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RASURAS EM SEGMENTAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE PALAVRA

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RASURAS EM SEGMENTAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE PALAVRA

Tatiane Henrique SOUSA-MACHADO (PG- UEM)1 Cristiane Carneiro CAPRISTANO (UEM)2

Introdução

A compreensão do conceito de palavra e sua delimitação por espaços em branco na escrita configuram-se como um difícil problema a ser superado pelo escrevente, no processo de aquisição da escrita. Nesse percurso, em alguns momentos, o escrevente pode voltar-se sobre o material escrito, deixando marcas de possíveis dúvidas. Dentre essas marcas, encontram-se as rasuras que são examinadas neste estudo. Essas ocorrências, normalmente, são consideradas pela escola “sujeiras” a serem passadas “a limpo”. Numa outra perspectiva, essas rasuras – representadas por apagamentos, escrita sobreposta, inserções, dentre outras marcas – podem ser entendidas como lugares de conflito, que permitem visualizar o sujeito escrevente num movimento de negociação e de estranheza de sua própria palavra (CALIL, 2008b; FELIPETO, 2008; CAPRISTANO 2007b), ou ainda, numa tentativa de „ajuste‟ que dá saliência ao enlaçamento entre o falado/oral e o escrito/letrado e à própria “heterogeneidade constitutiva da escrita” (CORRÊA, 2004; CAPRISTANO, CHACON, 2013).

O presente estudo aproxima-se das concepções de rasura dos pesquisadores supracitados e configura-se como parte de uma pesquisa quali-quantitativa de Mestrado, em andamento, na qual investigamos alguns momentos em que o escrevente volta-se sobre o material escrito, buscando “adequá-lo” aos padrões privilegiados pela escola. Elegemos como objeto de estudo, especificamente, rasuras ligadas à delimitação por espaços em branco, ou seja, à segmentação gráfica. Consideramos que essas rasuras são indícios que podem nos conduzir a possíveis explicações sobre a trajetória da criança rumo à definição do complexo conceito de palavra.

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Mestranda em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).

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1. Fundamentos teóricos

1.1-Os estudos sobre rasura

Os primeiros estudos sobre rasura surgiram na perspectiva da Crítica Genética no final dos anos 60. Esses estudos objetivavam compreender o processo de elaboração do texto, a partir do prototexto, ou seja, tudo que se escreve antes ou em vista do texto a ser publicado (WILLEMART, 1993), consequentemente, rascunhos, manuscritos e suas rasuras. A Crítica Genética, para Willemart (1993), buscava “aproximar-se de aspectos do fazer artístico”, destacando a complexidade do conceito de autoria e distanciando-se das concepções de inspiração (ZULAR, 2002, p. 15). Neste contexto, o trabalho do geneticista consiste em “decifrar os rascunhos e a escritura escondida atrás das rasuras, das manchas e rabiscos” (WILLEMART, 1993, p. 17), visando definir o processo de criação.

As rasuras ou hesitações atuariam, assim, como “rastros de um processo” (Ibidem, 1993) de criação, a partir da intervenção do scriptor que quebraria a linearidade, sob a coação do contexto e do cotexto, obrigando uma reorganização do já escrito. Segundo Willemart (1993, p. 71), “o scriptor desdobra-se a cada releitura, e sob a ação de um Terceiro, rasura e acrescenta para retomar em seguida sua posição de leitor”. Seria, para esse autor, a influência do Terceiro que provocaria a rasura, destruindo um sentido dado, suspendendo-o e, consequentemente, obrigando o scriptor a criar um novo sentido. “A rasura, por conseguinte, testemunha um processo de luto no escritor que gera consistências diferenciadas no papel” (WILLEMART, 1993, p. 72).

Não somente a Crítica Genética dedicou-se a estudar rasuras. Nos estudos linguísticos, rasuras, também denominadas de reescrita, reelaboração, refacção, foram igualmente estudadas. Na sequência, apresentamos alguns estudos que se dedicam a analisar rasuras sob uma perspectiva da aquisição da escrita.

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Sob uma perspectiva diferente da crítica genética, estudos de Abaurre (1994) e Abaurre et. al. (1997) configuram-se como precursores, por se dedicarem a observar rasuras em momento de aquisição da escrita, denominadas de reelaboração, reescrita ou refacção. Nos estudos de Abaurre (1994; 1996) e Abaurre et. al. (1997), rasuras são consideradas marcas visíveis de reelaboração, representadas por apagamentos, inserções e escritas sobrepostas (ABAURRE, 1994). Esse tipo de dado, renegado ao estatuto de resíduo nas pesquisas de caráter quantitativo, adquirem status de “dado singular” nas pesquisas de Abaurre et. al. (1997), por serem concebidos como “ocorrências únicas que, em sua singularidade, talvez não voltem a repetir-se jamais” (Ibidem, p. 18).

A concepção de dado singular dessas autoras está diretamente atrelada ao fato entenderem que “o comportamento linguístico só pode ser explicado pelas características particulares de um sujeito singular, que estabelece relações particulares com a linguagem [...] fato que demonstra a própria singularidade do sujeito” (ABAURRE, 1996, p. 137). Para evitar o relativismo de que todo dado seria considerado singular, as autores calcam seus estudos a partir do Paradigma Indiciário, o qual busca a interpretação de indícios que conduzam a uma determinada conclusão. Com base neste desse escopo teórico, são considerados dados singulares aqueles que “pudessem ser tomados como marcas, como indícios da complexa relação entre o sujeito e a linguagem” (ABAURRE; MAYRINK-SABINSON, 2000, p. 136-137). Por conseguinte, as marcas de reelaboração são estudadas como pistas de “momento de reflexão e tomada de decisões pela criança” (ABAURRE, 1994, p. 368).

Essas diferentes marcas, segundo as autoras, não seguem uma progressão sucessiva rumo ao convencional, mas sim, trazem à tona aspectos da língua que ganham saliência para a criança, em momento de aquisição da escrita. Neste sentido, identificar e interpretar essas marcas pode contribuir para “a compreensão do movimento que vai das operações epilinguísticas até a reflexão metalinguística, mais controlada, planejada e consciente” (ABAURRE, 1994, p. 372) que não seguem um processo simples e linear, mas sim complexo, já que, ao longo desse, modifica-se a relação do sujeito escrevente e a linguagem.

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Outros pesquisadores, como Calil e Felipeto, também se dedicaram a estudar as rasuras, considerando-as como um estranhamento do escrevente, marcando um “voltar sobre” o material escrito, ou seja, “uma pista que apontaria não somente de onde veio, mas também para onde se poderia ter ido” (CALIL, 2004, p. 58). Nessa perspectiva, não se observa um sujeito separado da língua, autônomo, consciente que realiza operações metalinguísticas e usa a língua como instrumento. Observa-se, sim, um “eu” além do aparelho formal, dividido, clivado pelo inconsciente, produzido pela linguagem (AUTHIER-REVUZ, 1990), em que não há controle intencional, mas sim a ilusão de uma língua homogênea.

Para fundamentar seus estudos, esses autores recorrem à concepção das três posições que o sujeito ocupa na língua defendida por Lemos (1999). Essa autora, observando a relação de contiguidade existente no diálogo entre criança-mãe, sistematiza três posições da criança em relação à linguagem: na primeira posição, manifesta-se a dominância da fala do outro; na segunda, a dominância pelo funcionamento da língua e, na terceira, a dominância da relação do sujeito com a própria fala; entretanto, não há relação de superação entre elas.

Na primeira posição (sujeito efeito da linguagem), o polo dominante é o outro – chama atenção o retorno da criança de enunciados da mãe, uma alienação parcial a fala do outro. Aqui se operam movimentos metonímicos e a contenção da deriva é atribuída pelo outro que dá estrutura lexical, sintática, semântica e morfológica à fala da criança. Na segunda posição (sujeito representante da língua), aparecem erros na fala da criança. A criança aliena-se ao funcionamento da língua, por meio de processos metafóricos e metonímicos. Por fim, na terceira posição (a língua em seu funcionamento), o polo dominante é o sujeito, há uma “escuta” do seu próprio dizer. Assim, o sujeito se abre entre a instância daquele que fala e da instância que escuta (LEMOS, 1999). As mudanças de posição da criança na língua são consideradas por Lemos (1999) como “capturas da criança pelo funcionamento da língua”.

Calil e Felipeto (2000) defendem que as rasuras (orais e escritas) podem ser reinterpretadas como articulação entre as instâncias: Imaginário, Simbólico e Real, por indiciarem a mudança de posição da criança na língua. Portanto, a criança identificaria qual

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enunciado provocou estranhamento (nela e no outro), ressignificando-o, substituindo-o por outro. A partir desse enfoque a “reformulação”, explicitada pela rasura, é considerada uma ressignificação, corte imprevisível e intermitente, realizado em virtude da relação sujeito, língua e sentido, sobre a qual temos acesso somente via imaginário (CALIL, FELIPETO, 2000). Desse modo, o retorno sobre o texto e seu rasuramento, deixa a marca do não uno, da não coincidência do sujeito consigo mesmo, configurando-se como uma testemunha da presença do equívoco constitutivo da língua (CALIL, 2004; 2008a).

Semelhantemente aos estudos de Abaurre et. al. (1997) e Calil e Felipeto (2000), o presente trabalho dedica-se a analisar rasuras no processo de aquisição da escrita, contudo, partimos além das contribuições de Lemos (1999, 2002) acerca da aquisição da linguagem, também de estudos de Corrêa (2004), no que se refere à heterogeneidade constitutiva da escrita. Filiamo-nos aos estudos anteriores de Capristano (2007a; 2007b; 2010; 2013a; 2013b), dedicando-nos à compreensão do funcionamento de rasuras decorrentes de algum tipo de preocupação com a segmentação gráfica, ou seja, com a distribuição dos espaços em branco, objetivando compreender como o escrevente caminha para a definição convencional de palavra.

Para tanto, partilhamos da compreensão de Capristano de que rasuras que incidem sobre segmentações gráficas demonstram que a decisão de como distribuir os espaços em branco para delimitar as palavras não é simples. Essa complexidade está ligada à própria complexidade da noção de “palavra” com a qual a criança deve lidar no processo de aquisição. Entendemos, portanto, que rasuras podem apontar para “um reconhecimento do sujeito escrevente de uma discordância entre o que ele escreveu e o que supõe que deveria escrever” (CAPRISTANO, 2007a), tornando saliente a complexa relação entre sujeito e linguagem.

Segundo a concepção de escrita defendida por Corrêa (2004), o modo de enunciação na modalidade escrita organiza-se a partir do encontro das práticas orais/faladas e letradas/escritas. Logo, não haveria um material essencialmente escrito, mas sim híbrido. Isso nos permite interpretar que eventos caracterizados, muitas vezes, na escola como interferência da fala na escrita, podem ser compreendidos nesta perspectiva teórica, como indícios da heterogeneidade da escrita e não na escrita, ou seja, inerente à própria prática.

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Com base nesses pressupostos, Corrêa (2004, p. 14) organiza metodologicamente “o trabalho que o escrevente executa no processo de construção do texto”, por meio da definição dos três modos de reconhecimento da heterogeneidade da escrita:

(1) O primeiro é o modo de constituição da escrita em sua suposta gênese: refere-se aos momentos em que o escrevente tende a tomar a escrita como representação termo a termo da oralidade, igualando esses dois modos de realização da linguagem verbal. (2) O segundo eixo caracteriza-se pela apropriação da escrita em seu estatuto de código

institucionalizado, ou seja, fixação metalinguística da escrita pelas várias instituições e sujeitos. Aqui o escrevente toma como ponto de partida o que ele imagina ser o modo autônomo de representar a oralidade.

(3) O terceiro reside na relação que o texto do escrevente mantém com o já dito, eixo da dialogia com o já falado e já escrito, indiciando o diálogo com diferentes práticas orais e escritas.

A partir da compreensão desses três modos de circulação do escrevente, observamos que rasuras ligadas à segmentação gráfica nos permitem interpretar que os caminhos “escolhidos” e “recusados” pelos escreventes pautam-se ora na suposição de sua escrita plasmada à oralidade (1º eixo - gênese da escrita); ora na ideia de atendimento ao que julga ser a escrita em seu modo autônomo (2º eixo - representação do código escrito institucionalizado); e, por fim, na relação que o texto do escrevente estabelece com o já escrito/lido, falado/ouvido (3º eixo – eixo da dialogia). Esses três modos apontam para a divisão enunciativa do escrevente, que ocupa lugares nas diferentes práticas sociais. Não há entre eles uma hierarquia, uma vez que atuam conjuntamente. Nessa concepção, admite-se a não existência de um material em estado puro (puramente fala, puramente escrita) em que se encontraria somente um eixo em operação.

Nos estudos de Capristano (2007a; 2007b; 2010) e Capristano e Chacon (2013), têm se observado que rasuras podem ser geradas por processos não previstos nas convenções, pois essas resultam da “oscilação ou do trânsito das crianças por diferentes aspectos das práticas sociais orais e letradas das quais elas foram/eram partícipes: um mais ligado aos aspectos prosódicos de enunciados falados e outro mais ligado à imagem que as crianças teriam do que seria próprio da escrita” (CAPRISTANO, 2010, p. 8). Algumas rasuras,

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nesses estudos, são vistas como “movimentos de subjetivação” (LEMOS, 2002), ou seja, movimentos em que a criança assumiria a posição de sujeito da (sua) escrita. Haveria na rasura uma pista de um momento singular, em que o escrevente deixaria de ocupar a posição de “utilizador” das estruturas disponíveis da língua para a posição de “observador” dessas estruturas (CAPRISTANO, CHACON, 2013). Logo, existiria em algumas rasuras a emergência de um sujeito que se dividiria entre a instância que escreve e a que observa a sua escrita, instâncias essas não coincidentes (LEMOS, 2000, CAPRISTANO, 2010).

Neste trabalho, a partir das diferentes contribuições teóricas de pesquisadores que se dedicaram ou dedicam-se a “olhar” para as rasuras, objetivamos, também, contribuir para a compreensão de como rasuras podem nos dar respostas sobre a trajetória, não linear e heterogênea, pela qual o escrevente transita para chegar à constituição do que seria convencionalmente uma palavra. Na próxima seção, apresentamos os materiais e métodos utilizados neste estudo.

2. Materiais e Métodos:

O corpus deste estudo é constituído por 1.426 enunciados escritos elaborados por crianças da (antiga) 1ª à (antiga) 4ª série, de uma escola pública da rede municipal de ensino de São José do Rio Preto (SP). Nesse período, as crianças produziram diversos enunciados escritos, a partir de diferentes propostas de produção textual. As propostas textuais solicitavam a escrita de diferentes gêneros textuais/discursivos, tais como relato, horóscopo, entrevista, listas etc.

Metodologicamente, a presente pesquisa segue uma perspectiva qualitativa, bem como adota o tratamento metodológico indiciário para com os dados, conforme o Paradigma Indiciário proposto por Ginzburg (1989). Para esse autor, a história tradicional ocultou diversos detalhes, considerados por ele relevantes e que podem ser estudados a partir do reconhecimento da importância dos indícios, testemunhos. Ginzburg (1989) ressalta a importância de um método interpretativo centrado em resíduos, cuja raiz remete as habilidades humanas que possibilitaram ao homem ser um caçador, operações mentais

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complexas de articulação da leitura de sinais, tais como as pegadas dos animais se configuram como indiciárias.

O método indiciário consiste num procedimento abdutivo, uma vez que não se parte de hipóteses a serem confirmadas ou não, mas sim na busca por “pistas”, tais como os contos policiais, para chegar a uma conclusão (CHAUI, 1994). Aproxima-se, portanto, ao ato de seguir os fios de um tear (GINZBURG, 1983, p. 119), pois o pesquisador centraliza sua pesquisa na observação atenta dos dados (rasuras) categorizando-os e procurando explicações para suas ocorrências.

O Paradigma Indiciário configura-se como um tipo de pesquisa de natureza qualitativa na qual o tratamento indiciário “se apóia na idéia de que, sendo a realidade opaca, alguns de seus sinais e indícios permitiriam "decifrá-la", no sentido de que indícios mínimos podem ser reveladores de fenômenos mais gerais (SUASSUNA, 2008, p. 364). Conforme esse autor, não se espera, nesse tipo de pesquisa, a identificação de tendências, uma vez que se reconhece, nesta proposta metodológica, a necessidade de interpretar as ocorrências em suas peculiaridades relevantes ao que se busca compreender. No entanto, a adoção da pesquisa qualitativa, não se opõe à quantitativa, já que os dados quantitativamente inexpressivos podem apontar um funcionamento, mesmo não regular, “que participa dos processos semânticos do discurso” (Ibidem, p. 353). Sendo assim, a análise quantitativa serve de estatuto auxiliar (SUASSUNA, 2008, p. 353). Sabemos que uma análise meramente quantitativa, consoante ao paradigma clássico, excluiria ocorrências heterogêneas, singulares, por as considerarem irrelevantes, centralizando-se em dados quantificáveis que permitissem a generalização dos conceitos teóricos, mas, em nosso estudo, todos os dados serão considerados.

A organização do trabalho de mapeamento das rasuras, a primeira identificação deu-se diretamente nos textos originais, contando com auxílio de uma lupa de leitura LL-975 (aumento 2X). Posteriormente, foram identificadas e coletadas as rasuras nas cópias digitalizadas. Sabe-se que essa transposição de dados do original para o digitalizado traz perdas de qualidade, em virtude das limitações do scanner, no entanto, julgamos importante apresentar as rasuras digitalizadas, porque elas permitem visualizar a materialidade da

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presente pesquisa. Dada às limitações de uma pesquisa em andamento, serão apresentados os resultados quantitativos preliminares das etapas iniciais de análise.

A fim de categorizar os dados, as rasuras encontradas foram organizadas a partir das seguintes categorias: (i) apagamento; (ii) inserção; (iii) escrita sobreposta; (iv) falso início; (v) traço de inserção. Destaca-se a seguir exemplos das categorias do presente estudo:

Quadro 1 – Categorização das rasuras Apagamento Inserção Escrita sobreposta Falso início Inserção de traço de ligação

Em alguns momentos, contudo, os escreventes realizavam duas operações, como por exemplo, falso início e, posteriormente, o apagavam. Nesses casos, metodologicamente, decidiu-se por categorizar somente o último gesto, ou seja, o apagamento, tal como o exemplo a seguir:

Figura 1 – Apagamento seguido de falso início

Algumas ocorrências foram excluídas, pois as pesquisadoras não conseguiram identificar o movimento de “escolha” – “recusa” gráfica, tais como o exemplo a seguir:

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Além dessa dificuldade metodológica, a escrita infantil também oferece outros obstáculos, tais como a irregularidade de espaçamentos, sequências totalmente hipossegmentadas, sucessivos apagamentos e escritas sobrepostas, dentre outras. A partir dessa organização metodológica, apresentamos, na seção seguinte, resultados, ainda preliminares, do presente estudo.

3. Resultados preliminares

Foram identificadas, em 1.426 enunciados escritos, até o momento, 296 (duzentas e noventa e seis) rasuras, diretamente relacionadas à segmentação gráfica de palavras, assim distribuídas:

Tabela 1 -Rasuras em segmentação 1ª a 4ª Série

ANO QUANTIDADE DE RASURAS 2001 87 2002 98 2003 56 2004 55 TOTAL 296

Quantitativamente, observa-se um número maior de rasuras em segmentação na 2ª série (98 – 33, 1%). Semelhantemente, aos estudos de Capristano (2013a), os resultados da primeira e segunda-séries somam a maior quantidade de rasuras (185 – 62,4%).

Entre a 3ª e 4ª série podemos notar certa estabilização quantitativa das rasuras, já que os dados apontam um número bastante semelhante entre as ocorrências de ambas as séries (55 e 56 rasuras). Podemos inferir que o maior tempo de contato com as práticas orais e letradas, oriundas do ambiente escolar e extraescolar, podem contribuir para a diminuição dos conflitos para a definição dos espaços em branco. Para ilustrar o gesto da rasura e o conflito analisado, destacamos dois exemplos retirados no corpus da presente pesquisa. Nos enunciados, a seguir, percebemos dois escreventes de séries diferentes, respectivamente 1ª série e 4ª série que se depara com a seguinte questão: a autonomia ou não do artigo “o” em relação à palavra de conteúdo “martelo – boneco”.

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[Esse é o# martelo – proposta 2 – escrevente 18 ]

[sonho com o#boneco assassino – proposta 47 – escrevente 4]

Inicialmente, ambos os escreventes, parecem guiar-se por aspectos prosódicos da língua, supondo a (sua) escrita calcada em práticas orais. Desse modo, registram “omartelo” e “oboneco” hipossegmentado, tomando a representação da (sua) escrita termo a termo com a oralidade. Esse registro sinaliza a circulação pelo primeiro eixo de representação da escrita (CORRÊA, 2004), no qual “o material gráfico é tomado como um instrumento fiel de gravação da memória sonora do falado” (CORRÊA, 2004, p. 48).

Por outro lado, o gesto posterior de apagamento e a consequente inserção de um espaço em branco aponta que, por algum motivo, os escreventes reconheceram a autonomia do elemento clítico “o”. Esse reconhecimento pode estar fundamentado em diferentes práticas letradas (escolares e extraescolares) com as quais os escreventes convivem, apontando para a circulação do escrevente pelo 2º eixo de representação da escrita como código institucionalizado.

Nessas duas ocorrências, o produto final atende às regras ortográficas da Língua Portuguesa, mas isso não é uma regra, já que uma das qualidades do material escrito, em momento de aquisição da escrita, é a constante oscilação entre as “soluções” encontradas.

Outra questão importante do presente estudo reside na diversidade de propostas, que exigiram o contato da criança com diferentes gêneros textuais/discursivos, os quais possuem aspectos tipológicos predominantes, que demandam diferentes capacidades de linguagem: cada gênero textual/discursivo requer organização lexical, sintática, semântica diversa. Tendo em vista essa constatação, uma das questões que visamos responder ao longo da nossa pesquisa foi seguinte: a diferença entre gênero textual/discursivo poderia conduzir a ocorrência maior ou menor de rasuras?3 Para responder esse questionamento,

3

Nem todos os escreventes, no entanto, atenderam a proposta, seja por desconhecimento do gênero ou mesmo pelos saberes acerca da língua. Corrêa (2006, p. 219) percebe no não atendimento à proposta do gênero a

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fizemos alguns levantamentos quantitativos, ainda preliminares, nos quais organizamos as propostas em virtude da maior e menor incidência de rasuras em relação ao gênero e a tipologia textual. Os resultados desses levantamentos são apresentados nas tabelas 2 e 3:

Tabela 2 -Rasuras em segmentação- Gênero/ Tipologia – Propostas com maior incidência

ANO PROPOSTA GÊNERO TIPOLOGIA QUANTIDADE

DE RASURAS

2001 01 Resposta

interpretativa

Exposição 11

2002 24 História infantil Narração 11

2003 31 Texto explicativo Exposição 10

2004 55 Carta Narração 09

Tabela 3 -Rasuras em segmentação- Gênero/ Tipologia – Propostas com menor incidência

ANO PROPOSTA GÊNERO TIPOLOGIA QUANTIDADE

DE RASURAS

2001 10 Lista de compras Descrição 03

11 Receita Injunção 03

2002 23 História triste Narração 02

28 Convite Descrição 02 2003 37 Descrição do passado Descrição/ Exposição 01

2004 49 Texto expositivo Exposição 01

Percebemos que o conjunto de propostas priorizou produções textuais tipologicamente narrativas (ordem do narrar e relatar). Essa preferência se deve, provavelmente, por essa ser a tipologia privilegiada no ensino de língua materna, nível fundamental. De modo preliminar, podemos destacar que o fator gênero e tipologia não apresentaram uma variância quantitativa de ocorrências, já que a tipologia privilegiada nas propostas, a narrativa, aparece tanto como proposta com maior número de rasuras (propostas 24 e 55), quanto na relação de menor incidência (proposta 23).

existência de relações intergenéricas, compreendendo que “a presença de relações imprevistas num determinado gênero não deve ser tomada como “defeito” daquele gênero, mas como marca da relação do enunciado genérico com o autor”, apontando variadas práticas de linguagem nas quais o autor está inserido. Desse modo, mesmo nos momentos em que o pesquisador não “percebe” o “desvio” das características da tipologia ou do gênero, esse enunciado, em sua constituição guarda constitutivamente características intergenéricas, logo, procurar um texto essencialmente “no gênero” pode ser conceber uma pureza ilusória.

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4. Considerações finais:

Neste trabalho, ainda de modo inicial, foram apresentadas algumas reflexões sobre rasuras presentes em enunciados infantis e a constituição do conceito de palavra. Como resultados preliminares, até o presente momento, nos 1.426 enunciados escritos, foram identificadas 236 rasuras que parecem emergir do conflito do escrevente com a delimitação dos espaços em branco. Quando comparados os dados da 1ª e 4ª série, observa-se quantitativamente queda da incidência de rasuras em segmentação, já que, na 1ª série, foram identificadas 87 rasuras e na 4ª série 55. Essa visível diferença pode ser um indício dos efeitos da inserção em novas práticas de oralidade e letramento (escolares e extraescolares) com as quais o escrevente teve contato ao longo do Ensino Fundamental.

Nas próximas etapas da pesquisa, realizaremos a categorização e descrição das rasuras quanto aos tipos encontrados: apagamento, inserção, falso início, sobreposição e traço de inserção. Para análise, consideraremos (a) tipo de rasura; (b) quantidade de rasura por tipo e ano; (c) quantidade de rasura por sujeito. Ao analisarmos esses fatores, poderemos tecer considerações sobre formas mais recorrentes de rasuras realizadas pelas crianças, bem como se rasuras em segmentação são mais frequentes em algum ano/série, gênero textual/discursivo, tipologia ou mesmo em função da proposta textual.

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Referências

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