2 INTERPRETAÇÃO GIRARDIANA DA CRUZ
2.3 A Paciência da Vítima
2.3.7 De volta a Deus: a Integridade do Amor Restabelecida
E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou. (Lucas 23.46)
Desencadeia neste momento uma série de fatos registrados pelo Evangelho de Mateus. Primeiro o véu do templo se rasga. Com a cortina que separava o lugar Santo do Santíssimo rasgada, sem utilizar mãos humanas, era um dos atos divinos que confirmava a perfeição da obra de Cristo que punha fim aos sacrifícios para se chegar à presença divina.
A cortina do templo, estamos informados, tinha dezoito metros por nove metros de dimensões, e sua grossura era equivalente a largura da mão de um homem (cerca de doze centímetros). O rasgar do véu, de alto a baixo, representou um ato divino. Seu significado simbólico é que a morte de Jesus abriu caminho até a santa presença do Senhor210.
Deus inaugurara um novo modelo onde Cristo é o caminho, a verdade e vida e somente poderá se chegar a ele através desse caminho. Se voltarmos aos sacrifícios veremos muita violência, primeiro aos seres humanos e depois aos animais, mas é o sacrifício, pela ritualização, que estabelece o religioso. Enquanto na violência fundadora com o fenômeno do bode expiatório todos são contra um, no religioso existe uma ritualização, onde o mecanismo expiatório se torna a única possibilidade de manutenção da ordem. “O ato ritual visa regular aquilo que foge a qualquer regra; busca realmente retirar da violência fundadora uma espécie de técnica de apaziguamento catártico”.211
Para Girard existem diferenças fundamentais entre a violência fundadora e os sacrifícios rituais:
210
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento, p. 222. 211
A violência ritual é única e espontânea. Os sacrifícios rituais, pelo contrário, são múltiplos: são repetidos interminavelmente. Tudo o que escapa ao controle dos homens na violência fundadora – o lugar e a hora da imolação, a escolha da vítima – é determinado pelos próprios homens no sacrifício.212
Mesmo expressando violência contra a vítima, os ritos sacrificiais não podem ser entendidos como criminosos. Sua intenção é estabelecer “uma mediação entre um sacrificador e uma divindade”213
, impedir a instauração do ciclo da violência e ainda evitar que a violência seja desencadeada. Na atualidade, no ocidente, onde há um descrédito na divindade, o poder judiciário, como representante, tende a não eliminar a violência, mas a substituí-la por uma violência legal conhecida como penalidade.
Retornemos ao Pentateuco, nele Moisés estabeleceu as formas de culto. O lugar correto para se sacrificar era o tabernáculo, que depois com a fixação do povo judeu na Mesopotâmia, passa para o templo. Tanto no tabernáculo como no templo os compartimentos do culto eram divididos por uma espessa cortina. No templo havia vários lugares específicos onde, somente pessoas selecionadas, devidamente purificadas poderiam entrar, por exemplo: pátio dos gentios, pátio das mulheres, pátio dos judeus (homens), pátio dos sacerdotes, Santo lugar, Santíssimo lugar (nesse somente o sumo sacerdote entrava uma vez ao ano). Segundo o livro de Levítico para trabalhar nos rituais do templo era necessário ser levita, inclusive o sacerdote e o sumo sacerdote todos deveriam pertencer à linhagem de Arão.
Atrás desse véu estava a arca do concerto ou arca da aliança (Êxodo 25). Sobre a arca cuja tampa (propiciatório) estavam postos dois querubins. Era desse lugar que Deus falava com o sumo-sacerdote, que para ouvir a voz de Deus deveria estar purificado, ornamentado com peças específicas para a ocasião e em suas mãos levar um recipiente com o sangue dos sacrifícios que seria despejado sobre o propiciatório, assim procedendo, tanto ele como o povo, seriam aceitos
212
Ibid., p. 132. 213
por Deus. Quando o véu do templo se fende, a Paixão coloca um fim no sacrifício ritual, abre caminho para todos se chegarem a Deus independente da raça, cor, língua, classe social etc. Paulo escrevendo sobre isso aos Efésios 2. 13-16 diz:
Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derribando a parede de separação que estava no meio. Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz. E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.
Assim, como eles entendiam que o modelo antigo havia sido dado por Deus, no rasgar do véu, os discípulos entenderam que o caminho para chegar a Deus não precisa mais passar pelo sacrifício, pelo sacerdócio ou pela Lei mosaica. Seguindo esse pensamento Domingos Barbé, citando o pastor Dumas diz que podemos distinguir na Bíblia três maneiras de fazer guerras: a primeira, a mais antiga, fala-nos de um Deus que combate com o seu povo.
Uma segunda, também conhecida como guerra messiânica, na qual Deus, sozinho, combate por seu povo. Esta era visão dos judeus na época do ministério de Jesus. Eles pensavam que Jesus iria, naquela época, tomar o poder romano e libertá-los. Por não proceder assim, Jesus foi considerado um impostor por se levantar contra o Templo, o sábado, e toda a religiosidade que se baseava na Lei e não na misericórdia. Na atualidade, muitos judeus, principalmente os radicais ortodoxos, esperam pela restauração de Israel. Essa classe não aceita Israel como Estado, não pagam impostos e defendem que somente o Messias, poderá estabelecer um Estado teocrático, sem cunho capitalista.
A terceira e última maneira de fazer guerra pode ser chamada de guerra
evangélica:
“através do espetáculo do sofrimento do justo, cuja inocência aparece claramente, a comunidade toma consciência do caráter odioso da violência e de sua culpa. Essa tomada de consciência
elimina assim definitivamente a violência, descobrindo que ela está em todos e não numa vítima expiatória.”214
Voltemos aos acontecimentos, que envolveram a natureza quando Jesus morreu. A terra tremeu e as pedras se fenderam, segundo Mateus. Pedras, como parte do culto, aparecem no Antigo Testamento como: (1) obelisco para marcar o lugar que Deus apareceu, é o caso de Jacó depois de ter um sonho, ele pega a pedra que tinha usado como travesseiro e a coloca como coluna (Genesis 28.18); (2) Local onde a lenha era posta e sobre ela o sacrifício para ser imolado e depois queimado (Genesis 22); (3) símbolo de execução da justiça de Deus, através do apedrejamento e depois cobrindo o cadáver (Josué 7.26); etc. As pedras estavam estritamente ligadas à religião judaica. As próprias tábuas da Lei foram feitas de pedras.
O rachar de pedras era um sinal que o sistema sacrificial ruira. Este acontecimento pode ser inferido pelo um fato paralelo registrado livro de 1 Reis 13, quando Deus desaprova o governo de Jeroboão. O sinal dado pelo profeta a ele, devido a sua gestão pecaminosa, foi que as pedras do altar rachariam. Assim acontece na morte de Jesus. Sua morte:
Tem um poder estranho: ela atinge as fibras mais nobres do homem e comove o coração da multidão. Ela promove uma união muito mais forte do que a imitação mimética do inimigo e a aliança assassina do todos contra um. Dá mais segurança do que a segurança das armas. Mas por isso é preciso que a comunidade dos discípulos do Justo tenha coragem de confessar, se preciso for, ao preço da sua vida, a inocência do Mestre.215
Isso vai sendo demonstrado pelos discípulos em suas pregações. Em seus sermões, a violência é demonstrada. O discurso de Pedro em Atos 3.13,14, por exemplo, expressa isso: “O Deus de Abraão, de Isaque e Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou seu filho Jesus, a quem vós entregastes e perante a face de
214
BARBÉ, Domingos. Uma teologia do conflito, p. 53. 215
Pilatos negastes tendo ele determinado que fosse solto. Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que vos desse um homem homicida”. Já em Atos 2.36: “Saiba pois com toda certeza toda a casa d’Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. Palavras como estas levam as pessoas à serem iluminadas pelo amor, reconhecendo a contaminação de si pela violência mimética e podendo então, enxergar em Cristo, um modelo a ser imitado.
Na cruz está o fundamento de todo o cristianismo. Ser cristão é seguir a Jesus Cristo como modelo de imitação da vontade de Deus. Uma atitude que é tomada pela fé e constatada na vida diária, na prática para com seus semelhantes.
O Cristianismo representa o momento em que o homem se liberta da necessidade de recorrer a bodes expiatórios e à sua imolação para resolver os conflitos e as crises comunitárias, tornando-se consciente da inocência dessas vítimas e da arbitrariedade de sua culpabilização.216
Eliminar a violência é um paralelo que se pode fazer com o ato de rasgar do véu. A vivência fracassada de Adão foi errada. No Getsêmani, Jesus deixou a
vontade dos homens (o primeiro Adão) e se submete a vontade do Pai (último
Adão) – (Lucas 22. 42-44). Trata-se da proposição de um novo Gênesis, pelo Pai, esta, efetuada pelo Filho. Uma recriação que lhe faz transpirar gotas, como de sangue. É ali, naquela noite solitária, que se inicia a nova criação. Isso é vislumbrado na Cruz (Lucas 23. 43-46). “A cortina do Templo é o que separa os homens do mistério sacrificial, é a concretização material do desconhecimento que fundamenta o sacrifício. Que a cortina se rasgue significa então que Jesus, por sua morte, venceu esse desconhecimento”217
.
Nos momentos finais de sua vida, toda criação retorna ao começo. Testemunha-se o caos: trevas, terremoto, pedras se fendendo. O véu rasgado pode ser entendido como início da materialidade do Gênesis nas palavras de
216
BARBÉ, Domingos. Op. cit., p. 9. 217
Deus dizendo “haja luz”. Na morte de Jesus também houve trevas e, depois disso, ele entregou o seu espírito nas mãos de Deus. Lucas narra o fim da primeira criação e anuncia nova criação acompanhada pelo Espírito.