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BREVE HISTÓRICO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL NO BRASIL

5 AS POLÍTICAS AMERICANA E BRASILEIRA LIGADAS À PROPRIEDADE

5.2 BREVE HISTÓRICO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL NO BRASIL

A história da propriedade intelectual no Brasil tem como seu ponto inicial o começo do século XIX. Em 1809, o Brasil foi o quarto país a adotar uma lei de propriedade industrial, seguindo a Inglaterra, Estados Unidos e França (DEERE, 2009). Apesar do país ter sido um dos primeiros a possuir uma lei sobre propriedade intelectual e reconhecer o valor da proteção para estimular os inventores, a

industrialização do país e o desenvolvimento de capacidade tecnológica não se desenvolveram da mesma maneira da criação das leis de patentes. Durante o século XIX, o sistema de patentes brasileiro refletia a estrutura de atividades industriais nos setores alimentício, químico e metalúrgico. Estes setores foram responsáveis por 60% das patentes concedidas entre 1830 e 1891 (MAZZOLENI; PÓVOA, 2010).

Segundo Gontijo (2005), a lei de 1830 concedia patentes apenas para os brasileiros, os estrangeiros que quisessem proteger e explorar suas invenções no país, eram denominados “introdutores” e apenas lhes eram concedidos subsídios e não um monopólio. Além disso, esta lei de patentes requeria que os inventores explorassem apenas suas patentes no território brasileiro. Estes requerimentos diminuíram os incentivos para empresas estrangeiras protegerem suas patentes no Brasil (MAZZOLENI; PÓVOA, 2010).

No que se refere ao contexto internacional, de acordo com Velázquez (2011, p.85), “O Brasil, no período compreendido entre 1876 e 1884, assinou convenções diplomáticas para a proteção de marcas de fábrica e de comércio com a França, Bélgica, Alemanha, Itália, Estados Unidos, Portugal e Dinamarca“. Uma nova lei de patentes foi produzida, em 1882, conforme a Convenção de Paris, com esta nova lei invenções estrangeiras poderiam ser patenteadas no Brasil. A partir desta modificação, percebeu-se um grande aumento no número de patentes concedidas no Brasil, motivadas não só por esta nova lei, mas também pelo aumento no volume e no alcance da produção industrial no país neste período (MAZZOLENI; PÓVOA, 2010).

Durante a era Vargas, em 1945, foi proibida a concessão de patentes para produtos farmacêuticos, com o intuito de proteger o mercado interno, além de incentivar a indústria brasileira (VELÁZQUEZ, 2011). Segundo Mazzoleni e Póvoa (2010), a proibição de patentes para produtos farmacêuticos refletia os objetivos do Presidente Vargas de promover a saúde pública e a indústria farmacêutica nacional. Patentes de produtos alimentícios e matérias ou substâncias obtidas por processos químicos também começaram a serem recusadas. Além disso, o Código de Propriedade Industrial de 1945 fez outras modificações, como a concessão de licenças compulsórias em patentes inativas por dois anos. Estas políticas também foram de extrema importância para a lei de patentes de 1969, durante o regime militar, a qual incluiu novas proibições na concessão de patentes, como processos

farmacêuticos, produtos, técnicas cirúrgicas e terapêuticas e uso de microrganismos. Esta reforma fez com que a proteção de patentes deixasse de ser uma opção para a indústria farmacêutica até 1996.

A partir da década de 60, o Brasil e outros países em desenvolvimento começaram a se posicionar internacionalmente para que seus interesses relativos à propriedade intelectual fossem discutidos. Em 1961, o Brasil criou uma proposta sobre patentes e países em desenvolvimento na Assembleia Geral da ONU. A proposta resultou em uma resolução da Assembleia Geral. Um estudo foi preparado para analisar os efeitos das patentes em economias em desenvolvimento, além de uma pesquisa sobre legislações de patentes. O objetivo do Brasil era usar esta resolução da ONU para impulsionar reformas na Convenção de Paris as quais atendessem suas necessidades (DEERE, 2009). Com o início da reforma da convenção em 1975, a resolução iniciada pelo Brasil foi negociada até 1979, porém a reforma foi rejeitada pela delegação americana. Após este episódio, os Estados Unidos decidiram mudar as questões de propriedade intelectual para o GATT, onde os países desenvolvidos teriam um maior poder de persuasão ao criarem uma conexão com o comércio (GONTIJO, 2005).

De acordo com Mazzoleni e Póvoa (2010), alguns aspectos do sistema de proteção de patentes no Brasil está diretamente ligado ao interesse do governo de promover a difusão de tecnologia das empresas estrangeiras para as brasileiras. Outros aspectos estão relacionados à políticas industriais e de saúde pública. Apesar disso, as patentes tiveram um papel insignificante em outros setores para promover a transferência de tecnologia. Nestes setores a diminuição da proteção de patentes era desnecessária, já que havia outros mecanismos e políticas mais eficazes.

Com relação aos direitos autorais, a primeira lei específica sobre o tema foi criada somente em 1898, esta lei apenas protegia obras nacionais. Já em 1912, uma nova lei foi criada estendendo a proteção às obras estrangeiras, não importando a nacionalidade do autor. As únicas condições eram de que os autores fossem de Estados que fizessem parte das convenções internacionais sobre direito autoral ou de países que tivessem assinado acordos bilaterais com o Brasil assegurando a reciprocidade (SANTOS, 2009).

O Brasil, em 1922, assinou a Convenção de Berna, sendo um dos únicos países da América a fazer parte da convenção. Vários tratados interamericanos

sobre direito autoral surgiram durante 1889 e 1946 (DEERE, 2009). Segundo Basso (2000), os Estados que já faziam parte das convenções internacionais também firmaram acordos bilaterais entre si para assegurar objetivos imediatos e mais específicos. O Brasil e a França firmaram a Convenção Literária, Científica e Artística em 1913.

Com a criação do Special 301 pelos Estados Unidos em 1989, o Brasil foi colocado neste ano e no seguinte no Priority Watch List por possuir graves deficiências em seu sistema de patentes, na visão americana. Em 1991, o Brasil continuou na mesma lista dos anos anteriores e o Presidente Collor propôs uma nova lei de patentes. O país ainda continuava no Priority Watch List pois além dos problemas na proteção de patentes, a pirataria nas áreas de vídeo e software era significativa. A proposta do Presidente Collor apesar de incluir a proteção de produtos farmacêuticos, ainda possuía deficiências como a falta de proteção para patentes pipeline, a permissão de importação paralela e condições amplas de licenças compulsórias. Com isso, o Brasil continuou no Priority Watch List em 1992 (THE UNITED STATES TRADE REPRESENTATIVE, 1989,1991,1992).

Em 1993, o Brasil foi identificado pelo USTR como Priority Foreign Country e foi investigado pelo governo americano. No relatório de 1994, Mickey Kantor, representante do USTR, apontou que o governo brasileiro apresentou interesse e planos em reformar sua legislação de propriedade intelectual, retirando o país das categorias do Special 301 (THE UNITED STATES TRADE REPRESENTATIVE, 1993, 1994).

5.3 A POLÍTICA AMERICANA DE PROPRIEDADE INTELECTUAL NA ERA PÓS-