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Huberto Rohden

No documento alter da Rosa Borges (páginas 118-135)

(1893-1981)

VRB – Professor Huberto Rohden, conheci-o, quando o se-nhor veio a primeira vez ao Recife, em 1954, sob os auspícios do Grêmio Cultural Joaquim Nabuco. E também estive presente em todas as ocasiões em que pronunciou palestras na nossa cidade.

As suas ideias influenciaram a minha juventude, embora, hoje, não aceite algumas delas. Reconheço-o, porém, como um grande filó-sofo espiritualista e, por isso, sinto-me à vontade para entrevistá-lo, indagando-lhe inicialmente: Qual a sua concepção de Deus?

Rohden – Por Deus entendo a Realidade absoluta, eterna, infinita, universal, a Causa-prima de todas as coisas; a Consciência Cósmica; a Alma do Universo; ou, no dizer de Einstein, a grande Lei que estabelece e mantém a harmonia do Universo. O que ad-mito é a Vida Universal, que em todos os seres vivos se reflete como vida individual. Estou com Paulo de Tarso, que disse aos filósofos de Atenas: "Deus é aquele Ser no qual vivemos, nos mo-vemos e temos a nossa existência".

A Realidade Integral é, para o nosso ego, o Vácuo, o Nada, o Irreal.

Os nossos sentidos e a nossa mente funcionam como vál-vulas de redução e dispersão, assim como o diafragma da câmara fotográfica, que permite a entrada de um pouco de luz, para que esse misto de luz e trevas, de positivo e negativo, produza

contras-Filósofo espiritualista brasileiro. Nasceu em Tubarão, Santa Ca-tarina.

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te e relevo na imagem; se abríssemos o diafragma totalmente, entraria a luz solar total, e, nesse caso, por excesso de luz, não se formaria imagem; a imagem exige diminuição de luz, luz parcial.

Essa imagem corresponde ao nosso conhecimento.

VRB – Assim, o conhecimento da realidade total ou Deus é impossível.

Rohden - Realidade Ontológica é para nós o Nada – so-mente a Realidade Lógica (a conhecida) é que é algo.

Em hipótese alguma, o nosso conhecimento sobre Deus é a própria Realidade de Deus, a Divindade.

Nós só conhecemos o nosso Deus, mas não a Deus, a Di-vindade.

Quando um indivíduo nasce, passa do Ser Infinito para o Existir Finito, do grande Todo para o pequeno Algo; e, enquanto permanece nesse plano do Finito, o indivíduo "existe" (ex-siste — está colocado para fora); quando morre, deixa de existir, mas con-tinua a ser, porque o que é será para todo o sempre. O Ser não tem princípio nem fim; somente o existir começa e termina o seu processo existencial. Quando o indivíduo morre, volta ao seio do Mar imenso do Ser Universal; a onda recai ao seio do Oceano; o sansara do existir regressa ao nirvana do Ser.

Todas as criaturas, antes de serem criadas, estão no Ser Universal; ao nascerem passam do Ser para o Existir, e, enquanto vivem nesse plano, têm existência no tempo e no espaço; depois des-existem (desistem da existência) e voltam ao Ser Universal.

VRB – Quando as coisas não acontecem segundo as expec-tativas das pessoas, elas ficam confusas, aflitas ou revoltadas em relação a Deus.

Rohden – A tentativa de harmonizarmos os caminhos ig-notos do espírito de Deus com a nossa conhecida lógica e mate-mática, é um tentame visceralmente absurdo, baseado num pos-tulado inicial absolutamente falso, e sem nenhuma esperança de solução satisfatória. Queremos e esperamos tacitamente que os

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desígnios de Deus se "ajustem" aos modelos criados pela nossa inteligência, mas eles não se "ajustam", e mesmo que, por vezes, pareçam bem "ajustados" ao nosso modo de pensar, é por simples aparência externa; na realidade não se "ajustam", isto é, são "de-sajustados" ou "injustos". Não nos arvoremos em advogados de Deus, querendo provar que o seu governo neste mundo seja "jus-to" — ele não é "jus"jus-to" segundo a nossa bitola intelectual; pode ser até extremamente "injusto", e isto nos escandaliza, porque supomos tacitamente que os desígnios de Deus devam ser ajusta-dos ao nosso modo de pensar.

VRB – Há alguma diferença entre a crença e a fé? A meu ver, a crença é um convencimento apenas intelectual, enquanto a fé é uma experiência espiritual.

Rohden – "Crer", "ter fé", é a mais arrojada aventura cós-mica do homem. É fechar os olhos dos sentidos e do intelecto e lançar-se ao tenebroso abismo do desconhecido, na certeza de que esse imenso vácuo de trevas é a plenitude da luz, e que essa morte total é a vida integral. É desnascer para tudo que sabemos e renascer para tudo que ignoramos. E' ultrapassar todas as hori-zontais do ego e entrar na grande vertical de Deus.

No princípio, é verdade, esse "crer" não passa de um sim-ples "querer", de um ato de boa vontade, de um ingênuo "querer crer". Nem jamais deixará de ser esse débil "querer", enquanto não for fecundado pelo "viver", isto é, por uma vida diária em per-feita harmonia com a fé. Deve o crente viver como se já possuísse experiência de Deus — e é precisamente nesse "como se" que está todo o tormento... Trilhar o caminho da vivência ética antes de atingir o mundo da experiência mística — isto é imensamente difícil, isto é martírio de cada dia, é o "caminho estreito e a porta apertada", é o "fundo da agulha" de que nos fala o divino Mestre.

Transcender o pequeno ego antes de atingir o grande Eu, renunci-ar ao Lúcifer antes de encontrrenunci-ar o Cristo — isto é uma espécie de salto ao abismo, ou uma suspensão no vácuo.

VRB – Pode a fé resultar na morte do ego?

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Rohden - "Crer" é um egocídio, uma morte do ego, que precede necessariamente o nascimento do Eu, da "nova criatura em Cristo".

Morrer para viver — é esta a grande verdade!

Quem não morreu não vive plenamente — e quem não tem vida plena não pode crer. Não basta ser morto compulsoria-mente — é necessário morrer espontaneacompulsoria-mente, para poder crer.

Só um voluntariamente morto é que é um verdadeiro crente, e, neste caso, o seu "crer" é um verdadeiro "saber" e "saborear".

Esse "saber" e "saborear", após a morte mística do egocídio volun-tário, é que introduz o homem na vida eterna, numa vida que ul-trapassou o precário nascer e o precário morrer e é um firmíssimo viver. Vida que ainda conheça nascer e morrer não é vida plena, é apenas uma pseudovida ou uma agonia prolongada, um ligeiro parêntese de luz entre duas trevas, um subitâneo lampejo na noi-te escura. Somennoi-te uma vida que brotou de uma mornoi-te voluntária é que é vida integral.

VRB – Suscito-lhe uma velha questão teológica: a graça de Deus é uma dádiva ou resulta do mérito da pessoa em obtê-la?

Rohden – O homem não pode, em hipótese alguma, ser causa da graça que Deus lhe concede; pode ser apenas condição para esse efeito. Se o homem fosse causa da graça, estaria Deus ligado, e não livre; teria obrigação de conceder 10 ou 100 ou 1.000 graus de prêmio a 10, 100 ou 1.000 graus de merecimento. Mas a Constituição do Universo não conhece essa compulsão mecânica.

A graça não corresponde matematicamente ao trabalho prestado, embora seja necessário um certo trabalho prestado, para que a graça possa operar, uma vez que o homem é um ser livre, e não um autômato passivo. Se eu não abrir o interruptor elétrico, não virá a mim a luz ou força da usina, mas essa luz ou força que vem não tem proporção alguma com o grau do esforço que emprego para possibilitar essa vinda. A luz ou força podem ser milhares e milhões de vezes maiores do que o esforço que empreguei para chamá-las, porque o esforço que faço em abrir o

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interruptor não é causa interna, mas simples condição externa para o advento da corrente elétrica. A causa é a usina.

E' assaz estranho que o homem queira reduzir a Deus a uma espécie de "sócio da mesma firma", impondo-lhe a obrigação de fazer isto ou aquilo: porque o homem fez tal e tal coisa, Deus tem de fazer isto ou aquilo! Não existe, na realidade, essa espécie de democracia niveladora; o universo de Deus é uma gigantesca hierarquia, onde nenhuma coisa é justaposta a outra, mas tudo é sub e superordinado.

VRB – Essa concepção é resultado do antropomorfismo já denunciado, na Grécia antiga pelo filósofo Xenófanes.

Rohden – Projetamos para dentro da ordem divina e espi-ritual os nossos costumados conceitos humanos, jurídicos, sobre justiça, direito e obrigação. Tratamos a Deus como se ele fosse um empregador, e nós os seus empregados, com direito a certo salá-rio. Entre empregador e empregado vigora, certamente, uma rela-ção jurídica de dar e receber, de trabalho e pagamento; depois que o empregado prestou o seu serviço, o empregador tem de lhe pagar esse serviço; é questão de justiça. O dinheiro que o empre-gador paga ao empregado é o equivalente ao trabalho por este prestado — e assim os dois estão quites.

E' muita ingenuidade transferir esta relação para Deus. A noção jurídica vigora no plano horizontal, de indivíduo a indivíduo, de finito a finito; mas não pode de forma alguma ser transferida para o plano vertical, de indivíduo a Universal, de finito a Infinito.

Supomos tacitamente que a mesma relação que vigora de finito a finito, de homem a homem, deva vigorar também entre finito e Infinito, entre o homem e Deus.

E' intrinsecamente impossível que o homem finito possa

"merecer" algo do Deus infinito. A desproporção é absoluta. A concepção jurídica do "merecimento" vigora exclusivamente nas relações humanas. Tudo que o homem recebe de Deus é invaria-velmente "graça", dom gratuito, e não pagamento.

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No plano finito do mérito vigora a relação de causa e efeito

— mas no plano divino não há causalidade, há tão-somente graça ou gratuidade. A lei de causa e efeito supõe igualdade de nível, horizontalidade entre os dois interessados ou contratantes, por-que esta lei é derivada do mundo dos fenômenos materiais, fini-tos, não tendo aplicação alguma no mundo espiritual, Infinito.

A única coisa que o homem pode e deve fazer em face de Deus e do mundo espiritual é criar uma condição propícia, isto é, um ambiente, uma disposição interna, uma atmosfera ou recepti-vidade que possibilite o advento da graça; mas essa condição ex-terna nunca equivale a uma causa inex-terna. O homem pode, por assim dizer, abrir uma janela em sua alma, e a luz solar da graça entrará por essa janela, mas isto não quer dizer que a janela tenha causado a iluminação da sala; se lá fora não houvesse sol, nada adiantaria abrir janela. O abrimento da janela é apenas uma con-dição indispensável para que a luz solar possa entrar na sala.

VRB – As pessoas religiosamente simples acreditam em milagres, atribuindo-os a uma ação de Deus para mostrar aos crentes o seu poder de modificar a natureza.

Rohden – Milagre — em latim miraculum — é algo que a gente "admira" ou "estranha", como diz a própria palavra. Porque alguém estranha um fenômeno? Porque lhe ignora a causa. Nin-guém admira, estranha, algo cuja causa conhece. Milagre é, pois, algum fato ou processo que ultrapassa o alcance do meu conhe-cimento. Mas daí não se segue que ultrapasse as barreiras da na-tureza — a não ser que alguém julgue conhecer todas as forças da natureza. A natureza é infinitamente mais vasta do que o alcance dos nossos conhecimentos. Abrange todas as realidades, mesmo as que ultrapassam os sentidos e a inteligência. Também as forças espirituais fazem parte da natureza. A natureza é material-mental-espiritual, e tudo quanto acontece dentro deste âmbito é natural.

Também Deus faz parte da natureza, tanto assim que ele é a causa única de todos os efeitos. E' anticientífico definir a natureza em termos de "matéria e força", entendendo-se com isto apenas as matérias e forças acessíveis aos sentidos e ao intelecto analítico.

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VRB – Como conciliar o Ser de Parmênides com o devir de Heráclito?

Rohden – A Realidade Total é tanto Ser como Devir, Passi-va e AtiPassi-va, Inconsciente e Consciente, DatiPassi-va e ReceptiPassi-va. A Divin-dade e os mundos não são duas realiDivin-dades disjuntivas e separa-das; são uma única Realidade, que, como o Real, é Causa causante e invisível, e, como Realizado, é o Efeito causado e visível.

VRB – Uma questão científica ainda não resolvida: o uni-verso é finito ou infinito?

Rohden – O Universo é infinito na sua realidade transcen-dente – porém finito em seu aspecto imanente.

Com outras palavras: o Universo como real e realizante é infinito – o Universo como realizado é finito.

O Infinito, que está finitamente em qualquer finito, está in-finitamente no Infinito. A imanência é, pois, uma presença limita-da do Ilimitado, ao passo que a transcendência é uma presença ilimitada do Ilimitado.

Não envolve contradição afirmar que o Infinito está finita-mente no finito, uma vez que essa limitação não vem da essência do Infinito, mas sim da sua existência; o Infinito em si continua Infinito, quando imanente no finito; apenas a sua maneira de se manifestar existencialmente é que é modificada por esse recipien-te finito. O Imanifesto continua ilimitado dentro de todos os mani-festos limitados.

No verdadeiro monismo, o Todo Infinito transcende infini-tamente qualquer Algo finito, ou a soma deles; o Todo está parci-almente imanente em cada Algo, ao passo que qualquer Algo está totalmente imanente no Todo.

Essencialmente, é verdade, a Divindade está toda no mun-do e em qualquer das suas parcelas; mas existencialmente se re-vela nelas apenas parcialmente; a sua presença essencial é total, mas a sua manifestação existencial é parcial, porquanto "o recebi-do está no recipiente segunrecebi-do a capacidade recebi-do recipiente"; a

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tude do recipiente limita a infinitude do recebido — limita-o em sua imanência existencial, e não em sua transcendência essencial.

Sendo que o finito só conhece o Infinito transcendente se-gundo a sua capacidade finita imanente, e não segunda a realida-de infinita do transcenrealida-dente, segue-se que a percepção ou consci-ência que qualquer finito tem do Infinito é finita, limitada. Essa consciência finita, é claro, admite graus de intensidade; um finito de 10 graus percebe o Infinito como sendo 10; outro finito de grau 20 ou 50 percebe o Infinito como sendo 20 ou 50. Quer dizer que a ordem lógica do conhecer (finito) nunca coincide com a ordem ontológica do ser (infinito). O finito em demanda do Infinito está sempre a uma distância infinita.

VRB – A Igreja ainda insiste no mito do inferno e do sofri-mento eterno para os pecadores.

Rohden – Pensar que Deus dê ao homem a possibilidade de cair nesse inferno e depois lhe negue a possibilidade de sair dele, é flagrantemente antirracional, além de supinamente blas-femo. Que diríamos de um pai humano que permitisse a um filho ofendê-lo, mas depois lhe negasse a possibilidade de se arrepen-der e pedir perdão? Esse pai monstruoso é o Deus das nossas teo-logias. Que admira que muitos homens pensantes e sinceros se afastem das igrejas e pratiquem a sua religião fora das organiza-ções eclesiásticas? O ateísmo é produto específico do nosso cristi-anismo teológico; fora do cristicristi-anismo não há ateus. O ateu nunca nega o Deus verdadeiro, nega aquela caricatura de Deus que os teólogos lhe apresentaram e que sua razão esclarecida repele; e, como muitos não encontram outro Deus fora daquele que rejeita-ram, por motivos de sinceridade consigo mesmos, dizem-se ateus.

No dia e na hora em que chegam a conhecer o Deus verdadeiro deixam de ser ateus.

VRB – Há textos nos chamados “livros sagrados” que são contraditórios.

Rohden – Toda vez que algum texto sacro parece estar em conflito com o que sabemos espiritualmente de Deus, devemos

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explicar o texto material segundo a experiência espiritual. Sabe-mos, antes de abrirmos qualquer livro, que Deus é Amor e Justiça;

se a análise de algum texto nos levar a uma conclusão contrária, temos absoluta certeza de que essa análise está errada; não pode a inteligência servir de guia à razão espiritual. Ora, afirmar que Deus dê ao homem liberdade para pecar e lhe negue a liberdade para se converter, é abolir tanto o amor como a justiça de Deus.

Admitir que lhe conceda 50 ou 80 anos de liberdade para pecar, e depois lhe negue essa liberdade por toda a eternidade, é o mesmo absurdo. Crer que Deus inflija um castigo infinito (eterno) por um erro finito (temporário) é não somente pecar contra o amor e a justiça de Deus, mas equivale também a um pecado mortal contra a lógica, uma vez que nenhum ser finito é capaz de um sofrimento infinito; o eterno, porém, é o infinito no tempo. Um sofrimento infinito aniquila qualquer ser finito. O finito só pode suportar um sofrimento finito.

VRB – Além disso, que felicidade gozaria o salvo no Paraí-so, sabendo que alguns de seus entes queridos estão sofrendo no Inferno e que esse sofrimento é eterno? A felicidade dos eleitos seria um forte psicotrópico para mantê-los tranquilos e indiferen-tes ao sofrimento das pessoas que ele amou na sua vida terrena?

Rohden – Suponhamos, meu amigo, que você esteja salvo, no céu, e seus pais e irmãos estejam perdidos para sempre no inferno; se você fosse capaz de gozar eternamente a sua felicida-de, sabendo que outros são eternamente infelizes, seria você um egoísta muito maior do que os condenados; aqueles seriam egoís-tas no sofrimento, e você seria um egoísta no gozo. Se eu tivesse a escolha de simpatizar ou com esta ou com aquela parte, creio que as minhas simpatias seriam antes para os egoístas no sofrimento do que para os egoístas no gozo. A obtusidade do nosso senso de solidariedade universal, a impossibilidade de experimentarmos a humanidade como uma família e sentirmos em nós a vida univer-sal do cosmos é que torna possível essa monstruosa teologia de um céu eterno para os bons e um inferno eterno para os maus.

Tolstói, Gandhi, Schweitzer e muitos outros clarividentes acharam

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tão revoltante a ideia de eles gozarem ao lado de milhões de so-fredores que nivelaram as diferenças entre si e os outros, ou fu-gindo da sua prosperidade, ou fazendo outros participarem dela.

Isto é solidariedade universal.

VRB – Hoje, há centenas de fatos, denominados, em Parapsi-cologia, de memória extracerebral que sugerem a reencarnação.

Rohden – Aceito qualquer fato histórico provado como tal.

Se alguém me provar que fulano é a reencarnação de sicrano, que reapareceu em carne e osso depois de desencarnar (morrer), não tenho a menor dificuldade em aceitar esse fato.

No caso que seja necessário alguém reencarnar a fim de continuar a sua evolução ascensional, é claro que terá tudo que seja necessário para essa evolução.

Entretanto, em hipótese alguma, podemos equiparar a re-encarnação física ao renascimento espiritual, de que falam Jesus e outros guias espirituais; nem devemos estabelecer nexo causal necessário entre este e aquela, fazendo o renascimento pelo espí-rito depender do renascimento pela carne. "O que nasce da carne é carne — mas o que nasce do espírito é espírito; é necessário renascerdes pelo espírito". "A carne de nada vale — o espírito é que dá vida".

VRB – Os religiosos geralmente confundem sobrevivência com imortalidade. Já tive, pessoalmente, problemas com alguns deles, por afirmar que a sobrevivência é passível de ser provada cientificamente, mas que a imortalidade é uma questão de fé.

Rohden – Pode a alma humana sobreviver à morte corpo-ral por anos, séculos ou milênios, sem ser imortal. Sabemos, hoje em dia, mediante provas empíricas, que o corpo astral do homem sobrevive à destruição do seu corpo material, podendo até ser materializado visível e tangivelmente; mas nada disto prova a i-mortalidade da alma humana. Aliás, essas próprias entidades as-trais são unânimes em afirmar que elas não são imortais, que su-cumbirão à morte, e até a várias mortes.

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Podem os mortos sobreviver séculos, e talvez milênios, em seus corpos astrais, etéricos, causais, mentais, ou que outro nome tenham; e essa sobrevivência temporária foi provada experimen-talmente em milhares de casos. Mas nunca nenhuma experiência de laboratório, de física, de química, de matemática, nem o apare-cimento espontâneo de uma entidade em corpo imaterial provou a imortalidade. Esta, por sua própria natureza, não pode ser objeto de provas científicas, mas é assunto exclusivo de uma experiência espiritual, íntima, dentro do próprio sujeito. Quem não viveu e vive a sua imortalidade, seja antes seja depois da morte física, esse não tem certeza da vida eterna, embora conheça a sobrevivência. A certeza da vida eterna não é presente de berço nem de esquife, não é dada pela vida nem pela morte — mas é uma conquista suprema da vivência. Dela não sabem nem os vivos nem os mortos — mas tão-sòmente os viventes os sempre viventes, que existem, embora poucos, tanto entre os vivos como entre os sobreviventes, mas não se identificam nem com estes nem com aqueles.

VRB – Teoricamente, é possível ao ser humano imortalizar-se?

Rohden – O homem é possivelmente imortal, quer dizer que se pode imortalizar, e pode também falhar a sua

Rohden – O homem é possivelmente imortal, quer dizer que se pode imortalizar, e pode também falhar a sua

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