UFPE — MA452 — 2018.1 — PROF. FERNANDO J. O. SOUZA
COMPLEMENTO 1 – v. 0.5
Assuntos: Sistemas de n´ umeros naturais sob diversos aspectos: axiom´aticas (equivalentes) como defini¸c˜ao de
Ndo ponto-de-vista formal; demonstra¸c˜oes por indu¸c˜ao finita, indu¸c˜ao completa e pelo princ´ıpio da boa ordena¸c˜ao; o teorema de defini¸c˜ao por recurs˜ao e algumas variantes suas; a existˆencia de sistemas de Peano; isomorfismos deles; opera¸c˜oes aritm´eticas em
Ne suas propriedades; bases de enumera¸c˜ao; e fatos b´asicos sobre divisibilidade.
Orienta¸ c˜ ao. Dar solu¸c˜oes leg´ıveis e completas, explicando todos os passos e detalhes, e indicando as propriedades e os resultados utilizados. Podem ser usados os recursos da l´ogica de predicados com igualdade, e de ZF (axiom´a- tica de Zermelo-Fraenkel) referentes `as opera¸c˜oes com conjuntos e `as rela¸c˜oes bin´arias. As proposi¸c˜oes e os exerc´ıcios “dif´ıceis” e “muito dif´ıceis” para a au- diˆencia esperada, seja pelo n´ıvel t´ecnico ou pela extens˜ao de sua resolu¸c˜ao, ser˜ao assinalados com * e ** respectivamente. Os leitores devem, ao me- nos, tentar fazˆe-los. J´a os resultados assinalados com *** s˜ao apenas para o conhecimento de seus enunciados e uso pois, al´em de serem muito dif´ıceis, constituem assunto avan¸cado para o n´ıvel esperado neste curso. Itens resolvi- dos no final do texto s˜ao indicados pelo sinal de par´agrafo “§”: s´o conferi-los ap´os tentar resolvˆe-los seriamente. Nos itens em que se pedem algoritmos, a descri¸c˜ao destes pode ser feita em portuguˆes, pseudoc´odigo ou alguma lin- guagem de programa¸c˜ao consagrada.
Axioma 1. Os axiomas de Peano 1 (ou de Peano-Dedekind ), que definem um sistema de Peano (ou sistema de n´ umeros naturais ) (N, 0, S), s˜ao:
1. S : N −→ N ´e uma inje¸c˜ao definida num conjunto N ; 2. 0 ∈ N \S(N );
3. Princ´ıpio da indu¸c˜ao finita (P.I.F. – vers˜ao na l´ogica de 2 a ordem). Para todo subconjunto X ⊆ N , se vale a propriedade abaixo, ent˜ao X = N : 0 ∈ X e ∀n ∈ N, n ∈ X = ⇒ S(n) ∈ X, (1) ou seja, o ´ unico subconjunto de N que cont´em zero e ´e fechado para a sucess˜ao imediata ´e o pr´oprio N .
1
Na axiom´atica original,
Ncome¸cava de 1. Aqui, iniciamos de 0 (como diversos outros
autores) devido ` a sua conveniˆencia aritm´etica (elemento neutro da adi¸c˜ ao), ` a constru¸c˜ ao
de modelos de
Na partir do axioma do infinito – cf. itens ?? e ??, e ` a obten¸c˜ ao direta de
um n´ umero cardinal 0 representando o n´ umero de elementos de ∅ .
Quest˜ ao 2.
2.a. Demonstrar que N = {0} ⊔ S(N ) (Ou seja, X consiste, precisamente, de zero e dos sucessores imediatos. Al´em disto, aquela uni˜ao ´e disjunta).
Dica. Seja X = {0} ∪ S(N );
2.b. Corol´ario. Verificar a boa defini¸c˜ao da fun¸c˜ao antecessor (ou predeces- sor) imediato T : N \{0} −→ N determinada por T ◦ S = Id N e S ◦ T = Id N\{0} , ou seja, ∀n ∈ N, T (S(n)) = n e, se n 6= 0, ent˜ao S(T (n)) = n.
Esbo¸ co. S ´e inje¸c˜ao e, portanto, ´e invert´ıvel sobre sua imagem, ou seja, S possui inversa(s) `a esquerda, cuja restri¸c˜ao `a imagem de S ´e igual `a fun¸c˜ao T desejada, a qual nada mais ´e que T = s −1 , onde s ´e a seguinte modifica¸c˜ao de S (ela ajusta o contradom´ınio): s : N −→ N \{0}
n 7−→ s (n) = S(n);
2.c § Demonstrar que nenhum n´ umero natural ´e seu sucessor imediato.
Dica. Observemos que a proposi¸c˜ao equivale a: todo n´ umero natural ´e diferente de (“n˜ao ´e”, “n˜ao ´e igual a”) seu sucessor imediato;
2.d. ** (Teorema de demonstra¸ c˜ ao por indu¸ c˜ ao finita ou fraca, ou P.I.F.
na l´ogica de 1 a ordem). Provar que, dado um predicado P (x) na vari´avel natural x, se:
− A proposi¸c˜ao P (0) ´e verdadeira (V); e
− ∀n ∈ N, [P (n) ´e verdadeira = ⇒ P (S(n)) ´e verdadeira], ent˜ao P (n) ´e verdadeira para todo natural n.
Dica. Seja X = {n ∈ N |P (n)}.
Obs. A vers˜ao geral deste teorema ´e para um predicado Q(x, x 1 , x 2 , . . . , x k ) em x (natural) e k vari´aveis arbitr´arias x 1 , x 2 , . . . , x k . Lidamos com o caso k = 0. Para provarmos o caso geral, consideramos cada predicado P (x) = Q(x, x 1 , x 2 , . . . , x k ) obtido ao fixarmos os valores de x 1 , x 2 , . . . , x k . Da arbi- trariedade destes valores, temos a validade do teorema para Q;
2.e. Quais dos itens anteriores ao Item 2.d conseguirias provar usando 2.d ?
Obs. Neste texto, muitos itens podem ser demonstrados por indu¸c˜ao finita,
particularmente nas quest˜oes 5 e ??. ´ E preciso ter cuidado no uso do P.I.F.,
evitando manipula¸c˜oes errˆoneas com n (cf. Item ??).
As opera¸c˜oes de adi¸c˜ao, multiplica¸c˜ao e exponencia¸c˜ao em N podem ser vistas assim: a soma m +n ´e o resultado da aplica¸c˜ao da itera¸c˜ao (repeti¸c˜ao), n vezes, da sucess˜ao imediata S ao n´ umero natural m: m + n = S n (m); o produto m · n ´e o somat´orio de n parcelas iguais a m, o que pode ser visto como a aplica¸c˜ao iterada n vezes de “somar com m” (h m (x) = x + m) ao ele- mento neutro da adi¸c˜ao, 0 (ali´as, isto d´a conta da situa¸c˜ao n = 0 tamb´em);
e a potˆencia m n ´e o produt´orio de n fatores iguais a m, o que, analogamente ao discutido para a multiplica¸c˜ao, pode ser visto como a aplica¸c˜ao iterada n vezes de “multiplicar por m” (h m (x) = x · m) ao elemento neutro da mul- tiplica¸c˜ao, 1 (e isto d´a conta do caso n = 0 tamb´em). J´a o fatorial n! de um n´ umero natural n ´e o produt´orio dos naturais de 1 a n (com 0! = 1). O problema ´e: ainda n˜ao temos uma defini¸c˜ao do que ´e a aplica¸c˜ao iterada n vezes de uma fun¸c˜ao a um valor inicial. Da mesma forma para opera¸c˜oes:
ainda n˜ao temos uma defini¸c˜ao de somat´orio, produt´orio ou mesmo potˆencia!
Para bem definirmos a aplica¸c˜ao iterada de uma fun¸c˜ao h : A −→ A num conjunto A a um valor inicial a 0 ∈ A, utilizaremos recurs˜ao (cf. Quest˜ao ??) e algumas variantes. Ela formaliza a ideia de obtermos o valor seguinte a par- tir do valor atual como a aplica¸c˜ao de h a este ´ ultimo: denotando c n = h n (a 0 ) (que ainda n˜ao est´a bem definido porque ainda n˜ao temos a composi¸c˜ao repe- tida h n de n c´opias de h com n arbitr´ario), a S(n) = h(a n ), o que seria escrito, apelando para aquele h n (a 0 ), como a S(n) = h (h n (a 0 )) = h S(n) (a 0 ). Ao inv´es de usarmos a nota¸c˜ao de sequˆencias a n para os valores obtidos por recurs˜ao, utilizaremos a nota¸c˜ao de fun¸c˜oes f : N −→ A, com f (S(n)) = h (f(n)) e o valor inicial f (0) = a 0 dado. De volta `as opera¸c˜oes mencionadas, para cada parˆametro m ∈ N fixado:
m + 0 := m,
m + S(n) := S(m + n), ∀n ∈ N ;
m · 0 := 0,
m · S(n) := m · n + m, ∀n ∈ N;
m 0 := 1,
m S(n) := m n · m, ∀n ∈ N ; e
0! := 1,
S(n)! := S(n) · n! , ∀n ∈ N.
(2) Obs. Tamb´em denotamos m · n por mn.
No primeiro caso, temos que a fun¸c˜ao desejada ´e (com rela¸c˜ao ao parˆame- tro m fixado) f m : N −→ N
n 7−→ f m (n) = m + n obtida pela aplica¸c˜ao iterada
de h = S : N −→ A = N ao valor inicial a 0 = m, donde o valor inicial desta
recurs˜ao depende do parˆametro, mas n˜ao a fun¸c˜ao h. J´a nos dois outros casos,
esta dependˆencia se inverte ! De fato, para a multiplica¸c˜ao, a fun¸c˜ao desejada
´e (fixado o parˆametro m) f m : N −→ N
n 7−→ f m (n) = f m (n) = m · n obtida pela aplica¸c˜ao iterada de h m : N −→ N
a 7−→ h m (a) = a + m ao valor inicial a 0 = 0 (elemento neutro para a adi¸c˜ao – cf. Item 5.a); para a exponencia¸c˜ao,
f m : N −→ N
n 7−→ f m (n) = f m (n) = m n por h m : N −→ N
a 7−→ h m (a) = a · m aplicada ao valor inicial a 0 = 1 (Item 5.g). No Item 3.c, consideraremos a dependˆencia, com o parˆametro m, do valor inicial e da fun¸c˜ao iterada.
Em cada um dos trˆes casos discutidos no par´agrafo acima, as fun¸c˜oes f m
obtidas por recurs˜ao sobre n com o parˆametro m fixado podem ser combina- das numa ´ unica fun¸c˜ao f , variando-se o valor do parˆametro 2 :
f : N × N −→ N
(m, n) 7−→ f (m, n) = f m (n).
Tamb´em poder´ıamos ter dado todas as fun¸c˜oes h m combinadas como uma s´o h : N × N −→ N , e separ´a-las, quando necess´ario, atrav´es de:
∀m ∈ N, h m : N −→ N
n 7−→ h m (n) = h(m, n). Seguiremos esta vers˜ao no Item 3.c. J´a uma adapta¸c˜ao da recurs˜ao para a discuss˜ao do fatorial ´e o Item 3.d.
Com esta longa introdu¸c˜ao, estamos melhor preparados para entender- mos os enunciados e usos dos resultados abaixo (as provas requerem mais maturidade matem´atica do que os requisitos da disciplina pressup˜oem):
Proposi¸ c˜ ao 3. (O teorema de defini¸c˜ao por recurs˜ao e algumas variantes).
3.a. *** (Teorema de defini¸ c˜ ao por recurs˜ ao) Dados um conjunto A, um elemento a 0 ∈ A e uma fun¸c˜ao h : A −→ A, existe uma ´ unica fun¸c˜ao
f : N −→ A satisfazendo 3 a recurs˜ ao (3) abaixo.
f (0) = a 0 ,
f (S(n)) = h(f (n)) , ∀n ∈ N. (3)
2
Esta ideia ´e comum em matem´ atica mais avan¸cada.
3
Observar que f (n) ´e aplica¸c˜ ao de h, iterada n vezes, a a
0. Isto ´e, `as vezes, representado
por h
n(a
0) e est´ a bem definido gra¸cas a este teorema. Sem ele, podemos formar este
valor ´ unico, passo a passo (sucessor a sucessor), para n = 0 at´e n = k, um natural
qualquer: chamando S(0) de 1 e S(1) = 2, temos que f (0) = a
0d´a f (1) = h(a
0), que
d´a f (2) = h(h(a
0)), que eventualmente chega a f (k) = h
k(a
0) para o k fixado (digamos
que k / ∈ {0, 1, 2}) atrav´es de sucessivas aplica¸c˜ oes de h. O que o teorema diz ´e que esta
forma¸c˜ ao est´ a bem definida para todos os naturais k de uma vez ! Observar, tamb´em, que
a recurs˜ ao expressa f (mas n˜ ao como uma f´ ormula fechada) em todos os naturais, uma
vez que temos a decomposi¸c˜ ao de N apresentada no Item 2.a.
Obs. Em alguns contextos, denotamos f como sequˆencia, a n = f (n). Com isto, a segunda linha seria escrita como a n+1 = h(a n ).
Obs. Mesmo com as ideias indicadas abaixo, a demonstra¸c˜ao deste teorema pode ser muito dif´ıcil para muitos estudantes.
Esbo¸ co de demonstra¸ c˜ ao (seguindo [Moschovakis]). Recordar que uma fun¸c˜ao, enquanto rela¸c˜ao, ´e um conjunto de pares ordenados, a saber, f = {(n, f (n))|n ∈ N }. Tal fun¸c˜ao reflete a constru¸c˜ao do k−´esimo est´agio f k
(dado k ∈ N ), levando a f = [
k∈N
f k Agora, f k poderia ser expresso como f k = {(n, f (n))|n ∈ N : 0 ≤ n ≤ k} se j´a tiv´essemos definido a rela¸c˜ao de ordem ≤ em N . Ela tamb´em serviria para organizarmos os est´agios, dizendo que k ′ ≤ k ⇒ f k
′´e a restri¸c˜ao de f k a {n ∈ N |0 ≤ n ≤ k ′ }. O problema ´e que utilizaremos recurs˜ao (com parˆametros) para definirmos a adi¸c˜ao, e esta para definirmos a rela¸c˜ao ≤. Para contornarmos esta ausˆencia, pensamos nos est´agios como “aproxima¸c˜oes” de f, a saber, fun¸c˜oes p : D p −→ N tais que:
seus dom´ınios D p ⊆ N satisfazem 0 ∈ D p e ∀n ∈ N, S(n) ∈ D p = ⇒ n ∈ D p
(ou seja, D p possui 0 e todos os antecessores imediatos de seus elementos n˜ao-nulos); e seus valores satisfazem p(0) = a 0 e ∀n ∈ N, S(n) ∈ D p = ⇒ p(S(n)) = h(p(n)). Observar que, se f existir, ent˜ao ela pr´opria ´e uma aproxima¸c˜ao sua. Para a unicidade de f , demonstrar que, para todas as aproxima¸c˜oes p e q de f , e para todos os naturais n, se p e q est˜ao definidos em n (isto ´e, se n ∈ D p ∩D q ), ent˜ao p(n) = q(n). Para a existˆencia de f, observar que cada aproxima¸c˜ao ´e um subconjunto de N × N e, da´ı, demonstrar que as aproxima¸c˜oes formam um conjunto em ZF (subconjunto de P (N × N )) cuja uni˜ao ´e a fun¸c˜ao f desejada, ou seja, cuja uni˜ao ´e uma fun¸c˜ao, tem dom´ınio N e satisfaz a recurs˜ao desejada;
3.b. ** Corol´ario. A composi¸c˜ao iterada de uma fun¸c˜ao est´a bem definida, isto
´e, dados um conjunto A e uma fun¸c˜ao ϕ : A −→ A, est˜ao bem definidas as fun¸c˜oes ϕ n : A −→ A dadas pela recurs˜ao
ϕ 0 = Id N ,
ϕ S(n) = ϕ ◦ ϕ n , ∀n ∈ N.
Obs. A nota¸c˜ao ϕ n para a composi¸c˜ao iterada (repetida) de ϕ ´e padr˜ao.
Notar que ϕ 1 = ϕ.
Ideias para provas. Uma abordagem ´e definirmos ϕ n em cada a ∈ A sepa- radamente:
ϕ 0 (a) = a,
ϕ S(n) (a) = ϕ (ϕ n (a)) , ∀n ∈ N. Escolher a 0 e h convenien-
tes no Item 3.a para que ∀n ∈ N, ϕ n (a) = f(n). Isto trata a ∈ A como um
parˆametro, semelhante ao que ´e feito no Item 3.c: ϕ n (a) = f (a, n) naquele
item. Outra abordagem ´e aplicarmos o Item 3.a usando A = A N (o conjunto das fun¸c˜oes de N em A) como sendo o conjunto A daquele item, a 0 = Id N e
h : A N −→ A N
g 7−→ h (g) = ϕ ◦ g, resultando em f : N −→ A N
n 7−→ f (n) = ϕ n ; 3.c. *** Corol´ario (recurs˜ ao com parˆ ametros). Dados conjuntos A e P ,
e fun¸c˜oes g : P −→ A e h : P × A −→ A, existe uma ´ unica fun¸c˜ao f : P × N −→ A satisfazendo a seguinte recurs˜ao:
∀p ∈ P,
f(p, 0) = g(p),
f (p, S(n)) = h(p, f (p, n)), ∀n ∈ N. (4) Obs. O(a) leitor(a) pode entender melhor o enunciado resolvendo os itens 4.c, 4.d e 4.e primeiro.
Esbo¸ co de demonstra¸ c˜ ao (boa parte j´a discutidas na introdu¸c˜ao `a Pro- posi¸c˜ao 3). P ´e um conjunto de parˆametros. Para cada p ∈ P fixado, g fornece o valor inicial a 0 = g (p) de uma recurs˜ao do tipo (3), na qual
h p : A −→ A
a 7−→ h p (a) = h(p, a) faz o papel da fun¸c˜ao h em (3), ou seja, co- me¸camos com a 0 = g(p) e, ent˜ao, aplicamos h p iterada n vezes. Para a existˆencia de f , usamos o Item 3.a, obtendo uma ´ unica fun¸c˜ao f p : N −→ A que d´a sentido `a express˜ao no lado direito da igualdade f p (n) = h p n (g (p)).
Da´ı, combinamos as fun¸c˜oes produzidas para os diferentes valores de p na fun¸c˜ao f : P × N −→ A
(p, n) 7−→ f (p, n) = f p (n). Verificar que tal f satisfaz a re- curs˜ao (4). Para a unicidade de f , observar que, sendo a uni˜ao P × N =
G
p∈P
{p}
!
× N = G
p∈P
({p} × N) disjunta, f ser ´ unica equivale `a unicidade de todas as restri¸c˜oes de f `as fatias do tipo {p} × N . Mas cada uma destas restri¸c˜oes satisfaz a recurs˜ao que define f p para seu respectivo p ∈ P e, pelo Item 3.a, ´e ´ unica;
3.d. *** Corol´ario (recurs˜ ao com o argumento como parˆ ametro). Tentar provar que, dados um conjunto A, um elemento a 0 ∈ A e uma fun¸c˜ao
h : N × A −→ A, existe uma ´ unica fun¸c˜ao f : N −→ A satisfazendo a seguinte recurs˜ao:
∀p ∈ P,
f (0) = a 0 ,
f (S(n)) = h(n, f (n)), ∀n ∈ N. (5)
Obs. Denotando, como antes, h m (n) = h(m, n), temos que f d´a sentido `a
itera¸c˜ao na igualdade f (S(n)) = (h n ◦ · · · ◦ h 1 ◦ h 0 )(a 0 ).
Quest˜ ao 4. (Recurs˜ao; defini¸c˜ao formal das opera¸c˜oes aritm´eticas de
N).
4.a. As fun¸c˜oes identidade Id N e sucess˜ao imediata S em N satisfazem, obvia- mente, as recurs˜oes abaixo:
Id N (0) = 0,
Id N (S(n)) = S(n), ∀n ∈ N; e
S(0) = S(0) =: 1,
S(S(n)) = S(S(n)), ∀n ∈ N.
Verificar que Id N = f do Item 3.a para a 0 = 0 e h = S, enquanto S = f do Item 3.a para a 0 = 1 e h = S;
4.b. ** (Antecessor imediato por recurs˜ao). Estendamos N por um s´ımbolo for- mal I / ∈ N (I representa a express˜ao “indefinido”): N b = ˆ N ⊔ {I}. Consi- deremos uma extens˜ao n˜ao-injetiva do antecessor imediato T a N b , a saber, a fun¸c˜ao T b : N b −→ N b que tem valor T b (I) = I, e cujos valores em N s˜ao definidos recursivamente por:
( T b (0) = I (pois o antecessor imediato T de 0 n˜ao est´a definido);
e, ∀n ∈ N, T b (S(n)) = n (seguindo a defini¸c˜ao de T no Item 2.b). Para obtermos T b | N pela recurs˜ao (3), precisamos de a 0 = I e de h : N b −→ N b tal que, ∀n ∈ N, n = T b (S(n)) = h
T b (n)
. Para n 6= 0, S j´a cumpre o papel do h desejado (pelo Item 2.b) e, portanto, h precisa estender S a S b tal que 0 = h
T b (0)
= h(I) ∴
h ≡ S b : N b −→ N b ˆ
n 7−→ S b (ˆ n) =
0, se ˆ n = I;
S (ˆ n) , se ˆ n ∈ N.
Verificar que: T b ´e uma inversa `a esquerda para a inje¸c˜ao S, isto ´e, b T b ◦ S b = Id N b ; T b −1 (N ), a imagem inversa 4 de N por T b , ´e igual a N \{0}; e a restri¸c˜ao T b | N \{0}
a este conjunto ´e igual `a fun¸c˜ao T do Item 2.b.
Obs. Claro que, n˜ao sendo S b sobrejetiva, T b n˜ao poderia ser tamb´em inversa
`a direita de S, mas b S b ◦ T b | N = Id N ;
4.c. * Mostrar que a adi¸ c˜ ao em N , expressa recursivamente nas equa¸c˜oes (2), est´a bem definida por ser a aplica¸c˜ao do Item 3.c ao exemplo determinado por: A = P = N, g = Id N e h : N × N −→ N
(m, n) 7−→ h(m, n) = S(n);
4.d. * Mostrar que a multiplica¸ c˜ ao em N , expressa recursivamente nas equa-
¸c˜oes (2), est´a bem definida por ser a aplica¸c˜ao do Item 3.c ao exemplo deter- minado por: A = P = N , g ≡ 0 e h : N × N −→ N
(m, n) 7−→ h(m, n) = n + m;
4
Intuitivamente, a fun¸c˜ ao T b tem valor I (“indefinido”) precisamente onde a fun¸c˜ ao
antecessor imediato T n˜ ao est´ a definida. Assim, T b
−1(N) consiste dos elementos nos quais
T est´ a definida, ou seja, ´e o dom´ınio de T .
4.e. * Mostrar que a exponencia¸ c˜ ao em N , expressa recursivamente nas equa-
¸c˜oes (2), est´a bem definida por ser a aplica¸c˜ao do Item 3.c ao exemplo deter- minado por: A = P = N , g ≡ 1 e h : N × N −→ N
(m, n) 7−→ h(m, n) = n · m;
4.f. ** Observar que a subtra¸ c˜ ao em N pode ser expressa atrav´es da recurs˜ao abaixo, a qual j´a leva em considera¸c˜ao os casos 5 em que ela n˜ao est´a definida, produzindo o s´ımbolo I (“indefinido”) neles atrav´es da fun¸c˜ao T b do Item 4.b:
∀m ∈ N,
m − 0 = m;
m − S(n) = T b (m − n) , ∀n ∈ N. (6) Mostrar que ela ´e a aplica¸c˜ao do Item 3.c ao exemplo determinado por:
P = N, g = Id N , A = N , b e h : N × N b −→ N b
(m, n) 7−→ h(m, n) = T b (n) (isto ´e, ∀m ∈ N, h m (n) = T b (n), donde m − n = f m (n) = T b n (m) ∈ N b ).
Obs. Para obtermos a subtra¸c˜ao como fun¸c˜ao parcial com valores em N (e n˜ao em N b ), devemos nos restringir `a imagem inversa de N por f , isto ´e, devemos considerar a restri¸c˜ao de f ao subconjunto f −1 (N ) de N × N ; 4.g. Mostrar que a opera¸c˜ao un´aria fatorial em N , expressa recursivamente nas
equa¸c˜oes (2), est´a bem definida por ser a aplica¸c˜ao do Item 3.d ao exemplo determinado por: A = N, a 0 = 1 e h : N × N −→ N
(m, n) 7−→ h(m, n) = S(m) · n.
Quest˜ ao 5. Tentar demonstrar as t´ıpicas propriedades alg´ebricas das ope- ra¸c˜oes em N . Elas foram apresentadas, abaixo, numa ordem conveniente para evitarmos, em cada item, o uso de propriedades ainda n˜ao provadas:
5.a § 0 ´e elemento neutro 6 para a adi¸c˜ao em N ; 5.b. * A adi¸c˜ao em N ´e associativa;
5
Ler o enunciado do Item ??. Observar que m−n n˜ao introduz um elemento −n oposto a n em N . Em geral, n˜ ao faz sentido escrever −n + m no lugar de m − n em N.
6
∀m ∈ N, m + 0 = m pela defini¸c˜ ao de adi¸c˜ ao em (N, 0, S), ou seja, 0 ´e um elemento neutro ` a direita para a adi¸c˜ ao. Agora, mostrar que 0 ´e elemento neutro ` a esquerda:
∀m ∈ N, 0 + m = m.
5.c. ∀n ∈ N, n + 1 = S(n) = 1 + n, onde 1 := S(0);
5.d. ** A adi¸c˜ao em N ´e comutativa;
Dica. O Item 5.c leva ao lema: ∀m, n ∈ N, S(n) + m = n + S(m);
5.e. Dados a, b ∈ N :
i. a, b ∈ N, a + b = 0 ⇐⇒ a = 0 = b;
ii. A fun¸c˜ao F b : N −→ N
x 7−→ F b (x) = x + b ´e injetiva;
Esbo¸ co: Observar que F b ´e uma composi¸c˜ao repetida por satisfazer a recurs˜ao F 0 = Id N e, ∀n ∈ N, F S(n) = S ◦ F n . Tais igualdades podem ser usadas para um argumento por indu¸c˜ao finita mostrando que F 0
e F S(n) s˜ao injetivas. Para tanto, recordar que fun¸c˜oes-identidade e composi¸c˜oes de inje¸c˜oes s˜ao inje¸c˜oes;
iii. Interpretar a injetividade de F b algebricamente como a lei de cance- lamento para a adi¸c˜ao em N, ou seja:
∀x, y ∈ N, x + b = y + b = ⇒ x = y. (7) iv. Corol´ario: a + b = b = ⇒ a = 0;
5.f. ∀n ∈ N, 0 · n = 0.
Obs. Como n ·0 = 0 por defini¸c˜ao, temos que 0 ´e um elemento absorvente para a multiplica¸c˜ao em N (e ´e o ´ unico pelo Item 5.l.ii. Em geral, se existe um elemento absorvente para um opera¸c˜ao bin´aria dada, ele ´e ´ unico);
5.g. 1 ´e elemento neutro 7 para a multiplica¸c˜ao em N;
5.h § A multiplica¸c˜ao em N ´e distributiva `a esquerda sobre a adi¸c˜ao, ou seja:
∀m, n, p ∈ N, p(m + n) = pm + pn;
5.i § A multiplica¸c˜ao em N ´e distributiva `a direita sobre a adi¸c˜ao, ou seja:
∀m, n, p ∈ N, (m + n)p = mp + np;
5.j. A multiplica¸c˜ao em N ´e associativa;
5.k. A multiplica¸c˜ao em N ´e comutativa;
7
Ou seja, 1 ´e elemento neutro ` a esquerda e elemento neutro ` a direita.
5.l § * Dados a, b ∈ N :
i. a · b = 0 ⇐⇒ (a = 0 ∨ b = 0) (ou seja, N n˜ao possui divisores de zero);
ii. a · b = a ⇐⇒ (a = 0 ∨ b = 1) (Corol´ario: 0 ´e o ´ unico elemento absor- vente para a multiplica¸c˜ao em N ); e
iii. a · b = 1 ⇐⇒ a = b = 1 (ou seja, apenas 1 possui inverso multipli- cativo em N );
5.m. 1 ´e elemento neutro `a direita para a exponencia¸c˜ao em N , mas ela n˜ao admite elemento neutro `a esquerda;
5.n. A exponencia¸c˜ao em N n˜ao ´e comutativa e n˜ao ´e associativa;
5.o. ∀b, m, n ∈ N, b m+n = b m b n ; 5.p § ∀b, m, n ∈ N, b m n = (b m ) n ; 5.q. ∀a, b, n ∈ N, a n b n = (ab) n ;
5.r. A subtra¸c˜ao em N n˜ao admite elemento neutro `a esquerda 8 ; 5.s. ∀m ∈ N \{0}, m − 1 = T (m);
5.t. A subtra¸c˜ao em N nem ´e comutativa nem ´e associativa.
Obs. Podemos provar v´arias outras propriedades da subtra¸c˜ao em N a este ponto, mas seus enunciados ficar˜ao mais informativos na Quest˜ao ??, ap´os a introdu¸c˜ao da ordem usual de N .
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