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Ciênc. saúde coletiva vol.9 número2

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Academic year: 2018

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Durante a década de 1990, por variadas razões, o tema da pesquisa em saúde foi objeto de crescente importância. O debate teve início no âmbito da Organização Mundial de Saúde e espalhou-se para os governos nacionais de muitos países, em particular entre os países em desenvolvimento. Para levar adiante a questão, logo em seguida foram criadas várias instâncias vinculadas ao “terceiro setor” como uma forma de fazer sentar em torno a uma mesma mesa de discussão os diversos atores, públicos e privados, ao norte e ao sul do Equador. Hoje em dia, essas importantes organizações não-governamentais detêm grande capacidade de vocalização na discussão sobre o tema de pesquisa em saúde no mundo. Não obstante, a Organização Mundial de Saúde e os governos nacionais ainda conservam uma posição de influência e liderança.

Dentre as razões que aumentaram o interesse do Primeiro Mundo em debater as condições de saúde do Terceiro Mundo, destaca-se o crescente estado de miserabilidade, desumanização e mesmo extermínio ao qual há bastante tempo vêm chegando os povos da maior parte do continente africano, de algumas regiões da Ásia e também da América Latina. A este fato, soma-se a crescente importância de problemas de saúde que, até então segregados a essas regiões, passaram a se constituir em ameaça mais ou menos concreta às populações dos países ao norte do Equador. Deve ser citado também o crescimento da importância dos ensaios clínicos e terapêuticos em populações humanas como requisito básico para a introdução de novos produtos no mercado, em associação com crescentes dificuldades de utilizar as populações dos países centrais para este mister. Em paralelo, mencione-se ainda o explosivo crescimento da importância da biota dos países periféri-cos como ponto de partida para a engenharia de novas moléculas bioativas.

No Brasil, o primeiro movimento de participação neste debate internacional ocor-reu em 1989, quando a Commission on Health Research for Development (COHRED) realizou na Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro) uma de suas primeiras reuniões.

Essa reunião lançou as bases para um esforço nacional que culminou na realização da 1a

Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde, em 1994, em Brasília. A confe-rência foi liderada por Carlos Morel, então presidente da Fiocruz e que, em seguida, veio a dirigir o principal programa mundial de pesquisa em saúde voltado aos países em de-senvolvimento, o TDR. Não é por acaso, portanto, que Morel foi por nós convidado para ser o autor do artigo central do tema deste número da revista.

Existem várias questões conceituais e teóricas envolvidas com a pesquisa em saúde que necessitam ser tematizadas e debatidas. Apenas para mencionar duas delas valeria, por exemplo, refletir sobre: 1) a nova abordagem para o clássico círculo vicioso da pobreza e da doença, quando, hoje em dia, é cada vez mais sugerida a “inversão da mão” da determina-ção, isto é, a doença como causa da pobreza ao invés da pobreza como causadora de

doen-ça (Cf., por exemplo, o relatório coordenado por Jeffrey Sachs,Macroeconomics and Health,

2001); 2) os novos desafios éticos apresentados pela já mencionada utilização em larga es-cala de populações humanas como modelo de testagem de novas moléculas terapêuticas ou imunizantes e a crescente utilização de populações estrangeiras para essa finalidade.

Dez anos após, está prevista para julho de 2004 a realização da 2aConferência Nacional

de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Será, por certo, um momento de crescimento do debate sobre a pesquisa em saúde em nosso país. Em particular naquilo que, hoje, parece ser o tema central desse debate: as relações entre políticas de saúde e pesquisa em saúde. Ou seja, quais os caminhos para que esta pesquisa seja “apropriada” como tema da Reforma Sa-nitária brasileira e do SUS. Ou ainda, qual o papel dos órgãos formuladores e executores da política de saúde em relação à pesquisa em saúde. Momento, pois, rigorosamente

apropria-do para o lançamento deste número de Ciência & Saúde Coletiva, no qual esse conjunto de

temas é tratado numa perspectiva de conjuntura longa e de abordagem teórica.

Reinaldo Guimarães

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