ALEXANDRE GARCIA AGUADO
O MOVIMENTO DO SOFTWARE LIVRE E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A FORMAÇÃO DE REDES DE COLABORAÇÃO NA EDUCAÇÃO
LIMEIRA 2012
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE TECNOLOGIA
ALEXANDRE GARCIA AGUADO
O MOVIMENTO DO SOFTWARE LIVRE E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A FORMAÇÃO DE REDES DE COLABORAÇÃO NA EDUCAÇÃO
Orientador(a): Profa. Dra. Elaine Cristina Catapani Poletti
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Faculdade de Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestre em Tecnologia, na área de Tecnologia e Inovação.
LIMEIRA 2012
AGRADECIMENTOS
Não tenho dúvidas que sou o que sou, devido as pessoas que cruzaram meu caminho e deixaram um pouco delas em mim. Quero lembrar aqui algumas dessas pessoas e já me desculpar por aquelas que infelizmente minha memória não permite fazer menção:
Ao meus queridos pais, grandes mestres da vida com os quais aprendi tudo de mais essencial. De todos os diplomas, cursos e conhecimentos adquiridos, o mais importante e relevante, são aqueles conhecimentos que vieram através deles.
Ao Colégio Dom Bosco de Americana que abriu as portas para esta pesquisa, confiando em meu trabalho e permitindo esta grande oportunidade.
Aos queridos educadores que participaram do curso em questão nesta pesquisa. Obrigado pelo tanto que me ensinaram e partilharam sobre educação e sobre a vida.
A querida Profª Draª Telma Aparecida de Souza Gracias, a qual me orientou neste trabalho até meados de 2011 e foi essencial desde os primeiros questionamentos e sonhos. Obrigado, porque sem dúvida, sem sua atenção, esforço e compreensão esse trabalho não aconteceria.
A querida Profª Draª Elaine Cristina Catapani Poletti, minha orientadora e peça fundamental neste trabalho. Sem dúvida chegou em um momento muito importante, partilhando seus conhecimentos e sua disposição. Obrigado por todo carinho e disposição de sempre.
Aos Professores da FT, UNISAL e em especial a Profª Draª Stela Piconez da FE-USP, a qual de forma sutíl alimentou com sua sabedoria muitos sonhos e caminhos acerca deste trabalho de pesquisa
Ao povo Angolano que me recebeu durante o ano de 2011 onde fui Voluntário Missionário. Eis um povo em que o sofrimento e dor não prevalece sobre sua alegria e não tem o poder de apagar o lindo sorriso estampado no rosto.
Aos meus queridos amigos e familiares que sempre estiveram ao meu lado dando todo o suporte necessário para viver. Vocês são minhas maiores riquezas.
Aos meus irmãos, cunhada e sobrinhos, os quais, ao contrário de meus amigos, não pude escolher, me foram impostos, porém, sem dúvida, se cabesse a mim esta escolha, escolheria exatamente vocês para fazer parte de minha vida.
“Educar é coisa do coração” ( Dom Bosco)
RESUMO
A presente pesquisa analisa as contribuições que o Movimento do Software Livre pode trazer à formação de redes de colaboração na educação. Um modelo de rede de colaboração foi criado a partir de um estudo piloto considerando a dinâmica de colaboração existente nas comunidades de software livre, aspectos relevantes na busca de uma educação dialógica e as possibilidades geradas pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) implementadas através de softwares livres. Esse modelo foi aplicado em um curso de capacitação de professores cujo tema foi O Moodle como apoio ao ensino presencial, o qual criou um ambiente adequado para a pesquisa em questão além de promover reflexões coletivas acerca de Ambientes Virtuais de Aprendizem, TIC na Educação e a busca de um processo de educação dialógica. Considerando que fatores como comportamento, reações e opiniões são altamente relevantes no contexto citado, no que tange à metodologia adotada, esta enquadra-se como pesquisa qualitativa. Os resultados alcançados revelam uma série de contribuições que este modelo de rede de colaboração tende a oferecer para a área da educação, em especial, a necessidade do processo dialógico ser construído a partir da autorreflexão que leva a tomada de consciência e uma vez socializada fortalece o grupo na construção de conhecimento. As conclusões também apontam para uma breve análise sobre as diferentes características das TIC adotadas, tais como chat, videoconferência, wiki, fórum e em especial o Moodle, como ferramenta a proporcionar a centralização dessas TIC em um único ambiente, favorecendo a organização do grupo.
Palavras-chave: Software Livre; Comunidades virtuais; Ambiente virtual de aprendizagem; Educação como humanização; Tecnologia da informação e comunicação.
ABSTRACT
This research analyzes the contributions that the Free Software Movement can bring to the formation of collaborative networks in education. A collaborative network model was created from a pilot study considering the collaborative dynamic in the free software communities, important aspects in a dialogical education and opportunities generated by Information and Communication Technology (ICT) implemented through free software. This model was applied in a course for teachers whose theme was “How could Moodle support classroom teaching”, which allowed a suitable environment to this research and promoted collective reflections about Course Management Systems, the use of ICTs in Education and the need for a dialogical education approach. Considering that factors such as behavior, reactions and opinions are highly relevant in this research context, regarding the methodology, this fit as a qualitative research. The results achieved through the research, pointed to a series of contributions that this model of collaborative network tends to offer to the educational area, in particular, the finding that a dialogical process is achieved from a self-reflection process that leads to awareness and when socialized strengthens the group to build knowledge. The findings also pointed to a brief analysis about the different characteristics of ICT adopted, such as chat, video conferencing, wiki, forum and especially Moodle as a tool to provide the centralization of ICT in a single environment, facilitating the organization of the group.
Keywords: Free Software; Virtual communities; Learning management system; Education as humanization; Information technology and communication.
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1: Evolução em relação ao problema da pesquisa...27
Figura 2: Lições apresentadas por Raymond (1998) acerca do Modelo bazar...58
Figura 3: Desktop DebianEdu/Skolelinux...69
Figura 4: Software Gcompris - Exemplo de software livre na educação...70
Figura 5: Ambiente Moodle...74
Figura 6: Modelo Teórico de Rede de Colaboração...85
Figura 7: Ilustração do processo de educação dialógica do curso...119
ÍNDICE DE QUADROS
Quadro 1: Linha do Tempo do Movimento do Software Livre – (AGUIAR, 2009)...54 Quadro 2: Sujeitos da pesquisa...80 Quadro 3: Ponto de partida do Fórum - Protótipo da Rede de Colaboração...109
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AVA Ambiente Virtual de Aprendizagem
BSD Berkeley Software Distribution
GNU Gnu's Not Unix
GPL General Public License
IRC Internet Relay Chat
LoCo Local Community
MIT Massachussets Institute of Technology
OED Oxford English Dictionary
SABDFL Self-Appointed Benevolent Dictator for Life Unicamp Universidade Estadual de Campinas
TIC Tecnologia da Informação e Comunicação
SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO...23 1.1 TRAJETÓRIA DO AUTOR...23 1.2 CENÁRIO DA PESQUISA...24 1.2.1 PROBLEMÁTICA DA PESQUISA...26 1.2.2 HIPÓTESES...27 1.3 ORGANIZAÇÃO DA DISSERTAÇÃO...29 2. EDUCAÇÃO...31
2.1 EDUCAÇÃO DIALÓGICA E LIBERDADE...31
3. INTERNET E SOCIEDADE...35
3.1 A SOCIEDADE EM REDE...39
3.2 INTERNET E A NOVA RELAÇÃO COM O SABER...40
3.3 INTERNET E INTELIGÊNCIA COLETIVA: VENENO OU REMÉDIO?...45
3.4 COMUNIDADES VIRTUAIS...47
4. MOVIMENTO DO SOFTWARE LIVRE...51
4.1 ECOSSISTEMA DO SOFTWARE LIVRE...54
4.1.1 PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARES LIVRES...56
4.1.2 O PROJETO DEBIAN...61
4.1.3 COMUNIDADE UBUNTU...65
4.2 SOFTWARE LIVRE NA EDUCAÇÃO...68
5. METODOLOGIA...75
5.1 SOBRE A METODOLOGIA DE PESQUISA...75
5.2 A OPÇÃO METODOLÓGICA...75
5.3 PROCEDIMENTOS DE PESQUISA...78
5.4 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS...82
6 UM MODELO DE REDE DE COLABORAÇÃO NA EDUCAÇÃO...85
7. RESULTADOS E DISCUSSÕES...93
7.1 CATEGORIA 1: EDUCAÇÃO DIALÓGICA...95
7.2 CATEGORIA 2: ECOSSISTEMA DE COLABORAÇÃO...100
7.3 CATEGORIA 3: TIC...110
8. DISCUSSÕES FINAIS...117
8.1 REFLEXÕES ACERCA DO MODELO E SUA APLICAÇÃO...117
8.2 ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES E POSSIBILIDADES FUTURAS...126
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...129
ANEXO A – CONTEÚDO E PLANEJAMENTO DO CURSO “O AMBIENTE MOODLE COMO APOIO AO ENSINO PRESENCIAL”...135
1. INTRODUÇÃO
1.1 TRAJETÓRIA DO AUTOR
A escolha e delimitação de um determinado tema assim como as decisões e interpretações ao longo da pesquisa são diretamente influenciadas por aspectos relacionados inclusive à trajetória do autor. De acordo com Gewansdsznajder (2001)
[…] tanto a formação intelectual do pesquisador, quanto suas experiências pessoais e profissionais relacionadas ao contexto ou aos sujeitos introduzem vieses na interpretação dos fenômenos observados (p.160).
O interesse pelo Movimento do Software Livre1, e suas relações com a tecnologia e com o desenvolvimento da sociedade foram determinantes para a escolha da atuação profissional do autor que, desde o curso de graduação, voltava-se para uma realidade social e pessoal.
O autor iniciou em 2005 a graduação em Tecnologia em Software Livre, pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, na cidade de Americana-SP. Durante os três anos de estudo, buscou aproximar-se dessa área da Tecnologia. Já no segundo ano de faculdade, em 2006, desenvolveu um projeto de Iniciação Científica, orientado pelo Prof. Dr. Pedro Grosso com o tema “Um algoritmo genético para otimização de horários em uma instituição de ensino superior”.
Tal pesquisa teve como um dos principais produtos, o desenvolvimento de um software para a solução do problema de adequação da grade horário de uma instituição de ensino superior considerando aspectos como: disponibilidade dos docentes, questões trabalhistas como a jornada de trabalho , além de aspectos pedagógicos. No que se refere ao desenvolvimento acadêmico do autor, o estudo foi de grande importância pois, de fato, introduziu-o ao mundo da pesquisa científica.
1 Movimento que se organizou em 1983 quando Richard Stallman iniciou o projeto GNU e criou a Free Software
Foundation. Este movimento busca difundir o uso de softwares livres, que são softwares que respeitam a
liberdade do usuário em executá-lo, estudar seu funcionamento, redistribui-lo e aperfeiçoá-lo. Este movimento tem uma filosofia muito peculiar com base na partilha e colaboração onde os membros estão organizados em comunidades formadas através da internet.
No ano de 2007, tendo como base sua formação, o autor buscou voltar seu olhar para a área pedagógica e com intuito de encontrar contribuições do Movimento do Software Livre à educação, o trabalho de conclusão de sua graduação discorreu sobre: “Projeto de inclusão digital e capacitação para alunos do curso de Pedagogia”.
Em parceria com o Centro Universitário Salesiano, criou um curso sobre a utilização de ferramentas pedagógicas livres, voltado aos alunos do curso de Pedagogia, em que além da contribuição para a formação deles, buscou identificar as percepções destes em contato com a área de Software Livre bem como com as ferramentas criadas de forma colaborativa por pessoas ao redor do mundo.
Esse trabalho, que até então se tratava de um estágio de conclusão de curso, em 2009 se desdobrou no projeto de pesquisa de mestrado submetido e aceito pelo programa de pós-graduação da Faculdade de Tecnologia da UNICAMP.
Concomitante à pesquisa, em 2011, o autor desenvolveu um projeto de voluntariado em Angola, onde teve a oportunidade de difundir o Movimento do Software Livre em uma realidade social carente de oportunidades e acessos, através de formações para jovens e melhorias de estruturas para uma parcela da sociedade mundial, muitas vezes esquecida e excluída dos avanços tecnológicos.
1.2 CENÁRIO DA PESQUISA
Um dos fenômenos de destaque na sociedade contemporânea é a crescente possibilidade de comunicação provocada pela presença das tecnologias de informação e comunicação (TIC) baseadas na internet, em que conceitos como tempo e espaço são redefinidos.
A internet é comparada ao que foram as redes elétricas na era industrial, ou seja, uma grande rede2 com a capacidade de levar a força da informação aos diversos domínios da atividade humana.
2 Para Castells (2003), rede é um conjunto de nós interconectados. Este conceito será melhor aprofundado no capítulos sequentes.
A sociedade como um todo sente os efeitos causados pelo rápido avanço tecnológico, seja por sua apropriação ou por sua exclusão, já que as TIC não chegam para todos ao mesmo tempo, o que é preocupante do ponto de vista social.
Além disso, a propagação da tecnologia provoca a necessidade de se repensar os vários modelos da sociedade e dentre eles o sistema educacional vigente, afinal, com o avanço das TIC, novas possibilidades, crescimento e desenvolvimento, inclusive pessoal, surgem. Segundo alguns autores abordados neste trabalho, existem alguns aspectos que podem ser alterados para que a educação atenda com mais propriedade, a um de seus papéis principais que é de formar o ser humano de forma integral e para a liberdade.
Assim, um dos movimentos que surge sob essa ideologia é o Movimento do Software Livre, baseado em valores como liberdade de acesso, compartilhamento do conhecimento e colaboração. Esse movimento tem crescido e incentivado iniciativas semelhantes em outros setores da sociedade, como a própria educação e a cultura. Um dos aspectos mais intrigantes e relevantes do Movimento do Software Livre está em seu modelo de desenvolvimento colaborativo, formado por voluntários ao redor do mundo que desenvolvem softwares de alta qualidade e em um tempo bem curto quando comparado a outros modelos de desenvolvimento de software. Isso se deve a vários aspectos presentes nesse modelo e que serão considerados mais adiante neste trabalho.
Considerando o Movimento do Software Livre, as emergências encontradas na área educacional e a potencialidade de modelos colaborativos de desenvolvimento, esta pesquisa visa identificar as contribuições desse movimento na área de educação e favorecer o desenvolvimento de um modelo de formação por meio de redes de colaboração.
Buscando atingir o objetivo da pesquisa, é elaborado neste trabalho um modelo de rede de colaboração tendo como base a literatura estudada, em especial aspectos presentes nas comunidades de Software Livre. Um curso de formação para professores foi desenvolvido e aplicado, criando assim, o ambiente adequado para o estudo do modelo de rede de colaboração citado.
1.2.1 PROBLEMÁTICA DA PESQUISA
O Movimento do Software Livre, apesar de se desenvolver dentro de um contexto técnico-científico, tem uma base filosófica muito marcante, tornando-o diferenciado em relação às outras áreas da tecnologia. A filosofia envolvida nesse movimento tem como princípio a liberdade de utilização, compartilhamento e modificação de softwares, algo que é possível devido ao código-fonte3 ser aberto, ou seja, disponível para qualquer pessoa ver, modificar, aprimorar e aprender com ele. Toda essa transparência é refletida na relação entre os desenvolvedores de software livre. Neste sistema todos são bem vindos a colaborar para a melhoria dos softwares, criando as comunidades. As comunidades são formadas por pessoas ao redor do mundo que colaboram de forma muitas vezes voluntária, para um determinado projeto. Esta colaboração não envolve somente aqueles que possuem conhecimentos de programação, mas muitos outros,pessoas envolvidas em outras funções, tais como traduções de softwares, manuais de uso, publicidade, testes do software e tantas outras coisas que podem ser úteis para um programa.
Em consonância com o Movimento do Software Livre, há também outras iniciativas as quais têm se desenvolvido em algumas áreas da sociedade, como cultura, engenharia e na própria área da educação. Em todas elas, com a utilização da internet é possível a partilha do conhecimento, como por exemplo a The Open University4, Wikipedia5 e o Creative Commons6 que possibilitam a licença de conteúdos garantindo que sejam sempre livres e acessíveis.
O trabalho aqui apresentado parte da observação dessa influência do Movimento do Software Livre na educação e da percepção de que iniciativas baseadas na colaboração entre as pessoas e a busca pela liberdade, podem favorecer os indivíduos num processo educativo.
Esses pressupostos deram origem a um diálogo problematizador que culminou na seguinte pergunta: como o Movimento do Software Livre pode contribuir para a formação de redes de colaboração na educação?
3 É o conjunto de palavras e símbolos contendo instruções em uma linguagem de programação, que é interpretada e executada pelo computador.
4 The Open University é uma universidade de ensino a distância e de entrada livre, fundada e mantida pelo governo do Reuno Unido. Disponível em: <http://www.open.ac.uk >. Acesso em: 04 jan. 2013.
5 A maior enciclopédia do mundo, construída de forma colaborativa através da internet.
6 ONG voltada a expandir a quantidade de obras criativas disponíveis, através de suas licenças que permitem a cópia e compartilhamento das obras. Essas licenças fazem parte da filosofia do copyleft, oposto do que chamamos de copyright.
A figura 1 apresenta a evolução deste diálogo até a definição do tema e da pergunta central desta pesquisa.
1.2.2 HIPÓTESES
Comumente, nos trabalhos de pesquisa, fazem-se importantes as hipóteses construídas acerca do tema de estudo. Ao referir-se às hipóteses em uma pesquisa científica, Gewandsznajder (2001) ressalta alguns aspectos relevantes, entre eles a criatividade do autor, comparando a atividade científica a uma obra de arte.
Apesar da liberdade que se tem, as hipóteses não podem surgir de forma desconexa daquilo que é a atividade científica e devem ser construídas com base em uma série de conhecimentos prévios sobre aquilo que já foi pesquisado sobre o tema.
Considerando esses aspectos e tendo-se a questão central desta pesquisa, qual seja: “Como o Movimento do Software Livre pode contribuir para a formação de redes de colaboração na educação?”, as hipóteses estabelecidas são:
a) O Movimento do Software Livre pode auxiliar na formação de redes de colaboração na educação através de softwares desenvolvidos por comunidades ao redor do mundo que têm como objetivo, potencializar a comunicação entre as pessoas, favorecendo possibilidades de colaboração entre elas.
Acredita-se que softwares como o Moodle7, ferramentas de chat, fóruns, ferramentas de videoconferência, entre outras, podem contribuir para potencializar a comunicação entre os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem, os quais, muitas vezes, com dificuldades de tempo e locomoção podem encontrar na internet uma possibilidade de desenvolvimento e de construção de conhecimento.
b) O Movimento do Software Livre, por ser uma área desenvolvida de forma totalmente colaborativa, pode contribuir com outras áreas, entre elas a educação, auxiliando na construção de um modelo de rede de colaboração criado através da experiência identificada nas comunidades de desenvolvimento de software livre. Aspectos positivos e negativos dessas comunidades podem ser considerados e readequados para a formação de redes de colaboração na educação.
É importante ressaltar que num processo de estabelecimento de hipóteses, um trabalho não se restringe na simples comprovação das hipóteses levantadas, mesmo porque novas possibilidades e constatações qualitativas surgem na interação entre as pessoas ao longo do tempo. Além disso, a importância do processo de compreensão de como e por que as relações se dão, pelo pesquisador, são muitas vezes essenciais nas atividades de pesquisa e na compreensão de uma dada relação.
7 O Moodle é um Ambiente Virtual de Aprendizagem com o objetivo de possibilitar aos educadores ferramentas que permitem a construção de um ambiente que promova a aprendizagem.
1.3 ORGANIZAÇÃO DA DISSERTAÇÃO
Esta dissertação está organizada em oito capítulos. No capítulo 1 é apresentada a introdução à pesquisa, com a trajetória do autor e com a abordagem de aspectos referentes ao cenário em que se insere a pesquisa e a problemática em questão.
Os capítulos 2, 3 e 4 apresentam a fundamentação teórica desta pesquisa. No capítulo 2, são abordados aspectos da educação sob a visão de Paulo Freire, em que buscamos explicitar os pontos necessários para a prática de uma educação dialógica, voltada para a liberdade. O capítulo 3 apresenta detalhes sobre a internet e sua história, assim como as influências de sua apropriação na sociedade e a relação desta com a construção do espaço do saber, tecendo esta análise sob o olhar de Pierre Lévy e Manuel Castells. No capítulo 4 é abordado o Movimento do Software Livre: seu histórico, aspectos do ecossistema, análise de algumas comunidades e a relação do software livre com a educação. Esta análise é feita com base em autores como Stallman (2002), Raymond (1998), Aguiar (2009), Silveira (2004), entre outros.
No capítulo 5 são abordados os aspectos metodológicos da pesquisa com o objetivo de explicitar os procedimentos adotados e de possibilitar o acompanhamento por parte dos leitores.
No capítulo 6 é apresentado o modelo de rede de colaboração construído, tendo-se por base as comunidades de software livre e a fundamentação teórica apresentada.
O Capítulo 7 apresenta os resultados da pesquisa junto de suas análises e discussões e, finalmente, as conclusões deste trabalho são apresentadas no capitulo 8.
2. EDUCAÇÃO
2.1 EDUCAÇÃO DIALÓGICA E LIBERDADE
A educação, no sentido amplo, e a liberdade possuem uma relação estreita conforme nos apresenta o educador e filósofo Paulo Freire.
Entende-se que a educação tem a essencial função de provocar a autorreflexão das pessoas e, segundo Freire (2000), o processo de libertação de um povo inicia-se com a tomada de consciência de sua condição de “oprimidos” que é atingido através deste processo. De acordo com o autor a:
Auto-reflexão [sic] que as levará ao aprofundamento conseqüente [sic] de sua tomada de consciência e de que resultará sua inserção na História, não mais como espectadoras, mas como figurantes e autoras. (FREIRE, 2000,p.44). A luta pela libertação não se justifica por atividades corriqueiras do dia-a–dia, tal como andar, comer e falar; mas pela liberdade que as pessoas têm de pensar e refletir, de lutar e ser agente ativo nas escolhas e decisões – protagonistas em suas histórias. (FREIRE, 2005, p.62).
O autor, ao denunciar na sociedade uma dinâmica de relação opressora, aponta que tanto opressor quanto oprimido são frutos de um processo de desumanização que deve ser combatido por meio do trabalho livre, de desalienação e pela afirmação dos homens como pessoas, como seres humanos.
No que diz respeito à luta dos “oprimidos” em se libertarem dessa situação, Freire (2005) revela que a busca da opressão daqueles que eram opressores é um movimento em sentido contrário. Que é necessária a luta pela restauração da humanidade e da dignidade humana de opressores e de oprimidos.
Dentro deste contexto, revela que a grande tarefa dos “oprimidos” é “libertar-se a si e aos opressores” (p. 33) e reforça a vocação do homem em ser mais, com o direito a crescer, evoluir com dignidade e ir além. Negar ao homem esse acesso e direito caracteriza uma forma de violência real.
Esse processo de libertação que fala o autor, passa pela inserção crítica das massas na sua realidade de forma que o oprimido comece a saber-se oprimido dentro de seu contexto o que é fruto de um processo de autorreflexão.
A educação, seja ela formal ou informal, vai além da simples possibilidade das pessoas desenvolverem habilidades específicas, de ler, escrever e fazer cálculos. A educação tem, como uma de suas principais missões, instigar o pensamento crítico, possibilitando um novo sentido de aprendizado e de vida.
E consegue fazê-lo, na medida mesma em que a alfabetização é mais do que o simples domínio psicológico e mecânico de técnicas de escrever e de ler. É o domínio dessas técnicas, em termos conscientes. É entender o que se lê e escrever o que se entende. É comunicar-se graficamente. É uma incorporação. (FREIRE, 2000,p.119).
É isto que se entende por educação no sentido amplo da palavra, ou seja, uma educação que busca a formação integral do ser.
Como único caminho para uma pedagogia humanizadora, que busca a liberdade através da tomada de consciência, Freire (2005) indica a prática de uma educação dialógica, tendo como base a comunicação e a relação entre educadores e educandos, exigindo desses agentes envolvidos uma nova postura, a de “converter-se para que façam realmente educação e não 'domesticação'”(FREIRE, 2000,p.123).
Essa domesticação muitas vezes praticada nas salas de aula e em outros ambientes da sociedade é traduzida por Freire (2005) através do que este chama de 'Concepção Bancária' na qual “em lugar de comunicar-se, o educador faz comunicados e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem” (p.66).
A promoção da liberdade através da educação, encontra na relação educador-educando um de seus principais pontos de reflexão, afinal, segundo Freire (2000) é a participação livre e crítica dos educandos que irá auxiliar na eficácia e efetividade da educação praticada.
Educador e educandos, co-intencionados [sic] à realidade, se encontram numa tarefa em que ambos são sujeitos no ato, não só de desvelá-lo e, assim, criticamente conhecê-la, mas também no de recriar este conhecimento. (FREIRE, 2005, p.64).
Esta forma de ação e busca pela liberdade deixa de ser uma 'pseudoparticipação' e passa a ser uma busca em que os agentes estão engajados nesse processo de transformação (FREIRE, 2005). Nesta relação é necessário que se estabeleça uma relação dialógica, de vivência de uma realidade em constante movimento e crescimento, não de abordagens que tendem a se enrijecer e perder-se devido a falta de sentido.
Aspectos de valorização humana como de humildade, de reconhecimento da importância do outro, de ausência do sentimento de auto suficiência e fé no homem são essenciais para que o diálogo entre educador e educando realmente aconteça.
De acordo com Freire (2005), este diálogo entre educador e educando não se inicia no ato de uma situação pedagógica, mas antes, quando agentes deste processo se questionam sobre o que se irá dialogar (p. 96). Ou seja, este diálogo se dá a partir do momento que se projeta a ação nas idealizações que se faz, na definição do assunto norteador do diálogo, afinal, “quem dialoga, dialoga com alguém sobre alguma coisa” (FREIRE, 2000,p.116) e este 'alguma coisa' na prática pedagógica é o tema que irá nortear cada momento dos encontros de formação.
Em uma relação “educador-educando”, que ocorre de forma dialógica, problematizadora, o conteúdo deixa de ser uma imposição e passa a ser uma revolução organizada e sistematizada daqueles elementos que o educando apresentou-lhe, mesmo que de forma desestruturada e bruta (FREIRE, 2005).
Neste sentido Schlemmer (2005) apresenta uma abordagem atual em relação à educação e a forma com que as TIC interferem na sociedade como um todo, inclusive na construção do saber. De acordo com o autor é necessário:
[…] passarmos de uma cultura de ensino, centrada numa concepção empirista, a qual tem como paradigma constituinte a sociedade industrial, para uma cultura de aprendizagem, centrada numa concepção interacionista, impulsionando o desenvolvimento de uma sociedade em rede ( SCHLEMMER, 2005, p.136). Tendo como objetivo uma cultura de aprendizagem o foco do processo educacional está na interação, construção de conhecimentos, desenvolvimento de competências e habilidades, ou seja, focando de fato a aprendizagem (SCHLEMMER, 2005). Estando de acordo com aquilo que Freire (2005) nos propõe ao revelar a necessidade da dialogicidade desde a definição do assunto
sobre o qual irá se dialogar, Schlemmer (2005, p.136) exalta que “o ensino parte do que o aluno sabe, fundamentado num processo dialógico”.
Essa ação exige uma postura diferenciada do educador que é chamado a ser “mediador e coparticipante, assumindo funções de facilitador, problematizador, articulador e orientador da aprendizagem, de forma que o conteúdo seja construído na criação de redes de informação” (SCHLEMMER, 2005, p.136), mesmo porque, tais redes de informação ganham um novo sentido com as tecnologias no processo educativo. Desta forma, de acordo com Levy (1999, p.158) “[...] o professor é incentivado a tornar-se animador da inteligência coletiva de seus grupos de alunos em vez de um fornecedor direto de conhecimentos.”
Tal comportamento torna-se cada vez mais diferenciado tendo-se em vista o perfil de aluno e necessidades que se fazem presentes.
Os aspectos citados por Paulo Freire no que diz respeito a uma dinâmica de opressão na sociedade superam os limites econômicos e estabelecidos entre as diferentes camadas sociais, além disso pode ser transposto para uma série de outras relações em que a liberdade não é respeitada na sua integralidade e se figura algum tipo de violência velada ou não.
3. INTERNET E SOCIEDADE
O rápido avanço da tecnologia e os mecanismos de um novo paradigma tecnológico que se organiza em torno das tecnologias de informação e comunicação corroboram para uma espécie de revolução cultural desde o final do século XX.
O acesso ao conhecimento e o potencial desenvolvimento tecnológico, se expandem rapidamente e se transformam, sem exagero da expressão, a cada dia.
[...] o processo atual de transformação tecnológica expande-se exponencialmente em razão de sua capacidade de criar uma interface entre campos tecnológicos mediante uma linguagem digital comum na qual a informação é gerada, armazenada, recuperada, processada e transmitida.” (CASTELLS, 1999, p.50)
A tecnologia da informação é para a atual sociedade, para a atual revolução, o que as novas fontes de energia foram na revolução industrial. (CASTELLS, 1999).
De acordo com o autor, o que caracteriza uma “revolução tecnológica” é justamente a utilização que se faz de conhecimentos produzidos e gerados através das TIC para a geração de novos conhecimentos e dispositivos que são, inclusive, aplicados no próprio desenvolvimento dessas tecnologias, como num ciclo vicioso.
É importante ressaltar que esta transformação que ocorre com base nas TIC surge da própria sociedade, e não de fora dela. Desta forma, segundo Lévy (1999), a tecnologia não é algo externo à sociedade, mas sim um produto, ou seja, fruto de uma determinada sociedade e cultura.
Existem relações estreitas entre desenvolvimentos tecnicoindustriais e certas correntes culturais ou fenômenos de mentalidade coletiva. O grande desenvolvimento do automóvel, por exemplo, responde ao desejo de autonomia e de potência individual, envolvendo emoções, gozos e frustrações das pessoas. “Se não tivesse encontrado desejos que lhe respondem e a fazem viver, a indústria automobilística não poderia, com suas próprias forças, ter feito surgir esse universo” (LÉVY, 1999, p.123).
Assim como na indústria automobilística, o crescimento do ciberespaço8 está intimamente conectado a um desejo de comunicação recíproca. Nesse sentido, o uso das infraestruturas e 8 “O novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores” (LEVY, 1999, p.17).
técnicas geradas no ciberespaço para que de fato tenham determinados benefícios sociais é de extrema importância. “O ciberespaço não é uma infra-estrutura [sic] técnica particular, de telecomunicação, mas uma certa forma de usar as infra-estruturas [sic] existentes, por mais imperfeitas e disparatadas que sejam” (LÉVY, 1999, p.124).
A importância da forma com que se utiliza uma determinada infraestrutura técnica fica clara se tomarmos como exemplo o correio. As técnicas materiais e organizacionais do correio existem na China, desde a mais remota Antiguidade, e também foram conhecidas pelo império Romano na Idade Média, porém, só se tornou de fato uma inovação social no século XVII, com o uso da técnica postal para distribuição do correio ponto a ponto. Seguindo a mesma direção, Lévy (1999) cita um movimento social que surgiu na Califórnia, chamado Computers for the People, formado por jovens hackers com o, até então utópico, objetivo de fazer com que os computadores fossem acessíveis a todas as pessoas.
Conhecer a história do desenvolvimento da internet e a convergência desta com outras redes é parte essencial de um bom entendimento da forma com que a apropriação desta tecnologia pode influenciar uma determinada sociedade (CASTELLS, 1999).
A história da internet nos revela uma extraordinária aventura humana em busca do novo, pois “ela põe em relevo a capacidade que têm as pessoas de transcender metas institucionais, superar barreiras […] no processo de inaugurar um mundo novo” (CASTELLS, 2003, p.13).
Várias ações precursoras foram importantes, porém foi a ARPANET9 que deu origem à internet como se conhece hoje. Este projeto originou-se no Departamento de Defesa dos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, com a preocupação principal de financiar o desenvolvimento da ciência da informação e, através dela, permitir que os cientistas pudessem ter privacidade de trabalho com a possibilidade de desenvolvimento de pesquisas que tinham orientações claramente militares (CASTELLS, 2003).
De acordo com Castells (1999), o surgimento da internet é colocado como “rara mistura de estratégia militar, grande cooperação científica e inovação contracultural” (p.375). Muitos foram os investimentos em pesquisas da ARPANET sendo que aos poucos, pesquisadores, engenheiros
9 “Uma rede de computadores montada pela Advanced Research Projects Agency (ARPA) em setembro de 1969” (CASTELLS, 2003, p.13).
e acadêmicos foram tendo acesso a ela, podendo assim contribuir para seu crescimento (CASTELLS, 2003).
A agência ARPA ao compreender a importância da autonomia no processo de pesquisa e desenvolvimento permitiu que a ARPANET se desenvolvesse com estes princípios de liberdade e autonomia dos pesquisadores o que culminou tanto em frutos para fins militares como contribuiu para a liberdade e criatividade dos universitários norte-americanos “proporcionando os recursos necessários para transformar suas ideias em investigação e suas investigações em tecnologias aplicáveis” (CASTELLS, 2003, p. 35).
Em 1983 a ARPANET se dividiu em MILNET que seria utilizada estritamente para fins militares e ARPA-INTERNET que seria utilizada para fins de pesquisas. Outras iniciativas de pesquisa surgiram também na Europa, financiadas por instituições governamentais, grandes universidades e centros de investigação, pois “era uma tecnologia demasiadamente ousada, um projeto muito caro e uma iniciativa muito arriscada para ser assumida por uma empresa privada” (CASTELLS, 2003, p. 36).
Segundo Castells (2003, p.17) “o que permitiu a Internet abarcar o mundo todo foi o desenvolvimento da www”. Esta aplicação foi desenvolvida em 1990 por Tim Berners-Lee, um programador inglês. A World Wide Web (www) é um sistema de documentos que permite “obter e acrescentar informação de e para qualquer computador conectador através da internet”(CASTELLS, 2003, p.18).
Alguns anos antes, em 1963, o pensador Ted Nelson já havia previsto o hipertexto10, que permite interligar informações. Ele trabalhou muitos anos em um sistema com o nome Xanadu, “um hipertexto aberto, auto-evolutivo [sic], destinado a vincular toda a informação passada, presente e futura do planeta” (CASTELLS, 2003, p.18).
Dentro desse contexto de liberdade de criação e expressão e estímulo a criatividade surgiu a internet que hoje conhecemos. De acordo com Castells (2003, p.38) “As sementes da internet se plantaram na terra incerta dos espaços relativamente livres mas ricos em recursos [...]”.
10 Termo que remete a um texto em formato digital, ao qual se agregam outros conjuntos de informação cujo acesso se dá através de referências específicas denominadas links, os quais oferecem acesso sob demanda as
A internet cresce significativamente utilizando-se de uma dinâmica colaborativa graças a diversas redes independentes que a alimentam, sejam associações, universidades e outras mídias clássicas.
Se a internet constitui o grande oceano do novo planeta informacional, é preciso não esquecer dos muitos rios que a alimentam: redes independentes de empresas, de associações, de universidades, sem esquecer as mídias clássicas (bibliotecas, museus, jornais, televisão, etc.)[...]É exatamente o conjunto dessa 'rede hidrográfica', que constitui o ciberespaço, e não somente a Internet (LÉVY, 1999, p.125).
Assim como todos os sistemas tecnológicos se desenvolvem dentro de um contexto social e estes contextos são determinados pela cultura, com a internet não é diferente, visto que o formato que determinou a chamada “Cultura da Internet” foi se formando com os valores daqueles que a produziram. “Aqueles que fizeram crescer o ciberespaço são em sua maioria, anônimos, amadores dedicados a melhorar constantemente as ferramentas de software de comunicação” (LÉVY, 1999, p.126).
Conforme aponta Castells (2003) muitos dos aspectos presentes na Cultura da Internet foram herdados da chamada Cultura Hacker, já praticada nas comunidades acadêmicas. É importante esclarecer o mal entendido que se faz sobre o termo “hacker”, comumente atribuído a pessoas que cometem crimes virtuais e que têm por objetivo a invasão de sistemas de segurança e quebra de senhas particulares. Conforme apresenta Aguiar (2009) o correto termo para estes criminosos é “cracker”. Em geral tais grupos são repudiados pelas comunidades formadas de hackers:
[…] a práxis dos hackers fundamenta uma cultura que diz respeito ao conjunto de valores e crenças que emergiu das redes de programadores de computador que interagiam on-line em torno de projetos técnicos e colaborativos que visavam resultados inovadores (AGUIAR, 2009, p. 14).
Com o surgimento da internet e das TIC, novas possibilidades surgiram para conectar as pessoas, facilitando, então, a formação e expansão de novas redes, assim como as redes de computadores citadas por Aguiar (2009) que deram origem ao Movimento do Software Livre.
3.1 A SOCIEDADE EM REDE
Uma rede, segundo Castells (1999, p.498), é “um conjunto de nós interconectados” que possuem como característica o fato de serem abertos e capazes de se expandirem de forma ilimitada, integrando novos nós que por sua vez conseguem se comunicar dentro da rede onde estão (CASTELLS, 1999).
De acordo com o autor, as possibilidades intrínsecas de flexibilidade e adaptação que possuem as redes, são importantes, quando inseridas em um ambiente de rápida mutação.
A forma de organização social em redes é algo que existia em outros tempos e espaços, porém as TIC fornecem uma base material para sua expansão e penetração em toda estrutura social. Castells (2003) aponta três processos que no final do século XX se uniram para formar uma nova estrutura social, baseada em redes. São eles:
• As exigências da economia por flexibilidade administrativa e por globalização do capital, da produção e do comércio;
• As demandas da sociedade, em que os valores da liberdade individual e da comunicação aberta tornaram-se supremos;
• Os avanços extraordinários na computação e nas telecomunicações possibilitados pela revolução microeletrônica.
Tais condições apontam a internet como um instrumento fundamental na transição de uma nova forma de sociedade. Uma sociedade sem fronteira, viabilizada por uma rede que rompe distâncias e superam os limites.
Rede das redes, baseando-se na cooperação anarquista de milhares de centros informatizados no mundo, a internet tornou-se hoje o símbolo do grande meio heterogêneo e transfronteiriço que aqui designamos como ciberespaço (LÉVY, 1998, p.12).
Apesar dessas características, Lévy (1999) ressalta o caráter 'vazio' de intencionalidade e previsão da internet, afinal, esta por si só não se define.
O universal da cibercultura não possui nem centro nem linha diretriz. É vazio, sem conteúdo particular. Ou antes, ele os aceita todos, pois se contenta em colocar em contato um ponto qualquer com qualquer outro, seja qual for a carga semântica das entidades relacionadas. (LÉVY, 1999, p.111).
Isso não quer dizer que a universalidade do ciberespaço seja neutra, afinal, somente o fato de interconectar os pontos já transforma, efetivamente as condições em sociedade (LÉVY, 1999).
Os processos de transformação social caraterísticos da sociedade em rede não redefinem somente as relações sociais e técnicas de produção, mas afetam inclusive a cultura e o poder de forma profunda, afinal as funções e os processos dominantes estão cada vez mais organizados em tornos das redes.
Redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades, e a difusão da lógica de redes modifica de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência, poder e cultura (CASTELLS, 1999, p.497).
Tal modificação, segundo Lévy (1999) atinge também o futuro dos sistemas de educação e formação na cibercultura, afinal, qualquer reflexão neste contexto deve partir de uma análise da relação do saber com a mutação contemporânea.
3.2 INTERNET E A NOVA RELAÇÃO COM O SABER
A internet apresenta possibilidades que quando consideradas podem modificar a forma com que as pessoas estão acostumadas a construir o conhecimento. Lévy (1998 e 1999) apresenta uma relação ainda mais íntima quando aponta que a internet pode servir de infraestrutura para o surgimento do 'Espaço do Saber', ou seja, de um espaço antropológico onde a identificação social se dá a partir da inteligência, ou seja, do conhecimento.
De acordo com Lévy (1998) um espaço antropológico é: “um sistema de proximidade (espaço) próprio do mundo humano (antropológico), e portanto, depende de técnicas, de significações, da linguagem, da cultura, das convenções, das representações e das emoções humanos”. (LÉVY, 1998, p.22)
A Terra é o primeiro grande espaço antropológico onde o vínculo com outros homens se constrói na relação de filiação ou de aliança. O segundo espaço antropológico é o Território onde este vínculo se faz através da entidade territorial (pertença, propriedade, etc), definida por fronteiras. A partir do século XVI surge o terceiro espaço: o espaço das Mercadorias, em que o
vínculo se dá através dos fluxos, seja de energias, de matérias-primas, mercadorias ou mesmo informações. Com o surgimento do terceiro espaço, a riqueza não vem do domínio das fronteiras, mas sim do controle dos fluxos (LÉVY, 1998).
Essa reflexão aponta, de acordo com Lévy (1998), para o surgimento de um novo espaço, o espaço do saber, que permite ao ser humano uma identificação social, independente de sua atuação profissional, (identificação característica do espaço das mercadorias).
Talvez a crise atual dos pontos de referência e dos modos sociais de identificação indique o surgimento, ainda mal percebido, incompleto, de um novo espaço antropológico, o da inteligência e do saber coletivo (LÉVY, 1998, p.24).
É importante ressaltar que este novo espaço tem vocação para comandar os espaços anteriores, afinal, é das capacidades de aprendizagem rápida e imaginação coletiva dos seres que dependem as redes econômicas e as potências territoriais.
Apesar dos espaços antropológicos anteriores também corresponderem a um modo de conhecimento específico, Lévy (1998) apresenta esse novo espaço como sendo o Espaço do Saber devido principalmente a três características:
• A velocidade de evolução dos saberes, pois, nunca a evolução das ciências e das técnicas foi tão rápida e com consequências tão diretas à vida cotidiana. “Eis uma das razões pelas quais o saber lidera as outras evoluções da vida social” (LÉVY, 1998, p.25);
• À massa de pessoas convocadas a aprender e produzir novos conhecimentos, pois, se torna impossível reservar o conhecimento somente a um grupo determinado de especialistas. “É o conjunto do coletivo humano que deve, daqui por diante, se adaptar, aprender e inventar para viver melhor no universo complexo e caótico em que passamos a viver” (LÉVY, 1998, p.25);
• Surgimento de novas ferramentas (as do ciberespaço) “que podem fazer surgir, por trás do nevoeiro informacional, paisagens inéditas, identidades singulares, específicas desse espaço, novas figuras sócio-históricas” (LÉVY, 1998, p.25). Essas ferramentas são consideradas ferramentas não somente comunicacionais, porém, são necessárias também ferramentas e técnicas para filtrar a quantidade de informações que temos hoje e assim construirmos significados através delas.
Considerando o espaço do saber, Lévy (1998) aponta que a finalidade das TIC, é fornecer aos grupos instrumentos para reunir suas forças e assim constituir intelectuais coletivos.
A informática comunicante se apresentaria então como a infra-estrutura [sic] técnica do cérebro coletivo ou do hipercórtex de comunidades virtuais (LÉVY, 1998, p.25).
Não cabe neste espaço a substituição do homem pela máquina, tampouco compor algum tipo de inteligência artificial, mas sim, através de suas potencialidades, promover a construção de coletivos inteligentes, permitindo assim a amplificação das potencialidades sociais e cognitivas de cada ser. (LÉVY, 1998)
Considerando que um espaço antropológico se constitui a partir da identificação social, Lévy (1999) apresenta a necessidade de renovar esse laço para que o espaço do saber se constitua. É necessário trilhar outros caminhos de identificação, pois os de pertença étnica, nacional ou religiosa muitas vezes conduzem a grandes impasses.
Basear o laço social na relação com o saber consiste em encorajar a extensão de uma civilidade desterritorializada, que coincide com a fonte contemporânea da força, ao mesmo tempo em que passa pelo mais íntimo das subjetividades. (LÉVY, 1998, p.27).
No espaço do saber, o aprendizado recíproco é o ponto de mediação das relações entre pessoas. Uma relação onde cada um veja no outro, alguém que sabe e que pode auxiliá-lo a 'ser mais', de modo que através da associação das competências ambos possam melhorar juntos. “Todos os seres humanos têm direito ao reconhecimento de uma identidade de saber” (LÉVY, 1998, p.28).
Intimamente conectado a esta forma de se relacionar em torno do saber, está a constituição de uma inteligência coletiva, que de acordo com Lévy (1998) é “uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (LÉVY, 1998, p.28).
De acordo com o autor, uma inteligência distribuída por toda parte, pois ninguém sabe tudo e todos sabem alguma coisa. “Se você cometer a fraqueza de pensar que alguém é ignorante, procure em que contexto o que essa pessoa sabe é ouro” (LÉVY, 1998, p.29). Concomitantemente deve ser uma inteligência incessantemente valorizada, pois muitas vezes a
preocupação se volta demasiadamente sobre o desperdício econômico e ecológico, dissipando o que Lévy (1998) aponta como o bem mais precioso, a inteligência. É necessário valorizá-la.
O autor apresenta como uma inteligência coordenada em tempo real, pois, as TIC podem fornecer aos membros das comunidades, meios de coordenarem suas interações no mesmo universo virtual de conhecimentos. “Nessa perspectiva, o ciberespaço tornar-se-ia o espaço móvel das interações entre conhecimentos e conhecedores de coletivos inteligentes desterritorializados” (LÉVY, 1998, p.29).
Por último, o autor cita que é necessário atingir uma mobilização efetiva das competências. Para que isso ocorra, deve-se antes identificar as competências partindo-se do fato de que as áreas do saber reconhecidas e organizadas atualmente pela sociedade representam uma pequena minoria perto de toda diversidade de saberes existentes na humanidade ou em uma determinada cultura. O não reconhecimento amplo dos saberes pode provocar, de alguma forma, uma recusa à verdadeira identidade social de determinado grupo, ou pessoa. Ignorar saberes populares, conhecimentos adquiridos e desenvolvidos até mesmo pelas tribos mais remotamente localizadas no planeta assim como novos saberes que surgem contemporaneamente é uma forma de exclusão, de acordo com Lévy “é alimentar seu ressentimento e sua hostilidade, sua humilhação, e frustração de onde surge a violência” (1998, p.30).
O reconhecimento e enriquecimento mútuo das pessoas são os grandes objetivos da inteligência coletiva.
Esse projeto convoca um novo humanismo que inclui e amplia o 'conhece-te a ti mesmo' para um 'aprendamos a nos conhecer para pensar juntos', e generaliza o 'penso, logo existo' em um 'formamos uma inteligência coletiva, logo existimos eminentemente como comunidade' (LÉVY, 1998, p.31).
A inteligência coletiva é a grande perspectiva da cibercultura, ou seja, sua finalidade última, sendo que o “ciberespaço talvez não seja mais do que um indispensável desvio técnico para atingir a inteligência coletiva” (LÉVY, 1999, p.130).
Nessa nova relação com o saber, presente na cibercultura com o advento da internet e suas tecnologias, também se faz necessário “um novo estilo de pedagogia, que favorece ao mesmo tempo as aprendizagens personalizadas e a aprendizagem coletiva em rede” (LEVY, 1999, p. 158). A construção do conhecimento ocorre dentro de um contexto social e colaborativo, ou seja,
“A formação de processos superiores de pensamento se dá pela atividade instrumental e prática, em interação e cooperação social” (FILATRO, 2009, p.98).
Na medida em que socializamos, vamos conhecendo os modos e implicações de nos relacionar com os demais, assim como vamos trocando conhecimentos que de diversas maneiras e segundo as condições sociais, vão reproduzindo e transformando nossos modos de vida. (FILATRO;PICONEZ, 2005, p.7, tradução nossa)
Existe uma relação estreita entre os aspectos presentes no projeto apresentado por Lévy (1998) para o Espaço do Saber e os valores presentes na Cultura da Internet que a acompanha desde o começo de sua construção.
[…] a Internet é um dos mais fantásticos exemplos de construção cooperativa internacional, a expressão técnica de um movimento que começou por baixo, constantemente alimentado por uma multiplicidade de iniciativas locais (LÉVY, 1999, p.126)
Castells (1999) aponta que alguns aspectos presentes nas origens das redes ainda permanecem presentes na dinâmica das relações através da internet e ressalta que apesar desta dinâmica apresentar relações de que 'muitos contribuem para muitos', cada um busca uma resposta individualizada.
[…] o que permanece das origens contraculturais da rede é a informalidade e a capacidade auto-reguladora [sic] de comunicação, a ideia [sic] de que muitos contribuem para muitos, mas cada um tem a própria voz e espera uma resposta individualizada. (CASTELLS, 1999, p.381)
Muitas são as possibilidades e implicações que surgem em relação com o saber quando consideramos o crescimento do ciberespaço, porém conforme aponta Lévy (1999), não necessariamente este crescimento promove o desenvolvimento da inteligência coletiva, assim como a inteligência coletiva não necessariamente apresenta somente bons frutos.
3.3 INTERNET E INTELIGÊNCIA COLETIVA: VENENO OU REMÉDIO?
O crescimento do ciberespaço não determina necessariamente o desenvolvimento da inteligência coletiva. Este apenas oferece à inteligência coletiva um ambiente propício para sua expansão (LÉVY, 1999).
Diversas outras formas, muitas vezes contrárias à inteligência coletiva surgem no ciberespaço:
• Isolamento e sobrecarga devido ao estresse pela comunicação e pelo trabalho diante da tela;
• Dependência, através do vício na navegação ou em jogos em mundos virtuais;
• Dominação, em que existe um domínio quase monopolista por parte de algumas potências econômicas sobre as funções da rede;
• Exploração, através de casos de teletrabalho vigiado;
• E bobagem coletiva, em que se espalham falsos rumores, conformismo em rede e acúmulo de dados sem informação.
Assim como o surgimento de formas contrárias à inteligência coletiva podem ser perigosas, o desenvolvimento da inteligência coletiva pode também apresentar fatores negativos.
Um dos efeitos da inteligência coletiva é acelerar o desenvolvimento da tecnociência o que de certa forma, torna necessária a participação ativa na cibercultura. Essa característica tende a excluir aqueles que não fazem parte deste ciclo de aprendizagem, desenvolvimento e apropriação das TIC.
Novo pharmakon11, a inteligência coletiva que favorece a cibercultura é ao
mesmo tempo um veneno para aqueles que dela não participam e um remédio para aqueles que mergulham em seus turbilhões e conseguem controlar a própria deriva no meio de suas correntes (LÉVY, 1999, p.30).
Considerando esses aspectos apresentados, dois pontos se tornam relevantes: o acesso às TIC e a forma com que são utilizadas.
A questão do acesso se torna um ponto altamente relevante no que diz respeito a um processo de inclusão social de uma determinada sociedade, visto que o acesso à internet ainda é 11 “Em grego arcaico, a palavra 'pharmakon' significa ao mesmo tempo veneno e remédio” (LÉVY, 1999, p.30)
privilégio da minoria12. “Na verdade, há grandes áreas do mundo e consideráveis segmentos da população que estão desconectados do novo sistema tecnológico” (CASTELLS, 1999, p.52).
Cada vez mais, parece haver menos espaço para aqueles que não possuem o privilégio do acesso, conforme nos alerta também Castells (1999):
Parece haver uma lógica de excluir os agentes da exclusão, de redefinição dos critérios de valor e significado em um mundo em que há pouco espaço para os não-iniciados em computadores, para os grupos que consomem menos e para os territórios não atualizados com a comunicação (p.41).
Quanto à utilização das TIC acredita-se necessário que sua utilização seja baseada numa apropriação que favoreça o desenvolvimento do ser humano e promova uma transformação na sua vida como indivíduo e como coletivo.
[…] se avaliássemos a tempo a importância do que está em jogo, os novos meios de comunicação poderiam renovar profundamente as formas do laço social, no sentido de uma maior fraternidade, e ajudar a resolver os problemas com os quais a humanidade hoje se debate (LÉVY, 1998, p.13).
Desta forma, faz-se necessário um olhar não voltado somente para o desenvolvimento técnico-científico, mas principalmente voltado para a pessoa humana, afinal, “Nada é mais precioso que o humano. Ele é a fonte das outras riquezas, critério e portador vivo de todo valor” (LÉVY, 1998, p.47).
A internet tem a característica de interconectar os seres humanos, o que segundo Castells (1999) favorece a criação de comunidades virtuais. “A comunicação mediada por computadores gera uma gama enorme de comunidades virtuais” (CASTELLS, 1999, p.38). Essas comunidades podem ser fontes riquíssimas de conhecimento e soluções, afinal, como ressalta Lévy (2000), as comunidades virtuais buscam atender o anseio humano pela inteligência coletiva.
12 De acordo com a União Internacional de Telecomunicações, em 2011, 34,7% da população mundial tinha acesso a internet. Disponível em: <http://www.itu.int/ITU-D/ict/statistics/at_glance/keytelecom.html>. Acesso em: 04 jan. 2013.
3.4 COMUNIDADES VIRTUAIS
As comunidades virtuais normalmente são constituídas por pessoas que cooperam entre si e possuem certa afinidade, objetivo ou conhecimento em comum.
Um grupo humano qualquer só se interessa em constituir-se como comunidade virtual para aproximar-se do ideal do coletivo inteligente, mais imaginativo, mais rápido, mais capaz de aprender e de inventar do que um coletivo inteligentemente gerenciado (LÉVY, 1999, p.130).
Segundo Castells (2003) os primeiros usuários da internet ao criarem comunidades virtuais, tiveram grande importância no desenvolvimento dos valores que permeiam a rede até hoje. “Essas comunidades foram fontes de valores que moldaram comportamento e organização social” (CASTELLS, 2003, p.46).
As pessoas envolvidas nas primeiras redes que deram origem à internet difundiram algumas formas de uso dessas redes, através do envio de mensagens, lista de correspondência, salas de chat, jogos para múltiplos usuários, conferências, entre outros. “Assim, enquanto a cultura hacker forneceu os fundamentos tecnológicos da Internet, a cultura comunitária moldou suas formas sociais, processos e usos” (CASTELLS, 2003, p.47).
A origem das comunidades on-line é próxima à origem de movimentos “contraculturais” e de modos de vida alternativa da década de 1960.
Entre os primeiros administradores, hospedeiros e patrocinadores do WELL13
estavam pessoas que haviam tentado a vida em comunidades rurais, hackers de computadores pessoais, e um grande contingente de deadheads, fãs de banda de rock Grateful Dead. (CASTELLS, 2003, p.48).
As primeiras conferências que ocorreram de forma on-line, pareceram, de certa forma, uma tentativa de se concretizar experiências que presencialmente não foram bem sucedidas como por exemplo, a tentativa de vida em comunidades rurais, citadas por Castells (2003).
Para que uma comunidade virtual se desenvolva, Lévy (1999) coloca como pressuposto a existência de interconexão que possibilitará que barreiras geográficas sejam rompidas.
Uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais (LÉVY, 1999, p.127).
No que diz respeito à dinâmica das relações, Lévy (1999) afirma que raramente substituem as relações presenciais, pois a responsabilidade individual, a opinião pública, assim como as emoções fortes, não desaparecem no ciberespaço.
Os participantes das comunidades virtuais desenvolveram uma forte moral social e com isso uma série de boas práticas, conhecidas como 'netiquetas'. Lévy (1999) apresenta algumas delas:
• Não se deve enviar uma mensagem a respeito de determinado assunto em uma conferência eletrônica que trata de outro assunto;
• É recomendável consultar a memória da conferência eletrônica antes de exprimir-se e, em particular, nunca fazer perguntas para a coletividade se as respostas já estiverem disponíveis nos arquivos da comunidade virtual;
• A publicidade comercial é não apenas desaconselhável, mas, em geral, fortemente desencorajada em todos os fóruns eletrônicos.
A moral presente nas comunidades virtuais tem como principal ponto a reciprocidade, inclusive no que diz respeito aos benefícios obtidos através delas. Se uma informação é útil e importante, ela encoraja o sujeito a partilhá-la com outras pessoas para que se beneficiem também da informação. Além disso, ataques pessoais não são bem vindos podendo levar o sujeito a ser expulso da comunidade. Apesar dessas pequenas regras, em geral, a liberdade da palavra é encorajada, assim como a censura não é bem vinda (LÉVY, 1999).
Dentro desse contexto, Lévy (1999) ressalta que as relações 'virtuais' não substituem os encontros físicos, assim como critica a ideia de substituição quando se trata de dispositivos de comunicação novos sobre os antigos.
As pessoas continuam falando-se após a escrita, mas de outra forma. As cartas de amor não impedem os amantes de se beijar. As pessoas que mais se comunicam via telefone são também aquelas que mais encontram outras pessoas. (LÉVY, 1999, p.129).
As comunidades virtuais acompanham, em geral, interações de todos os tipos, pois não é irreal ou imaginária, mas sim um coletivo que se estabelece diante de relações firmadas no ciberespaço (LÉVY, 1999).
4. MOVIMENTO DO SOFTWARE LIVRE
O Movimento do Software Livre é a referência principal e ponto de partida desta pesquisa, desta forma, torna-se necessário o bom entendimento de seu ecossistema, ou seja, os valores e princípios que norteiam as ações dentro deste Movimento e que se fazem presentes nas comunidades de software livre espalhadas ao redor do mundo.
Segundo Silveira (2004, p.5) o Movimento do Software Livre “é um movimento pelo compartilhamento do conhecimento tecnológico” que surgiu nos anos 80 e depois se espalhou pelo mundo através da rede mundial de computadores. O termo “Movimento do Software Livre” não está relacionado somente aos aspectos técno-científicos, mas traz consigo concepções filosóficas e valores presentes na ideologia apresentada por este movimento.
A história da internet se conecta, de certa forma, com a história do Movimento do Software Livre, pois a prática de fontes abertas é algo que já se fazia presente desde a concepção da internet nas comunidades acadêmicas. Assim como na história da internet, o desenvolvimento de softwares em sua gênese também era livre de questões de direitos autorais e embasado em uma filosofia de partilha. De acordo com Stallman (2002, p.15, tradução nossa) “a partilha de software não era limitada a nossa comunidade particular. Esta prática é tão antiga quanto os computadores, assim como a partilha de receitas é tão antiga quanto cozinhar”, se referindo a década de 70 quando começou a trabalhar no Laboratório de Inteligência Artificial do MIT (Massachusetts Institute of Technology).
Nesta época o termo 'software livre' não existia, pois, todos os softwares eram livres, logo não havia a necessidade de chamá-los assim (STALLMAN, 2002).
Entre os softwares existentes nas décadas de 60 e 70 já havia o sistema operacional UNIX desenvolvido por Ken Thompson do Laboratório Bells que de acordo com a prática desta época, disponibilizou o código-fonte logo no desenvolvimento inicial do UNIX em 1969.
Tal abertura permitiu que muitos centros de pesquisa pudessem aperfeiçoar o sistema, como apresenta Aguiar (2009), no final da década de 1970 o UNIX já suportava os protocolos da ARPANET e da USENET, enquanto em Berkeley alguns estudantes criam o Berkeley Software
Distribution (BSD), originado do UNIX e considerado o sistema operacional mais avançado da época (CASTELLS, 2003).
Apesar de toda a concepção de desenvolvimento de software ter o ideal de partilha, no ano de 1979 a AT&T tomou a decisão comercial de reivindicar os direitos de propriedade do UNIX, ou seja, fechar seu código-fonte. Anos antes, mais precisamente em 1975 uma atitude semelhante a esta foi tomada por Bill Gates quando lançou a famosa Carta Aberta aos Aficionados onde este questionou “que aficionado pode estar disposto a trabalhar a troco de nada?” LEVY (2001, apud CASTELLS, 2003, p. 52).
Esta atitude fez com que a Microsoft, criada por Bill Gates e Paul Allen, se tornasse um símbolo do chamado software proprietário. De acordo com Castells (2003) tal procedimento, também representa a cultura empreendedora, porém não compartilhando de valores como liberdade e partilha, presentes na concepção da internet e nas comunidades de desenvolvedores de software da época.
Como resposta a este movimento de fechamento e exploração comercial dos softwares, surgiu no início da década de 80 o Movimento do Software Livre, como “um movimento político de base tecnológica” (AGUIAR, 2009, p.10), tendo como seu principal interlocutor, Richard Stallman, que, juntamente com outros programadores iniciou o desenvolvimento de um novo sistema operacional baseado no UNIX e batizado de GNU (GNU is NOT Unix).
A proposta deste trabalho era construir um sistema livre que pudesse rodar programas e aplicativos do UNIX, não se submetendo assim à licenças proprietárias de uso (SILVEIRA, 2004).
Juntamente com o projeto GNU, Richard Stallman criou em 1984 a Free Software Foundation sendo “protagonista da elaboração de um arcabouço jurídico que garantiu, além da abertura do código-fonte, a plena liberdade de uso, aperfeiçoamento e distribuição dessa tecnologia” (AGUIAR , 2009, p.11).
A iniciativa de Richard Stallman garantiu a sustentação política para que o GNU pudesse se desenvolver de forma livre, assim como outros softwares que fossem licenciados com a licença GPL (General Public License). Mais adeptos foram se interessando pelo desenvolvimento do GNU que foi ganhando corpo, apesar de encontrar dificuldades técnicas com o desenvolvimento
do kernel deste sistema. Segundo apresenta Silveira (2004) o kernel é o núcleo do sistema operacional, responsável pela articulação de todos os componentes.
Aguiar (2009) afirma que a dificuldade em desenvolver o kernel surgiu devido aos hackers envolvidos neste desenvolvimento não terem se atentado ao poder de colaboração presente na internet. Porém no ano de 1991 o universitário Linus Torvalds utilizou-se de um usergroup da internet e publicou que havia desenvolvido um kernel para o sistema operacional tipo UNIX. Eis o surgimento do software livre mais conhecido mundialmente: o Linux.
Baseado em um poderoso sistema operacional multiplataforma, agregando esforços da comunidade de desenvolvedores em torno da Free Software Foundation, as primeiras versões do Linux já se mostravam mais flexíveis e robustas que o MS-DOS e o Windows. (SILVEIRA, 2004, p.18)
Desde então, muitos outros softwares livres foram surgindo graças ao esforço comum de pessoas ao redor do mundo que colaboram para o sucesso desta grande rede.
O Quadro 1 traz a linha do tempo do Movimento do Software Livre revelando seus principais momentos.
4.1 ECOSSISTEMA DO SOFTWARE LIVRE
O Movimento do Software Livre possui características marcantes, as quais Aguiar (2009) apresenta como aspectos do 'Ecossistema de Colaboração' presentes nas comunidades de Software Livre. Esses aspectos são abordados nas próximas seções, porém antes algumas definições são importantes.