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Proc. R. Co. 12/2007 DSJ-CT

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Proc. R. Co. 12/2007 DSJ-CT

SUMÁRIO: Transmissão de quota – Consentimento da sociedade – O registo por depósito de factos relativos a participações sociais – Poderes/deveres do conservador em caso de oposição da sociedade – Acção que vise a declaração de nulidade ou anulação da transmissão de quota na pendência de recurso hierárquico da decisão do conservador que decidiu executar o registo por depósito da transmissão.

A… A…, advogada, em representação de A… M… conforme declaração junto à assinatura da requerente aposta em impresso de modelo 3, solicitou na Conservatória do Registo Comercial do … o depósito da transmissão de quota no valor de € 249 398,94 na sociedade “A… - Aluguer de Andaimes e Máquinas para Construção Lda.”. Para prova do facto cujo registo solicita, juntou ao requerimento uma certidão da escritura pública outorgada em 18.12.2006 comprovativa da transmissão por cessão onerosa da quota do seu representado A… M… e mulher à sociedade “M… – Andaimes, Máquinas e Equipamentos, Limitada”.

O senhor Conservador tomou o requerimento por um pedido efectuado ao abrigo do artigo 29.º-A do Código do Registo Comercial (CRC) e em 22.01.2007 notificou a A… para, no prazo de dez dias, promover o registo ou deduzir oposição sob pena de não o fazendo a Conservatória proceder ao registo pedido.

Em 01.02.2007 a sociedade A… deduziu oposição ao pedido de registo. Em síntese, alega que a cessão de quotas é ineficaz perante a sociedade porque o cedente não obteve o consentimento da sociedade e postergou o direito de preferência da sociedade e dos restantes sócios. Estes direitos estão consignados no artigo 4.º dos estatutos da sociedade, segundo o qual ”A cessão, total ou parcial, de quotas entre os sócios é livremente permitida, a cessão a estranhos depende do consentimento da sociedade à qual, em primeiro lugar e aos sócios em segundo lugar, fica reservado o direito de opção.”. A cessão de quota é um negócio simulado quer quanto ao preço quer quanto aos sujeitos uma vez que a sociedade cessionária é detida pelo cedente e mulher que tentam por esta forma inviabilizar o processo de exclusão de sócio objecto da ordem de trabalhos de uma assembleia geral agendada para 22.02.2007. A data de realização desta assembleia, a aprovação da ordem de trabalhos e a designação do presidente foram determinadas judicialmente. Alega ainda que a requerente não tem legitimidade.

Em 06.02.2007 a cessionária M… foi notificada da oposição, tendo-lhe sido concedido dez dias para se pronunciar ao abrigo do disposto no n.º 4 do dito artigo 29.º-A. Fê-lo em exposição entrada na Conservatória em 22.02.2007 na qual contrapõe que solicitou o consentimento a que alude o artigo 230.º do Código das Sociedades Comerciais e que notificou simultaneamente a sociedade e os demais sócios para exercerem o seu direito de preferência. Ambos se abstiveram de tomar

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qualquer atitude razão pela qual a cessão de quotas deixou de estar sujeita à condição de eficácia perante a sociedade, tendo caducado os direitos de preferência consignados no artigo 4.º do contrato de sociedade. Após a celebração do acto o cedente A… M… remeteu à sociedade em 29.12.2006 cópia certificada da escritura pública de cessão de quotas nos termos e para efeitos do disposto nos artigos 170.º, 228.º, n.º 3, 242.º-A e 242.º-B do CSC. Assim, a cessão de quota tornou-se eficaz perante a A… que ficou obrigada a promover o registo comercial do facto e só a oposição da sociedade à realização do registo justificou que o cedente, representado por advogado, tivesse solicitado o registo directamente à conservatória.

O senhor Conservador, em despacho de 26.02.2007 e ao abrigo do disposto no n.º 4 do mesmo artigo 29.º, determinou a realização do registo por depósito por entender que a ausência de deliberação nos sessenta dias seguintes ao pedido de consentimento, tornou a cessão de quota eficaz perante a sociedade. Cremos que este despacho terá sido executado na data em que foi proferido, e em consequência passou a constar da ficha informatizada um depósito com a seguinte identificação: “Dep 51/2007-01-09 11:58:30 – TRANSMISSÃO DE QUOTA”.

Este mesmo despacho foi notificado à A… em 13.03.2007 que dele interpôs o presente recurso hierárquico que aqui damos por integralmente reproduzido e no qual, em síntese, conclui o seguinte: a) A inviabilização de qualquer decisão pela A…, quer no sentido da aceitação quer no da recusa do consentimento à cessão de quotas, é da responsabilidade do sócio Acácio uma vez que este já tinha inviabilizado uma outra assembleia geral. Este facto motivou que os restantes sócios tivessem solicitado ao Tribunal de Comércio de … a marcação de uma assembleia geral e a designação de um presidente que conduzisse os trabalhos. A sociedade não pode pronunciar-se, no prazo legal estabelecido, porque estavam em curso tais procedimentos e na data da realização da escritura já estava pendente a marcação da referida assembleia geral; b) O despacho do senhor conservador do qual se recorre padece de fundamentação insuficiente porque deveria ter verificado a razão da omissão de pronúncia. Dado que a convocação da assembleia geral foi solicitada em juízo a recorrente não dominava a ordem de trabalhos que se encontrava definida (embora passível de alteração por vontade dos sócios). Tal despacho ofende o disposto no artigo 125.º do Código do Procedimento Administrativo, designadamente o seu número 2.

O processo é o próprio, as partes têm legitimidade, e o recurso é tempestivo. Existem, porém, duas questões que gostaríamos de apreciar e adiantamos desde já que a segunda deve suspender apreciação do presente recurso hierárquico e a emissão do correspondente parecer.

A primeira respeita à interpretação do pedido inicial efectuado em requerimento1 para registo por depósito de facto relativo a quota. Esse

requerimento consubstancia um pedido de registo por depósito, contém todas as menções necessárias à execução do registo e deveria ter sido objecto de apreciação

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para efeitos de apresentação ou eventualmente de rejeição (cfr. artigos 45.º e 46.º do CRC). A utilização do impresso próprio para pedir um determinado facto sujeito a registo concretamente identificado, preenchido com todas as menções necessárias à tradução registral desse pedido e sem que dele resulte ter sido outro o propósito ou vontade do requerente - particularmente o de consubstanciar um pedido de realização de registo não promovido pela sociedade, no âmbito do artigo 29.º-A do CRC – não permite ao conservador transformar aquele pedido de registo em abertura do procedimento especial disciplinado no artigo 29.º-A do mesmo Código.

A convolação do pedido apenas é admissível se assentar na necessidade de cumprir a vontade real do interessado demonstrada em elementos literais ou em expressões escritas ainda que imperfeitamente expressas ou de conteúdo mínimo2.

Ora, decididamente, no caso em apreço tal convolação não pode ser justificada posto que não existe indício algum que permita conjecturar tal possibilidade. Nem mesmo se o pedido tivesse sido verbal essa possibilidade podia ser considerada – e ponderamos essa hipótese porque hoje o pedido de registo, se efectuado presencialmente, pode ser efectuado de forma verbal. Demonstrado está, isso sim, que o emolumento cobrado respeita a um pedido de registo por depósito e não ao emolumento devido pela solicitação do registo nos aludidos termos – cf. art. 22.º, ponto 19, do Regulamento do Registo Comercial (RRC). De resto, dos autos também não resulta ter sido liquidado o emolumento devido pela oposição da sociedade – verba 20 do mesmo art. 22º - o que deverá ser feito se acaso o não foi.

Se o pedido não tivesse sido convolado, certamente que teria havido rejeição da apresentação, ao abrigo da conjugação dos artigos 46.º, n.º 2, alínea b) e 29.º, n.º 5, ambos do CRC uma vez que para pedir o registo do acto em apreço, a efectuar por depósito, apenas tem legitimidade a entidade sujeita e registo.

Independentemente desta vicissitude certo é que a conservatória notificou a sociedade no prazo e para os efeitos previstos no n.º 2 do artigo 29.º-A, a sociedade exerceu o seu direito de oposição, o conservador notificou a sociedade cessionária e dela recebeu pronunciamento e, finalmente, tomou decisão ao abrigo do n.º 5 do mesmo artigo 22.º-A. Desta decisão a sociedade A… interpõe o presente recurso hierárquico. Em momento algum e por qualquer dos interessados intervenientes neste processo foi suscitada a questão do erro na interpretação do pedido e consequentemente na condução do procedimento. Dado que se mostra cumprida a tramitação estabelecida no artigo 29.º- A, que basicamente cria um processo de suprimento de um pressuposto (eventual) incumprimento da obrigação de registar factos relativos a participações sociais e respectivos titulares, afigura-se-nos que a questão perdeu relevância, sendo agora inoportuno criar um impedimento que não motivou qualquer prejuízo processual para qualquer uma das partes, a que os interessados não deram relevância e que não prejudicaria a apreciação do mérito.

A segunda questão respeita à circunstância de ter sido registado por depósito uma acção judicial – Dep. 384/2007-04-30 12:00:45 UTC – movida por A… contra A…M… e mulher, na qual se pede a “declaração de nulidade da cessão da

quota feita por A… M… a favor de M… – Andaimes Máquinas e Equipamentos, Lda. e o cancelamento do respectivo registo

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(Dep. N.º 51/2007-01-09 11:58:30) ”. Isso mesmo consta da ficha informática do

registo e foi noticiado por M… – Andaimes, Máquinas e Equipamentos, Lda.” em requerimento no qual solicitou urgência da decisão de indeferimento do processo ou em alternativa, a extinção da instância por inutilidade superveniente da lide. Entretanto, vários procedimentos cautelares de suspensão de deliberações sociais e acções judiciais que visam a declaração de anulação ou de nulidade de deliberações sociais posteriores (reunião de 26.02.2007 que excluiu o sócio A… M… e de amortização da quota que possuía) lograram obter registo por depósito. Todavia, nenhum destes actos põe em crise directamente a validade e eficácia da transmissão da quota que agora está em apreciação, ainda que em todos a (in) validade e (in) eficácia esteja pressuposta.

Afigura-se-nos incontroverso que o objecto do processo registral instaurado ao abrigo do artigo 29.º-A do CRC está contido na acção acima identificada ainda que eventualmente a sociedade M… não seja ré na acção, pelo menos a avaliar pelo teor do registo da acção depositada3. Há identidade quanto aos demais sujeitos, o

facto jurídico que está na origem das impugnações é o mesmo e o efeito jurídico é idêntico. Se assim é, e seguindo orientação que vem sendo firmada por este Conselho, não deve ser tomada decisão em sede de recurso hierárquico que possa colidir com decisão judicial já tomada ou a tomar em processo já instaurado.4 É que

“As decisões do Tribunais são obrigatórias para todas as entidades públicas e privadas e prevalecem sobre as de quaisquer outras autoridades” – cfr. artigo 205.º, n.º 2 da Constituição República Portuguesa.

Note-se que não está em tabela determinar os efeitos da interposição de impugnação judicial sobre o de recurso hierárquico, questão desenvolvida no Proc. R. Co. 32/2006 onde se sustentou o efeito automático da desistência do recurso hierárquico, em termos idênticos ao da solução adoptada no artigo 141.º, n.º 2, do Código do Registro Predial, por inexistirem em registo comercial razões plausíveis que justifiquem solução diversa.

No caso em apreço a questão respeita aos efeitos de uma acção judicial intentada sob a forma de processo declarativo de simples apreciação ou de condenação sobre o recurso hierárquico de decisão do conservador, onde coincidentemente, como vimos, há identidade de sujeitos, o facto jurídico é o mesmo e o efeito jurídico é idêntico.

Neste caso, a força e protecção constitucional concedida à decisão judicial a par da independência formal do recurso hierárquico relativamente ao processo judicial, recomendam que a solução seja a de suspender a decisão hierárquica até ser proferida decisão judicial na acção que se encontra pendente, conforme decorre da conjugação dos artigos 276.º, n.º 1 alínea c) e 279.º, n.º 1, do Código do Processo Civil. A suspensão cessará quando estiver definitivamente julgada a causa prejudicial como decorre do artigo 284.º, n.º 1, alínea c) do CPC, devendo a

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São registadas por depósito as acções previstas no artigo 9.º do CRC se respeitarem a factos sujeitos a registo por depósito – artigo 53.º-A, n.º 5, alínea g) do CRC. As menções do depósito são da responsabilidade de quem solicita o registo. Ainda assim a questão sempre se situa no âmbito da legitimidade processual cuja apreciação não compete ao conservador.

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Vide conclusão IV extraída no Proc. R.P. 116/2006 DSJ-CT. e conclusão idêntica no Proc. R.P. 151/2006 DSJ-CT

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Em face do exposto afigura-se-nos que o recurso hierárquico deve ser suspenso, ao abrigo das disposições atrás referidas, devendo solicitar-se à conservatória que informe imediatamente o presente processo de recurso

hierárquico da decisão definitiva que vier a ser proferida na aludida acção judicial.

Parecer aprovado em sessão do Conselho Técnico de 28 de Fevereiro de 2008.

Carlos Manuel Santana Vidigal, relator, Luís Manuel Nunes Martins, João Guimarães Gomes Bastos, Isabel Ferreira Quelhas Geraldes, Ana Viriato Sommer Ribeiro, José Ascenso Nunes da Maia.

Referências

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