrito nas nuvens”. Tradução em Revista, Rio de Janeiro, ano 14, n. 1, 2013, p. 75. [recurso eletrônico]. Literatura Italiana Traduzida

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Tecnologia do Blogger Literatura Italiana Traduzida ISSN 2675-4363

[4] PASOLINI, Pier Paolo. “Porno-Teo-Kolossal”. In: Per il cinema, cit., p. 2751.

[5] Cf. FABRIS, Mariarosaria. “Pasolini, um Pasolini”. In: MIGLIORIN, Cezar et al. (org.). Anais de textos completos do XXI Encontro da Socine. São

Paulo: Socine, 2018, p. 557-558 [recurso eletrônico].

[6] MARCHI, Marco. “Quei diciotto sassi. Eduardo per Pasolini”. Disponível em

<quotidiano.net/blog/marchi/eduardo-versi-per-pasolini-83.42945>. Acesso: 3 maio 2020.

[7] Cf. “Pier Paolo Pasolini”. In: Eduardo De Filippo – Un dialetto che parla al mondo”, fascículo n. 17 da coleção “Educare al teatro”. Fitainforma,

Vicenza, ano XXVI, n. 2, jun. 2012, p. XI. Disponível em <www.fitaveneto.org/2011/images/stories/

fitoinforma_giugno_2012/fitoinforma_giugno_2012/pdf>. Acesso: 3 maio 2020.

[8] Cf. FABRIS, Mariarosaria. “Pier Paolo Pasolini e o teatro: uma introdução”. In: Anais do XXIV Encontro Estadual de História da Anpuh-SP. São

Paulo: Anpuh, 2018, p. 12 [recurso eletrônico].

[9] No episódio, a estela funerária e o parque que surgiu ao redor parecem abandonados, mas foram recuperados pela LIPU (Lega Italiana Protezione

Uccelli), entidade filantrópica de proteção aos pássaros. Cf. “Pier PaoloPasolini”, cit.

[10] Cf. FABRIS, Mariarosaria. “O cinema italiano contemporâneo”. In: BAPTISTA, Mauro; MASCARELLO, Fernando (org.). Cinema mundial

contemporâneo. Campinas: Papirus, 2008, p. 98-99.

[11] DE FILIPPO, Eduardo. “Pier Paolo”. In: O’ penziero e altre poesie di Eduardo. Torino: Einaudi, 1985, p. 38-39. Literatura Italiana Traduzida

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