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3. INTERNET E SOCIEDADE

3.2 INTERNET E A NOVA RELAÇÃO COM O SABER

A internet apresenta possibilidades que quando consideradas podem modificar a forma com que as pessoas estão acostumadas a construir o conhecimento. Lévy (1998 e 1999) apresenta uma relação ainda mais íntima quando aponta que a internet pode servir de infraestrutura para o surgimento do 'Espaço do Saber', ou seja, de um espaço antropológico onde a identificação social se dá a partir da inteligência, ou seja, do conhecimento.

De acordo com Lévy (1998) um espaço antropológico é: “um sistema de proximidade (espaço) próprio do mundo humano (antropológico), e portanto, depende de técnicas, de significações, da linguagem, da cultura, das convenções, das representações e das emoções humanos”. (LÉVY, 1998, p.22)

A Terra é o primeiro grande espaço antropológico onde o vínculo com outros homens se constrói na relação de filiação ou de aliança. O segundo espaço antropológico é o Território onde este vínculo se faz através da entidade territorial (pertença, propriedade, etc), definida por fronteiras. A partir do século XVI surge o terceiro espaço: o espaço das Mercadorias, em que o

vínculo se dá através dos fluxos, seja de energias, de matérias-primas, mercadorias ou mesmo informações. Com o surgimento do terceiro espaço, a riqueza não vem do domínio das fronteiras, mas sim do controle dos fluxos (LÉVY, 1998).

Essa reflexão aponta, de acordo com Lévy (1998), para o surgimento de um novo espaço, o espaço do saber, que permite ao ser humano uma identificação social, independente de sua atuação profissional, (identificação característica do espaço das mercadorias).

Talvez a crise atual dos pontos de referência e dos modos sociais de identificação indique o surgimento, ainda mal percebido, incompleto, de um novo espaço antropológico, o da inteligência e do saber coletivo (LÉVY, 1998, p.24).

É importante ressaltar que este novo espaço tem vocação para comandar os espaços anteriores, afinal, é das capacidades de aprendizagem rápida e imaginação coletiva dos seres que dependem as redes econômicas e as potências territoriais.

Apesar dos espaços antropológicos anteriores também corresponderem a um modo de conhecimento específico, Lévy (1998) apresenta esse novo espaço como sendo o Espaço do Saber devido principalmente a três características:

• A velocidade de evolução dos saberes, pois, nunca a evolução das ciências e das técnicas foi tão rápida e com consequências tão diretas à vida cotidiana. “Eis uma das razões pelas quais o saber lidera as outras evoluções da vida social” (LÉVY, 1998, p.25);

• À massa de pessoas convocadas a aprender e produzir novos conhecimentos, pois, se torna impossível reservar o conhecimento somente a um grupo determinado de especialistas. “É o conjunto do coletivo humano que deve, daqui por diante, se adaptar, aprender e inventar para viver melhor no universo complexo e caótico em que passamos a viver” (LÉVY, 1998, p.25);

• Surgimento de novas ferramentas (as do ciberespaço) “que podem fazer surgir, por trás do nevoeiro informacional, paisagens inéditas, identidades singulares, específicas desse espaço, novas figuras sócio-históricas” (LÉVY, 1998, p.25). Essas ferramentas são consideradas ferramentas não somente comunicacionais, porém, são necessárias também ferramentas e técnicas para filtrar a quantidade de informações que temos hoje e assim construirmos significados através delas.

Considerando o espaço do saber, Lévy (1998) aponta que a finalidade das TIC, é fornecer aos grupos instrumentos para reunir suas forças e assim constituir intelectuais coletivos.

A informática comunicante se apresentaria então como a infra-estrutura [sic] técnica do cérebro coletivo ou do hipercórtex de comunidades virtuais (LÉVY, 1998, p.25).

Não cabe neste espaço a substituição do homem pela máquina, tampouco compor algum tipo de inteligência artificial, mas sim, através de suas potencialidades, promover a construção de coletivos inteligentes, permitindo assim a amplificação das potencialidades sociais e cognitivas de cada ser. (LÉVY, 1998)

Considerando que um espaço antropológico se constitui a partir da identificação social, Lévy (1999) apresenta a necessidade de renovar esse laço para que o espaço do saber se constitua. É necessário trilhar outros caminhos de identificação, pois os de pertença étnica, nacional ou religiosa muitas vezes conduzem a grandes impasses.

Basear o laço social na relação com o saber consiste em encorajar a extensão de uma civilidade desterritorializada, que coincide com a fonte contemporânea da força, ao mesmo tempo em que passa pelo mais íntimo das subjetividades. (LÉVY, 1998, p.27).

No espaço do saber, o aprendizado recíproco é o ponto de mediação das relações entre pessoas. Uma relação onde cada um veja no outro, alguém que sabe e que pode auxiliá-lo a 'ser mais', de modo que através da associação das competências ambos possam melhorar juntos. “Todos os seres humanos têm direito ao reconhecimento de uma identidade de saber” (LÉVY, 1998, p.28).

Intimamente conectado a esta forma de se relacionar em torno do saber, está a constituição de uma inteligência coletiva, que de acordo com Lévy (1998) é “uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (LÉVY, 1998, p.28).

De acordo com o autor, uma inteligência distribuída por toda parte, pois ninguém sabe tudo e todos sabem alguma coisa. “Se você cometer a fraqueza de pensar que alguém é ignorante, procure em que contexto o que essa pessoa sabe é ouro” (LÉVY, 1998, p.29). Concomitantemente deve ser uma inteligência incessantemente valorizada, pois muitas vezes a

preocupação se volta demasiadamente sobre o desperdício econômico e ecológico, dissipando o que Lévy (1998) aponta como o bem mais precioso, a inteligência. É necessário valorizá-la.

O autor apresenta como uma inteligência coordenada em tempo real, pois, as TIC podem fornecer aos membros das comunidades, meios de coordenarem suas interações no mesmo universo virtual de conhecimentos. “Nessa perspectiva, o ciberespaço tornar-se-ia o espaço móvel das interações entre conhecimentos e conhecedores de coletivos inteligentes desterritorializados” (LÉVY, 1998, p.29).

Por último, o autor cita que é necessário atingir uma mobilização efetiva das competências. Para que isso ocorra, deve-se antes identificar as competências partindo-se do fato de que as áreas do saber reconhecidas e organizadas atualmente pela sociedade representam uma pequena minoria perto de toda diversidade de saberes existentes na humanidade ou em uma determinada cultura. O não reconhecimento amplo dos saberes pode provocar, de alguma forma, uma recusa à verdadeira identidade social de determinado grupo, ou pessoa. Ignorar saberes populares, conhecimentos adquiridos e desenvolvidos até mesmo pelas tribos mais remotamente localizadas no planeta assim como novos saberes que surgem contemporaneamente é uma forma de exclusão, de acordo com Lévy “é alimentar seu ressentimento e sua hostilidade, sua humilhação, e frustração de onde surge a violência” (1998, p.30).

O reconhecimento e enriquecimento mútuo das pessoas são os grandes objetivos da inteligência coletiva.

Esse projeto convoca um novo humanismo que inclui e amplia o 'conhece-te a ti mesmo' para um 'aprendamos a nos conhecer para pensar juntos', e generaliza o 'penso, logo existo' em um 'formamos uma inteligência coletiva, logo existimos eminentemente como comunidade' (LÉVY, 1998, p.31).

A inteligência coletiva é a grande perspectiva da cibercultura, ou seja, sua finalidade última, sendo que o “ciberespaço talvez não seja mais do que um indispensável desvio técnico para atingir a inteligência coletiva” (LÉVY, 1999, p.130).

Nessa nova relação com o saber, presente na cibercultura com o advento da internet e suas tecnologias, também se faz necessário “um novo estilo de pedagogia, que favorece ao mesmo tempo as aprendizagens personalizadas e a aprendizagem coletiva em rede” (LEVY, 1999, p. 158). A construção do conhecimento ocorre dentro de um contexto social e colaborativo, ou seja,

“A formação de processos superiores de pensamento se dá pela atividade instrumental e prática, em interação e cooperação social” (FILATRO, 2009, p.98).

Na medida em que socializamos, vamos conhecendo os modos e implicações de nos relacionar com os demais, assim como vamos trocando conhecimentos que de diversas maneiras e segundo as condições sociais, vão reproduzindo e transformando nossos modos de vida. (FILATRO;PICONEZ, 2005, p.7, tradução nossa)

Existe uma relação estreita entre os aspectos presentes no projeto apresentado por Lévy (1998) para o Espaço do Saber e os valores presentes na Cultura da Internet que a acompanha desde o começo de sua construção.

[…] a Internet é um dos mais fantásticos exemplos de construção cooperativa internacional, a expressão técnica de um movimento que começou por baixo, constantemente alimentado por uma multiplicidade de iniciativas locais (LÉVY, 1999, p.126)

Castells (1999) aponta que alguns aspectos presentes nas origens das redes ainda permanecem presentes na dinâmica das relações através da internet e ressalta que apesar desta dinâmica apresentar relações de que 'muitos contribuem para muitos', cada um busca uma resposta individualizada.

[…] o que permanece das origens contraculturais da rede é a informalidade e a capacidade auto-reguladora [sic] de comunicação, a ideia [sic] de que muitos contribuem para muitos, mas cada um tem a própria voz e espera uma resposta individualizada. (CASTELLS, 1999, p.381)

Muitas são as possibilidades e implicações que surgem em relação com o saber quando consideramos o crescimento do ciberespaço, porém conforme aponta Lévy (1999), não necessariamente este crescimento promove o desenvolvimento da inteligência coletiva, assim como a inteligência coletiva não necessariamente apresenta somente bons frutos.