4 A OMC E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
4.3 O ACORDO TRIPS
O Acordo TRIPS representa a consolidação da ligação entre a proteção da propriedade intelectual e o comércio internacional. Apesar de o acordo não ter refletido todas as questões que os países desenvolvidos e em desenvolvimento gostariam, o consenso prevaleceu e ambos os lados cederam em alguns aspectos. O alicerce do TRIPS é a cooperação internacional, porém quando houver necessidades os Estados tem à sua disposição o Sistema de Soluções de Controvérsias. Os Estados que fazem parte da OMC devem adaptar suas legislações nacionais para atingir no mínimo o nível de proteção estabelecido pelo acordo. Os países têm a liberdade de moldar suas leis com base nas disposições do TRIPS para favorecer suas áreas frágeis como a saúde pública e a proteção ambiental (BASSO, 2000).
O TRIPS faz parte do Acordo da OMC, o qual deu origem à tal organização, entrando em vigor em janeiro de 1995 (WORLD TRADE ORGANIZATION, 2015). O TRIPS faz parte do anexo 1C do acordo constitutivo da OMC, e as disposições do acordo aplicam-se a todos os países-membros da organização, sem a possibilidade de ressalvas e reservas em seus termos. O acordo é dividido em sete partes principais e 73 artigos, os quais abrangem direito autoral e direitos conexos, topografia de circuitos integrados, indicação geográfica, marcas, desenhos industriais e patentes. O TRIPS incorpora e toma como base as principais
convenções internacionais administradas pela OMPI. Na área de direitos autorais, os membros da OMC são obrigados a obedecer às principais disposições da Convenção de Berna para a proteção de trabalhos artísticos e literários, com exceção da proteção do direito moral. Os softwares de computador devem ser protegidos como trabalhos literários da Convenção de Berna, além disso é estendida a proteção de direito autoral para bases de dados computadorizadas, tal proteção não era abordada nesta convenção (HOEKMAN; KOSTECKI, 2009).
Segundo Basso (2000), os principais objetivos do Acordo TRIPS são a redução dos obstáculos do comércio internacional, considerando a proteção eficaz dos direitos de propriedade intelectual, além da necessidade de garantir medidas e procedimentos que assegurem a proteção destes direitos. O acordo estabelece padrões mínimos de proteção e não o exato conteúdo destes direitos, sendo cada Estado responsável pela incorporação do acordo em suas legislações. Os Estados Unidos sancionaram uma lei especial, em 1994, para incorporar o TRIPS, já os países da América Latina, por estarem no período de transição levaram mais tempo para incorporar o acordo. O Brasil incorporou por completo o acordo em janeiro de 2000, logo quando o período de transição foi finalizado.
Todos os países-membros possuíram um ano, a partir de quando a OMC entrou em vigor, para adaptar suas legislações conforme o acordo. Os países em desenvolvimento foram concedidos até nove anos para implementar o Acordo TRIPS por completo. Já os países com o menor desenvolvimento dispuseram de 12 anos para regularizarem suas leis, porém durante a Rodada de Doha, em 2001, eles obtiveram um período adicional de extensão com vencimento em 2016 (HOEKMAN; KOSTECKI, 2009).
Os princípios gerais do TRIPS são: o single undertaking, tratamento nacional, nação mais favorecida, exaustão, transparência, cooperação internacional, interação entre os tratados internacionais e o da interpretação evolutiva. O princípio do single undertaking afirma que o Acordo TRIPS não admite reservas. O princípio do tratamento nacional, já existente na estrutura do GATT, estabelece que cada Estado-membro deve proporcionar um tratamento aos estrangeiros de outros países-membros igual ao de seus nacionais em relação a proteção da propriedade intelectual. O princípio da nação mais favorecida, a qual também já era presente no GATT, estabelece que um Estado-membro deverá tratar todos os outros países- membros da mesma forma. Já o princípio da exaustão determina que o direito de
exclusão comercial do titular de uma propriedade intelectual acaba quando o mesmo introduz o produto no comércio ou quando autoriza terceiros a realizar esta ação. O princípio da transparência afirma que os Estados-membros devem tornar as suas leis e seus regulamentos finais públicos. O princípio da cooperação internacional determina que os membros devem cooperar entre si para eliminar o comércio de produtos que violam a propriedade intelectual. Além disso, este princípio estabelece que os países desenvolvidos devem promover o incentivo de transferência de tecnologia aos países de menor desenvolvimento. Já o princípio da interação entre os tratados internacionais sobre propriedade intelectual afirma que o Acordo TRIPS não pretende anular outras convenções e tratados anteriores sobre a matéria e sim, inseri-los dentro do acordo. Por fim, o princípio da interpretação evolutiva estabelece que conforme a evolução de um tema, a interpretação de suas cláusulas pode mudar (BASSO, 2000).
Como o TRIPS faz parte do Acordo Geral da OMC, ele tem a sua disposição o Órgão de Solução de Controvérsias (OSC), o qual é um mecanismo eficaz de prevenção e solução de conflitos. Até a sua criação, o sistema internacional não possui nenhum mecanismo realmente efetivo de solução de conflitos para a propriedade intelectual (ROSENBERG, 2005). Se um Estado- membro acredita que outro violou as obrigações do Acordo TRIPS, ele pode levar o caso ao OSC. O não cumprimento do acordo é somente formalmente reconhecido quando um Estado-membro acusa outro diante do OSC. Caso o país for julgado culpado por violação do acordo, ele necessitará realizar o pagamento de uma multa ou solucionar o problema do não cumprimento. Se o país condenado não obedecer aos comandos do OSC, o mesmo pode conceder sanções, como retaliações comerciais, a tal Estado (DEERE, 2009). Além dos casos de violação, segundo Basso (2000), existem os casos de não violação que ocorrem quando há omissão ou ato do Estado que afeta negativamente um direito estabelecido pelo Acordo TRIPS. Estes casos também podem ser levados ao OSC e os Estados estão sujeitos a sanções.
De acordo com Rosenberg (2005), apesar do acordo possuir um nível alto de proteção da propriedade intelectual, durante o processo de implementação notou- se que suas disposições foram interpretadas e revisadas de maneiras diferentes pelos países-membros. Alguns dispositivos do acordo possuem certa flexibilidade
para a implantação de leis nacionais, conferindo uma grande vantagem aos países em desenvolvimento.
O Acordo TRIPS possui vários direitos, salvaguardas e opções que os membros da OMC podem explorar ao incorporarem o acordo em suas legislações. Estas flexibilizações foram reafirmadas, em 2001, durante a Declaração de Doha sobre TRIPS e Saúde Pública. Na área de patentes, o acordo possibilita que os países isentem patentes de animais, plantas e microrganismos. Com relação aos direitos autorais, os Estados podem isentar alguns tipos de uso do controle dos titulares. O TRIPS também concede a opção de os países-membros escolherem uma proteção sui generis para a proteção de cultivares. Ademais, o acordo possui salvaguardas, como as disposições especificando que os Estados podem criar licenças compulsórias dentro de certas circunstâncias. Diversos elementos do acordo são ambíguos e definidos com poucas especificações, fornecendo aos governos uma possibilidade de interpretação para a implementação do acordo. Em 2005, as flexibilidades do TRIPS aumentaram quando a sua única emenda foi aprovada. Os países-membros concordaram em tornar permanente uma isenção relacionada às patentes e à saúde pública adotada em agosto de 2003. Esta isenção e a emenda de 2005 visavam facilitar a possibilidade de países com insuficiente capacidade de produção obter versões mais baratas de medicamentos genéricos já patenteados. A emenda permite a importação dos genéricos fabricados por licenças compulsórias (DEERE, 2009).
O quadro abaixo apresenta as principais disposições do Acordo TRIPS, bem como um breve resumo do que cada uma delas trata.
Quadro 5 – Principais disposições do Acordo TRIPS Artigos Assunto e comentários
Disposições Gerais
3. Tratamento nacional Aplicável aos indivíduos 4. Nação mais favorecida
Algumas isenções de reciprocidade para direitos autorais; direitos adquiridos de acordos regionais e bilaterais 6. Exaustão Nenhuma regra imposta, exceto não-discriminação
Direitos autorais e direitos relacionados
9. Aplicar a Convenção de
Berna Não requer direitos morais
10. Programas e dados
Mudança significativa nas normas internacionais;
compilações de dados protegidas como trabalhos literários 11. Direitos de aluguel Mudança significativa nas normas internacionais
Artigos Assunto e comentários
12. Tempo de proteção Mínimo de 50 anos. Esclarece direitos corporativos 14. Proteção para produtores de fonograma e artistas-intérpretes Marcas e direitos relacionados 15. Matéria objeto da
proteção Confirma e esclarece a Convenção de Paris
16. Direitos conferidos Desencoraja o registro e uso de marcas confusas e
especulativas; aumenta a proteção de marcas conhecidas 19. Requerimento de uso Esclarece o não-uso. Desencoraja o uso de restrições colaterais para restringir o uso 21. Licença e cessão de
direitos Proíbe a licença compulsória
22-4. Indicações
geográficas Definições; proteção adicional para vinhos e destilados
Desenhos indústrias
26. Proteção Mínimo de 10 anos de proteção
Patentes
27. Cobertura da matéria objeto
Fornecer patentes para produtos e processos em todos as áreas de tecnologia. Biotecnologia protegida. Exceções permitidas para plantas e animais, desde que que tenha proteção para cultivares
28. Direitos conferidos Direitos exclusivos na venda e importação de produtos ou processos patenteados
30. Exceções dos direitos concedidos
Permite certas exceções para o direito de patentes desde que não prejudique o titular
31. Outro uso sem a autorização do titular
Disciplinas específicas no uso de licenças compulsórias; Produção nacional não precisa ser obrigatória; licenças não- exclusivas com compensação adequada
33. Duração da proteção Mínimo de 20 anos a partir da data do registro
Circuitos integrados
36. Alcance da proteção Mudança significativa nas normas internacionais; proteção é estendida para artigos incorporando designs violados 38. Tempo de proteção Mínimo de 10 anos de proteção
Proteção de informações
confidenciais
39. Proteção de trade
secrets contra métodos de
concorrência desleal
Novo em muitos países em desenvolvimento
Abuso do direito de
propriedade intelectual
40. Controle de práticas anticompetitivas
Grande abrangência da política de competitividade para controlar abusos; sujeito a outras disciplinas da OMC
Observância do direito de
propriedade intelectual
41-64. Requer observância civil e criminal
Disposições detalhadas para um nível mínimo de
observância; acordo para não trazer casos de não-violação até o Conselho do TRIPS determinar o alcance e
Fonte: HOEKMAN, Bernard M.; KOSTECKI, Michel M. The political economy of world trading
system: The WTO and beyond. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2009. p 381, tradução nossa.
Conforme pode ser notado no quadro acima, o Acordo TRIPS eleva substancialmente o nível de proteção da propriedade intelectual. Apesar disso, ele apresenta disposições que podem favorecer os países em desenvolvimento. Um exemplo é o Artigo 31, que permite, dentro de certas condições, utilizar patentes sem a autorização do titular, podendo ser usada por governos ou por terceiros. O Artigo 27 também apresenta exceções à patenteabilidade, as quais são adotadas pelos Estados para proteger a ordem pública e também a vida humana, animal e vegetal (BASSO, 2000). Além disto, o Artigo 39 trata dos trade secrets, tal assunto ainda não era abordado em muito países em desenvolvimento. O acordo protege esta área contra atos que entram em conflito com práticas comerciais honestas. Contudo, o TRIPS não define quais atos são considerados injustos, deixando para os governos definirem conforme suas necessidades (HOEKMAN; KOSTECKI, 2009). Segundo Deere (2009), para os países em desenvolvimento conseguirem tirar o maior proveito possível das disposições do Acordo TRIPS, é necessário um grande aparato de especialistas em propriedade intelectual para auxiliá-los na implementação do acordo. Foi estabelecido o Conselho do TRIPS para cuidar e monitorar os Estados-membros na implementação do acordo. O TRIPS requer que todos os membros da OMC notifiquem o Conselho de suas leis e regulamentações para que outros membros possam revisar e apresentar dúvidas se tais legislações estão conforme o acordo. A OMC também firmou um acordo com a OMPI, em 1996, para esta fornecer assistência técnica e jurídica para os países em desenvolvimento conseguirem cumprir o prazo de implementação do TRIPS. Apesar de os países em desenvolvimento possuírem espaço para a interpretação do acordo, foi observado que houve uma grande variedade na abordagem das implementações. Alguns
Artigos Assunto e comentários
Acordos de transição
65-6. Períodos de transição até 2016
5 anos para países em desenvolvimento e economias em transição ou 9 para produtos ainda não patenteados; 11 anos para países de menor desenvolvimento, estendido na Rodada de Doha para 21
70. Proteção de produtos farmacêuticos pendentes
(pipeline)
Não é obrigatório. Disposições para manter direitos de inovação e direitos exclusivos de marketing
Acordos institucionais
países em desenvolvimento utilizaram muito mais as flexibilidades do TRIPS do que outros. Ainda, alguns destes países firmaram compromissos de adotar os TRIPS- plus, abrindo mão da oportunidade de utilizar as flexibilidades do acordo. Em algumas ocasiões, a maneira como os países em desenvolvimento responderam ao Acordo TRIPS contrastou com as preocupações que os mesmos possuíam durante e após as negociações do acordo.