Cristiane Valdo – [email protected] Graduanda em Psicologia
Kiany Cardoso Nunes – [email protected] Graduanda em Psicologia
Pâmela Koppe Ferreira – [email protected] Graduanda em Psicologia
Gabriel Alvarenga – [email protected] Mestre em Psicologia
Artigo de Conclusão do Curso de Graduação em Psicologia Cachoeiro de Itapemirim – Espírito Santo – 2015
Resumo
Este artigo propõe questionar como a identidade social e religiosa se constroem e seu relacionamento na vida dos integrantes das religiões de Candomblé e Umbanda visitadas na região de Cachoeiro de Itapemirim, mediante uma revisão bibliográfica e coleta/contato com materiais regionais. As religiões empregadas são brasileiras de matriz africana, vindas das senzalas onde os escravos de várias regiões não podiam cultuar seus orixás, utilizou-se o sincretismo religioso para que suas raízes não fossem perdidas.
Palavras-chave: Religiosidade; Espiritualidade; Candomblé; Umbanda; Identidade.
Introdução
As religiões afro-brasileiras: Umbanda e Candomblé, sendo nomeadas assim por terem sido portadas essencialmente por escravos negros trazidos da África, têm uma história de resistência e poucas referências em livros que contam a história do país. Nosso estudo visa compreender as esferas espirituais e sociais dos adeptos destas religiões.
O que a psicologia tem com isso? A saúde hoje é conceituada como completo bem-estar bio-psico-social-espiritual. Pensando neste conceito a saúde não diz respeito só ao homem com um corpo biológico que pode estar adoecido ou não. Saúde também considera um meio social, um homem que tem uma identidade e ainda pode ter espiritualidade, ou ser adepto de uma religião que diz quem é essa pessoa.
Considerando este conceito de ser humano bio-psico-social-espiritual a espiritualidade e a identidade social podem ser consideradas dimensões da saúde, logo um campo onde a psicologia deve estar inserida e ter ínfimo domínio.
Quando pensamos no papel das instituições religiosas no cuidado e proteção à saúde através de diversos estudos antropológicos, percebemos que, com o apoio da crença religiosa, o fiel se sente capaz de enfrentar as dificuldades do processo de sofrimento e dar um novo significado àquela experiência. (MOTA, 2011)
O sagrado para a religião é também o sagrado e o centro da vida para aqueles que têm fé – no caso das religiões de matriz africana não se trata apenas de uma religiosidade, mas de um conjunto de costumes e valores que lhes foi negado desde a vinda de seus ancestrais trazidos da África.
A justificativa da escravidão se desloca. A cristianização torna-se um assunto a ser resolvido nos locais para onde os escravos seriam levados. A homogeneização da crença dos negros passa a ser concebida em termos das vantagens ou desvantagens que poderiam trazer para seus algozes – traficantes e senhores. (PINSKY, 2001, p.34)
Escravizados, os povos que adoravam orixás tinham uma organização social e política, uma cultura, uma história e atravessados eram por uma crença que veio a se tornar no Brasil o Candomblé, religião de resistência que une o culto a vários orixás, geralmente cerca de 16, em um só espaço, desta forma encontramos não só uma religião, mas também um pedaço da África em cada ambiente de culto. As comidas, as crenças, o modo de se vestir, a língua, as danças e os ritmos de sua terra.
Retirado do seu habitat, de sua organização social, do seu mundo, é natural que estivesse atemorizado diante de uma nova condição que, ao menos de início, nem chegava a compreender devidamente. Sem conseguir seguir seu espaço social, sentia-se nivelado pelos captores aos demais cativos, oriundos de outras tribos, praticantes de outras religiões, conhecedores de outras línguas, vindos de outra realidade. (PINSKY, 2001, P.36)
Catequizados e batizados muitas vezes ainda nos navios negreiros, foram impossibilitados de cultuar seus orixás e seu Deus, com essa imposição religiosa cristã viram o sincretismo como uma alternativa de resistência para não perder seus costumes.
Os escravos eram batizados e catequizados rudimentarmente nos navios que traziam para o Brasil por missionários jesuítas e franciscanos, ou então nos portos de desembarque. Eram feitos cristãos à força. Recebiam um nome cristão. Até o sobrenome era mudado. Perdiam sua identidade. Os portugueses não toleravam as práticas religiosas negras. Conseqüência: os africanos procuraram identificar alguns orixás com os santos. (WILGES, 2002, p.122)
Sincretismo é o termo que os historiadores denominam fusão ou associação de religiões, ritos, crenças e personagens culturais. (FLOR, 2009, p. 13)
Os livros sobre a escravidão fazem poucas referências à religiosidade, ou, então, referências genéricas, que não ajudam a compreender em profundidade essa experiência fundamental da vida dos escravos. Outras vezes, quando abordam o tema, o fazem a partir da instituição religiosa (católica) ou da classe dominante. No entanto, a temática da religiosidade deve ser aprofundada, a partir das experiências vividas pelos mesmos escravos e escravas. (Brito;
Malandrino, 2007, p.116)
A partir dos encontros tanto na Umbanda como no Candomblé e nas leituras acerca das religiões, o temor da polícia1 se faz presente, como se o cristianismo ainda fosse a religião oficial do país.
Embora o Estado Brasileiro seja laico e intolerância religiosa seja crime, esses espaços eram denunciados, perseguidos e sua prática era criminosa o que parece ter deixado marcas. Hoje reconhecida como religião pela lei, na prática ainda ocorrem denúncias e uma associação desses espaços como algo ruim.
Desenvolvimento
A espiritualidade se insere de forma significativa na vida, o conjunto de crenças e valores adotado por cada doutrina religiosa se confunde com a identidade de cada membro do grupo.
1 Utilizamos a palavra polícia em um entendimento ampliado, levando em conta os casos concretos de conflitos com a polícia e perseguições relatadas tanto por participantes como por literaturas de referência, bem como a idéia de vigia, controle e repressão exercida sobre tais religiões e seus praticantes.
Todas as manifestações humanas que buscam a superação de si ou, ainda, a superação de obstáculos que possam estar agrilhoando a própria vida. Dessa maneira um processo como a psicoterapia, no qual o paciente vai em busca de autoconhecimento, do auto crescimento e da cura de determinados sintomas, certamente pode ser definido como a espiritualidade; esse paciente vai ao encontro de sua superação humana, de alçar voos mais altos e transcender suas limitações existenciais. (ANGERAMI, 2004, p.227)
O sagrado passa a ser o centro da vida e do mundo, sendo assim, qualquer forma de suposto ataque a essa fé, a essas certezas divinas significam o movimento da vida do religioso.
A cabeça é então uma característica comum a todos os homens, uma marca ou predicado geral, essencial do homem; um ser que nasce sem pernas e sem braços é certamente um homem, mas, um ser sem cabeça não é homem. E entretanto é a unidade da cabeça uma consequência necessária da unidade da espécie, como o homem a isola num pensamento puro e abstrato. (FEUERBACH, 1989, p 107)
A religiosidade deve ser inquestionável, intocável, pois ela diz sobre o próprio ser crédulo.
No caso da Umbanda e Candomblé existe forte ligação ao mal no senso comum, considerando que a esmagadora maioria da população Brasileira é cristã, embora adeptos das religiões afro-brasileiras digam acreditar/fazer o bem, sofrem constantes agressões movidas por preconceito religioso e racial.
Os dogmas da religião civil devem ser simples, em pequeno número, enunciados com precisão, sem explicações nem comentários. A existência da Divindade poderosa, inteligente, benfazeja, previdente e providente, a vida futura, a felicidade dos justos o castigo dos perversos, a santidade do contrato social e das leis: eis os dogmas positivos, reduzo-os a um único: é a intolerância, implícita nos cultos que excluímos. (ROUSSEAU, 2002, p.194)
O culto aos orixás e um Deus de origem Africana e não Europeia como o cristão é estranho e cercado de preconceitos e negação, como uma não religião, uma não espiritualidade, um erro, um desvio do que é o certo, um ataque.
Projetado pela representação na essência divina, o Bem corresponde à humilhação voluntária desta essência, que renuncia à abstração e à inefetividade. O Mal por sua vez é uma ocorrência estranha à essência divina; contudo, por uma extrapolação tão extrema quanto estéril, a representação projeta o Mal no intimo desta essência como cólera divina. (MENESES, 1985, p. 195)
Pensando além sobre essa distinção Bem e Mal:
Visto que “nosso mundo” é um Cosmos, qualquer ataque exterior ameaça transformá-lo em “Caos”. E dado que “nosso mundo” foi fundado pela imitação da obra exemplar dos deuses, a cosmogonia, os adversários que o atacam são equiparados aos inimigos dos deuses, aos demônios e, sobretudo ao arquidemônio, o Dragão primordial vencido pelos deuses nos primórdios. (ELIADE, 2001, p.
46)
Grupos religiosos possuem uma identidade social particular, pois se une ao grupo com fé, costumes e valores em comum. Segundo Wilges (2002, p. 16), toda religião tem uma relação eu-tu.
Com o tempo, as religiões afro-brasileiras tradicionais se espalharam pelo Brasil todo, passando por muitas inovações, mas quanto mais tradicionais os redutos pesquisados, mais os afro-brasileiros continuam se declarando, e se sentindo, católicos. Mais perto da tradição, mais católico. Um mapeamento dos afro-brasileiros declarados nas diferentes regiões mostra isso muito bem: eles são em número relativamente pequeno no Nordeste, região em que a religião afro-brasileira tradicional se formou, o que pode parecer paradoxal, e em número bem maior nas regiões em que se instalou mais recentemente, já no século XX, e onde a mudança religiosa no campo afro-brasileiro tem se mostrado mais vigorosa, casos do Sudeste e do Sul. Até hoje o catolicismo é uma máscara usada pelas religiões afro-brasileiras, máscara que, evidentemente, as esconde também dos recenseamentos. (PRANDI, 2004)
Essa identificação com o grupo de afinidades religiosas leva a autoestima grupal e individual, nesse caso são afinidades dadas por fatores externos: a mesma fé. As comidas, danças, ritmos, língua, costumes, crenças e tudo que caracteriza os grupos religiosos, os fazem singulares.
As identidades culturais não são sistemas fechados, como queria certa orientação estruturalista, mas um colar de significação renováveis pela cristalização de cada nova síntese, então é preciso discutir cultura brasileira a partir da amplitude dos espaços contemporâneos, da multiplicidade de olhares disciplinares e, sobretudo, da multiplicidade de práticas constitutivas da vida nesse tal território Brasil (Chauí, 2009, p.15).
Para Eliade (2001, p.19), é fácil entender que o homem religioso deseje profundamente ser, participar da realidade, saturar-se de poder, pois para o religioso a dicotomia entre sagrado e profano pode se opor como real e irreal. Para a afirmação da própria fé é
preciso que a fé do outro se faça irreal ou se enquadre na dicotomia de bem e mal, é uma forma de proteger a própria fé que condiz com o próprio ser.
A presença do sagrado de forma contínua e firme torna cada indivíduo dotado de ação ao que se crê, naquilo que não se vê e por muitas das vezes não se prova. O sentido da existência vem ao encontro de uma constante busca, que não necessariamente terá resposta.
O conhecimento e a linguagem permitem relacionar, interpretar e construir modos de inserção. Daí resulta o desenvolvimento de uma consciência que expressa à experiência subjetiva. Conhecimento e linguagem são manifestações do saber que vem da existência, a elas correspondem níveis de intencionalidade, padrões, condições, instrumentais, elementos culturais.
O primeiro nível do conhecimento, denominado pragmático, emerge das praticas diárias e resulta da repetição sistemática de elementos que organizam o cotidiano. A inserção imediata no dia-a-dia impulsiona os indivíduos para a solução de necessidades também imediatas: o mundo das práticas traz uma exigência de organização.
(MARTINI, et al 1995, p. 9)
Esse nível de conhecimento reconhece os fenômenos a partir dos parâmetros oferecidos pelo contexto sócio-cultural; está de tal forma integrada a um processo concreto de vida que, para decifrá-lo, é necessário buscar as estruturas fundamentais da experiência vivida.
Não há unanimidade entre os autores ao definir a religião. Uma das definições mais aceitas é a seguinte: Em sentido real objetivo, religião é o conjunto de crenças, leis e ritos que visam um poder que o homem, atualmente, considera supremo, do qual se julga dependente, com o qual pode entrar em relação pessoal e do qual pode obter favores. (WILGES, 2002, p.15)
O conhecimento racional do mundo é tarefa árdua, de conhecimento filosófico e científico, a relação com o transcendente, traz algo que é palpável ao mundo das idéias e se assegura nesse ponto, de tal forma a confiá-lo a própria existência num todo.
A função mais importante do mito é, pois, fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas; alimentação, sexualidade, trabalho, educação etc.
Comportando-se como ser humano plenamente responsável, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repete as ações deles, quer se trate de uma simples função fisiológica como
alimentação, quer de uma atividade social, econômica, cultural, militar etc. (ELIADE, 2001, p. 87).
Essa regulação das diversas esferas da vida, do ser, acaba por construir ou afetar minimamente a subjetividade do crédulo, afinal os dogmas religiosos acabam por afetar as decisões e escolhas pessoais que vão para além do templo, igreja, casa, terreiro, santuário, enfim o lugar onde se cultua o sagrado. Como estamos pensando sobre religiões afro-brasileiras:
Os estudiosos costumam grupar os escravos vindos da África em duas categorias: sudaneses vinham de Daomé, da Nigéria e do Sudão. Pertencem em sua maioria, tribos nagôs (ou yoruba), gêge, fanti-ashant (negros mina) e haussás (culto Islamizado). A sua cultura era, de modo geral, superior a dos outros, os bantos. Eles vinham do Congo, de Angola, de Moçanbique formando uma única população escrava, com o conseqüente cruzamento biológico e cultural. (WILGES, 2002, p.120).
As duas religiões tem forte ligação com a natureza, animais, plantas, rios, cachoeiras, o que parece ter relação com a cultura dos povos de Daomé, Nigéria e Sudão. “Em outros termos, os sudaneses cultuavam os espíritos da natureza (terra, água, raio, trovão, etc.), enquanto os bantu cultuavam os antepassados.” (RAMPAZZO, 1996, P.141).
Para Wilges (2002, p.120) os povos yoruba conhecem como divindade suprema Olorum, céu, porém não o cultuam. O culto é feito aos orixás, voduns para gêges, que são intermediários da vida humana.
Existem cerca de 400 orixás, entretanto no Brasil os principais são: Obatalá ou Oxixalá, (o grande orixá, firmamento), Odudua (terra), destes dois nasceram: Orungan (ar) que de seu amor por sua mãe nasceram do incesto: Xangô (raio), Ogum (guerra), Oxalá (lagos), Dadá (vegetais), Oxôsse (caça), Xapaña ou Omolu (doenças), Olokum (mar), Ajexaluka (saúde), além dos filhos de Imenjá existem: Exu (mensageiro, fecundidade e prazer sexual), Ibêji (protetor dos gêmeos) e Ifá (adivinhação). (WILGES, 2002, p.120)
Para os gêges ou dameanos os orixás recebem nome de voduns, os principais são: Nanã (mar), Dã (a cobra), Legbá (corresponde a Exu). (WILGES, 2002, p.121)
Já os povos bantos não faziam culto aos orixás e sim aos eguns que são as almas, acima dos Eguns está o Deus supremo, Zambi. As almas dos mortos recentemente receberam nome de zambis (zumbis) e ficam vagando. (WILGES, 2002, p.121)
A religião espírita teve influência nos cultos afro-brasileiros a cerca da comunicação com os mortos, reencarnação, os passes, as adivinhações pela água e ênfase em caridade assistencial e aconselhamento. (WILGES, 2002, p.122).
Para Santos (2011) “as festas e cerimônias religiosas organizadas pelas irmandades tiveram, certamente, um papel importante na construção das identidades social e religiosa das nações africanas, tanto em Portugal como no Brasil colonial”.
Das vivências tradicionais africanas restaram algumas manifestações, tais como a capoeira e o samba-de-roda, que eram desenvolvidas como meio de divertimento, mas também como forma de expressar e comunicar a sua história por meio de linguagens diversas que faziam parte de suas origens. Outra importante manifestação é a religião, a qual pode ser considerada como um locus essencial para a manutenção de algumas referências da identidade africana. (ANDRÉ, 2007)
Identidade
A Identidade num contexto sociocultural privilegia as dimensões pessoais e sociais dos sujeitos. A dimensão pessoal coabita na dimensão social, pois parte-se do princípio de que todo ser, além de fazer parte de um grupo social, convive com vários outros, dessa forma constrói sua identidade através dos vários grupos que convive ou faz parte, como no contexto religioso, onde se escolhe participar, adentrar nesse ambiente e/ou continuar existindo e atuando dentro do mesmo, desempenhando papéis diversificados. Nesse intercâmbio relacional, esse sujeito toma consciência de sua unicidade.
Ao analisar como as identidades são construídas, aponta que elas são formadas via comparação com outras identidades, ou relacionadas às diferenças. A construção pelas diferenças aparece sob a forma de pólos opostos. O autor considera esses pólos como oposições binárias que são significantes para a produção do significado. A análise continua na questão da diferença, salientando a sua produção por meio dessas oposições que são consideradas fundamentais para se compreender o processo de construção cultural das identidades. (HALL,2000)
A produção da identidade e o envolvimento pessoal estão envolvidos com a subjetividade que permite uma exploração dos sentimentos por estarem presentes nesse processo de
produção de contextos sociais totalmente integrados a cultura e vivência de cada ser que é inserido no espaço transcendente, visto por eles como algo supremo. A subjetividade nos permite explicar as razões pelas quais nós nos apegamos às identidades particulares.
A subjetividade envolve nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais. Entretanto, nós vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual nós adotamos uma identidade (Woodward, 2000).
Os atravessamentos e questionamentos existentes em cada espaço habitado e construído, a partir de memórias e encontros diversos produzidos a partir de uma mesma crença, permitem a cada um de modo subjetivo, vincular-se e dar continuidade numa verdade histórica, que não é descrita, mas, em suma, transmitida por gerações, que a aprimoram, pois não se pode negar a influência capitalista e em que se baseia toda uma sociedade que cresce e adere a ela sua parcela de saber.
A identidade não é essência; não é um dado ou fato – seja da natureza, seja da cultura. A identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade tão pouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica, transcendental. A identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. O outro é o outro gênero, outra cor diferente, outra sexualidade, outra raça, outra nacionalidade, outro corpo diferente. (MONTEIRO, 2011, p. 97)
Para Ciampa (ibid.) identidade é metamorfose, um processo de constituição do eu que promove constantes mudanças pelas condições sociais.
[...] identidade é identidade de pensar e ser (...). O conteúdo que surgirá dessa metamorfose deve subordinar-se ao interesse da razão e decorrer da interpretação que façamos do que merece ser vivido.
Isso é busca de significado, é invenção de sentido. É autoprodução do homem. É vida. (SILVA apud CIAMPA, 2001)
A identidade faz parte de um processo, onde diferentemente de adequação, é transformada livremente e formada com todos as afetações vividas pelo sujeito.
A identidade enquanto fenômeno sócio-histórico deve ser pensado como algo que se alterna, e que existe de acordo com o contexto de vida dos sujeitos, levando-se em conta a importância política das posições assumidas. Nesse sentido, a identidade é entendida como um conjunto fragmentado de papéis que vão sendo construídos através de discursos, práticas e posições. (OLIVEIRA, 1996)
A construção constante de uma identidade acrescenta ao indivíduo conhecimento, que atrelado aos conceitos religiosos os transmite seguramente para outros seguimentos.
Silva (1996) chama atenção para os processos de mudanças trazidos pela globalização e pelas transformações sócio-históricas das últimas décadas, que afetaram o modo como as pessoas passaram a se representar.
É de grande valia observarmos que fatores e fatos históricos são pertinentes na formação de uma identidade, a cultura transmitida e ensinada é observada em grupos cuja identidade tem vários pontos em comum.
[...] na construção da identidade, é necessária a preservação da memória coletiva dos vários grupos. A memória coletiva daqueles, cuja cultura não é dominante, será o agente catalisador da afirmação da identidade étnica. A busca desta identidade implica o cultivo das tradições culturais do grupo dominado e a releitura de sua história. A religião, os mitos, as lendas, a ideologia serão necessários a este processo de identificação cultural. Em sociedades multi-raciais, o impedimento destas manifestações inferioriza o grupo dominado, criando-lhe um distúrbio de identidade. (SILVA, 1995, p. 37)
O indivíduo não simplesmente se adapta ao ambiente, mas ele se apropria ou não, conforme sua individualidade, sua vivência e aquilo que lhe é oferecido ou dado como possibilidade, dentro do seu contexto social e histórico. Através da apropriação, o ser humano dialoga com o ambiente e sua identidade vai se construindo ao mesmo tempo em que ele contribui para a construção superativa do contexto. Esse processo de construção recíproca, Sève (1989) resume, na seguinte frase: “o que um homem faz de sua vida e o que a sua vida faz dele”
A identidade da pessoa é formada na interação entre o eu e a sociedade. Em concordância com os outros dois autores, Hall também considera que as identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela, considerando, pois, as identidades como
“pontos de apego temporário às posições-de-sujeito que as práticas discursivas constroem para nós”. (HALL, 2000)
Para Monteiro (2011) há duas formas de pensar identidade cultural. A primeira concepção de identidade cultural é aquela na qual uma determinada comunidade busca recuperar a
“verdade” sobre seu passado na “unicidade” de uma história e de uma cultura partilhadas que poderiam, então, ser representadas. A segunda concepção de identidade cultural é aquela que ele a vê como uma questão tanto de ‘tornar-se’ quanto de ‘ser’. Isso não
significa negar que a identidade tenha um passado, mas reconhecer que, ao reivindicá-la, nós a reconstruímos e que, além disso, o passado sofre uma constante transformação.
Hall (2000) argumenta em favor do reconhecimento da identidade, mas não de uma identidade que esteja fixada na rigidez da oposição binária, tal como as dicotomias
“nós/eles”. Ele sugere que, embora seja construído por meio da diferença, o significado não é fixo. A posição do autor enfatiza a fluidez da identidade. Ele examina de uma forma um pouco mais profunda como o conceito de identidade mudou, segundo ele, do conceito ligado ao sujeito do Iluminismo para o conceito sociológico e, depois, para o do sujeito
"pós-moderno".
Candomblé
O regime colonial favoreceu o encontro entre várias tribos, e isso levou à fusão e unificação dos seus cultos. Aconteceu, assim, que, enquanto na África cada grupo invoca o próprio espírito protetor, ou orixá, no Brasil começaram ser invocados os vários orixás das diferentes tribos representadas na “irmandade” e no relativo culto afro-brasileiro. (RAMPAZZO, 1996, p. 142)
Com a escravidão e a vinda de africanos de várias partes do continente muito se perdeu.
Seus cultos eram distintos, assim como a língua falada, o que dificultava o relacionamento, que foi facilitado por mulheres que trabalhavam com o comércio e assim sabiam várias línguas.
No período colonial quando os políciais descobriam terreiros prendiam seus sacerdotes, desta forma os lugares onde se celebrava o Candomblé costumavam ser afastados dos brancos. Assim foi criado ogan, geralmente homem branco de prestígio social que ajudava na defesa da polícia e dificuldades econômicas. (RAMPZZO, 1996, p 143).
Na verdade, a dimensão espiritual permeia toda a vida de um fiel candomblecista, desde as questões sentimentais, financeiras, até questões de trabalho. No momento em que se faz uma consulta aos búzios, o indivíduo se insere numa rede de significados e práticas, além de definir sua personalidade, bem como recomendações e proibições. (MOTA, 2011)
A Importância dos elementos da natureza está associada a cada orixá, desta forma cada filho de santo tem uma obrigação específica, uma roupa, um alimento para oferecer, um modo de se comportar, uma obrigação a ser cumprida.
Dentro deste raciocínio, associamos e representamos os domínios e as vibrações dos raios e trovões a Xangô; ventos e tempestades a Iansã; águas doces a Oxum, Obá e Euá; águas salgadas a Iemanjá.
O orixá caçador é Oxóssi. Ogum é protetor da agricultura, representante do ferro e comandante nas guerras. A varíola e as doenças são associadas a Omolu/ Obaluayê. As folhas medicinais e litúrgicas a Ossâin, a caça, a água e os navegantes a Logunedé, o arco-íris a Oxumarê, o princípio da dualidade é associado a Ibêji,representado por um par de gêmeos. (ABRANTES, p. 17)
Em casas de Candomblé é possível ver espaços reservados para cada orixá, todos são cultuados, enquanto na Africa cada reigião tinha seu orixá e apenas ele era cultuado, com as condições da escravidão e evangelização reunir todos em um único culto foi a forma encontrada de não se perder tanto de suas raízes.
O CANDOMBLÉ - religião brasileira dos orixás e outras divindades africanas que se constituiu na Bahia no século XIX - e demais modalidades religiosas conhecidas pelas denominações regionais de xangô, em Pernambuco, tambor-de-mina, no Maranhão, e batuque, no Rio Grande do Sul, formavam, até meados do século XX, uma espécie de instituição de resistência cultural, primeiramente dos africanos, e depois dos afro-descendentes, resistência à escravidão e aos mecanismos de dominação da sociedade branca e cristã que marginalizou os negros e os mestiços mesmo após a abolição da escravatura. Eram religiões de preservação do patrimônio étnico dos descendentes dos antigos escravos. (PRANDI, 2004)
Olorum é considerado tão grande que ninguém pode entrar em contato com ele, desta forma o supremo criador, conhecido como Zambi ou Zambiapongo pelos bantos, não é representado ou tem culto e rege o mundo através de outras divindades.( WILGES, 2002, p.123)
Na África, os “orixás” somavam cerca de seiscentos. Ao serem transportados para o culto brasileiro, este número foi reduzido a uns cinquenta. No Candomblé atual, passaram a ser cultuados os 16 principais, pois estes se desdobram em vários outros nomes, qualidades e particularidades. (ABRANTES, p.16)
Abaixo de Olorum estão o Orixás, sendo Oxalá seu pai e chefe, dos homens ele é avô.
Sincretizado com Jesus, Senhor do Bonfim na Bahia, é vestido com roupas brancas.
Conhecido como Oxalupã, o velho e Oxodinhã, o moço (menino Jesus). (WILGES, 2002, p.123)
O crente tem que seguir o seu Orixá, homenageá-lo, recebê-lo (se for pessoa capaz de receber o transe místico) ou servi-lo. Todo crente se submete a uma série de cerimônias religiosas de iniciação.
(WILGES, 2002, p.124)
Embora no Candomblé haja a predominância de elementos da origem yoruba, inclusive a língua, também podem ser encontradas influências da Angola e Congo, uma verdadeira herança das origens africanas vivas no Brasil.
De acordo com a tradição do Candomblé, cada Orixá manifesta seu poder volitivo nos diversos reinos da natureza: animal, vegetal, mineral e hominal. Este poder volitivo é conhecido como Ashé – princípio dinâmico e poder de realização, força que promove a movimentação e o desenvolvimento de todo o universo.(NOGUEIRA, 2012, p. 51)
Na visita a casa do Pai Amarildo2 foi possível sentir o cheiro do Ashé, explicaram que ali nada é desperdiçado, então queimam os restos de plantas e animais que foram utilizados para suas ofertas.
Cada orixá tem, ainda, suas ervas próprias, aquelas que cultivaram em seus reinos e que não podem faltar no Candomblé, para qualquer tipo de obrigação. Em geral, elas são misturadas em determinados banhos, mas também sozinhas podem perfeitamente agir como descarrego ou na captação de energia positiva. Para Obaluayê, a erva é “Costela de Adão”, macerada, que traz fortes poderes de cura e atrai energia positiva. (ABRANTES, p.74)
Umbanda
Sou tupinambá, tenho os erês, caboclo boiadeiro, Mãos de cura, morubichabas, cocares, arco-íris, Zarabatanas, curare, flechas e altares.
À velocidade da luz, no escuro da mata escura, o breu o silêncio a espera.
Eu tenho Jesus, Maria e José, todos os pajés em minha companhia, O Menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos, o poeta me contou.
(Carta de Amor - Maria Bethânia)
2 Casa do Pai Amarildo, terreiro de candomblé na localidade de Novo Parque, Cachoeiro de Itapemirim. Visitas realizadas para conhecimento do local e contato com materiais de referência para nosso estudo.
A umbanda é uma religião brasileira, fundada por um brasileiro, Zélio Fernandino de Morais no dia 15 de novembro de 19083. Como outras religiões, ela possui seus sacramentos e doutrinas.
A umbanda frequentemente é assemelhada ao Kardecismo, entretanto, o que existe são semelhanças, na comunicação com os orixás e a manifestação com os espíritos. A umbanda também admite alguns pontos semelhantes com o candomblé, a mediunidade e o contato com os orixás.
A umbanda é uma religião de espíritos de humanos que um dia viveram na Terra, os guias. Embora se reverenciem os orixás, são os guias que fazem o trabalho mágico, são eles os responsáveis pela dinâmica das celebrações rituais (PRANDI, 2001. p.54)
O sincretismo é sua principal característica, que consiste na união de diversos valores para a formação de um novo, construindo seus ritos e sua fundamentação.
Para Prandi (2004) a umbanda juntou o catolicismo branco, a tradição dos orixás da vertente negra, e símbolos, espíritos e rituais de referência indígena, inspirando-se, assim, nas três fontes básicas do Brasil mestiço.
Existe um sincretismo entre os orixás e os santos católicos, a umbanda acabou por se situar num terreno ético que Lísias Nogueira Negrão chamoumuito apropriadamente de
“entre a cruz e aencruzilhada” (Negrão, 1998). Onde Jesus é cultuado ao lado de Oxalá, por ter as mesmas qualidades, de forma semelhante Ogum é associado a São Jorge, Oxossi a São Sebastião, Oxumaré a São Bartolomeu, Iansã a Santa Barbara, Iemanjá a Nossa Senhora dos Navegantes e outros tantos que se assemelham. Essa associação teve início pela proibição que se aplicava aos escravos pela não adoração aos seus orixás, o país antes de se tornar República era oficialmente católico e não se admitia nenhum outro culto, em detrimento disso, fazia-se alusão aos santos católicos, para que fosse permitido, a adoração.
3Dado colhido no documentário: O que é umbanda, 1’59’’.
Para Bastide (1945) o sincretismo não implicava em misturas ou identificações, mas, em semelhanças e equivalências, como num jogo de analogias e não como fusão.
Por sua vez, a umbanda é igualmente problemática quando se trata de quantificar seus seguidores. No início, a nova religião denominou- se espiritismo de umbanda, e não é incomum, ainda atualmente, os umbandistas se chamarem de espíritas, quando não de católicos. A umbanda conservou do candomblé o sincretismo católico: mais que isto, assimilou preces, devoções e valores católicos que não fazem parte do universo do candomblé. Na sua constituição interna, a umbanda é muito mais sincrética que o candomblé.(PRANDI, 2004)
A construção desse sincretismo veio carregada de emoções e cultura, que vibravam nas senzalas e antes nos navios negreiros. Unido a isso, a umbanda toca com emoção, a igreja católica e o kardecismo.
Na Umbanda, onde o transe se encontra entre as representações individual e mítica (como no Candomblé), atualizando personagens que se encontram presentes no cotidiano e na memória popular (Magnani, 1986; Birman, 1991), as entidades se encontram mais próximas do mundo dos homens, uma vez que já viveram e possuem, assim, história objetivada em locais, funções desempenhadas e características pessoais. Aquelas entidades que não possuem uma vida objetivamente localizada constituem o que podemos chamar de categorias vazias, papéis sem personagens.
Essas personagens podem, assim, ser construídas pelo próprio médium, utilizando a sua própria história para gerar categorias com sentido (Ortiz, 1991).
Considerações Finais
Em síntese, a revisão bibliográfica buscou o conhecimento para, o âmbito religioso, o modo que se dá a vivência e construção de uma identidade de fé por parte das religiões de matrizes africanas, com foco no candomblé e na umbanda, essas duas religiões ainda hoje, no século XXI são mal vistas, pela sociedade que é formada em grande parte por cristãos.
A intolerância religiosa existe e não está distante daquela que era praticada a tempos atrás, o direito à liberdade religiosa, foi arrancado do negro, que com sua persistência e pertença religiosa tiveram continuidade e foram trazidas ao Brasil.
Com o contato que tivemos a locais de celebração, como foi citado, bem como as leituras feitas para análise, percebemos o quanto esse enfrentamento os fez fortes e unidos, atrelado a isso, se prospera o respeito em despeito a outras religiões e outras práticas, assim como entre os integrantes do grupo, o reconhecimento é feito e concomitantemente a proteção é desenvolvida.
É interessante notar a seriedade que passam aos visitantes, aos pertencentes e junto disso a transmissão dessa mesma seriedade em seus cultos. Todos os arquivos a que tivemos acesso e utilizamos para relatar e analisar bibliograficamente, nos trazem esse mesmo dado, como sendo importante e fazendo parte de um dos principais pontos que são sustentados por eles.
Embora existam poucas referências históricas sobre a religiosidade dos africanos quando chegaram no Brasil é possível compreender como suas histórias esmagadas pela escravidão afeta toda a vida de seu povo que além do racismo, sofre com a intolerância religiosa mesmo vivendo em um país de maioria negra.
A população destas religiões é de maioria negra e pobre, resquícios de seu passado desigual, ainda há muito para conquistar.
Enquanto futuras psicólogas é de grande contribuição esse estudo, visto que nossa profissão é para nós a luta pela vida, por toda vida. Conhecer realidades outras e se deixar atravessar por modos de vida desconhecidos.
A fé, a espiritualidade, a religiosidade dessas pessoas embora seja uma característica em comum, sendo assim os identifica, e como os orixás, boiadeiros, caboclos, eguns e todos os espíritos cultuados tem sua singularidade, sua vivência que deve ser valorizada e respeitada.
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Apêndices:
Figura 1 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.
Figura 2 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.
Figura 3 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.
Figura 4 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.
Figura 5 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.
Figura 6 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.
Figura 7 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.
Figura 8 - Centro de Cultura Afro-Brasileira Ilè asé Obá Ayrá. Pamela Koppe, 2015.