ideologia em estado puro: Juros e inflação
para além da aparência neoclássica
Ideology on pure state: Interest and inflation
beyond the neoclassical appearance
JorGe arMindo aGuiar varasChin*
RESuMO: há uma crença em parcela dos/as economistas brasileiros/as alusiva à possibilidade de análises econômicas que excluam influências ideológicas. A ortodoxia neoclássica funda sua pretensão científica apoiada na premissa de sua própria neutralidade, influindo no debate econômico nacional: o não reconhecimento de seu caráter ideológico, conforme esvazia de significação conceitos centrais como a inflação, interdita a discussão da qual faz parte. Este trabalho investiga esse deslocamento de conteúdo, cuja síntese manifesta-se através da temática inflacionária, apresentando esse “vazio” conceitual como momento de perda de sua eficácia analítica, mas que, justamente por isso, redimensiona seu papel como veículo ideológico.
PALAVRAS-ChAVE: Economia Brasileira; Ideologia; Inflação; Significante.
ABSTRACT: There is a belief amongst part of Brazilian economists alluding to the possibilities of economic analysis which excludes ideological influences. The neoclassical orthodoxy establishes its scientific pretentions based on the premise of its own neutrality, influencing the national economic debate: the not recognizing of its ideological character, as it drains significant focal concepts such as inflation, inhibits the discussion from which it belongs. This essay queries such content shift, which synthesis prompts through the inflationary thematic. Featuring this conceptual “void” as moment of loss from its analytical efficacy, though, because of it, resizes its part as ideological mean.
KEYwORDS: Brazilian Economy; Ideology; Inflation; Significant. JEL Classification: B410; B590; Z00.
* Doutorando em Economia do Desenvolvimento pelo Programa de Pós-Graduação em Economia da universidade Federal do Rio Grande do Sul (uFRGS). E-mail: [email protected]. Submetido: 20/Julho/2016; Aprovado: 21/Fevereiro/2017.
INTRODuçãO
há um chiste freudiano bastante conhecido no qual dois judeus discutem da seguinte maneira: “‘Aonde vai?’, perguntou um. ‘À Cracóvia’, foi a resposta. ‘Como você é mentiroso!’, não se conteve o outro. ‘Se você dissesse que ia à Cracóvia, você estaria querendo fazer-me acreditar que estava indo a Lemberg. Mas sei que, de fato, você vai à Cracóvia. Portanto, por que você está mentindo para mim?’”(FREuD, 1905 [1996]), p. 77). A pergunta sugere a existência anterior de um código implícito de engano, quebrado por um dos personagens, quando, indo para Cracóvia, relata seu destino de fato. Código semelhante parece haver no de-bate econômico brasileiro: há algo de engano, fora de lugar, do modo que a discus-são parece esconder alguma coisa para além das variáveis em estudo, algo que não é dito e que deve continuar não sendo. Nesse artigo, considera-se que esse é o drama criado pelas análises supostamente não ideológicas que inundam a ortodo-xia econômica: o aparente paradoxo de não dizer o que efetivamente está sendo enunciado. O neoclassicismo ergue-se a partir da fé em investigações desnudas de ideologia ou, em outras palavras, neutras em relação à própria verdade virtual que constrói1. Apesar disso e das variadas tentativas de mascarar a ideologia (e,
princi-palmente, de se mascarar perante a ideologia), considera-se, neste trabalho, que essa pretensa neutralidade não encontra espaço no mundo real, tornando necessá-rio uma nova problematização da atual conjuntura do debate econômico nacional. Contrariamente à premissa ortodoxa, a investigação do discurso que permeia as correntes neoclássicas demonstra que, justamente quando se supõe que a ideo-logia apareça fora do quadro de análise, encontra-se, pelo contrário, de maneira pura no próprio relato que engendra sua negação. Tem-se, portanto, que o mo-mento onde se estabelece a crença de que há a possibilidade de uma análise abso-luta das variáveis é o momento onde se encontra a ideologia em estado puro, onde esta se depara com seu próprio excesso. Nesse estudo, considera-se que o debate econômico atual faz precisamente isso: ao contrário de, como pretende, analisar o recente contexto econômico de maneira isolada, confinando dados no exterior do arcabouço ideológico, a própria análise, à medida que exterioriza a ideologia, reafirma inversamente sua consistência. Assim, a ideologia não se cris-taliza quando “distorce” ou “esconde” certo aspecto do real, mas quando distorce e nega a si mesma.
Dessa forma, este artigo se propõe a construir algumas considerações quanto ao aspecto ideológico que cerca as atuais interpretações e análises da economia brasileira, a partir da economia política marxiana e da psicanálise de Jacques Lacan. O objetivo principal é desmistificar a fé ortodoxa em estudos ideologica-mente neutros, considerando de maneira pormenorizada o papel da temática in-flacionária no interior da narrativa neoclássica, já que, da maneira como é
expos-1 Ver, por exemplo, a separação entre economia positiva e normativa em KEYNES (1890 [1955]), e
ta, como relação exclusiva com certo ponto ou objeto da realidade em detrimento da própria realidade, esta crença mais se parece com um fetiche (FREuD, 1905 [1996]). A partir daí, pergunta-se: o que, de fato, está sendo discutido entre os/as economistas? Desse ponto, elaboram-se quatro hipóteses norteadoras: a ortodoxia, na medida em que supostamente retira a ideologia como pressuposto básico de seus conceitos, torna-os deslocados de seu próprio sentido, esvaziando sua eficácia analítica e redimensionando seu papel como significante (LACAN, 1966 [1998]), ou seja, como composição referencial de determinado discurso ideológico. O re-sultado é um discurso que interdita o próprio debate, não pela aparência, pelo silêncio de uma das partes, mas por aparentemente não “saber do que fala”. Dessa forma, elabora, através da aparência de diálogo, sua efetiva não ocorrência; a se-gunda hipótese afirma que a discussão em si também faz parte do cenário econô-mico e, por isso, deve ser analisado conjuntamente como momento de sua reflexão. Em síntese, o imaginário acerca dos problemas econômicos atuais são os proble-mas econômicos atuais, não propriamente os fatos que os corroboram, proble-mas justa-mente a consciência de que há algo errado, o que define a análise ideológica como central no estudo dos cenários econômicos; já a terceira hipótese redimensiona o papel dos juros no debate econômico nacional, apresentando-se como o assunto a ser deslocado, encoberto em certa medida pela temática inflacionária. Por isso, a inflação no Brasil traz intrinsecamente o que se chamou neste trabalho de sem-blante dos juros, ou seja, os traços indeléveis do que se esconde; por fim, conside-ra-se que a condição de possibilidade para um debate genuíno surge a partir do reconhecimento do aspecto ideológico do espaço identificatório daquele que fala. Não há uma disputa entre “ideológicos” e “não ideológicos”. O que ocorre são campos discursivos que se constroem no próprio reconhecimento de sua verdade virtual, isto é, de sua ideologia.
O DEBATE DESLOCADO: A LÓGICA DO “SOCO NA MESA”
há um interessante relato de um debate sobre sistemas de taxas de câmbio2,
cujo mediador, ao ser questionado sobre a consistência de uma de suas afirmações (defesa de taxa de câmbio flutuante), responde de maneira pouco usual: “O que você sugere? Que voltemos aos tempos da inflação anterior ao Real?”. Essa dis-cussão demonstra de maneira bastante satisfatória a atual dinâmica do debate econômico no país: conceitos básicos esvaziados de significação praticamente im-possibilitam um diálogo genuíno. No exemplo, manifesta-se o papel proibidor que a temática inflacionária impele, ou seja, na medida em que se apresenta, surge como elemento que esvazia a possibilidade do contraponto. Nesse caso, a
chama-2 Ver NASSIF (2016). Disponível em: http://jornalggn.com.br/noticia/as-marolas-pre-reuniao-do-copom.
da “memória inflacionária”3 amplia seu sentido tradicional. Não se apresenta
apenas como um elemento que se propõe a explicar determinado tipo de ação social, específico para cenários de conflito distributivo4; pelo contrário: surge
tra-zendo consigo uma série de medos e ansiedades. Na citação, essa “memória” foi utilizada não por necessidade lógica, na defesa de determinada proposição econô-mica, mas como um “pavor inflacionário”, uma espécie de terror cuja finalidade é silenciar e deslegitimar o argumento que diverge. Como revelado anteriormente, o que se mostra é um esvaziamento do conceito, ou melhor, um deslocamento de sua função, surgindo uma paisagem bastante curiosa: a inflação que aparece na teoria econômica não é a mesma proferida no debate que esta fomenta. No pri-meiro caso, aparece seu uso lógico em perspectiva, referente à teoria elaborada; no segundo, a construção de um imaginário coletivo, disputado cotidianamente, mas cuja hegemonia pertence a um discurso específico. Esse deslocamento é típico da formação ideológica e exterioriza o conceito que a encarna. Assim, como já referido, nos dois momentos não se discorre sobre a mesma inflação, já que a palavra compõe duas funções: de conceito teórico e de veículo ideológico, o que a transforma, como elemento de uma rede, passível de se apresentar como o que Lacan chamou de significante (LACAN, 1966 [1998]). Na exposição, o efeito dessa dupla finalidade revela-se no mecanismo da aparência: o debate continua na forma, mas se esvai no conteúdo, na proibição gerada. Pensemos no tipo de resposta que a pergunta impõe. Quem, afinal, gostaria de taxas de inflação tão elevadas quanto às existentes no período anterior ao Real? Evidentemente, o ques-tionamento não servia à função estrita de ouvir o outro, sua posição e argumento. Pelo contrário, por trás da aparente solicitação de uma resposta, há uma ordem implícita, não falada, mas imposta: “Não duvide!”.
OS SIGNIFICANTES E A IDEOLOGIA: A “EX-SISTêNCIA” LACANIANA
A lógica do significante expõe o aspecto primordial para a formação de deter-minado discurso. O significante fundamenta, como conceito básico, a tríade laca-niana, formada pelos campos do Simbólico, do Real e do Imaginário: o primeiro relacionado à diversidade de regras e pressupostos elementares de reconhecimento e socialização que nos insere no que se poderia chamar de ordem simbólica; o se-gundo campo, o Real, aparece como aquilo que escapa à simbolização ou, como exposto por Zizek, “[...] o real, em sua forma mais radical, tem de ser totalmente dessubstancializado. Ele não é uma coisa externa que resista a se deixar apanhar
3 Para uma apresentação mais pormenorizada sobre o papel da memória inflacionária no interior da
teoria inercialista, ver, por exemplo, BRESSER-PEREIRA e NAKANO, 1984.
4 Ver, por exemplo, descrição de BRESSER-PEREIRA (2010) sobre o debate, no decorrer da formação
na rede simbólica, mas as fissuras dentro dessa própria rede simbólica” (ZIZEK, 2006 [2010], p. 91); por fim, o Imaginário, apresentado como operativo do deslo-camento ou nossa maneira de operar junto ao chamado grande Outro, isto é, à ordem simbólica.
O significante é uma categoria formal, e não descritiva. Pouco im-porta o que ele designa; por exemplo, tomamos aqui a figura do sintoma, mas o significante pode, da mesma forma, ser um lapso, um sonho, o relato do sonho, um detalhe desse relato, ou mesmo um gesto, um som, ou até um silêncio ou uma interpretação do psicanalista. [...] O signifi-cante é desprovido de sentido, não significa nada e, portanto, não entra na alternativa de ser explicável ou inexplicável. [...] Numa palavra, o significante é, e nada mais. O significante é, sim, desde que permaneça ligado a um conjunto de outros significantes: é um entre outros com os quais se articula. Embora o significante um seja perceptível para o anali-sando ou o analista, os outros com que se encadeia não o são. Estes são significantes virtuais, atualizados no passado ou ainda não atualizados. A articulação entre um e os outros é tão estreita que, ao se pensar no
significante, nunca se deve imaginá- lo sozinho. um aforismo lacaniano resume bem essa relação: um significante só é significante para outros significantes. (NASIO, 1992 [1993], p. 17)
Nesse contexto, conforme a citação de NASIO (1992 [1993], p. 17), o signifi-cante opera justamente nas brechas do verbo. Lembremos da afirmação anterior de que a inflação, como veículo ideológico, nega sua face teórica, de ferramenta eficaz de estudo: como significante, a temática inflacionária é, não possuindo im-portância analítica. Não é por acaso a existência de inúmeras teorias sob a dinâ-mica do processo inflacionário. Não apenas as determinações e causas do fenôme-no aparecem de maneira obscura, mas esse é o próprio jogo do significante: fenôme-no interior do discurso ideológico neoclássico a inflação é, independente de qualquer relação causal. Não serve para explicar algum fenômeno específico, mas para cons-tituir, justificar e legitimar ideologicamente determinada postura ou, como explici-tado mais adiante, determinado sujeito. Em outras palavras, como vetor ideológico, esvazia-se de sua significação teórica.
De que, então, se compõe a ordem simbólica? Quando falamos (ou quando ouvimos), nunca interagimos simplesmente com outros; nossa atividade de fala é fundada em nossa aceitação e dependência de uma complexa rede de regras e outros tipos de pressupostos. Primeiro há as regras da gramática, que tenho de dominar de maneira cega e espontâ-nea: se eu tivesse de ter essas regras em mente o tempo todo, minha fala se desarticularia. Depois há o pano de fundo de participar do mesmo mundo/vida que permite que eu e meu parceiro na conversação compre-endamos um ao outro. As regras que eu sigo estão marcadas por uma profunda divisão: há regras (e significados) que sigo cegamente, por há-bito, mas das quais, se reflito, posso me tornar ao menos parcialmente consciente (como as regras gramaticais comuns); e há regras que ignoro que sigo, significados que ignoro que me perseguem (como proibições inconscientes). E há regras e significados cujo conhecimento não devo revelar que tenho – insinuações sujas ou obscenas que silenciamos para manter o decoro. (ZIZEK, 2006 [2010], p. 17)
Nesse sentido, considerando o significante e a tríade lacaniana, a ideologia apresenta-se como uma rede de significantes, elaborando o que se poderia chamar de o “vazio” para além da estrutura, ou, em síntese, com o elemento que falha (ou falta) na estrutura do verbo, que escapa a determinada lógica, ou que a esvazia, como o faz a temática inflacionária. É ao se tornar supérflua como instrumento analítico que a inflação apresenta sua eficácia como ferramenta ideológica e, por isso, significante. O significante da falta, ou a falha na rede de significantes apare-ce, na teoria psicanalítica, como o Um, aquele que, ao exteriorizar-se (no caso da inflação, perder força teórica), constrói o suporte e consistência de determinada ideologia (transforma-se em elemento central da narrativa neoclássica). O discurso ideológico, dessa forma, se constrói através da falta na rede de significantes que se torna em seu elemento externo, mas próximo. É a função do Um, significante da falta, único, externo e, mesmo assim, próximo. Lacan elabora essa problematização através do conceito de “ex-sistência”:
Desse modo, considerando-se a exposição até o momento, não existe um sig-nificante isolado, perdido em si próprio, cuja existência se constrói a priori de qualquer aspecto relacional. Pelo contrário, um significante se elabora através de uma cadeia, de uma série, condicionando sua própria consistência a outros signifi-cantes. Assim, só pode ser reconhecido como significante por outro, correlaciona-dos na mesma cadeia. É através dessa rede que a função de significante ganha re-levo e é na falta de um elemento, a “falta” nessa série, que a ideologia demonstra seus contornos. O trecho acima descreve essa referência: é um elemento exterior, um significante na posição do Um, do “vazio” na própria cadeia de significantes, que elabora a consistência do conjunto como totalidade. O todo, no caso, se com-põe a partir de sua própria falta: a falta constitutiva, que permite que o conjunto se estruture e possua determinada dinâmica, ou seja, gera sua consistência interna através de um objeto ou elemento externo ao movimento que a supõe. É justamen-te a “falta”, o Um, que, na medida em que mediado como exterioridade, constrói o que se conhece como ideologia. Nesse momento, compreende-se o motivo pelo qual, para funcionar como elemento ideológico, determinado conceito precisa li-vrar-se de seus contornos originais de sentido. Como referido em trechos anteriores, a temática inflacionária permite visualizar esse fenômeno de maneira explícita: sua face teórica nos indaga sobre um objeto específico de análise econômica; seu vetor ideológico faz esse aspecto perder força. Surge em seu lugar a mobilização da an-gústia. No segundo campo, já não se trata de qualquer estudo econômico. Não há algo a explicar. Pelo contrário, a pretensão agora é elaborar e justificar determina-da postura perante a realidetermina-dade apresentadetermina-da5. Desse modo, cumprindo a segunda
função, de vetor discursivo, a inflação exterioriza-se do próprio arcabouço (teoria econômica) que elaborava seu sentido original. No entanto, é propriamente esse “exteriorizar-se” que compõe a consistência ideológica do neoclassicismo, elaboran-do um aparente paraelaboran-doxo: justamente o momento de sua afirmação ideológica, em cujo cerne aparece a temática inflacionária, apresenta-se como sua negação teórica, já que sua efetividade como discurso ocorre através de um tema cujo significado se desloca. Compreende-se, então, o sentido da afirmação de que a totalidade, co-mo conjunto, se constrói através de sua própria negação. E é justamente coco-mo algo externo, próximo ao sujeito, constituído por ele mesmo, mas que elabora seu dis-curso, que a ideologia nos fornece um tipo de proteção contra o “real cru” (ZIZEK, 2006 [2010], p. 73), que nos assola, nos protege daquilo que não podemos simbo-lizar e que, por isso, é compreendido como inapreensível. Nas palavras de Zizek:
[...] se o que experimentamos como “realidade” é estruturado pela fantasia, e se a fantasia serve como o crivo que nos protege, impedindo
5 Diferentemente do que a ortodoxia profere, seu próprio enunciado, apresentando-se como “responsável”
que sejamos diretamente esmagados pelo real cru, então a própria rea-lidade pode funcionar como uma fuga de um encontro com o real. Na oposição entre sonho e realidade, a fantasia está do lado da realidade, e é em sonhos que nos defrontamos com o real traumático – não é que os sonhos sejam para aqueles que não conseguem suportar a realidade, a própria realidade é para aqueles que não conseguem suportar (o real que se anuncia em) seus sonhos. (ZIZEK, 2006 [2010], p. 73)
Portanto, a ideologia não apenas estrutura a “falta” na cadeia de significantes, mas também media nossa relação com o Simbólico, tornando-nos capazes de apre-sentar-nos como sujeitos e nos reconhecermos como tal. Desse modo, a ideologia constitui o espaço par excellence de formação de nossas próprias identificações. Nesse contexto, elucida-se a afirmação de que a crença não ideológica ortodoxa faz com que encontremos a ideologia em estado puro: a ideologia, quando aberta-mente negada em determinado discurso, tem sua falta reconhecida, não deslocada, sua função identificatória abertamente constituída, e é por isso que aparece como um semblante de autoridade ou uma palavra mestra (“Que voltemos aos tempos da inflação anterior ao Real?”, ou seja, “Não fale!”, “Não contraponha!”, “Não duvide!”). Assim, não é paradoxal que quando a ideologia é refutada no discurso econômico é o momento em que ela atua de maneira cristalina; mas é justamente por isso, por ser abertamente negada, que ela aparece em estado puro.
LACAN, MARX E ALThuSSER: IDENTIFICAçãO, ALIENAçãO E IDEOLOGIA
Conforme o exposto, o artigo propõe um redimensionamento do conceito de ideologia: não mais como um “ocultamento” ou “distorção” da realidade, como apresentado pela abordagem marxiana, mas, através da constituição do próprio sujeito, a ideologia revela os elementos de formação dessa mesma realidade, tra-zendo consigo o que se poderia chamar de uma “falta” positiva, isto é, uma “falta” que, antes de nos esconder certo aspecto do real, nos indaga sobre ele. Nesse con-texto, se a ideologia aparece como o “vazio” constitutivo de determinada rede de significantes, um “vazio” que, justamente por sua falta, estabelece os contornos do sujeito, vislumbra-se, portanto, a possibilidade de uma nova positividade, consti-tuída a partir das identificações desse mesmo sujeito. Dessa forma, esta seção esta-belece algumas relações entre identificação, sujeito e ideologia através desse novo prisma, dessa nova problematização.
um deles é Louis Althusser. Partindo da estrutura conceitual lacaniana, ao analisar o que chamou de “aparelhos ideológicos de Estado”, Althusser vincula o processo de formação ideológica à constituição do sujeito, ampliando, com isso, o sentido da ação ideológica. Na perspectiva do autor, a ideologia não apenas “funda” de-terminada realidade, mas o próprio sujeito para o qual esta possui sentido especí-fico. Em outras palavras, sujeito e realidade não são entes separados. Pelo contrário, a existência de um condiciona e determina a ocorrência do outro, o que expande a compreensão da conhecida afirmação de Althusser (1970 [1996], p. 131) de que “A ideologia interpela os indivíduos como sujeitos”.
Dizemos que a categoria do sujeito é constitutiva de qualquer ideo-logia, mas, ao mesmo tempo e imediatamente, acrescentamos que a cate-goria do sujeito só é constitutiva de qualquer ideologia na medida em que toda a ideologia tem a função (que a define) de “constituir” indivíduos concretos como sujeitos. É nesse jogo de dupla constituição que toda ideologia funciona, não sendo a ideologia mais que seu funcionamento nas formas matérias de existência desse funcionamento. (ALThuSSER, 1970 [1996], p. 132)
Em síntese, o autor afirma a relação entre ideologia, identificação e sujeito, levando o espaço ideológico para além de um “ocultamento” da realidade, como exposto pela análise marxiana6. Dessa forma, afirma justamente que a formação
de determinada “visão de mundo” se dá com base no relato (ou relatos) com os quais o indivíduo se identifica, elaborando os contornos do que poderia se chamar de “sujeito da ideologia”. Nesse sentido, a perspectiva althusseriana traz consigo elementos importantes e que, em certa medida, demonstram um elemento de des-continuidade da teoria marxiana.
Para Marx, esse “ocultamento” está intimamente relacionado ao conceito de alienação, trabalhado a partir de Feuerbach e que desponta como o que se poderia chamar de inversão da realidade: se são as relações de propriedade efetivadas por determinado modo de produção que nos conduzem aos aspectos reais da existência, a ideologia, especificamente como fruto do trabalho alienado, ou seja, de um “pro-duzir” dessubjetivado, cujo reconhecimento do trabalhador naquilo que cria pra-ticamente não ocorre, dissimula tais posições. Com isso, amplia o espaço identifi-catório, indo além das relações de produção, porém, na medida em que o faz, obscurece-as como campo efetivo da existência. Ao longo desse debate, depreende--se um viés negativo da função ideológica, já que impossibilita que o indivíduo tome conhecimento das suas condições reais de vida e a maneira como influenciam, ou mesmo determinam, sua própria consciência. Essa separação do trabalhador com o fruto de seu trabalho, resultado de determinadas relações de propriedade, elabo-ra justamente o “não elaborável”: é nesse suposto vazio que a ideologia aparece,
surgindo como resposta a referida “perda” identificatória. Portanto, na análise marxiana a noção de ideologia traz em si a ideia de que algo se perde, de que há um aspecto não visualizado, um momento que escapa do todo. Resumindo: para Marx, a alienação faz com que algo não se apreenda no processo de subjetivação.
Nesse cenário, Althusser traz, para além das “condições efetivas de existência”, que considera válidas, já que parte também do arcabouço marxiano, uma alteração no viés do discurso ideológico no interior da teoria social: como já referido, se a abordagem marxiana enfatiza o viés negativo da ideologia, como “ocultamento” e/ ou “encobertamento” da realidade, a construção de Althusser, partindo de Lacan, torna possível uma aproximação positiva do conceito, tendo em vista o fato de que é justamente através de determinada visão ideológica que o indivíduo constrói sua consciência. Em síntese, se na primeira abordagem, a ideologia “mascara”, na se-gunda, ela constitui o sujeito, na medida em que estão aí as bases de suas identifi-cações. Assim, o vazio, o silêncio ideológico surge como condição de possibilidade para o surgimento de uma nova positividade: a constituição do próprio sujeito. É nesse contexto que se apresenta a principal função da temática inflacionária no cerne do discurso neoclássico: estabelece a unidade discursiva da ortodoxia econô-mica, elaborando, para tanto, a identificação central do/a economista ortodoxo/a.
A FICçãO DE KARL POPPER E A FANTASIA NEOPOSITIVISTA
Desse modo, considerando o até aqui exposto, Karl Popper se transforma no verdadeiro utopista7, assim como os liberais e seu sonho tecnicista: a ontologia
econométrica da história, fruto de uma análise e de um arcabouço teórico construí-dos sem intervenções ideológicas, não é nada mais que uma ficção, que a ideologia aparecendo de maneira cristalina. Também o sonho neopositivista de exclusividade científica de relações matematizáveis só demonstra o quão a ideologia está intrin-secamente ligada à economia política: o discurso ideológico constrói o sentido das respectivas teorias econômicas, fundamenta suas articulações e elabora suas inter-locuções. Assim como a fantasia neoclássica de uma economia sem regulações surge como uma inversão ideológica (a própria manutenção do discurso de livre mercado como ideologia hegemônica pressupõe a existência de intervenções que impossibilitem esse mesmo mercado, sob pena de destruição da totalidade do sis-tema econômico, como expõe, por exemplo, POLANYI, 2012 [1944]), a condição de existência da verdade de Popper é sua própria inviabilidade. Da mesma forma como a realização de uma utopia ocorre através de seu próprio fechamento, ou seja, com sua dissolução como projeção narcísica, o sonho popperiano e neoposi-tivista corrobora a si mesmo afirmando o que supostamente combate: a ideologia. É por isso que, quando afirma sua exclusividade científica nada mais faz do que
reestabelecer a crença que havia negado: a possibilidade de uma análise capaz de se construir para além do discurso idológico.
Essa afirmação “não ideológica” popperiana e neopositivista demonstra os limites e interdições na base da teoria econômica ortodoxa. Com base na seção anterior, o próprio esvaziamento da função ideológica impede uma superação po-sitiva da economia mainstream, cujo resultado é seu esgotamento em si mesma, o que, de fato, manifesta-se através de sua negação do “outro” como condição pró-pria de existência. Em outras palavras, a rejeição da ideologia aparece como o próprio cerne do discurso ortodoxo, constituindo, a partir dessa premissa, sua consistência e injunções básicas. Por outro lado, a contrapartida de tal postura é o bloqueio, não apenas do outro, o que diverge, mas também a qualquer tipo de
devir positivo de seus aspectos centrais. Assim, o “custo” da hegemonia ortodoxa é seu eterno debate consigo mesma, elaborando em bases muito estreitas suas pos-sibilidades de renovação teórica. Em síntese, ao refutar o outro, a ortodoxia refuta parte de si mesma, já que a própria interdição, para ocorrer, necessita afirmar uma identificação básica: tanto ortodoxos/as quanto heterodoxos/as debruçam-se sob o mesmo objeto, qual seja, a economia brasileira. Negar a legitimidade de determi-nada interpretação de um objeto específico, é negar parte desse mesmo objeto, o que, de certa forma, afeta seu desenvolvimento teórico. Não nos esqueçamos o referido na introdução desse artigo: o imaginário sobre os atuais problemas eco-nômicos são os atuais problemas econômicos, ou seja, a crítica a determinada análise econômica se constrói como crítica ao próprio objeto em estudo. Não existe inflação sem o olhar do outro e a ortodoxia, ao não reconhecer esse olhar, não reconhece o próprio fenômeno. O resultado é a apresentação de um debate deformado entre os supostos “ideológicos” e os “não ideológicos”. Entre os que propõem saídas políticas e outros, alternativas puramente técnicas. No entanto, ironicamente (ou não), é nessa afirmação da ideologia como algo externo ao dis-curso que esta aparece de maneira cristalina, em estado puro. Ao fazer essa afirma-ção, o neoclassicismo não faz nada mais do que apresentar de modo explícito sua face ideológica. Nesse mesmo contexto, pode-se afirmar que, contrariando o que correntemente se afirma na literatura econômica, são Popper e os neopositivistas que se inundam de afirmações ideológicas e as escancaram na medida em que as negam. Assim, ao negar a ideologia que os supõem, trazem em si um discurso inó-cuo, esvaziado, desengajado em seu próprio espaço. Essa percepção de um vazio constituinte, de uma falta não falada (ou seja, da ideologia não reconhecida), mas sentida, inunda o debate econômico brasileiro.
A ORTODOXIA E O DEBATE INTERDITADO: A INFLAçãO COMO uNIDADE DISCuRSIVA DO NEOCLASSICISMO
apenas a revela em seu estado puro, de maneira cristalina, na medida em que afir-ma a própria falta que a constitui. Surge, assim, o esvaziamento do conceito (de determinado conceito, no caso), que se opera através de um significante e seu semblante de autoridade; teorias que operam através dessa dinâmica nada mais fazem que revelar todo o seu caráter ideológico e a inversão que elaboram. Como afirmado anteriormente, a condição de existência tanto do neopositivismo como da utopia liberal, se baseiam na sua impossibilidade de concretização. Tendo em vista esse arcabouço, passa-se a analisar o debate econômico nacional de maneira mais detalhada. Considerando que, ao contrário do que se possa imaginar, nossa discussão hoje se encontra ideologicamente interditada, bloqueada por um tema em especial: a questão inflacionária. De maneira mais específica, o eterno diagnós-tico de inflação de demanda que perpassa implicitamente a maioria das análises ortodoxas e que sustenta o chamado tripé macroeconômico: superávit primário, metas de inflação e câmbio flexível.
lança” da ortodoxia brasileira, utilizada para interditar possíveis contrapontos ou discursos divergentes. Com isso, mostra-se um debate deformado, surgindo como uma disputa entre aqueles preocupados com a “saúde monetária” do país (ortodo-xos/as) e os lenientes com a aceleração inflacionária (heterodoxo/ass). Entre os “sensatos” e os “irresponsáveis”. um conflito entre a “seriedade” e o “populismo”.
Afinal, quem poderá ser contra o combate à inflação?
O cenário apresentado acima descreve a inserção do significante no interior do debate econômico brasileiro. Como em qualquer discussão ideológica, os dis-cursos apresentam sentidos que vão além da palavra. Ao aparecer como significan-te, como a inflação que é e só por ser deve ser combatida, assim como seus supos-tos defensores, a temática inflacionária serve como referencial que separa o “nós” e os “outros”. Mais que isso: ao esvaziar sua eficácia teórica e aparecer como sig-nificante, a inflação constrói a consistência ideológica da ortodoxia brasileira, de-rivando desse elemento seus demais pressupostos, como, por exemplo, injunções sobre política fiscal e perfil de Estado. Constitui, a partir desse ponto, uma das identificações centrais do discurso ortodoxo e elemento basilar no autorreconhe-cimento entre os/as próprios/as economistas ligados/as às correntes neoclássicas, já que compõem as insígnias específicas da ortodoxia. Nesse contexto, a inflação torna-se exterior ao discurso, perdendo força como instrumento analítico, mas, justamente por isso, elabora a síntese referencial da ortodoxia. Apresenta-se, assim, o elemento externo, mas íntimo da ideologia que permeia o neoclassicismo.
Portanto, a função primordial da temática inflacionária é construir a unidade discursiva da ortodoxia brasileira, constituindo, com isso, o aspecto essencial na identificação do/a economista ortodoxo/a. Desse modo, pode-se afirmar que, em suas bocas, esvai-se o fenômeno e encontra-se o significante.
A ORTODOXIA PARA ALÉM DA PALAVRA: O SEMBLANTE DOS JuROS
ter em sua face a luta contra elevações nos índices gerais de preços, busca legitimi-dade para a dominância de um grupo específico do capitalismo nacional: o rentis-mo. Em resumo: os contornos do discurso ortodoxo baseiam-se na prevalência do setor financeiro no financiamento da economia brasileira e seu peso determinante da acumulação nacional.
historicamente, a atual função discursiva da inflação no debate brasileiro forma-se paulatinamente durante a década de 1990, intimamente ligada ao proces-so de financeirização econômica. A implementação do Plano Real e a abertura da economia, base da âncora cambial com o dólar norte-americano8, mais do que
conseguir a queda do nível geral de preços, estruturou o modelo de política que aumentou a dependência do país aos movimentos da conta capital para a obtenção de equilíbrio do balanço de pagamentos9. É nesse momento, com juros subindo
vertiginosamente, levando consigo a dívida pública10, que se sedimentam as bases
para a dominância financeira. A forma do modelo de política econômica que ex-pressa esse fenômeno é o anteriormente citado tripé macroeconômico: superávit primário, metas de inflação e câmbio flexível. Nesse cenário, a preocupação na manutenção de baixo nível geral de preços é congruente com a estabilidade no valor dos ativos (financeiros e reais), bem como a diminuição de perdas cambiais, fruto de uma possível deterioração do poder de compra da moeda brasileira.
Nesse contexto, um dos primeiros trabalhos a criticar essa problemática e a sistematizar possíveis alterações na política monetária, com base no impacto dos juros na dinâmica econômica nacional, foi o de BRESSER e NAKANO (2002), onde defendem a necessidade de controle da taxa básica para dirimir déficits ex-ternos, tendo em vista sua influência nos movimentos da taxa de câmbio. Os auto-res ainda propõem, conjuntamente com a redução dos juros, a adoção de uma política comercial ativa e uma reestruturação do setor industrial, capaz de, junto com a desvalorização cambial oriunda da diminuição da taxa básica, obter o equi-líbrio externo através do aumento das exportações. O artigo gerou certa polêmica, com alguns economistas ortodoxos respondendo aos autores citados. BAChA (2002) criticando o “eterno dilema da taxa de câmbio” (BAChA, 2002, p. 2), pro-blematizou sua relação com uma eventual queda dos juros e o nível geral de preços, argumentando sobre as supostas consequências de sua desvalorização e minimi-zando a influência do Banco Central na determinação dos juros, agregando a esse cenário a percepção de risco dos investidores. Segundo o autor, é um círculo vicio-so que em muito dificulta o financiamento de longo prazo. Já LOPES (2002) ado-ta um tom mais ameno, mas, como já exposto em BAChA (2002), ado-também pro-blematiza a ligação entre redução de juros, desvalorização cambial e aumento dos índices de inflação, bem como de mecanismos de indexação. No entanto, o autor considera que “[...] BN tem uma proposta equivocada no que diz respeito à
ca de juros, mas estão corretos na proposta de uma política comercial ativa” (LOPES, 2002, p. 11). Em outras palavras, os dois autores centram suas críticas em uma possível redução dos juros e o impacto dessa medida no nível geral de preços, estabelecendo reduzidas margens para a política monetária. Nos dois casos, é uma suposta elevação dos preços que inviabilizaria uma redução acentuada dos juros. Não é a toa, no caso, que BAChA (2002) defende o desenvolvimento de um mer-cado de capitais de longo prazo e LOPES (2002) critica a proposição de BRESSER e NAKANO (2002) de uma “coordenação central” (BRESSER e NAKANO, 2002, p. 165) do Banco Central com outros órgãos, vendo no que chamaram de perda de independência “de fato”, um retrocesso institucional. É a inflação, no caso, que opera como argumento central contra a redução dos juros. O fato, em si, não sur-preende, tendo-se a argumentação até aqui já exposta. Nesse caso, surge a inflação que é, operando como significante, de maneira idealizada, projetada. A inflação que virá é sempre pior do que aquela realmente encontrada no cotidiano. É explí-cito, nesse caso, que os fatores mobilizados são o medo, a angústia e a ansiedade, só possíveis pela não ocorrência do fenômeno, mas por sua projeção. Esses aspec-tos corroboram a afirmação realizada de que a temática inflacionária abrange um deslocamento: na ideologia não aparece o fenômeno econômico, sua aparência, mas seus vetores esvaziados e é em meio a esse cenário que a análise nos leva a crer que a “memória inflacionária” opera, no nível ideológico, na defesa de interesses que vão além de seu uso na teoria econômica. O neoclassicismo brasileiro carrega con-sigo o semblante dos juros11 e de sua atual prevalência na dinâmica econômica
nacional, fazendo com que a defesa enfática do combate à inflação torne-se, no discurso ortodoxo, a afirmação de um certo tipo de gestão da política econômica (como demonstrado no exemplo acima). Nesse sentido, como resposta à pergunta feita no início dessa seção apresenta, a argumentação de que, de fato, quando se defende a prioridade ao combate à aceleração inflacionária, fala-se efetivamente sobre a primazia do capital financeiro e seus interesses ligados à determinado for-mato de política econômica, mais especificamente, uma política monetária restriti-va, baseada em uma taxa SELIC elevada, capaz de lastrear a rentabilidade dos ativos financeiros. No debate econômico brasileiro, combate à inflação, sob a óti-ca da ortodoxia, signifióti-ca maiores ganhos no meróti-cado de títulos.
Portanto, como exposto até o momento, considera-se que a forma do debate esconde justamente sua não ocorrência. Em outras palavras, apesar da existência dos contornos da discussão, a impossibilidade de expor questões centrais que ser-vem como base de um contraponto consistente, faz com que, na essência, projete-se um mecanismo de aparências. Nesse cenário, perguntas relevantes não são feitas: A sociedade brasileira não suportaria um maior nível geral de preços objetivando
11 Ao ler LISBOA (1997, p. 6) quanto aos “fios de marionete que controlam as minhas escolhas”, é
um crescimento econômico mais elevado? O central da política monetária deve ser efetivamente o controle inflacionário? O regime de metas de inflação é o mais adequado para a realidade do país? Questões centrais, mas que ameaçam aspectos importantes do imaginário elaborado durante a década de 1990 e que, por isso, não devem (segundo alguns segmentos da economia nacional) ter eco no debate econômico nacional. Nesse ponto demonstram-se, de fato, as reais consequências da interdição exposta. Nota-se que a inflação, elemento externo ao sujeito, é jus-tamente o que o reafirma e sedimenta o discurso ortodoxo. Ocupa, nesse sentido, a “falta” apresentado anteriormente e que define a ideologia como o “vazio” para além da palavra. No entanto, o elemento que expõe esse mecanismo não é a função específica da temática inflacionária, nem mesmo o fato de se apresentar como veículo ideológico, mas a própria negação do referido mecanismo. A ortodoxia, no momento em que nega seu elemento ideológico, expõe as interdições que gera. É nesse momento que o discurso ortodoxo manifesta seu caráter ideológico, justa-mente quando o recusa, evidenciando a própria falta da qual ele se constitui. Dessa forma e justamente nesse instante, a ideologia revela-se em estado puro.
CONCLuSãO
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do que diverge, assumindo assim sua própria perspectiva argumentativa. Portanto, como afirmado na introdução deste artigo, o que ocorre efetivamente é a constituição de campos discursos diferentes baseados nas próprias verdades virtuais que cons-troem, ou seja, de suas ideologias. Assumir essa condição faz parte do debate.
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