UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL
ALYSSON LUIZ FREITAS DE JESUS
COTIDIANO E PODER NAS RELAÇÕES SOCIAIS ESCRAVISTAS E PÓS-ESCRAVIDÃO: O SERTÃO DAS MINAS ENTRE 1850 E 1915
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL
COTIDIANO E PODER NAS RELAÇÕES SOCIAIS ESCRAVISTAS E PÓS-ESCRAVIDÃO: O SERTÃO DAS MINAS ENTRE 1850 E 1915
Alysson Luiz Freitas de Jesus
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – USP, para a obtenção do título de Doutor em História.
Orientador: Prof. Dr. Horácio Gutierrez
RESUMO
ABSTRACT
À Maria Aparecida, Roberta, Maria Clara e Nathália, fontes de inspiração e amor.
AGRADECIMENTOS
A escrita de uma Tese de Doutorado requer um trabalho árduo, muita dedicação, compromisso e, sobretudo, renúncia. Durante esses anos de pesquisa e escrita do texto tive o apoio de amigos, profissionais e instituições, cada um com especial importância.
Ao professor Horácio Gutierrez agradeço a orientação precisa e altamente profissional. Horácio foi de enorme importância na realização do trabalho, me ajudando inclusive em orientações pessoais sobre o meu futuro profissional. Agradeço por ter acredito no projeto apresentado há quase cinco atrás e pelas palavras sempre apoiadoras e entusiasmadas.
Antes mesmo do processo de seleção tive o apoio dos professores Ida Lewkowicz – UNESP e Ricardo Alexandre Ferreira – UNESP, que, mesmo diante de atitudes simples, me auxiliaram no contato com o professor Horácio, o que me levou a acreditar que o sonho da qualificação na USP não era tão distante assim.
À banca de qualificação, composta pelas professoras Maria Helena Machado – USP e Suely Robles Reis de Queiroz – USP, agradeço pela leitura minuciosa e pelas indicações dadas na qualificação, me permitindo melhorar consideravelmente o texto para a defesa final.
Em São Paulo tive o apoio de dois amigos no processo de transição para a cidade, um desafio para um jovem historiador vindo do sertão norte-mineiro. A Edílson Braga agradeço pela recepção e ajuda durante o processo de seleção, e ao colega Marcos Fábio Martins de Oliveira devo uma especial gratidão por ter me recebido em seu apartamento na capital por quase seis meses. Os papos nos barzinhos de São Paulo também foram estimulantes, me permitindo conhecer um pouco da cidade além dos muros gigantescos da USP.
Um especial agradecimento devo à amiga e colega Regina Célia Lima Caleiro. Mesmo depois de quase 10 anos de contato com a História, ainda vejo Regina como a minha maior influência e serei grato eternamente a Deus por ela ter cruzado o meu caminho. Conhecer Regina foi um privilegio e uma dádiva, e com poucas pessoas pude compreender efetivamente a arte do ofício de historiador e o significado de uma amizade que não tem preço.
A alguns colegas do Departamento de História da Unimontes agradeço pela parceria e por comungarem comigo de um compromisso ético e moral com o ensino superior. Mesmo em um universo onde rixas e rivalidades transparecem, a ética é, para mim, um compromisso que deve estar na ordem do dia, e alguns colegas ainda me fazem acreditar no ensino superior. Aqui deixo um agradecimento especial aos amigos Laurindo Mékie Pereira e Luiz Gonzaga Quintino Evangelista, o Luquinha.
Um enorme agradecimento devo aos meus amigos de longa data ou mesmo os mais recentes, cada vez mais amigos e pessoas maravilhosas que sempre me apoiaram e continuam próximos. Jean, Georges, Fred, Helder, Fabiano, Fabrício e Humberto são amigos indispensáveis, e sou grato pela sorte de tê-los por perto.
experiências nesses últimos anos. Estamos todos envolvidos com a vida universitária e de pesquisa, e sabemos as agruras da nossa opção. Assim, a cerveja e as conversas jogadas fora são sempre um prazer imenso.
Aos meus familiares agradeço pela torcida de sempre e pelo contato intenso que ainda preservamos. O tempo passou, mas continuamos unidos e cada vez mais na torcida para que todos possamos crescer e nos tornarmos grandes. Aqui deixo um especial agradecimento ao meu tio Pedro Santiago, que sempre se mostrou solícito e presente em momentos onde a sua ajuda era indispensável.
Uma especial gratidão também tenho com a nova família que me recebeu nesses últimos três anos. A minha sogra, Áurea Santos, e ao meu genro, João Gabriel, agradeço por me abrirem as suas portas e serem sempre cuidadosos comigo.
No dia-a-dia mais íntimo, mais direto, mais intensamente vivido, quatro pessoas foram os pilares decisivos no caminho dessa tese.
À minha mãe, Maria Aparecida, novamente agradeço a torcida e a certeza de que as minhas escolhas sempre foram acertadas. Dizem que “mãe é mãe...”, mas a minha, tenho certeza, é ainda mais que essa definição aparentemente simples.
Minhas irmãs, Roberta Emanuelle e Maria Clara são a minha vida. Somente o sentimento que temos pode explicar a nossa relação, pois o amor que cultivamos constrói teses e edifica as nossas vidas, para sempre. Tenho a honra de ter irmãs que me motivam todos os dias.
leveza e do sorriso diário. Se isso não bastasse, Nathália ainda me deu um dos maiores presentes que recebi, Benício, fruto do nosso amor e da nossa história.
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
DPDOR – Divisão de Pesquisa e Documentação Regional
AFGC – Arquivo do Fórum Gonçalves Chaves
RPP/MG – Relatório dos Presidentes de Província de Minas Gerais
COJN – Cartório do 1º Ofício Judicial e de Notas de Montes Claros
APMC – Administração Pública de Montes Claros
LISTA DE MAPAS
Mapa 1: As microrregiões do norte de Minas Gerais – 2004 ... p. 34
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 População escrava do distrito de Montes Claros, segundo sexo, idade e origem (“raça”), 1832
51
Tabela 2 A violência praticada por escravos no norte de Minas Gerais – 1850-1885
55
Tabela 3 Tipologia da violência praticada por escravos no norte de Minas Gerais – 1850-1885
59
Tabela 4 Tipologia da violência praticada por escravos, por situação jurídica, no norte de Minas Gerais – 1850-1885
64
Tabela 5 Armas utilizadas nos atos de violência praticados por escravos no norte de Minas Gerais – 1850-1885
75
Tabela 6 Sexo entre os agentes da violência praticada por escravos no norte de Minas Gerais – 1850-1885
79
Tabela 7 Sexo entre as vítimas da violência praticada por escravos no norte de Minas Gerais – 1850-1885
79
Tabela 8 A violência praticada por homens livres no norte de Minas Gerais – 1850-1885
85
Tabela 9 Quadro comparativo sobre os agentes da violência no norte de Minas Gerais – 1850-1885
86
Tabela 10 Tipologia da violência praticada por homens livres norte de Minas Gerais – 1850-1885
94
Tabela 11 Armas utilizadas nos atos de violência praticados por homens livres no norte de Minas Gerais – 1850-1885
97
Tabela 12 Sexo entre os agentes da violência praticada por homens livres no norte de Minas Gerais – 1850-1885
101
Tabela 13 Sexo entre as vítimas da violência praticada por homens livres no norte de Minas Gerais – 1850-1885
102
Tabela 14 Penas aplicadas aos réus homens livres no norte de Minas Gerais – 1850-1885
119
Tabela 15 Penas aplicadas aos réus escravos no norte de Minas Gerais – 1850-1885
Tabela 16 A violência praticada por homens livres no norte de Minas Gerais – 1889-1915
232
Tabela 17 Quadro comparativo sobre os agentes da violência no norte de Minas Gerais – 1850-1888 e 1889-1915
233
Tabela 18 Tipologia da violência praticada por homens livres norte de Minas Gerais – 1889-1915
234
Tabela 19 Armas utilizadas nos atos de violência praticados por homens livres no norte de Minas Gerais – 1889-1915
241
Tabela 20 Sexo entre os agentes da violência praticada por homens livres no norte de Minas Gerais – 1889-1915
245
Tabela 21 Sexo entre as vítimas da violência praticada por escravos no norte de Minas Gerais – 1889-1915
245
Tabela 22 Penas aplicadas aos réus homens livres no norte de Minas Gerais – 1889-1915
SUMÁRIO
Introdução ... p. 16
Capítulo 1
O cotidiano escravista e o universo da violência ... p. 33
1.1– O norte de Minas no cenário regional e o contingente escravo no século XIX p. 33 1.2– A violência praticada pelos escravos ... p. 54 1.3– A violência praticada pelos homens livres: crimes em comum? ... p. 84
Capítulo 2
A justiça, o cotidiano e o poder no sertão das Minas ... p. 105
2.1 – Justiça e poder: dos discursos ao cotidiano sertanejo ... p. 106 2.2 – Os homens do poder: diálogos jurídicos no sertão ... p. 129 2.3 – Administração e poder: quando o povo percebe o Estado ... p. 147
Capítulo 3
A República no interior das Minas: diálogos entre poder, cotidiano e violência ... p. 174
Considerações Finais ... p. 258
Fontes ... p. 261
Referências bibliográficas ... p. 263
Introdução
As pesquisas clássicas que propuseram avaliar os chamados “sertões” do Brasil caminharam, em sua grande maioria, para uma análise dicotômica entre sertão bárbaro, rural e atrasado, em oposição ao litoral civilizado, urbano e avançado. A oposição litoral-sertão levou historiadores, cientistas sociais, ensaístas, literatos e outros especialistas a enxergarem o universo sertanejo a partir do referencial do que se conhecia como progresso e civilização nas regiões centrais do país. Dessa forma, a violência e o modus vivendi “não-legal” faria do homem do sertão um fascínora, bravio, a ermo, resultado da ausência de regras institucionalizadas e da própria presença do Estado no cotidiano das relações sociais.
A região do norte de Minas Gerais, incluída nos chamados “sertões das Minas”, constitui-se no espaço privilegiado para a nossa pesquisa, onde se passaram as relações sociais que construíram o que chamaremos de universo cultural norte-mineiro. A análise da documentação e as questões levantadas nos permitiram entrar em contato com um outro sertão, onde o Estado, o poder público e a própria ação política social se fizeram marcantes. A idéia inicial de que o sertão norte-mineiro era um espaço peculiar da atuação do poder privado nos pareceu, em meio à documentação, em parte exagerada. Tais características acabam por cristalizar categorias que levam a excluir as demais formas de relações sociais, onde o Estado e o poder público aparecem com maior freqüência.
A cidade de Montes Claros, norte de Minas Gerais, de onde se origina boa parte da documentação analisada, era a sede da comarca regional desde o século XIX, e por isso mesmo nos foi possível perceber as nuances da presença do Estado e da atuação do poder público junto aos sertanejos.1
Esses elementos nos impuseram o desafio de compreender a história do sertão norte-mineiro em dois momentos históricos distintos: o período monárquico e o período republicano. Nesse sentido, em uma primeira abordagem, o estudo da escravidão na região se fez necessário, tendo em vista a possibilidade de avaliar como escravos, libertos e livres dialogavam no cotidiano e nas relações de poder que se construíam.
A análise sobre o cotidiano escravista no Brasil passou por uma substancial revisão historiográfica nas últimas décadas. Poucos temas sobre a
conformação social, política e econômica do Brasil receberam uma atenção tão grande de historiadores, sociólogos, literários e especialistas em geral. Em um país multifacetado culturalmente, com uma presença marcante do negro na nossa formação social e com um alto grau de miscigenação, torna-se simplificada qualquer explicação no que se refere ao interesse pelo tema.
A presente tese se inicia a partir da apreciação de um cotidiano escravista simples, rural, tipicamente sertanejo, como o é a região norte de Minas Gerais, onde se passam as histórias que aqui revelamos. No sertão das Minas, escravos, libertos, homens livres, mulheres, brancos e mestiços formaram um universo cultural pluralizado, baseado em relações das mais diversas, em meio a conflitos, negociações, violência e solidariedade.
Mesmo o fim da escravidão não foi suficiente para redimensionar por completo esse universo, configurando assim um ambiente de permanências e continuidades, típico do Brasil em momentos de transição política. A conquista da nossa independência política em 1822, a transição para um regime republicano em 1889, ou mesmo “revoluções” políticas como as de 1930 e 1964, entre tantos outros eventos, nos permitiram vivenciar novas experiências, mas, por outro lado, nos manteve atrelados ao nosso passado, incapazes de superar nossas estruturas sociais, políticas, econômicas e mesmo culturais, em uma relação de permanência e continuidade, na vivência do “novo” e na manutenção do “velho”. Intelectuais se debruçaram em larga medida sobre o tema, e a tese que ora apresentamos também nos possibilitará experimentar um pouco desse Brasil.
de doutorado apresenta três eixos de análise que o norteiam e que se apresentam como os aspectos fundamentais da proposta central apresentada inicialmente.
O primeiro aspecto discutido é a construção do cotidiano escravista sertanejo no norte das Minas, baseado em um universo que mesclava relações sociais aparentemente antagônicas, mas que, em sua essência, se complementavam na formação do universo cultural norte-mineiro. Situada na região que formara nos séculos XVII a XX o chamado “sertão das Minas”, o nosso lócus de pesquisa passou por décadas e décadas de experiência escravista, onde negros, brancos, escravos, libertos e livres, homens e mulheres, enfim, sertanejos das Minas Gerais, se relacionaram das mais variadas formas, em um universo de violência, mas, ao mesmo tempo, de negociação, de conflito, mas, em meio a isso tudo, de afeto. Um universo que misturava tensão e solidariedade, e que marcara tantas e tantas regiões do Brasil. Um universo plural, multifacetado e mestiço, e não apenas na “cor” da pele, mas, sobretudo, na ação do homem, construtor das histórias do passado. Exemplos dessas histórias marcaram o passado da região e estão presentes na análise privilegiada pelo capítulo 1 e parte do capítulo 2.
Variadas formas de relações sociais são encontradas nos documentos pesquisados, como as relações afetivas entre escravos e homens livres, as parcerias em relações de violência, bem como o cotidiano simples e violento dos homens do sertão norte-mineiro. Além disso percebe-se a brutalidade e o alto grau de violência utilizado pelos nossos protagonistas nas soluções que encontraram para resolver as suas pendengas, e que inúmeras histórias ao longo dessa tese demonstrarão.
Um segundo aspecto que procuramos abordar na pesquisa é a comparação entre dois momentos históricos distintos, o Império e a República. O Brasil se configurou no século XIX em uma experiência única de monarquia na América. Mergulhado em um continente republicano, o Brasil passou a conviver ao longo do Oitocentos com um regime monárquico e escravista, com uma economia agrária responsável pelo poder de uma elite conservadora. Ao longo do século vivemos uma identidade política monárquica que se confundia entre posturas liberais e conservadoras de poder, o que refletia claramente na nossa opção pela manutenção de um regime escravista do qual éramos altamente dependentes. Essas relações escravistas conformaram a nossa identidade social, econômica, política e cultural no Império.
Ao final do século a opção por um estado republicano se tornara real, iniciando mais um processo de conformação identitária do Estado. Um novo momento histórico se moldava, por meio de uma República concentrada nas mãos de oligarquias poderosas, oriundas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Após décadas e décadas de regime monárquico, enfim o país faria a transição para a República como regime de governo, mesmo que atrasados em relação aos nossos vizinhos americanos.
sertão das Minas? Em uma contraposição entre o “novo” e o “velho”, entre mudanças e continuidades, procuramos compreender como a transição para a República levou os sertanejos a buscarem novos repertórios de ação política e cotidiana, o que em muitos casos fica mais evidente, sobretudo quando nos atentamos, mais uma vez, para a análise das soluções violentas no sertão, e que estão marcadamente presentes no capítulo 3 dessa tese.
A análise de dezenas de processos expostos ao longo desse texto nos permite comparar o cotidiano monárquico e o cotidiano republicano, e inferir que a transição para a República em 1889, carregada com todo o seu processo de ordenamento social, jurídico, político e econômico, não foi suficiente para remodelar por completo a ação cotidiana do sertanejo. A violência, por exemplo, permaneceu como recurso válido, senão conformador do cotidiano pós-escravidão.
Por fim, um terceiro aspecto levado à frente pela pesquisa se coloca como o eixo principal da tese, o que justificou o interesse pelo tema e do qual resultaram todas as demais análises que vieram em seu bojo: a análise entre o cotidiano e o poder no sertão das Minas. O conceito de cotidiano na presente tese é encarado de forma simples, pois avaliamos o mesmo como o espaço onde se dá as relações privadas, de intimidade, que fazem parte do dia-a-dia das relações sociais, seja em grandes centros urbanos do país, seja em regiões rurais dos chamados “sertões”2. O poder, por sua vez, é entendido como o poder institucionalizado, ou seja, as instituições que compõem a organização e
administração do Estado, analisada por meio dos documentos produzidos pela justiça, pela administração pública e pelos governos municipal e estadual.3
A avaliação do dia-a-dia da escravidão e das relações mais corriqueiras que se passavam entre cativos, forros e livres acabou por exigir uma análise das formas pelas quais o poder se manifestava. Nesse sentido, cotidiano e poder se complementam em nossa análise, a partir do momento em que pretendemos avaliar como as pessoas reagiram nesses dois momentos históricos, e não apenas como o Estado se organizou ao superar o seu passado monárquico. Cotidiano e poder, dessa forma, estão em constante diálogo em todos os capítulos do texto.
Em muitos momentos, os sertanejos lançavam mão de variadas estratégias no universo do poder e da lei, e nas suas ações políticas cotidianas. Com isso, revelava-se um universo ainda mais complexo, à medida que o poder revelava-se tornava instrumento de adaptação, de negociação e de conflito. Os abaixo-assinados, muito comuns como forma de ação política na região, exemplificam a questão.
Em documento apresentado à Câmara em 1886, comerciantes da região de Montes Claros apresentavam um longo esclarecimento sobre condições ligadas ao seu oficio, direcionando à Câmara a apreciação dos seus “pedidos”:
Os abaixo assignados, negociantes residentes nesta cidade, soffrendo aos inconvenientes e prejuízos resultantes do modo por que variável e indistinctamente concorrem mercadores e lavradores deste e de outros productos deste e de outros districtos a venderem nos ranchos não só gêneros alimentícios, como outros productos de indústria do que resulta não pode ser o commercio hábil e conscientemente dirigindo, originando-se deste estado de causas o desrespeito á parte moral do mesmo, desrespeito que leva o negociante a occupar-se em dias impróprios como o de domingo e outros santificados entre um povo morigerado e trabalhador como a de Montes Claros: (...)
Lembrão-se os abaixo assignados de que uma norma de prática imposta neste sentido aos negociantes e lavradores pode vir, com certeza melhorar este ramo de indústria e trazer aos consumidores por meio de economia commercial preços menos variáveis dos gêneros alimentícios, ou jás compras se farão, conforme as indicações de prudência, em certos e determinados dias; e que esta norma poderá ser dada pelo critério dos dignos membros dessa ilustre corporação; visto ser um acho que bem se concilia com a natureza e índole do poder municipal , que creando e revogando posturas legisladas no município na órbita das atribuições conferidas pela lei de 1º de outubro de 1828:
Nestes termos ao instar do que se faz em outros municípios, pedem os abaixo assignados que em bem do interesse público uma postura se crie determinando os dias certos e invariáveis as vendas em feiras.4
Questões como as expostas acima pelos comerciantes da cidade de Montes Claros não eram uma exceção. Em meados da década de 1870 e mesmo no início dos anos 1880 os comerciantes apresentam outras sete solicitações à Câmara Municipal, no sentido de regulamentar o seu trabalho, sentindo-se, em todos os outros casos, prejudicados. Também fica evidente em suas exposições o fato de acentuarem serem “moradores e residentes na cidade”, e que deveriam dessa forma serem “protegidos” por instrumentos legais advindos dos homens responsáveis pela administração pública.5
Ao final de todas as solicitações expostas, evidencia-se o fato de que tais soluções, se empreendidas, seriam de enorme importância para o “bem do interesse público” e não apenas dos comerciantes em questão, que, obviamente, eram imensamente prejudicados.6
Tais documentos revelam que, no repertório da ação cotidiana do sertanejo, o poder era instrumento conformador do universo cultural norte-mineiro. Comerciantes, lavradores, agregados e tantos outros trabalhadores e cidadãos passaram
4 APMC, Intendência Municipal da Cidade de Montes Claros, 1886, f. 1-3.
5 APMC, Intendência Municipal da Cidade de Montes Claros, 1886, f. 1-3. Ver também: APMC, Intendência Municipal da Cidade de Montes Claros, 1877, 1879 e 1883.
a enxergar o Estado e as benesses advindas da relação com o poder público. A passividade e a aceitação pura e simples do destino do homem do sertão não são vistas em fontes como estas, e tampouco será percebida ao longo dessa tese. Documentos assinados por dezenas de pessoas ou manifestações de comunidades inteiras, revelavam o caráter da ação política e social de muitos norte-mineiros e, acima de tudo, o interesse da população em resolver problemas cotidianos não apenas com o recurso, muitas vezes válido e aceito, da violência.
Ainda no universo do poder nos deparamos com a atuação dos chamados “homens da lei” do sertão das Minas. Por meio da análise dos processos criminais e das ações cíveis de liberdade, mais uma vez encontramos referenciais importantes para a compreensão do “poder” no sertão. Discursos jurídicos e abordagens argumentativas alinhadas com os debates recorrentes no Império colocam as idéias políticas recorrentes na região em uma outra perspectiva histórica, bem diferente da tradicional visão do sertão isolado, bárbaro, atrasado, em oposição ao litoral civilizado.
Esses três eixos norteadores da presente tese foram avaliados por meio da análise das fontes selecionadas para a pesquisa. Um corpus documental de milhares e milhares de páginas nos permitiu o acesso ao cotidiano e ao poder no sertão das Minas. Dessa forma, agrupamos a documentação em dois tipos de fontes, e que, em sua essência, exigiram uma metodologia adequada à proposta da tese: as fontes mediadoras do cotidiano e as fontes mediadoras do poder.
as relações estabelecidas pelos escravos e forros em conjunto com os homens livres da região, e após a abolição, as relações entre homens livres e ex-escravos.
Carlo Ginzburg, em Mitos, Emblemas, Sinais, discorre acerca de um importante método de análise para algumas áreas da ciência: o paradigma indiciário. Comparando o método utilizado por determinados críticos de arte com o método investigativo de Sherlock Holmes e os procedimentos de análise adotados por Freud, o autor procura demonstrar como, a partir da análise de dados aparentemente negligenciáveis e pouco perceptíveis em determinadas “fontes”, é possível se chegar a uma realidade bem mais complexa do que a vislumbrada quando esses indícios não são notados ou mesmo ignorados. Procurando fazer uma analogia com o ofício do historiador e o ofício do médico, Ginzburg acentua que os códigos utilizados por ambos se baseiam (ou devem se basear) em casos individualizantes, e que, portanto, levariam a um conhecimento “indireto, indiciário, conjetural”. Obviamente, o autor esclarece a dificuldade de se adotar tal procedimento para se pensar os códigos culturais de determinados grupos sociais, afinal: “Uma coisa é analisar pegadas, astros, fezes (animais ou humanas), catarros, córneas, pulsações, campos de neve ou cinzas de cigarro; outra é analisar escritas, pinturas ou discursos” (GINZBURG, 1989: 171).7 Portanto, há uma distinção fundamental entre natureza e cultura; distinção que deve ser atentamente observada pelo historiador e demais cientistas sociais.
O método indiciário, portanto, consiste na análise de “menores reveladores”. O cientista social – no nosso caso, o historiador – procura, por meio de indícios encontrados nas suas fontes, lançar um olhar sobre uma visão de mundo mais ampla. O trabalho com os processos criminais e cíveis da nossa pesquisa procura seguir esse tipo de metodologia.
Os autos criminais passaram a ser fontes privilegiadas pelos pesquisadores há algumas décadas, permitindo aos historiadores reconstituírem as experiências de vida dos agentes sociais protagonistas em suas investigações. Para Maria de Fátima Novaes Pires:
O auto criminal é um material singular, por captar, registrar as nuanças e tensões sociais que envolveram variadas regiões subordinadas ao regime de trabalho escravo. Mostram-se valiosos para a análise dos crimes, dos seus mecanismos impulsionadores e possibilitam reconstituições da vida social. Apontam ainda para possíveis significados que dela fizeram os sujeitos envolvidos em situações tidas como infratoras (PIRES, 2003: 22).
Se as fontes criminais e cíveis priorizadas neste trabalho permitem um olhar especial sobre parte desse universo, contudo, é importante frisar que devemos estar atentos aos limites impostos por esses registros, assim como por toda fonte histórica. Nesse sentido, faz-se necessária a seguinte consideração: os processos são uma fonte produzida pela justiça e, por conseguinte, trazem em si manifestações diversas, atendendo interesses de variadas classes, ou dos “dominantes” ou dos “dominados”. Embora essa documentação traga em si a “fala” de escravos, libertos e homens livres sobre as experiências vividas no seu dia-a-dia, essas falas são mediadas pela “pena do escrivão”. Cabe ao pesquisador estabelecer um diálogo cuidadoso e criterioso com essas fontes, de maneira que se possa extrair delas o máximo possível de informações que permitam a reconstituição, mesmo que parcial, do cotidiano das classes envolvidas.
Assim, o historiador deve estar atento ao que as fontes podem oferecer. Sidney Chalhoub, em Trabalho, Lar e Botequim, fornece um referencial importante:
criminais porque eles ‘mentem’. O importante é estar atento às ‘coisas’ que se repetem sistematicamente: versões que se reproduzem muitas vezes, aspectos que ficam mal escondidos, mentiras ou contradições que aparecem com freqüência (CHALHOUB, 1986: 41).
Para Chalhoub esses documentos são dotados de contradições, incoerências, construções ou ficções. Todavia, é justamente nesses componentes que a análise de processos criminais e cíveis deve ser pensada. Durante muito tempo, a historiografia se preocupou profundamente com a objetividade dos fatos e com as fontes que possibilitariam chegar a essas pretensas “verdades”. Se esses fatos não pudessem ser encontrados de forma objetiva, então a história não seria viável como conhecimento. Para o autor, “é óbvio que é difícil, senão impossível, descobrir ‘o que realmente se passou’ (....) Existem, é claro, pelo menos tantas dúvidas quanto certezas neste contexto. Mas, por favor, devagar com o ceticismo: há certezas” (CHALHOUB, 1986: 38-9). Processos criminais e cíveis revelam uma tentativa central da justiça em revelar, conhecer, dissecar os aspectos mais recônditos da vida cotidiana, e acreditamos que as visões de mundo, as práticas, as representações, as trocas culturais, o contato e a construção da vida se dão num processo diário, o que demonstra serem tais fontes fundamentais para a nossa proposta.
esforço conseguimos, também, chegar à atuação da justiça institucionalizada e do papel da mesma frente aos crimes praticados por grupos sociais distintos em um universo de dominação escravista.
Ainda no bojo das chamadas fontes mediadoras do cotidiano, analisamos um número de 40 ações cíveis de liberdade. Por meio delas, e adotando o mesmo procedimento metodológico proposto na análise dos processos-crime, procuramos analisar o dia-a-dia de escravos, libertos e homens livres em um momento especial dos embates cotidianos: o da liberdade. Essas ações nos permitem ir além da análise dos procedimentos jurídicos e senhoriais quanto à luta dos escravos pelas manumissões. Nesses documentos, tanto os escravos como os livres buscam relatar suas experiências e impressões sobre a escravidão, acabando por expor realidades variadas sobre o cativeiro e a liberdade. A utilização dessas ações como fontes para a discussão da liberdade vem se tornando crescente. Em trabalho inovador, Keila Grinberg nos esclarece acerca do teor da fonte:
Uma ação de liberdade é iniciada quando, depois de receber um requerimento – assinado por qualquer pessoa livre, geralmente “a rogo” do escravo –, o juiz nomeia um curador ao escravo e ordena o seu depósito. Assim feito, o curador envia um requerimento (libelo cível) no qual expõe as razões pelas quais o pretendente requer a liberdade. Entre uma coisa e outra pode haver mil e um diferentes requerimentos, tentativas de impedir o prosseguimento da ação, etc. Mas, geralmente, o advogado ou procurador do réu (no caso, o senhor do escravo ou seus herdeiros) envia um outro libelo, ou contrariedade, apresentando a defesa de seu cliente. As exposições das razões de ambas as partes também podem prolongar-se por vários requerimentos, até que o juiz fique satisfeito e determine a conclusão da ação (GRINBERG, 1994: 22-3).
sendo a ação apenas um “meio de pressionar o senhor para acabar mais rápido com o assunto” (GRINBERG, 1994: 27).
Esse primeiro grupo de documentos é especialmente reservado para a análise das relações cotidianas no norte de Minas, tanto no ambiente monárquico quanto no período republicano. A análise das relações de poder junto à sociedade norte-mineira pode ser encontrada em outros documentos, que chamaremos aqui de fontes mediadoras do poder.
Um número de 307 documentos cíveis da administração pública de Montes Claros, tanto do século XIX quanto da República Velha, são um bom exemplo das fontes que nos permitiram adentrar as peculiaridades das relações de poder. Ofícios, correspondências, cartas de pedidos, posturas municipais, enfim, documentos que permitem entender a organização do Estado sertanejo nesses dois momentos distintos, bem como avaliar como a população entendia o seu papel junto ao Estado, tendo em vista os variados pedidos e abaixo-assinados que se registraram no período. Somam-se a esses documentos os Fundos da Administração Provincial, presentes no Arquivo Público Mineiro, contendo Correspondências Expedidas e Recebidas, Atas, Propostas, Relatórios, Requerimentos e Documentos Diversos, que permitem analisar a organização do Estado em Minas Gerais, para que assim seja possível avaliar as relações de poder na região.
em muitos sentidos, otimista, tendo em vista a constante valorização da imagem de segurança individual e tranqüilidade pública do sertão, muito diferente da constante violência notada no cotidiano escravista e pós-escravidão, que centenas de processos criminais revelam.
Atentos também ao papel da justiça com o poder e as leis, sobretudo no universo escravista do século XIX, utilizamos os processos crimes e a Lei de 1871 - a famosa Lei do Ventre Livre – para avaliar o papel dos cativos e dos homens livres pobres no trato com as leis. Entendendo a lei como um espaço de conflito social – em uma perspectiva thompsoniana8 – objetivamos mostrar como escravos, libertos e homens livres entendiam a legislação e as regras costumeiras que se apresentavam no seu cotidiano, em especial no que se refere à batalha incansável pela liberdade e pela absolvição nos processos criminais. Muitos fatores poderiam facilitar ou dificultar o acesso dos escravos e dos homens livres pobres à justiça. Não obstante, o acesso à justiça é uma realidade, constituindo-se em mais um exemplo da mobilidade e complexidade das relações sociais no Brasil.
Além disso, visualizamos a justiça nesse cotidiano como campo de mediação das relações estabelecidas entre os atores sociais, em um processo onde o lócus judiciário permitia o contato entre as pessoas e, mais ainda, funcionava como um meio de expressão social daqueles que muitas vezes não tinham muitos recursos para se manifestar, como é o caso dos escravos e dos homens livres pobres. Destarte, a importância de se pensar as leis, os costumes e a justiça no processo de trocas culturais entre os norte-mineiros.
Por fim, nos caminhos que nos levaram ao entendimento das manifestações do poder no sertão das Minas, um número de cerca de 80 jornais nos
permitiu o acesso às práticas sociais e políticas do sertanejo. Jornais de circulação regional, como o Correio do Norte, com edições entre os anos 1884 e 1885 e os anos de 1889 e 1891, apresentam muitas das necessidades presentes no universo cultural norte-mineiro e as variadas e complexas formas de organização da sociedade diante dessas mesmas necessidades. Os jornais ainda reproduzem em suas páginas alguns dos documentos mais importantes da administração pública na região, nos colocando novamente frente a pedidos, solicitações e demandas individuais ou coletivas de homens e mulheres que construíram a história no norte das Minas Gerais.
Enfim, as páginas que se seguem são resultados de um esforço, inicialmente, audacioso. Compreender a história de um povo, com sua cultura, suas ações políticas e suas singulares formas de relações sociais já era, por si só, um enorme desafio. Revelá-las a partir de fragmentos deixados pela história, em arquivos empoeirados ou mesmo em máquinas digitalizadoras, mostrou-se um desafio ainda mais complexo.
CAPÍTULO 1
O COTIDIANO ESCRAVISTA E O UNIVERSO DA VIOLÊNCIA
A análise das relações sociais escravistas que se passaram na região é um dos objetivos principais da presente tese, à medida que procuramos evidenciar as estratégias de escravos e homens livres no cotidiano norte-mineiro. Negociações, conflitos, solidariedade e violência se apresentaram como importantes características desse cotidiano, e esse capítulo procura avaliar algumas dessas relações.
Dessa forma, propomos uma comparação entre o universo violento praticado pelos escravos em relação ao praticado pelos homens livres, questionando em que sentido tais práticas se aproximam e se distanciam. Em meio a um universo de dominação próprio do regime escravista, o sertão das Minas apresenta interessantes características que nos permitem adentrar o cotidiano da região, e a análise dos processos criminais em questão se tornou imprescindível para a proposta desse capítulo. Iniciamos essa parte da tese com um panorama do cenário geográfico, político e econômico do norte de Minas, bem como uma avaliação do contingente escravo na região, demonstrando assim a importância dos cativos na conformação do universo cultural norte mineiro ao longo do século XIX.
1.1– O norte de Minas no cenário regional e o contingente escravo no século XIX
está inserida no que tradicionalmente se classifica como “sertão”.9 A expansão da pecuária, bem como as expedições bandeirantes foram os dois grandes fatores que impulsionaram a ocupação e o povoamento da área. A expansão pecuarista pode ser vista ao longo do Rio São Francisco, a partir dos estados de Pernambuco e Bahia. Quanto às expedições bandeirantes, Espinosa-Navarro, a primeira delas, ocorreu em meados do século XVI, seguida pela bandeira de Fernão Dias, na metade do século XVII (VIANA, 1916).
Ressalta-se que muitas guerras foram intentadas contra os nativos estabelecidos às margens do São Francisco para que a expansão se desse, sendo que o objetivo primeiro era de escravizar os que ali habitavam.
Mapa 1: As microrregiões do norte de Minas Gerais – 2004.
In: PEREIRA, 2007.
Mapa 2: Montes Claros na mesorregião norte de Minas – 2004.
In: PEREIRA, 2007.
delimitação de espaços efetivada por um potentado local e administrador de índios. Os colonos vicentinos detinham autoridade nas relações sociais com os grupos indígenas (SANTOS, 2004: 93).
Algumas décadas antes do período acima mencionado, em meados de 1690, memorialistas e estudiosos atribuíram a conquista e ocupação da região à derrota e escravização dos nativos. Hermes de Paula descreve a intensidade do comércio de gado estabelecido no Norte de Minas em fins do Seiscentos. Para o autor, as investidas dos bandeirantes baianos e paulistas em direção ao São Francisco na busca do ouro e dos gentios foram responsáveis por deixar o terreno mais aplainado e habitável. A região tornou-se povoada de negros fugidos, índios acuados, mineiros exaustos das peregrinações sem sucesso. (PAULA, s/d)
A criação de gado foi a causa responsável pelo início da formação econômica na região, ainda no século XVII. Associada à pecuária, desenvolveu-se uma agricultura de subsistência, direcionada à dieta alimentar dos habitantes.
As características ambientais favoreciam esse tipo de economia, que demandava um número reduzido de escravos, se comparada às demais regiões coloniais, como veremos mais à frente. A pecuária, como atividade predominante, passou a ser vista pela historiografia como uma economia essencialmente voltada “para dentro”, diferentemente do que se percebia em relação às economias de exportação, fato que conferiu à região caracteres específicos.
conjunto de milhares de escravos, e que portanto configuraram um importante local de relações escravistas. (GUTIERREZ, 1987)
Em se tratando do exercício do poder na América Portuguesa, se pode afirmar que o mesmo apresentou as mais diversas características, tendo em vista a extensão territorial continental. As relações sociais e políticas revelaram-se nas mais variadas formas, convivendo o poder público com a dinâmica do poder privado, o que atribuiu a algumas regiões brasileiras singularidades quanto ao exercício do poder metropolitano.
Neste sentido, é importante remeter ao século XVIII para melhor entendimento do século XIX na região, sobretudo no que tange às relações político-administrativas, à discussão sobre a ordem privada, bem como à atuação de escravos, libertos e livres na formação do universo cultural norte-mineiro.10
Os debates sobre a eficácia do poder público no Brasil, bem como o limite de atuação do poder privado traduziram-se em uma importante ferramenta para análise das relações Portugal-Brasil. O controle das regiões ocupadas era tarefa árdua conferidas aos lusitanos, haja vista a extensão do império, constituído por terras na América, África e Ásia.
Diferentes análises sobre o poder metropolitano nas Minas Gerais ao longo do Setecentos examinaram a natureza e as características da capitania. A historiografia clássica tem suscitado importantes questões acerca do pretenso controle exercido pela “metrópole” sobre a “colônia” na América. Alguns renomados cientistas sociais sustentaram a idéia de que Portugal exercia, através do seu direito de conquista, um
10 Entende-se o conceito de “universo cultural” de acordo com Eduardo França Paiva, em Escravidão e
controle sobre todas as áreas de atuação cotidiana no Brasil, travando as possibilidades de ações independentes por parte dos colonos. Nessa linha, Raimundo Faoro, no clássico Os donos do poder, trata especificamente da centralização colonial. O autor destaca a maior abrangência do poder público na colônia, a partir do século XVIII, concluindo que não sobrava espaço para a ordem privada na América Portuguesa. A consolidação do poder público teria se dado a partir da criação do governo geral (FAORO, 1975: 143-6).
Opondo-se a tal idéia, e procurando ampliar a noção de ordem privada, Carla Anastasia acredita que a análise de Faoro afasta a possibilidade da manutenção da ordem privada após meados do século XVII. Para ela, o autor teria acreditado num total sucesso do poder público, e “à medida em que avança sua análise praticamente desconhece sequer a possibilidade da existência de redutos de ordem privada.” E acentua: “Faoro capta a realidade da consolidação da ordem pública nas minas mas não trata de sua contrapartida – a consolidação do poder privado em regiões onde a máquina administrativa mostrou-se ausente ou ineficaz” (ANASTASIA, 1989: 81).
A ordem privada passou a ser fortemente estabelecida, também por força dos costumes, o que acabou moldando a própria administração portuguesa a uma dinâmica interna. Em algumas regiões, a falta ou a ineficiência de uma máquina administrativa propiciou a atuação de um poder privado (ANASTASIA, 1989). O sertão norte-mineiro é um caso exemplar.11
Sob essa ótica, ao longo do século XVIII notou-se uma dificuldade no estabelecimento da ordem pública na região, revelando um sertanejo aquém das esferas de subordinação judicial. Afinal, os homens do sertão se identificavam através de uma dura obra de conquista, consumindo gerações que contaram pouco com o poder metropolitano, fato que legitimaria suas atitudes de resistência à Coroa. Mas, como teria se formado o sertão norte-mineiro ao longo do século XIX? Teriam essas características permanecido na configuração da sociedade local e transformado a região num reduto para atos ilícitos e prática da violência? Ou a administração da justiça teria se imposto na região e propiciado um controle eficaz sobre o dia-a-dia das pessoas? Além desses aspectos, como teria se dado a transição do período monárquico para o período republicano? A cidade de Montes Claros é o palco para a construção das histórias pessoais e coletivas que se deram no período proposto pela pesquisa.
Segundo César Henrique de Queiroz Porto, a partir do descobrimento do ouro na região das Minas, a região dos sertões se dinamizou para preencher boa parte da demanda por gêneros de subsistência dos núcleos mineradores. Nesse sentido, “principalmente por sua posição estratégica, localizada em região onde existem vias naturais de acessos”, afirma o autor que “a região vai intermediar um fluxo grande de mercadorias entre as Minas de Ouro, Goiás e Bahia.” (PORTO, 2007: 27)
Para Carla Maria Anastasia:
pela mineração, resultou de uma dupla conjugação de fatores – posição estratégica, centro geográfico do intercambio que se estabelecia, localização às margens do São Francisco, marginado por uma rota terrestre já existente e via natural de acesso. (ANASTASIA, 1998: 64)
Em meio ao século XVIII já se percebe, portanto, o surgimento e posterior consolidação de uma classe de grandes proprietários de terra. A organização social e política dessa classe vai se fundamentar, sobretudo, em suas riquezas, bem como no seu poderio pessoal. Tal poder, aliado a uma característica de prática da violência nas relações sociais, se tornarão características marcantes do cotidiano sertanejo entre os séculos XVIII e XIX, conforme veremos mais à frente.
Para Brito, na virada do setecentos para o oitocentos, o então Arraial das Formigas, futura cidade de Montes Claros, “era o único da região Norte de Minas que poderia merecer, ainda que com certas restrições, o nome e os direitos de cidade.” (BRITO, 2006: 69)
Em 13 de outubro de 1831, o Arraial de Formigas é transformado em vila. Já na década de 50 é elevada à categoria de cidade, com o nome atual de Montes Claros. O estabelecimento de um poder público mais efetivo contribui para a ascensão da cidade e da região ao longo do século XIX, o que justifica o recorte temporal da presente pesquisa. Como salientou Tarcísio Botelho, é importante destacar ainda que este processo de ascensão de Montes Claros, na verdade, se deu através de transformações lentas e graduais, contando com uma povoação limitada e pouco dinâmica.
o que se traduziu em importante mudança na estrutura político-econômica do Norte. Neste sentido, a cidade de Montes Claros, especialmente, passou a integrar o jogo político nacional, após o sempre destacado isolamento percebido ao longo do Setecentos (BIEBER, 1999).
O século XIX também trouxe significativas transformações de caráter econômico, especialmente através de uma maior integração entre o centro e o sul das Minas Gerais. Segundo Jonice Procópio Morelli, a partir da década de 1830 se verifica uma progressiva ascensão da cidade de Montes Claros, sobretudo através da alteração do eixo econômico regional e provincial. (MORELLI, 2002)
Assim, percebe-se a ocorrência de importantes alterações político-econômicas na região, no século XIX. Salienta-se, nesse aspecto, o universo cultural estabelecido ao longo do Oitocentos, especialmente no que tange à maneira como o sertão era pensado. Faz-se necessário observar os discursos sobre os sertanejos, buscando resgatar as imagens que contribuíram para a formação de uma identidade entre os homens dessas regiões.
Desde os tempos coloniais a categoria “sertão” era utilizada para classificar as regiões não-litorâneas, referindo-se a áreas escassamente povoadas e que tinham como vocação econômica a agropecuária. Na produção historiográfica12 esse termo/categoria aparece para informar uma realidade oposta àquela vivida nas regiões litorâneas do Brasil, ou seja, nota-se um discurso que, na maioria das vezes, informa um modo de vida diferente daquele construído em regiões centrais do Brasil. O que se percebe é uma oposição, muitas vezes reforçada pela historiografia, entre “litoral civilizado” e “sertão bárbaro”, culminando no isolamento e decadência das regiões afastadas dos grandes centros do Brasil. Em Raízes de Minas, Simeão Ribeiro Pires,
referindo-se às características da região, resume, em poucas linhas, algumas das imagens a que nos referimos:
Visavam todos a uma vida de aventuras honradas ou de assaltos, nos ermos distantes do poder real e de suas autoridades.
Era o Sertão lenda. Bravio e de paixões.
Em uma única palavra, o Sertão dos fascinorosos na expressão de Diogo de Vasconcelos (PIRES, 1979: 35).
Em A pátria geográfica, Candice Vidal e Souza procura analisar as varias interpretações e leituras diferentes sobre sertão e litoral no pensamento social brasileiro. A autora aborda vários autores, em uma opção teórica que pode ser contestada, mas que, sem dúvida, apresenta um grande referencial daqueles que se propuseram a pensar a noção de sertão no Brasil. Exemplos variados podem ser citados, sobretudo no que se refere às obras que propuseram a análise da famosa oposição sertão/litoral, tais como Euclides da Cunha, Cassiano Ricardo, Oliveira Vianna e Nelson Werneck Sodré, por exemplo.
A partir de diversos fragmentos das obras analisadas, a autora propõe uma idéia original e interessante sobre os “sertões”: o das idéias geográficas. Assim, propõe-se fazer uma análipropõe-se etnográfica sobre a temática, e não exatamente uma história das idéias, descartando assim um rigor historiográfico sobre os autores. O livro é um importante ganho na análise do tema, especialmente por se tratar de uma boa mescla de textos sobre a questão do sertão e do litoral no pensamento brasileiro. (SOUZA, 1997)
já que a obra se desenrola no embate entre “cidades” e “sertões”. Dessa forma, o texto do autor tem a virtude de demonstrar com clareza essa oposição, mais uma vez nos fornecendo referencial para repensar a noção de atraso pela qual o sertão é pensado, e que, em última instância, justificava as relações de “civilização” que se procurava impor aos sertanejos em momentos como a própria transição da Monarquia para a República. (ARRUDA, 2000)
Pesquisas mais recentes também buscaram reavaliar a história da região. Edneila Rodrigues Chaves, em recente dissertação de Mestrado, ao analisar a região de Rio Pardo, localizado no Norte de Minas, procura avaliar como a idéia de um mundo sertanejo foi percebida no cotidiano local. A autora ainda questiona a visão dicotômica (litoral-civilizado X sertão-bárbaro) que era percebida e vivenciada pelas pessoas no século XIX. Concluiu-se que a idéia de sertão de fato existia como representação naquele cotidiano, situando a questão no que a autora classifica como “contraposição de culturas”. No entanto, Edneila Chaves nos coloca diante de um ponto fundamental: “Se nos discursos das autoridades locais transparecia uma visão de sertão em oposição ao urbano, na vida cotidiana um outro sertão pode ser visualizado”. A autora sugere pensar nas singularidades, bem como nas semelhanças e nas permanências entre sociedades de espaços e tempos históricos distintos” (CHAVES, 2004: 16-7).
É importante notar que a construção do conceito de um universo sertanejo geralmente se dá a partir de um referencial externo, o que, inevitavelmente, prejudica a análise do lócus pesquisado, uma vez que ele é visto sempre como um referencial de oposição a algo “civilizado”, a um modo de vida “superior”.
acentuadas nesses motins, o que contribui para cristalizar uma falsa imagem do sertanejo ou, na melhor das hipóteses, contribui para transformar em atributos características que não lhes são exclusivas, mas reveladoras de uma identidade cultural presente em toda a capitania, para não dizer no restante do Brasil. Referimo-nos aqui à questão da prática da violência, que acreditamos não se constituir, de forma alguma, em atributo específico do sertanejo.
Inicialmente, a própria idéia de que a região do Norte de Minas Gerais era um espaço peculiar para a atuação do poder privado nos parece, em parte, exagerada, na medida em que tal análise é estendida para além das fronteiras do século XVIII, ou seja, tais características acabam por moldar e cristalizar categorias para os norte-mineiros que vão além das explicações propostas para o início do Setecentos.
Limites foram estabelecidos para que a Coroa pudesse exercer o seu poder, apesar da dependência colonial, sempre destacada pelos autores que abordaram o tema. O costume, apesar de não ser um acordo legal – uma lei –, não poderia ser ignorado, pois configurava-se como um mediador de extrema importância para regular as relações entre as partes. Conclui Carla Anastasia que as revoltas ocorridas antes de 1770 na região foram motivadas pelo descumprimento de acordos não escritos entre a população e as autoridades.13
A quebra dos acordos costumeiros entre os colonos e a metrópole não foi privilégio das relações no sertão. Se a quebra de acordos implícitos entre “dominados” e “dominantes” serviu como importante causa para a eclosão de revoltas por toda a capitania, é importante frisar que isso não se deu apenas no Norte de Minas. A tentativa de cobrança pela Coroa do imposto da capitação, que os sertanejos, por sua vez,
julgavam injusto, consolidou a existência de fortes potentados na região no início do século XVIII, bem como de um espaço privilegiado para a ordem privada.
Utilizando-se das características da sedição de 1736, bem como da idéia de um poder privado fortalecido, muitos autores acabaram por forjar uma identidade para os sertanejos. Assim, historiadores, memorialistas, viajantes, entre outros, contribuíram para reforçar uma imagem distorcida do homem sertanejo, quase sempre identificando-o como violento, bárbaro, que não reconhece as leis, ao contrário dos “homens civilizados” do litoral.
O sertão transformou-se em uma espécie de “outro mundo” na capitania, considerando conceitos como os de isolamento e dependência. Por óbvio, não há como negar as especificidades do mundo sertanejo, em especial se comparado com as relações sociais, culturais e políticas vivenciadas nos grandes centros urbanos do Brasil. Entretanto, é importante frisar a necessidade de redimensionar essas diferenças, bem como repensar as similitudes possíveis entre as regiões, em especial ao longo do século XIX e início do século XX. Importante observar que se trata de um novo contexto histórico, no qual os atores sociais tiveram que lançar mão de outras estratégias nas lutas diárias pela sobrevivência.
autora analisa a região a partir de um espaço integrado à vida política nacional, caracterizando a evolução política da Comarca de São Francisco, por exemplo, como similar aos caminhos adotados por regiões litorâneas e urbanizadas durante a Regência (1831-40).
Valentia, mandonismo local, violência e defesa da honra são características que ajudam a explicar parte desse mundo. Entretanto, analisados apenas por esses espectros, acabam empobrecendo o universo sertanejo, muito mais complexo do que revela a historiografia.
Ao longo desta tese não serão poucos os momentos em que iremos nos deparar com homens violentos, que procuravam defender sua honra. Enfatizando as ações de escravos, em consonância com o mundo dos livres, tentamos mostrar como as soluções conflituosas eram um componente especial na conformação desse universo. Não obstante, não era o único recurso utilizado nas duras lutas pela sobrevivência. Sobreviver não significava apenas enfrentamento, significava também adaptação, negociação, e esses homens sabiam muito bem disso.
A violência é um subproduto do processo político e, como tal, não é inerente a ninguém. O que se deve acentuar aqui é que o espaço vivido pelos atores sociais do interior do Brasil, a “realidade” que vivenciaram, em muitos aspectos, propiciava atos violentos que de forma alguma eram exclusividade do universo sertanejo.
Essa conjuntura histórico-social determinou os principais valores sociais que vão permear o imaginário coletivo local. Estrutura-se uma comunidade de valores, onde a violência e os fatores que a legitimam, o mandonismo e a dependência pessoal, são normatizados e sancionados através de sistemas de representação que as fixam e as traduzem. As relações de dominação dependem de um imaginário coletivo para a legitimação de seu poder. Essas relações de dominação vão se caracterizar por forte investimento no campo do imaginário social coletivo. Os potentados vão procurar legitimar o seu poder e buscar seus referentes nessa comunidade de sentido. E essa comunidade de sentido é determinante para a consolidação de uma tradição política local. (PORTO, 2007: 31)
O que muitas vezes foi entendido como desordem no mundo do sertanejo deve ser repensado. Tratava-se de uma ordem própria do mundo em que viviam, que se estabelecia por alguns comportamentos típicos, fundados em códigos positivos e/ou costumeiros. Mesmo que estejamos tratando de um ordenamento diferente do que se percebe em regiões litorâneas e/ou urbanas, não se pode insistir na imagem da desordem, pois novamente incorreríamos no mesmo erro de olhar o sertão a partir do seu oposto, realimentando a dicotomia que estamos insistindo em combater.
Um outro elemento importante na presente tese é a compreensão do contingente escravo na região ao longo do século XIX, já que parte da nossa análise perpassa o cotidiano escravista sertanejo.
Nas duas últimas décadas, o debate sobre a pretensa decadência da região no período posterior à mineração foi intensificado, principalmente no que tange às abordagens de Amílcar Martins Filho, Roberto Borges Martins, Robert Slenes, Douglas Cole Libby, entre outros.14 Segundo Laird W. Bergad:
É estranho que até a década de 1970 muitos desses processos, de um modo geral, não tenham sido identificados pelos historiadores brasileiros. Por alguma razão, o complexo desenvolvimento social e econômico de Minas Gerais não foi percebido; generalizações amplas, desprovidas de fundamento, foram utilizadas para descrever a história da mineração depois do boom. Foi adotada a noção de uma completa decadência depois da queda da mineração na segunda metade do século 18, em lugar de se realizar qualquer pesquisa detalhada sobre a história da província. Sem apresentar evidências documentais ou exames mais detalhados, estudo após estudo aludia repetidamente como fato à idéia de que, no século 19, os escravos de Minas eram exportados para as regiões cafeeiras economicamente mais dinâmicas do Rio de Janeiro e São Paulo. (BERGAD, 2004: 23)
Sem a intenção aqui de retomar as discussões desses autores, cabe destacar a importância que o século XIX teve na conformação histórica de Minas Gerais, o que nos possibilita apontar a relevância do presente estudo. Nesse sentido, concordamos com Roberto Borges Martins quanto este reitera a importância da centúria posterior ao auge da mineração. Assim, alguns novos aspectos sobre a história da região parecem indiscutíveis, como: a decadência generalizada da economia provincial; a não-decadência generalizada de seus núcleos urbanos; o contínuo e vigoroso crescimento de sua população livre e inclusive a população escrava; a grande disseminação da propriedade dos escravos, com prevalência de pequenos plantéis; a acentuada diversificação da atividade econômica e do emprego de escravos. (MARTINS, 1982)
Douglas Cole Libby, em texto fundamental para a análise do século XIX mineiro, faz uma abordagem da economia escravista evidenciando a capacidade econômica de Minas Gerais na continuidade das importações de escravos durante a centúria. O autor sublinha a importância do setor manufatureiro para a economia da província, que, aos poucos, se diversificava. Libby contesta as noções de estagnação da economia mineira no XIX. (LIBBY, 1988: 14)
No que se refere especificamente ao Norte de Minas Gerais, reiteramos o valor do século XIX para o entendimento das relações sociais, políticas, culturais e econômicas da região em consonância com o restante da província.
A população escrava na região foi estudada por Tarcísio Rodrigues Botelho em dissertação de mestrado. O autor faz um estudo detalhado do contingente escravo norte-mineiro, acentuando a importância da formação de famílias cativas. Dedicando-se especialmente à região de Montes Claros, Botelho nos mostra um retrato das oscilações percebidas no crescimento da população escrava. Segundo ele, da década de 1830 a 1870, no que se refere a toda a província, observa-se “uma queda generalizada do peso dos cativos, o que não ocorreu apenas em Montes Claros e Coração de Jesus, que conseguiram aumentar ou conservar seus plantéis”. (BOTELHO, 1994: 69)
autor apresenta dados que mostram um número de 1.143 cativos em Montes Claros, representando agora 11,4% sobre o total da população.15 (BOTELHO, 1994: 68)
Apesar disso, tais dados não devem nos iludir. Esse pequeno crescimento da população cativa entre os anos de 1838 e 1872 entra em choque com os dados apresentados pelo mesmo autor em sua Tabela 12. Nessa Tabela, Botelho apresenta dados de 1833-35 sobre a população cativa na cidade. Nesses anos, a porcentagem de escravos sobre o total da população era de 14,9% (ou 499 cativos numa população de 3.350 habitantes), ou seja, podemos observar claramente que o contingente escravo na cidade aumentou consideravelmente, apesar de sofrer uma queda na participação sobre o total da população montesclarense o que, para o autor, parece bastante normal, pois “apenas acompanhou o processo observável na província de Minas Gerais como um todo.”16 (BOTELHO, 1994: 74) Os dados da tabela 1 são ainda mais esclarecedores quanto ao contingente de escravos na região, em especial porque analisa especificamente a faixa etária, o sexo e a origem da escravaria.17
15 Ver também tabelas 6 e 7 do autor.
16 Ver tabela 12 do autor. Podemos destacar, ainda com os dados do autor, que se a participação dos cativos sobre o total da população de Montes Claros caiu cerca de 30%, no restante da província esta queda é de 83,8%, isto é, bem maior.
TABELA 1
POPULAÇÃO ESCRAVA DO DISTRITO DE MONTES CLAROS, SEGUNDO SEXO, IDADE E ORIGEM (“RAÇA”), 1832
Nacionais Africanos
Homens (1) Mulheres (2) Homens (3) Mulheres (4)
Idade
N % N %
RM
(1)/(2) N % N %
RM (3)/(4)
Total
0-4 21 5,45 23 5,97 0,91 1 0,97 1 0,97 1,00 46
5-9 27 7,01 19 4,94 1,42 3 2,91 0 0,00 - 49
10-14 31 8,05 22 5,71 1,41 5 4,85 0 0,00 - 58
15-19 24 6,23 25 6,49 0,96 2 1,94 2 1,94 1,00 53
20-24 28 7,27 20 5,19 1,40 20 19,42 6 5,83 3,33 74
25-29 21 5,45 24 6,23 0,88 9 8,74 0 0,00 - 54
30-34 13 3,38 18 4,68 0,72 20 19,42 0 0,00 - 51
35-39 2 0,52 5 1,30 0,40 6 5,83 2 1,94 3,00 15
40-44 10 2,60 12 3,12 0,83 2 1,94 1 0,97 2,00 25
45-49 6 1,56 4 1,04 1,50 4 3,38 0 0,00 - 14
50-54 9 2,34 6 1,56 1,50 7 6,80 2 1,94 3,50 24
55-59 1 0,26 2 0,52 0,50 2 1,94 0 0,00 - 5
60-64 3 0,78 2 0,53 1,50 3 2,91 0 0,00 - 8
65-69 2 0,52 0 0,00 - 0 0,00 0 0,00 - 2
70 + 1 0,26 4 1,04 0,25 5 4,85 0 0,00 - 10
199 51,69 186 48,31 89 86,41 14 13,59 488
Total
40,78 38,11
1,07
18,24 2,87
6,53
100,0
Fonte: BRASIL, Arquivo Publico Mineiro, Mapas de População, Pasta 13, Doc. 06. In: BOTELHO, T. R. Famílias e escravarias, p. 80. Tabela 15, do autor.
Douglas Cole Libby acentua a vocação da região para a economia pecuária, afinal:
seguinte a região se voltava para sua vocação pecuarista em combinação com uma agricultura de subsistência. (LIBBY, 1988: 44)
Para o autor, a região não teria desenvolvido atividades produtoras que exigiam ampla escravaria. Já em 1872, o Recenseamento mostrava que o Norte de Minas apresentava contingentes mancípios que representavam menos de 10% da população, “o que nos permite concluir que a instituição da escravatura havia se tornado algo residual com relação à sociedade como um todo”.18 (LIBBY, 1988: 51) Além disso, os dados analisados por Libby demonstram que a maioria dos proprietários de escravos na região possuíam entre 1 e 10 cativos, o que o levou a concluir que, não apenas para a região Norte como para o restante das Minas Gerais do segundo quartel do século XIX, “predominava uma relativa desconcentração da propriedade de escravos”. (LIBBY, 1988: 107)
Jonice Procópio Morelli, em dissertação de mestrado, também reitera algumas das questões levantadas por Botelho e LIbby. A autora, em uma análise sobre o cotidiano escravista na região, trabalha com dados que afirmam a menor parcela de escravos sobre a população norte-mineira, como os dados acima constatam. Contudo, a autora é enfática ao demonstrar a importância dos cativos nas relações sociais que se passavam, onde a criminalidade escrava assumia um papel fundamental no cotidiano escravista. (MORELLI, 2002)
Os números trabalhados por Tarcísio Botelho e Douglas Libby, além de nos proporcionarem uma análise mais pormenorizada do contingente escravo na região – principalmente no que se refere a uma abordagem de caráter mais quantitativo –, nos possibilitam avaliar mais intimamente o papel desses cativos na formação cultural e estrutura econômica do universo sertanejo do século XIX. Quando Tarcísio Botelho demonstra um relativo crescimento do número de escravos para o Norte, em especial para a cidade de Montes Claros, o autor destaca que, mesmo vivendo em um momento histórico que impunha obstáculos ao crescimento das escravarias – afinal, a partir de 1831 o Brasil sofre uma pressão pela extinção do tráfico negreiro, o que vai efetivamente ocorrer no ano de 1850, com a Lei Eusébio de Queiroz –, o contingente de cativos se preservou e até aumentou em alguns casos. O autor trabalha com indícios que lhe permitem avaliar que: “Diante de todas estas evidências, podemos trabalhar com a hipótese de reprodução natural nesta população como um todo, conforme já apresentado por vários autores”. (BOTELHO, 1994: 81)
É importante notar, segundo estudos de Klein e Luna, que alguns elementos permitem pensar também em outros aspectos para esse aumento da escravaria na região de Minas Gerais, mesmo diante de elementos que pareciam limitá-la. Segundo os autores, na recente obra Escravismo no Brasil: