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Dissipando as Trevas

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O início da vitória sobre o mecanismo vitimário e a revelação das forças ocultas que controlava todo o sistema violento da comunidade estava prestes a acontecer. O sistema começaria a ruir depois que Jesus celebra a última ceia com os seus discípulos, se dirige ao jardim do Getsêmani onde é preso. Depois de orar sozinho por três vezes ele está plenamente consciente de sua missão, aceita ser vitimado112. É nesse momento que se inicia a Paixão. Jesus é levado para Anás e Caifás que reúnem o Sinédrio e promoverem um julgamento às escuras. Em seguida levam-no a Pilatos. Pilatos envia Jesus a Herodes que está a passeio pelas aquelas redondezas e assim a amizade entre os dois foi

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Ibid., p. 295. “Ceemos, pues, que hay fundamento para afirmar que la categoria novum há superado em Pablo El re de la renovatio y de la re-memoración. Ante o novum de Cristo no existen unos antecedentes constatables y definidos por El recuerdo: ni em Israel ni El mundo helênico. Los únicos antecendentes son la resurrección trás la muerte de cruz”.

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BÍBLIA SAGRADA. Mateus capítulo 5 versículo 41.

112 BÍBLIA SAGRADA. Lucas capítulo 22, versículos 41 ao 44: “E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e pondo-se de joelhos, orava. Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice, todavia não se faça a minha vontade, mas a sua. E apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava. E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até o chão”.

restaurada, mas é Pilatos que ao receber Jesus de volta é levado a decidir pela sua crucificação113. A acusação satânica foi confrontada.

Antes de Cristo, a acusação satânica era sempre vitoriosa, devido ao contágio que encerrava os homens dentro dos sistemas mítico-rituais. A crucificação reduz a mitologia à impotência, ao revelar o contágio cuja eficácia excessiva nos mitos impede as comunidades de alguma vez detectarem a verdade, a saber, a inocência de suas vítimas.114

Na Paixão houve uma reviravolta. A multidão blasfema e pede para Jesus descer da cruz115 para provar que realmente era inocente. Se descesse da cruz não seria vitimado como cordeiro nem desocultaria o sistema enganador, que desde o princípio do mundo estivera oculto. Na teologia paulina é na cruz que a cédula que era contra nós foi cravada.116 Sobre isso escreve Girard:

Enquanto que, habitualmente, a acusação prega a vítima na cruz, pelo contrário, aqui a acusação é ela mesma pregada e, em certa medida, exibida e exposta enquanto enganadora. Não é somente a acusação que está pregada na cruz e exposta ao olhar de todos: os principados e as próprias forças são oferecidos como espetáculos perante o mundo e arrastados para o cortejo triunfal de Cristo crucificado; em certa medida, também somos crucificados.117

Ao reconhecer a divindade de Jesus pela revelação ou pela ciência e saber do seu vitupério somos sim, em certa medida também crucificados. Essa identificação nos faz participantes do sofrimento de Cristo e nos leva a aceitá-lo como nosso modelo ou podemos decidir permanecer sob a mimesis da violência118 que o vitimou. Assim, somos obrigados:

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Para um bom entendimento do que aconteceu com Jesus desde sua prisão pelos soldados do templo quando finalizou sua oração no Getsêmani até a crucificação, faz-se necessário ler os três capítulos finais de cada um dos quatro Evangelhos.

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GIRARD, René. Eu via Satanás cair do céu como um raio, p.174.

115 BÍBLIA SAGRADA. Mateus capítulo 27, versículo 39 e 40: “E os que blasfemavam dele, maneando as cabeças, e dizendo: Tu, que destróis o templo, e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz”.

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BÍBLIA SAGRADA. Colossenses capítulo 2 versículos 14 e 15. 117

GIRARD, René. Loc. cit. 118

Não se pode colocar tudo dentro da mimese da violência, porque ela não é some nte violenta. Em sua Pequena Enciclopédia de moral e Civismo, o Frei Fernando Bastos de Ávila escreve

A distinguir dois tipos de transcendência semelhantes no seu interior, mas radicalmente opostos: uma enganadora, mentirosa, obscurantista, a da realização não consciente do mecanismo vitimário na mitologia; a outra, ao contrário, verídica, luminosa, que destrói as ilusões da primeira ao revelar o envenenamento das comunidades pelo mimetismo violento e pelo “remédio” suscitado pelo próprio mal, a que começa no Antigo Testamento e se esvanece no Novo.119

Os Evangelhos iluminam o Antigo Testamento assim como as cartas paulinas vão esclarecer pontos dos Evangelhos. Podemos tomar como exemplo o que lemos na carta de Paulo aos Colossenses afirmando que Jesus, “despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”120

. Essa iluminação vai abrangendo toda a obra redentora sempre centralizada em Jesus como vítima inocente. É com esse olhar que devemos ler o Novo Testamento. “A vitória de Cristo nada tem a ver com um general vitorioso: em vez de afligir a violência aos outros, Cristo sofre-a”121

. É nessa inversão de sentido que Girard detecta a vitória da Paixão de Cristo.

O que deve reter aqui da idéia de triunfo, não é o aspecto militar, é a idéia de um espetáculo oferecido a todos os homens, é a exibição pública daquilo que o inimigo deveria ter dissimulado a fim de se proteger, a fim de preservar no seu ser que lhe oculta a cruz.122

O inimigo fez de tudo para ficar escondido, para passar despercebido e se vangloriar como o deus desse século. Ficando oculto poderia reinar por muito sobre o valor da imitação, segundo ele, a imitação é de grande importância na vida social. E nestes apontamentos percebemos a parte benéfica da mimesis: a) Contribui para homonegeidade e por conseguinte para a estabilidade do grupo social definido modos, hábitos e costumes; b) Contribui para a educação; c) É fator de progresso por que leva a propagação de idéias, comportamentos e processos sociais seja de indivíduo a indivíduo, seja de grupo a grupo, provocando a combinação desses elementos com os outros já existentes, daí seguindo novas formas de pensamento e ação. Ainda em: ARISTÓTELES. Poética. Edição do texto grego in: Aristote Poétique. Paris: Belles Lettres, 8. Ed., 1979. O filósofo trabalha os conceitos de Idéia, saber e verdade. O saber é prazeroso não somente aos filósofos, mas a todos os homens. Para ele o prazer que o homem tem ao refletir quando aprecia uma imagem, não o desvia nem da natureza, nem da verdade.

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GIRARD, René. Op. cit., p. 166. 120

BÍBLIA SAGRADA. Colossenses capítulo 2, versículo 15. 121

GIRARD, René. Op. cit., p. 176. 122

tempo sem ser incomodado. Reinando, demonstraria toda a sua força exterior, porém o seu lado violento, o seu lado culpabilizador da vítima nunca, sem a Paixão, seria revelado. Girard diz que;

Fora os relatos da Paixão e dos cantos do servo de Jeová, os principados e as forças são visíveis no seu esplendor exterior, mas são invisíveis e desconhecidos na imagem violenta, vergonhosa. O reverso do cenário nunca esta presente e é este o reverso que a Cruz de Cristo mostra aos homens pela primeira vez.123

A Paixão também foi o start para contagem regressiva do poder satânico sobre os homens. Para se ocultar terá que inventar novas formas. O efeito da Paixão garantido pela ressurreição do Cristo desbanca Satanás de toda a sua camuflagem e é possível dizer, em relação à imagem violenta, que Satanás não tem como ocultá-la novamente.

Os relatos evangélicos nos mostram que ao invés da figura do bode expiatório que visa coibir a vingança e a rivalidade generalizada, Jesus, pela morte de Cruz, propõe o perdão e a dignidade da vítima. Desde o assassinato de Abel por seu irmão Caim, Deus se coloca como Deus das vítimas. Deus nunca aceitou sacrifícios humanos, mas estabelece uma forma na Lei que ficou conhecida como bode expiatório124 a fim de que seres humanos não morressem e de que houvesse possibilidade de paz entre Deus e a comunidade. Assim;

A expressão bode expiatório indica: 1) a vítima do rito descrita em Levítico; 2) todas as vítimas dos ritos análogos que existem nas sociedades arcaicas e que também se chamam ritos de expulsão e, finalmente, 3) todos os fenômenos de transferências coletivas não ritualizadas, que observamos, ou julgamos observar, à nossa volta.125

123

Ibid., 178. 124

BÍBLIA SAGRADA. Levítico capítulo 16, versículos de 15 ao 22, registra como Deus determinou que se fizesse o sacrifício pelo povo. Escolhiam-se dois bodes. Por sorteio, um dos bodes seria degolado, o outro, chamado de emissário seria conduzido e solto no deserto por alguém previamente escolhido. Depois de oferecer o sacrifício do bode expiatório em um cerimonial, o sumo sacerdote colocava ambas as mãos sobre a cabeça do bode que ficou vivo e confessava o pecado do povo hebreu em seguida, o bode vivo era conduzido e solto no deserto.

125

A Paixão revela a mesma estrutura histórica de Caim e Abel com todas as características da crise mimética. Uma grande crise transforma Jesus não em bode expiatório, mas “igual ou superior que é cordeiro de Deus. Essa expressão elimina os atributos negativos e antipáticos do bode. Por isso, corresponde melhor à idéia de vítima injustamente sacrificada”126

baseado em vários fatos: (1) a unanimidade da multidão; (2) a marginalidade da vítima; (3) sua fama de pecador (comia com os publicanos); (4) a sua vitimação ocorre em tempo de festa127; (5) a ambivalência da vítima128; (6) a exibição pública da vítima; (7) a violência coletiva contra a vítima; (8) a unanimidade fundadora; e, sobre tudo isso a vítima é declarada inocente.

Ao privar o mecanismo vitimário das trevas que deve rodear-se pra governar todas as coisas, a Cruz altera o mundo. A sua luz priva Satanás do poder principal, o de expulsar a Satanás. Uma vez que o sol negro for todo iluminado pela cruz, já não poderá limitar a sua capacidade de destruição. Satanás destruirá o seu reino e destruir-se-á a si mesmo.129

Mas a Cruz não é obra de Deus. Ela não é parte de uma engrenagem vitimadora. A Cruz é a revelação, é a única possibilidade de superação da violência. Não se pode dizer que a morte existe para Deus, Deus não é Deus de mortos e sim de vivos130. Por isso “uma compreensão estruturada pela morte não pode começar a falar adequadamente sobre Deus”131

. Nisso René Girard está nos dando uma teoria que explica porque Jesus morreu. Jesus demonstra o Deus que sai de si e se joga publicamente nas mãos do ódio que ocultamente mantém a paz. Deus, por inferência estava dizendo: “sei que vocês são

126

Ibid., p. 193. 127

Refere-se à festa da páscoa. 128

BÍBLIA SAGRADA. Mateus escreve no capítulo 21, versículos 1 ao 11 e 27 ao 37. Jesus é aclamado com rei ao entrar em Jerusalém sendo honrado com folhas de palmeiras e roupas que foram estendidas no chão como um enorme tapete, para que ele cavalgasse sobre elas. Já na cruz, Jesus recebe uma coroa de espinhos e é zombado com dizeres: “este é o rei dos judeus”. 129

GIRARD, René. Eu via Satanás cair do céu como um raio, p.178.

130 BÍBLIA SAGRADA. Mateus capítulo 22, versículo 32: “Eu sou o Deus d’Abraão, o Deus d’Isaque e o Deus de Jacó? Ora Deus não Deus dos mortos, mas dos vivos”.

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assassinos, se quiserem matar alguém, eis me aqui, mate-me”. Ao fazer isso e morrer, Deus leva o ódio embora.

A questão do silêncio de Deus quando Jesus clama: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparasse”132

é uma confirmação que Deus não concorda com a violência e “se o Pai não é a origem primeira da Cruz e da morte do Filho, o “silêncio de Deus” não é já omissão e uma forma de participação na violência?”133

. Não há separação entre Pai, Filho e Espírito Santo na Paixão. Para o Frei Susin;

A Paixão deve ser pensada trinitariamente para ser um pensamento justo histórica e teologicamente: O Pai está do mesmo lado do Filho, participando da mesma sorte, do mesmo silêncio e da mesma renúncia. Disso decorre a entrega e o abandono trinitário, o esvaziamento e a exclusão da Trindade.134

A Cruz é o símbolo da tortura lenta de um rapaz. Revela toda a verdade de quem Deus é como também a verdade de quem nós somos.

A graça como favor imerecível é demonstrada pelo amor imensurável da doação da vida. “Na retidão do bem puro, da pura graça, rompem-se e se dissolvem as torções da violência. A “glória” de Deus, convidando a comunhão em pura graça e rompendo o círculo insaciável do bode expiatório, é a última palavra de Deus, sua decisão irrevogável, palavra pura de vida.135

Esta palavra final coaduna com as últimas palavras de Cristo na cruz: “está consumado”, está feito, está completo e finaliza: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. A Trindade desvela a violência oculta, destrona o inimigo, propõe uma representatividade expiatória e vicária com a qual, todo ser humano, pode se identificar.

132 BÍBLIA SAGRADA. Marcos capítulo 15 versículo 34: “E, na hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloi, Eloi, lama sabactâni? Que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.

133

SUSIN, Luis Carlos. Sacrificialismo e cristologia: a violência da cruz, p. 245. 134

SUSIN, Luis Carlos. Loc. cit. 135

Ao dissipar as trevas, a Paixão não ilumina somente para frente, mas também para os lados e para trás. Não somente o que estava por vir como também tudo o que aconteceu em relação a mimesis, a vítima e a violência desde os tempos de formação da primeira comunidade.

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