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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. DANIEL ALVES DOS SANTOS. O PERDÃO: A ABORDAGEM DE GIRARD E OS BENEFÍCIOS EXISTENCIAIS DE UMA NOVA VISÃO DE PERDOAR. SÃO BERNARDO DO CAMPO. 2012.

(2) DANIEL ALVES DOS SANTOS. O PERDÃO: A ABORDAGEM DE GIRARD E OS BENEFÍCIOS EXISTENCIAIS DE UMA NOVA VISÃO DE PERDOAR. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de PósGraduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre. Orientação: Prof. Dr. Rui de Souza Josgrilberg. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2012.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA. L Alves do Santos, Daniel O perdão: a abordagem de René Girard e os benefícios existenciais de uma nova visão de perdoar/ Daniel Alves dos Santos. São Bernardo do Campo, 2012. 12333333333fl. Bibliografia Dissertação (Mestrado) – Universidade Metodista de São Paulo, Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Orientação de Rui de Souza Josgrilberg. Daniel Alves dos Santos.

(4) DANIEL ALVES DOS SANTOS. O PERDÃO: A ABORDAGEM DE GIRARD E OS BENEFÍCIOS EXISTENCIAIS DE UMA NOVA VISÃO DE PERDOAR. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de PósGraduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre. Orientação: Prof. Dr. Rui de Souza Josgrilberg. Data de defesa: 09 de Abril de 2012. Resultado:_____________________. BANCA EXAMINADORA:. Rui de Souza Josgrilberg. Prof. Dr. _______________________. Universidade Metodista de São Paulo. Jung Mo Sung. Prof. Dr. _______________________. Universidade Metodista de São Paulo. James Nicholas Francis Alison Fellow, Imitatio. Dr. __________________________.

(5) aos que se deixaram quebrantar pela Paixão, não retribuíram com a vingança, mesmo que na soma, tenham uma sensação de perda.

(6) AGRADECIMENTOS. A Jesus Cristo,. que por sua misericórdia e graça deu-me condições de vencer as dificuldades sempre com alegria e disposição.. Aos meus filhos, Lilian, Vivian, Lucas e Jhônatas que são parte da minha felicidade.. A Carmen, minha esposa, pelo amor que nos une a mais de 20 anos.. Ao Professor James Reaves Ferris por me ensinar a ser mais humano.. Ao Professor Jung Mo Sung por ter me apresentado René Girard e a sua teoria mimética.. Ao meu orientador Professor Rui de Souza Josgrilberg pela sua visão abrangente e a coragem de aceitar e me apoiar nesse desafio.. Aos meus amigos e amigas da Universidade Metodista, casa gostosa de morar, onde eu e minhas possibilidades intelectuais se encontraram..

(7) “Ouviste o que foi dito...Eu porém vos digo...” Jesus.

(8) ALVES DOS SANTOS, Daniel. O perdão: a abordagem de René Girard e os benefícios existenciais de uma nova visão de perdoar, 2012. Orientador: Rui de Souza Josgrilberg.. RESUMO. Em sua teoria mimética do desejo, René Girard apresenta Cristo como modelo ideal a ser seguido, uma vez que Jesus demonstrou como é possível resolver conflitos sem associá-los à vingança ou à violência. Através de sua vitimização na Cruz, Jesus revela toda a verdade de quem somos e quem Deus é, ao manifestar sua inocência, Ele reverte para si a acusação daqueles que se mantêm no círculo da auto justificação por transferência da culpa. Assim, o Cristo decide, por sua livre vontade, perdoar. Isto é, uma nova forma de perdão, que denominamos novum. Fundamentado no amor, ele vem de fora e fura o círculo da violência. O novum revela uma nova maneira de se relacionar com as pessoas que nos prejudicaram, de tentar compreender quem somos através do Outro. Essa nova mimesis valoriza a vida, a liberdade, o cuidado com o próximo, a reconciliação mais do que ofertas e sacrifícios. Trata-se de uma superação dialética, pois, apesar de nesse processo a decisão de perdoar estar de posse do sujeito sendo esta uma “via de mão única”, a decisão de reconciliação depende também do ofendido/ofensor, esta outra, “via de mão dupla”. Através do novum é possível mudar o sentido do passado, destruir a fatalidade e não ter necessidade de continuar como refém da culpa. Esta atitude possibilita o sujeito olhar o futuro com esperança. Ao focar a Paixão e a Ressurreição, o sujeito descobre quem ele realmente é e poderá decidir seguir o modelo Cristocêntrico. Essa decisão leva-o a sair da mimesis violenta e passar a elaborar a vontade, para então decidir perdoar àquele que o ofendeu. O sujeito, por fim, reconhece o perdão novum como modelo que ao ser imitado e doado é capaz de refazer a pessoa de seu doador, bem como àquele que é perdoado.. Palavras-chave: Girard, perdão, desejo mimético, Cruz, novum..

(9) ALVES DOS SANTOS, Daniel. Le pardon: l’abordage de René Girard et les avantages existentielles d’une nouvelle vision du pardonner, 2012. Conseiller: Rui de Souza Josgrilberg.. RÉSUMÉ. Dans sa théorie mimétique du désir, René Girard présente Jésus-Christ comme le modèle idéel pour être suit, une fois que Jésus a démontré être possible résoudre des conflits sans les associer à la vengeance ou à la violence. Grâce à leur victimisation sur la Croix, Jésus révèle toute la vérité à propos de qui nous sommes et par rapport à qui est Dieu. En exprimant son innocence, Il revient à lui-même la charge de ceux qui se maintiennent dans le cercle de l’autojustification, pour le transfert de la culpabilité. Ainsi, le Christ décide, à sa seule discrétion, de pardonner. C’est une nouvelle forme de pardon, que nos appelons novum. Enraciné dans l’amour, il vient de l’extérieur et perfore le cercle de la violence. Le novum révèle une nouvelle manière d’établir une relation avec les personnes qui nous ont lésés, en essayant de se comprendre à travers l’autrui. Cette nouvelle mimesis donne valeur à la vie, à la liberté, au prendre soin du prochain, à la réconciliation plus qu’aux offrandes et aux sacrifices. S’agit d’un dépassement dialectique, car tandis que dans ce cas la décision de pardonner est au sujet, et dépend de lui-même, la décision de réconciliation dépend aussi de l’offensé/offenseur, celle-ci, au contraire de l’antérieure, c’est « deux rue à sens unique ».Grâce au novum c’est possible changer le sens du passé, détruire la fatalité et ne plus avoir besoin de poursuivre comme otage à la culpabilité. Cette attitude-ci donne au sujet la possibilité de regarder l’avenir avec espoir. En mettant l’accent sur la Passion et la Résurrection, le sujet découvre qui il est réellement, et peut ainsi choisir suivre le modèle Christocentrique. Cette décision lui emmène à sortir de la mimesis violente et passer à élaborer la volonté, pour donc décider de pardonner ce qui lui a offensé. Le sujet reconnait, enfin, le pardon novum en tant que paradigme que, quand il est imité et donné, c’est capable de refaire la personne qui lui délivre et aussi celui qui est pardonné.. Mots-Clés: Girard, pardon, désir mimétique, Croix, novum..

(10) ALVES DOS SANTOS, Daniel. The forgiveness: René Girard's approach and existential benefits of a new way to forgive, 2012. Adviser: Rui de Souza Josgrilberg.. ABSTRACT. In his theory of mimetic desire, René Girard presents Christ as an ideal to be followed since Jesus has demonstrated how is it possible to solve conflicts without associating it to vengeance of violence. Through his victimization on the Cross, Jesus reveals the truth about whom we are and who the Lord is. By demonstrating his innocence, He reverts to himself the accusation of those keeping themselves on the circle of self-justification by transfer of guilt. Thereby, the Christ decides to forgive by his own will. This is a new form of forgiveness that is called Novum.The Novum reveals a new way to bond with people who have wronged us and to try to understand ourselves through the other. This new mimesis values life, freedom, and care for the neighbor, the reconciliation more than gifts and sacrifices. This is dialectical overcoming because in this process the decision of forgiving belongs to the subject and the decision of reconciliation also depends on the one that was offended.Through the novum it is possible to change the direction of the past, destroy fatality and not to continue being a hostage of guilt. This attitude allows the subject to look to the future with hope. Focusing on the Passion and the Resurrection the subject finds who he really is and will be able to decide to pursue the Christ centric model. This decision takes him off the violent mimesis to start to elaborate the will to decide to forgive the one that has offended him. Finally, the subject recognizes the novum forgiveness as a model that when is imitated and donated is capable of remaking the one forgiving as well as the one that is forgiven.. Key Words: Girard, forgiveness, mimetic desire, Cross, novum..

(11) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ____________________________________________________ 12 1 EM TORNO DE RENÉ GIRARD. POR QUÊ O PERDÃO? ______________ 18 1.2 Imitação, Desejo e Rivalidade 1.3 Deus versus Satanás: Arquimodelos 1.4 Os Evangelhos e as Vítimas 1.5 Perdão Novum na Paixão 1.6 Dissipando as Trevas 1.7 Livres de Escândalos. 21 26 32 35 43 49. 2 INTERPRETAÇÃO GIRARDIANA DA CRUZ ________________________ 56 2.1 Jesus, o Perdão de Deus 2.2 A Vitória do Amor 2.3 A Paciência da Vítima 2.3.1 Perdão Para Todos 2.3.2 A Nova Estrutura do Perdão 2.3.3 O Amor Cuidador 2.3.4 O Amor na sua Fonte: a Raiz do Perdão 2.3.5 A Maldade Estrutural se Revela diante da Inocência da Vítima 2.3.6 A Consumação e o Novo Gênesis 2.3.7 De volta a Deus: a Integridade do Amor Restabelecida 2.3.8 O Milagre da Ressurreição: a Vida diante do Novum 2.3.9 O Novum não faz Acepção de Pessoas. 59 62 64 64 67 70 74 77 78 82 87 90. 3 OS BENEFÍCIOS EXISTENCIAIS DO PERDÃO NOVUM ______________ 94 3.1 Mimesis velha e Mimesis nova: Superação Dialética 3.2 O Novum na Valorização da Vida 3.3 Perdoados para Perdoar 3.4 Culpa e Responsabilidade Pessoal 3.5 Culpa e Perdão 3.6 Lembrança, Novum e Esperança 3.7 A Procura de Paz 3.7.1 Perdão e Reconciliação 3.8 O Novum e a Esperança 3.9 O Novum como Produção Salugênica 3.9.1 O Espírito Santo, o Novum e a Oração. 94 98 102 106 109 112 116 119 122 127 130. 4 CONCLUSÃO ___________________________________________________ 134 REFERÊNCIAS ___________________________________________________ 139.

(12) 12. INTRODUÇÃO. Nesta pesquisa temos como objetivo entender quais as contribuições da antropologia de René Girard para os benefícios existenciais de uma nova forma de perdoar. Esta, uma possibilidade inaugurada pela vítima, Jesus, que mesmo sendo a própria encarnação de Deus e de sua palavra, ao invés de requerer vingança pelos atos maldosos de suas criaturas, incluindo sua morte, disponibiliza na Paixão, um perdão novum, capaz de recriar uma nova maneira de lidar com as ofensas recebidas. O presente trabalho se limita à temática ao perdão novum como um método de ler Girard em uma visão específica, mas que também traz consigo uma visão teológica geral. Apesar de a categoria do Novum não ser especificamente girardiana, ela descreve bem os conceitos da obra deste autor. Como ponto de partida, tomamos a teoria do desejo mimético na qual René Girard propõe uma leitura antropológica da Bíblia como paradigma de superação do desejo social que mata. O modelo girardiano apresenta Cristo, sua maneira de agir e pensar como a imagem do Deus invisível. É esta apresentação possibilita o ser humano, fadado a imitar o modelo que instiga violência, escolher, quer pela revelação da fé ou da ciência, imitar ao Cristo; que demonstrou como é possível imitar a Deus. Não obstante a violência ainda permanecer visivelmente na sociedade com seus bodes expiatórios, na Paixão, Jesus deixa cair toda condenação sobre si criando uma nova forma de pensar a vítima. Esta que era culpada das intempéries, das pestes e de todo o tipo de males que solapava a comunidade e, por isso, deveria ser morta para que a paz retornasse - é revelada na Paixão, não como culpada, mas inocente. Enquanto outras vítimas não tinham nenhuma capacidade de reação, Cristo1, sendo a própria encarnação de Deus, se entregou como cordeiro que é 1. No Getsêmane, quando os soldados do templo chegaram para prender Jesus, Pedro, feriu a espada o servo do sumo sacerdote. Mateus registra no capítulo 26.52,53: “Então Jesus disse-lhe: Mete no seu lugar a sua espada; porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão.Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?”.

(13) 13. levado ao matadouro2 sem nada reclamar a seu favor; e, Deus que poderia intervir para vingá-lo, não o faz. Em outras palavras: Deus não cobra dívidas, não concorda com o sistema do bode expiatório e, em sua essência, é amor. Há muitos estudos que tratam do problema da imitação (mimesis) ao longo da história do ocidente. Esta idéia prossegue até o Romantismo apenas sofrendo algumas variações nos sistemas filosóficos. Antes do advento da modernidade nenhum filósofo pensaria em um sujeito que pudesse ser radicalmente autônomo, que pudesse se desenvolver a partir de sua própria individualidade com idéias e desejos únicos. É Descartes quem propõe um sujeito capaz de pensar por si só e tomar suas próprias decisões sem a interferência do outro. A novidade em René Girard está na sua percepção da existência de uma espécie de imitação social, desconsiderada pela teoria platônica que conseguiu sobreviver mesmo após as idéias de Descartes. Para Girard, poetas e romancistas chegaram a essa mesma possibilidade em suas obras, porém sua reivindicação de superação antropológica está no campo científico. Para ele o ser humano não imita apenas comportamentos e noções das pessoas em sua volta, mas também imita os desejos de seus modelos3, que vão além de suas necessidades básicas.. Uma vez que suas necessidades primordiais tenham sido satisfeitas, o homem deseja intensamente, mas não sabe exatamente o quê, pois é o ser que ele deseja, um ser de que se sente privado e que todos os outros parecem possuir. 4. Preenchida suas necessidades biológicas, surge nele uma falta de ser ontológica deficiente de um objeto específico, isto é, o desejo. Esse objeto não é. 2. Isaias que profetizou aproximadamente setecentos antes do nascimento de Jesus, diz no capítulo 53.7 – “Ele foi ferido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca. 3 GIRARD, René. Mentira romântica e verdade romanesca. São Paulo: éRealizações, 2009. Tratase de uma análise das obras de Cervantes, Stendhal, Dostoiévski e Proust mostrando que a história do romance ocidental é também a história do desvelamento do desejo mimético. 4 GIRARD, René. A violência e o sagrado, p.179..

(14) 14. premeditado no indivíduo por não ter sua origem na individualidade, o que o separa do instinto. Para Girard:. O sujeito espera que este outro diga-lhe o que é necessário desejar para adquirir este ser. Se o modelo, aparentemente já dotado de um ser superior, deseja algo, só pode tratar de um objeto capaz de conferir uma plenitude de ser ainda mais total. Não é através das palavras, mas de seu próprio desejo que o modelo designa ao sujeito o objeto sumamente desejável. Retornamos uma idéia antiga, cujas implicações, no entanto, talvez sejam mal conhecidas: o desejo é essencialmente mimético, ele imita exatamente um desejo modelo; ele elege o mesmo objeto que este modelo. 5. Por esse caminho, Girard relê a formação da cultura e como o ser humano conseguiu desenvolver um método para mitigar a violência, possibilitando que o todos-contra-todos, que poderia dizimar toda a comunidade, fosse substituído pelo todos-contra-um capaz de trazer a paz. Prosseguindo, Girard se depara com a singularidade da Bíblia e dos Evangelhos que apresentam uma visão diferente não só desta maneira obscura de alcançar a paz, mas uma elucidação de todos os mitos. O mito e a história bíblica opõem-se na questão decisiva colocada pela violência coletiva, a do seu fundamento, da sua legitimidade. No mito, as expulsões do herói são sempre justificadas. No relato bíblico, isso nunca acontece. A violência coletiva é injustificável. No mito a vítima está sempre errada e seus perseguidores têm sempre razão. Na Bíblia dá-se o caso inverso.6. É na demonstração do arquimodelo Deus e a real oportunidade de poder imitá-lo que Jesus, se doa para ser vitimado. Por conseguinte, demonstra o engano de todos os mitos e também dos desejos humanos contaminados pela violência mimética. Além da Paixão de Cristo desocultar as forças espirituais que obscureciam o desejo humano, crava na própria Cruz toda condenação que caia sobre a humanidade por obter a paz pela morte de vítimas inocentes; além de fundamentar uma nova forma de perdoar. Esses benefícios possibilitam o. 5 6. Ibid., p.180. GIRARD, René. Eu via Satanás cair do céu como um raio, p. 141..

(15) 15. psiquismo superar a injustiça sofrida e eleva o sujeito a um viver mais saudável, não sendo necessário recorrer à vingança. Seguindo os pensamentos acima expostos, dividimos nossa pesquisa em três capítulos. No primeiro capítulo apresentaremos a teoria mimética de René Girard, tendo como foco sua antropologia. Revendo seus escritos e buscando neles os argumentos que dialogam com a Paixão de Cristo e a “mimesis nova” a qual não exige vingança. Propomos definir o novum da Paixão e a sua força de destruir a dívida, marcando a evolução que o Antigo Testamento passa a ter nos Evangelhos, indo além do mecanismo vitimário. Demonstraremos que Jesus não vive a Cruz no círculo mimético da violência, muito pelo contrário, ele rompe o círculo estabelecendo uma nova mimese que exige, para absorvê-la, estar livre do skândalon7. Para compreender o funcionamento dessa nova estrutura, pensamos o novum recorrendo aos Evangelhos e comparando-o com os mitos, por exemplo, o de Édipo. Sobre essa primeira parte, importa também, entendermos o Evangelho na etimologia da palavra, a saber: notícia alvissareira, boas novas para todos os homens em todos os lugares, independentemente de suas religiões. No segundo capítulo o desafio será discorrermos sobre a interpretação girardiana da Cruz, partindo da definição desta como meio ideal que possibilitou uma dessacralização dos sacrifícios. Nela, Jesus é a síntese do perdão de Deus porque absorve a violência como produto da cultura. Isto porque ele se apresenta como Deus sem qualquer necessidade de intermediários sacrificiais. Essa homogeneidade demonstra a capacidade amorosa do Pai pelo filho e também por toda a humanidade. A vitória da Cruz é a vitória do amor! Isto pode ser percebido no que foi feito por Jesus ao resumir todos os mandamentos em apenas dois, que ao serem cumpridos, cumpre-se também a Lei e os profetas. 7. Para o Pe. Fernando Bastos de Ávila em sua Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo, p. 233. O skândalon tem o significado de tropeço ou pedra que se tropeça. É um ato externo que é ou aparece como mal, capaz de exercer uma influência moralmente prejudicial sobre o comportamento alheio. Sua medida de gravidade está na força indutora e não na gravidade da falta cometida. Por isso gravidade do escândalo é relativa à situação atual do imitante, às circunstâncias de tempo e de lugar. Muitos atos que em um determinado tempo e lugar podem induzir ao mal, em outros circunstâncias não têm a mesma força indutora. Coisas que não escandalizam a adultos, podem constituir uma violência moral à menores. A violência da inocência é, evidentemente, a forma mais brutal e repugnante do escândalo..

(16) 16. Em ambos os mandamentos o amor está presente, o que nos permite dizer que o amor a Deus deve ser demonstrado pelo amor ao próximo. A paciência vivenciada e transmitida por Cristo em suas palavras enquanto crucificado demonstram amor, cuidado, esperança para todos. Na cruz, Cristo cria o “fundamento de um perdão novum” dando-lhe sustentação pela sua ressurreição. O que era sustentado pela vingança é agora fundamentado no amor, na gratuidade, na reconciliação. A graça da Cruz é absorvida possibilitando um aprendizado capaz de modificar totalmente o desejo. Orgulho e avidez dão lugar à outra face; àquela da não violência, capaz de devolver ao próximo o que deseja para si, sem tirar o foco da Cruz. No terceiro e último capítulo procuraremos identificar quais os benefícios existenciais do perdão novum comparando a (1) mimesis velha e a (2) “nova mimesis”. Enquanto a primeira é estruturada no humano onde tudo se esgota e possui validade, a outra, em sua essência, é divina. No novum se prioriza a vida e a liberdade. Tem como práxis a misericórdia, produzindo um perdão em profundidade de coração o qual se une com o desejo divino. Para usufruir da eficácia do novum é necessário seguir o modelo Cristocêntrico como Modus vivendi. Abordaremos o ganho psíquico quando decidimos perdoar. Quando esta decisão é tomada seguindo a “nova mimesis”, o passado “sofre” uma mudança de sentido projetando o sujeito para um viver mais saudável, refazendo-o como pessoa. Veremos a relação que existe entre o perdão, as fraquezas humanas e a tentativa de sermos perfeitos. E, ainda, o perdão, o Espírito Santo e a abertura para uma vida com esperança. Considerando que a violência tem tomado rumos que parecem difíceis de controlar e que a justiça pouco pode fazer quanto à restituição da “dignidade” da vítima, é preciso buscar outras fontes de conhecimento, nas quais os seres humanos possam encontrar alívio para sua dor e ter esperança de um futuro menos doentio. A vítima está presente em todas as sociedades, uma vítima que não consegue rever plenamente os seus direitos, principalmente quando esses se referem à perda irreparável, como a morte de um parente que foi vítima da violência. Neste caso, mesmo que a “justiça” seja alcançada, pouco se pode.

(17) 17. fazer pelo desejo de vingança que aflora naquele que perdeu um membro de sua família. É importante ressaltar que a teoria mimética de René Girard tem sido retomada como estudo no Brasil. Com intuito de divulgá-la, a editora éRealizações patrocinou em Setembro de 2011, o Congresso Internacional René Girard. Esse evento foi realizado para comemorar os 50 anos do lançamento de “Mentira romântica e verdade romanesca”. Depois de passar pelos Estados Unidos e Europa, o Congresso chegou ao Brasil trazendo consigo os principais autores8 com produções sobre o pensamento girardiano. Na ocasião foi possível constatarmos a influência da teoria mimética em vários campos, como por exemplo, na teoria quântica, na fenomenologia, nos governos (as armas atômicas como garantidoras da paz), nas ciências sociais e nas ciências humanas. Foi nesse evento que João Cezar de Castro Rocha em convênio com a éRealizações apresentou o Projeto da Biblioteca de René Girard, o qual visa promover, divulgar a obra e contribuir com a leitura do autor francês na América Latina. O projeto está editando 60 livros, englobando as obras de René Girard e a dos principais estudiosos de sua teoria mimética. Por fim, este trabalho pretende contribuir no campo das Ciências da Religião, bem como na Psicologia na medida em que visa estudar a relação entre o desejo mimético, a violência fundadora e os benefícios existenciais do perdão. Traz para a reflexão como o ser humano é sujeito desejante e necessita de modelos para fundamentar o seu desejo numa triangulação que perpassa o pensamento linear reinante.. 8. Entre os expositores da teoria mimética, estiveram presentes no Congresso Internacional René Girard no Brasil: James Alison, Jean-Pierre Dupuy, Benoît Chantrer, Daniel Lance, Cesáreo Bandera, Pablo Bandera, Carlos Mendoza-Álvarez, Michael Kirwan, Stéphane Vinolo, Robert Hamerton-Kelly, Mario Roberto Solarte..

(18) 18. 1 EM TORNO DE RENÉ GIRARD. POR QUÊ O PERDÃO?. “Se uma pessoa não tem uma religião verdadeira terá uma religião mais terrível...”9. Nosso objetivo neste capítulo é analisarmos as bases antropológicas da teoria mimética de René Girard a qual engloba uma releitura da Bíblia, principalmente dos Evangelhos. O intuito é entendermos que através da Paixão de Cristo o que sustentava o sistema violento, aparentemente necessário para se manter a paz, mostra a sua real finalidade. A Cruz dissipa as trevas, revela o que estava oculto por trás desse sistema sangrento e devolve ao ser humano a capacidade de imitar o Cristo. Cristo se move não pela vingança, mas pela misericórdia, onde o amor e o perdão são as bases dessa nova maneira de se resolver conflitos.. 1.1 A Violência Apaziguadora. O todos-contra-um mimético ou mecanismo vitimário tem, portanto, a espantosa, a espetacular, mas logicamente explicável propriedade de restituir a calma ao seio da comunidade, de tal modo perturbada um instante antes que nada parecia capaz de apaziguar.10. 9. GIRARD, René. Anorexia e desejo mimético, p. 67. René Girard é antropólogo, pensador e crítico literário francês, nasceu em Avignon, no dia 25 de dezembro de 1923. Seu pai trabalhava como curador do Museu da Cidade e do famoso “Castelo dos Papas”. Girard estudou no Liceu local e recebeu seu baccalauréat em 1940. De 1943 a 1947 estudou na École des Chartes, em Paris, especializando-se em História Medieval e Paleografia. A experiência da França ocupada foi muito importante para sua posterior visão do mundo. Em 1947 deixou a França, começando um doutorado em História na Universidade de Indiana, Bloomington. Durante o curso, ensinou Literatura Francesa na mesma universidade. Concluiu o doutorado em 1950 com a tese American Opinion on France, 1940-1943. Girard fixou residência nos Estados Unidos, tornando-se professor nas mais importantes universidades norte-americanas: Indiana; Johns Hopkins; Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo; e Stanford. 10.

(19) 19. A comunidade com o objetivo de preservar-se inventou um método que pudesse substituir o todos-contra-todos pelo todos-contra-um, possibilitando o aparecimento do que Girard chama de vítima expiatória ou bode expiatório.. É sem dúvida por esta razão que qualquer existência social seria impossível onde não houvesse vítima expiatória, e se, para além de um certo paroxismo, a violência não se resolvesse em ordem cultural. O círculo vicioso da violência recíproca, totalmente destrutiva, é então substituído pelo círculo vicioso da violência ritual, criativa e protetora.11. É justamente ao descobrir e aplicar o método da vítima expiatória que nasce a cultura. A cultura se estabelece em métodos de diferenciação. É a diferenciação que racionaliza a sociedade. Pela diferenciação é possível chegar aos responsáveis pelos atos e puní-los. Na indiferenciação ocorre o contrário, os responsáveis não são identificados correndo o risco de haver violência generalizada e a autodestruição da sociedade. Desse modo surge o “bode expiatório” como solução pacificadora para as crises. O bode expiatório não vem para acabar com a estrutura do desejo mimético 12 porque esse desejo é universal e imutável. O bode expiatório surge para regulamentar, para racionalizar a violência. A violência coletiva é canalizada para uma vítima. “O círculo vicioso da violência recíproca, totalmente destrutiva, é então substituído pelo círculo vicioso da violência ritual, criativa e protetora” 13. Do ameaçador “umcontra-o-outro” ou todos-contra-todos” passa ao pacificador “todos-contra-um”.. 11. GIRARD, René. A violência e o sagrado, p.179. Na mimesis podem ser percebidos três rumos ou leis: 1) Podem ser lógicas ou alógicas. São lógicas quando o imitante copia conscientemente o modelo (p. exemplo, o esforço para aprender o que pode enriquecer a personalidade pela incorporação de valores); são alógicas, quando o imitante não se apercebe de que está copiando atos e atitudes de outras pessoas, perdendo assim as características de sua própria personalidade, por exemplo, assumir características da voz de outrem (cantores), sem explorar sua própria voz; 2) A mimesis se processa de dentro para fora. Primeiro as idéias são aceitas, depois as atitudes e comportamentos correspondentes as mesmas, por exemplo, as idéias de um movimento religioso primeiro as crenças, depois os ritos; muitas vezes as crenças se perdem e continuam a praticar os ritos; 3) A mimesis é inspirada de cima para baixo, isto é, as classes economicamente mais fortes são imitadas pelas classes mais modestas. Saber imitar e imitar para melhorar é, sem dúvida, forma inteligente de realização da própria personalidade, com repercussão de alto valor na vida comunitária, escreve o Frei Fernando Bastos de Ávila, Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo, p. 231. 13 Ibid., p. 179. 12.

(20) 20. Para Girard essa estrutura está presente em todos os mitos e relatos literários: Édipo, Caim, a Paixão. Os mitos manifestam as mesmas estruturas: crise. mimética,. homicídio. fundador,. (re)constituição. dos. sistemas. de. diferenciação. Eles narram à história do ponto de vista dos perseguidores e não das vítimas. Todos esses escritos, mitos e relatos históricos mostram o ponto culminante da crise mimética dentro da comunidade onde a solução encontrada foi o linchamento coletivo ou o bode expiatório. Dessa forma, passa-se da indiferenciação para diferenciação, racionalizando a violência para que ela não se generalizasse. Assim a violência sacrificial e os mitos que a relatam não são violência em si, mas estão sempre orientados para a paz. O sacrifício tem a função apaziguadora. Para ser bem sucedido, o sacrifício precisa de uma vítima que não possa reagir, deve ser incapaz de requerer vingança, por isso, os sacrificados são animais, crianças, escravos, enfim, pessoas à margem da sociedade. Girard diz que:. Convém perguntar se o sacrifício ritual não se baseia em uma substituição do mesmo tipo, embora em sentido inverso. Podemos pensar, por exemplo, que a imolação de vítimas animais desvia a violência de certos seres que se tenta proteger, canalizando-as para outros, cuja morte pouco ou nada importa.14. Assim a violência acumulada na sociedade é transferida para o ódio homicida contra a vítima. Os agressores identificam na vítima a real causadora do mal que sobreveio à comunidade. Por causa da vítima sacrificada, a comunidade usufrui da paz proporcionando a sobrevivência da vítima na mente dos seus vitimadores. Por causa dessa paz advinda pelo sacrifício, a sociedade transfere para a vítima sacrificada, um aspecto de transcendência.. O sacrifício tem aqui uma função real, e o problema da substituição coloca-se no nível de toda comunidade. A vítima não substitui tal e qual indivíduo particularmente ameaçado e não é oferecida a tal e tal indivíduo sanguinário. Ela simultaneamente substitui e é oferecida a todos os membros da comunidade, por todos os membros da comunidade. É a comunidade inteira que o sacrifício protege de sua própria violência, é a comunidade inteira que se encontra assim 14. Ibid., p.13..

(21) 21. direcionada para vítimas exteriores. O sacrifício polariza sobre as vítimas os germes de desavença espalhados por toda a parte, dissipando-os ao propor-lhes uma saciação parcial.15. A violência sacrificial foi à solução encontrada pela comunidade para trazer a paz de volta ou não deixá-la se esvair por completo. Pelo rito o homem descobriu uma forma de incluir toda a comunidade nos benefícios do sacrifício possibilitando uma reconciliação paradoxal possível. Se por um lado os homens que desejam a mesma coisa nunca se entendem, por outro lado, os que odeiam em conjunto o mesmo adversário, se entendem muito bem. Assim, na participação de todos na canalização do ódio para uma única vítima, acontece como que uma catarse proporcionando paz para todos. Dessa forma, “A violência unificadora não é somente a origem do religioso, é a origem da própria humanidade”16.. 1.2 Imitação17, Desejo e Rivalidade. René Girard (1999) formula um sistema antropológico para explicar a origem da cultura e a estrutura da violência nas sociedades.. Para ele os. fenômenos sociais estão entrelaçados com o sagrado e este com a violência. Diante da possibilidade de violência generalizada, a comunidade lança mão do 15. Ibid., p. 19. GIRARD, René. Coisas ocultas desde a fundação do mundo, p.121. 17 A idéia de mimesis em Girard aparece como mimesis de repetição, mas na literatura é possível encontrar vários tipos de imitação, por exemplo, na arte, na música, no teatro, na pintura. Citamos aqui três textos onde é trabalhado a mimese na arte. O primeiro: PLATÃO. Imitação, cópia e simulacro. In: LICHTENSTEIN, Jaqueline. A pintura. Textos essências, v.5. Da imitação a expressão. São Paulo: Editora 34, 2008, p.17-22. A autora comenta que na República, Platão (428-348 a. C.) ataca violentamente a pintura, como também o poeta dramático. Para ele a pintura está afastada em três graus, uma vez que o pintor imita um objeto que já é por sua vez uma imitação, uma imagem uma idéia. Cita o célebre exemplo das três camas. A Idéia da cama, a cama fabricada pelo artesão que contempla a idéia, e a cama do pintor que imita o artesão. Acrescenta ainda a mimese pictórica que não é uma cópia fiel, mas um simulacro enganador onde o pintor é forçado a se afastar das proporções reais para produzir uma imagem que pareça verdadeira, isto é, que dê ao espectador a ilusão de ver a própria coisa. Outro texto: ARISTÓTELES. Poética. Edição do texto grego in: Aristote Poétique. Paris: Belles Lettres, 8. Ed., 1979. Nesse texto, Aristóteles (384-322 a.C.), não obstante suspender a condenação platônica da pintura não renúncia as exigências da Idéia, do saber e da verdade. Na Poética, capítulo IV, Aristóteles define imitação como uma tendência natural, como um instrumento de conhecimento e meio de prazer. Assim, salva a mimese artística de todas as acusações que Platão havia feito contra ela. O imitar é congênito do homem e os homens se comprazem no imitado. Uma terceira fonte são as notas e os comentários que acompanham a nova tradução da Poética, de Aristóteles, por R. Dupont-Roc e J. Lallot, nas edições Seuil, Paris, 1980. Por último citamos Quatremère de Quincy. De l’imitation, Bruxelas, Archives d’Architecture Moderne, 1980, I, II, e XIV. 16.

(22) 22. sagrado como ferramenta reguladora. Nesse processo, Girard identifica a fundação da cultura onde a violência é parte fundamental do sagrado e esta violência é sempre sacralizada. A primeira solução diante da crise é o sacrifício vitimizador. Esse canaliza para uma única vítima o ódio de todos. Assim, vítima fundadora ou bode expiatório separa a comunidade: de um lado a comunidade, do outro lado, a vítima. Após descobrir e praticar esse mecanismo como apaziguador de crises, a sociedade desenvolveu meios para ritualizar com freqüência os sacrifícios, dando à vítima, que trouxe à paz, um caráter transcendental, possibilitando assim, o início do sagrado. Isso funcionou e ainda funciona devido o ser humano ser um animal mimético. Após ter suas necessidades biológicas satisfeitas, surge nele uma falta de ser, que não pode ser preenchida por um objeto específico, nem pode ser predeterminado pelo sujeito. Então, para suprimir essa falta de ser, o sujeito passa a desejar o que o outro deseja.. Uma vez que suas necessidades primordiais tenham sido satisfeitas, e às vezes mesmo antes disso, o homem deseja intensamente, mas não sabe exatamente o que, pois é o ser que ele deseja um ser de que se sente privado e que todos os outros parecem possuir.18. Esse desejo não tem origem na individualidade. É essencialmente volúvel e seus objetos decorrem da imitação. O sujeito espera que o outro lhe diga o que deve ser desejado a fim de adquirir esse ser que lhe falta. Para Girard, “O desejo é essencialmente mimético, ele se calca sobre um desejo modelo; ele elege o mesmo objeto que esse modelo” 19. Assim como um brinquedo que está num canto desprezado se torna desejável por uma criança quando outra o usa para brincar.. O desejo adulto não difere de nada dele, salvo que o adulto, em particular em nosso contexto cultural, normalmente tem vergonha de se modelar sobre o outro; ele tem medo de revelar sua falta de ser. Declara-se altamente satisfeito consigo mesmo;. 18 19. GIRARD, René. A violência e o sagrado, pp. 204-5. Ibid., p. 205..

(23) 23. apresenta-se como modelo para os outros; cada um vai repetindo: “Imitai-me”, a fim de dissimular sua própria imitação 20.. Sendo o desejo mimético, o sujeito deseja o ser de outro sujeito e não o objeto em si. Sujeito A deseja objeto X porque sujeito B deseja objeto X. Esta dinâmica Girard denomina como mimesis de apropriação, ou seja, o desejo de se apropriar do objeto do modelo. O desejo mimético, na maioria das vezes é inconsciente, mas não se pode confundir com o desejo da psicanálise, pois se trata de algo real, de objeto concreto que gera crise quando sujeito e modelo se aproximam.. Em decorrência da proximidade física entre sujeito e modelo, a mediação interna tende a tornar-se mais simétrica; pois, à proporção que o imitador deseja o mesmo objeto desejado pelo seu modelo, este tende a imitá-lo, a tomá-lo como modelo. Assim, o imitador torna-se, ao mesmo tempo, modelo de seu modelo; imitador de seu imitador.21. Esta relação de proximidade entre os sujeitos estabelece a rivalidade mimética que é a imitação do desejo do outro. “Não é através de palavras, mas de seu próprio desejo que o modelo deseja ao sujeito o objeto sumamente desejável”22. A partir de então instala-se a crise mimética devido a confusão de papéis e não existindo mais objeto a rivalidade não terminará. Objeto, desejo e sujeito tornam-se um único elemento. Essa indiferenciação é a gênese da violência: a estrutura do desejo é a estrutura da violência. Mas há de se perguntar: donde vem esta estrutura da violência? Sabemos por Girard que ela é a formadora e mantenedora das sociedades.. A primeira cultura humana vê suas raízes num primeiro assassinato coletivo, análogo à crucificação. (...) o que se produz desde a fundação do mundo, quer dizer desde a fundação violenta da primeira cultura humana, são assassínios sempre análogos à crucificação, fundados no mimetismo, assassínios fundadores por conseqüência, por causa do equívoco a respeito 20. GIRARD, René. Loc. cit. GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim, p.87. 22 GIRARD, René. A violência e o sagrado, p. 180. 21.

(24) 24. da vítima, causado pelo mimetismo. Mateus e Lucas sugerem que o assassino tem um caráter fundador, que o primeiro assassínio e fundação da primeira cultura são a mesma coisa.23. Mas o que isso tem a ver conosco? O texto no Evangelho de João capítulo 8, versículo 44 esclarece: “Vós tende por pai o diabo, quereis satisfazer os desejos de vosso pai: ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira”. Para Jesus, existe uma ligação de todo o ser humano com a violência. No mesmo capítulo, versículo 33 lê-se: “Responderam-lhe: somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?”. Não obstante se declararem como livres, as suas obras não condiziam com as suas palavras. Analisando esta passagem bíblica, o girardiano James Alison (2010), escreve: “a palavra descendentes – literalmente “semente” – vem da palavra grega esperma”24. Isto está correto em relação a sua genealogia.. Até agora eles estão colocando algo que ninguém poderia colocar em dúvida, que são todos descendentes de Abraão, que partiu em suas andanças principalmente para ir além da ordem cosmológica e se livrar dos ídolos. Ele foi, de fato, o iniciador do programa anti-idolatria que está sendo discutido.25. O que está em destaque é a liberdade e não existe liberdade quando estamos vinculados a algum tipo de idolatria. Os interlocutores de Jesus “alegaram que, pela graça de serem da semente de Abraão, estavam livres da idolatria e, portanto, livres” 26. Mas Jesus mostra a diferença; “que ser um descendente de Abraão não é o mesmo que ser um filho do Deus de Abraão. A diferença se torna evidente pelo fato de eles estarem preparados para matar. 23. GIRARD, René. Eu via Satanás cair do céu como um raio, p.113. GIRARD, René. Loc. cit. 24 ALISON, James. Fé além do ressentimento, p. 103. 25 ALISON, James. Loc. cit. 26 Ibid., p. 104. 23.

(25) 25. Jesus”27. Ao ser chamado para fora de sua pátria e de sua descendência 28, Abrão, que vai passar a ser chamado de Abraão, reponde por uma fraternidade aberta que “está livre da idolatria do “olho por olho”, e só ela pode tornar visível a subversão, desde do interior, dissolvendo a idolatria do “olho por olho” 29. E o que se entende por idolatria? “Por idolatria entende-se um pertencimento que exige sacrifícios”30. Jesus mostra para os religiosos que o Deus de Abraão é um Deus contrário a violência e que a vingança/morte não faz parte de seu Ser. Para se dizer filho de Abraão é necessário não ser idólatra, procedendo assim se faz filho de Deus e essa possibilidade fica clara quando qualquer ser humano, em qualquer nação, imita o Cristo. Um exemplo que mostra que os filhos de Abraão imitam as obras de Abraão pode ser visto no encontro de Jacó e Esaú. Jacó, depois de vinte anos longe de sua casa paterna de onde saiu fugido e jurado de morte pelo seu irmão Esaú, resolveu voltar. Sabendo que seu irmão vinha ao seu encontro com grande número de homens31, dividiu sua família em três grupos com a intenção de salvar pelo menos um. Porém, antes desse possível desastroso encontro familiar, Jacó teve um encontro, face a face, com o Deus de Abrãao.. Jacó se vê lutando com Deus, Misteriosamente, Deus se manifesta em forma claramente humana, no mesmo nível (Gn 32. 22-30), de Jacó. É nessa luta que Jacó “prevalece diante de Deus”, percebendo que viu Deus face a face. Depois da misteriosa luta, ele foi capaz de reconhecer seus malfeitos 32 e pôde olhar o seu irmão Esaú de frente – face a face. Portanto,. 27. Ibid., p. 105. BÍBLIA SAGRADA. Genesis capítulo 12, versículo 1, 2 e 3 diz: “Ora, o Senhor disse a Abrão: Saí-te da tua terra, e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E farte-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome e tu serás uma benção. E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra”. 29 ALISON, James. Op. cit., p. 119. 30 Ibid., p. 122. 31 Para se entender todo o contexto faz-se necessário ler toda a história que circula esse episódio no livro do Genesis capítulo 25 até o capítulo 33. 32 Outro relato fundamental para entendermos a luta de Jacó com Deus e que fica claro o seu arrependimento está no livro de Oséias capítulo 12, versículo 1 ao 5, mas o versículo 4 é fundamental pois diz que ele “chorou e lhe suplicou”. 28.

(26) 26. ele foi capaz de viver em paz com o seu irmão – transformandose em Israel, uma comunidade de irmãos.33. Ver Deus face a face nada mais é que ver Cristo face a face, é conhecê-lo. Esse conhecimento nos mostra que pelo aprendizado da fraternidade podemos resolver os conflitos em nosso tempo presente. A presença de Cristo é, indubitavelmente, a presença de Deus e isso é fato quando Deus fala de seu filho, concorda Alison (2010), “Os únicos pontos, nos Evangelhos, em que a voz paternal de Deus aparece de forma independente da de Jesus são precisamente aqueles em que ela nos indica que é a Jesus que devemos ouvir e que nele Deus é glorificado”34. Logo, para Girard, é impossível sairmos da mimesis da violência se não passarmos pela Cruz. Ou reconhecemos a nossa índole violenta e idólatra que é levada a requerer sacrifícios e assim, de forma religiosa ou não, seguimos o modelo apresentado por Cristo ou continuaremos envolvidos na mimesis violenta reforçada pelo capitalismo que intensifica os meios para se levar vantagem em tudo.. 1.3 Deus versus Satanás: Arquimodelos. Girard entende que a melhor maneira de prevenir o ser humano da violência contra seu próximo não esta na proibição dos objetos e nem mesmo em fornecer aos homens regras que os proíbam de desejar 35, mas fornecer um modelo que possibilite que os homens se protejam das rivalidades miméticas. É para esses seres, envolvidos em um universo dominado pelo mimetismo, o qual. 33. ALISON, James. Fé além do ressentimento, p. 124. Ibid., p.130. 35 GIRARD se refere ao décimo mandamento registrado no livro de Êxodo 20.17: “Não cobiçarás a casa de seu próximo, não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma de seu próximo”. Há outra referência aos Dez Mandamentos no livro de Deuteronômio capítulo 5. Enquanto em Êxodo o texto se refere a não cobiçarás, em Deuteronômio aplica-se o verbo “cobiçar” a mulher do próximo e as demais coisas como: a casa, o campo, o servo, a serva, o boi, o jumento ou outra coisa usa-se o verbo “desejar”. 34.

(27) 27. se funda no egoísmo, no orgulho e está vinculado a existência humana que Jesus apresenta um modelo a ser imitado, capaz de libertá-los.. Sem desejo mimético não haveria liberdade nem humanidade. O desejo mimético é intrinsecamente bom. (...). O próprio do desejo é não ser próprio. Para desejarmos verdadeiramente, temos de recorrer aos homens que estão a nossa volta, temos que lhes imitar os desejos.36. Para exemplificar o mimetismo do desejo, René Girard busca na própria sociedade uma explicação.. Se o desejo não fosse mimético, as crianças não escolheriam forçosamente, para modelos os seres humanos que as rodeiam, a humanidade não teria linguagem, nem cultura. Se o desejo não fosse mimético, não seríamos abertos nem ao humano nem ao divino. É necessariamente, deste último domínio que a nossa incerteza é maior e a nossa necessidade de modelo mais intensa. O desejo mimético faz nos escapar à animalidade. É, em nós, responsável pelo melhor e pelo pior. Pelo o que nos faz descer abaixo do animal, assim como o pelo que nos eleva acima dele. As nossas intermináveis discórdias são a contrapartida de nossa liberdade.37. Assim como a criança que aprende com o exemplo, o adulto deve levantar barreira para não ser tragado pelo mimetismo destruidor. Esse mimetismo possui um “imã gravitacional” que Jesus nomeia como escândalo. Jesus toma como exemplo um menino38 para explicar aos seus discípulos a diferença entre o maior e menor no reino de Deus e a necessidade de humildade para se fazer parte dele. A criança é um modelo de inocência e confiança, nela, assim como em Jesus, as pessoas poderão ser levadas a se escandalizar. “Quanto mais inocente e confiante é a imitação, mas facilmente se escandaliza, mas se é 36. GIRARD, René. Eu via Satanás cair do céu como um raio, p. 32. Ibid., p. 33. 38 GIRARD se refere a passagem do Evangelho de Mateus capítulo 18. Neste relato os discípulos querem saber quem é o maior no reino dos céus. Jesus, ao tomar como exemplo um menino, explica-lhes que para entrar no reino dos céus é preciso conversão e humildade. Jesus fala-lhes do escândalo e o valor do reino dos céus afirmando que a entrada no reino é tão prioritária que se um dos membros do corpo os escandaliza e eles desejam entrar no reino dos céus é preciso, ter coragem, arrancá-lo e atirá-lo para longe de si. Para Jesus é melhor entrar no reino dos céus faltando um membro do que ir para o inferno em perfeito estado físico. 37.

(28) 28. culpado de se abusar dela. Quando mais o escândalo nos causa repulsa, mais nos atrai39”. Os seres humanos individualmente não são condenados a uma rivalidade mimética, mas vivemos em sociedade e essa sociedade é composta por milhões de pessoas, logo “a partir do momento em que acontece o primeiro escândalo, esse concebe outros e o resultado é crise mimética40 que não para de se alastrar e se agravar”41. Para Girard, “qualquer mimesis relacionada ao desejo conduz necessariamente ao conflito”42. Segundo esse autor, por trás de toda imitação está presente dois modelos. “Tal como Jesus, Satanás procura fazer-se imitar, mas não da mesma forma, não pelas mesmas razões”43. Nisto, ele Satanás procura ser como Deus, apresentando-se como modelo a ser imitado, porém não exigindo nenhum requisito que possa limitar a violência.. Se escutarmos este mui amável e muito moderno professor, sentimo-nos primeiro libertos, mas esta impressão não dura, pois, se escutarmos Satanás, ficamos privados de tudo que protege do mimetismo conflitual. Em vez de nos advertir contra as armadilhas que nos esperam, Satanás faz-nos cair nelas; aplaude a idéia de que as proibições “para nada servem” e que a sua transgressão não comporta qualquer perigo.44. Sendo o semeador de contendas, Satanás propõe a desordem através daqueles que o imitam e depois, sem perder a sua condição de modelo, apresenta a solução para o conflito que aqueles que o imitaram conseguiram promover.. A fim de impedir a destruição de seu reino, Satanás faz da sua própria desordem, no seu paroxismo, um meio de se expulsar a. 39. GIRARD, René. Op. cit., p. 34. Em GIRARD, desejo, objeto e violência se confundem. O núcleo do desejo não é mais o objeto, mas a violência contra o outro. 41 GIRARD, René. Loc. cit. 42 GIRARD, René. A violência e o sagrado, p. 180. 43 GIRARD, René. Eu via Satanás cair do céu como um raio, p.53. 44 GIRARD, René. Loc. cit. 40.

(29) 29. si mesmo45. Assim Satanás pode sempre voltar a por ordem suficiente no mundo, de forma a prevenir a destruição total de seu bem sem se privar durante muito tempo de seu passa tempo favorito, que é o de semear a desordem, a violência e a infelicidade entre os homens.46. Logo se percebe que o ciclo mimético começa com Satanás e termina em Satanás. Satanás como modelo opõe-se ao nosso desejo. Nesse sentido, ao pensar que tem controle sobre si e tudo que faz é decidido pela autêntica liberdade o ser humano, não passa de marionete controlado pelo seu arquimodelo.. O ciclo mimético começa com o desejo e com as rivalidades, desenvolve-se pela multiplicação dos escândalos e pela crise mimética e resulta, finalmente, num mecanismo vitimário que é a resposta à questão colocada por Jesus 47: “Como é que Satanás expulsa Satanás”.48. No Evangelho de João49, Jesus identifica aqueles que diziam ser filhos de Abraão, porém queriam matá-lo; ao invés de amá-lo o odiava porque ele lhes dizia uma verdade duríssima de ser suportada e que não podia e nem pode ser entendida até mesmo por aqueles que professam uma religião mas estão presos ao mimetismo da violência. Para Girard:. Estas pessoas têm por Pai o Diabo porque são os desejos do Diabo que querem realizar e não os desejos de Deus. Toma o 45. Ibid, p. 56. Ibid, p. 58. 47 BÍBLIA SAGRADA. Mateus capítulo 12 versículo 26: “E, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá pois o seu reino?”. 48 GIRARD, René. Op. cit., p.59. 49 BIBLIA SAGRADA. Evangelho de João capítulo 8, versículos 40- 44. “Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos tem dito a verdade que de Deus tem ouvido; Abraão não fez isso. Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus. Disse-lhes Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, certamente me amaríeis, pois que eu saí, e vim de Deus; não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. Porque não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira”. 46.

(30) 30. Diabo como modelo de seus desejos. Trata-se aqui exatamente do desejo mimético, na mais pura acepção da expressão. Mais uma vez, as noções de Pai e modelo. Ao qual o desejo humano, por falta de um objeto que lhe é próprio, não consegue renunciar, são uma só.50. Jesus como palavra de Deus, como Deus encarnado nos “convida a imitar o seu próprio desejo, é o impulso que o guia Jesus, em direção ao objetivo51 que fixou para si: parecer-se quanto possível com o Pai”52. Jesus tem um propósito. “O seu propósito é tornar-se a imagem perfeita de Deus53. Assim consagra todas as suas forças à imitação do Pai. Ao convidar-nos para imitá-lo convida-nos para imitarmos a sua própria imitação”54. Deus assim como Jesus não faz acepção de pessoas 55 por isso são modelos ideais a ser imitados, “porque nem o Pai nem o Filho desejam de uma forma ávida, egoísta. Deus “ilumina quer maus quer os bons”. Dá aos homens sem contar, sem marcar entre eles a mínima diferença 56. Por isso pode-se pensar em um Cristo que se identifica perfeitamente com a vítima. Jesus quer iluminar os homens para que eles reflitam e saiam da escuridão, da dúvida, da cegueira alimentada pelo arquimodelo do mal. Girard diz que “quando não se vê a escolha entre os dois arquimodelos, Deus e o Diabo, é inevitável, já se escolheu o Diabo, o mimetismo conflitual57. Nesse caso, é na dúvida que o Diabo mantém sua camuflagem. No seu ministério terreno, Jesus se propõe com todas as suas forças a ensinar, por palavras e por obras, um grupo de pessoas como é imitar a Deus. 50. GIRARD, René. Op. cit., p. 61. BÍBLIA SAGRADA. João capítulo 5, versículo 30: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma: como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco aminha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou”. 52 GIRARD, René. Op. cit., p.30. 53 BÍBLIA SAGRADA. João capítulo 6, versículo 38: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. 54 GIRARD, René. Loc. cit. 55 BÍBLIA SAGRADA. Deuteronômio capítulo 10, versículo 17: “Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas”. Este texto se repete em várias partes das Escrituras, entre elas podemos citar Atos capítulo 10, versículo 34: “E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas”. 56 GIRARD, René. Loc. cit. 57 Ibid, p. 64. 51.

(31) 31. Quando ensinava seus discípulos para que evitassem de se escandalizar por sua causa, ele não estava apenas lhes ensinando algo a respeito dele, mas algo a respeito deles, ou seja, o que é viver num mundo que skandala. Isso quer dizer não estava apenas preparando um grupo particular de pessoas, em circunstâncias particulares, para que evitassem se escandalizar por causa de um evento em particular; mas ele fazia isso como parte de um ensinamento geral que compreendia a condição humana, algo que envolveria um certo tipo de imitação chamado de discipulado, uma espécie de imitação que compreende a mudança de um ser, até então preso em forma de desejo que levam à vitimação, dirigindo-se para uma forma a qual, tendo-se em vista a estrutura desse mundo, levará o discípulo a correr sério risco de sofrer vitimação.58. A vida exemplar de Jesus e sua demonstração de como deveriam imitar o Pai foi absorvida de tal maneira pelos apóstolos que todos eles, menos o apóstolo João59 que morreu por morte natural, foram vitimados. Logo se percebe um antagonismo entre carne60 e Espírito61. “O skádalon define o antigo desejo (em João, a carne), ao passo que o Espírito define o último”62. Toda essa vida exemplar demonstrada por Jesus teria sido esquecida se ele não tivesse ressuscitado63. A ressurreição é a garantia que a morte não é um obstáculo que não podia ser transposto.. Somente com a ressurreição, no momento que é removida a pedra do túmulo de Jesus, remover-se-á o obstáculo final. O obstáculo que será removido é aquele que impedia a humanidade de seguir e imitar um outro homem, numa senda de. 58. ALISON, James. O pecado original à luz da ressurreição, p.233. DOUGLAS, J. D. (Org). O novo dicionário da bíblia, pp. 832-834. 60 BÍBLIA SAGRADA. Gálatas capítulo 5, versículos 19 ao 21 traz uma relação de práticas baseadas no egoísmo e mimesis violenta. No versículo 21 lê-se: “Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a cerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus”. 61 Ibid., capítulo 5, versículos 22 e 23, Paulo escreve: “Mas o fruto do Espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei”. 62 ALISON, James. O pecado original à luz da ressurreição, p.233. 63 BÍBLIA SAGRADA. Paulo escreve na carta de 1 Coríntios capítulo 15, versículo 14: “E, se Cristo não ressuscitou logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé”. 59.

(32) 32. autodoação que considera substância.64. a morte como destituída. de. De posse da certeza da ressurreição de Jesus 65, cônscios da sua morte como vítima inocente, os discípulos entenderam que a morte não poderia ser um obstáculo para eles seguissem a Cristo e sim, que como Cristo, eles viveriam como modelos a serem imitados e por isso poderiam ser vitimados.. Dessa forma, os discípulos puderam pelo menos ser uma testemunha, e depois de sua morte eles foram capazes de reproduzir a imitação de sua autodoação a caminho da execução, dando testemunho ao Pai, sem medo da morte.66. Pensando assim, a vida de Cristo e de seus discípulos tem sido inspiração para muitos. Nesse caminho aberto por Jesus, segue não somente os discípulos, mas todos aqueles que vivenciam a abrangência da sua graça por experimentarem: (1) a clareza de quem Jesus é; (2) o poder revelador da Paixão; (3) saber a real intenção do arquimodelo Satanás; e, (4) poder tomar posse de sua liberdade desvinculada de qualquer forma de idolatria.. 1.4 Os Evangelhos e as Vítimas. Para Girard o cristianismo, baseado no Evangelho, tem uma chave que possibilita ler a mitologia. Sobre isso escreve:. O Evangelho se torna, portanto, a chave hermenêutica que possibilita reler tanto a mitologia quanto as antigas escrituras como progressiva tomada de consciência histórica da matriz 64. ALISON, James. Op. cit., p. 232. BÍBLIA SAGRADA. Lucas falando de Jesus para seu amigo Teófilo em Atos capítulo, 1 versículo 3 escreve: “Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus”. 66 ALISON, James. O pecado original à luz da ressurreição, p.232. 65.

(33) 33. violenta da ordem cultural, e o sacrifício de Cristo como o momento de ruptura do equilíbrio que mantinha estável, recorrente, mítico, o mecanismo simbólico-religioso sobre o qual estavam fundamentadas as sociedades arcaicas.67. Girard defende que o cristianismo é revelador porque através dele o homem livrou-se da recorrência a bodes expiatórios e imolações para resolver as crises que atingiam as comunidades. Também pelo cristianismo a comunidade se conscientizou de que as vítimas sobre as quais recaia a culpa, dos males inexplicáveis, eram inocentes. Girard culpa a antropologia pela maldade atual. Segundo ele, a “antropologia faliu porque não conseguiu explicar as diversas culturas humanas como um fenômeno unitário”68 e isso permitiu que a maldade permanecesse até hoje. Para Girard a verdade é que possibilita a libertação do mecanismo vitimário, “seja ela revelada ou descoberta pela ciência” 69; em ambos os casos torna-se necessário ter fé proporcional e individual naquilo que se pretende crer. Assim, essa revelação, feita através da Paixão, desoculta aquilo que fazia da violência um meio eficaz para se obter a paz.. No caso dos mitos, o princípio divino é na realidade a violência que traz a paz através dos mistérios do sacrifício expiatório e ritual, a boa violência que expulsa a má. Nos Evangelhos essa violência é definida não como divina, mas como satânica: é o poder de “expulsar Satanás” dado temporariamente ao próprio Satanás e agora reivindicado por Cristo.70. Se procurarmos um antagonismo entre cristianismo e mitologia não é possível ver o quanto eles se parecem. Para Girard “as semelhanças entre cristianismo e os mitos são demasiado perfeitas para não levantar a suspeita de. 67. GIRARD, René; VATTIMO, Gianni. Cristianismo e Relativismo, p.8. Ibid., p. 51. 69 Ibid., p. 64. 70 Ibid., pp. 117,118. 68.

(34) 34. uma recaída no mítico”71. Por isso Jesus é contundente em toda a sua postura para romper com essa potente imitação.. Se a transferência que demoniza a vítima for muito forte, a reconciliação é tão súbita e perfeita que parece milagrosa e suscita uma segunda transferência que se propõe à primeira, a transferência de divinização mitológica.72. Nessas divinizações míticas há um fortalecimento da comunidade e se acaso houver alguma discordância sobre essas divinizações, elas serão vencidas pela aceitação da maioria, isso é diferente no cristianismo. “Em torno das divinizações míticas, nunca se vê a comunidade fracionar-se em dois grupos desiguais no qual apenas o menor proclamaria a divindade do deus. A estrutura da revelação cristã é única”73. Os Evangelhos, ao contarem a vida e obra de Jesus “revelam tudo que os homens têm necessidade para compreenderem as suas responsabilidades em todas as violências da história humana e em todas as falsas religiões” 74. Isso aparece em várias ações de Jesus, sobretudo ao proclamar o perdão durante a sua crucificação: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem”. Esse perdão: Fala da incapacidade dos mobilizados para distinguirem os impulsos miméticos que os mobiliza. Os perseguidores “acreditam que estão a agir corretamente”, julgam atuar em nome da justiça e da verdade, pensam que estão a salvar a comunidade.75. A consciência cauterizada pelo próprio senso de verdade e de justiça que pairava sobre a defesa da Lei, joga luz sobre a mentira reinante revelando “a auto-ilusão dos violentos, o Novo Testamento dissipa a mentira de sua violência; enumera tudo aquilo de que precisamos para rejeitar a visão mítica de nós. 71. GIRARD, René. Eu via Satanás cair do céu como um raio, p.155. Ibid., p. 157. 73 Ibid., p. 158. 74 Ibid., p.160. 75 Ibid,. p. 160. 72.

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