4. MOVIMENTO DO SOFTWARE LIVRE
4.1 ECOSSISTEMA DO SOFTWARE LIVRE
4.1.2 O PROJETO DEBIAN
O projeto Debian foi fundado oficialmente por Ian Murdock em 16 de Agosto de 1993. Seu desejo era que o Debian fosse uma distribuição Linux criada abertamente, de acordo com o mesmo espírito do Linux e do GNU e, de fato, durante um ano a criação desta distribuição teve o apoio do projeto GNU da Free Software Foundation (TIME DE DOCUMENTAÇÃO DO DEBIAN, 2002).
O nome tem como origem a junção dos nomes de seu criador Ian Murdock e sua esposa Debra, pronunciando então 'débian'.
De acordo com a definição da própria comunidade, “O Projeto Debian é um grupo mundial de voluntários que se esforçam para produzir um sistema operacional livre que é composto
inteiramente por software livre. ” (TIME DE DOCUMENTAÇÃO DO DEBIAN , 2002, p. 1) Apesar disso, a comunidade também garante que o sistema operacional suporta outros softwares que não sejam livres, assim como a maioria das distribuições Linux.
A comunidade se iniciou formada por um pequeno e forte grupo de hackers do Movimento do Software Livre, porém foi crescendo e atualmente é uma das mais bem organizadas comunidades de desenvolvedores e usuários. (TIME DE DOCUMENTAÇÃO DO DEBIAN, 2002).
A fim de elaborar um sistema de alto padrão de qualidade o projeto Debian buscou sua estruturação. Conforme afirma Machado (2009), o projeto possui uma estrutura organizacional muito bem definida para a tomada de decisões, dividindo-se em grupos, além de possuir políticas de organização, comunicação, Constituição Interna e Contrato Social impelidos aos membros. O Contrato Social do Projeto Debian revela aspectos relevantes a seu respeito, pois implica a aceitação de todos os membros da comunidade aos seguintes pontos:
1. O Debian permanecerá 100% livre;
2. Nós iremos retribuir à comunidade software livre; 3. Nós não esconderemos problemas;
4. Nossas prioridades são nossos usuários e o software livre;
5. Programas que não atendem nossos padrões de software livre serão também suportados, apesar de não fazerem parte do pacote Debian.
A estrutura geral da comunidade está dividida em agrupamentos, conforme aponta Machado (2009):
• Oficiais – líder, comitê técnico e secretário;
• Trabalhadores ligados à distribuição – relacionados a pacotes individuais, repositórios, gerência de lançamento, documentação, entre outros;
• Publicidade – imprensa, eventos, parceria e marketing;
• Infraestrutura – suporte a idiomas, acompanhamento de bugs, mantenedores de chaveiros, equipe de segurança e site.
• Distribuição Personalizada – Debian Jr. (para crianças), Debian-Med (para pesquisa médica), Debian-Edu (para educação), Debian-Lex (para escritórios legais), Debian-NP
(para organizações sem fins lucrativos) e Debian Acessibility (para portadores de deficiência).
No que diz respeito ao exercício de poder na comunidade a hierarquia se apresenta da seguinte forma (MACHADO, 2009):
1. Os desenvolvedores, que exercem seu poder por via de resolução geral ou eleição; 2. O líder do projeto;
3. O comitê técnico ou seu presidente; 4. O desenvolvedor individual;
5. Delegados apontados pelo líder para tarefas específicas;
6. O secretário, sendo responsável por recolher os votos entre os desenvolvedores e resolver disputas em relação à interpretação da constituição.
Para um usuário vir a tornar-se um desenvolvedor é necessário estar envolvido no projeto, mostrando o desejo de colaboração. Apesar da estrutura parecer um tanto rígida, comparada com outras no Movimento do Software Livre, ela não exerce grande pressão em seus colaboradores e conforme afirma o próprio Projeto Debian, “o processo de planejamento [...] é aberto para que se tenha certeza [sic] que o sistema é da mais alta qualidade e que ele reflete as necessidades da comunidade de usuários.” (TIME DE DOCUMENTAÇÃO DO DEBIAN , 2002, p.16).
O que justifica tal estrutura é o grande traço da filosofia Debian de que uma distribuição será considerada estável somente quando estiver realmente pronta (MACHADO, 2009).
No que diz respeito à comunicação tanto interna quanto externa, as comunidades de software livre não se diferenciam muito, mantendo certa linha em que o ciberespaço é o grande ponto de encontro das comunidades aqui apresentadas e eventualmente ocorrem encontros presenciais. Machado (2009) aponta os meios de comunicação abaixo como sendo os mais utilizados tanto pela comunidade Debian, quanto por demais comunidades de software livre:
• Listas de discussão: é o modo mais simples e mais utilizado de comunicação, pois necessita somente de e-mail. Existem listas de discussão para cada subprojeto no caso do Debian e todas são abertas ao público;
• Fóruns: ambientes mais propícios à solução de dúvidas e troca de informações. As mensagens não circulam por e-mail mas por postagens no site. Todas as comunidades apresentadas nessa sessão utilizam fóruns;
• IRC: é um protocolo utilizado para programa de chat. Possui salas em que se pode conversar abertamente ou em particular. Todas essas comunidades possuem canais ativos na rede freenode, onde os participantes esclarecem dúvidas, trocam informações, dados ou simplesmente conversam sobre assuntos triviais;
• Blogs: os usuários mais representativos mantém um canal de blog em que colocam artigos e informações sobre a comunidade;
• Planeta: é um site que agrega todos os blogs que tem uma ligação com alguma determinada distribuição, software livre ou tecnologia em geral. Ubuntu e Debian têm seu próprio planeta aqui no Brasil;
• E-mail: alguns poucos membros das comunidades se dispõem a tirar dúvidas por e-mail, porém não é uma prática muito bem vista, afinal, outras pessoas não se beneficiam desse esclarecimento que fica restrito ao e-mail pessoal;
• Zines: são comunidades da distribuição contendo artigos técnicos com resolução de problemas ou dicas. A Debian possui sua própria zine.
O fato de tais comunidades serem abertas permite aos usuários, até mesmo os que não estão envolvidos diretamente, beneficiarem-se da comunicação entre os membros da comunidade. Encontros presenciais também são utilizados no caso do projeto Debian. Conforme afirma o Time de Documentação do Debian, “o trabalho em torno do Debian não fez com que os desenvolvedores parassem de organizar um encontro anual chamado DebConf. ” (2002, p. 12)
O acesso ao “produto” gerado pela comunidade é um ponto importante para a expansão deste, afinal, permite que mais pessoas consigam beneficiar-se da comunidade e eventualmente se sintam incentivadas a colaborar também. No caso da comunidade Debian esta preocupação fica clara através desta afirmação:
O Debian GNU/Linux também será distribuído em mídia física pela Free Software Foundation e pela Debian GNU/Linux . Isso torna disponível o Debian aos usuários que não têm acesso ao servidor na Internet e também gera produtos e serviços, como manuais impressos e suporte técnico disponível para todos os usuários do sistema (TIME DE DOCUMENTAÇÃO DO DEBIAN , 2002, p. 17).
Existem formas diferentes de auxiliar no Projeto Debian sem fazer parte diretamente da comunidade: seja testando os programas desenvolvidos e enviando os bugs encontrados para a
comunidade, seja auxiliando com traduções e com o desenvolvimento em si. Para entrar efetivamente para a comunidade como um colaborador, conforme apresenta Machado (2009), um dos pontos mais importantes é a boa vontade, além da identificação com aquela comunidade.
Segundo Silveira (2004, p.65), “para participar deste coletivo (projeto Debian) no tocante a programação é preciso demonstrar ser um bom programador e estar de acordo com a filosofia do software livre.”. Existem outras formas de participação que envolvem habilidades diferentes, o que possibilita que o Debian seja desenvolvido de forma modular.
Envolver outras pessoas também assegura que muitas sugestões muito úteis podem ser dadas e assim melhorar o sistema como um todo durante o seu desenvolvimento; desta maneira, uma distribuição é criada baseando-se principalmente nas necessidades dos usuários, ao invés das necessidades de seu construtor (TIME DE DOCUMENTAÇÃO DO DEBIAN , 2002, p. 16).
A abertura da comunidade para a participação de outras pessoas é algo bem visto pelo Projeto Debian.