UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA BÁRBARA BOM
A PROPRIEDADE INTELECTUAL NO CONTEXTO DOS NEGÓCIOS INTERNACIONAIS: UMA ABORDAGEM ÀS POLÍTICAS ESTADUNIDENSE E
BRASILEIRA PÓS-OMC
Florianópolis 2015
BÁRBARA BOM
A PROPRIEDADE INTELECTUAL NO CONTEXTO DOS NEGÓCIOS INTERNACIONAIS: UMA ABORDAGEM ÀS POLÍTICAS ESTADUNIDENSE E
BRASILEIRA PÓS-OMC
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Relações Internacionais em 2015, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Relações Internacionais.
Orientador: Prof. João Batista da Silva, Msc.
Florianópolis 2015
AGRADECIMENTOS
O Trabalho de Conclusão de Curso necessita de um grande esforço e dedicação ao longo do ano para que o seu resultado seja o que esperamos quando iniciamos esta jornada. A finalização deste projeto marca o início da minha vida profissional como internacionalista e me proporciona motivação para buscar o que sonho.
Não poderia ter concluído esta etapa sem o auxilio e incentivo dos meus pais. Agradeço a minha mãe e ao meu pai por estarem presentes e sempre me motivarem a fazer o meu melhor para alcançar o sucesso. Agradeço também aos meus amigos, que me apoiaram e estimularam para concluir com êxito este trabalho.
Gostaria de agradecer o meu professor e orientador João Batista, que sempre esteve disponível e empenhado a me ajudar a realizar este trabalho. Obrigada por compartilhar o seu conhecimento e suas ideias comigo. Reconheço todas as pessoas que me ajudaram de alguma forma, com alguma palavra de estímulo ou de sabedoria.
“When the whole world is silent, even one voice becomes powerful.” (MALALA YOUSAFZAI, 2013)
RESUMO
A presente pesquisa é caracterizada como científica e básica, a mesma pretende verificar as principais abordagens das políticas americana e brasileira ligadas à propriedade intelectual na era OMC. Para atingir o objetivo geral, esta pesquisa, por meio exploratório, irá descrever a propriedade intelectual como política de estado, identificar como a OMC trata a propriedade intelectual em âmbito internacional e ainda demonstrar as políticas americanas e brasileiras de propriedade intelectual. Com a finalidade de cumprir estes objetivos específicos, serão utilizados autores como Susan K. Sell, Peter Drahos, Frederick M. Abbott e Carolyn Deere, considerados os principais autores que relacionam a propriedade intelectual com a política, economia e história mundiais. Esta pesquisa também é considerada como bibliográfica e documental por se basear em publicações, documentos oficiais e relatórios de pesquisa. A propriedade intelectual é considerada um aspecto fundamental para a economia americana. O governo dos Estados Unidos procura meios de obter uma observância eficaz e maior proteção da propriedade intelectual internacionalmente através de diversos mecanismos. Já no Brasil, a propriedade intelectual ainda não é vista como um fator importante para o desenvolvimento do Estado. O governo brasileiro possui poucos programas efetivos sobre o assunto e seu sistema de proteção possui algumas falhas.
Palavras-chave: Propriedade Intelectual. Acordo TRIPS. Observância da Propriedade Intelectual. Comércio Internacional.
ABSTRACT
This research is characterized as scientific and basic. It aims to verify the main American and Brazilian policies approaches related to intellectual property after the creation of WTO. In order to achieve its main goal, this research, through exploratory means, will describe intellectual property as a State policy, identify how WTO deals with intellectual property internationally, and demonstrate the American and Brazilian intellectual property policies. In order to accomplish these specific goals, it will be used authors such as Susan K. Sell, Peter Drahos, Frederick M. Abbott, and Carolyn Deere, who are considered the main authors that associate intellectual property with politics, economy, and history internationally. This research is also considered bibliographic and documental, because it relies on publications, official documents, and research reports. Intellectual Property is considered a fundamental aspect of American economy. The United States government seeks means to obtain effective enforcement and increase the protection on intellectual property internationally. However, in Brazil, intellectual property is still not seen as an import factor for the development of the State. The Brazilian government has few effective programs about this matter and its protection system is flawed.
Key words: Intellectual Property. TRIPS Agreement. Intellectual Property Enforcement. International Trade.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 9
1.1 EXPOSIÇÃO DO TEMA E DO PROBLEMA. ... 9
1.2 OBJETIVOS ... 11 1.2.1 Objetivo geral ... 11 1.2.2 Objetivos específicos ... 11 1.3 JUSTIFICATIVA ... 11 1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 13 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 15 2.1 COMÉRCIO INTERNACIONAL ... 15 2.2 ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS ... 16
2.3 CONTEXTUALIZAÇÃO E HISTÓRICO DA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO ... 17
2.3.1 Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT)... 18
2.3.2 Organização Mundial do Comércio (OMC) ... 21
2.4 PROPRIEDADE INTELECTUAL ... 25 2.4.1 Propriedade Industrial ... 26 2.4.1.1 Patentes ... 27 2.4.1.2 Marcas ... 28 2.4.1.3 Desenho Industrial ... 29 2.4.1.4 Indicação Geográfica ... 30
2.4.1.5 Segredo industrial e proteção contra a concorrência desleal ... 31
2.4.2 Direito Autoral ... 32
2.4.3 Proteção SUI GENERIS ... 34
3 A PROPRIEDADE INTELECTUAL COMO POLÍTICA DE ESTADO ... 36
3.1 HISTÓRIA DA PROPRIEDADE INTELECTUAL ... 36
3.2 A CONVENÇÃO DE PARIS PARA PROTEÇÃO DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL DE 1883 ... 40
3.3 A CONVENÇÃO DE BERNA PARA A PROTEÇÃO DE OBRAS LITERÁRIAS E ARTÍSTICAS DE 1886 ... 43
3.4 A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA PROPRIEDADE INTELCTUAL ... 47
3.5 OUTROS TRATADOS INTERNACIONAIS ADMINISTRADOS PELA OMPI ... 50
4.1 ANTECEDENTES DO ACORDO TRIPS ... 53
4.2 AS NEGOCIAÇÕES DA RODADA DO URUGUAI DO GATT ... 57
4.3 O ACORDO TRIPS ... 60
4.4 RELAÇÕES PÓS-TRIPS E TRIPS-PLUS ... 66
5 AS POLÍTICAS AMERICANA E BRASILEIRA LIGADAS À PROPRIEDADE INTELECTUAL ... 70
5.1 BREVE HISTÓRICO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL NOS ESTADOS UNIDOS ... 70
5.1.1 O Bilateralismo americano de 1980 a 1994 ... 72
5.2 BREVE HISTÓRICO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL NO BRASIL ... 74
5.3 A POLÍTICA AMERICANA DE PROPRIEDADE INTELECTUAL NA ERA PÓS-OMC... ... 77
5.4 A POLÍTICA BRASILEIRA DE PROPRIEDADE INTELECTUAL NA ERA PÓS-OMC... ... 82
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 89
1 INTRODUÇÃO
A proteção da propriedade intelectual é debatida há séculos e vem ganhando cada vez mais espaço com o avanço tecnológico. No âmbito internacional, essa discussão também ganha força com a diminuição das fronteiras e o intercâmbio de conhecimento. Diante desse novo cenário, viu-se necessário a criação de organismos internacionais nos quais pudesse ser discutida a proteção da propriedade intelectual multilateralmente e estabelecer diretrizes a serem adotadas por Estados. A Convenção de Paris em 1883 foi a primeira a reconhecer a importância da proteção da propriedade industrial e a Convenção de Berna em 1886 teve grande relevância no reconhecimento do registro autoral, como na proteção literária e trabalhos artísticos. As duas convenções são hoje administradas pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), a qual foi estabelecida em 1967 como uma agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU). A OMPI visa estabelecer a propriedade intelectual como fator de desenvolvimento no sistema internacional (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2015).
De acordo com Pimentel e Barral (2007), no Brasil, a história do sistema protetivo de propriedade intelectual mostra que o esforço de criar normas relacionais a tal matéria não se deu exclusivamente através do interesse dos detentores do poder econômico nacional. O setor industrial brasileiro emergente demandou do governo a criação de uma politica industrial que o favorecesse. Apesar dos esforços do setor industrial brasileiro, os ciclos econômicos apenas entraram em paralelo com a proteção da propriedade intelectual durante o governo do general Médici, de 1969 a 1974, e do presidente Cardoso, de 1995 a 2002. Além disso, o governo brasileiro também começou a sofrer pressões das grandes multinacionais, as quais a maioria era de origem de países desenvolvidos. Tal influência fez com que o governo brasileiro participasse e assinasse tratados internacionais referentes a proteção da propriedade intelectual.
1.1 EXPOSIÇÃO DO TEMA E DO PROBLEMA.
Com a criação do acordo Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights (TRIPS) foram estabelecidas regras mínimas de proteção da propriedade
intelectual e um sistema de observância de tal proteção a serem adotados por todos os países-membros da Organização Mundial do Comércio (OMC). Tal acordo marcou os Estados tanto internamente, com a adaptação das suas legislações nacionais, quanto no âmbito externo, ao assinarem e elaborarem acordos comerciais internacionais (GUISE, 2007). Durante as negociações para o desenvolvimento do acordo, notou-se que os países em desenvolvimento questionavam a rigidez do mesmo e como isso poderia impactar negativamente a economia desses Estados. Os países em desenvolvimento foram grandes opositores do Acordo TRIPS, porém acabando cedendo e assinando o acordo após pressão dos países desenvolvidos. De um outro lado, os países desenvolvidos, desenhavam as diretrizes do Acordo TRIPS assegurando que suas necessidades fossem atendidas. O Acordo TRIPS faz parte do Protocolo de Marrakesh, o qual estabeleceu a OMC em 1994 (DRAHOS, 1995).
Os Estados Unidos foram os principais responsáveis por incentivar a criação do Acordo TRIPS, já que esse acordo seria uma das únicas formas de assegurar a proteção da propriedade intelectual de empresas americanas em outros países. De acordo com Drahos (1995), esse acordo foi essencial para a estratégia da política americana, já que grandes corporações como IBM, Microsoft e Pfizer tinham extensos portfólios de propriedade intelectual e estas empresas estavam preocupadas com a perda de seus lucros por causa da pirataria de seus produtos, principalmente em países em desenvolvimento. Uma segunda razão do incentivo do Acordo TRIPS pelo governo americano foi o medo dos Estados Unidos perderem competitividade e também o seu poder internacionalmente. Após o acordo entrar em vigor, os Estados Unidos ainda continuaram a procurar maneiras de elevar o patamar da proteção da propriedade intelectual internacionalmente, além do estabelecido na OMC, com tratados bilaterais, conhecidos como TRIPS-plus.
Já os países em desenvolvimento, como o Brasil, foram opositores do Acordo TRIPS, pois historicamente possuíam níveis de proteção muito baixos relacionados a propriedade intelectual nos seus sistemas legais. Com uma proteção mais alta e efetiva, os países em desenvolvimento teriam que transferir riqueza para os países desenvolvidos com amplos portfólios de propriedade intelectual. Após a criação do Acordo TRIPS, o Brasil precisou criar políticas para a implementação do mesmo e buscar maneiras de se beneficiar com as poucas concessões que o acordo oferecia. Ademais, com maior proteção da propriedade intelectual, viu-se
necessário o estimulo do governo brasileiro à inovação e criatividade (DRAHOS, 1995).
Diante desse cenário, convém questionar: no contexto dos negócios
internacionais da era OMC, quais são as principais abordagens que podem ser feitas nas políticas americana e brasileira ligadas à propriedade intelectual?
1.2 OBJETIVOS
Tomando como base o problema de pesquisa, apresentam-se, na sequência, os objetivos a serem alcançados no trabalho de conclusão de curso.
1.2.1 Objetivo geral
O objetivo geral do trabalho de conclusão de curso é verificar, no contexto dos negócios internacionais da era OMC, as principais abordagens que podem ser feitas nas políticas americana e brasileira ligadas à propriedade intelectual.
1.2.2 Objetivos específicos
De forma a atingir e complementar o objetivo geral, apresentam-se alguns objetivos específicos a serem alcançados no decorrer do trabalho:
- Descrever a propriedade intelectual como política de estado;
- Identificar como a OMC trata a propriedade intelectual em âmbito internacional; - Demonstrar as políticas americana e brasileira ligadas à propriedade intelectual, destacando sua importância no contexto dos negócios internacionais.
1.3 JUSTIFICATIVA
Diante do atual cenário internacional, o qual é marcado pelo avanço tecnológico e inovação, além da maior facilidade na busca de informação e conteúdo, o estudo da propriedade intelectual ganha força. A abordagem da mesma como política de estado visa trazer garantias e proteção ao setor privado e à sociedade. O estudo deste tema possui grande importância para as Relações
Internacionais, pois está altamente ligado às relações entre Estados, política e economia.
Os Estados Unidos garantem a propriedade da geração de tecnologia investida, logo recebe os frutos que essa propriedade proporciona. Além disso auxilia suas empresas e, como consequência, consegue torná-las grandes multinacionais. O Brasil deve desenvolver a consciência de que o investimento em tecnologia significa ganho de produtividade e maior competitividade no mercado, havendo necessidade de assegurar a propriedade desse conhecimento (ALMEIDA, 2003, p. 63).
A escolha do tema ocorreu principalmente pela experiência da autora em seu intercâmbio acadêmico nos Estados Unidos, onde pode vivenciar e estudar a visão americana relacionada a propriedade intelectual e o quanto o governo e a sociedade a valorizam. Diante deste cenário, a autora achou interessante trazer esta experiência para seu trabalho acadêmico de modo a buscar incentivos para que o Brasil possa se beneficiar da proteção e investimento em propriedade intelectual.
No que tange a UNISUL, o trabalho apresenta um tema pouco discutido, porém de imensa importância atual e futura. Este trabalho poderá ser utilizado como fonte de pesquisa em matérias como direito internacional público, privado e econômico, além de possuir também elementos ligados a matérias de estratégia e gestão, já que este tema ganha cada vez mais força como impulsionador de inovação no setor privado. O tema abordado neste trabalho poderá servir também como impulsionador de pesquisas interdisciplinares, abrangendo a visão dos estudantes e proporcionando um maior entendimento do assunto.
O governo brasileiro poderá ser altamente beneficiado com um maior esclarecimento sobre este assunto. O investimento em proteção e disseminação da propriedade intelectual, além de sua inserção na cultura brasileira, poderá trazer um maior crescimento econômico para o país. A abordagem feita sobre as políticas americanas e brasileiras poderá servir como um modelo a ser adotado pelo Brasil, podendo, assim, impulsionar seu desenvolvimento. A sociedade e o setor privado podem se beneficiar com uma maior compreensão do tema abordado, aplicando tal conhecimento para geração de inovação, pesquisa e desenvolvimento e também estratégias de como gerar maior rendimento com a atual proteção da propriedade intelectual.
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A pesquisa científica proporciona uma inovação ao conhecimento anteriormente possuído, além de facilitar a elaboração de análises e um pensamento crítico. Para que uma pesquisa seja considerada científica, torna-se necessário o uso de uma metodologia e um controle sistemático dos dados relevantes, os quais contribuem para a percepção de um fenômeno. Cinco elementos são fundamentais para caracterizar o método científico, sendo eles, a meta, o modelo, dados, avaliação e revisão, esses elementos ajudam na compreensão de tal método (RICHARDSON; OUTROS, 1985).
Nesse sentido, o presente estudo é caracterizado como uma pesquisa científica, sendo descritos, na sequência, os métodos científicos utilizados e discriminados pelos critérios correspondentes à natureza, aos objetivos, à abordagem do problema e aos procedimentos.
Com relação à natureza, esse trabalho é classificado como pesquisa básica. Segundo Barros e Lehfeld (2000), a pesquisa pura ou pesquisa básica tem por objetivo conhecer e compreender certos fenômenos, além de realizar uma especulação de determinados fatos. Como o presente estudo foca nas abordagens feitas nas políticas americanas e brasileiras ligadas à propriedade intelectual, a autora pretende buscar a atualização de seus conhecimentos, caracterizando uma pesquisa básica.
Quanto aos objetivos, essa pesquisa é considerada exploratória.
As pesquisas exploratórias têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e idéias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores. De todos os tipos de pesquisa, estas são as que apresentam menor rigidez no planejamento (GIL, 2008, p.27).
A pesquisa exploratória geralmente é utilizada quando o tema a ser discutido é pouco explorado, sendo mais complicado formular hipóteses precisas e também operacionalizáveis. Esse tipo de pesquisa proporciona uma visão mais aproximada acerca de um tema (GIL, 2008). Tais características podem ser atribuídas a esse trabalho pois o problema relacionado a propriedade intelectual ainda é pouco discutido em trabalhos de conclusão de curso, bem como publicações nacionais.
Com relação à abordagem do problema, o presente trabalho é caracterizado como pesquisa qualitativa. Segundo Richardson e outros (1985), a abordagem qualitativa pode ser considerada a maneira mais adequada de compreender a natureza de um fenômeno social. Além disso, a pesquisa qualitativa não utiliza a estatística como base do processo de análise de um problema, podendo assim, descrever a complexidade de um dado tema e possibilitar um maior entendimento de certas particularidades de um problema.
Quanto aos procedimentos, esse trabalho é uma pesquisa bibliográfica. Segundo Bastos e Keller (1999), a pesquisa bibliográfica se distingue por estar baseada em exame ou consulta de livros, publicações, ou documentação escrita relacionado a determinado assunto.
A pesquisa bibliográfica é um apanhado geral sobre os principais trabalhos já realizados, revestidos de importância, por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes relacionados com o tema. O estudo da literatura pertinente pode ajudar a planificação do trabalho, evitar publicações e certos erros, e representa uma fonte indispensável de informações, podendo até orientar as indagações (MARCONI; LAKATOS, 2003, p.158).
As fontes de pesquisa bibliográfica que serão utilizadas nesse trabalho podem ser discriminadas em publicações e imprensa escrita. A utilização de revistas e jornais será altamente benéfica para responder ao objetivo geral do trabalho, pois proporcionará uma visão atual da questão debatida, como também diferentes aspectos muitas vezes não tratados em publicações. Já o uso de publicações como livros e teses será fundamental para responder os objetivos específicos desse trabalho.
O presente trabalho também pode ser caracterizado por uma pesquisa documental. Segundo Gil (2008), tal pesquisa se assemelha muito à pesquisa bibliográfica, diferenciando-se da mesma com relação a natureza de suas fontes. A pesquisa documental utiliza materiais que não possuem um tratamento analítico, como documentos oficiais, contratos e relatórios de pesquisa.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Este capítulo aponta a fundamentação teórica relativa ao tema abordado neste trabalho de conclusão de curso. Primeiramente, será feita uma apresentação sobre o comércio internacional e as organizações internacionais. Após, serão apresentadas uma contextualização histórica e uma abordagem sobre a formação e estrutura da OMC. Em seguida, expõe-se as categorias e classificações relativas à propriedade intelectual, com um enfoque nas leis brasileiras e seu sistema protetivo. Além disso, serão abordadas as convenções internacionais relativas aos tipos de proteção de propriedade intelectual discutidos e seus meios de proteção internacionalmente.
2.1 COMÉRCIO INTERNACIONAL
Durante as duas Grandes Guerras Mundiais, os regimes de livre-comércio foram substituídos por um certo nível protecionismo em várias partes do mundo. Somente com o final da Segunda Guerra Mundial que a liberalização comercial se tornou progressiva. Com o final da Guerra fria em 1989, a interdependência mundial aumentou, não só pelos avanços no transporte e comunicação, mas também pelo crescente avanço tecnológico. Durante os anos 90, foi intensificado os laços entre o comércio e o crescimento econômico dos países. O Consenso de Washington, afirmava que o crescimento seria alcançado pela abertura econômica e o comércio internacional (SARQUIS, 2011).
Independentemente das diferentes e complementares visões, prevalece hoje o raciocínio de que se pode auferir benefícios consideráveis do comércio internacional, pelas vias conjuntas das exportações e das importações. Ademais, predomina a observação de que existe uma correlação entre nível de desenvolvimento econômico e o grau de inserção comercial ou de abertura econômica. Deduz-se, em particular, dessa correlação, que um maior grau de inserção comercial favorecia o crescimento. (SARQUIS, 2011, p.17).
A participação dos países no comércio internacional esta fortemente relacionada às suas políticas econômicas. Sendo que uma maior participação pode resultar em maiores oportunidades de desenvolvimento e crescimento da economia de um país. Além disso, com uma política que visa uma maior a inserção do Estado
no comércio mundial, o nível de competitividade do país e de suas empresas poderá ser cada vez maior (KEEDI, 2012).
Diante do constante avanço e das mudanças tecnológicas, pode-se observar uma reestruturação comercial e produtiva das corporações para um âmbito mundial, no qual observa-se o crescimento da concorrência internacional. O resultado destas mudanças são a globalização produtiva e na internacionalização econômica. Os padrões do comércio também sofreram alterações, principalmente a partir dos anos 90. O alto crescimento do setor de serviços e das manufaturas com grande densidade tecnológica colocou o setor de produtos primários em detrimento. Ainda durante este período, nota-se o crescimento dos acordos e dos mecanismos de integração regional, como o Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (NAFTA) e o Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul). A formação destes blocos pode ser explicada pelas dificuldades no mercado internacional, principalmente em âmbito multilateral, e também pelas mudanças de produção das empresas. Além disso, estes acordos proporcionam um aumento no espaço econômico das corporações, favorecendo a crescente tendência das inovações (GREMAUD; VASCONCELLOS; TONETO, 2013).
2.2 ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS
A interação entre Estados tanto em âmbito bilateral, como multilateral pode ser observada há vários séculos. Porém, a criação de organizações internacionais e a formação das mesmas como instituições são constatadas apenas no século XX. O século XIX pode ser descrito com um período de preparação para as organizações internacionais. A criação da Liga das Nações, em 1919, foi uma tentativa de criar uma organização política internacional de caráter livre e universal. Após a Segunda Guerra Mundial, o número de organizações internacionais cresceu cada vez mais, estas organizações possuem diferentes tamanhos e diferem em suas naturezas. Algumas são criadas para manter a paz mundial, como a ONU, e outras em favor do desenvolvimento. Estas organizações afetam os Estados, bem como as populações dos diversos países que fazem parte das mesmas. Atualmente, nota-se uma maior preocupação das organizações internacionais com os direitos humanos e com os países com menor desenvolvimento (AMERASINGHE, 2005).
A necessidade de cooperação internacional e da coordenação dos interesses dos Estados em nível internacional levou a criação de organizações internacionais com diversas finalidades e objetivos. Além disso, a constante busca de conciliar atritos e divergências dentro da sociedade internacional fazem com que as organizações internacionais possuam um papel de extrema importância para a manutenção da harmonia entre os Estados (MAZZUOLI, 2011).
Assim, para os fins do Direito Internacional Público, pode-se conceituar “organização internacional” como a associação voluntária de sujeitos do Direito Internacional, criada mediante tratado internacional (nominado de convênio constitutivo) e com finalidades predeterminadas, regida pelas normas do Direito Internacional, dotada de personalidade jurídica distinta da dos seus membros, que se realiza em um organismo próprio e estável dotado de autonomia e especificidade, possuindo ordenamento jurídico interno e órgãos auxiliares, por meio dos quais realiza os propósitos comuns dos seus membros, mediante os poderes próprios que lhes são atribuídos por estes (MAZZUOLI, 2011, p.600).
As organizações internacionais possuem um caráter permanente, diferenciando-se das demais formas de cooperação internacional. Além disso estas organizações também podem possuir autoridade dentro do sistema internacional, se possuírem legitimidade diante de outros atores deste sistema. Atualmente, o sistema internacional possui cerca de 236 Organizações Intergovernamentais Internacionais (OIG) e 6.500 Organizações Não-Governamentais Internacionais (ONGI) (HERTS; HOFFMANN, 2004).
2.3 CONTEXTUALIZAÇÃO E HISTÓRICO DA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO
Após o final da I Guerra Mundial, o sistema de comércio internacional foi configurado por políticas restritivas e protecionistas comerciais advindas dos Estados. Principalmente por conta dos Estados Unidos e sua política contra o estabelecimento de uma economia mais livre internacionalmente durante os anos 20. Com a depressão de 1929, os Estados Unidos adotaram medidas extremamente rígidas e protecionistas, como por exemplo, aumentando as tarifas alfandegarias de 38% para 52%, com isso seus parceiros comerciais começaram a fazer restrições comerciais retaliatórias. Um efeito dominó foi o resultado de tais ações, levando
diversos países a adotarem medidas protecionistas e a aumentarem suas barreiras comerciais (HOECKMAN; KOSTECKI, 2009).
Segundo Jakobsen (2005), quando a crise começou a ser superada, a II Guerra Mundial iniciou-se, diminuindo novamente o fluxo do comércio internacional. Após o final da guerra, viu-se que era realmente necessária a criação de mecanismos internacionais que pudessem promover a paz e regular a economia, seguindo o exemplo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), criada após a I Guerra Mundial. Por outro lado, a Sociedade das Nações, igualmente criada com o fim da I Guerra Mundial, fracassou em evitar a próxima guerra, tornando-se imperativa a sua substituição e a esquematização de mecanismos internacionais mais eficientes.
As iniciativas de Roosevelt pelos Estados Unidos, Stalin pela União Soviética e Churchill pela Inglaterra culminaram na criação da ONU, a qual seria responsável por assegurar a paz no futuro sistema político internacional. Em 1941, a “Carta do Atlântico” indicou as pretensões da Inglaterra e Estados Unidos de criar princípios para regerem o sistema internacional. Tais países pretendiam criar instituições capazes de regular a economia internacional, especializadas no sistema monetário, no sistema de investimentos e no comércio mundial (JAKOBSEN, 2005). 2.3.1 Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT)
Com o final da II Guerra Mundial, os Estados Unidos, Inglaterra e outros Estados vencedores entraram em uma série de negociações com o intuito de regular o sistema econômico internacional pós-guerra. Em julho de 1944, na Conferência de Bretton Woods foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (THE UNITED STATES OF AMERICA, 2013). O intuito era criar junto com essas duas organizações de Bretton Woods a Organização Internacional do Comércio (OIC), mais de 50 países participaram das negociações para a criação da mesma como uma agência especializada da ONU. O projeto inicial da OIC era ambicioso e buscava incluir uma regulação do comércio internacional, como também acordos relacionados a empregos, práticas restritas de negócios, investimento internacional e serviços (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
Segundo Barral (2004), a intenção era criar a OIC na Conferência de Havana da ONU em 1947, todavia na hora da ratificação, a criação dessa
organização sofreu grande oposição dos Estados Unidos, já que o seu congresso, com maioria republicana, impediu sua aprovação. Diante deste cenário, a criação da OIC tornou-se impraticável, visto que os Estados Unidos tinham grande participação no comércio internacional, não sendo interessante a criação de uma organização sem a participação de tal potência.
Em conjunto com as negociações para a criação da OIC e com o final da II Guerra Mundial, 15 países começaram a negociar um conjunto de normas para a redução das tarifas alfandegárias internacionalmente em 1945, expandindo, assim, o liberalismo comercial e tentando acabar com as medidas protecionistas que continuavam em vigor. Em 1947, já com 23 países fazendo parte das negociações, o acordo foi assinado dando origem ao Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
Sem que se houvesse constituído uma organização internacional, o GATT servia como um amplo foro de negociações, cujos pilares eram a cláusula da nação mais favorecida e o principio do tratamento nacional. Ou seja, a evolução do GATT – no sentido de redução de barreiras tarifárias – se baseava no mecanismo pelo qual uma concessão feita a um dos Estados-membros (denominados no acordo de Parte Contratante) se estendia automaticamente aos demais Estados-membros. Por outro lado, consagrou-se a regra de que a mercadoria, uma vez interiorizada com o pagamento da tarifa negociada, não poderia sofrer discriminação, em face da mercadoria nacional (BARRAL, 2004, p.13).
Por mais de 50 anos, os princípios legais do GATT continuaram os mesmos desde sua criação, apenas foram adicionadas outras matérias a serem discutidas ao longo das décadas de sua existência através de rodadas de negociações multilaterais. Tais rodadas proporcionaram que o sistema internacional de comércio avançasse para um sistema comercial mais liberal e justo. Na Rodada Kennedy, nos anos 60, medidas antidumping foram adicionadas na pauta das negociações, resultando em um Acordo Antidumping, bem como uma seção relacionada ao desenvolvimento. Já na Rodada de Tóquio, nos anos 70, abordou-se a matéria relacionada às barreiras não-tarifárias. Por fim, a Rodada do Uruguai, que durou de 1986 a 1994, levou à criação da OMC e mais uma extensa lista de acordos e temas relativos à resolução de controvérsias, agricultura, serviços, propriedade intelectual, barreiras não-tarifarias, etc (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
A Rodada de Tóquio durou de 1973 a 1979 com 102 países participando da mesma, o debate sobre a redução de tarifas foi estendido, chegando a um
consenso para a redução de um-terço em tarifas para os produtos dos nove maiores mercados de industriais, levando tais tarifas à aproximadamente 4,7% em cima dos produtos industrializados. As negociações relativas a barreiras não-tarifarias resultaram em acordos provenientes tanto da interpretação das regras do GATT, como também de novas ideias e discussões. Apesar do sucesso em relação aos temas abordados acima, a Rodada de Tóquio apresentou dificuldades nas negociações relativas ao comércio de produtos agrícolas e seus resultados não foram muito satisfatórios. Independentemente de todos os esforços, apenas alguns Estados-membros, em sua maioria países industrializados, assinaram os acordos da Rodada de Tóquio. Uma vez que tais acordos não foram aceitos por todos os membros do GATT, eles eram chamados de “códigos”. Muitos desses “códigos” acabaram sendo utilizados na Rodada do Uruguai e se tornaram aceitos por todos os membros da OMC (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
A tabela abaixo descreve todas as Rodadas do GATT, indicando o ano e duração de cada uma delas, assim como os principais temas negociados pelos Estados que participaram de cada rodada, além do número de países participantes de cada Rodada.
Quadro 1 – As Rodadas do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT)
Ano Rodada Temas Principais Países
1947 Rodada de
Genebra Redução de tarifas 23
1949 Rodada Annecy Redução de tarifas 13
1951 Rodada Torquay Redução de tarifas 38
1956 Rodada de Genebra Redução de tarifas 26
1960-1961 Rodada Dillon Redução de tarifas 26
1964-1967 Rodada Kennedy Redução de tarifas e medidas antidumping 62
1973-1979 Rodada de Tóquio Redução de tarifas, barreiras não-tarifarias,
acordos de estrutura 102
1986-1994 Rodada do Uruguai
Redução de tarifas, barreiras não-tarifarias, serviços, propriedade intelectual,
agricultura, solução de controvérsias, criação da OMC, etc.
123
Fonte: WORLD TRADE ORGANIZATION. Information And External Relations Division (Ed.).
Como pode ser observado na tabela acima, a Rodada Uruguai foi a rodada mais longa de todas e a com o maior número de países participantes. De acordo com Barral (2004), com previsão de durar apenas três anos, tal rodada foi ganhando cada vez mais assuntos ambiciosos para serem negociados, à medida que o seu prazo de conclusão foi sendo prolongado. Ao término da Rodada do Uruguai em 1994, seus anexos abordavam os principais temas do comércio internacional que compunham 26.000 páginas de regras.
As principais decisões da Rodada Uruguai substanciadas no Acordo de Marraqueche, assinado em abril de 1994, foram, de acordo com Barral e Reis (1999, p. 185), as seguintes:
(a) um corte médio nas tarifas de 37% e o aumento das linhas de produtos com tarifas consolidadas; (b) o aperfeiçoamento dos instrumentos de defesa comercial, com a negociação de um Acordo sobre Salvaguardas e o aperfeiçoamento dos Códigos sobre Subsídios e Medidas "Anti-dumping"; (c) a reintegração dos produtos agropecuários ao sistema multilateral de comércio e a redução das barreiras não tarifárias; (d) a incorporação dos produtos têxteis ao sistema multilateral de comércio, com a eliminação do Acordo Multifibras, de 1974, em 10 anos, a partir de 1995, obedecendo ao calendário previamente acordado; (e) o estabelecimento do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (GATS), que se constitui no primeiro conjunto de normas que contempla essa matéria; (f) a garantia dos direitos de propriedade intelectual, através do Acordo sobre Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio (TRIPs); (g) a instituição do Acordo sobre Medidas de Investimento Relacionadas ao Comércio (TRIMs); (h) o estabelecimento de um novo sistema de solução de controvérsias; (i) a definição de um mecanismo de revisão de política comercial dos países-membros; (j) a instituição de quatro acordos plurilaterais sobre o comércio de aeronaves civis, laticínios, carnes bovinas e compras governamentais; e (l) a criação da Organização Mundial do Comércio.
Após sete anos e meio de negociações, a Rodada Uruguai foi a maior negociação de comércio existente, além de trazer a maior reforma no sistema internacional de comércio desde a criação do GATT, após a II Guerra Mundial. Em janeiro de 1995 a OMC foi criada e todos os acordos assinados da Rodada Uruguai entraram em vigor. (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
2.3.2 Organização Mundial do Comércio (OMC)
Segundo Hoeckman e Kostecki (2009), o Acordo de Marraqueche, o qual deu origem à OMC, estabelece a estrutura da organização, sua conduta nas
relações comerciais entre seus estados-membros e as obrigações legais dos mesmos relativas ao cumprimento dos acordos. Os quatro anexos da OMC estabelecem as obrigações e direitos de seus membros. O Anexo 1 possui três partes, o Anexo 1A, nomeado de Acordos Multilaterais de Comércio de Bens, o qual contém o GATT de 1994 e os seus entendimentos e acordos suplementares negociados na Rodada do Uruguai; o Anexo 1B, o qual trata-se do Acordo Geral sobre Comércio de Serviços e Anexos (GATS); e o Anexo 1C, que engloba o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS). O Anexo 2, contém os entendimentos relativos às Normas e Procedimentos sobre Solução de Controvérsias da OMC. O Anexo 3 trata dos Mecanismos de Exame de Políticas Comerciais (TPRM), o qual serve como um instrumento de fiscalização das políticas de comércio dos países-membros da organização. Por fim, o Anexo 4, chamado de Acordos de Comércio Plurilaterais, é relativo aos acordos em que somente os países signatários de tais acordos precisam obedecer. Com exceção do Anexo 4, todos os outros três anexos possuem um caráter obrigacional em que todos os membros da OMC têm que obedecê-los, chamados de “Tratados Multilaterais de Comércio”.
A OMC possui e defende vários princípios relacionados ao comércio mundial, os quais estão contidos em seus acordos. O primeiro, comércio sem discriminação, inclui o princípio da nação mais favorecida, a qual estabelece que os países-membros da organização não podem discriminar seus parceiros comerciais. Caso um país conceda um benefício a outro, ele deverá conceder tal benefício a todos os outros países-membros da OMC. O princípio da nação mais favorecida aparece nos acordos relacionados a bens, serviços e propriedade intelectual, cada um exposto de uma maneira diferente, porém englobando as principais áreas em que a OMC controla. Outro princípio relacionado ao comércio sem discriminação é o do Tratamento Nacional, o qual os produtos importados devem receber o mesmo tratamento dos produtos nacionais quando entram no mercado de certo país, esta regra também é aplicável aos três principais acordos da OMC (Artigo 3 do GATT, Artigo 17 do GATS e Artigo 3 do TRIPS) (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
Outros princípios defendidos pela OMC são o de livre comércio através de negociações, onde os países-membros têm a oportunidade de discutir mudanças graduais em direção ao liberalismo comercial; transparência e previsibilidade, as quais garantem uma maior estabilidade nos negócios, além de estimular o
investimento externo; a promoção de uma concorrência justa; e por fim, a OMC incentiva a reforma econômica e o desenvolvimento (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
As principais funções da OMC são relacionadas a facilitação da implementação e operação dos Tratados Multilaterais de Comércio, administrar o seu mecanismo de resolução de controvérsias, fornecer um fórum para negociações, cooperar com o Banco Mundial e o FMI para se alcançar uma maior unificação global de políticas econômicas (relatado no Artigo II da OMC) e também oferecer uma fiscalização multilateral das políticas comerciais (HOECKMAN; KOSTECKI, 2009).
A OMC é governada pelos seus países-membros e todas as decisões e negociações são feitas pelos Estados, podendo ser pelos ministros, os quais se encontram uma vez a cada dois anos em Conferências Ministeriais, compondo a autoridade máxima da OMC. Como também por seus embaixadores ou diplomatas que se reúnem regularmente em Genebra. Apesar de possuir um grande número de países-membros, todas as decisões da OMC são tomadas geralmente por consenso, diferenciando-a de outras organizações internacionais como o Banco Mundial e o FMI, já que seu poder não fica concentrado nas mãos de um grupo seleto (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
De acordo com Jakobsen (2005, p.70), os países-membros “compõem um Conselho Geral, assumindo a obrigação de acatar e adequar suas legislações nacionais aos acordos multilaterais adotados na organização”. Ainda dentro do Conselho Geral encontram-se dois outros conselhos, o de Resolução de Controvérsias e o de Revisão de Políticas Comerciais. O terceiro nível hierárquico da OMC é constituído por três conselhos, os quais são o de Comércio de Bens, o Comércio de Serviços e o TRIPS. Tais conselhos são responsáveis por tratar dos acordos relativos às suas áreas e todos eles são subordinados do Conselho Geral. Existem outros comitês menores subordinados do Conselho Geral, eles tratam de assuntos relacionados ao comércio e desenvolvimento, assuntos administrativos, meio-ambiente, comércio e tratados regionais, politicas de investimento e concorrência e facilitação do comércio (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015).
Conforme Hoeckman e Kostecki (2009), com todos os conselhos, comitês e grupos, apenas os Estados mais relevantes no comércio internacional acabam enviando representantes à maioria das reuniões. A participação dos países
depende de uma mistura de interesse nacional ao assunto abordado, assim como restrições de recursos. Principalmente os países menos desenvolvidos sentem dificuldade de comparecer a todas as reuniões da OMC, pois geralmente não possuem missões diplomáticas em Genebra, além de muitas vezes não possuírem grande interesse em vários dos assuntos tratados pela OMC.
Segundo a World Trade Organization (2015), o secretariado da organização é localizado em Genebra e conta com 677 funcionários liderados por um diretor-geral, atualmente o brasileiro Roberto Azevêdo. O orçamento da OMC é de mais de 180 milhões de francos Suíços e as contribuições dos países para a OMC são feitas de acordo com a porcentagem da participação de cada país-membro no comércio internacional.
Com 160 países-membros atualmente, chegar a um consenso pode ser difícil em algumas questões debatidas na OMC. Caso os membros da organização não consigam chegar a um consenso, uma votação poderá ser aberta, sendo este o caso, cada país-membro tem direito a um voto. Unanimidade é requerida em algumas questões de principio geral, como a nação mais favorecida ou tratamento nacional. Já em outras questões a decisão é tomada com base no voto de três quartos da maioria ou dois terços da maioria (HOECKMAN; KOSTECKI, 2009).
O sistema de solução de controvérsias da OMC é elaborado e possui um caráter judicial obrigatório. Tal sistema é composto pelo Conselho Geral apoiado por um Conselho Técnico, por painéis e por um órgão de apelação. Se um país-membro decidir acionar o sistema de solução de controvérsias, ele deverá encaminhar um pedido de consulta formal à parte demandada e também se faz necessário notificar o Conselho Geral de tal decisão. Os painéis são compostos de três a cinco peritos, dependendo do caso tratado, sendo que os países envolvidos na disputa não podem participar dos mesmos. Já o órgão de apelação é constituído por sete juízes, os quais analisam os aspectos legais da disputa. O Estado perdedor da disputa tem um prazo de 15 meses para cumprir as decisões impostar do relatório, podendo sofrer retaliações comercias caso não as cumpra (JAKOBSEN, 2005).
Nessa parte foram examinados o histórico e a criação da OMC, bem como sua função no sistema internacional e como tal organização é estruturada. A seguir serão abordadas as principais características e classificações de propriedade intelectual no Brasil e internacionalmente, quando cabível.
2.4 PROPRIEDADE INTELECTUAL
Entende-se por propriedade intelectual, ideias, invenções, símbolos, imagens e informações que não estão necessariamente ligadas a algo físico, mas mesmo assim possuem um valor econômico. De acordo com a World Intellectual Property Organization (2015), propriedade intelectual pode ser dividida em duas categorias. A primeira refere-se à propriedade industrial, a qual inclui patentes, marcas, desenhos industrias e indicações geográficas. A segunda categoria é a de direito autoral, incluindo direito do autor e direitos conexos, alguns exemplos que fazem parte dessa segunda categoria são os trabalhos literários, filmes, música, trabalhos artísticos e designs arquitetônicos.
Uma terceira categoria é incluída por Jungmann (2010), representando a sistemática legal da proteção da propriedade intelectual no Brasil, chamada de proteção Sui Generis, a qual inclui topografia de circuito integrado, cultivares e conhecimento tradicional. De acordo com a classificação brasileira, dentro da categoria de propriedade industrial também está incluso o segredo industrial e repressão à concorrência desleal. Já dentro da categoria de direito autoral são acrescentados os programas de computadores. Para a seguinte discussão, será adotado a sistemática brasileira de classificação da propriedade intelectual.
Segundo Pimentel e Barral (2007), a proteção da propriedade intelectual possui tanto uma função jurídica, quanto uma função econômica. A posição jurídica garante ao titular o reconhecimento e recuperação de seu investimento na sua criação. Já a posição econômica, garante ao titular vantagens competitivas no mercado em que atua, tendo exclusividade de produção e comercialização de sua criação. Além disso, a propriedade intelectual também beneficia o consumidor, o qual pode identificar a procedência de um produto, bem como sua qualidade, auxiliando-o a satisfazer suas necessidades.
Nas relações internacionais, principalmente após os anos 70, os Estados começaram a considerar uma proteção mais efetiva da propriedade intelectual, já que a mesma é considerada um dos fatores que promovem o desenvolvimento econômico e o aumento da competitividade nacional. Ademais, a pressão das transnacionais em governos de países desenvolvidos para uma maior proteção, fortaleceu tal questão, levando países da Europa e América do Norte a enrijecer seus regimes protetivos. Diante desse cenário, viu-se necessário a criação de
regimes internacionais, tais como o Acordo TRIPS e tratados bilaterais e regionais para que a proteção da propriedade intelectual ganhasse uma dimensão mais abrangente, principalmente em países em desenvolvimento (DUTFIELD; SUTHERSANEN, 2008).
2.4.1 Propriedade Industrial
A Convenção da União Paris para a proteção de propriedade industrial pode ser considerado um divisor de águas internacionalmente com relação à propriedade intelectual. Antes de sua criação e assinatura em 1883, não existia nenhum sistema protetor mundial que lidasse com a propriedade industrial. Cada país possuía uma legislação diferente, inviabilizando e desestimulando criadores no mundo inteiro de buscarem seus direitos internacionalmente (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a).
A propriedade industrial é há muito tempo utilizada por países desenvolvidos com instrumento de desenvolvimento econômico e tecnológico e vem sendo cada vez mais utilizada por países em desenvolvimento. O incremento das leis que regem a propriedade industrial é considerado um interesse nacional, já que um sistema eficaz de proteção proporciona ao criador um reconhecimento moral e econômico, estimulando-o a continuar seu investimento em pesquisa e desenvolvimento. Além disso, uma proteção mais eficaz estimula a criatividade e a disseminação de uma criação, encorajando o comércio justo. Todas essas questões contribuem para o avanço social e econômico de um país (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a).
No Brasil, o órgão responsável por gerir e garantir o direito de propriedade intelectual para a indústria é o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). O INPI foi criado em 1970, e é considerado uma autarquia federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Os serviços que o INPI oferece estão ligados além da propriedade industrial, o INPI também oferece auxilio no registro de programas de computadores e topografia de circuitos integrados. Ademais, são oferecidas as averbações de contratos de franquia e das várias modalidades de transferência de tecnologia (BRASIL, 2015).
A seguir serão abordadas as várias categorias de propriedade industrial, ressaltando sua efetividade no sistema jurídico brasileiro e suas leis competentes,
bem como os sistemas protetivos internacionais ligados a cada categoria. A propriedade industrial será dividida no presente trabalho em patentes, marcas, desenho industrial, indicações geográficas, segredo industrial e proteção contra a concorrência desleal.
2.4.1.1 Patentes
A patente é um título concedido pelo Estado após o seu pedido de emissão pelo inventor. Ela descreve uma invenção e fornece uma proteção legal por um tempo limitado, na qual a invenção patenteada pode ser somente explorada comercialmente no país com autorização prévia do detentor da patente em questão. Uma invenção significa uma solução para um problema no campo tecnológico, podendo ser relacionada a um produto ou a um serviço, com propósitos práticos e não somente teóricos. Apesar do Estado fornecer a patente, ele não a faz cumprir automaticamente. O dono da patente deve estar atento e buscar o seu direito caso sua patente seja violada e explorada sem a devida autorização (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a)
No Brasil, tanto a pessoa jurídica, como a física pode requerer o titulo de uma patente no INPI. A legislação aplicável é a Lei da Propriedade Industrial (LPI), nº 9.279/1996. A patente confere ao seu titular a obrigação de a explorar comercialmente diretamente ou indiretamente, através de uma licença. O sistema brasileiro de patentes adotou o principio do first to file, o qual assegura o direito da patente à primeira pessoa que depositar. Existem dois tipos de patentes, a patente de invenção é o resultado de produtos ou processos originais e novos e, no Brasil, tem validade de vinte anos a contar da data de depósito do pedido. Já a patente de modelo de utilidade, é caracterizada pelo aperfeiçoamento em produtos que já existem e sua validade é de quinze anos a contar da data de depósito do pedido (JUNGMANN, 2010).
Nos Estados Unidos, as patentes de invenção geralmente são protegidas por 20 anos, porém taxas periódicas precisam ser pagas durante este período para que a observância das patentes possa ser garantida. Este tipo de patente representa cerca de 90% dos pedidos de patentes feitos no U.S Patent and Trademark Office (USPTO) (THE U.S. PATENT AND TRADEMARK OFFICE, 2013).
De acordo com a World Intellectual Property Organization (2004a), as licenças concedidas pelo titular da patente são consideradas voluntárias, onde seu beneficiário tem o direito de realizar o que foi autorizado pelo titular da patente. Há também licenças compulsórias ou não-voluntárias, as quais são concedidas à uma terceira parte pelo governo de alguns países sem a autorização ou contra a vontade do titular da patente à título de interesse público.
Apesar da patente ser somente valida no país em que foi depositada, existem acordos internacionais que facilitam o processo de obtenção de proteção internacionalmente. O Brasil assinou os dois acordos relacionados a patentes, a Convenção da União de Paris e o Tratado de Cooperação em Matérias de Patentes (PCT), administrado pela OMPI. O primeiro fornece a opção para o depositante de apresentar um pedido de direito de prioridade em todos os países-membros dentro de doze meses e sem prejuízo de atos ocorridos nesse intervalo, porém um procurador deve ser designado para representar o depositante em cada país escolhido. O segundo permite que apenas por um único pedido internacional seja possível obter a proteção da patente em vários países simultaneamente, esse pedido pode ser depositado no INPI, ou no órgão competente em um dos países escolhidos ou, também, no próprio escritório da OMPI (JUNGMANN, 2010).
2.4.1.2 Marcas
As marcas são caracterizadas por sinais distintivos, os quais distinguem produtos e serviços de seus concorrentes. Para uma marca poder ser registrada é imprescindível que possua qualidade distintiva, além de ser efetiva e compatível com os produtos e serviços que serão definidos por ela. No Brasil, o registro de marcas é regulado pela Lei de Propriedade Industrial (LPI) e sua obtenção é feita através do INPI. Após o registro da marca, o titular tem o direito de impedir concorrentes de utilizarem sua marca ou mesmo sinais semelhantes que possam ludibriar o consumidor, além de ter direito ao uso exclusivo da marca em todo o Brasil. A validade da marca registrada no Brasil é de dez anos e esse prazo pode ser estendido indefinidamente a pedido do titular mediante o pagamento das taxas relativas à renovação. (JUNGMANN, 2010). Nos Estados Unidos, as marcas duram o período em que elas estão sendo utilizadas no comércio e não necessitam ser registradas para serem protegidas no território americano, basta que seja
comprovado a utilização da marca para obter a sua proteção (THE UNITED STATES OF AMERICA, 2015).
As marcas podem ser classificadas em três classes dependendo de sua estética. A marca que possui somente palavras e combinações de letras e algarismos é considerada nominativa. Marcas que apresentam desenhos, imagens, formas geométricas, símbolos e grafismos são classificadas como figurativas, nesse tipo também podem ser inclusos letras e algarismos isolados. Por fim, marcas que combinam elementos normativos e figurativos são consideradas mistas. A lei brasileira concede o registro também a marcas tridimensionais, as quais podem ser compostas pela própria forma do produto ou sua embalagem, podendo possuir elementos normativos e figurativos. Porém, a lei brasileira não inclui a proteção de marcas sonoras, tácteis, gustativas, olfativas e também não protege o trade dress (JUNGMANN, 2010).
A concessão de licenças de marcas é uma pratica comum, onde o titular da marca autoriza uma terceira pessoa a utilizar a mesma, contanto que os requerimentos feitos pelo titular sejam cumpridos. As licenças de marcas e acordos de franquias caracterizam um aspecto muito importante na economia e nos negócios internacionais, principalmente nas relações entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a). Diante desse cenário, é importante que o titular da marca faça o pedido de proteção nos países em que ele deseja conceder uma licença, exportar ou vender seus produtos e serviços, já que a proteção de marcas é limitada ao país em que as mesmas foram registradas. Segundo Jungmann (2010), se o titular deseja proteger sua marca nos países europeus, ele pode requerer o registro no Instituto para Harmonização do Mercado Interno (OAMI), garantido a proteção em todos os países da comunidade europeia. Além dessa possibilidade, o tratado internacional Protocolo de Madrid, regulado pela OMPI, possibilita a realização de um único pedido de proteção para qualquer um dos países participantes. Infelizmente o Brasil ainda não faz parte desse tratado adotado por mais de 90 países.
2.4.1.3 Desenho Industrial
Proteção por desenho industrial refere-se ao direito concedido, mediante registro no órgão competente, à forma ornamental de um produto ou aos atributos
não-funcionais de um objeto industrial, sendo imprescindível que tais características sejam originais. Esse tipo de proteção é importante, pois com ela os fabricantes podem desenvolver sucesso no mercado, já que o desenho de seu produto é único entre seus concorrentes. Além disso, a proteção ao desenho industrial estimula o investimento em recursos para que o design do produto seja cada vez inovado. A proteção é dada somente ao design da forma estética do produto, e não ao design relacionado somente à funcionalidade e aos aspectos técnicos do objeto (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a).
No Brasil o registro é concedido pelo INPI e a validade da proteção é de até 25 anos, sendo que inicialmente é protegido por 10 anos a partir da data do registro, podendo ser prorrogado por três períodos sucessivos de 5 anos. Vale ressaltar que a proteção é somente valida no país em que o desenho industrial for registrado, havendo a necessidade de registro em cada um dos outros países, dos quais a empresa ou titular pretende exportar ou conceder licença. Para o desenho industrial ser registrado, há necessidade de o mesmo atender aos requisitos de novidade, originalidade e utilização ou aplicação industrial (JUNGMANN, 2010).
2.4.1.4 Indicação Geográfica
A indicação geográfica é definida por ser de certa área geográfica, podendo ser um país, cidade, região ou localidade de seu território. Tais indicações são bens coletivos e estão sujeitas à proteção, elas servem para distinguir a qualidade de produtos e serviços que se tornaram reconhecidos em função de sua origem, podendo ser por seu método de produção, extração ou fabricação (GIUNCHETTI, 2005).
As indicações geográficas podem ser divididas em duas categorias. A primeira é a denominação de origem, a qual as qualidades e características do produto ou serviço são devidas exclusivamente ou essencialmente à área geográfica, sendo inclusos elementos naturais e humanos. A segunda, indicação de procedência, refere-se à área geográfica que se tornou conhecida como centro de produção, fabricação ou extração de certo produto ou serviço, porém não possui qualidades específicas naturais ou humanas envolvidas na produção do produto. No Brasil, os produtos protegidos por indicação geográfica são identificados por selos de garantia de procedência em suas embalagens. O prazo de validade da proteção
é indefinido e não se extingue pelo uso. O registro pode ser obtido no INPI e é protegido pela Lei de Propriedade Industrial (JUNGMANN, 2010).
A proteção por indicação geográfica previne que terceiros utilizem uma indicação geográfica sem autorização em seus produtos e serviços ou que não atendam aos padrões estabelecidos, podendo ludibriar os consumidores e fazer com que seja ferida a reputação de tal indicação geográfica. Outra vantagem da proteção é de prevenir que certas indicações geográficas se tornem expressões ou termos genéricos usados sem nenhum padrão, podendo, assim, perder a proteção. Como ainda não há nenhum tratado internacional multilateral determinando se certas indicações geográficas são termos genéricos ou não, cabe a cada Estado determinar a lei vigente. Portanto, um Estado pode considerar uma indicação geográfica como termo genérico, anulando a proteção da mesma, enquanto outro Estado pode considerar a indicação geográfica única, protegendo-a da utilização indiscriminada. Três tratados multilaterais administrados pela OMPI possuem estipulações para a proteção por indicação geográfica, a Convenção da União de Paris para a Proteção da Propriedade Industrial, o Tradado de Madrid e o Tratado de Lisboa (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a).
2.4.1.5 Segredo industrial e proteção contra a concorrência desleal
A proteção por segredo industrial tem como finalidade preservar uma informação confidencial tanto de pessoa física, como jurídica e evitar que tais informações sejam divulgadas ou obtidas por concorrentes sem a autorização prévia do titular. Para uma informação poder ser protegida legalmente, ela precisa ser necessariamente secreta e de difícil acesso, ter valor comercial por não ser conhecida e também ser objeto de devidas precauções para mantê-la secreta. O segredo industrial é muito usado por empresas que atuam em áreas onde a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico são intensos e também por empresas tradicionais que utilizam o segredo industrial para aumentar sua competitividade no mercado. No Brasil, não há custos para registrar o segredo industrial e a duração da proteção é ilimitada (JUNGMANN, 2010).
Segundo Marcos (2005), internacionalmente, o segredo industrial não é protegido de forma tradicional dentro da propriedade industrial, como patentes e marcas, sua proteção é assegurada pelas regras contra a concorrência desleal. As
características do segredo industrial são relacionadas ao seu caráter comercial, destacando sua importância nas atividades empresariais e de grande relevância internacional. A Convenção da União de Paris ressalta a obrigatoriedade de todos os países participantes oferecerem meios eficazes e efetivos de proteção da concorrência desleal, incluindo na mesma, o segredo industrial.
Concorrência desleal, dentro da propriedade intelectual, pode ser caracterizada por qualquer ato contrário as praticas honestas no meio industrial ou comercial. A proteção contra concorrência desleal é reconhecida desde 1900 como parte da proteção industrial pela Convenção da União de Paris. O Artigo correspondente a tal proteção cita que devem ser proibidos todos os atos em que suas naturezas sejam para criar confusão por quaisquer meios aos seus concorrentes e também indicações e alegações enganosas aos consumidores sobre seus concorrentes (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a). De acordo com Jungmann (2010), no Brasil a concorrência desleal é considerada crime consoante a Lei de Propriedade Industrial. É considerado concorrência desleal atos que exploram ou divulguem informações sigilosas, sem autorização ou de modo ilícito no meio industrial, comercial ou de serviços.
2.4.2 Direito Autoral
A proteção do direito autoral lida com a forma criativa ligada a comunicação em massa. Esse tipo de proteção também busca reconhecer todas as formas e métodos de comunicação, podendo abranger publicações impressas, televisão, cinema e até mesmo programas de computadores. A maioria dos trabalhos protegidos por direito autoral possuem uma forma física concreta, como livros e pinturas, porém essa proteção também abrange trabalhos que não necessitam de uma forma física para serem comunicados, como músicas e poemas. O direito do autor protege os titulares das obras contra terceiros que copiam e usam tais trabalhos na sua forma original expressa pelo autor (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a). De acordo com Carboni (2005), vale ressaltar que os tratados internacionais que abrangem o direito autoral e as suas legislações competentes afirmam que as ideias não são passíveis de proteção, somente as expressões de tais ideias podem ser protegidas pelo direito autoral.
Assim, não existe um conflito jurídico concreto entre direito autoral e liberdade de expressão.
No Brasil, o direito autoral é regulamentado pela Lei nº 9.619/98, a mesma protege os direitos do autor, os direitos conexos e também os programas de computadores. A proteção do direito autoral não necessita de registro obrigatório e sua validade vai da criação da obra até 70 anos após o ano subsequente ao falecimento do autor. Para o autor garantir a proteção de sua obra internacionalmente não existe a necessidade de registro nos países em que pretende comercializá-la. Com a Convenção de Berna, de 1886, basta que o autor publique sua obra em um dos países signatários da convenção e a criação estará automaticamente protegida em todos os outros países signatários, incluindo o Brasil, baseado no critério de reciprocidade. A proteção do direito autoral garante à cultura de um país uma herança rica e abrangente, além de o autor de uma criação ser recompensado e remunerado por seu trabalho, incentivando-o a explorar ainda mais a sua criatividade (JUNGMANN, 2010)
Dentro do Direito do Autor, duas categorias são criadas, o Direito Moral e o Direito Patrimonial. O direito moral é caracterizado pelo direito pessoal do autor de uma criação, sendo tal direito intransferível e irrenunciável, no caso da morte do criador, esse direito é transmitido aos seus sucessores. Já o direito patrimonial confere ao autor o direito de utilizar, reproduzir, distribuir sua obra, como também buscar fins econômicos com a mesma. Esse tipo de direito confere ao autor a possibilidade de transferir a titularidade de sua criação a outra pessoa (JUNGMANN, 2010).
Os direitos conexos são relacionados aos direitos daqueles que proporcionam uma assistência aos autores para comunicarem e disseminarem seus trabalhos ao público. Existem três categorias gerais de direitos conexos, a primeira refere-se aos artistas interpretes ou executantes, a segunda refere-se aos produtores fonográficos e a terceira refere-se às empresas de veiculação de rádio e programas de televisão (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a). No Brasil, os direitos conexos têm validade de até 70 anos após sua fixação, transmissão ou execução pública e é protegido pela Lei do Direito Autoral. Assim como o direito autoral, o direito conexo não necessita de registro obrigatório (JUNGMANN, 2010).
No Brasil, os programas de computadores também são protegidos pela Lei do Direito Autoral e ainda possui uma lei própria denominada Lei do Software de 1998. A única ressalva na proteção de programas de computador é que não se aplica as disposições do direito moral, porém o direito do autor prevalece, caso o mesmo tenha que reivindicá-lo. Assim como no direito autoral, não há necessidade de registro para adquirir proteção e também se o autor do software desejar, ele pode transferir os seus direitos para terceiros. A validade da proteção de programas de computadores é de 50 anos a partir do ano subsequente à data da criação ou publicação do software (JUNGMANN, 2010).
Nos Estados Unidos, o direito autoral recebe uma proteção de 70 anos, contados após a morte do autor para trabalhos criados depois de 1978. Neste país existe também uma categoria de direitos autorais para trabalhos criados por empresas. Neste caso, a proteção dura 95 anos, contados a partir do ano da primeira publicação do trabalho ou 120 anos, a partir da data da criação do mesmo (THE UNITED STATES OF AMERICA, 2015).
2.4.3 Proteção SUI GENERIS
Os circuitos integrados, conhecidos como chips, são usados em memórias ou processadores de computador, televisão, carros, relógios, etc. A topografia dos circuitos integrados é considerada um tipo de propriedade intelectual, pois para criar tal topografia é necessário um alto investimento na criação e desenvolvimento da mesma, já para copiá-la é preciso de um investimento muito menor. Para tornar os circuitos integrados menores e mais eficientes, é preciso sempre estar inovando e investindo na criação de uma topografia melhor (WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION, 2004a).
No Brasil a Lei nº 11.484 de 2007 regulamenta a proteção de topografia de circuitos integrados, a proteção é dada a todo brasileiro ou estrangeiro desde que possuam domicílio no país. Com validade de 10 anos, a proteção é concedida pelo INPI, contanto que a topografia seja original e resultante do intelectual de seu criador (JUNGMANN, 2010).
Outro tipo de proteção especifica é a proteção de cultivares. Cultivares é o nome atribuído a uma nova variedade de planta, a qual é resultante de pesquisas e investimento, já que esses cultivares não são encontrados na natureza. No Brasil,