O dissei A ISSN: 1983-2435
Classificações gramaticais da palavra puta Grammatical classifications of the word puta [whore]
Soraya Paiva Chain
*[email protected]
Universidade Federal do Amazonas
__________________________
RESUMO
Este artigo tem como objetivo investigar as possibilidades de classificação da palavra puta, que, além de substantivo, sua classificação no dicionário, pensamos que ela também pode se apresentar como adjetivo e como advérbio. Para a realização do estudo, recorremos a alguns princípios utilizados por pesquisadores descritivistas, em particular, o estudo dos sintagmas nominal, adjetival e adverbial, os quais nos auxiliaram a identificar, dentro de sentenças, a classe que a palavra puta assume, se substantivo, adjetivo ou advérbio. Também apresentamos uma discussão acerca de como considerar o substantivo, o adjetivo e o advérbio, se como classes ou como funções. Após essas abordagens, analisamos as sentenças em que ocorrem a palavra puta, através de análises sintagmáticas, para confirmamos a nossa hipótese de que, além de substantivo, ela pode também ser classificada como adjetivo e como advérbio, dependendo do contexto em que está inserida.
PALAVRAS-CHAVE: Sintagmas. Funções. Classes. Puta.
ABSTRACT
This article aims to investigate the possible ways of classifying the word whore, which, in addition to its classification as a noun in the dictionary, we think can also be used as an adjective and an adverb. In order to carry out the study, we adopted some principles used by descriptive researchers. In particular we studied noun, adjective and adverb phrases which helped us to identify, within sentences, the class that the word puta [whore] assumes. We also present a discussion about how to consider the noun, the adjective and the adverb, whether as classes or as functions. After these approaches, we analyzed the sentences in which the word whore occurs, through syntagmatic analyses, to confirm our hypothesis that, in addition to noun, it can also be classified as an adjective and an adverb, depending on the context in which it is used.
KEYWORDS: Syntagma. Functions. Classes. Puta [Whore].
*
Professora adjunta da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Linguística pela
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Grupo de Pesquisa GELLAMA -
O d isse i A S . Cha in
Introdução
Começamos a observar a pa lav ra pu ta inser ida em expressões como pu ta que par iu e pu ta merda, mas ver i f icamos que seu uso va i a lém dessas expressões de ind ignação . Percebemos que e la ocorre também em sen tenças e , grosso modo, v íamos que sua c lass i f icação va i a lém daque la que o d ic ionár io nos apresen ta . Por con ta d isso , começamos a co le tar sen tenças em que e la ocorre para ana l isá-las s in ta t icamen te e ver i f icarmos as poss ib i l idades de sua c lass i f icação.
Pu ta e s tá d ic ionar izada como subs tan t ivo , mas pensamos que e la também pode se apresen tar em sen tenças como ad je t ivo e como advérb io . Por con ta d isso, propomos essa inves t igação.
Pau tamos nossas aná l ises em es tudos descr i t iv is tas , lançando mão espec i f icamen te da aná l ise s in tagmá t ica , po is como ob je t ivávamos de f in ir as c lasses 1 que a pa lav ra pu ta pode assum ir de acordo com sua pos ição den tro da oração, a Sin taxe D escr i t iva , por me io da aná l ise dos s in tagmas, aux i l iou-nos a iden t i f icar , den tro de sen tenças , a c lasse que a pa lav ra assume . Ass im , l im i tamo -nos aqu i aos aspec tos descr i t ivos tan to da forma , quan to do con teúdo , po is “o que a S in taxe Descr i t iva procura exp l ic i tar é a re lação que ex is te en tre as formas s in tá t icas da l íngua e os s ign i f icados que e las ve icu lam” (PER IN I , 2015 , p . 190).
Para ana l isarmos as sen tenças cons t i tu ídas da pa lav ra pu ta, apresen tamos , an tes , um es tudo sobre os s in tagmas nom ina l , ad je t iva l e adverb ia l, que têm como núc leo, respec t ivamen te , subs tan t ivo 2 , ad je t ivo e advérb io , bem como uma d iscussão sobre c lasses e funções .
1 S intagma Nom ina l (SN)
Os s in tagmas são nomeados de forma ca tegór ica , ou se ja , con forme a ca tegor ia (na tureza /c lasse) da pa lav ra que compõe seu núc leo . Sendo ass im , se um s in tagma t iver como núc leo (N) um nome , do t ipo subs tan t ivo , ou pronome subs tan t ivo , ou pa lav ra subs tan t ivada , e le deve ser c lass i f icado como S in tagma Nom ina l (SN) (CHA IN, 2014 , p . 21 ) .
1
Vamos lançar mão da forma trad ic iona l de c lass i f icação das pa lavras , ou se ja , subs tan t ivo , ad je t ivo , advérb io , verbo e tc .
2
O subs tan t ivo não é a ún ica c lasse grama t ica l que pode nuc lear o S in tagma Nom ina l . Abordamos
O dissei A ISSN: 1983-2435 Assim sendo, na sentença em (1), abaixo, são núcleos de SNs o pronome substantivo ele, a palavra substantivada não, e o substantivo palavra.
Vamos formalizar a estrutura dos sintagmas da seguinte maneira: cada sintagma será apresentado entre [] e sua classificação será apresentada abaixo ou do lado do []; O encaixamento dos sintagmas 3 ficará aparente por meio do tamanho dos [], ou seja, [ [] ] .
(1) [Ele] chamou [não] de [palavra].
SN SN SN
Perini (2002, p. 92) define o SN como aquele que “pode ser sujeito de alguma oração”. Mas isso não quer dizer que somente os sujeitos das orações são SNs, pois estes podem exercer também outras funções sintáticas.
(2) [Meninos] trouxeram [pão].
SN SN
Em (2), temos o SN meninos, exercendo a função sintática de sujeito e o SN pão, exercendo a função sintática de complemento verbal.
De acordo com o que Perini diz, acima, sobre SN, pão da oração (2) pode ser o sujeito de outra oração, como em (3).
(3) [Pão] está quentinho.
SN
Sabendo então como identificar um SN, precisamos saber também que, além do núcleo, o SN pode ser composto por outros elementos (artigos, adjetivos, pronomes, numerais e locuções) que podem se apresentar antepostos e/ou pospostos ao núcleo.
Para Perini (2006, p. 96), “um sintagma nominal pode ter composições bastante variadas”. Ou seja: há elementos que só se posicionam antes do núcleo;
outros que se posicionam somente depois do núcleo, e ainda outros que podem ocorrer antes ou depois do núcleo.
Na língua portuguesa, podem compor o SN, juntamente com o núcleo: (i)
3
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pa lav ras que de term inem o núc leo (de term inan tes – De t) : ar t igos , pronomes de f in idos , inde f in idos e demons tra t ivos ; ( i i) pa lav ras que deno tem posse (pronomes possess ivos – Poss) ; ( i i i) pa lavras que re forcem o núc leo (re forço – Re f) : própr io , mesmo e tc . ; ( iv ) pa lavras que quan t i f iquem o núc leo (quan t i f icador – Q f) : d iversos , poucos , vár ios e tc . ; (v ) pa lav ras que enumerem o núc leo (numerador – Num) : do is , ou tro e tc . ; e (v i) mod i f icadores : S in tagma Ad je t iva l (SAd j) e S in tagma Prepos ic iona l (SP) ( CHA IN, 2014 , p . 21 -22) .
T ipos de SNs :
(4) [ Am igos] SN N
(5) [ Os am igos] SN De t N
(6) [ Os meus am igos] SN De t Poss N
(7) [ Os meus do is am igos] SN De t Poss Num N
(8) [ Os meus do is [ novos] am igos ] SN
De t Poss Num SAd j N
(9) [ Os meus do is [novos ] am igos [ inesquec íve is ] ] SN
De t Poss Num SAd j N SAd j
(10) [ Os meus do is [ novos] am igos [ inesquec íve is ] [ do coração] ] SN
De t Poss Num SAd j N SAd j SP
Essas são apenas a lgumas das mu i tas poss ib i l idades de es tru turação de um SN . Nos exemp los ac ima , todos os e lemen tos que se re lac ionam com o núc leo (N) do SN , am igos, com exceção do SP , es tabe lecem re lação de concordânc ia com e le . No exemp lo (10) , temos o SP do coração não es tabe lecendo concordânc ia (de gênero e de número) com o núc leo do SN am igos, mas es tabe lece re lação semân t ica com e le , po is am igos do coração equ iva le a am igos cord ia is.
Ainda aqu i , é vá l ido abr irmos um parên tese para observar que as sen tenças
são es tru turadas a par t ir de un idades denom inadas cons t i tu in tes (pa lav ras e
s in tagmas) , que podem ocorrer : uns ao lado dos ou tros , como nos exemp los (5) , (6)
e (7) , em que as pa lav ras (cons t i tu in tes) são d ispos tas ladeadas , e nos exemp los
(8) , (9) e (10) em que as pa lav ras e os s in tagmas (ambos cons t i tu in tes) também são
d ispos tos ladeados ; e uns den tro de ou tros , como nos exemp los ( 8) , (9) e (10) , em
O dissei A ISSN: 1983-2435 que há SAdjs e SP encaixados em SN. Essas unidades têm valor formal (morfologia) e valor semântico (sentido).
Os constituintes são básicos para a análise gramatical, e é importante saber identificá-los com segurança. Por isso, é bom conhecer suas propriedades gramaticais (formais e semânticas), porque é em grande parte com elas que lidamos ao construir descrições gramaticais (PERINI, 2006, p. 102).
Como nosso objetivo é verificar a classificação da palavra puta dentro de sentenças, consideraremos tanto a sua forma, que será a mesma, independentemente da sentença em que ela estiver inserida, quanto o seu sentido, que deve mudar, dependendo da sua disposição nas sentenças.
Para classificarmos a palavra puta, em cada sentença, observamos sua relação com os outros constituintes, considerando as propriedades formais e semânticas de cada um.
2 Sintagma Adjetival (SAdj)
Os sintagmas adjetivais podem ser constituídos por palavras que se comportem como adjetivo numa sentença: inseridos em SNs, concordando com o seu núcleo em gênero e número ou estabelecendo com ele relação semântica; ou separados do SN, que funciona como sujeito, por um verbo cópula. Em ambas as situações, esses adjetivos são núcleos de SAdjs.
Sobre esses critérios sintáticos, Castilho (2010, p. 512) aduz que “são adjetivos as expressões que (i) ocorrem na função atributiva, como constituintes de um sintagma nominal, como em [um livro caro]; (ii) ocorrem na função predicativa, como constituintes de um sintagma verbal, como em [o livro é caro]”.
Abaixo, apresentamos a descrição das construções apresentadas por Castilho (2010, p. 512).
(11) [ um livro [caro] ] SN
SAdj
(12) [O livro] [ é [caro] ] SV
SN SAdj
O d isse i A S . Cha in
Em (11), temos um SN formado por de term inan te (ar t igo) , núc leo (subs tan t ivo) e mod i f icador in terno , o SAd j , que tem como núc leo um ad je t ivo (a tr ibu t ivo), nes ta ordem . Já em (12) , temos uma sen tença formada por SN e SV , mas o SN des ta é formado apenas pe lo de term inan te (ar t igo) e núc leo (subs tan t ivo) . E seu SV é cons t i tu ído pe lo núc leo (verbo) e pe lo SAd j , cons t i tu ído apenas pe lo núc leo (ad je t ivo) .
Vamos , em nossas aná l ises , assum ir sempre a forma verba l das orações , como núc leo do pred icado das mesmas , independen temen te do t ipo de verbo , po is , con forme aduz Per in i (2006 , p . 115) , “ toda oração con tém um verbo , e o verbo desempenha a função de núc leo do pred icado . [ . . . ] essa é a ún ica função poss íve l de um verbo na oração” .
A lém do núc leo , o SAd j pode ser cons tru ído com in tens i f icador /espec i f icador (Sin tagma Adverb ia l - SAdv ) e com comp lemen tador (SP) , como nos exemp los aba ixo .
(13) [Mar ia ] [ é [ [mu i to ] bondosa ] SAd j ] SV
SN SAdv
(14) [A mor te ] [ é [ comum [a todos ] ] SAd j ] SV
SN SP
Em (13) , o SAd j mu i to bondosa é cons t i tu ído do núc leo bondosa (ad je t ivo) e do SAdv , cons t i tu ído somen te pe lo núc leo mu i to ( advérb io) . E em (14) , o SAd j comum a todos é cons t i tu ído pe lo núc leo comum (ad je t ivo) e pe lo comp lemen tador , o SP a todos.
Aqu i , é vá lido abr ir um parên tese para observar que as sen tenças são cons t i tu ídas de s in tagmas (cons t i tu in tes) , os qua is , segundo S i lva e Koch (2001 , p . 14) , são un idades s ign i f ica t ivas den tro da oração , e es tes, por sua vez , ou são cons t i tu ídos somen te por pa lav ras (cons t i tu in tes), ou por pa lav ras e s in tagmas (ambos cons t i tu in tes).
3 S intagma Adverb ia l (SAdv)
Pa lav ras que se compor tam numa sen tença como advérb io apresen tam-se
como núc leos de SAdvs . Es te s s in tagmas, a lém do núc leo , pode m, ass im como o s
SAd js, que acabamos de abordar , ser es tru turado s com ou tros s in tagmas . Ou se ja ,
O dissei A ISSN: 1983-2435 podem ter um sintagma que o especifique/intensifique e/ou outro que o complemente.
Sobre a estruturação dos SAdvs, Castilho (2010, p. 541) diz que “alguns constam apenas do núcleo adverbial, [...] ocupados por palavras invariáveis. Outros [...] exibem um Especificador, enquanto outros ainda [...] exibem um Complementador, expresso por um sintagma preposicional [...]”.
Antes de demonstrarmos exemplos de SAdvs em sentenças, vamos falar um pouco sobre a classe que nucleariza esses sintagmas: o advérbio.
O advérbio, classe de palavras invariáveis, pode ser substantivável, como palavras de outras classes gramaticais. Por conta disso, temos:
(15) [ O sim [do chefe] SP ] [ te encheu de alegria ] .
SN SV
(16) [O não] [é uma palavra odiosa].
SN SV
(17) [O amanhã] será especial.
SN
(18) Fazei [o bem] sem olhar a quem.
SN
Sim, não, amanhã e bem atuam, nas sentenças acima, como substantivos, pois são núcleos dos SNs dos quais participam, mas poderiam funcionar como advérbios, núcleos de SAdv, como nas frases abaixo.
(19) [Eu] [ vou [sim] [ao shopping] ] SV
SN SAdv SP
(20) [Eu] [ [não] vou [ao shopping] ] SV
SN SAdv SP
(21) [ Irei [ao shopping] [amanhã] ] SV
SP SAdv (22) [Ele] [ está [bem] ] SV
SAdv
Sim em (19) é advérbio de afirmação; não em (20) é advérbio de negação;
amanhã em (21) é advérbio de tempo; e, bem em (22) é advérbio de modo.
Mas o que caracteriza uma palavra como advérbio? A principal função dos
advérbios é dar detalhes de como ocorre uma determinada ação, expressa por um
verbo. Por isso, dizemos que advérbios são circunstâncias de modo, tempo, lugar,
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in tens idade , a f irmação , nega ção e tc .
Apesar de advérb io lembrar a pa lav ra verbo , e le não se assoc ia somen te a verbo , mod i f icando-o . As Gramá t icas Norma t ivas o apresen tam como mod i f icador também do ad je t ivo e de ou tro advérb io . Já Rosa (2000 , p . 106) d iz que
“ func iona lmen te , os advérb ios são mod i f icadores por exce lênc ia , mas não do nome . No por tuguês , mod i f icam a lém do verbo ou do SN , o ad je t ivo , ou tro advérb io , a lém da própr ia sen tença” .
Já v imos, na seção 1 , que o núc leo de um SN é sempre um nome (subs tan t ivo , pronome subs tan t ivo ou pa lav ra subs tan t ivada) , ass im como já v imos que o ad je t ivo é núc leo de SAd j , e como es tamos vendo que o advérb io é núc leo de SAdv . De acordo com Rosa , como apresen tamos ac ima , o advérb io pode mod i f icar ad je t ivos , que são núc leos de SAd js , pode mod i f icar ou tros advérb ios , núc leos de SAdvs . En tão , porque advérb ios podem mod i f icar SNs , mas não podem mod i f icar o subs tan t ivo ou o núc leo do SN? E se o SN for formado apenas pe lo núc leo , como o advérb io mod i f ica o SN e não o núc leo do SN?
A exp l icação para isso é que os advérb ios são mod i f icadores tan to quan to os ad je t ivos , mas enquan to es te mod i f ica o núc leo do SN , par t ic ipando de le , espec i f icando- o , ou separado de le por um verbo cópu la , comp lemen tando-o , aque le mod i f ica o SN sempre de fora , po is mod i f ica o SN in te iro , sendo es te compos to somen te pe lo núc leo ou não.
Nos exemp los aba ixo , re t irados do Novo Manua l de S in taxe, o advérb i o é apresen tado como mod i f icador também do SN (M IOTO , 2007 . p .17).
(23) [ [prova ve lmen te ] o João ] SN [ doou [ os jorna is] [ para a b ib l io teca] ] SV
SAdv SN SP
(24) [O João ] [ [provave lmen te ] doou [os jorna is ] [para a b ib l io teca ] ] SV
SN SAdv SN SP
(25) [O João ] [doou [ [provave lmen te ] os jorna is ] SN [para a b ib l io teca ] ] SV
SN SAdv SP
(26) [O João ] [doou [os jorna is ] [ [provave lmen te ] para a b ib l io teca ] SP ] SV
SN SN SAdv
Em (23) , o advérb io provave lmen te foca l iza o SN o João, que tem como
núc leo o subs tan t ivo João, que poder ia soz inho compor o SN ; em (24) , foca l iza o
verbo doou, núc leo do SV ; em (2 5) , foca l iza o SN os jorna is, que tem como núc leo o
O dissei A ISSN: 1983-2435 substantivo jornais, que poderia sozinho compor o SN; e, em (26), focaliza o SP para a biblioteca, que funciona como adjunto adverbial de lugar.
Vejamos exemplos de advérbios modificando adjetivo, outro advérbio e sentenças.
(27) [Ele] [ enfrentou [ uma situação [ [extremamente] complicada ] SAdj ] SN ] SV
SN SAdv
(28) [A fama] [ chegou [ [ cedo [demais] SAdv ] para ele ] SP ] SV
SN SAdv
(29) [ [Ultimamente] ando com a cabeça nas nuvens ] SO
SAdv
Em (27), o advérbio de intensidade extremamente, núcleo e constituinte único do SAdv, funciona como modificador do adjetivo complicada, núcleo do SAdj. Em (28), o advérbio de intensidade demais, núcleo e constituinte único do SAdv, funciona como modificador do advérbio cedo, núcleo do outro SAdv. E, em (29), o advérbio de ordem ultimamente, núcleo e constituinte único do SAdv, funciona como modificador da sentença inteira – Sintagma Oracional (SO) ando com a cabeça nas nuvens.
4 Substantivo, Adjetivo e Advérbio: Classes ou Funções?
Antes de chegarmos a analisar sentenças em que a palavra puta se apresenta, para verificarmos, conforme sua atuação nelas, de quais classes gramaticais ela participa, precisamos fazer algumas considerações.
Além de tratar da estrutura e dos processos de formação das palavras, a morfologia também tem a tarefa de classificar os vocábulos. Essa classificação, em alguns aspectos, mostra-se inconsistente.
Tomamos como um exemplo dessa inconsistência o fato de que comumente as gramáticas normativas apontam palavras como X e Y representando substantivos, palavras como W e Z representando adjetivos e, palavras como K e V representando advérbios.
Consideramos como inconsistente porque existem palavras, como velho, que,
numa sentença pode ser classificada como substantivo e noutra pode ser
classificada como adjetivo. Essa palavra atribui qualidade em um livro velho, mas
O d isse i A S . Cha in
em aque le ve lho nome ia um ser (PER IN I , 2006 , p . 29) .
O mesmo acon tece com pa lav ras c lass i f icadas como advérb ios . Não em não quero é advérb io que mod i f ica o verbo , mas em o não é uma pa lavra for te, e le só pode ser c lass i f icado como subs tan t ivo , po is des igna a lgo , e es tá de term inado , co isa que só acon tece com subs tan t ivo.
É vá l ido ressa l tar que já há mu i tas gramá t icas norma t ivas que d izem que subs tan t ivo é aque la pa lav ra que nome ia seres , ob je tos , ações , sen t imen tos e tc . , que ad je t ivo é a pa lav ra que qua l i f ica , carac ter iza ou deno ta es tado e , que advérb io é a que mod i f ica o verbo , o ad je t ivo ou outra p a lav ra da mesma c lasse , porém pensamos que fa l ta a apresen tação da mesma pa lav ra com c lass i f icação d i feren te , em con tex tos d i feren tes , como demons tramos, ac ima , com o exemp lo que Per in i apresen ta com a pa lav ra ve lho .
Essa apresen tação de uma mesma pa lav ra , demons trada com c lass i f icações d i feren tes , não aparece nas gramá t icas norma t ivas porque e las apresen tam as c lasses de pa lav ras na par te de Mor fo log ia , enquan to que os l ingu is tas traba lham- nas numa sessão in t i tu lada Mor foss in taxe , po is para d izermos que uma de term inada pa lav ra é um subs tan t ivo , prec isamos ver i f icar que a mesma é núc leo de um SN den tro de um de term inado con tex to e , para d izermos que ou tra pa lav ra é um ad je t ivo, prec isamos ver i f icar que e la não é núc leo de um SN e s im núc leo de um SAd j, cons iderando um con tex to . Da mesma forma , para d izermos que uma pa lav ra é um advérb io , prec isamos ver i f icar que a mesma é núc leo de um SAdv, observando seu con tex to de inserção.
Em se tra tando das c lasses de subs tan t ivo e ad je t ivo , “ [… ] não há en tre as duas [… ] uma d is t inção de forma . Mu i tos podem ser , con forme o con tex to , subs tan t ivos ou ad je t ivos , ou se ja , func ionar numa expressão como de term inado ou como de term inan te , respec t ivamen te” (MATOSO CAMARA , 2008 , p . 87) .
Como não se d is t inguem em re lação à form a, con teúdo espec í f ico da Mor fo log ia , subs tan t ivos e ad je t ivos vão se d is t ingu ir em re lação à função , par te espec í f ica da S in taxe, ou Mor foss in taxe .
A respe i to d isso , Mon te iro (2002 , p . 88) d iz : “ [… ] a nosso ver , ins is t imos ma is uma vez , subs tan t ivos e ad je t ivos não são c lasses de pa lav ra , mas funções [… ] , sendo pouco prováve l encon trar-se um cr i tér io capaz de pred izer quando um nome func iona exc lus ivamen te como ad je t ivo ou como subs tan t ivo ” .
Há gramá t icas que l is tam a lguns nomes como sendo essenc ia lmen te
O dissei A ISSN: 1983-2435 substantivos (mulher, gato etc.) e outros, que são potencialmente adjetivos (belo, grande etc.). Atentemos para o fato de que palavras de algumas classes gramaticais podem ser substantivadas e que substantivos podem funcionar como determinante de outro substantivo, sem concordar com ele em gênero e número. Vejamos a sentença abaixo.
(30) [ Uma mulher [gato] ] [ entrou em ação ]
SN SAdj SV
Entendemos que o núcleo do SN uma mulher gato é mulher, pois o SN em questão exerce a função sintática de sujeito. Então, o seu núcleo tem que estabelecer concordância de número com o verbo da oração e estabelece, pois concorda em número com o verbo entrou, núcleo do SV. Entretanto, podíamos dizer que gato também estabelece concordância de número com o verbo, pois gato entrou em ação é aceitável, mas dentro do SN em questão há, antecedendo o núcleo, um determinante, o artigo uma, que acompanha somente substantivos, ou palavras substantivadas, antecedendo-os e estabelecendo com eles concordância de gênero e de número.
Então, gato não pode ser o núcleo do SN porque o determinante uma não o determina, determina mulher. Ele está disposto após o núcleo, funcionando como outro determinante caracterizador do núcleo, SAdj. O interessante aqui é que gato não flexionou no mesmo gênero de mulher. Isso alteraria o sentido da proposta, pois uma mulher gata equivale a uma mulher bonita e, uma mulher gato equivale a uma mulher esperta, aquela que tem a esperteza de um gato. Além disso, se colocássemos o núcleo do SN no plural, somente o determinante uma poderia concordar com ele; gato, não, pois alteraria o sentido. Logo, a palavra gato que é considerada, por muitos gramáticos, como um substantivo em potencial, funciona no exemplo (30) como adjetivo.
É importante ressaltar que Mulher-Gato, escrito dessa forma, é nome próprio de uma personagem de histórias de quadrinhos, mas da forma que foi colocada em (30) não caracteriza o nome da personagem.
Uma menina prodígio, um homem aranha, uma mulher elástico, um homem formiga são exemplos de SNs análogos ao SN uma mulher gato.
Observemos a seguinte fala de Perini (2006, p. 168) a respeito dos nomes.
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A c lasse dos nom ina is tem a lguns traços grama t ica is impor tan tes em comum : po r exemp lo só nom ina is podem fazer o p lura l em -s , e só nom ina is podem var iar em gênero . Esses traços , en tre tan to , não va lem para todos os nom ina is : o nom ina l ba i ta, como em um ba i ta prob lema, não var ia em gêne ro . Encon tramos aqu i , como de cos tume , a comp lex idade que os es tudos grama t ica is a inda não en fren taram dev idamen te.
A lém de não var iar em gênero , po is não há ocorrênc ia de *um ba i to prob lema 4 , não há ocorrênc ia também de v ar iação de número, como em ? uns ba i tas prob lemas 5 e , quem sabe , ?uns ba i ta prob lemas.
O que observamos no SN um ba i ta prob lema, propos to , ac ima , por Per in i, é o mesmo que observamos no SN ana l isado em (30) , porém aqu i o de term inan te an tecede o de term inado. A lém d isso , ba i ta pode ocorrer com subs tan t ivos fem in inos , que não lhe a l tera o sen t ido , como uma ba i ta faca, uma ba i ta casa. Porém não no p lura l , como em *umas ba i tas facas.
Com esses exemp los , no tamos que há de term inan tes que só ocor rem an tes das pa lavras que de term inam , não ex is t indo ocorrênc ias de que se d isponham depo is , como *um prob lema ba i ta ou *uma casa ba i ta, bem como há de term inan tes que só ocorrem depo is das pa lav ras que de term inam , não ex is t indo ocorrênc ias de que se d isponham an tes , como *uma ga to mu lher ou *uma prod íg io men ina.
5 Aná l ise
Como nosso ob je t ivo é ver i f icar o compor tamen to grama t ica l da pa lav ra pu ta para saber como podemos c lass i f icá-la , vamos agora ana l isar exemp los co lh idos no nosso fa lar co t id iano . Nas sen tenças aba ixo , a pa lav ra pu ta func iona como núc leo dos SNs em que es tão inser idos , com a espec i f ic idade de subs tan t ivo que nome ia uma pro f issão .
(31) [ A pu ta] [ ganha pouco d inhe iro por no i te]
SN SV
(32) [ Mar ia ] [ é [pu ta ] ] SV
SN SN]
Em (31), é c lara a ver i f icação de que a pu ta é um SN com núc leo
4
O uso do as ter isco (*) ind ica sen tença agrama t ica l .
5