Processo 90/2013-JP Data do documento 18 de setembro de 2021 Relator Margarida Simplício
JULGADOS DE PAZ | CÍVEL
Sentença DESCRITORES Responsabilidade civil SUMÁRIO N.D. TEXTO INTEGRAL SENTENÇA RELATÓRIO:
Os demandantes, A e B, instauraram a ação declarativa de condenação contra as demandadas, C; D e E, devidamente identificadas a fls. 1, nos termos do art.º 9, n.º1, alínea h) da L.78/2001 de 13/07.
Para tanto, alegam em síntese que, são proprietários do veículo da marca x com a matrícula SZ. Sucede que no passado dia 30/10/2012 ao introduzir o referido veiculo no x, na parte destinada aos utentes, usando para o efeito a rampa de acesso ao mesmo, deparou-se com o piso do andar 0 com uma enorme poça de água e sem qualquer sinalização, o que provocou o deslize do carro acabando por embater com a parte frontal na parede, embora conduzisse a velocidade
reduzida, causando danos materiais no para choques, que tem de ser substituído e pintado, o que motivou uma reclamação a entidade que explora o parque. Conclui pedindo que sejam condenadas a pagar-lhes a quantia de 368,41€ ou a proceder á reparação do veículo. Juntou 12 documentos.
As demandadas estão regularmente citadas. Porém, apenas a demandada, C, contestou. Excecionou alegando que na qualidade de entidade responsável pelas obras de construção e segurança do referido parque, foram efetuadas de acordo com os procedimentos adequados, e de acordo com o projeto de construção, sendo a obra objeto de fiscalização. Em relação á rampa em questão não verificam existir quaisquer infiltrações provenientes de água. Para além disso, no piso do parque em questão foi aplicado piso anti derrapante, próprio para pavimentos do género e a rampa pintada com tinta especifica, de modo a prevenir acidentes, seguindo assim os procedimentos de construção e conservação. No dia em causa ocorreu muita pluviosidade, sendo normal que as viaturas que entrassem deixassem o pavimento molhado. Porém, os condutores dos veículos devem adaptar a sua condução às condições atmosféricas e ao local, o que não sucedeu, levando o veículo a escorregar, acabando por se descontrolar embatendo assim na parede, pelo que a haver culpa foi exclusivamente do condutor do veículo, que não observou o cuidado devido às circunstâncias específicas do local. Refutando, assim, qualquer omissão de comportamento. Impugna os factos, alegando que o demandante interpelou a demandada como deputado mas sim como representante de um partido. Impugna o valor do pedido apresentado por excessivo, bem como o documento. Acrescenta que no local do acidente, contrariamente ao piso do andar antecedente, não existe cancela o que permite que os condutores circulem por vezes a velocidade inadequada para um parque de estacionamento mas tal facto não invalida que tomem as devidas precauções, nomeadamente reduzindo a velocidade. Conclui pela procedência das exceções e improcedência da ação. Juntando 4 documentos.
Os demandantes foram notificados para responder as exceções, no prazo legal, e não responderam.
TRAMITAÇÃO:
Realizou-se sessão de mediação sem acordo entre as partes.
O Tribunal é competente em razão do território, do valor e da matéria.
As partes dispõem de personalidade e capacidade judiciária e são legítimas. O processo está isento de nulidades que o invalide na sua totalidade.
AUDIENCIA DE JULGAMENTO:
Foi iniciada dando cumprimento ao art.º 26, n.º1 da LJP, porém após conversação com as partes presentes, não foi possível obter consenso entre os presentes. Nenhuma das partes apresentou testemunhas.
FUNDAMENTAÇÃO
I-FACTOS ASSENTES (POR ACORDO):
1-A demandante é esposa e comproprietária e legitima possuidora do veículo ligeiro da marca x, com a matrícula SZ.
2-O demandante é deputado, tendo por isso o direito de estacionar no parque da E.
3-O demandante reclamou a situação no respetivo livro de reclamações existente no parque de estacionamento.
4- O demandante reclamou da situação para todas as demandadas. 5- A demandada, C, é a proprietária do parque, disponibilizando-o á E.
6-Esta demandada comunicou que não assumia a responsabilidade pelos danos reclamados.
7- A demandada, E, comunicou que os danos da viatura devem ser suportados pela proprietária do parque.
8- A demandada, E, informou que já tinha reclamado junto da administração do parque a reparação de infiltrações de água no teto e na textura do piso e outras adequadas a remover perigo de derrapagens.
e proceder á sua pintura.
10-Que a reparação dos danos ascende a quantia de 368,41€.
11-Que em fevereiro de 2013, o demandante voltou a interpelar as demandadas, E e C, no sentido de resolver o litígio.
12-Que mantiveram a posição de não assumir a responsabilidade pelos danos da viatura.
MOTIVAÇÃO:
O Tribunal fundamentou-se nas peças processuais apresentadas, conjugando com os documentos que apresentaram.
II-DO DIREITO:
O caso em apreço prende-se com um acidente ocorrido no interior de um parque de estacionamento, que envolveu uma viatura e a infraestrutura do edifício, pelo que estamos no âmbito da responsabilidade civil extra contratual, regulada nos termos do art.º 483 do C.C. e ss.
Os demandantes dirigiram os respetivos pedidos indistintamente contra todas as demandadas, o que consubstancia uma situação de litisconsórcio voluntário, nos termos do art.º 27 do C.P.C., procurando assim apurar qual delas seria a responsável pelos danos e efetuando pedidos alternativos.
No que respeita a este tipo de pedidos apenas são admissíveis nos termos do art.º 468 do C.P.C., porém não basta que se estabeleça o vocábulo ou para considerar um pedido como alternativo face a outro, uma vez que o direito processual é instrumental face ao direito material; quer isto dizer que a parte processual, tal como o nome o indica, regula o modo como se processa a tramitação de cada processo, competindo á lei substantiva a regulamentação adequada do direito que pretende efetivar, devendo ambas conjugarem-se adequadamente, de forma a obter o efeito útil esperado. Ora o caso concreto não permite qualquer opção, no sentido de escolha, a nenhuma das partes. Resulta expressamente do art.º566 do C.C. que a indemnização em dinheiro só é fixada se a reconstituição não seja possível, não repare integralmente os
danos ou seja excessivamente onerosa para o devedor, quer isto dizer que a lei dá prevalência á reconstituição natural, que no caso dos autos constitui o segundo pedido, a reparação do veiculo sinistrado, funcionando a atribuição de uma indemnização como subsidiária face aquele (art.º 469 n.º1 C.P.C.), isto é, os pedido efetuados devem ser interpretado no sentido de que só deve ser apreciado se o outro não proceder, porém de acordo com o que foi referido a subsidiariedade entre eles foi estabelecida inadequadamente, havendo prevalência do segundo sobre o primeiro. No caso concreto o Tribunal entende inverter os termos, o que se justifica ao abrigo dos princípio de adequação e de informalidade, amplamente aplicáveis nos Julgados de Paz, conforme resulta expressamente do art.º 2, n.º2 da L.78/2001 de 13/07, uma vez que tal facto não constitui qualquer atropelo aos direitos das partes que assim ficam devidamente assegurados, permitindo ao juiz da causa uma correção oficiosa adequada dos seus termos, tal como também já foi aplicado nos Tribunais Judiciais, in AC. R.L. Proc. 7423/2006-6 de 19/10/2006.
A apresentação de contestação por apenas uma das demandadas permite que as outras possam beneficiar, aproveitando os argumentos daquela (art.º485 alínea a) e 489 do C.P.C.), especialmente nos interesses comuns.
São pressupostos da obrigação de indemnizar a verificação dos seguintes elementos cumulativos: facto voluntário do agente, ilicitude culpa, dano e nexo de causalidade entre o facto e o dano, competindo ao lesado a prova dos mesmos, uma vez que são constitutivos do direito que pretende fazer valer em Tribunal, conforme dispõe o art.º 342, n.º1 do C.C.
No caso concreto, os demandantes, perante a recusa das demandadas em aceitar a responsabilidade pelos danos, competia-lhes apresentar provas credíveis, de forma formar a convicção do Tribunal de que os danos existentes na viatura comum são da responsabilidade de alguma delas, nomeadamente por defeitos de conservação do edifício ou mesmo por construção inadequada ao fim, parque de estacionamento. A ausência cabal de testemunhas leva á
improcedência total do pedido. DECISÃO:
Nos termos expostos, julga-se a ação improcedente, por não provada, e em consequência absolvem-se as demandadas do pedido.
CUSTAS:
São da responsabilidade do demandante, pelo que deve proceder ao pagamento da quantia de 35€ (trinta e cinco euros) no prazo de 3 dias úteis após a receção da presente sentença sob pena de lhe ser aplicada a sobretaxa diária na quantia de 10€ (dez euros) pelo incumprimento desta obrigação legal. Em relação às demandadas proceda-se ao respetivo reembolso.
Funchal, 01 de julho de 2013 A Juíza de Paz
(redigido e revisto pela signatária, art.º 138, n.º5 do C.P.C.) (Margarida Simplício)