Educar, Curitiba, n. 30, p. 267-271, 2007. Editora UFPR 267
LOURO, G. L.
Um corpo estranho
: ensaios sobre
sexualidade e teoria
queer
. Belo Horizonte:
Autêntica, 2004.
José Eduardo Szwako
*“A sexualidade é um objeto em disputa”. “A sexualidade é um espaço
cujos limites e signiicados são contestados politicamente”. Essas duas airma
-ções parecem não surpreender – não hoje. A razão disso pode ser situada (sem nenhuma pretensão de revisão histórica) no cruzamento de dois fatores: de um lado, a inluência de diferentes matrizes crítico-ilosóicas, advinda daqueles autores franceses cuja obra foi uniicada sob o rótulo “pós-estruturalista”. De outro lado, as transformações histórico-políticas ocorridas no Brasil, durante os anos 1980, como, por exemplo, a consolidação da pesquisa universitária, bem como a emergência político-pública dos novos atores e movimentos sociais. A partir desse encontro não-planejado, as interpretações acadêmicas se voltam menos para a sexualidade, enfatizando agora os efeitos dos discursos sobre o “sexual”. Ou seja, a produção universitária brasileira passa a insistir cada vez mais no caráter normativo e normalizante dos discursos em torno das práticas e relações sexuais. Nesse sentido, o debate constrói uma gama de demonstra
-ções teóricas e históricas, postulando e conirmando que o espaço de discussão psicocientíica em torno da sexualidade não é senão um espaço discursivo que pretende e que produz normalização e, a partir daí, normalidade sexual.
Um corpo estranho, livro da pesquisadora do Programa de Pós-Graduação
em Educação da UFRGS Guacira Lopes Louro, poderia ser mais um trabalho no oceano de explicações foucaultianas, poderia ser uma voz a mais no uníssono (não-declarado) da crítica aos dispositivos institucionais e instituídos reguladores da sexualidade. Poderia, mas não é.
O desaio do livro, formulado como problema dentro da teoria queer e
aceito pela autora, não é dotado de caráter sociológico, não pretende denunciar, desmascarar ou, sequer, desconstruir uma realidade educativa ou sociossexual. De início, a autora deixa claro que não aspira a uma “explicação” ou
“descri-ção” dessa teoria. “[A] irreverência e a disposição antinormalizadora da teoria
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queer”, diz ela, “me incitam a jogar com suas idéias” (Louro, 2004, p. 7). Seu
desaio se constitui, primeiramente, como problema analítico: como pensar, a partir do olhar “estranho” da perspectiva queer, os próprios instrumentos
e categorias impensados (usuais, habituais, normais) do pensamento crítico-pedagógico? A resposta a este problema se distribui pelos quatro ensaios que perfazem o livro. Neles, Louro não quer estabelecer uma proposição última e coerente. Mas, antes, desestabilizar, transgredir e até mesmo confundir qual
-quer coerência compulsória – para utilizar a consagrada expressão de Butler. Por meio de crítica contundente à noção de “identidade”, essa transgressão é
operada ao se deslocar do âmbito da sexualidade, entendida como “objeto” de
pesquisa, para o registro do corpo e das corporalidades. Esse deslocamento, por sua vez, aponta indiretamente para alguns dos limites do espaço de relexão e de prática pedagógicas atuais.
Mas o que signiica a palavra queer? Duas são as matrizes signiicativas
desse adjetivo: por um lado, o termo abarca uma série de expressões conso
-lidadas no senso comum homofóbico; e, por outro, uma tradução próxima do seu signiicado no contexto anglo-saxão seria a palavra “estranho”, algo esquisito, insólito, raro. A autora faz desse adjetivo um verbo, “estranhar”, no sentido de “desconiar do que está posto e olhar de mau jeito o que está posto; colocar em situação embaraçosa o que há de estável” (Louro, 2004, p. 64).
Esse estranhamento é, dentro da teoria queer, um instrumento crítico de des
-naturalização tanto das relações de poder quanto das coisas tidas como óbvias. Nesse sentido, o desempenho (hiper)feminilizado de uma drag-queen, exemplo
repetido em diferentes momentos do livro, pode ser altamente subversivo, uma vez que seu corpo explicita a forma impensada como, ainda hoje, gênero e
sexualidade são atrelados. A estranheza provocada pela sua construtividade corporal provoca e desvela os limites dos binarismos operantes em diversas dimensões e com diferentes alcances (hétero/homossexual, cultura/natureza, feminino/masculino, conhecimento/ignorância).
Além disso, embora dê ênfase a determinadas posições-de-sujeito “trans”, sujeitos no limite do corpo, dos gêneros e das sexualidades, a autora escapa de reproduzir uma pecha cara aos intelectuais: a reiicação e fetichização de tais posições. “Não indago por que tais sujeitos cruzam as fronteiras”, airma ela, essas personagens “podem ser emblemáticas da pós-modernidade. Mas elas não se colocam, aqui, como um novo ideal de sujeito” (2004, p. 18-22). Quer dizer, inexiste um projeto prescritivo na ou da teoria queer. No livro,
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tais iguras por meio de uma moderna fórmula disciplinadora: “Ser homo ou transexual é normal”; longe disso, “queer representa claramente a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada” (2004, p. 38). Aliás, reside precisamente no questionamento desse “ser isso ou aquilo” a crítica que Louro empreende
à noção de identidade, passando, a partir daí, à concepção de “uma política pós-identitária para a Educação”.2
Revendo a trajetória dos movimentos homossexuais, no Brasil e no exterior, durante as décadas de 1970 e 1980, a autora observa que a publici
-zação da “identidade homossexual” foi a um só tempo uma questão pessoal e política. Ali, a positivação da homossexualidade reuniu sob um amplo guarda-chuva uma diversidade de sujeitos e histórias, com apenas uma condição: “para fazer parte da comunidade homossexual, seria indispensável [...] que o indivíduo se ‘assumisse’ ” (2002, p. 32). Entretanto, um dos efeitos indiretos desse movimento foi um processo de normalização cujos moldes tinham, é claro, feições sexistas e heterossexuais. A política de airmação de identidade sexual postulava uma representação “positiva” (p. 33) dessa identidade, ao mesmo tempo em que regulava os limites “aceitáveis” do e da homossexual (classe média, monogâmico, branco, masculinizante, etc.). Ou seja, tal política identitária, dentro um arranjo sociopolítico sui generis, tornou-se, em certa
medida, “cúmplice do sistema contra o qual ela pretendia se insurgir” (Louro,
2004, p. 46).
Em certa medida, a questão não é apenas a matriz heterossexual compul
-sória em cujos moldes os movimentos de airmação de identidade acabaram, indiretamente, por se adequar e se reproduzir. Antes, a problemática repousa silenciosamente na noção de identidade. O guarda-chuva que abrigou e abriga tal identidade (neste caso, sexual) não foi – e não é – tão amplo a ponto de abranger uma multiplicidade diversa ou estranha; vale dizer, uma vez que se funda (na invenção da “comunidade” homossexual, que antropológica e histori
-camente nunca foi uma comunidade) sobre uma identidade, esse guarda-chuva não deixa espaço para a diferença. Essa “comunidade” produziu discursiva e politicamente uma identidade. “[A] identidade”, entretanto, “é predicativa, propositiva: x éisso. A diferença é experimental: o que fazer com x” (SiLva,
2002, p. 66, sem grifos no original).
É precisamente neste cenário que Louro lança suas idéias sobre uma
pedagogia queer – não uma pedagogia do diferente, desse outro inventado qua outro, não uma pedagogia apaziguadora na qual “as diferenças (de gê
-nero, sexuais ou étnicas) são toleradas ou são apreciadas como curiosidades
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[multiculturais] exóticas” (Louro, 2004, p. 48). Não se trata disso, uma vez
que “a redução da diferença ao diferente equivale a uma redução da diferença à identidade” (SiLva, 2002, p. 66).
Destarte, não se trata “de incorporar ao currículo (já superpovoado) outro sujeito (o queer)” (2004, p. 65), quer dizer, não se trata de institucionalizar, identiicar e, então, normalizar tais posições-de-sujeito. Uma pedagogia e um currículo queer, pelo contrário, se voltariam “para o processo de produção das
diferenças e trabalhariam, centralmente, com a instabilidade e a precariedade de todas as identidades” (2004, p. 48). Aqui, tanto identidade como currículo e conhecimento são vistos como uma luta perpétua; eles constituem um processo interminável de repetição, reiteração e esquecimento. Nesse registro, Louro
opera via Judith Butler uma metanóia curricular que exige “dar-se conta das
disputas, das negociações e dos conlitos constitutivos das posições que os sujeitos ocupam” (2004, p. 49). Queering o currículo, estranhá-lo, implica,
portanto, sair do registro da identidade e da mesmice, não para pensar a dife
-rença decodiicando-a, mas para matizar a produção da dife-rença, a produção do estranho e do suposto impensável.
A crítica às concepções fundacionistase rígidas de identidade anda pari passu com um movimento de desconstrução da construção social do corpo.
Radicalizando o pressuposto antropológico de que “os corpos são o que são na cultura” (2004, p. 75), isto é, que os corpos adquiremsigniicado apenas
por meio de discursos na história, a autora desconstrói qualquer continuidade
natural e naturalizante entre sexo-gênero-sexualidade. Louro observa que não apenas gênero e sexualidade são – o jargão tem ins didáticos – construções sociais, mas o sexo (corpóreo-biológico) é, também ele próprio, uma cons
-trução. Com efeito, o que entra em jogo aqui é um binarismo caro à tradição teórica racionalista que pensa e produz a oposição natureza/cultura como algo lógico e necessário. Ou seja, uma forma de pensamento que opõe sexo, algo de registro “natural” (na observação de Butler, algo de “domínio pré-discursivo”), à gênero-sexualidade, como sendo sócio-historicamente constituídos. Pelo con
-trário, para ambas as autoras, sexo não advém da natureza e tampouco é nela produzido; não é exterior ou logicamente anterior à cultura: “[é, portanto,] a
concepção binária do sexo, tomado como um ‘dado’ que independe da cultura, [que] impõe [...] limites à concepção de gênero” (Louro, 2004, p. 81).
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do [...] que seja, em síntese, aprovado, tolerado ou rejeitado” (2004, p. 83-84). Aqui, mais uma vez, a autora se aproxima de Butler ao enfatizar os efeitos propriamente políticos que implicam pensar o corpo e, por conseguinte, seu respectivo sexo como discursivamente constituídos. A marca corporal não é apenas “marcação”, ela é sempre “demarcação” que produz e institui um limite fronteiriço. Expressão nítida dessa concepção está na observação de Butler que, unindo Mary Douglas a Michel Foucault, airma ser preciso “compreender as fronteiras do corpo como os limites do socialmente hegemônico [...] o corpo
não é um ‘ser’, mas uma fronteira variável, uma superfície cuja permeabilidade é politicamente regulada” (ButLer, 2003, p. 189-198, grifo no original).
No seu todo, Um corpo estranho vai muito além de desaiar a relexão e
a prática pedagógicas, uma vez que coloca em xeque uma série de convenções estabelecidas no raciocínio intelectual e crítico. Tanto as chaves-interpretativas acionadas quanto os inusitados exemplos empíricos por meio dos quais Louro constrói sua argumentação acabam por iluminar as “resistências” e obstáculos institucionais e epistêmicos travestidos de limites do razoável, do pensável. As descontinuidades observadas na constituição identitária, assim como as idéias de “pós-identidade” e de “multiplicidade”, diicultam e subvertem o pensamento (a-crítico) habitual. Como a própria autora repete durante o livro, algumas dessas idéias são simplesmente “insuportáveis” para uma dada estru
-tura curricular, ou mesmo para a dimensão da experiência escolar. De fato, essa escola “múltipla” e “estranha” não existe. Ainda não.
REFERÊNCIAS
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
SILVA, T. T. Identidade e diferença: impertinências. Educação & Sociedade, ano 23, n. 79, p. 65-66, ago. 2002.
Texto recebido em 12 abr. 2007
A qualidade de uma publicação depende do esforço de seus colabora
-dores para discutir e avaliar os trabalhos a ela submetidos. Nesse sentido, a
Educar em Revista informa que contou nos números publicados em 2007 com
a colaboração dos seguintes consultores ad hoc:
Alexandra Ayach Anache – Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) André de Macedo Duarte – Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Arilda Ines Miranda Ribeiro – Universidade Estadual Paulista (Unesp) Carmen Hessel Peixoto Gomes – Universidade de Passo Fundo (UPF) Christina de Rezende Rubin – Universidade Estadual Paulista (Unesp) Elizabeth Macedo – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Erika Zimmermann – Universidade de Brasília (UNB)
João de Deus Vieira de Barros – Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Leandro De Lajonquière – Universidade de São Paulo (USP)
Luciano Mendes de Faria Filho – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Luis Marcelo Carvalho – Universidade Estadual Paulista (Unesp)
Maria Augusta Bosanello – Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Maria de Fátima Pires Carneiro da Cunha – Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Maria Helena Santana da Cruz – Universidade São Francisco (USF)