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Nome prórpio: marca de um sujeito

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Academic year: 2021

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DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO

CURSO DE PSICOLOGIA

NOME PRÓPRIO: marca de um sujeito

NAIRANA MARCZESKI DE MELO

IJUÍ, 2013

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NAIRANA MARCZESKI DE MELO

NOME PRÓPRIO: marca de um sujeito

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, UNIJUÍ, como requisito parcial para obtenção do grau de psicólogo.

Orientadora: Normandia Cristian Giles Castilho

IJUÍ 2013

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO

CURSO DE PSICOLOGIA

NAIRANA MARCZEWSKI DE MELO

NOME PRÓPRIO: marca de um sujeito

BANCA EXAMINADORA:

_____________________________________ Profª. Me. Normandia Cristian Giles Castilho

_____________________________________ Profª.Me. Tania Maria Souza

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AGRADECIMENTOS

Aos nomes que foram importantes neste percurso universitário: à minha orientadora Cristian Giles, pelos apontamentos, sugestões e escuta sempre atenta e ética de minhas dúvidas e angústias neste percurso- lhe agradeço pela possibilidade de poder conversar com você em todos os momentos que foram precisos neste trabalho e em outros momentos acadêmicos, como, nos três anos em que fostes minha supervisora. À professora Tania Maria Souza pela disponibilidade em ler meu trabalho e fazer parte de minha “banca examinadora”. Ao caro professor Gustavo pelas conversas formais e informais sobre meu tema e demais divagações, e à professora Ana Dias pelo acolhimento e escuta sempre atenta as nossas “queixas” e pelos saberes nos transmitido e aos demais mestres que me acompanharam nestes cinco anos de curso.

Aos meus caros colegas- amigos-, meus pares, que dividiram comigo estes momentos de discussões, angustias, conquistas e divagações, agradeço principalmente a escuta sensível de Adriane Costa Beber, Patrícia Mafalda de Ávila, Renan Bock, Flavia Gai Soares, Priscila Mohr, Luciana Mai, Pablo Stein e em especial a Alba Ortego Gamboa que mesmo distante soube acolher sempre minha escrita.

E por fim, aos meus pais Luiz e Neiva pelo nome que me foi dado. E ao Fabio pela paciência e carinho demonstrado em todo este percurso. Muito Obrigada.

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“Nome Algo é o nome do homem Coisa é o nome do homem Homem é o nome do cara Isso é o nome da coisa Cara é o nome do rosto Fome é o nome do moco Homem é o nome do troco Osso é o nome do fóssil Corpo é o nome do morto Homem é o nome do outro”. Arnaldo Antunes

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RESUMO

O presente trabalho aborda a função de nomeação e o nome próprio na constituição subjetiva. Nomear o real implica dar existência a alguma coisa, o nome próprio implica a ex-sistência de um sujeito. Em todas as línguas o nome próprio é a única palavra que não se altera, ele é indizível, raro, algo que expressa um sujeito. O Nome Próprio designa o primeiro momento da identificação, desígnio este que permite liberar o infans da condição de coisa, para advir um sujeito. Ao receber o nome o infans em conseqüência recebe uma marca, marca esta que o torna sujeito e o diferencia das coisas. O Nome Próprio é o próprio significante, mais que um significado, é o que entrelaça o simbólico e imaginário, ou seja, por um lado a significação para alguém que é da ordem do imaginário e por outro, o significante do lado do simbólico.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 7

1 NOME PRÓPRIO E TRAÇOS DA CULTURA BRASILEIRA ... 9

2.O NOME PRÓPRIO NA PSICANALISE ... 16

CONCLUSÃO ... 31

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INTRODUÇÃO

A questão do nome se apresenta como preocupação desde os pré-socráticos, que acreditavam que o nome pudesse apreender o verdadeiro ser. Esta tal preocupação ainda hoje é observada no social. Considerando o nome e as formas de nomeação como uma pratica cultural, essencial para identificar os indivíduos, muita teorias buscaram ao longo dos séculos darem conta das determinações sociais e culturais da função dos nomes, particularmente os nomes próprios.

Sabemos que na psicanálise nomear o real é uma forma de dar existência, neste sentido é que nos colocamos a questão sobre a função do nome próprio e nomeação na constituição subjetiva.

Para responder esta questão organizamos o presente trabalho em dois capítulos. No primeiro trabalha-se referencias da cultura brasileira, a forma como podemos pensá-la e os aspectos particupensá-lares presentes na sociedade e que influenciam na forma como a nomeação aparece no Brasil.

Entende-se que é a partir do momento que adentramos na cultura que podemos falar desta. O Brasil com suas particularidades apresenta um cenário interessante para discutir a cerca do nome próprio, por isso, escolhemos trabalhar questões do nosso social, por entendemos que dessa forma seria possível mostrar o quanto o nome próprio é um tema que não se esgota.

O nome próprio ocupa importante lugar na psicanálise, e para os psicanalistas é lugar comum reconhecer que o nome próprio serve para identificar um sujeito. Identificando no sentido de diferenciá-lo dos demais, mas é também para, além disso, o nome próprio ocupa lugar privilegiado no processo simbólico. Dessa forma, no segundo capitulo poderão ser encontrados conceitos importantes da teoria psicanalítica como: a identificação, traço unário e significante que aparecem diretamente ligados ao sujeito e seu nome próprio.

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Por fim, temos a conclusão na qual trabalharemos rapidamente as questões que ficam desta pesquisa, buscando salientar as mesmas que serão essenciais no processo de construção deste trabalho.

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1- NOME PRÓPRIO E TRAÇOS DA CULTURA BRASILEIRA

Inicio este trabalho com algumas palavras sobre o título. Dei um nome à minha intervenção antes mesmo de elaborá-la. Traçado o nome, não pude mais dele escapar e comecei a refletir sobre os problemas que me colocava.

(Doris Rinaldi)1

O presente trabalho aborda a temática do Nome próprio. Qual é a função de nominação e do Nome próprio para o sujeito? São estas questões que orientam nossa investigação, a qual se realizará a partir da teoria psicanalítica.

Neste primeiro capitulo trabalharemos a questão no Nome próprio e da forma de nominação dentro a história e do social, uma vez em que nominação e Nome próprio pertencem também a outros campos do saber. A nominação e o Nome próprio no qual o sujeito se reconhece não é algo automático, mas, é sempre histórico e dependente de cada cultura.

A palavra nomear é originário do latim “nomino - chamar pelo nome, citar,

mencionar”, ou ainda em nosso dicionário de língua portuguesa: “designar pelo nome, dar nome: denominar, nominar”.

Uma velha expressão originária também do latim diz o seguinte: “nomem essentiam rei probat. O nome prova a essência da coisa2. Em nossa condição humana o ato dar nome as coisas é tão corriqueiro que muitas vezes não nos damos conta do quanto o nome próprio é importante, e que a nomeação fala tanto daquele que dá o nome, como daquele que recebe o nome, assim como da cultura em que ambos estão inseridos.

Pela complexidade do tema, nos centralizaremos sobre a questão do nome e da nomeação na nossa historia e nossa cultura brasileira, salientando que não se fará um estudo aprofundado, mas nosso interesse é trazer elementos de forma resumida que nos permita compreender os processos implicados no social quanto à questão do nome próprio.

1 Doris Rinaldi em um texto chamado “O traço da Identificação”. 2 Expressão bastante usada pelo Direito em Tribunais.

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O nome próprio é um fato cultural, ou seja, os indivíduos se presentificam através de um nome da cultura, portanto, depende do contexto escolhido pelo desejo dos pais no ato da nomeação. Pode-se observar este desejo presente quando ao nomear um filho, este vem como homenagem a alguém da família, tanto com o mesmo nome, como também com algum alongamento do mesmo, por exemplo, é comum em algumas partes do Brasil usar-se, filho, neto, sobrinho ou bisneto, depois dos sobrenomes.

A transmissão do nome comporta, em seu seio, desejos. Transmitem-se, neste caso, através de contato afetivo e da linguagem, potencialidades que se realizarão tanto em uma patologia quanto em um pretenso sucesso. Transmite-se também a tradição que, quanto mais rígida for, maior será a exigência. (MARTINS, 1998, p.30)

Em nosso código civil está escrito, que todos, temos direito ao nome civil, ou nome de pai- direito fundamental desde o nascimento. Nome Patrimonial ou Sobrenome é o que nos distingue dos demais membros da sociedade. Embora faça referência ao sobrenome, nosso código civil é um tanto silencioso quanto a forma como este deva ser transmitido.

No Brasil, após, a vinda dos colonizadores, a nobreza era garantida pela coroa portuguesa, pelo nome desses que aqui chegaram. Certamente o que os portugueses deixaram de herança a toda a população foi à língua, e a forma de aplicação de certos costumes culturais, como por exemplo, o sobrenome dado pelo pai. Mesmo assim não existe uma lei que regulamente o que culturalmente parece estar regulada pela ordem ainda do patriarcado.

Porém, em uma mesma família, três filhos, podem ter três sobrenomes diferentes. Como se explica isso? A mãe pode querer que sua filha leve o nome de sua mãe (avó materna), “Maria Eugênia Silva”. O pai em contrapartida gostaria de ter seu nome “perpetuado”, e nomeia seu filho com seu nome, “José Antônio de Medeiros”. O terceiro filho pode levar tanto o sobrenome materno, quanto o paterno, “Mateus Silva de Medeiros”- temos assim uma herança cultural, permitida pela lei civil e garantida pelo desejo dos pais.3.

O novo Código Civil de 2002 faz referência ao nome no artigo 16, dizendo que “toda pessoa tem direito ao nome, compreendido prenome e o sobrenome”. Também no código civil está a forma como a escrita do nome e sobrenomes devem aparecer na certidão de nascimento:

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[...] o nome e sobrenome que foram dados à criança, caso o sobrenome não tenha sido indicado, o oficial do estado civil deverá escrever após o nome, o sobrenome do pai e caso falte, o da mãe.

Ao reconhecer o direito ao nome o código civil assegura implicitamente a transmissibilidade de geração em geração dos sobrenomes, mesmo assim ela não esclarece como em outros países, como deve ser esta transmissão, apesar de dizer: o nome, o sobrenome do pai e caso falte, o da mãe, a lei deixa livre esta escrita, assim este silêncio por parte da lei brasileira, permite que a transmissão do nome e sobrenome seja feito à escolha dos pais, ou outras figuras parentais, daí a possibilidade de em uma mesma família os filhos possuir sobrenomes diferentes uns dos outros como mencionado anteriormente.

Resta-nos presumir que essa transmissão é cultural, mais precisamente pelos costumes. Mas que costumes seria esses? Disse no inicio que muitos são os fatores que fazem do Brasil, Brasil. Um desses fatores aparece em um estudo realizado com amostragem de 30.400 pessoas no Brasil, este estudo mostra que 9,9% dos brasileiros contemplam "Silva" em seu sobrenome, seguido por 6,1% com "Santos", 5,8% com sobrenome "Oliveira" e 4,9%, "Sousa" ou "Souza", num total de 26, 7%, esses sobrenomes são um dos motivos de nossa pluralidade cultural, mas nem sempre foi assim.

A historiadora Hebe M. Mattos (1998) em um trabalho muito interessante sobre “os significantes da liberdade no sudeste escravista”, mostra que no Brasil em meados de 1850, sobrenome e o nome próprio dependiam muito da cor da pele de quem carregava, era comum então que os negros não tivessem sobrenome, então se nomeava da seguinte maneira: “José, filho de Maria, 29 anos, solteiro, roceiro, natural da Província da Paraíba”. Note-se que José vem acompanhado do nome da mãe, (obrigatório), com a ausência do sobrenome, tanto da mãe como de José. Imperava nesse período a lei do ventre livre, que determinava o continuísmo da escravidão a todos os filhos de mulheres escravas, mesmo que a situação paterna fosse livre. Dessa forma, mesmo que o pai fosse livre, os filhos de escrava não tinham direito a herança deste, por ocasião a sua morte e tampouco poderiam carregar seu sobrenome. O que permanecia como significante destes eram a condição de ser preto/negro - logo seu nome era José = o escravo!

Preto (escravo) J

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Mas antes disso, na chegada dos negros no Brasil, estes eram forçados a um novo batismo, principalmente se fossem muçulmanos, com isso muitos dos negros passavam a se chamar Paulo, Bruno, Antonio... Sem registros de que tivessem sobrenomes. De acordo com Lara homens e mulheres que eram identificados como escravos, ou descendentes destes, como afrodescendentes ou mestiços, em determinados contextos foram caracterizados por “palavras que apontavam critérios classificatórios baseados na cor ou na mestiçagem, como “pardo”, “mulato”, “cafuzo”, “cabra”, “preto” e “negro”. Assim, conforme a autora, nomear as pessoas com estes termos era uma forma de afastá-los dos brancos, uma vez que

a cor branca podia funcionar como sinal de distinção e liberdade, enquanto a tez mais escura indicava uma associação direta ou indireta com a escravidão. Ainda que não se pudesse afirmar que todos os negros, pardos e mulatos fossem ou tivessem sido necessariamente escravos, a cor era um importante elemento de identificação e classificação social. (LARA, p.144, 2007).

Em anúncios de jornais da época, quem fosse nomear um escravo marcava o nome seguido da nação. Esses jornais eram usados nesses casos para procurar os escravos fugitivos, aqueles que conseguiam transpor as algemas da senzala e buscavam uma saída literalmente menos dolorosa para suas próprias vidas e de seus descendentes.

Essas marcas históricas são significantes de uma sociedade em que desde o inicio se colocou a exploração do homem e não só da terra, a forma de colonização difere de outros lugares, mas, sabemos que colonizar é de alguma forma, impor a violência ao outro.

O destino da América espanhola se deu de maneira diferente, porque os espanhóis ao contrário dos portugueses “esforçaram-se” 4

para entrar nas terras encontradas para além do litoral, a colonização espanhola buscou uma maneira de estabelecer, formar vínculos com a terra descoberta. Entretanto, Sergio Buarque de Holanda nos diz que os portugueses foram o povo que mais se adaptou nas Américas.

Na obra raízes do Brasil5 podemos encontrar referencias sobre o período colonial e a escravidão, parafraseando o autor “o fato de que o indígena não conseguiu se

4

Coloco entre aspas por que o “esforço e os vínculos formados” não deixaram de ter seus problemas como a quase dizimação dos índios que aqui viviam.

5

"Raízes do Brasil" é um livro do historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda. Publicada originalmente em 1936, "Raízes do Brasil" aborda aspectos centrais da história da cultura brasileira. O texto consiste de uma espécie de interpretação do processo de formação da sociedade brasileira.

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“adaptar” à escravidão, tornou o escravo africano imprescindível para o sistema colonial e ainda o fato de que os portugueses se aproveitaram de muitas técnicas indígenas de produção, e com isso os índios acabaram ganhando certa proteção que os distanciou um pouco da escravidão”.

O que fica claro na historia brasileira é que tanto o negro como o índio foram explorados, escravizados e dizimados (no caso do indígena) e que é evidente que ficaram traços da escravidão e ainda hoje falar sobre o Brasil e sobre os sujeitos que deste país fazem parte é um tema amplo e é também inevitável que de alguma forma esses significantes do que é cultural apareça, um destes traços é a maneira como um brasileiro nomeia um filho.

É muito comum o estrangeiro no nome – esses traços estrangeiros aparecem no que chamamos de nome “europeizado” ou “americanizado”. Caberia aqui uma pergunta própria sobre nossa cultura, como por exemplo: poderíamos pensar a função do nome próprio no Brasil como nos outros lugares? Nos países como o Brasil que foram colonizados pensar a questão do nome próprio possui algumas particularidades, Gérard Haddad (apud FERRETO, 2000, p. 169) traz uma citação de um índio das Américas que diz “aqui cada um se chama como quer”, não haveria frase mais expressiva que esta para pensar o quanto a questão do nome próprio é mais problemática aqui do que em outros lugares.

Foucault (1983), afirma que não é possível fazer do nome próprio uma referência pura e simples. Segundo ele, o nome próprio tem “outras funções” que não apenas as indicadoras. “É mais do que uma indicação, um gesto, um dedo apontado para alguém; em certa medida, é o equivalente a uma descrição”. Tendo o nome outras funções, que não apenas as indicadoras, e sabendo que o nome é mais do que apenas uma indicação, mais do que um gesto, mais do que um dedo apontado para alguém, interessa-nos pensar o que poderia ser esse mais da função do nome próprio, interessa-nos o que excede da função indicadora do nome. Para além da referência em Foucault, o que

Destacando, sobretudo, a importância do legado cultural da colonização portuguesa do Brasil e a dinâmica dos arranjos e adaptações que marcaram as transferências culturais de Portugal para a sua colônia americana, é considerado uma obra essencial para quem quer entender o que muitos chamam de “a verdade brasileira”.

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interessa ao fazer um percurso histórico do nome na cultura é poder compreender os processos sociais em que um sujeito se insere quando nomeado.

Se para Foucault o nome é mais que uma indicação e se equivale a uma descrição, podemos de imediato buscar referirmos a isso que descreve quando pronunciamos o nome de alguém, ou quando ouvimos e marcamos a diferença deste com os demais. Cada sociedade observa a necessidade de distinguir os seus componentes, mas os modos de enfrentar essa necessidade variam conforme os tempos e os lugares, assim, quanto mais complexos são as sociedades, tanto mais o nome, que parece insuficiente para circunscrever inequivocamente a identidade de um indivíduo.

Uma simples observação de nossa sociedade brasileira bastaria para perceber a importância que tem para aquele que nomeia escolher nomes bonitos, sonoros, de pessoas ditas importantes, bem sucedidas, nomes tidos como fortes, e nomes com referencia principalmente a Língua Inglesa. Para essa observação, entretanto, é necessário uma analise mais aprofundada de nossa história, de nossos traços culturais. Buscarei então trabalhar algumas referencias nesse sentido.

De imediato pode-se dizer que esta importância dada ao preenchimento de sentidos positivos aos nomes é a ordem do imaginário. Nesse contexto os nomes próprios seriam associações diretas de sentidos com o sujeito a quem designa. Da mesma forma como as palavras foram concebidas como a imagem das idéias ou dos objetos que elas representam, nas reflexões de Platão (apud. Cunha, 2006, p.26) também os nomes representariam a imagem dos sujeitos a quem designam.

Voltamos então ao contexto do Brasil, pesquisas6 apontam que um terço dos Brasileiros oriundos de famílias pobres tem nome estrangeiro. Ao que tudo indica essa prática de nomeação tende a ser característica comum em classes baixas. Talvez pelas próprias limitações advindas de uma situação social desfavorável, inúmeros pais procuram fazer o que parece ser uma das poucas coisas que está ao seu alcance no sentido de garantir uma possibilidade de mudança, de destino diferente do seu, é então pelo discurso, pelo nome, que tentam interferir na vida dos filhos, de modo que rompam com uma história de vida de privações e dificuldades. Não obstante, as classes altas, por sua vez, carregam sobrenomes com história de sucesso, e não de servidão e miséria.

Nesse aspecto poderíamos supor que no processo de nomeação estão implicados os discursos presentes na sociedade e que de alguma forma é antecipada pelos pais. Na

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prática discursiva de escolher e atribuir um nome em sintonia com valores positivos, sonoros e aceitos pelos demais sujeitos mostra que o sujeito designador evidencia o seu imaginário em relação ao que julga ser um valor dominante, positivo, perfeito, ideal, etc. na sociedade. Neste aspecto Cunha traz o seguinte:

Se ser ideal significa simbolizar ou ser portador de toda a perfeição que se concebe ou que se pode conceber, se significa estar antenado com valores intelectuais, estéticos, espirituais, afetivos ou de ordem prática na sociedade, não ser ideal significa ser imperfeito, e portanto vítima ou objeto de defeito, de falha, de deficiência, de desarranjo, de deformidade, de desvio, conforme nos possibilita a consideração dos sentidos de perfeição e defeito. (CUNHA, 2006, p.68)

Assim se o ser ideal passa por esta discursividade na escolha do nome é visível que ainda temos traços de algo do colonizador em nosso país, por nos darmos conta que um brasileiro prefere nomear o filho com nomes estrangeiros. Bem, é apenas uma hipótese, poderiam ter outras, que aí seriam de outra ordem, como por exemplo, será que ao nomear o filho desta forma o brasileiro não estaria querendo esquecer os traços de escravidão, pobreza, miséria vivida por longos anos? Pois é possível dizer que a Língua Inglesa exerce primazia como símbolo de prestígio, status e poder, a julgar pela presença de materialidades dessa língua em diversas produções discursivas brasileiras, inclusive no próprio nome do brasileiro, pois:

O nome próprio, [...], é um nome dado, e dado em função daquele que nomeia em princípio expresso em termos de êxito, de triunfo. O nome próprio não é só a descrição de um referente [...], ele é o ato daquele que nomeia, carrega em si uma carga de desejo. É por isso que em psicanálise pronunciar um nome não é anódino, é um ato que comemora parte de desejo contida na atribuição de um nome. (PORGE, 2009, p. 213).

Assim os nomes próprios, além de carregar a carga do desejo de quem nomeia, carregam também as marcas da historia de uma determinada cultura. Como se inscreve o Nome próprio, e quais são os efeitos subjetivos é o que trabalharemos no próximo capitulo.

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1- O NOME PRÓPRIO NA PSICANALISE

„Meu nome é Alice, mas – „um nome bastante estúpido!‟ Humpty Dumpty interrompeu impacientemente. „O que ele significa?‟ Deve um nome significar alguma coisa?‟ Alice perguntou cheia de dúvidas. Naturalmente que ele deve‟- Humpty Dumpty disse, com um pequeno sorriso: „Meu nome significa a forma como eu sou- e ele tem também uma considerável boa forma. Com um nome como o seu, você deve ter alguma forma‟ 7

A interrogação de Alice; “deve o nome significar alguma coisa?”, evidencia a posição comum de todos os sujeitos frente a seu nome próprio. É bastante perceptível a estranheza que causamos a alguém quando perguntamos o sentido de seu nome, pois, é uma questão que nos inquieta enquanto sujeitos e nos envia na direção de saber sobre nossa nomeação. Não buscamos aqui trabalhar o sentido dos nomes, mas sim, a função do Nome próprio. Sabemos que o nome próprio é trabalhado em outros campos como na antropologia, historia, literatura, em obras ficcionais, entre outros, tornando-se uma fonte de pesquisa.

Enuncio desde já uma pequena introdução ao tema dado por Lacan em 1962, onde ele diz: “Vocês sabem, como analistas, a importância que tem em toda análise, o nome próprio do sujeito. Vocês têm sempre que prestar atenção em como se chama seu paciente. Nunca é indiferente”. (LACAN, 1961-62, p.83). É então na busca por trabalhar este conceito na teoria psicanalítica que me aventuro neste segundo capítulo. Afinal, o que a psicanálise tem a dizer sobre o nome próprio?

Em todas as línguas o nome próprio é a única palavra que não se altera, ele é indizível, raro, algo que expressa um sujeito. O Nome Próprio designa o primeiro momento da identificação, desígnio este que permite o sujeitamento, liberando a criança da condição de coisa, ao receber o nome a criança em conseqüência recebe uma marca, marca esta que o torna sujeito e o diferencia das coisas. Lacan nos diz que “o Nome Próprio é o próprio significante [...] é mais que um significado, é um significante”. Lacan atribui ao nome próprio um entrelaçamento simbólico com o imaginário, ou seja,

7

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por um lado a significação para alguém que é da ordem do imaginário e por outro, o significante do lado do simbólico- o qual se trabalhará a seguir.

Ao formalizar que sujeito e inconsciente se estruturam a partir da linguagem e que no inconsciente operam as leis dessa linguagem e da língua falada por cada um, o que ele nos apresenta são caminhos possíveis para compreender os efeitos da palavra em cada sujeito e se o sujeito é produto da linguagem e é através do Outro da linguagem que ele se constitui enquanto sujeito da fala, sujeito da enunciação e, portanto, inconsciente e seu eu tem a ver com a identificação, o nome próprio vai dizer tanto desse sujeito do inconsciente como da identificação (compreendendo a identificação aqui como aquilo que se é). E para poder pensar nas questões do nome próprio é preciso que busquemos entender o processo identificatório, pois, dessa maneira poderemos compreender ainda que minimamente o porquê Lacan retomará o conceito de identificação e o estatuto do nome próprio articulando estes a partir do traço unário.

Então ao observarmos que o nome próprio aparece articulado com sujeito, identificação e traço unário, tentaremos a partir daqui, buscar a definição destes conceitos na constituição do sujeito e sua nominação: o Nome Próprio.

A noção de traço unário [unaire]8 no Seminário “A Identificação”, pode ser compreendida a partir do esforço de Lacan em articular uma teoria do sujeito inteiramente dedutível da noção de significante. Para isso era necessário pensar na forma como o significante se constitui. Assim, Lacan retoma o tema da identificação, que até então, aparecia em sua obra pelo modelo de identificação histérica, deixando em aberto as duas formas de identificação anteriores: a primitiva e a regressiva (LACAN, 1961-62, p. 58).

O que é importante aqui e que é notado em todas as formas de identificação é a relação que estabelecemos com o Outro - “a identificação é conhecida pela psicanálise como a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa” (FREUD, 1920-22, p. 115). Sabe-se que ao nascer uma criança esta imersa na linguagem, da qual depende sua estrutura psíquica, no entanto, não nasce articulando palavras. Esta estrutura de linguagem na qual ela é esperada e na qual ela se inscreve, depende da dimensão do significante para seu entendimento.

O que nos perguntamos é de que modo este significante se inscreve no bebê?

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Segundo Coriat (1997), “é na carta 52 que Freud apresenta três sistemas de inscrição (signos de percepção, inconsciente e pré-consciente) situados entre a percepção e a consciência”. Os três sistemas de inscrição vão sendo colocados, um, após o outro e a instalação do primeiro é condição necessária para a inscrição do seguinte.

Quanto a palavra Elsa Coriat (1997) questiona: “por que vias materiais a palavra tem incidência antes que haja palavra? Como se instala a maquinaria simbólica no organismo vivo?”. No que se refere à articulação de palavras propriamente dita, uma criança na numerosa repetição de fonemas que um adulto produz irá privilegiá-los, ou seja, os fonemas portados pelo adulto não é reproduzido em vão, o bebê começa a balbuciar alguns deles, como nos explica Coriat:

[...] Entre os seis e os oito meses (nem antes nem depois, em uma criança normal, criada em condições normais) as formações do balbucio do bebê começam a limitar-se aos fonemas de sua língua materna. A partir de certo momento, bastante tempo antes de um ano de vida, os bebês franceses balbuciam em Frances, os chineses em chinês, alguns portenhos em lunfardo.( CORIAT, 1997, p.285).

Assim, aos poucos, aquele pequeno sujeito irá se apossar da linguagem como um todo, e fará uso desta. E quanto à questão da identificação, poderemos observar ainda, que no primeiro e no segundo tipo de identificação (a primordial e a regressiva), estas não se dão com a situação global- o campo do Outro como lugar da linguagem e discurso do inconsciente -, como na identificação histérica, mas com “um único traço unário (einziger zug) do objeto”.

É neste ponto que retornaremos ao inicio da psicanálise. Desde Freud, podemos articular que o inconsciente é um aparelho de memória. Freud apresenta a noção de traço como traços mnêmicos, situado por ele em 1895 nos primórdios da psicanálise no texto “Projeto para uma Psicologia Cientifica”. Ele aponta neste texto que as experiências vividas não são todas registradas integralmente, mas que a partir delas se recortam algumas percepções que passam a ser escritas como traço. O que é então recortado dessas experiências se inscreve como uma série de traços, e também passam por um sistema de registros na instancia psíquica. É precisamente no trabalho sobre “A interpretação dos Sonhos” que Freud trará um exemplo do que seriam os traços mnêmicos, num esquema conhecido como esquema do pente:

“toda nossa atividade psíquica parte de estímulos (internos ou externos) e termina em inervações. Atribuiremos ao aparelho uma extremidade sensorial e uma extremidade motora [...]. Os processos psíquicos, em geral, transcorrem da extremidade perceptual para a extremidade motora. [...] Em nosso aparelho psíquico permanece um traço das percepções que incidem

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sobre ele. Podemos descrevê-las como “traço mnêmico”, e a função com que ele se relaciona damos o nome de “memória” (FREUD, 2001, p.518) Freud diz que no sistema, (logo no inicio do pente), ele recebe estímulos e que estes são perceptíveis, entretanto como representaremos na figura abaixo, que o autor usa em seu trabalho, não preserva nenhum traço desses estímulos, e, portanto, não tem memória. (Figura 1).

Seguimos o texto para entendermos que existe outro sistema que transforma as excitações momentâneas do primeiro traço em memórias;

“é fato conhecido que retemos permanentemente algo mais do que o simples conteúdo das percepções que incidem sobre o sistema pcpt. Nossas percepções acham-se mutuamente ligadas em nossa memória. Referimos a esse fato como “associação”. [...] Assim fica claro que se o sistema pcpt. não tem nenhuma memória, ele não tem nenhum traço associativo. [...] Portanto, devemos presumir que a base da associação esta nos sistemas mnêmicos. (FREUD, 2001, p.519).

Figura 2.

O que Freud trabalha nessas duas figuras é que a hipótese inicial é a de que existiria não um “Mnem”, mas vários “Mnems”. O primeiro desses irá conter o registro da associação feita através de simultaneidade temporal. Nos sistemas posteriores os

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registros se dariam de maneira parecida, registrando similaridade com os traços mnêmicos anteriores. Esse aparelho tem então, algo que podemos chamar de pólo perceptivo, é dessa forma que entre a percepção e a consciência, o estímulo passa pelo crivo dos traços mnêmicos, sendo estes representados pelos dentes do pente. O que se torna evidente a partir daqui é que a percepção não teria uma significação por si mesma, mas que é produzida pela sua passagem através desses traços mnêmicos inconscientes. Em nota de rodapé acrescentada em 1925 o autor dirá o seguinte: “sugeri posteriormente que, na realidade, a consciência surge em lugar do traço mnêmico”. Assim, consiste num trabalho de análise que esses traços de memória se tornem conscientes.

É a partir deste retorno a Freud que podemos começar a pensar no conceito de traço. O conceito de traço implica uma concepção de sulco, ou seja, como se pensássemos em um corte na pele, que cicatriza, mas que deixa a marca do próprio corte. Segundo Julieta Jerusalinsky quando traduzido traço para o espanhol encontraremos a palavra huella

Huella é pegada, ou seja, o buraco deixado por um objeto assim que este se retira, o rasto que dá o testamento da passagem de algo que não está mais ali (as pegadas na areia, por exemplo. (JERUSALINKY, 2011. p. 89)

Então essas experiências vividas por todo sujeito que deixam marcas se inscrevem como traços. O traço é aquela marca que ficou, tomamos aqui o exemplo que Lacan utiliza – Robson Crusoé e a descoberta de uma pegada.

“certo dia em que estava indo para o barco, por volta do meio dia, tive uma enorme surpresa, de ver na praia a pegada de um pé humano, descalço, perfeitamente desenhada na areia. [...] Subi numa elevação do terreno para olhar mais de longe e andei pela praia de um lado pro outro, mas deu no mesmo. Como não consegui ver outra pegada além daquela, voltei a praia para ver se ela estava lá [...] se não era obra da minha imaginação. Porém não havia dúvida lá estava a marca exata de um pé [...] (DEFOE, 2004 p.134) 9

Ao usar o exemplo de Crusoé Lacan diferencia o signo do significante da seguinte forma: Crusoé vê uma pegada de um passo, que não é a sua, essa marca no chão para Crusoé tem valor de signo (que seria a pegada, o vestígio do pé no solo), pois representa para ele alguma coisa com valor de símbolo, conferindo-lhe assim

9 Robinson Crusoe é um romance escrito por Daniel Defoe e publicado originalmente em 1719 no Reino Unido. O título original da obra é The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, of York, Mariner. Essa tradução é feita por Celso M. Parcionick- São Paulo 2004.

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um significante (que seria: Não estou só, há mais alguém aqui na ilha!). A história segue com Crusoé se achando perseguido pelo diabo e depois por canibais.

“o medo e terror de cair nas mãos de selvagens e canibais se estranhava de tal forma em minha alma [...] depois de descer o morro perto da extremidade da ilha, onde, de fato, jamais estivera antes, fiquei convencido de que ver uma pegada humana ali não seria coisa tão estranho quanto eu imaginava” (DEFOE, 2004 p.144).

O medo de Robinson faz com que ele se esconda na sua ilha, com que ele procure apagar a pegada, o rastro humano, e que se feche em sua fortaleza. Lacan em sua leitura falará dessa tentativa de Crusoé de apagamento de um traço.

“Um passo, um rastro, o passo de Sexta- feira na Ilha de Robinson: emoção, o coração batendo diante desse rastro. Tudo isso não nos ensina nada, mesmo se desse coração batendo resulta todo um pateado em torno do rastro. Isso pode acontecer a qualquer cruzamento de rastros de animais”. (LACAN, 1961-62, p.136) (Grifo meu)

O que aparece aqui é a tentativa de apagamento, a retirada de cena de qualquer vestígio de traço que marca o lugar. Temos mais adiante na leitura de Lacan o seguinte:

[...] Mas se, surgindo aí, encontro o rastro daquilo, de que alguém se esforçou para apagar o rastro, ou mesmo se não encontro mais rastro, desse esforço, se retornei porque sei que deixei o rastro, que eu acho que, sem nenhum correlativo que permita ligar esse apagamento a um apagamento geral aos traços... realmente apagou-se o rasto como tal, estamos lidando com um sujeito no real [...]. O desaparecimento é redobrado pelo desaparecimento visado que é o do ato, o próprio ato de fazer desaparecer”. (LACAN, 1961-62, p.136) (Grifo meu)

A marca na praia não é um mau traço, que não possamos reconhecer a passagem de um sujeito pela praia, pois se trata aqui de sua relação com o significante. A questão de Crusoé é uma só- quer seja ou não uma realidade, a marca de pé, é a marca de outro sujeito ali.

Na realidade o encontro de Crosué com Sexta-Feira deixa uma ambigüidade no ar, talvez, Sexta-Feira tenha tentado apagar a sua pegada, mesmo assim, na tentativa de apagamento deste traço, Sexta-Feira é para Crusoé um sujeito. Mas observamos na narrativa de Daniel Defoe que é Robinson Crusoé quem vem a aparecer como sujeito, a pegada opera então, como um traço unário, naquilo que ele confirmaria como um sujeito humano.

“a marca de um pé humano, impressa na areia da praia. Esfriei: parecia que o sangue se houvesse gelado em minhas veias. E ali fiquei paralisado, como quem dá com fantasma. Voltei a examinar o rasto novamente. O rasto lá

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estava- a marca do calcanhar, da sola, e dos dedos de um pé humano”. (DEFOE, 2004 p.134)

O que vemos nessa cena é que a marca do sujeito estava lá, o traço toma um lugar e um valor de signo e de significante.

É interessante ainda que quando Crusoé encontra a pegada do personagem Sexta-feira, apaga-a e logo em seu lugar introduz um X. Observamos aqui, que a inscrição psíquica exige momentos diferentes para se dar, são estes: a pegada, seu apagamento e o rastro- Esses tempos estão diretamente implicados na produção da letra como uma inscrição: “no primeiro tempo a pegada deixada pela passagem de um objeto; no segundo, o apagamento dessa pegada e, no terceiro, o rastro produzido pelo apagamento dessa pegada introduzindo, em seu lugar, um registro, uma inscrição de outra ordem” (JERUSALINSKY, 2011, p. 90).

O que acontece nessa cena em especifico é que o rastro deixado na praia ao ser apagado vem como um impedimento do acesso a marca do que passou ali, mas institui também um movimento de ausência – presença - ausência que por si só não nos permite saber o que passou ali, é então a partir desse rastro de apagamento que temos um testemunho que um sujeito este na praia.

A inscrição psíquica, enquanto letra correlaciona-se com o rastro do apagamento sobre o qual depois poderá vir a se produzir uma inscrição substitutiva (um “X”, ou um circulo tal como Crusoé fez), que introduz um enigma. O funcionamento significante só se estabelece a partir de um traço, de uma pegada, mas de uma pegada, apagada, de uma marca rasurada (JERUSALINSKY, 2011, p. 91).

Sendo esta pegada apagada, ou no caso, rodeada por um círculo, temos assim o surgimento de um significante, que implica em todo o processo a ação (o retorno) do último sobre o primeiro. Sem estes três tempos, segundo Lacan, não haveria articulação de um significante.

“um significante é uma marca, rastro, uma escrita, mas não se pode lê-lo só. Dois significantes é um qüiproquó, é juntar alhos com bagulhos. Três significantes é o retorno daquilo de que se trata, isto é, do primeiro. É quando o passo marcado no rastro é transformado no vacalise de quem lê, em pas [não], que esse passo, na condição de que se esqueça o que ele quer dizer o passo pode servir inicialmente no que se chama fonetismo da escrita, para representar pas e, ao mesmo tempo, transformar o rastro de passo [La trace de pas] eventualmente em nenhum rastro [pas de trace]. (LACAN, 1961, p.137).

Ao se apagar a pegada surge à possibilidade do funcionamento da letra enquanto significante, ou seja, nos possibilita entendermos um sistema de inscrição e

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representação sem precisarmos estar colado no objeto em si, nem na imagem deste objeto, entenderemos seu significado a partir da rede de significantes.

Podemos ainda articular a passagem de Lacan dizendo com isso, que um significante por si só não serve para nada, ele só pode ser lido quando presente na cadeia. Pode-se trabalhar esta questão fazendo uma comparação com a linguagem humana, pois as redes de discurso não só apenas comunicam, mas transformam e criam uma lógica. A palavra verbalizada é guiada por uma lógica psíquica, mas não racional.

É nessa lógica e através do efeito de significante que o sujeito vai emergir. Assim enquanto um signo irá representar algo para alguém o significante é segundo Lacan (1961-62) o que vai “representar um sujeito para outro significante”.

Um significante se distingue de um signo, primeiramente por aquilo que tentei fazer vocês sentirem é que os significantes não manifestam senão em primeiro lugar, da diferença como tal e nada mais. (LACAN, 1961-62, pg. 63)

Como entender essa diferença? Nesse sentido, é através da repetição da marca, da repetição de um traço que possibilita-nos abrir uma série e entender a noção de cadeia significante e também a diferença como tal.

[...] o automatismo de repetição [...] esta aí para fazer surgir, para lembrar, para fazer insistir alguma coisa que não é nada mais, em sua essência, do que um significante, designavel por sua função, e especialmente sob essa face, que ela introduz no ciclo de suas repetições, sempre as mesmas em sua essência e, portanto, concernente a alguma coisa que e, sempre, a mesma coisa, a diferença, a distinção, a unicidade. (LACAN, 1961-62, pg. 79) A repetição permite que se possa abrir uma série. Como Marques de Sade que mesmo no auge de seu desejo, não deixa de contar as suas relações sexuais, fazendo riscos na cabeceira de sua cama.

O traço unário, este elemento de contagem, é singular, assim como a contagem do Marques, cada risco em sua cabeceira é único, mas é o que permite abrir uma série, que é no caso, quantas vezes ele assumiu o desejo, o quanto ele repetiu.

É a partir de um que se pode abrir uma série, que se pode pensar no automatismo de repetição. Podemos tentar compreender minimamente isto, através da teoria dos conjuntos, o 1 da teoria dos conjuntos, é através de 1 que poderei ter 2, 3, 4. É este 1 como tal que marca uma diferença e que abre a possibilidade de ter uma sequência. Vamos colocar como Lacan trabalhou no inicio, ou seja, através de como os significantes vem à tona. Na sua função de S, através da abertura da cadeia de Significantes - S, S’, S”, S”’, S”” = S (-).

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Na medida em que o signo menos designa, conota certo modo de aparição o significado tal, que ele resulta da colocação em função de S, o significante, numa cadeia significante. Nós o colocaremos a prova de uma substituição desses S e S' por 1, já que justamente, essa operação é absolutamente licita, e vocês sabem melhor do que ninguém, vocês, para quem a repetição é a base de sua experiência; o que faz o nervo da repetição, do automatismo de repetição para a sua experiência, não é que seja sempre a mesma coisa o que é interessante, mas sim, porque isso se repete, isso de que o sujeito, do ponto de vista de seu conforto biológico não tem, vocês o sabem, estrita e verdadeiramente nenhuma necessidade, para o que diz respeito as repetições que nos interessam, isto é, repetições as mais pegajosas, as mais enfadonhas, as mais sintomatogênicas. É para lá que deve dirigir-se sua atenção, para revelar ali a incidência como tal da função do significante. (LACAN, 1961-62, p. 64) (Grifos meus).

Tudo isso é para entendermos um pouco que se trata no traço unário de uma marca distintiva- traço unário como o um da diferença. Por isso o nome próprio é exemplo paradigmático do traço unário, porque se trata de um traço distintivo, único.

O traço unário é o traço contável da marca distintiva que serve para marcar a diferença em estado puro, tal como o traço de entalhe sobre os ossos dos mamíferos encontrados nas grutas do Mas-d’Azil. A multiplicidade dos traços não faz valer diferenças qualitativas, mas sim à marca repetida do um de diferença como tal. (PORGE, 2009, p.210)

Articulamos atéeste momento conceitos essenciais para que pudéssemos chegar a esse ponto, que é o de trabalhar o conceito do nome próprio na psicanálise, foi a isso que me propus no inicio deste capitulo. Propus-me a pensar um conceito para além da banalização cotidiana que o nome próprio “se vê obrigado a abrigar”, ora para a psicanálise o interesse pelo tema se dá justamente porque não o concebe desta maneira, “ou seja, sua banalização denuncia a essência daquilo que o sujeito é, não sendo mais possível escamotear a nominação como elemento essencial na base, fundamento e origem do sujeito” ( MARTINS, 1991, p.164).

Então vamos ao nome próprio. Mas antes acredito ser pertinente discorrer sobre a forma que Lacan encontra para abrir o capitulo VII, do seminário IX;

Eu nunca tive tão pouca vontade de fazer meu seminário. Não tive tempo de aprofundar por qual causa, contudo... muitas coisas a dizer. Há momentos de abatimento, de lassidão. Recordemos o que eu disse da última vez. Eu lhes falei do nome próprio, já que nos o encontramos em nosso caminho da identificação do sujeito, segundo tipo de identificação, regressiva, ao traço unário do Outro. A propósito desse nome próprio, vimos a atenção que ele solicitou de alguns lingüistas e matemáticos na função de filosofo. O que é o nome próprio? (LACAN, 1961,62, p.95).

Perguntar-me-iam porque esta passagem me interessou, e eu poderia articular muitas hipóteses sobre isso, mas apenas quero dizer do quanto é difícil falar do nome

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próprio. O nome próprio este um, é singular, marca a diferença, marca uma distinção entre um sujeito e outro. O nome próprio conta então de toda particularidade que pode dar existência a um sujeito.

o nome próprio cumpre a função de contagem, de ter esse elemento que não se confunde com a qualidade e que conta: independente das escolhas da vida, dos lugares sociais, da consistência da identidade, da imagem, dos investimentos que a pessoa faça no decorrer de sua vida. Então, independentemente disso tudo, o nome próprio deveria ser esse traço que permite a identificação, permite a contagem, permite ser um entre outros, não se confundindo com nada mais; singular, apesar de não ser único. (COSTA, pg 74).

O nome próprio é tão paradigmático, que foi por causa dele que se evitou a extinção de algumas línguas em determinadas culturas como neste exemplo: “foi por causa de Cleópatra e Ptolomeu que toda a decifração do hieróglifo egípcio começou porque em todas as línguas Cleópatra é Cleópatra e Ptolomeu é Ptolomeu” (Lacan, aula de 20/12/61). Quando articulado dessa maneira o nome próprio permite um enlace entre ele e a função do escrito, ou com a função da letra, o que é enunciado por Lacan é que é o laço a escrita, e mais precisamente ao traço unário, que caracteriza o nome próprio: “Eu proponho que não pode haver definição do nome próprio senão na medida em nos apercebamos da relação da emissão nomeante com algo que, em sua natureza radical, é da ordem da letra”. É justamente esta conservação de sua estrutura de uma língua a outra do nome próprio que seria a prova disso.

Podem ocorrer algumas pequenas modificações na tradução de uma língua a outra, mas as marcas principais de um nome como os fonemas essenciais se conservam- nos chamamos cada qual com seu nome da mesma forma em todas as línguas. É aqui então que reside toda a particularidade do nome, enquanto próprio na significação.

Lacan adverte que o nome próprio comporta bem mais que significações, e que justamente comporta uma gama de advertências... Retomamos Romeu e Julieta (ato II, cena 2). Observamos o diálogo entre Julieta Capuleto e Romeu Montecchio:

Julieta- Romeu, Romeu? Ah! Por que és tu Romeu?

Romeu- (à parte) Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo? Julieta- meu inimigo é apenas teu nome. Continuarias sendo o que és se acaso Montecchio tu não fosses? Que Montecchio? Não será, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu,

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conservava a tão preciosa perfeição que é sem titulo. Romeu risca teu nome, e, em troca dele, que é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira. Romeu- Sim, aceito tua palavra. De agora em diante não serei Romeu [...] E mais adiante ainda

Romeu- Por um nome não sei como dizer-te quem eu seja. Meu nome, cara santa, me é odioso, por ser teu inimigo, se o tivesse diante de mim, escrito, o rasgaria. (SHAKESPEARE, 2003, p. 48-49).

O que aparece nessa cena é que Romeu é um Montecchio o que já é uma grande advertência para uma Capuleto. E então, seria Romeu e Julieta uma historia tão famosa se não dotasse dessa advertência, dessa proibição? Possivelmente não. Mas o que chama a atenção nesta enunciação de Julieta é a fantasia projetada na questão do nome próprio, parece que o nome aqui se torna um objeto interno no pensar e no sentir deles, isso muito se deve por que:

Só existe amor por um nome, como todos sabem por experiência própria. No momento em que é pronunciado o nome daquele ou daquela a quem se dirige nosso amor, sabemos que esse é um limiar da maior importância. (Lacan, 2005, p.366)

Poderia o nome enquanto um signo ser preenchido de outros afetos? Não é então este o caso de Romeu e Julieta, preencher o nome com o amor de um pelo outro? Já, que resumidamente, em sentido banal, o nome próprio é insuficiente para identificar, não consegue levar a cabo seu verdadeiro programa: identificar um, e apenas um, indivíduo. Isso me leva a questão da nomeação, ao sermos nomeados, cada sujeito tem a possibilidade de se diferenciar de outro qualquer. Uma vez colocadas as letras, o sujeito possui identidade, os registros, imaginário, simbólico e real não se confundem, e enquanto humanos, não temos como escapar do nome próprio.

Remeto-me aqui a Antígona para explicar brevemente a questão da nomeação: “o que á Antígona?”- segundo Lacan ([1959-60] 1997, p.303), ela é antes de tudo Antígona! O que quer dizer que antes de tudo ela é um nome próprio. Sabemos que na tragédia grega os nomes próprios são elementos de extrema importância. A respeito disso Oliveira nos diz:

[...] o que é Antígona? É, antes de tudo, um nome próprio. Na tragédia, os nomes próprios são elementos primordiais, na medida em que enredam o herói e a trama. O nome do herói inaugura e finaliza a tragédia no entrecruzamento da vida e morte. (OLIVEIRA, 2008, p. 41)

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Para entender isso, talvez seja necessário retomar a tragédia. De inicio lembramos que Antígona se vê as voltas com a questão da morte do irmão Polinice e da proibição de Creonte a seu enterro. Trago aqui um dialogo entre Ismênia e Antígona:

ISMÊNE: Que há? Estas inquieta com as más notícias?

ANTÍGONA: Pois não ditou Creonte que se desse a honra da sepultura a um de nossos irmãos, enquanto negas a outro?[...] dizem, também que proclamou a todos os tebanos a interdição de sepultarem ou seuquer chorarem o desventurado Polinice,

ISMÊNE: Mas, nessas circunstâncias infeliz irmã, teria eu poderes para te ajudar a desfazer ou fazer alguma coisa?

ANTÍGONA: Decide se me ajudarás em meu esforço. ISMÊNE: Em que temeridade? Qual a tua idéia?

ANTÍGONA: Ajudarás as minhas mãos a erguer o morto? (SOFOCLES, 2002, p. 201- 202).

A tragédia de Antígona transcorre então em torno da determinação do estado em proibir os ritos funerais a Polinice. Antígona, entretanto, responde a essa proibição desobedecendo e enterrando o irmão. O funeral aparece então como garantia da existência do homem, mesmo depois da morte, pois aquele que tem um nome próprio ante a morte busca por seu túmulo.

Quanto a isso Lacan diz: “não se trata de acabar com o quem é homem como um cão. Não se pode acabar com os restos esquecendo que o registro do ser daquele que pode ser situado por um nome deve ser preservado pelo ato dos funerais” (Lacan [1959-60] 1997, p. 337). Parece pertinente a observação de que Antígona seja a tragédia de um nome, ou da preservação do nome próprio, do que é simbólico de um sujeito.

Quanto ao que é simbólico de um sujeito, se trata na nomeação e em psicanálise precisamente, o que faz existir, não há existência anterior a nomeação. A característica da nomeação é a de ser resultado de uma inscrição do significante no real. Desta inscrição no real decorrem algumas notas a serem trabalhadas, dentro disto: o nome do pai- próprio da nomeação- e outra que surgem justamente pela questão do nome do pai que é o sintoma e a temporalidade.

Temos na nomeação um ato que distingue, trata-se da distinção como diferença pura, mas a nominação também falha e é nesse ponto que articulamos a questão do

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sintoma como sendo o que há de mais próprio num sujeito. O nome próprio de um sujeito é seu sintoma.

A configuração do sintoma, enquanto um determinado modo de enlaçamento do Real, Simbólico e do Imaginário é que vai conferir a qualidade da nomeação. É o modo de enlaçamento no sintoma que irá caracterizar a atualização da nomeação como falha ou não. (Góes, p.93). Então num primeiro momento temos na nomeação a distinção de um puro traço, funcionando como uma inscrição no real, o que caracteriza a questão do sujeito no real, lugar este que se estabelece enquanto um conjunto vazio.

No segundo momento da nomeação- como conseqüência do primeiro, pelo fato de que no primeiro ocorre a circunscrição do sujeito no real, sem atributos, sem significação, assim esta nomeação tornada significante buscará uma significação que possa sustentar o que no real foi circunscrito.

O que aparece a partir da psicanálise é que a questão da nomeação esta diretamente ligada a toda a questão topológica dos nós borromeanos, Lacan trabalha o surgimento do sujeito através dos modos de enlaçamento entre Real, Simbólico e do Imaginário, assim situa a nomeação pelo quarto elo- sem o qual sabemos, não haveria sustação do nó a três- o nó borromeano a três não se sustenta. Acontece então que a entrada do quarto elo é a nomeação, que se dá pela entrada do nome do pai, que por sua vez se dá pelo sintoma.

Quando Lacan explica a adjunção ao nó borromeano de três consistências, ele começa por dizer, que Freud faz o nó a quatro com os três que ele supunha, pois, primeiro ele inventou o que chamamos de realidade psíquica: “O que ele chama de realidade psíquica tem perfeitamente um nome, é o que se chama de complexo de Édipo” (apud Porge). Porge sobre isso lança uma hipótese dizendo que “ou bem Lacan assimila Nome-do-Pai e realidade psíquica, e atribui aí uma espécie de incorporação por Freud [...] ou bem, o que é mais verossímil, a frase de Lacan diz que a realidade psíquica é um dos nomes do pai” (p.155).

Para compreender melhor essa questão no seminário RSI10, Lacan em conferencia sobre Joyce diz: “o pai é o quarto elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do Imaginário e do Real”. O que me parece mais interessante nesta

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Este seminário é inédito e, portanto, ao citá-lo utilizamos como referencia o livro “Os nomes do Pai em Jacques Lacan: Pontuações Problemáticas” de Erik Porge- o autor usa este seminário como referencia em sua obra.

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questão é que o Nome do pai começa a aparecer com um novo sentido, designa então o nome dado ao pai e o nome dado pelo pai, mais ou menos assim: “Chamo isto de o Nome - do – Pai, o que não quer dizer nada senão o pai como nome- o que nada quer dizer de saída-, não somente como nome, mas o pai como nomeante”.

Este novo sentido conferido por Lacan ao nome do pai é fundamental para trabalhar a questão do nome próprio e da nominação, “a nominação é única coisa de que estamos seguros de que faça furo” (apud Porge, Lacan, 1975.). Acontece que é preciso fazer uma retomada mais aprofundada para entender toda a questão do Nome-do-Pai, entretanto, assevero que de inicio a questão que permeia essa pesquisa seja a de conceber ao nome do pai a importância necessária a questão da nominação. É a partir do quarto elo do nó borromeano que uma distinção se introduz entre os três outros elos- Simbólico Imaginário e Real-, o quarto elo é, portanto, o que dá suporte a função de nominação, assim entendemos a afirmativa Lacaniana de que “a nominação é o quarto elemento”. Quanto à nomeação o que se busca é um saber sobre si, um saber sobre o que se é.

O nome próprio vai sempre colocar-se no ponto em que justamente a função classificatória tropeça, não diante de uma enorme particularidade, mas ao contrário, diante de uma rasgadura, a falta, propriamente esse buraco do sujeito, e justamente para suturá-lo, para mascará -lo, para colá-lo. (LACAN, 1964-65).

Assim um dos destinos da nomeação é furar o sujeito e uma das promessas do nomear é suturá-lo. A maior importância do nome, talvez seja pelo fato de que no fim de uma analise, o sujeito dentro de sua neurose busca é fazer valer sua nomeação, ou seja, dar-lhe um sentido. O que se observa no fim de uma analise é o modo como um sujeito faz valer sua nomeação através das produções significantes, e mais precisamente pelo modo como o sintoma testemunha um sujeito, nomeando-o.

Saramago escreveu o seguinte: “Conoces el nombre que te dieram, no conoces el nombre que tienes”, e Guillén escreveu um poema que ao meu ver complementa Saramago: “desde la cuna y aun antes me pusieram mi nombre...”. Tudo isso tem a ver com as seguintes perguntas: Afinal existe um nome que podemos chamá-lo de próprio? E qual a função de um nome?

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Para responder, faço referencia ao escritor James Joyce11 e ao que Lacan formula sobre. No caso de Joyce a função de seu sinthoma foi o de possivelmente livrá-lo de uma psicose. O que quer dizer é que o sinthoma pode assumir a função de Nome-do-Pai. No caso de Joyce o que Lacan vai dizer é que o pai é indigno, é como se James dissesse “você é muito pouco para mim”. Haveria então em Joyce, uma quebra entre o pai e o Nome-do-Pai, o que fará com que ele deseje fazer-se um nome.

O nome que lhe é próprio é aquele que Joyce valoriza as expensas/à custa do pai. É a este nome que ele quis que fosse rendida a homenagem que ele mesmo recusou a quem quer que fosse. É nisto que podemos dizer que o nome próprio faz tudo o que pode para se fazer mais que S1. (LACAN, [1975- 1976] 2005: 89)

O que ele faz é privilegiar o nome em razão do pai, (do fracasso do pai talvez) e nesse ponto é que pode aparecer o sinthoma “Joyce tem um sintoma que parte disso que seu pai era carente, radicalmente carente – ele só fala disso. [...] que é de se desejar fazer um nome que Joyce fez a compensação da carência paterna” (LACAN, [1975-1976] 2005: 94). O nome teve aqui função de suplência. Suplência no sentido de algo a mais, de quarto termo a atar os registros, de invenção a invenção de um nome próprio que revela o ponto da “demissão” paterna de sua função nomeante. Joyce efetiva o que poderíamos chamar mesmo de nome próprio. Sua arte, sua escrita são o nome do pai do qual ele se sustenta para existir e se fazer um nome- faz existir James Joyce. Isso certamente esta para além da nominação. O nome próprio então comporta todo ideal de vir a ser sujeito, e para isso é preciso lidar com toda a problemática de nossa nomeação e como disse Lacan o nome próprio nos importuna “o neurótico é, no fundo, um Sem-Nome”.

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James Augustine Aloysius Joyce (romancista, poeta irlandês). É considerado um dos autores de maior relevância do século XX. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses/Gente de Dublin (1914) e os romances: Retrato do Artista Quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939). Embora Joyce tenha vivido fora de seu país natal pela maior parte da vida adulta suas experiências irlandesa são essenciais para sua obra. Seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Dublin e reflete sua vida familiar, eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade. Ulisses é citado habitualmente como um dos dois ou três maiores romances do século XX.

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CONCLUSÃO

Cuando yo me muera se podrá leer la siguiente inscripción encima de mi tumba: Aquí yace Gabriel Aresti Segurola. En paz descanse. Pérez y López. Marmolistas. Derio. Habrá también en la Biblioteca Provincial de Vizcaya (si no me excomulgan antes) un libro (acaso, no es seguro), que nadie leerá, con mi nombre. Y un hombre dirá cuando florezcan los cardos: Como decía mi padre, yo también... (Me vendrá todos los años una mujer por Todos los Santos con una corona de [flores.) No quiera Dios que pongan mi nombre a una calle de Bilbao. (No quiero que un barbero borracho pueda decir: Yo vivo en Aresti con la cuñada vieja de mi hermano. Ya sabes, con la coja.) A veces los viejos decires se equivocan. Pienso que mi nombre es mi ser y que no soy sino mi nombre.

Gabriel Aresti. “Pienso que mi nombre es mi ser, y que no soy, sino mi nombre”. Com esta frase do poema de Gabriel Aresti intitulado “Mi Nombre”, pode-se pensar imediatamente neste tema de pesquisa: o nome próprio. Mesmo que eu não possa de imediato estabelecer de forma clara porque escolhi trabalhar este tema, devo “advertir” que não se pode compreender um sujeito em psicanálise sem a pergunta cabal de todo inicio de tratamento que é “como você se chama?”, ou “Qual é o seu nome?”.

Propositadamente coloco em primeiro “como você se chama”, porque me dei conta ao longo desta escrita que o fato de recebermos um nome não significa que iremos ao longo da vida fazer dele “próprio”- Mas será que existe um nome que podemos chamá-lo de “próprio”?

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Falar, escrever sobre o nome próprio nos leva na busca de caminhos possíveis para compreender os processos de nomeação e os referencias presentes na cultura como elementos fundamentais na escolha de um nome, este que a todo tempo é imaginário, pois é sempre preenchido de significação, de ideais... E o que buscamos trabalhar nesta pesquisa foi o nome próprio enquanto significante, entendendo que o que chamamos de nome próprio tapa o vazio constitutivo que determina o sujeito. Ao contrário do que supunha no inicio do trabalho, este tema é abordado por inúmeros autores- me vi diante do excesso de materiais e precisando fazer um “recorte” sobre o tema. Colocou-se então com freqüência a seguinte pergunta: por que caminho seguir?

Às vezes, se faz necessário folhear o que nos é mais familiar, seguir caminhos incertos- como o próprio nome - observar seus caracteres, reconhecer nele um manuscrito ligado aos vínculos que atravessam as gerações, e permitir-nos fazer uma busca pelo que é próprio de um “nome próprio”, digo isto, pois o objetivo deste trabalho era o de poder abordar o nome próprio através da psicanálise, mas para isso busquei um caminho próprio, trabalhando no primeiro capitulo um pouco da história brasileira.

Percorremos leituras sobre nome próprio na cultura, abordando brevemente o período escravagista com a tentativa de entender o que o nome próprio significava para quem nomeava e para quem o recebia nesse período da historia do país. Observamos que na questão da escravidão, o negro além de ser escravo, era obrigado ao desembarcar no Brasil trocar seu nome- e sendo renomeado- mas, este novo nome era “nome próprio” somente para quem nomeava e não para o “sujeito” que recebia o nome, pois não permitia a ele uma singularidade, um reconhecimento enquanto sujeito, afinal ao escravo cabia a condição de “pertencer” ao outro - tanto pertencia, que nem mesmo seu nome era seu. Ele estava colocado em posição de objeto.

Assim, com parte da história brasileira percorrida, foi possível ir ao encontro do que a psicanálise poderia dizer sobre o sujeito e o nome próprio, mais especificamente o que ela nos diz sobre o nome que carregamos, pois é na medida em que alguém recebe um nome que podemos falar também de desejo, sabendo que o desejo é inconsciente e então que determinação teria num sujeito seu nome próprio? E em que momento poderia ser dito que um sujeito se apropria do nome e o torna seu? Haveria realmente um nome “próprio”? Tendo questões como essas de referencia foi possível no segundo capitulo abordar o nome próprio a partir dos conceitos psicanalíticos como: da identificação, traço unário e significante.

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Se o nome possui, ou melhor, cumpre uma função de contagem, de ser este um que conta e que possui a tarefa de identificar cada sujeito, o nome próprio então conta e reconta o que todo sujeito deseja ser, deseja que seu nome o identifique como sujeito de desejo. Apontamos neste capitulo para uma das características, ou destinos fundamentais do ato de nomeação que é o de furar o sujeito e uma das promessas do nomear é suturá-lo.

Salientamos aqui que abordamos de maneira breve na pesquisa o que considero ser a maior importância do nome, que é o fato de que no fim de uma analise, o sujeito dentro de sua neurose busca é fazer valer sua nomeação, ou seja, dar-lhe um sentido, pois estamos a todo tempo as voltas com nosso nome buscando sempre saber sobre nossa nomeação. Num fim de analise, por exemplo, o sujeito esta as voltas com o que lhe dá lugar no social, e o nome é essencialmente uma busca constante por saber o que se é. Como Joyce, que a todo tempo buscou fazer-se um nome, colocando o nome numa “condição” de suplência, no sentido de suprir o que ao Nome-do- Pai faltou.

Ressaltamos que é impossível concluir este trabalho, ele é apenas um passo inicial para discutir uma questão muito mais ampla e que certamente está longe de ter um fim, o nome próprio é certamente um tema que não se esgota. Mas é preciso concluir! Porém neste ponto da escrita posso dizer que o que mais fica são questões não esclarecidas durante este percurso, questões que renderiam muitas possibilidades de trabalho, uma delas seria qual a relação entre nome próprio e letra- questão que ficou em aberta.

Finalmente, o que ficou claro durante esta escrita fora o fato de que receber um nome não significa apropriar-se dele, e todos os sujeitos sempre estão na busca de saber sobre sua nominação e me parece difícil não dizer também que fora neste sentido de saber sobre meu nome próprio, saber sobre o que nos move enquanto sujeitos que escrevi sobre este tema, afinal se somos no fundo um “sem- nome” e se nosso nome nos importuna é preciso falar, escrever e trabalhar, trabalhar e se analisar.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARESTI, Gabriel. Maldan Behera (Pendiente Abajo) - Harri eta Herri (Piedra y Pueblo). Ed. Catedra x. 1979.

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Referências

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