MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA-GERAL
CÂMARA DE COORDENAÇÃO E REVISÃO PROCESSO PGT/CCR/ICP 7302/2010
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INTERESSADO 1: SIGILOSO e MPE
INTERESSADO 2: JL LOCADORA DE TÁXI LTDA. ASSUNTOS: OUTROS TEMAS 08.11.
RECURSO. EMPRESA LOCADORA DE TÁXI. CONDUTOR AUTÔNOMO DE VEICULO RODOVIÁRIO
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RELAÇÃO DE TRABALHO.
A situação delineada nos autos não se atém ao que dispõe a Lei nº 6.094/74, restrita ao Condutor Autônomo de Veículo Rodoviário. Torna-se, assim, necessário que se proceda à investigação dos fatos denunciados para que fiquem perfeitamente delineados os reais contornos da relação de trabalho desenvolvida na hipótese. Recurso a que se dá provimentoRELATÓRIO
Tratam os presentes autos de denúncia que aponta a ocorrência de distorções no serviço de transporte de passageiro por taxi no município de Belo Horizonte, em especial, quanto à relação de trabalho entre empresas concessionárias do serviço e os motoristas de táxis por elas utilizados (fls. 03/04).
O Órgão oficiante arquivou o feito, aduzindo, em síntese, que “do ponto de
vista estrito das relações do trabalho, não entende... que a locação de táxis mascare vínculo empregatício, tendo em vista a peculiaridade da atividade, conforme já afirmado alhures. Em situações desse jaez, o entendimento que vem prevalecendo nas Cortes Trabalhistas é o da inexistência de relação de natureza empregatícia, conforme jurisprudência retro juntada, colhida através da Internet no site do TST” (fls. 1031/1032). Reporta-se à Lei 6.094/74, dizendo que ela regula
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Foi interposto recurso contra o ato de arquivamento pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, no qual insiste que, em realidade, a relação mantida entre os motoristas e as empresas de táxis reveste vínculo de emprego, e que a Lei 6.094/74 não se aplica na hipótese, na forma de acórdão que colaciona, oriundo do E. TRT da 4a. Região.
A empresa denunciada apresenta suas contrarrazões ao recurso interposto, pugnando pelo não provimento do recurso e invocando a Lei 6.094 citada, para, ao contrário, afirmar a sua incidência, no caso. Colaciona arestos do E. TRT da 3a.
Região.
É o relatório.
VOTO
A questão em discussão, atinente às funções institucionais do Parquet, voltam-se à natureza da relação existente entre as empresas de táxis, no caso, a denunciada, e os motoristas que alugam os seus veículos. Entendeu o órgão oficiante não haver vínculo empregatício na hipótese, invocando a Lei no. 6094/74 que regula a relação.
A seu turno, o Recorrente reporta-se justamente a esta legislação para sustentar entendimento contrário e, assim, insurgir-se contra o arquivamento do presente feito.
A matéria tem Precedente recente desta Câmara no sentido da não homologação da promoção de arquivamento (CCR/PGT/PP/Nº 2811/2008). Na hipótese, a discussão se volta à Lei 6094 referida , uma vez que a conclusão no sentido da não configuração, no caso, da relação de emprego se baseia nas suas disposições.
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“Art. 1o. É facultada ao Condutor Autônomo de Veículo Rodoviário a
cessão do seu automóvel, em regime de colaboração, no máximo a dois outros profissionais.
1o. Os Auxiliares de Condutores Autônomos de Veículos Rodoviários
contribuirão para o INPS de forma idêntica às dos Condutores Autônomos.
2o. Não haverá qualquer vínculo empregatício nesse regime de
trabalho devendo ser previamente acordada, entre os interessados, a recompensa por essa forma de colaboração.
3o. As autoridades estaduais competentes fornecerão ao motorista
colaborador identidade que o qualifique como tal.
4o. A identidade será fornecida mediante requerimento do interessado, com
a concordância do proprietário do veículo.” (grifos nossos)
As disposições transcritas são claras e identificam situação que, data venia, não é a dos presentes autos.
A referência nela constante, de inexistência de vínculo empregatício, no caso, está em perfeita consonância com o disposto no caput do artigo 1o., que se
refere a Condutor Autônomo de Veículo, pessoa física, autorizada a ceder seu veículo a, no máximo, dois outros profissionais, isto é, também condutores autônomos de veículos, devidamente habilitados, que, no caso da cessão em questão, serão denominados Auxiliares de Condutores Autônomos de Veículos. Trata-se de colaboração, remunerada, mas autônoma, não formadora de vínculo empregatício.
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Na hipótese, tem-se uma empresa de prestação de serviços de locação de táxis, que dispõe de uma frota de táxis que aluga a motoristas, de forma autônoma, auferindo do seu trabalho o lucro, sem se envolver na execução da atividade, que se constitui seu objetivo social. Nessas condições, a situação disciplinada na lei sob enfoque se descaracteriza, e, com isso, expõe a relação que a empresa mantém com os diversos motoristas a quem aluga seus veículos.
Tem-se, assim, uma primeira questão que se evidencia, que é a de que, de fato, a legislação invocada não afasta por si só o vínculo de emprego no quadro delineado no presente, dadas às características da relação de trabalho mantida. A circunstância exige, sem dúvida, investigação para que fiquem evidenciados todos os elementos que compõem essa relação de trabalho.
A relação permitida pela lei sob enfoque é incentivadora de trabalho, abrindo espaço a condutores autônomos de veículos para que desenvolvam suas atividades compartilhando um só veículo. Não é o caso dos autos, em que uma empresa, que dispõe de uma frota de táxis, e cujos sócios sequer exercem a atividade, aluga seus veículos a motoristas, que, estes sim, irão exercer a atividade, trazendo lucro à empresa, mas que o fazem de forma autônoma, situação que pode sim mascarar uma verdadeira relação de emprego.
O fato por si só, de se tratar de motoristas registrados como autônomos, e a circunstância de alugarem veículo para exercerem suas atividades, não afasta eventual vínculo, mesmo porque não cabe nessa hipótese a incidência da legislação invocada, para, de antemão, afastar essa caracterização.
A situação melhor se esclarece quando da análise das cláusulas dos contratos de aluguel firmados pela denunciada com cada um dos motoristas. Tome-se como exemplo o contrato de fl. 118. Nele, as obrigações do locatário (motorista) são inúmeras, devendo a diária ser paga diariamente à empresa locadora, cujo atraso dará ensejo ao pagamento de multa de 10% sobre o seu valor, acrescida de juros de 1% caso o atraso ultrapasse 30 dias. Ademais, conforme cláusula 5a., o
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motorista assume o risco do exercício de sua atividade, respondendo pelo ressarcimento completo de eventuais danos causados ao veículo objeto da locação. Outrossim, registre-se ser expressamente proibida a sublocação e o empréstimo (cláusula 6a.), como também a introdução no veículo de benfeitoria,
equipamentos, etc. (cláusula 7a.).
Verifica-se do exposto, ser difícil dizer que o motorista tem toda liberdade no exercício de sua atividade, situação típica do autônomo. Deve comparecer diariamente à empresa, pagar a diária, manter o veículo em condições, não tendo liberdade de sublocar ou emprestar. Fica, assim, a empresa sem os ônus decorrentes do desenvolvimento de sua atividade empresarial, recebendo livre o valor da diária. Exercício de atividade econômica sem risco, risco este repassado ao motorista.
Assinale-se, de outro lado, que, pela ata da audiência de fls. 996/998, a empresa denunciada possui 14 táxis, alugados a 14 motoristas, tendo apenas um empregado. Recebe livremente de cada motorista a diária de R$ 115,00. Registra ainda a ata que a empresa possui 30 permissões, quando, pela legislação invocada, cada condutor autônomo de veículo, se fosse o caso, e não é, possui uma permissão e poderá ter até dois auxiliares, também condutores autônomos.
Assim, a situação exige maior investigação por parte da instituição, uma vez que seus contornos extrapolam do permissivo legal, que, frise-se mais uma vez, não contemplam a hipótese, que também não se atêm aos limites de uma relação autônoma de trabalho.
O trabalho, quando autônomo, reveste características próprias, de total controle e liberdade em seu exercício. No caso, resumindo, a empresa, que detém as permissões, necessita de motoristas para desenvolver a sua atividade. Os sócios da empresa não são condutores de veículos, são empresários. E, para tanto, dependem dos serviços prestados pelos motoristas. Assim, a relação de trabalho não se caracteriza como tipicamente autônoma. Nesse sentido, o acórdão citado
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pelo Recorrente a fl. 1042, cuja ementa é por ele transcrita em suas razões recursais, da qual extraio o seguinte trecho, verbis:
“É empregado o motorista que labora em táxi de propriedade de terceiros (pai e filha). Proprietários que não trabalham dirigindo seus veículos assumem a condição de empresários, o que afasta a hipótese da Lei n. 6.094/74, que prevê o auxiliar de condutor autônomo em regime de colaboração.”
Pertinente, ainda, trazer à colação trecho da ementa do acórdão prolatado pelo E. TRT da 3a. Região no processo RO 9.653/01, publicado no DJ/MG de
12/09/2001, que diz, textualmente, verbis:
“A Lei 6.094/74 alcança, estrita e ou exclusivamente, o Condutor Autônomo e seu próprio veículo rodoviário. E a tal pessoa física consente a colaboração com outros Condutores – até dois – igualmente pessoas físicas, estes exercendo a atividade no mesmo veículo, consoante avenca pessoal compensatória, o que implica em não poder referida norma legal ser aplicada a pessoa jurídica (à qual o legislador não credenciou o regime de colaboração.”
Nessas condições, à vista das circunstâncias delineadas, entendo necessário o prosseguimento da investigação dos fatos denunciados, razão por que dou provimento ao recurso, deixando, em consequência, de homologar a promoção de arquivamento encaminhada.
CONCLUSÃO
Isto posto, dou provimento ao recurso, deixando, em conseqüência, de homologar a promoção de arquivamento encaminhada.
Brasília, 30 de agosto de 2010.
Eliane Araque dos Santos Relatora