GT 03: DIREITOS HUMANOS, POLÍTICAS SOCIAIS E POBREZA
INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS E SAÚDE: UMA DISPUTA PREVISTA ENTRE A LUCRATIVIDADE E O ACESSO A
MEDICAMENTOS
SACRAMENTO, Veronica de Melo
1[email protected] VELOSO, Cynara Silde Mesquita
2[email protected] OLIVEIRA, Dario Alves de
3[email protected]
RESUMO
O trabalho analisa a dificuldade de acesso a medicamentos patenteados principalmente para a população de países em desenvolvimento. São objetivos deste trabalho, evidenciar as alternativas encontradas por alguns países para preservar-se contra as patentes de medicamentos e também avaliar os mecanismos que as grandes indústrias farmacêuticas utilizam para se protegerem no mercado competitivo. A metodologia consistiu em análises das leis existentes como a Lei de Propriedade Intelectual (Lei n. 9.279/96), acordos internacionais como o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS) e a Declaração de Doha que proporcionam a países em desenvolvimento, como o Brasil, o acesso a medicamentos, bem como às funções relativas ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ao longo deste trabalho foi possível evidenciar que o principal mecanismo viável para que o governo obtenha acesso aos medicamentos patenteados é a licença compulsória, que proporciona a garantia do direito à saúde e acesso a medicamentos principalmente para as doenças negligenciadas, entretanto, alguns impasses legais amplamente relacionados ao entendimento dos acordos internacionais em conjunto com a apreciação das leis nacionais, como é o caso das patentes de segundo uso. A pesquisa aponta que a proteção de fármacos faz-se necessária devido ao alto investimento em pesquisa e desenvolvimento e também à concorrência entre as indústrias farmacêuticas, entretanto, essa proteção não deve inviabilizar o acesso destes medicamentos pelos países em desenvolvimento que de acordo com leis nacionais e acordos internacionais garante o tratamento das doenças negligenciadas sem necessariamente gerar prejuízos ao conhecimento científico possibilitando novos rumos para o avanço nas pesquisas e a própria melhoria do acesso a medicamentos.
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1
Mestranda em Biotecnologia pela Unimontes. Licenciada em Química pela Universidade Federal de Minas Gerais E-mail: [email protected]
2
Doutora em Direito pela PUC Minas. Mestre em Ciências Jurídico-políticas pela Universidade Federal de Santa Catarina. Graduada em Direito. Professora do Curso de Direito e do Mestrado em Biotecnologia da UNIMONTES. Professora e Coordenadora do Curso de Direito das FIP-Moc. Orientadora deste artigo científico.
E-mail: [email protected]
3Doutor, mestre em Fitotecnia, graduado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Viçosa.
Professor do Curso de Biologia e Unimontes. E-mail: [email protected]
Palavras-chave: Lei de Propriedade Intelectual. Licença Compulsória. Patentes de Segundo Uso.Indústria farmacêutica. Medicamento.
Abstract
The work seeks to analyze the difficulty of access to patented medicines mainly for population in developing countries. The objectives of this work are: evidence the alternatives found by some countries to preserve itself against patent of medicines and also evaluate the mechanisms that big drug companies use to protect themselves in the competitive market. The methodology consisted in analysis of existing laws such as the Intellectual Property Law (9.279/96), international agreements such as the Agreement on Aspects of Intellectual Property Rights Related Commerce (TRIPS) and the Doha Declaration which provide to the developing countries, like Brazil, access to medicines, as well as functions relating to the National Institute of Industrial Property (INPI) and the National Health Surveillance Agency (ANVISA). Throughout this work was possible to evidence that the main viable mechanism for that the government get access to patented medicines is the compulsory license, which provides the guarantee of the right to health and access to medicines mainly for neglected diseases, however, some legal impasses widely related to the understanding of international agreements in conjunction with the appreciation of national laws, as is the case of second use patents. The research points out that the protection of drugs is necessary due to the high investment in research and development and also the competition between pharmaceutical companies, however, this protection should not prevent access of these medicines by developing countries, that in accordance with national laws and international agreements guarantee the treatment of neglected diseases without necessarily generating injury to scientific knowledge enabling new ways to the advance in the researches and the own improvement of access to medicines.
Keywords: Intellectual Property Law. Compulsory License. Second Use Patents. Pharmaceutical
industry. Medicine.
Introdução
O direito de Propriedade Intelectual resguarda o esforço advindo do intelecto humano e tem assumido um papel de grande importância no mundo globalizado. Este trabalho parte de buscas bibliográficas que também investigam os direitos intelectuais relacionados à função social dos direitos e interesses sociais. Por ser um tema pertinente torna-se necessário entender as regras que regulam este processo. Esta pesquisa tenta mostrar se as mudanças ocorridas ao longo dos anos, do desenvolvimento econômico e alterações nas leis são realmente efetivas e atingem o objetivo que é atender a população carente com medicamentos que atualmente são essenciais no tratamento das doenças chamadas negligenciadas que são as que mais afligem os países em desenvolvimento.
Considerando a complexidade do assunto, adotou-se metodologia exploratória, baseada em revisão bibliográfica objetivando-se no cenário específico da proteção patentária de medicamentos, evidenciar as alternativas encontradas ao longo dos anos por países membros de acordos internacionais e pelas próprias leis nacionais para preservar-se contra as patentes de medicamentos e também avaliar os mecanismos que as grandes indústrias farmacêuticas utilizam para se protegerem no mercado competitivo.
A propriedade intelectual protege o esforço advindo do intelecto humano e envolve a propriedade industrial, direitos autorais, programa de computador e as cultivares.
A propriedade industrial é o conjunto de direitos que compreende as patentes de invenção e de modelo de utilidade [...] protegem os bens destinados à indústria, voltados para os desenvolvimentos econômico, tecnológico e social (OLIVEIRA et al., 2008).
Plaza e Santos (2011) consideram que a padronização das normas de propriedade intelectual cristalizou as informações científicas, tecnológicas e comerciais dos países, propiciando o monopólio das inovações àqueles que já apresentavam maior desenvolvimento sendo, portanto, geradora de desigualdades na divisão do patrimônio informacional.
A proteção jurídica representada pelas patentes existe tanto para que a coletividade
quanto o titular do direito tire proveito da inovação (OTHON, 2009). Este autor sustenta que a
partir da globalização e seus efeitos sobre a indústria e as relações comerciais tornou-se
necessário que o inventor utilize a patente como instrumento que resguarda o conhecimento
inovador em âmbito nacional, mas também que tenha este privilégio fora de suas fronteiras.
O entendimento a cerca do Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS), a Declaração de Doha em conjunto com a Constituição Brasileira, a dinâmica da anuência praticada pelo órgão responsável pela vigilância sanitária, a ANVISA, o órgão responsável pela concessão de patentes, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), patentes de segundo uso (evergreening), concessão de licença compulsória, sob a ótica da garantia da livre concorrência e a livre iniciativa, além do bem estar dos consumidores, que devem ter asseguradas condições adequadas de acesso aos medicamentos mais essenciais.
Aspectos históricos relevantes antes do TRIPS
O Brasil desde o início do século XIX já havia promulgado uma legislação sobre patentes, participando em 1883, da Convenção de Paris (CUP).
A Conferência Internacional de Paris (CUP) é um dos mais antigos marcos de caráter econômico multilateral que compôs o início das movimentações para a proteção das atividades inventivas industriais (BARBOSA, 2003).
A assinatura do Brasil, em conferências preparatórias da própria CUP em 1883, se estruturava na perspectiva externa e interna, pois, ali estavam os parceiros europeus tais como a Inglaterra e a França possíveis exportadores de progressos tecnológicos já visados pelos segmentos mais progressistas no quadro político monárquico da época (CRUZ, 1982).
De acordo com Melo e Barros (2011) a CUP foi adotada inicialmente por 14 países, sendo o Brasil um dos primeiros signatários a incorporar suas determinações. A CUP apresentava como objetivo primordial minimizar as incongruências legislativas dos vários países em relação ao tratamento dispensado aos pedidos de patentes estrangeiros.
Outras tantas oportunidades de aperfeiçoamento de seu texto visaram melhoramento do intercâmbio de produtos e de tecnologias à proporção em que estes iam surgindo (BARBOSA, 2010).
A expansão industrial europeia, intensificada no final do século XIX, serviu de
fomento para a organização de regras internacionais sobre a propriedade industrial
(SCUDELER, 2008)
Até meados do século XX o regime de proteção à PI permaneceu estável, sem grandes alterações nas convenções que o davam sustentação (LEMOS, 2011).
No Brasil foi elaborado, em 1945, o primeiro Código de Propriedade Intelectual que tornou-se excelente peça legislativa, demonstrando a fuga de leis extravagantes e aspectos penais, que aconteciam por mais de meio século (BARBOSA, 2002).
A Convenção ultrapassou o século vencendo duas guerras mundiais e demonstrando que o desenvolvimento econômico é interdependente, que as nações não são autossuficientes.
Mantinha-se a expectativa da harmonização quanto aos procedimentos relacionados à proteção patentária entre os países, foram seis revisões: Bruxelas (1900), Washington (1911), Haia (1925), Londres (1939), Nice (1957), sendo que em Estocolmo (1967) oportunamente foi criada a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), organismo ligado ao sistema da Organização das Nações Unidas (LEMOS, 2011).
A OMPI visa a cooperação entre os Estados membros em busca da proteção da propriedade intelectual pelo mundo (PARANAGUÁ e REIS, 2009). Dentre outras funções estão o incentivo a negociação de novos tratados internacionais e a modernização das legislações nacionais, proporcionando maior fluidez e dinamismo na transmissão de tecnologia relativa à propriedade industrial para os países em desenvolvimento.
Esta organização definiu que a propriedade intelectual se tratava das invenções em todos os domínios da atividade humana, incluindo descobertas científicas proporcionando proteção contra a concorrência desleal e todos os outros direitos inerentes à atividade intelectual nos domínios industrial e científico, conforme informa o website: onu.org.br.
Poucos anos depois, em 1971, um novo Código de Propriedade Industrial do Brasil, foi votado pelo Congresso Nacional, sendo este, resultado de discussões com a indústria nacional e estrangeira, reflexo da influência técnica, especialmente alemã, propiciada pelo início do programa de assistência da OMPI.
A nova economia mundial guiada pelo fenômeno da globalização, pela
intensificação do comércio global, pelo surgimento das empresas multinacionais e
pela diminuição das fronteiras entre as nações, trouxe novas matérias, preocupações
e desafios diante da comunidade internacional (LEMOS, 2011).
A tentativa de definir o monopólio privado dos inventos e simultaneamente proporcionar o acesso pelo público consumidor foi uma das principais abordagens neste cenário que tratou os direitos econômicos, sociais, culturais e a propriedade intelectual.
Embora direitos humanos e o direito de propriedade intelectual sejam essencialmente compatíveis, de acordo com alguns estudiosos, muitas vezes há discordância sobre onde encontrar o equilíbrio possivelmente pelas diferenças conceituais e práticas dos interesses inerentes para ambas as partes (YU, 2004).
A lógica privada embute a necessidade de se gerar valor econômico direto, enquanto que o interesse público não (CASAS, 2009).
O Acordo TRIPS- desafios, aplicabilidade e saúde pública
Dentre os desafios para o TRIPS estão a reinterpretação dos acordos existentes e à criação de declarações não obrigatórias, recomendações, e outras formas de leis (HELFER, 2004).
Algumas disposições, porém, causaram insatisfação de países signatários (países em desenvolvimento) que questionaram prescrições legais já estabelecidas e dessa maneira procuraram revisar ou complementar tais legislações gerando novos princípios, normas e regras de proteção à propriedade intelectual para os estados e as entidades privadas.
Assim, no regime de propriedade intelectual surge um ambiente internacional mais complexo, de acordo com Helfer (2004) assuntos aparentemente imutáveis, assentados são contestados e novas dinâmicas de legislar e de solução de controvérsias começam a ser considerados.
Em 1994, foi celebrado, por mais de 100 países, o Trade Related Aspects of Intellectual Proverty Rights (TRIPS) ou Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (ADPIC), este tratado estabeleceu regras relativas ao direito internacional da propriedade intelectual a todos os países signatários do Acordo Constitutivo da Organização Mundial do Comércio (OMC) (OTHON, 2009).
Dessa forma o TRIPS é o acordo mais amplo celebrado no âmbito da propriedade
intelectual e baliza o desenvolvimento do direito internacional elevando os padrões de
proteção para tipos de propriedade intelectual (LEMOS, 2011).
Um dos principais intuitos do TRIPS foi organizar as relações comerciais internacionais, a fim de que não houvesse explorações desleais, caracterizando a tentativa de homogeneização de realidades incompatíveis (PLAZA, 2008).
[...] Tornou-se um meio para reforçar a disciplina internacional e proteger os investimentos efetuados em pesquisa e desenvolvimento (P&D) (AMARAL JUNIOR, 2005).
Ao estipular as regras do sistema de propriedade intelectual o TRIPS estabeleceu a patenteabilidade dos produtos e processos, que representem inovação e sejam suscetíveis de aplicação industrial.
O TRIPS proporcionou o vínculo ainda maior entre a indústria e o comércio internacional possibilitando que fosse estipulado o que deve ser objeto de proteção, quais os direitos de seu proprietário, quanto tempo dura esses direitos, como fazer em caso de conflito entre os países que assinaram o Acordo. Dentre algumas medidas o Acordo estabeleceu que todos os signatários estavam obrigados a conceder patente aos produtos farmacêuticos, como resultado, o preço dos medicamentos se elevou prejudicando a população pobre dos países em desenvolvimento.
Polônio (2006), destacou que a dificuldade no acesso foi maior principalmente para os que não dispunham de recursos necessários para a aquisição de medicamentos.
A contradição foi evidenciada quando se percebeu que a maneira mais efetiva e sustentável de reduzir o preço de um medicamento é através da concorrência entre diferentes produtores enquanto o TRIPS patrocina as grandes concentrações de mercado. Plaza (2008) sustenta que há a criação, portanto de um monopólio em torno do detentor da patente e isto implica em complicações para a saúde pública.
Não obstante, a criação e aplicação de mecanismos compensatórios para beneficiar os consumidores de produtos patenteados essenciais como são os medicamentos, não ocorreu.
Em se tratando do TRIPS, deve-se reconhecer que os direitos de propriedade intelectual não se caracterizam inequivocamente como direitos absolutos (CAMPOS, 2007).
Esse e outros motivos possibilitaram o levantamento de questões referentes à saúde
pública e redundaram na adoção, em 2001, da Declaração de Doha que reflete a preocupação
sobre as implicações do Acordo TRIPS em relação à saúde pública em geral, sem se restringir
a determinadas doenças (CORRÊA, 2005).
Declaração de Doha e Propriedade Intelectual
Diante do impasse entre proteger inovações farmacêuticas e garantir o direito à saúde, especialmente no que tange ao acesso a medicamentos principalmente pela população mais carente, ficou reconhecida na Declaração de Doha em 2001 a fragilidade da saúde pública que aflige países pouco desenvolvidos e em desenvolvimento, em que o número de doenças negligenciadas é mais acentuado.
A Declaração de Doha destacou-se por que introduziu importante interpretação a respeito da limitação dos direitos dos titulares de patentes frente ao direito de os Estados adotarem políticas públicas na área da saúde.
Com a assinatura da mesma, os países membros da OMC concordaram que a saúde pública vem antes dos interesses comerciais e das patentes. Desde então, está legitimado o poder de cada país decidir quais as situações caracterizam uma “emergência nacional” ou uma
“circunstância de extrema urgência”, incentivando o uso da licença compulsória e a promoção das adaptações às leis nacionais.
Dispositivos permitem aos países eliminar as consequências negativas da concessão de patentes. A licença compulsória engendra a competição reduzindo o preço dos medicamentos. Cada Membro da OMC tem o direito de determinar as situações de emergência nacional ou outras circunstâncias que caracterizam extrema urgência para a emissão da licença compulsória (AMARAL JÚNIOR, 2005).
Nota-se um conflito entre o incentivo à inovação tecnológica e a difusão das novas tecnologias. O desafio está em manter os dois objetivos em equilíbrio: garantir a proteção da inovação e, ao mesmo tempo, proteger o interesse público. Helfer (2004) evidencia que caso contrário, as leis de propriedade intelectual terminam tendo efeitos adversos do ponto de vista da eficiência econômica e do bem-estar da sociedade.
Em 2001, a fixação de preços diferenciados e o financiamento de medicamentos essenciais foi tema de discussão, entre a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a OMC como possíveis alternativas de acesso a preços razoáveis especialmente em países menos desenvolvidos.
De acordo com alguns participantes, a distribuição dos custos com P&D poderia
dar-se de acordo com a capacidade de pagamento, proposta, aliás, defendida já há
algum tempo por aqueles que acham que os países ricos devem pagar mais (RÊGO,
2001).
Ainda em 2001, foi elaborado um documento pedindo que o Acordo TRIPS fosse aplicado de modo a não minar a capacidade dos estados de formular e implementar suas políticas de saúde pública. Rêgo (2001) informa que de acordo com os mesmos princípios estabelecidos nos artigos 7 e 8, existe uma ênfase na necessidade de equilíbrio entre direitos e obrigações de produtores e usuários das inovações tecnológicas
Partindo dessa premissa, muitos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, Índia, China, continuariam e continuaram a mercê da exploração dos países desenvolvidos, que além do poderio econômico, possuem também, um maior adiantamento tecnológico, maiores investimentos em pesquisas científicas e por isso são caracterizados como construtores de inovações e detentores de quase todo o montante de patentes farmacêuticas.
As big pharmas em números
A preocupação gerada em torno desse tema é o uso da propriedade intelectual como justificativa dos possíveis abusos de preços e consequentes restrições de acesso desses medicamentos importantes para a população mais carente, residente em países pouco desenvolvidos ou em desenvolvimento, principalmente no que diz respeito aos medicamentos que fazem parte do tratamento ou possível tratamento para as tantas doenças negligenciadas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como doenças negligenciadas, as que levam ao óbito, 500.000 a 1 milhão de pessoas por ano. A grande maioria das doenças negligenciadas aflige as regiões tropicais e subtropicais, concentrando-se na África, América Latina e Ásia.
Ainda segundo a OMS, as doenças negligenciadas são um conjunto de doenças associadas à situação de pobreza, às precárias condições de vida e as iniquidades em saúde (PENNA, 2008). Apesar de serem responsáveis por quase metade das doenças nos países em desenvolvimento, os investimentos em P&D, tradicionalmente, não priorizam essa área, justamente por coincidirem com populações mais carentes.
Doenças como tuberculose, malária, Doença de Chagas, leishmaniose, dengue,
hanseníase são classificadas como doenças negligenciadas (BRASIL, 2010). De forma similar
o site da Federação Nacional dos Farmacêuticos (FENAFAR) esclarece que as mesmas
correspondem a 12% da carga global de doenças, atingem cerca de 16 milhões de brasileiros,
mas representam apenas 1,3% dos novos fármacos.
O descaso dos grandes laboratórios pode ser discutido em números quando apenas 10% da pesquisa global em saúde é dedicada às doenças negligenciadas. Dias et al., (2013) relatam que a evolução das ações de P&D para doenças negligenciadas revelou que dos 756 novos fármacos aprovados entre 2000 e 2011, apenas 29, ou seja, 3,8% foram indicados para doenças negligenciadas.
No Brasil, levantamentos sobre a produção de fármacos que abastecem a demanda interna divergem. O volume de importação dos ativos farmacêuticos é muito alto, variando de 83% a 95% evidenciando a insuficiência de suas indústrias farmacêuticas. A dependência brasileira no setor fica atestada pelo déficit da balança comercial da saúde que passou de US$
0,18 bilhão em 1991, subindo para US$ 2,0 bilhões em 2003 e atingindo US$ 11 bilhões em 2012. Nos últimos quatro anos, as importações de remédios subiram 56%, e de princípios ativos, 25% noticia o site Terra no caderno de economia, enquanto que Selan et al. (2006) afirmam que os EUA respondiam por 45% das vendas globais do setor.
A ANPROTEC divulgou o levantamento, feito entre os 20 maiores escritórios de concessão de patentes no mundo que traz dados de 2012 e aponta os Estados Unidos em primeiro lugar, com 2,2 milhões de patentes, seguido pelo Japão, que tem 1,6 milhão. Os países desenvolvidos são hoje responsáveis por 95% das invenções patenteadas, sendo que no setor de medicamentos essa concentração é ainda maior, aproximando-se da quase totalidade das patentes registradas.
O desequilíbrio entre os chamados países produtores de tecnologia, caracterizados como desenvolvidos e industrializados, e aqueles consumidores de tecnologia, ou seja, países em desenvolvimento ou menos adiantados (de média e baixa industrialização, respectivamente) faz com que estes dependam quase que exclusivamente da importação de novas tecnologias e de novos produtos para atender seus mercados internos.
Democratização do acesso a medicamentos e as realidades praticadas
A cadeia farmacêutica, entre os setores industriais, é uma das mais inovadoras, daí a
necessidade dos altos investimentos em P&D para a busca de novos fármacos. Não obstante,
este setor apresenta altos rendimentos em escala global, e, por isso, é dos mais competitivos
(PINTO e BARREIRO, 2013).
As grandes indústrias farmacêuticas, big pharmas, alegam alto risco de investimento em produtos que não promoverão o devido ressarcimento econômico, por isso, até há pouco tempo, poucos incentivos e ações nesse sentido ocorriam.
É pouco provável que as empresas farmacêuticas invistam o suficiente se não tiverem uma razoável expectativa de lucro (CORREA, 2005).