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Academic year: 2022

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Entrevistas imaginárias

Recife Edição do autor

2018

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Capa e Projeto gráfico-editorial:

Salete Rêgo Barros

B732e Borges, Valter da Rosa, 1934-

Entrevistas imaginárias / Valter da Rosa Borges. – Recife: Ed. do Autor, 2018.

365p. : il.

ISBN 978-85-909345-7-8

http://www.valterdarosaborges.pro.br

1. ENTREVISTAS IMAGINÁRIAS. 2. PERSONALIDA- DES CÉLEBRES – ENTREVISTA. 3. PERSONALIDADES CÉLEBRES – BIOGRAFIA. I. Título.

CDU 869.0(81)-83 CDD B869.8 PeR – BPE 18-564

Edição eletrônica e papel Novoestilo Edições do Autor Rua Luiz Guimarães, 555, Poço, Recife-PE

Fone: (81) 3243-3927

http://www.culturanordestina.com.br

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ENTREVISTADOS

Albert Camus. Albert Einstein. Arthur Schopenhauer.

Carl Gustav Jung. Carl Sagan. Charles Chaplin. Epicuro.

Fernando Pessoa. Gandhi. George Bernard Shaw. Go- ethe. Huberto Rohden. Krishnamurti. José Ingenieros.

Maharishi. Mario Quintana. Marquês de Maricá. Mil- lôr Fernandes. Picasso. Pietro Ubaldi. Platão. Ra- makrishna. Sêneca. Suzuki. Rabindranath Tagore. Vi-

vekananda. Voltaire. Pascal. Montaigne. Nietzsche.

Santo Agostinho. Cícero. Jean de la Bruyère.

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INTRODUÇÃO

Montei essas entrevistas, utilizando as ideias dos entrevis- tados já falecidos, cujos textos foram retirados de seus livros e de citações confiáveis de outros autores.

Reuni textos de alguns entrevistados em razão de refleti- rem sobre os mesmos argumentos, porém de modo diferente, com o propósito de dar maior amplitude a eles.

Este livro é mais dos entrevistados do que meu. Fui apenas o intermediário dos seus pensamentos para conhecimento dos leitores.

Nestas entrevistas, além das perguntas aos entrevistados, também inseri algumas ideias minhas, que julguei importantes para um breve diálogo com eles.

Nem sempre, porém, estou de acordo com a argumenta-

ção de alguns entrevistados. A entrevista não é um debate e não

compete ao entrevistador o direito de polemizar com o entrevis-

tado, mas apenas fazer-lhe perguntas, ouvir-lhe as respostas e

pedir-lhe esclarecimentos. No caso deste livro, a discordância,

mesmo que fosse permitida, seria impossível, por tratar-se da ex-

posição de ideias de pensadores falecidos.

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Sumário

INTRODUÇÃO ... 7

Albert Camus ... 11

Albert Einstein ... 16

Arthur Schopenhauer ... 32

Carl Gustav Jung ... 40

Carl Edward Sagan ... 53

Charles Chaplin ... 60

Epicuro ... 73

Fernando Pessoa ... 79

Mohandas Karamchand Gandhi... 87

George Bernard Shaw ... 101

Johann Wolfgang von Goethe ... 110

Huberto Rohden ... 118

Jiddu Krishnamurti... 135

José Ingenieros ... 152

Bhagavan Sri Rama Maharishi ... 163

Mário Quintana ... 169

Marquês de Maricá ... 176

Millôr Fernandes ... 194

Pablo Picasso ... 207

Pietro de Alleori Ubaldi ... 213

Platão ... 228

Ramakrishna ... 237

Lucius Annaeus Sêneca ... 253

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Daisetz Teitaro Suzuki ... 263

Rabindranath Tagore ... 272

Vivekananda ... 280

François-Marie Arouet ... 292

Blaise Pascal ... 306

Michel Eyquem de Montaigne ... 315

Friedrich Nietzsche ... 328

Santo Agostinho ... 340

Cícero (Marco Túlio Cícero)... 349

Jean de La Bruyère ... 359

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Albert Camus

(1913 – 1960)

VRB – Buscamos a nossa essência, a nossa realidade fun- damental, o chão e os alicerces do nosso ser. O que você encon- trou nessa introspecção?

Camus – Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro.

VRB – Nem sempre as pessoas conseguem ser felizes. Há várias causas para isso: as circunstâncias da vida, o seu tempera- mento, a sua inabilidade no trato com os fatos e as pessoas...

Camus – Toda a infelicidade dos homens provém da espe- rança.

VRB – A felicidade terrena é vergonhosa para alguns místi- cos. Por isso, procuram voluntariamente o sofrimento para mere- cer a felicidade celestial.

Camus – Não é nenhuma vergonha ser-se feliz; vergonhoso é ser feliz sozinho.

VRB – Em que momento o homem não se esconde, não representa, não se mascara nas relações interpessoais?

Foi escritor, jornalista e filósofo argelino. Recebeu, em 1957, o Prêmio Nobre de Literatura por sua importante produção literá- ria. Os seus mais romances importantes foram “O Estrangeiro”

e “O Mito de Sísifo”. Morreu num acidente automobilístico.

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Camus – Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres.

VRB – Costuma-se dizer que todos nós temos uma parcela de responsabilidade, por menor que seja, pelo que acontece no mundo.

Camus – Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer.

VRB – Busca-se a experiência para a melhoria do desem- penho na vida social e profissional. Recorre-se, também, à experi- ência alheia. Podemos, de certo modo, criar a nossa própria expe- riência e não esperar que ela aconteça para melhor lidar com ela?

Camus – Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.

VRB – A filosofia trata de questões ontológicas e existen- ciais. Qual, em sua opinião, o problema filosófico mais importante?

Camus – Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é res- ponder uma questão fundamental da filosofia.

VRB – O que define o ser humano?

Camus – O Homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.

O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa pro- babilidade.

Um homem é mais homem pelas coisas que silencia do que pelas que diz. Vou silenciar muitas. Sabendo que não há causas vi- toriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem uma alma inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras. Criar é viver duas vezes... Todos tentam imitar, repetir e recriar sua própria realidade.

Sempre acabamos adquirindo o rosto das nossas verdades.

VRB – Deus existe? Ou ele não passa de uma fantasia cria-

da pelo ser humano para as suas necessidades existenciais?

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Camus – É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação!

Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico.

VRB – Por falar, em religião, o Juízo Final não passa, para mim, de terrorismo teológico. Apesar de sempre adiado, ainda assusta os religiosos.

Camus – Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.

VRB – A imaginação é mais forte do que a razão. Ela forta- lece a vontade, facilitando a realização de seus objetivos. E a ima- ginação pode ser fonte alegria, como também de sofrimento. Não somos, assim, apenas o que pensamos, mas o que imaginamos.

Camus – A imaginação oferece às pessoas consolação por aquilo que não podem ser e humor por aquilo que efetivamente são.

VRB – Qual a importância do amor em nossa vida? Há pes- soas que parecem não possuir esse sentimento.

Camus – O homem tem duas faces: não pode amar nin- guém, se não se amar a si próprio.

Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade.

VRB – O que é amar uma pessoa?

Camus – Amar uma pessoa significa querer envelhecer com ela.

VRB – O amor é bastante para todas as coisas?

Camus – Se amar bastasse, as coisas seriam simples.

Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo.

VRB – Se o amor é um sentimento raro, como afirmam al-

guns pensadores, aqueles que amam raramente amam muito.

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Camus – Por que seria preciso amar raramente para amar muito?

VRB – Há algo de racional no absurdo?

Camus – O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites.

VRB – A vida tem algum significado? Temos alguma missão a cumprir? Ou somos nós que damos significado à nossa vida?

Camus – Antes, a questão era descobrir se a vida precisava ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.

VRB – O que faz a grandeza de um homem? A sua geniali- dade, a sua bondade, o seu sacrifício pelo bem da humanidade?

Camus – A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

A grandeza consiste em tentar ser grande. Não há outro meio.

VRB – Há pessoas que aspiram ser um gênio. Ou, ao me- nos, reconhecidas como tal.

Camus – Não quero ser um gênio... Já tenho problemas su- ficientes ao tentar ser um homem.

VRB – A felicidade é uma construção diária. Ela não é está- tica, mas dinâmica. São os fracassos dessas contínuas adaptações que nos torna infelizes.

Camus – Já é vender a alma não saber contentá-la.

VRB – O que podemos fazer em prol do futuro, visando à melhoria da humanidade e dos nossos descendentes, sem, no en- tanto, comprometer o nosso presente, que deve ser vivido em plenitude?

Camus – A verdadeira generosidade para com o futuro

consiste em dar tudo ao presente.

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VRB – O sofrimento, como prega o Budismo, é universal.

Todos os seres vivos sofrem. Filósofos e teólogos procuram um significado para o sofrimento. Há alguma justificativa convincente para os seres que sofrem? Se, por exemplo, a criança é inocente, por que ela sofre? Por que seria ela uma exceção?

Camus – Não é o sofrimento das crianças que se torna re- voltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento.

VRB – Descartes disse: “Penso, logo existo”. E você?

Camus – Revolto-me, logo existo.

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Albert Einstein

(1879-1955)

VRB – O que, na atualidade, representa o maior perigo pa- ra a humanidade?

Einstein – A indústria dos armamentos representa concre- tamente o mais terrível perigo para a humanidade.

Com efeito, enquanto a possibilidade da guerra não for radi- calmente supressa, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo possível para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com as tradições guerreiras, nem que o ridí- culo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heroica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cida- dãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca.

VRB – A instituição do Estado reforçou a idéia do naciona- lismo e, conseqüentemente, da manutenção das chamadas forças armadas para a defesa do país. Daí, por certo, se originou a indús- tria armamentista, estimulando a prepotência dos países militar- Foi um físico teórico alemão posteriormente radicado nos Es- tados Unidos, que desenvolveu a teoria da relatividade geral, um dos dois pilares da física moderna.

(1879-1955)

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17 mente mais poderosos.

Einstein – O Estado deve ser nosso servidor e não temos obrigação de ser seus escravos. Esta lei fundamental é vilipendia- da pelo Estado, quando nos constrange à força ao serviço militar e à guerra. Nossa função de escravos se exerce então para aniquilar os homens de outros países ou para prejudicar a liberdade de seu progresso. Consentir em certos sacrifícios ao Estado só é um dever quando contribuem para o progresso humano dos indivíduos.

O que há de realmente valioso nesta epopeia da vida hu- mana, não me parece ser o Estado, mas sim o indivíduo humano, criador e sensível, a humana personalidade; só ela cria coisas su- blimes e nobres, ao passo que o rebanho como tal, permanece obtuso em seu pensar e obtuso em seu agir.

VRB – Enquanto o nacionalismo for um sentimento sepa- rativista, o militarismo permanecerá.

Einstein – Quem quer desenvolver o sentimento internaci- onal e combater o chauvinismo nacional, tem de combater o ser- viço militar obrigatório. As violentas perseguições que se abatem sobre aqueles que, por motivos morais, recusam cumprir o serviço militar, serão menos ignominiosas para a humanidade do que as perseguições a que se expunham nos tempos passados os mártires da religião? Ousar-se-á hipocritamente proclamar a guerra fora da lei, como o faz o pacto Kellog, enquanto se entregam indivíduos sem defesa à máquina assassina da guerra em qualquer país?

A dignidade da pessoa humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar.

VRB - E o que fazer para resolver esse problema?

Einstein - Continuo a afirmar que o meio violento da recu- sa do serviço militar é o melhor.

O nacionalismo, hoje espalhado por toda parte de maneira

tão perigosa, se desenvolve perfeitamente a partir da criação do

serviço militar obrigatório, ou, pelo eufemismo, do exército nacio-

nal. Exigindo dos cidadãos o serviço militar, o Estado se vê obriga-

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do a neles exaltar o sentimento nacionalista, base psicológica dos condicionamentos militares. Ao lado da religião, o Estado deve glorificar em suas escolas, aos olhos da juventude, seu instrumen- to de força brutal.

A introducão do serviço militar obrigatório. Eis a principal causa, a meu ver, da decadência moral da raça branca. Assim se coloca a questão da sobrevivência de nossa civilização e até mes- mo de nossa vida! Por isto o poderoso influxo da revolução fran- cesa traz inúmeras vantagens sociais, mas também a maldição que, em tão pouco tempo, caiu sobre todos os outros povos.

O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da hu- manidade.

O serviço militar obrigatório tem de ser combatido porque constitui o principal foco de um nacionalismo mórbido.

VRB – Mas, para isso, é preciso que modifiquemos a nossa mentalidade guerreira. Jeová ou Iavé era o deus dos exércitos. A mitologia tinha os seus deuses da guerra. Nós ainda cultuamos os grandes conquistadores sanguinários como Alexandre, Júlio César e Napoleão Bonaparte, entre outros.

Einstein – Detesto, de saída, quem é capaz de marchar em formação com prazer ao som de uma banda. Nasceu com cérebro por engano; bastava-lhe a medula espinhal.

A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cére- bro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização.

Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ig- nomínia.

VRB – Acredita que, um dia, a guerra será apenas uma

lembrança do passado?

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Einstein – Creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.

Não se pode manter a paz pela força, mas sim pela concórdia.

VRB – Teoricamente, todos os seres humanos anseiam pe- la paz. Digo teoricamente porque, se isso fosse verdade, não have- ria a guerra.

Einstein – A paz é a única forma de nos sentirmos real- mente humanos.

O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que ob- servam e deixam o mal acontecer.

Há apenas um caminho para a paz e para a segurança: o da organização supranacional. O armamentismo unilateral, em base nacionalista, apenas intensifica a incerteza e a confusão generali- zadas, sem constituir-se em proteção eficaz.

VRB – Posso concluir que você tornou-se pessimista em re- lação à humanidade?

Einstein – Não podemos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens.

O ser humano vivencia a si mesmo, seus pensamentos co- mo algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos li- vrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objeti- vo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa libe- ração e o alicerce de nossa segurança interior.

VRB – Qual o seu maior objetivo como um pensador?

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Einstein – Quero conhecer os pensamentos de Deus... O resto é detalhe.

VRB – Deus é o maior de todos os mistérios e, por isso, in- sondável para o ser humano, mesmo para quem o substitui pela palavra natureza. Aliás, não sei se Deus pensa, tal como entende- mos o que seja o pensamento, pois esse modo de pensar é um ranço do nosso antropomorfismo.

Mudando, porém, de assunto: o universo é finito ou infinito?

Einstein – Duas coisas são infinitas: o universo e a estupi- dez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.

VRB – É uma crença popular que uma pessoa erudita é também sábia. Discordo, porém, dessa presunção. A erudição, por si só, não confere sabedoria e esta, em muitos casos, não precisa daquela. Porém, ambas podem conviver produtivamente.

Einstein – O homem erudito é um descobridor de fatos que já existem - mas o homem sábio é um criador de valores que não existem e que ele faz existir.

O estudo em geral, a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida.

VRB – Apesar de todo progresso científico e tecnológico, a inércia psíquica é um grande obstáculo para as pessoas se adapta- rem às mudanças sociais, e se livrarem de seus condicionamentos culturais já inadequados. A quase totalidade das pessoas continua presa aos preconceitos do passado.

Einstein – Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.

A tradição é a personalidade dos imbecis.

Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos.

A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mes-

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ma, porque o progresso moral da sociedade depende exclusiva- mente da sua independência.

VRB – A ciência é a vaca sagrada dos nossos dias. O conhe- cimento que não é científico é tido como desnecessário e até mesmo prejudicial por contribuir para alienação do ser humano.

Einstein – Existe uma coisa que uma longa existência me ensinou: toda a nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e inocente; e, portanto, é o que temos de mais valioso.

VRB – O conhecimento é o que há de mais importante pa- ra o ser humano?

Einstein – O conhecimento auxilia por fora, mas só o amor socorre por dentro. Conhecimento vem, mas a sabedoria tarda.

Somente seres humanos excepcionais e irrepreensíveis suscitam ideias generosas e ações elevadas.

VRB – O conflito entre a ciência e a religião parece não ter fim. Em algumas ocasiões se estabelece um armistício entre elas, mas não a paz. Você admite a possibilidade de que as duas, sob certos aspectos, possam auxiliar-se reciprocamente?

Einstein – A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega.

A religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais genero- so da pesquisa científica.

A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia. Abrangendo os terrenos material e espiritual, essa religião será baseada num certo sentido religioso procedente da experiência de todas as coisas, naturais e espirituais, como uma unidade expressiva ou como a expressão da Unidade. O budismo corresponde a essa descrição.

Sem a convicção de uma harmonia íntima do Universo, não

poderia haver ciência. Esta convicção é, e continuará a ser, a base

de toda a criação científica. Em toda a extensão de nossos esfor-

ços, nas lutas dramáticas entre as velhas e as novas concepções,

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entrevemos a ânsia eterna de compreensão, a intuição inabalável da harmonia universal, que se robustece na própria multiplicidade dos obstáculos que se oferecem ao nosso entendimento.

VRB – Você tem alguma religião?

Einstein - Minha religião consiste numa admiração humil- de ao Espírito Superior e Ilimitado que se revela a si mesmo nos mínimos pormenores, que estamos aptos a captar com nossas fracas e irrelevantes mentes. A profunda certeza de um Poder Su- perior que se revela no Universo, difícil de ser compreendido, forma a minha ideia de Deus.

VRB – Como seria um religioso, mesmo sem religião?

Einstein - Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguido do comum dos mortais por uma espécie de sentimen- to religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus à imagem do homem. Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos centrais se apoiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heréticos de todas as épocas que vamos encontrar ho- mens impregnados do mais elevado sentimento religioso, conside- rados por seus contemporâneos, ora como ateus, ora como san- tos. Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.

Saber que existe algo insondável, sentir a presença de algo pro- fundamente racional, radiantemente belo, algo que compreendemos apenas em forma rudimentar — esta é a experiência que constitui a atitude genuinamente religiosa. Neste sentido, e neste sentido somen- te, eu pertenço aos homens profundamente religiosos.

O característico do homem religioso consiste no fato de se ter libertado das algemas do seu egoísmo, construindo, por seu modo de pensar, sentir e agir, um mundo de valores supraperso- nais, aprofundando e ampliando cada vez mais o seu impacto so- bre a vida.

VRB – Qual a sua concepção sobre Deus?

Einstein – Deus é a lei e o legislador do Universo.

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Não tento imaginar um Deus pessoal; basta admirar as- sombrado a estrutura do mundo pelo menos na proporção em que ela se permite apreciar por nossos sentidos inadequados.

É claro que era mentira o que você leu sobre minhas con- vicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Não acredito num Deus pessoal e nunca neguei isso, e sim o manifestei claramente. Se há algo em mim que possa ser chamado de religioso, é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo, do modo como nossa ciência é capaz de revelar.

Sou um descrente profundamente religioso. Isso é, de cer- ta forma, um novo tipo de religião.

Jamais imputei à natureza um propósito ou um objetivo, nem nada que possa ser entendido como antropomórfico. O que vejo na natureza é uma estrutura magnífica que só compreendemos de mo- do muito imperfeito, e que não tem como não encher uma pessoa racional de um sentimento de humildade. É um sentimento genui- namente religioso, que não tem nada a ver com misticismo.

A ideia de um Deus pessoal me é bastante estranha, e me parece até ingênua.

VRB – Conseqüentemente...

Einstein – Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação.

Aceito o mesmo Deus que Spinoza chama de Alma do Uni- verso. Não aceito um Deus que se preocupe com as nossas neces- sidades pessoais.

Basta de dizer a Deus o que ele deve fazer.

Durante o período juvenil da evolução espiritual da huma- nidade, a fantasia humana criou a sua própria imagem “deuses”

que, por seus atos de vontade, supostamente determinariam ou,

pelo menos, influenciariam o mundo fenomênico. O homem pro-

curava alterar a disposição desses deuses a seu próprio favor, por

meio da magia e da prece. A ideia de Deus, nas religiões ensinadas

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atualmente, é uma sublimação dessa antiga concepção dos deu- ses. Seu caráter antropomórfico se revela, por exemplo, no fato de os homens recorrerem ao Ser Divino em preces, a suplicarem a realização de seus desejos.

Certamente, ninguém negará que a ideia da existência de um Deus pessoal, onipotente, justo e todo-misericordioso é capaz de dar ao homem consolo, ajuda e orientação; e também, em virtude de sua simplicidade, acessível às mentes menos desenvolvidas. Por outro lado, porém, esta ideia traz em si aspectos vulneráveis e decisivos, que se fizeram sentir penosamente desde o início da história. Ou seja, se esse ser é onipotente, então tudo o que acontece, aí incluí- dos cada ação, cada pensamento, cada sentimento e aspiração do homem, é também obra Sua; nesse caso, como é possível pensar em responsabilizar o homem por seus atos e pensamentos perante esse Ser 'todo-poderoso'? Ao distribuir punições e recompensas, Ele esta- ria, até certo ponto, julgando a Si mesmo. Como conciliar isso com a bondade e a justiça a Ele atribuídas?

Não há dúvida de que a doutrina de um Deus pessoal que interfere nos eventos naturais jamais poderia ser refratada, no sentido verdadeiro, pela ciência, pois essa doutrina pode sempre procurar refúgio nos campos em que o conhecimento científico ainda não foi capaz de se firmar. Estou convencido, porém, de que tal comportamento por parte dos representantes da religião seria não só indigno como desastroso. Pois uma doutrina que não é capaz de se sustentar à "plena luz", mas apenas na escuridão, está fadada a perder sua influência sobre a humanidade, com incalcu- lável prejuízo para o progresso humano. Em sua luta pelo bem ético, os professores de religião precisam ter a envergadura para abrir mão da doutrina de um Deus pessoal, isto é, renunciar a fon- te de medo e esperança que, no passado, concentrou um poder tão amplo nas mãos dos sacerdotes. Em seu ofício, terão de se valer daquelas forças que são capazes de cultivar o Bom, o Verda- deiro e o Belo na própria humanidade. Trata-se, sem dúvida, de uma tarefa mais difícil, mas incomparavelmente mais valiosa.

Quando tiverem realizado esse processo de depuração, os profes-

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sores da religião certamente hão de reconhecer com alegria que a verdadeira religião ficou enobrecida e mais profunda graças ao conhecimento científico.

VRB – Você admite a possibilidade da sobrevivência

post- mortem do ser humano?

Einstein – Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva à morte do corpo.

VRB – É possível um relacionamento proveitoso entre a ciên- cia e a religião? O que a ciência pode fazer em benefício da religião?

Einstein - A Ciência não apenas purifica o espírito religioso do azinhavre de seu antropomorfismo, mas contribui também para uma espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.

Se um dos objetivos da religião é libertar a humanidade, tanto quanto possível, da servidão dos anseios, desejos e temores egocêntricos, o raciocínio científico pode ajudar a religião em mais um sentido.

A meu ver, portanto, a ciência não só purifica o impulso re- ligioso do entulho de seu antropomorfismo, como contribui para uma “espiritualização” religiosa de nossa compreensão da vida.

Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, mais certo me parece que o caminho para a religiosidade genuína não passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, ou pela fé cega, mas pelo esforço em busca do conhecimento racional.

VRB – As pessoas, em geral, têm, como objetivo de vida, o prazer e a felicidade. Em minha opinião, prazer e felicidade não são objetivos, mas consequências do nosso modo de ser.

Einstein – Jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzi- dos a instintos de grupo.

VRB – Qual o seu ideal político?

Einstein – O meu ideal político é a democracia, para que todo

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o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado.

VRB – Qual a importância da teoria na investigação científica?

Einstein – É a teoria que decide o que podemos observar.

Se os fatos não se encaixam na teoria, modifique os fatos.

VRB – Todos nós, de um modo ou de outro, temos um propósito para a nossa existência e lutamos pela sua realização.

Isso, porém, não nos impede de termos objetivos secundários.

Qual, em sua opinião, é a meta prioritária?

Einstein – A luta pela verdade deve ter precedência sobre todas as outras.

VRB – A tecnologia nos melhorou como seres humanos ou apenas nos cercou de objetos que tornaram a nossa vida mais prática?

Einstein – Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.

A liberação da energia atômica mudou tudo, menos nossa maneira de pensar.

VRB – Você acredita que o homem faz o seu destino?

Einstein – Temos o destino que merecemos. O nosso des- tino está de acordo com os nossos méritos.

VRB – Então, você admite que o ser humano é livre?

Einstein – Não creio, no sentido filosófico do termo, na li- berdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangi- mento exterior mas, também, de acordo com uma necessidade interior.

VRB – O seu pensamento científico sempre se norteou pe- la racionalidade?

Einstein – O mecanismo do descobrimento não é lógico e

intelectual – é uma iluminação subitânea, quase um êxtase. Em

seguida, é certo, a inteligência analisa e a experiência confirma a

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intuição. Além disso, há uma conexão com a imaginação.

Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis elementares do universo – o único caminho é a intuição. Pen- so noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mer- gulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se me revela.

A mente avança até o ponto onde pode chegar; mas depois passa para uma dimensão superior, sem saber como lá chegou.

Todas as grandes descobertas realizaram esse salto.

VRB – E qual a consequência dessa experiência?

Einstein - Uma mente que se abre a uma nova ideia nunca mais voltará a seu tamanho original.

VRB – Qual a importância da imaginação na pesquisa cien- tífica?

Einstein – A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.

A mente avança até o ponto onde pode chegar; mas depois passa para uma dimensão superior, sem saber como lá chegou.

Todas as grandes descobertas realizaram esse salto.

O homem, como qualquer outro animal, é por natureza in- dolente. Se nada o estimula, mal se dedica a pensar e se comporta guiado apenas pelo hábito, como um autômato.

VRB – Os médicos, atualmente, recomendam uma intensa atividade intelectual, na chamada terceira idade, para criar novas sinapses e evitar ou procrastinar o advento de doenças degenera- tivas como o mal de Alzheimer. A leitura é um dos exercícios men- tais mais recomendados.

Einstein – A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar.

VRB – A sociedade tem sido acusada de impedir o desen-

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volvimento das potencialidades do ser humano, quando em desa- cordo com as suas normas e valores.

Einstein – O que há de melhor no homem somente desa- brocha quando se desenvolve em uma comunidade.

O homem pode encontrar significado na vida, curta e peri- gosa como é, somente através de seu devotamento à sociedade.

Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social.

Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimen- to de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.

VRB – Cientistas e filósofos procuram desvendar os misté- rios da vida, principalmente com a utilização da razão. De minha parte, delicio-me com eles, porque tenho a convicção de que nem todos podem ser resolvidos, porque transcendem a nossa capaci- dade cognitiva.

Einstein – O mistério da vida me causa a mais forte emo- ção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus o- lhos se cegaram.

VRB – Quais foram os ideais que nortearam a sua vida?

Einstein – Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade.

VRB – Acredita que a moralidade pode preservar a vida so-

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cial apesar de todas as suas transformações?

Einstein – O sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submeti- dos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasi- ar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inte- ligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório.

A arte, mais do que a ciência, pode desejar e esforçar-se por atingir o aperfeiçoamento moral e estético. A compreensão de outrem somente progredirá com a partilha de alegrias e sofrimen- tos. A atividade moral implica a educação destas impulsões pro- fundas, e a religião se vê com isto purificada de suas superstições.

O terrível dilema da situação política explica-se por este pecado de omissão de nossa civilização. Sem cultura moral, ne- nhuma saída para os homens.

VRB – O especialista é, hoje, uma pessoa que inspira uma grande respeitabilidade científica. Mas, em minha óptica, o ho- mem deve ser muito mais do que um especialista para compreen- der a complexidade cada vez maior do mundo moderno e das re- lações humanas dela decorrentes.

Einstein – Não basta ensinar ao homem uma especialida- de. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um sen- so prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se asse- melhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida.

Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas

quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar

exato em relação a seus próximos e à comunidade.

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VRB – Pensa-se que o cientista é só aquele que possui um diploma universitário e passa toda sua vida dentro de um labora- tório, realizando pesquisas.

Einstein – Não considero automaticamente um homem de ciência aquele que sabe manejar instrumentos e métodos julgados científicos. Penso somente naqueles cujo espírito se revela verda- deiramente científico.

VRB – A matemática é um instrumento confiável para a in- vestigação da realidade?

Einstein – As teses da matemática não são certas quando relacionadas com a realidade, e, enquanto certas, não se relacio- nam com a realidade.

VRB – Apesar disso, a matemática é uma excelente ferra- menta para todas as ciências.

Albert Einstein – A matemática goza, perante todas as ou- tras ciências, de um prestígio especial, e isto por uma razão única:

é que suas teses são absolutamente certas e irrefutáveis, ao passo que as outras ciências são controvertidas até certo ponto e sem- pre estão em perigo de serem derrubadas por fatos recém- descobertos. A matemática goza deste prestígio porque é ela que dá às outras ciências certa medida de segurança que elas não po- deria alcançar sem a matemática.

VRB – As pessoas, geralmente, temem a solidão. Mas al- gumas são voluntariamente solitárias.

Einstein – Talvez algum dia a solidão venha a ser adequa- damente reconhecida e apreciada como mestra da personalidade.

Há muito que os orientais o sabem. O indivíduo que teve experi- ência da solidão não se torna vítima fácil da sugestão das massas.

Tomara que exista algures uma ilha para homens sábios e de boa vontade.

VRB – A arte é o lado belo da personalidade humana. Ela

não é, como alguns pensam, uma fuga da realidade, mas o embe-

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31 lezamento dela.

Albert Einstein – Pessoalmente, sinto-me capaz de atingir o mais alto grau de felicidade possível, através das obras de arte.

Delas recebo dons espirituais de tal força que coisa alguma pode- ria proporcionar-me idênticas sensações.

VRB – É a ciência naturalmente avessa ao sentimento reli- gioso?

Albert Einstein – O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo.

VRB – O nacionalismo exacerbado é uma causa de conflito entre os países. É uma hipnose coletiva.

Albert Einstein – O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade.

VRB – O universo é infinito?

Albert Einstein – Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.

VRB – O sábio nem sempre é um erudito. O erudito nem sempre é um sábio.

Albert Einstein – O homem erudito é um descobridor de fa-

tos que já existem - mas o homem sábio é um criador de valores

que não existem e que ele faz existir.

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Arthur Schopenhauer

(1788 – 1860)

VRB – Há pessoas fascinadas pela glória. Tudo fazem para alcançá-la ainda em vida. Mas também acalentam a esperança de obtê-la depois da morte. No entanto, a glória post-mortem é órfã de nascença.

Arthur Schopenhauer – A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.

VRB – A durabilidade da glória, após a morte, em nada be- neficia o seu titular. E não é suficiente para preencher ou suavizar a solidão.

Arthur Schopenhauer – A solidão é a sorte de todos os es- píritos excepcionais.

VRB – Quanto mais sabemos, nossas certezas diminuem, e aumenta o mistério do existir.

Arthur Schopenhauer – Quanto menos inteligente um ho- mem é, menos misteriosa lhe parece a existência.

Filósofo alemão da corrente irracionalista, introduziu o Budis-

mo e o pensamento indiano na metafísica alemã. Ficou conhe-

cido por seu pessimismo e considerava o Budismo como uma

confirmação de suas idéias. Combateu vigorosamente a filoso-

fia hegeliana e exerceu forte influência no pensamento de Frie-

drich Nietzsche.

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VRB – Os milênios se passam, e Mamon nunca perdeu o seu poder. Ao contrário, ele tem aumentado cada vez na nossa época dominada pelo consumismo. Ter parece ser a única felici- dade garantida.

Arthur Schopenhauer – O dinheiro é uma felicidade hu- mana abstrata; por isso aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele.

A riqueza influencia-nos como a água do mar. Quanto mais bebemos, mais sede temos.

A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos.

VRB – Apesar de tudo, o dinheiro tem a sua importância.

Arthur Schopenhauer – O dinheiro é a coisa mais impor- tante do mundo. Representa: saúde, força, honra, generosidade e beleza, do mesmo modo que a falta dele representa: doença, fra- queza, desgraça, maldade e fealdade.

VRB – Mas, a busca obsessiva pela riqueza tem seus incon- venientes.

Arthur Schopenhauer – O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem.

VRB – O que revela a sua insensatez.

Arthur Schopenhauer – A ignorância só degrada o homem quando se encontra em companhia da riqueza.

VRB – A morte é uma perda, não para quem morreu, mas pa- ra as pessoas que o amaram. Há alguma compensação para a morte?

Arthur Schopenhauer – O amor é a compensação da morte.

VRB – Mas, não elimina o temor que quase todas as pes- soas têm da morte.

Arthur Schopenhauer – Quem não tem medo da vida tam-

bém não tem medo da morte.

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Por mais temida que seja, a morte não pode ser um mal.

Quem concebe sua existência apenas como simples efeito do acaso, sem dúvida deve temer perdê-la pela morte.

São apenas as cabeças pequenas e limitadas que temem seri- amente na morte a destruição total do ser; dos espíritos verdadeira- mente privilegiados tal medo fica completamente afastado.

VRB – Concebo a arte como a expressão mais elevada da natureza humana.

Arthur Schopenhauer – A arte é uma flor nascida no cami- nho da nossa vida, e que se desenvolve para suavizá-la.

VRB – O sofrimento físico é comum a todos os seres vivos.

Psicologicamente, porém, o sofrimento é diferente para cada pessoa.

Arthur Schopenhauer – Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre.

VRB – O casamento é uma das mais complexas experiên- cias do ser humano, e nem sempre feliz. Mesmo assim pode durar até a morte de um dos cônjuges.

Arthur Schopenhauer – Casar-se significa duplicar as suas obrigações e reduzir a metade dos seus direitos.

VRB – Como conciliar determinismo e livre-arbítrio, se for possível essa conciliação?

Arthur Schopenhauer – O destino baralha as cartas, e nós jogamos.

VRB – A filosofia grega proclamava o lema do corpo são em uma mente sã.

Arthur Schopenhauer – Em geral, nove décimos da nossa

felicidade baseiam-se exclusivamente na saúde. Com ela, tudo se

transforma em fonte de prazer.

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VRB – Não podemos negar a importância da leitura para a formação intelectual das pessoas. Porém, o mais importante não é apenas ler e, sim, o que se lê.

Arthur Schopenhauer – Ler quer dizer pensar com uma ca- beça alheia, em lugar da própria.

VRB – A honra é um bem inestimável para certas pessoas.

É a alma da personalidade. É maior do que a vida, que, sem ela, perde o sentido.

Arthur Schopenhauer – A honra é, objetivamente, a opini- ão dos outros acerca do nosso valor, e, subjetivamente, o nosso medo dessa opinião.

VRB – O tempo influi na nossa percepção da vida.

Arthur Schopenhauer – Vista pelos jovens, a vida é um fu- turo infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve.

VRB – A felicidade é a nossa maior aspiração. Cada pessoa tem ou procura uma fórmula para encontrá-la.

Arthur Schopenhauer – O que temos dentro de nós é o es- sencial para a felicidade humana.

O que nos torna imediatamente felizes é a alegria do pen- samento, pois essa boa qualidade se recompensa logo, por si mesma.

VRB – No entanto, as religiões afirmam que a verdadeira felicidade não se encontra neste mundo, onde tudo é transitório.

Arthur Schopenhauer – Num mundo como este, onde nada é estável e nada perdura, mas é arremessado em um incansável turbi- lhão de mudanças, onde tudo se apressa, voa, e mantém-se em equi- líbrio avançando e movendo-se continuamente, como um acrobata em uma corda – em tal mundo, a felicidade é inconcebível.

VRB – A religião é uma necessidade do ser humano que se

manifesta com intensidade por ocasião das desgraças individuais e

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coletivas. É um analgésico no sofrimento e um fósforo aceso da escuridão.

Arthur Schopenhauer – As religiões, assim como as luzes, necessitam de escuridão para brilhar.

VRB – A história nem sempre é um relato de fatos confiá- veis. É principalmente uma interpretação dos fatos, comprometida pela subjetividade de cada historiador.

Arthur Schopenhauer – O que a história conta não passa do longo sonho, do pesadelo espesso e confuso da humanidade.

VRB – Há pessoas que buscam a sabedoria no saber. Se as- sim fosse, os eruditos seriam sábios.

Arthur Schopenhauer – Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mun- do e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.

A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro.

Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios.

No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadei- ros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autên- tico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa.

VRB – O que é a sabedoria?

Arthur Schopenhauer – Por sabedoria entendo a arte de tornar a vida mais agradável e feliz possível.

VRB – As religiões ensinam que o homem é divino ou tem algo de divino. Caso concorde, o que, para você, seria esse algo?

Arthur Schopenhauer – O bom humor é a única qualidade

divina do homem.

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VRB – A compaixão pelos nossos semelhantes se manifesta por ocasião das catástrofes que destroem milhões de vidas. Pare- ce-me rara essa compaixão pelos animais.

Arthur Schopenhauer – A compaixão pelos animais está in- timamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.

VRB – Somos seres temporais e, no entanto, polemizamos sobre o que é o tempo. Há um tempo objetivo. Há um tempo sub- jetivo. E estamos confusos na tentativa de compreendê-los. Talvez sejam as duas faces de uma mesma moeda.

Arthur Schopenhauer – O tempo é a forma graças à qual a vanidade das coisas aparece como a sua instabilidade, que reduz a nada todas as nossas satisfações e todas as nossas alegrias, en- quanto nos perguntamos com surpresa para onde foram. Esse próprio nada é, portanto, o único elemento objetivo do tempo, ou seja, o que lhe responde na essência íntima das coisas, e assim a substância da qual ele é a expressão.

VRB – De um modo geral, como o ser humano convive com o tempo?

Arthur Schopenhauer – As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo.

VRB – O Cristianismo prega o perdão incondicional àqueles que nos feriram e também recomenda que amemos os nossos inimigos. Isso me soa como uma utopia.

Arthur Schopenhauer – Perdoar e esquecer equivale a jo-

gar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma

pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desa-

gradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é

ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda

vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira

mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar

ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com

ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim

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estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exatamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o caráter é absolutamente incorrigível e todas as ações humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstân- cias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferen- te. Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exatamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consci- ência secreta da sua imprescindibilidade.

VRB – A distinção entre o talento e o gênio é apenas de grau?

Arthur Schopenhauer – Talento é quando um atirador atinge o alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge o alvo que os outros não veem.

VRB – O amor, parece-me, é a razão de ser para a maioria das pessoas.

Arthur Schopenhauer – O amor é o objetivo último de qua- se toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.

VRB – No turbilhão do presente, não temos uma percepção nítida dos fatos, porque não dispomos de uma perspectiva confiável.

Fazemos parte do turbilhão e, nesta condição, o nosso juízo crítico é sempre precário. Só o passado pode ser observado melhor, embora esteja contaminado pelas nossas necessidades do presente.

Arthur Schopenhauer – As cenas de nossa vida são como

imagens em um mosaico tosco; vistas de perto, não produzem

efeitos – devem ser vistas à distância para ser possível discernir

sua beleza. Assim, conquistar algo que desejamos significa desco-

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brir quão vazio e inútil este algo é; estamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, enquanto, ao mesmo tempo, co- mumente nos arrependemos e desejamos aquilo que pertence ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporá- rio e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo.

Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte das pessoas perceberá que viveram-nas ad interim [proviso- riamente]: ficarão surpresas ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida – isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo.

Então se pode dizer que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!

VRB – Os mestres do Oriente ensinam que, enquanto de- sejarmos as coisas, permaneceremos seus escravos. Como elimi- nar o desejo que, à semelhança da Fénix, ressurge sempre das cinzas do que aparentemente foi saciado?

Arthur Schopenhauer – Novamente, há a insaciabilidade de cada vontade individual; toda vez que é satisfeita um novo desejo é engendrado, e não há fim para seus desejos eternamente insaciáveis.

Isso acontece porque a Vontade, tomada em si mesma, é a soberana de todos os mundos: como tudo lhe pertence, não se satisfaz com uma parcela de qualquer coisa, mas apenas como o todo, o qual, entretanto, é infinito. Devemos elevar nossa compai- xão quando consideramos quão minúscula a Vontade – essa sobe- rana do mundo – torna-se quando toma a forma de um indivíduo;

normalmente apenas o que basta para manter o corpo. Por isso o homem é tão miserável.

VRB – Vivemos uma época de intensa poluição sonora, não só nas ruas agitadas das grandes cidades, como também na inti- midade do lar. E, no entanto, há pessoas que se acostumaram com essa poluição e até se sentem bem com ela.

Arthur Schopenhauer – A soma de barulho que uma pessoa

pode suportar está na razão inversa de sua capacidade mental.

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Carl Gustav Jung

(1875-1961)

VRB – A mente humana é um mistério até agora irrevelado, apesar de todos os avanços científicos sobre o funcionamento do nosso cérebro. A discussão sobre a mente e o cérebro prossegue inconclusa. Como a mente processa seus conteúdos a partir da consciência, que, por sua vez, nos é desconhecida, mas que nos permite conhecer, até certo ponto, tudo o mais?

Jung – Todo processo psíquico consiste numa imagem e num ser que está imaginando, senão nenhuma consciência pode- ria existir e o evento não teria fenomenalidade. Também a imagi- nação é um processo psíquico, e por isso é completamente fora de propósito perguntar-se se a iluminação (o satori, por exemplo) é

“real” ou “imaginária”.

VRB – O que distingue o ego da consciência?

Jung – O ego, não sendo mais que o centro do campo de consciência, não se confunde com a totalidade da psique; não é mais que um complexo entre outros muitos.

VRB – Costuma-se pensar que a criatividade se origina de processos inconscientes.

Jung – O ego é dotado de um poder, de uma força criativa, conquista tardia da humanidade, a que chamamos vontade.

Psiquiatra suíço. Fundou a Psicologia Analítica.

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VRB – Mestres espirituais vivem a ensinar a auto realiza- ção. Se as circunstâncias nos mudam, como alguém pode se auto realizar? A pessoa auto realizada é aquela que atualizou todas as suas potencialidades?

Jung - Não sei dizer como é um homem que desfrute de completa auto realização porque nunca vi nenhum. Antes de buscar a perfeição, devemos viver o homem comum, sem automutilação.

VRB – O que chamamos de realidade é uma experiência pessoal. Como é o seu real?

Jung - Só reconheço como sendo real aquilo que age sobre mim. O que não age sobre mim é como se não existisse.

VRB – O que é melhor para nós? O conhecimento da reali- dade ou a experiência da realidade?

Jung – Da essência das coisas e da existência, ignoramos tudo no absoluto, mas ao estarmos vivos vivemos a experiência das diferentes eficácias que agem sobre nós: graças a nossos sen- tidos quando vêm de fora, graças a nossa imaginação quando vêm de dentro.

VRB – Qual o objetivo da terapia?

Jung – A terapia tem por objetivo reforçar a consciência.

A psicoterapia transcende as suas origens médicas e deixou de ser um simples método de tratamento de doentes. Atualmen- te, trata os que têm saúde ou os que têm um direito moral à saú- de ou os que têm um direito moral à saúde psíquica e cuja doença é, quando muito, o sofrimento que nos atormenta a todos.

VRB – Qual o papel do terapeuta?

Jung – O terapeuta deve ter em mente que o paciente está ali para ser tratado e não para verificar uma teoria.

VRB – Quando a vida nos adoece, buscamos a cura em fa-

tores externos: médicos, medicamentos e pessoas que parecem

possuir o poder de cura.

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Jung – Só aquilo que somos realmente tem o poder de cu- rar-nos.

VRB – De um modo ou de outro, um médico competente nos ajuda.

Jung – Não é o diploma médico, mas a qualidade humana, o decisivo.

VRB – Vivemos sucessivamente em estados de consciência e de inconsciência. Discutimos sobre a consciência e ainda não sabemos o que ela é.

Jung – Nossa consciência não se cria a si própria. Emana de profundezas desconhecidas. Na infância, desperta gradativamente e durante a vida desperta pela manhã, emerge das profundezas do sono, em um estado de inconsciência. É como uma criança que nasce cotidianamente do ventre materno do inconsciente.

VRB – Até que ponto o que podemos conhecer o inconsciente?

Jung – Tanto de fato quanto por definição, o inconsciente não pode ser alcançado em si-mesmo. É essencialmente a partir da experiência que temos dele que podemos deduzir conclusões sobre sua natureza.

VRB – Há psicólogos e psiquiatras que, exageradamente, afir- mam que todas as pessoas, em maior ou menor grau, são neuróticas.

Jung – As neuroses significam, como todas as doenças, uma adaptação insuficiente, isto é, situações em que o homem, devido a quaisquer entraves, tenta subtrair-se às dificuldades que a vida traz, voltando assim ao mundo anterior da infância. O im- portante não é a neurose, mas o homem que tem neurose.

VRB – Nutre-se a ilusão de que a razão nos liberta. Às ve- zes, porém, ela nos aprisiona.

Jung – Quanto mais predomina a razão crítica, mais a vida

se empobrece; mas quanto mais aptos formos a tornar consciente

o que é inconsciente e o que é mito, maior parcela de vida integra-

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remos. Sobrestimar a razão tem algo em comum com o poder ab- soluto do Estado: sob sua dominação, o indivíduo perece.

VRB – Mas, é inegável que a razão nos faz perceber as coi- sas com clareza.

Jung – Sua visão só ficará clara quando você olhar em seu coração. Quem olha fora, sonha. Quem olha dentro, desperta.

VRB – Muitos, principalmente os místicos, ensinam que devemos procurar a nossa plenitude, ou seja, a conquista de viver no mundo em sua totalidade.

Jung – O homem que não está religado não possui totali- dade... a totalidade consiste na combinação do eu e do tu.

Cada vida é um desencadeamento psíquico que não se po- de dominar a não ser parcialmente.

VRB – Sempre procuramos enriquecer a nossa personali- dade. Trabalhamos para ser cada vez melhores e impressionar as pessoas. E, para isso, adotamos as mais diversas estratégias para alcançar esse objetivo.

Jung – O crescimento da personalidade faz-se a partir do inconsciente.

VRB – Assim, o consciente é de pouca ajuda.

Jung – O inconsciente sabe mais que o consciente, mas seu saber é de uma essência particular, de um saber eterno que, fre- quentemente, não tem nenhuma ligação com o “aqui” e o “agora”

e não leva absolutamente em conta a linguagem que fala nosso intelecto.

VRB – A morte dos outros sempre nos afeta. Quando ocor- re com as pessoas que amamos, é uma perda irreparável.

Jung – A morte de qualquer homem diminui-me, porque

eu estou englobado na humanidade. Não perguntes, por isso, ja-

mais por quem os sinos dobram; dobram por ti.

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44

VRB – Nos impasses da vida, quando já não podemos pen- sar e agir racionalmente, o que nos pode socorrer?

Jung – Sempre que temos de nos haver com condições es- tranhas, em que não nos podemos socorrer de valores ou concei- tos estabelecidos, ficamos dependentes da faculdade da intuição.

VRB – Pensar e sentir são instâncias do nosso modo geral de nos relacionarmos com a realidade.

Jung – Quando pensamos, fazemo-lo com o fim de julgar ou chegar a uma conclusão; quando sentimos é para atribuir um valor pessoal a qualquer coisa que o fazemos.

O símbolo orienta para conteúdos psíquicos que ainda não são conhecidos.

VRB – Mostramos ao mundo aquilo que pensamos ou que- remos ser e os que os outros pensam que nós somos. Na vida so- cial, os mascarados conversam.

Jung – Podemos dizer, sem exagerar, que a persona é o que alguém na realidade não é, mas o que ele mesmo e os outros pensam que ele é.

VRB – Cada ser humano é único, mas a sociedade o padroniza.

Jung – Todos nós nascemos originais e morremos cópias.

VRB – A vida é feita de trocas, mesmo que simbólicas.

Mas, nessa permuta, deixamos de ser os mesmos.

Jung – Todos os efeitos são recíprocos e nenhum elemento age sobre outro sem que ele próprio seja modificado.

VRB – Pensamos, geralmente, que as circunstâncias do existir são nossos reais problemas e que a sua solução nem sem- pre depende de nós.

Jung – Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e

devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à

resposta que o mundo me der.

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45

VRB – Acreditar ou não acreditar em Deus não é uma questão científica, é uma opção pessoal. As diversas teologias sa- tisfazem a maioria das pessoas. Para algumas, porém, a religião, além de desnecessária, é prejudicial, porque fornece uma ideia antropomórfica de Deus.

Jung – Não acredito em Deus, eu O conheço.

VRB – O que o levou à certeza desse conhecimento?

Jung – Tudo o que aprendi levou-me, passo a passo, a uma inabalável convicção sobre a existência de Deus. Eu só acredito naquilo que sei. E isso elimina a crença. Portanto, não baseio a Sua existência na crença. Eu sei que Ele existe.

Acho que meus pensamentos giram em torno de Deus co- mo os planetas em torno do Sol, e são da mesma forma irresisti- velmente atraídos por ele. Eu me sentiria como o maior pecador querer opor uma resistência a esta força. Compreendi que Deus - pelo menos para mim - era uma das experiências mais imediatas.

VRB – Esse conhecimento influi na terapia com seus pacientes?

Jung – Faço meus pacientes entenderem que tudo o que lhes acontece contra a vontade deles é fruto de uma vontade supe- rior. Deus nada mais é do que essa força superior em nossa vida.

VRB – A terapia é uma troca na qual o terapeuta é favore- cido em razão de sua experiência profissional.

Jung – O terapeuta deve perceber a todo instante o modo pelo qual reage em confronto com o doente. Não se reage só com o inconsciente. É necessário perguntar sempre: “como meu in- consciente vive esta situação?” É preciso, pois, tentar compreen- der os próprios sonhos, prestar uma atenção minuciosa em si mesmo e observar-se tanto quanto ao doente, senão o tratamen- to poderá fracassar.

VRB – Parece-me que, em certos momentos, o terapeuta

não é paciente com o seu paciente.

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Jung – Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão sobre nós mesmos.

VRB – A crença, em muitos casos, anestesia. É apenas um paliativo e funciona como um placebo para nos tornar míopes em relação aos problemas existenciais.

Jung – O homem que apenas crê e não procura refletir es- quece-se de que é alguém constantemente exposto à dúvida, seu mais íntimo inimigo, pois onde a fé domina, ali também a dúvida está sempre à espreita. Para o homem que pensa, porém, a dúvida é sempre bem recebida, pois ela lhe serve de preciosíssimo degrau para um conhecimento mais perfeito e mais seguro.

VRB – O processo terápico pode ser influenciado pela filo- sofia do terapeuta.

Jung – Não tenho à mão nenhuma filosofia da vida já cozi- nhada para oferecer. Não sei que dizer a um paciente que me per- gunta: “O que me aconselha? Que devo fazer?” Sei apenas uma coisa: quando o meu espírito consciente já não vê qualquer cami- nho possível para diante e, consequentemente, fica perplexo é a minha psique inconsciente que reage ao impasse insuportável.

O encontro de duas personalidades assemelha-se ao conta- to de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação.

VRB – Em relação ao sofrimento, você é epicurista ou es- toico?

Jung – O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o.

VRB – Aristóteles estava equivocado. Não nascemos como uma “tabula rasa”, mas com uma programação para perceber a realidade de certo modo e, por isso, adaptados a ela.

Jung – A forma do mundo em que o homem nasceu já está dentro dele como imagem virtual.

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