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Relações de gênero e educação: um estudo sobre a presença da temática de gênero no currículo real da 7ª e 8ª séries de uma escola pública do município de Ijuí - RS

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Academic year: 2021

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GRANDE DO SUL

PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS

MESTRADO

LIRIA ANGELA ANDRIOLI

RELAÇÕES DE GÊNERO E EDUCAÇÃO: UM ESTUDO SOBRE A

PRESENÇA DA TEMÁTICA DE GÊNERO NO CURRÍCULO REAL DA

7ª E 8ª SÉRIES DE UMA ESCOLA PÚBLICA

DO MUNICÍPIO DE IJUÍ – RS

Ijuí

2010

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RELAÇÕES DE GÊNERO E EDUCAÇÃO: UM ESTUDO SOBRE A

PRESENÇA DA TEMÁTICA DE GÊNERO NO CURRÍCULO REAL DA

7ª E 8ª SÉRIES DE UMA ESCOLA PÚBLICA

DO MUNICÍPIO DE IJUÍ – RS

Dissertação apresentada ao Curso de

Pós-Graduação Strictu Sensu – Mestrado

em Educação nas Ciências,

Depar-tamento de Pedagogia (DEPE), da

Universidade Regional do Noroeste do

Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ),

requisito parcial para obtenção do grau

de Mestre em Educação.

Orientadora: Profª Doutora Anna Rosa Fontella Santiago

Ijuí

2010

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RELAÇÕES DE GÊNERO E EDUCAÇÃO: UM ESTUDO SOBRE A

PRESENÇA DA TEMÁTICA DE GÊNERO NO CURRÍCULO REAL DA

7ª E 8ª SÉRIES DE UMA ESCOLA PÚBLICA

DO MUNICÍPIO DE IJUÍ – RS

elaborada pela mestranda

LIRIA ANGELA ANDRIOLI

como requisito parcial para obtenção do grau de MESTRE EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS.

COMISSÃO EXAMINADORA:

Profª. Doutora Anna Rosa Fontella Santiago (Orientadora – DEPE/UNIJUÍ)

Profª. Doutora Noeli Valentina Weschenfelder (DEPE/UNIJUÍ)

Profª. Doutora Elza Maria Fonseca Falkembach (DEPE/UNIJUI)

Profª. Doutora Rosângela Angelin (URI)

(FEMA)

Ijuí, 27 de abril de 2010. Rio Grande do Sul.

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Aos meus familiares, que sempre incentivaram a continuidade dos estudos e de novas aprendizagens.

Aos amigos e amigas que deram sua contribuição valiosa a este trabalho. À CAPES, pela Concessão de Bolsa, o que possibilitou a realização desta pesquisa.

À Professora Orientadora, Doutora Anna Rosa Fontella Santiago pelo aprendizado construído, através de importantes diálogos e reflexões.

Às Professoras Doutoras Noeli Valentina Weschenfelder e Elza Maria Fonseca Falkembach, pelo constante incentivo e pelas valiosas contribuições no decorrer deste trabalho.

À Professora Doutora Rosângela Angelin por aceitar o convite em participar desta Banca, bem como pelas reflexões críticas possibilitadas à pesquisa.

Às professoras, professores e colegas do Mestrado em Educação nas Ciências, pelo convívio e aprendizado construído.

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transformações da condição das mulheres no decurso dos tempos, nem mesmo a relação entre os gêneros nas diferentes épocas; ela deve empenhar-se em estabelecer, para cada período, o estado do sistema de agentes e das instituições, Família, Igreja, Estado, Escola etc., que, com pesos e medidas diversas em diferentes momentos, contribuíram para arrancar da História, mais ou menos completamente, as relações de dominação masculina (BOURDIEU, 2003, p. 101).

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A presente Dissertação de Mestrado tem o propósito de aprofundar a compreensão sobre como as relações de gênero são tratadas no currículo real da educação fundamental. Para tanto, a pesquisa investigou a dinâmica curricular no cotidiano de uma turma da 7ª e 8ª séries em uma escola pública da rede estadual de ensino no município de Ijuí – RS. O ponto de partida para esta pesquisa foi um projeto desenvolvido na referida escola, intitulado Escola: espaço de (re)construção do conhecimento e convivência. A metodologia empregada foi a de pesquisa qualitativa com viés etnográfico. Neste sentido, foram entrevistadas seis professoras titulares dos componentes curriculares de Língua Portuguesa, Matemática, Ciências e Educação Física, bem como uma professora que exerce seu trabalho na direção da referida escola. Buscando aprofundar o entendimento da questão, foi realizada uma investigação histórica acerca da origem da opressão da mulher, com base principalmente nas teorias de Friedrich Engels e Riane Eisler. Aliado a isso, a pesquisa analisa as condições inferiores a que as mulheres estão submetidas pela sociedade em relação aos homens, que, segundo Pierre Bourdieu, é fruto de um habitus já incorporado no ser humano o qual condiciona e orienta as nossas condutas e ações. Em seguida, a pesquisa ocupa-se dos avanços emancipatórios da condição das mulheres com base nos estudos de Stuart Mill e Alain Touraine, bem como da influência do movimento feminista neste processo. Por fim, com base nas entrevistas, a análise centra-se na relação da teoria com a prática, inferindo que a temática das relações de gênero, embora introduzida no currículo formal da escola, não chega a superar a força do habitus constituído pela cultura de dominação masculina, presente no currículo real e na percepção dos sujeitos escolares.

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The present Master’s Degree Dissertation has on its purpose deepen the comprehension about how the gender relations are threaten on the real curriculum of the fundamental education. For this, the research investigated a curricular dynamics on a 7th and 8th grades everyday of a public school of the state education network from Ijuí – RS. The starting point of this research was a project developed on the referred school, entitled: Escola: espaço de (re)construção do conhecimento e convivência. The used methodology was a qualitative research with an ethnographic way. On this way, six titular teachers from the curricular components Portuguese, Mathematics, Science and Physic Educations were interviewed, as well as the principal of the school. Looking to deepen the knowledge of the question, it was realized a historical investigation about the women oppression origins, with the base of Friedrich Engels e Riane Eisler theories. Connected to this, the research analyzes the inferior conditions that the women are submitted by the society among the men, that, according to Pierre Bourdieu, its caused by an habitus already incorporated to the human being that conditions and orients our conducts and actions. Following, the research deepen on the emancipatory advances of the condition of the women with base on Stuart Mill e Alain Touraine’s studies, as well as the feminist movements on this process. By the end, with base on the interviews, the analyze concentrates on the relation with theory and practice, inferring that the gender relations subject, even been introduced on the formal curriculum of the school, it’s not as strong as the habitus’ force constituted by the male domination culture, present on the real curriculum and on the perception of the scholar subject.

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CONSIDERAÇÕES INICIAIS...10

Capítulo 1 - CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS ACERCA DA OPRESSÃO DAS MULHERES...15

1.1. A organização das relações de gênero no início da História da humanidade, segundo Engels...17

1.2. Indícios de uma sociedade de parceria entre homens e mulheres...24

1.3. Afinal, qual é a origem da opressão das mulheres?...32

1.4. O aprofundamento da desigualdade entre homens e mulheres ...34

1.4.1. As mulheres na Idade Média...34

1.4.2. As mulheres na Idade Moderna...41

1.4.3. Uma breve análise da educação das mulheres...45

Capítulo 2 - ITINERÁRIO/CAMINHO DA PESQUISA...50

2.1. Identificação pessoal com a temática...50

2.2. Metodologia utilizada...54

2.3. A escolha da escola...57

2.3.1. Contextualizando a escola...58

2.4. Primeiros Contatos...59

2.5. Uma breve descrição da reação dos/as alunos/as e professores/as diante da pesquisa realizada...63

Capítulo 3: O RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE OPRESSÃO DAS MULHERES E A BUSCA DE SUA EMANCIPAÇÃO...65

3.1. A opressão das mulheres no conceito de habitus ...66

3.2. Da percepção das mulheres de sua condição de opressão ...72

3.2.1. A Sujeição das mulheres segundo John Stuart Mill...73

3.2.2. A construção do mundo das mulheres segundo a visão de Alain Touraine ...77

3.3. Movimentos Feministas no mundo e no Brasil: uma breve retomada de seus avanços emancipatórios...80

Capítulo 4: A PERCEPÇÃO DA TEMÁTICA DAS RELAÇÕES DE GÊNERO NA ESCOLA A PARTIR DO CURRÍCULO FORMAL E REAL...88

4.1. Considerações acerca do currículo formal...90

4.2. Relações de gênero no currículo real da escola...93

4.2.1. As concepções de Relações de Gênero no discurso das professoras entrevistadas ...95

4.2.2. Currículo Formal X Currículo Real: análise do desenvolvimento do projeto “Escola: espaço de re(construção) do conhecimento e convivência”...98

4.2.3. A presença da temática das relações de gênero nas disciplinas da 7ª e 8ª séries da escola pesquisada...101

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4.2.6. Desafios na implementação do projeto escola: espaço de (re)construção

do conhecimento e convivência no currículo real...111

CONSIDERAÇÕES FINAIS...114

REFERÊNCIAS...120

ANEXO A - PROJETO PARA O ANO DE 2008...127

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CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A delimitação de papéis para homens e mulheres tem sido constante no decorrer da história da humanidade. Às mulheres era permitida a posse de um corpo, a sensibilidade, a meiguice e a delicadeza. Os homens eram os detentores do conhecimento, da coragem e da força. Pelo menos assim nos ilustra a maioria das obras que fazem referência à história da construção das relações de gênero em nossa sociedade. Será que, todavia, sempre foi assim? Quais são as teorias que reproduzem esta visão e qual o real fundamento desta naturalização das atribuições femininas e masculinas? Que mecanismos de reprodução desta visão ainda encontramos em nossa sociedade e quais são as perspectivas de mudanças desta percepção?

Estas e outras questões têm sido centrais para o desenvolvimento deste trabalho, que reforça a ideia de que não é natural e muito menos imutável a condição de inferioridade condicionada à mulher pela sociedade, no decorrer dos tempos. Neste sentido, os escritos de Friedrich Engels (1997) contestam a teoria da naturalização quando reforçam a ideia de que a origem da opressão da mulher tem a ver com as formas de organização familiar, principalmente pela instituição da monogamia, quando a mulher foi aprisionada ao lar, havendo assim um estrito controle de sua sexualidade. Riane Eisler (1996) ilustra que nos primórdios da humanidade existia uma sociedade de parceria, anterior à dominação. Ainda, Pierre Bourdieu (2003b) reforça as teorias elencadas anteriormente, afirmando que as mais diversas formas de discriminação (a exemplo das de relação de gênero) existentes em nossa sociedade são fruto de uma cultura, de um habitus que condiciona o nosso modo de ser, agir, comportar e de pensar.

Algumas vezes, inclusive, a própria mulher é responsável pela reprodução desta cultura imposta, quando não percebe mais que já incorporou o discurso

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“atribuído” pelos diversos mecanismos da sociedade. É possível, no entanto, se contrapor a esta ideia, tendo presente a premissa de que algo que não é imutável sempre pode ser questionado e, consequentemente, alterado. Nesse viés, fazemos referência aos estudos de Stuart Mill (2006) que, diferentemente de muitos filósofos renomados do período, retoma questões já apontadas pela feminista Mary Wollstonecraft, no que se refere principalmente às condições de emancipação da mulher. Mill traz à tona a percepção da inferioridade a que as mulheres estão submetidas em relação aos homens e reforça a ideia de mudança, considerando que esta percepção estava, inclusive, prejudicando o progresso da humanidade. Este autor reforça a posição contrária à questão da naturalização entre os sexos, argumentando que em nenhum momento conhecemos uma sociedade somente de homens ou somente de mulheres; sempre tivemos a oportunidade de vê-los na sua relação com o/a outro/a.

Concomitantemente à percepção emancipatória de Mill, trazemos para discussão a visão de Alain Touraine (2007) que mantém presente a possibilidade de as mulheres descobrirem-se a si próprias, ou seja, da identificação delas enquanto sujeitos importantes na sociedade. Torna-se, assim, cada vez mais visível a construção da identidade feminina, invertendo, aos poucos, a ideia de naturalização de papéis. Está em evidência, então, a valorização do ser humano como um todo, considerando as diferenças entre si, mas não as desigualdades.

É preciso, contudo, ter presente que ainda nos dias atuais há mecanismos de manutenção da condição de inferioridade da mulher perante o homem. Esta visão se manifesta principalmente na família e perdura na escola, instituindo e reforçando este “modo natural” de percepção acerca da realidade. De modo especial, a escola produz e molda identidades de gênero. Esta, regida por um currículo formal, procura, na maioria das vezes, fazer uma tentativa de incorporar no currículo a discussão da temática das relações de gênero. O que se presencia, no entanto, analisando o currículo real, que a temática de gênero quando trabalhada é abordada ainda de modo muito superficial, perpetuando muitas vezes formas de discriminação entre os

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sexos. Isto percebe-se principalmente nas atividades diferenciadas organizadas para meninos e meninas nas aulas de Educação Física, ou, então, mesmo no cotidiano da escola.

Neste sentido, tendo por base as questões levantadas anteriormente no que diz respeito às relações de gênero, nos propomos, com este estudo, a aprofundar a temática destas e a educação, de modo a compreender como as relações de gênero são trabalhadas no currículo real de uma turma da 7ª e 8ª séries de uma escola pública da rede estadual de ensino no município de Ijuí – RS. Optamos aqui por estudar as séries finais do Ensino Fundamental, posto que ainda faltam pesquisas que abordem a temática neste grau de ensino, pois a maioria dos escritos que envolvem as relações de gênero na escola enfatizam principalmente a educação infantil, ou simplesmente ficam na elaboração teórica.

O ponto de partida para esta pesquisa é um projeto desenvolvido na referida escola, intitulado Escola: espaço de (re)construção do conhecimento e convivência, que prevê em seu currículo formal a abordagem da temática das relações de gênero nos componentes curriculares. Nos detemos, entretanto, à análise somente de quatro disciplinas: Educação Física, Ciências, Língua Portuguesa e Matemática.

A fim de verificar se as questões de gênero são enfatizadas no currículo real desta instituição, realizou-se entrevistas com seis professoras titulares dos componentes curriculares anteriormente elencados e uma professora integrante da direção da escola, bem como fez-se observações das atividades desenvolvidas no cotidiano escolar. A metodologia empregada foi a de análise qualitativa, com viés etnográfico.

Neste sentido, para o desenvolvimento do trabalho, alguns questionamentos foram fundamentais: O que se entende por relação de gênero e educação? Como essa temática é vivenciada na escola? Há a preocupação em discutir as relações de

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gênero na escola? Como a temática de gênero está presente nos conteúdos trabalhados das disciplinas da 7ª e 8ª séries? Como a desigualdade entre os gêneros é percebida na escola pelos/as professores/as e alunos/as? Como a sociedade (aqui a escola também está incluída) e a cultura influenciam os processos de formação e constituição de homens e mulheres? É natural a inferioridade da mulher em relação ao homem?

A hipótese estruturada consiste na afirmação de que a abordagem mais aprofundada da temática das relações de gênero nos componentes curriculares e no cotidiano escolar, contribui para que os/as educandos/as e os/as educadores/as construam relações humanas mais igualitárias, que perpassam a escola e a sociedade.

Sendo assim, no primeiro capítulo abordaremos questões históricas acerca da origem da opressão da mulher, situando a temática geral de estudo. Para tanto, apresentamos duas teorias: a primeira, recorre às sociedades primordiais e tem por base os escritos de Friedrich Engels (1997) a partir do livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”; a segunda baseia-se nos estudos de Riane Eisler (1996), tendo por evidência indícios arqueológicos, aprofundados especialmente mediante sua obra “O prazer sagrado: sexo, mito e política do corpo”. Ambas as teorias reforçam a ideia de que a opressão das mulheres não é algo natural, mas um fenômeno histórico e social. Fazemos ainda um breve relato das causas do aprofundamento das desigualdades entre homens e mulheres, perpassando a Idade Média e Moderna, assim como uma análise da forma de educação a que as mulheres tinham acesso no decorrer da História.

No segundo capítulo apresentamos os passos metodológicos percorridos para a realização desta pesquisa, desde a escolha do tema, a identificação pessoal com a temática, o critério utilizado para a escolha da escola e a contextualização da instituição escolar, com o objetivo principal de situar o/a leitor/a da pesquisa em si. A metodologia qualitativa com viés etnográfico foi a escolhida, tendo em vista que é a que mais se aproxima do objeto pesquisado, pois analisa com profundidade se a

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temática das relações de gênero é trabalhada e de que forma isto se evidencia no currículo real. Ressaltamos ainda que a identificação pessoal com a temática foi um fator decisivo para a escolha deste tema. Como exemplo, citamos o envolvimento no movimento feminista e de mulheres, assim como o fato de esta abordagem das relações de gênero já ter sido realizada na Graduação em Filosofia, quando foi pesquisada a temática das mulheres na Filosofia.

O terceiro capítulo traz alguns elementos para a análise da real condição a que as mulheres estão submetidas historicamente, sendo esta fruto de um habitus que está incorporado no ser humano de modo a orientar as nossas condutas, formas de agir e pensar. Assim, com o embasamento teórico tendo por base principalmente os estudos de Bourdieu, expomos elementos que contribuem para clarificar a origem da opressão das mulheres. Em seguida, considerando os avanços emancipatórios nas relações de gênero, apresentamos os estudos de Stuart Mill e Alain Touraine. Ainda, ao findar do capítulo, se fará uma breve retomada dos avanços e lutas em que o movimento feminista e o movimento das mulheres estiveram presentes e contribuíram para a construção da igualdade entre homens e mulheres, respeitando suas diferenças.

O quarto e último capítulo possui como foco central o aprofundamento da análise das relações de gênero no currículo real da escola pesquisada. Para tanto, parte-se da análise do currículo formal, tendo por base o próprio projeto existente na escola e, desde então, faz-se o estudo detalhado das entrevistas realizadas com o propósito de verificar se de fato é abordada a temática das relações de gênero no cotidiano escolar. Retoma-se aqui as principais questões propostas para o estudo, constituindo-se num ensaio que pretende fazer a relação da teoria com a prática.

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Capítulo 1 - CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS ACERCA DA

OPRESSÃO DAS MULHERES

As relações desiguais entre homens e mulheres não são meramente naturais ou então inerentes à natureza do sexo feminino e do masculino, mas são historicamente produzidas pela cultura e pela sociedade. De um lado, encontram-se os homens detentores do conhecimento, da coragem e da força. De outro, estão as mulheres, com sua sensibilidade, delicadeza e beleza. Percebe-se, assim, que estes “atributos” masculinos e femininos estão enraizados na cultura e introjetados no ser humano de tal modo que aparentam fazer parte da “natureza humana”. Segundo Michele Perrot (2005, p. 470),

homens e mulheres são identificados por seu sexo; em particular as mulheres são condenadas a ele, ancoradas em seus corpos de mulheres chegando até a ser prisioneira deles. (...) Esta naturalização das mulheres, presas a seus corpos, à sua função reprodutora materna e doméstica, e excluídas da cidadania política em nome desta mesma identidade, traz uma base biológica ao discurso paralelo e simultâneo da utilidade social.

Esta sobreposição de identidades1 impostas ao ser humano tem se evidenciado antes mesmo do nascimento. Na oportunidade em que o pai e a mãe são informados/as sobre o sexo da criança, e estes/as ficam sabendo que é menina, o enxoval passa a ser constituído com cores delicadas, de preferência a rosa, que transmite suavidade, docilidade. Se for menino, o azul será a cor escolhida, representando a amplitude do céu, ou seja, que ele poderá ter acesso à liberdade desejada. Neste sentido, a identidade de gênero nas crianças é construída a partir da expectativa que se tem em relação a elas, de como estas são tratadas e percebidas na sociedade. “Se observarmos as reações diante de um recém-nascido, é comum, diante de bebês fêmeas, escutarmos: como é meiga, tranqüila, que rostinho delicado e, diante dos bebês machos: como é forte, já se movimenta, é

1 Refiro-me à identidade como forma de constituição do modo de ser e agir do sexo feminino e do sexo masculino. Está sempre se construindo e reconstruindo, não está dada e nem fixada em um determinado período.

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esperto” (Faria, 1998, p. 25).

Assim, a naturalização dos papéis e características atribuídas ao sexo feminino e masculino são frutos de uma construção histórica e sofrem influência direta da cultura da família, da escola e dos demais meios de convívio que, muitas vezes, tendem a orientar e condicionar as condutas e ações do ser humano.

A mulher nasce e é educada para ser oprimida, para saber o “seu lugar” no mundo, que é sempre, em qualquer âmbito, um lugar subalterno. É configurada para aceitar essa condição como se fosse algo natural e, ainda por cima, com um sorriso nos lábios; contido, claro (Toledo, 2005, p. 23).

Como de fato surgiu, porém, a opressão de um sexo sobre o outro? Quais são as explicações históricas da origem da opressão da mulher? Estas perguntas, com certeza, estão longe de serem totalmente decifradas. Há, entretanto, várias teorias que reforçam que as desigualdades entre homens e mulheres não são naturais, imutáveis e que pressupõem uma construção social. Sendo assim, abordaremos, de forma breve, duas teorias a respeito das origens da opressão do sexo feminino. A primeira recorre às sociedades primordiais, sendo abordada por Friedrich Engels, na obra “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, publicada em 1884. Este resgata escritos de Bachofen e Morgan e relaciona a origem da opressão feminina com as formas de organização familiar, introduzidas, principalmente, pela instituição da monogamia, quando a mulher passou a ser “aprisionada” ao lar, forma vista como a mais eficaz para controlar a sua sexualidade e, desse modo, ter presente a origem da prole. Engels também retrata formas de divisão sexual de trabalho, reforçando a ideia de que esta opressão das mulheres não é algo natural, mas um fenômeno histórico e social. A segunda teoria tem por base os estudos de Riane Eisler, apresentados, principalmente, por meio do livro “O prazer sagrado: sexo, mito e política do corpo” (1996), o qual retrata, com base em indícios arqueológicos, a existência de uma sociedade de parceria entre homens e mulheres, anterior à sociedade de dominação.

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Entendemos, assim, que a opressão feminina precisa ser compreendida como uma construção social e cultural antes de dar início a qualquer estudo sobre as relações de gênero. Daí porque este Capítulo recorre a alguns/algumas autores/as que se dedicaram ao estudo da questão, tais como Michele Perrot, Nalu Faria e Guacira Lopes Louro, dentre outros/as, efetuando um breve histórico das causas do aprofundamento da desigualdade entre homens e mulheres nos períodos das Idades Média e Moderna, bem como uma breve análise da educação permitida às mulheres ao longo dos tempos.

1.1. A organização das relações de gênero no início da História da humanidade, segundo Engels

A fim de ter uma melhor compreensão acerca da situação de opressão das mulheres ao longo da história, faz-se necessário recorrer à forma de convivência das sociedades primordiais. Friedrich Engels, com a publicação de seu livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, em 1884, contribuiu para este estudo. Karl Marx, falecido um ano antes da publicação da obra, também teve papel fundamental nos escritos de Engels. Isto fica claro, pois vários fragmentos de suas anotações críticas estão presentes no livro citado. No prefácio da quarta edição da obra, em 1891, Engels faz uma “breve exposição do desenvolvimento da história da família desde Bachofen até Morgan” (Engels, 1997, p. 5). Segundo o autor, até a década de 1860 do século 19, não se cogitava pensar em uma história de família, demonstrando, assim, que as ciências históricas ainda estavam sob o domínio dos Cinco Livros de Moisés2, como se a família não tivesse tido nenhuma evolução até o momento.

2 A forma patriarcal da família, pintada nesses cinco livros com maior riqueza de minúcias do que em qualquer outro lugar, não somente era admitida, sem reservas, como a mais antiga, como também se identificava – descontando a poligamia – com a família burguesa de hoje, de modo que era como se a família não tivesse tido evolução alguma através da história (Engels, 1997, p. 6). O patriarcado não designa apenas uma forma de família baseada no parentesco masculino e no poder paterno. O termo designa também toda estrutura social que nasça de um poder do pai. Numa organização como essa, o Príncipe da Cidade ou o chefe da tribo têm o mesmo poder sobre os membros da coletividade quanto o pai sobre as pessoas de sua família. A analogia é tão estreita que os governantes, de bom grado, intitulam-se “pais do povo” (Badinter, 1986, p.95).

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A história da família começa a surgir em 1861, com a publicação do livro “Direito Materno”, de Bachofen. Segundo Engels (1997, p. 7), Bachofen teria formulado as seguintes teorias:

1 – primitivamente , os seres humanos viveram em promiscuidade sexual (...); 2 – estas relações excluíam toda possibilidade de estabelecer, com certeza, a paternidade, pelo que a filiação apenas podia ser contada por linha feminina, segundo o direito materno (...); 3 – em conseqüência desse fato, as mulheres, como mães, como únicos progenitores conhecidos da jovem geração, gozavam de grande apreço e respeito, chegando, de acordo com Bachofen, ao domínio feminino absoluto (ginecocracia); 4 – a passagem para a monogamia, em que a mulher pertence a um só homem, incidia na transgressão de uma lei religiosa muito antiga (isto é, do direito imemorial que os outros homens tinham sobre aquela mulher), transgressão que devia ser castigada, ou cuja tolerância se compensava com a posse da mulher por outros, durante determinado período (Engels, 1997, p. 7).

Estes dados das sociedades primitivas nos levam a crer na existência de uma sociedade matriarcal3, anterior a patriarcal4, evidenciando que a inferioridade atribuída historicamente à mulher não é imutável, a exemplo do que a cultura da época, bem como as religiões, faziam questão de enfatizar.

Além de Bachofen, é importante fazer referência ainda à Mac Lennan, que publicou, em 1865, o livro “O casamento Primitivo”, Lubbock, que em 1870 editou a obra “Origem da Civilização” e Lewis Morgan, que em 1877 escreveu “A sociedade Antiga de Morgan”. Estas obras contribuíram decisivamente para salientar que a história da família não estava estagnada e não era única, mas se encontrava estruturada sob várias maneiras, sendo o patriarcado e a monogamia apenas uma destas.

Morgan passou grande parte de sua vida junto aos iroqueses, onde, inclusive, foi adotado por uma de suas tribos (Engels, 1997). Ali descobriu que havia um sistema chamado de matrimônio por grupos, que também prevaleceu na América e estava em vigor na África, Ásia e Austrália. O matrimônio por grupos era

3 Entendemos por sociedade matriarcal aquela em que as mulheres, especialmente as mães, possuem o poder de liderança, que governam e organizam a comunidade.

4 Sociedade patriarcal é aquela em que os homens detêm o poder perante as mulheres e a comunidade.

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considerado “a forma de casamento em que grupos inteiros de homens e grupos inteiros de mulheres pertencem-se mutuamente, deixando bem pouca margem para os ciúmes” (Engels, 1997, p. 36). Isto quer dizer que tanto homens quanto mulheres mantinham ocasionalmente relações sexuais entre si, possibilitando, assim, a promiscuidade.

O detalhe no matrimônio por grupos, no caso de identificação do pai e mãe da criança é que se tem somente a certeza de quem é a mãe e “a descendência só pode ser estabelecida do lado materno, e, por conseguinte, apenas se reconhece a linhagem feminina” (Engels, 1997, p. 43). O direito materno, atribuído por Bachofen e Morgan às mulheres, lhes propiciou um papel primordial. Como veremos a seguir, entretanto, foi se extinguindo com o surgimento do direito paterno.

Na matrilinearidade, as relações sexuais foram proibidas entre irmãos e irmãs de parte materna. Sendo assim, o grupo pertencente a esta forma de família transforma-se em uma gens, ou seja,

constitui-se num círculo fechado de parentes consangüíneos por linha feminina, que não se podem casar uns com os outros; e a partir de então, este círculo se consolida cada vez mais por meio de instituições comuns, de ordem social e religiosa, que o distingue de outras gens da mesma tribo (Engels, 1997, p. 44).

A influência da gens na proibição do matrimônio entre parentes consanguíneos, teve grandes consequências no matrimônio por grupos, que foi, aos poucos, sendo substituído pela família sindiásmica. Nesta fase,

um homem vive com uma mulher, mas de maneira tal que a poligamia e a infidelidade ocasional continuam a ser um direito dos homens, embora a poligamia seja raramente observada, por causas econômicas; ao mesmo tempo, exige-se a mais rigorosa fidelidade das mulheres, enquanto dure a vida em comum, sendo o adultério destas cruelmente castigado. O vínculo conjugal, todavia, dissolve-se com facilidade por uma ou outra parte, e depois, como antes, os filhos pertencem exclusivamente à mãe (Engels, 1997, p. 49).

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Nas organizações anteriores das formas de família, raramente os homens tinham dificuldades em encontrar mulheres. Gradativamente, porém, as mudanças são significativas. O hábito de raptar e se apoderar do sexo feminino por meio de uma moeda de troca tem sido prática frequente. Vale ressaltar, entretanto, que em todas as tribos a mulher sempre foi considerada livre e muito bem quista. Artur Wright, que foi missionário entre os iroqueses, pronunciando-se sobre a situação das mulheres no matrimônio sindiásmico, ponderou que,

a respeito de suas famílias, na época em que ainda viviam nas antigas casas-grandes (...) predominava sempre lá um clã (gens)... Habitualmente as mulheres mandavam na casa; as provisões eram comuns, mas – ai do pobre marido ou amante que fosse preguiçoso ou desajeitado demais para trazer sua parte ao fundo de provisões da comunidade! Por mais filhos ou objetos pessoais que tivesse na casa, podia, a qualquer momento, ver-se obrigado a arrumar a trouxa e sair porta afora. (…) As mulheres constituíam a grande força dentro dos clãs (gens) e, mesmo, em todos os lugares. Elas não vacilavam, quando a ocasião exigia, em destituir um chefe e rebaixá-lo à condição de mero guerreiro (apud Engels, 1997, p. 51).

Na família sindiásmica houve algumas mudanças cruciais, principalmente no que diz respeito à posição do homem na sociedade e à divisão social do trabalho na família. Agora, “cabia ao homem procurar a alimentação e os instrumentos de trabalho necessários para isso (…) o homem era igualmente proprietário do novo manancial de alimentação, o gado, e, mais adiante, do novo instrumento de trabalho, o escravo” (Engels, 1997, p. 58-59).

Neste estágio de família também “as riquezas, à medida em que iam aumentando, davam, por um lado, ao homem uma posição mais importante que a da mulher na família” (Engels, 1997, p. 59), considerando que eles eram os “donos” e controlavam as riquezas. Aliada a isso, a tradição da concessão da herança aos/as filhos/as atribuída até então pelo direito materno, que garantia a herança somente à descendência por linhagem feminina, começa a ter movimentos contrários. Qualquer mudança, entretanto na forma que estava estabelecida, entretanto, não poderia se dar enquanto permanecesse vigente o direito materno; e esta revolução aconteceu e

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“não teve necessidade de tocar em nenhum dos membros vivos da gens” (Engels, 1997, p. 59).

Todos os membros da gens puderam continuar sendo o que até então haviam sido. Bastou decidir simplesmente que, de futuro, os descendentes de um membro masculino permaneceriam na gens, mas os descendentes de um membro feminino sairiam dela, passando à gens de seu pai. Assim, foram abolidos a filiação feminina e o direito hereditário materno, sendo substituídos a filiação masculina e o direito hereditário paterno (Engels, 1997, p. 59-60).

À medida que a posição do homem ganha maior importância em função do acúmulo de riquezas, também passa a assumir vantagens no que diz respeito à herança. Sendo assim, surge a figura do pai, que se torna o proprietário da força de trabalho e dos meios de produção dos escravos, bem como é considerado como figura relevante na família. Em consequência, para fazer valer o direito paterno, é instituída a monogamia para a mulher, abolindo-se, assim, o direito materno. “Não sabemos a respeito de como e quando se produziu essa revolução entre os povos cultos, pois isso remonta aos tempos pré-históricos” (Engels, 1997, p. 60), mas dados reunidos por Bachofen demonstram que a mesma aconteceu, iniciando-se, então, a opressão de um sexo sobre o outro.

Com o fim do direito materno, “o homem apoderou-se também da direção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução” (Engels, 1997, p. 61). Esta, segundo Engels (1997), foi considerada a grande derrota da história do sexo feminino.

Nesse período, também ocorre o surgimento da família patriarcal, espaço histórico submetido ao poder masculino. “A característica da sociedade patriarcal, em sua forma mais absoluta, reside no estrito controle da sexualidade feminina” (Badinter, 1986, p. 95) pelo homem. A instituição da família patriarcal marca a passagem do matrimônio sindiásmico à monogamia. A família monogâmica “baseia-se no predomínio do homem; sua finalidade expressa é a de procriar filhos cuja

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paternidade seja indiscutível; e exige-se essa paternidade indiscutível porque os filhos, na qualidade de herdeiros diretos, entrarão, um dia, na posse dos bens de seu pai” (Engels, 1997, p. 66).

A monogamia, na realidade, existe só para a mulher e “exige-se dela que tolere tudo isso e, por sua vez, guarde uma castidade e uma fidelidade conjugal rigorosas” (Engels, 1997, p. 67). Este estágio de organização da família,

surge sob a forma de escravização de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, ignorado, até então, na pré-história. (…) O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino (Engels, 1997, p. 70-71).

Instaura-se, assim, gradativamente, a partir da monogamia, a escravidão e a propriedade privada dos meios de produção. “Foi a primeira forma de família que não se baseava em condições naturais, mas econômicas, e concretamente no triunfo da propriedade privada sobre a propriedade comum primitiva, originada espontaneamente” (Engels, 1997, p. 70). Se buscarmos a origem do conceito família, percebemos que

a palavra família não significa o ideal – mistura de sentimentalismo e dissensões domésticas – do filisteu de nossa época; – a princípio, entre os romanos, não se aplicava sequer ao par de cônjuges e aos seus filhos, mas somente aos escravos. Famulus quer dizer escravo doméstico e família é o conjunto dos escravos pertencentes a um mesmo homem (Engels, 1997, p. 61).

A monogamia, além de ser considerada um grande progresso histórico, “ao mesmo tempo iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas (…) no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros” (Engels, 1997, p. 71). Na propriedade privada, o controle sobre a mulher e a sua submissão são fundamentais, fortalecendo, assim, a divisão sexual do trabalho, em

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que

o trabalho produtivo da mulher concentra-se na produção de valores de uso; o do homem, nos valores de troca. Como há precedência da produção de valores de troca sobre a de valores de uso, a mulher passa a trabalhar para o marido e para os filhos, e o homem trabalha para a troca e aquisição da propriedade (Toledo, 2005, p. 29).

Assim, com a estruturação da família patriarcal, os papéis assumidos pelas mulheres e pelos homens passam a atingir o patamar da desigualdade. A responsabilidade da sobrevivência, em particular das crianças, que antes era da sociedade, ou seja, do grupo social no qual os indivíduos se encontravam, é transferida para a família monogâmica, sendo a mulher designada para assumir a responsabilidade do cuidado com as crianças, as pessoas idosas, os doentes e a alimentação, assumindo o trabalho da reprodução; enquanto isto, ao homem cabe o papel de “provedor” da família, designando suas responsabilidades para a produção. As relações de gênero passam a ser estruturadas pela divisão sexual do trabalho (Faria; Nobre, 1997).

No patriarcalismo, o outro oprimido é a mulher, cujo destino é o cotidiano doméstico, pois este sistema enfatiza a necessidade de manter a mulher em seu estado de domesticidade, cumprindo o seu papel específico de rainha do lar, enquanto ao homem cabe a esfera pública (Grolli, 2004, p. 143-144).

Engels teve sua contribuição nos estudos da origem da opressão da mulher, pois “relacionou esta questão a formas de organização familiar e à divisão sexual do trabalho, mostrando que não tinha nada de natural” (Toledo, 2005, p. 28). Torna-se visível aqui a discussão acerca da opressão da mulher como sendo fruto da influência da sociedade, da cultura, das religiões e costumes. E, por serem as religiões e os costumes uma manifestação cultural, esta visão pode ser modificada e ser superada pelos seres humanos.

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1.2. Indícios de uma sociedade de parceria entre homens e mulheres

Mediante pesquisas da historiadora Riane Eisler, principalmente pela sua obra “O prazer sagrado: sexo, mito e a política do corpo”, trazemos à tona discussões acerca das relações de gênero que vigoravam principalmente nos primórdios da pré-história. Esta autora defende que antes da dominação5 existia uma sociedade de parceria.6 Isto evidencia-se, principalmente, pela contribuição de arqueólogos. Segundo Eisler, (1996, p. 15),

há evidências consideráveis das escavações arqueológicas de que por milhares de anos mulheres e homens viviam em sociedades onde a norma, não apenas para as relações sexuais, mas para todas as relações – das entre pais e filhos até as entre seres humanos e a natureza –, não era a dominação e a exploração.

Neste modo de organização social amparado na parceria, “a diferença não é equiparada automaticamente à inferioridade ou superioridade, a minorias versus maiorias, a dominar ou ser dominado” (Eisler, 1996, p. 16). A harmonia das relações sociais e com o meio ambiente natural é uma constante.

Conforme indícios arqueológicos retratados por Eisler, o corpo da mulher, nos primórdios da humanidade, era venerado, isto quer dizer que, “em tradições que remontam ao princípio da civilização, a vulva era venerada como o portal mágico da vida, possuindo o poder tanto de regeneração física quanto de iluminação espiritual e transformação” (1996, p. 27).

Várias esculturas do que os arqueólogos chamam de estatuetas de Vênus ou da Deusa, assim como outros objetos cerimoniais desenterrados por todo o mundo antigo, enfatizam extremamente a vulva. Na medida em que a arte pré-histórica se preocupa primordialmente com mitos e rituais, há pouca dúvida a respeito 5 O modelo de dominação que a autora se refere é baseado na ação em que “o homem ocupa uma posição superior à da mulher e as características e valores sociais estereotipadamente associados com 'masculinidade' são considerados superiores aos associados com 'feminilidade”(Eisler, 1996, p. 512).

6 No modelo de parceria “homens e mulheres são avaliados igualmente na ideologia que predomina, e os valores estereotipadamente 'femininos', tais como a proteção e não-violência, recebem primazia operacional” (Eisler, 1996, p. 512).

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dessas vulvas terem importância religiosa. Por exemplo, na comunidade neolítica de Lepenski Vir, na região do Portão de Ferro, no nordeste da Iugoslávia, cinqüenta e quatro esculturas de arenito vermelho, lavradas em um penedo oval, foram encontradas em torno de altares em forma de vulvas e úteros, em santuários construídos com a forma do triângulo púbico (Eisler, 1996, p. 28).

Inclusive, na tradição religiosa da Índia, o triângulo púbico feminino era visto como o centro da energia divina, pois da vulva saíam seres humanos. Também há indicações de que o falo masculino era um objeto de adoração na Antiguidade. Eisler faz referência aos importantes estudos realizados pela arqueóloga Marija Gimbutas, principalmente em escavações no nordeste da Itália, onde “foi encontrada uma escultura cuja forma sugere tanto um falo quanto uma estatueta da Deusa, altamente estilizada, na gruta Gaban, perto de Trento” (Eisler, 1996, p. 29-30).

Até as conhecidas dicotomias entre homem e mulher exerciam uma unidade. Como exemplo, citamos os significados atribuídos às relações de gênero no Tibete, onde “a famosa frase om mani padme hum (a jóia na flor de lótus) tem muitas camadas de significados místicos. Refere-se à unidade primordial em um todo maior do que hoje tendemos a considerar polaridades: claro e escuro, criação e destruição, fogo e água, e mulher e homem” (Eisler, 1996, p. 40).

Na Cabala também foram encontradas estatuetas que exaltavam a mulher e a sua sexualidade, “por exemplo, as chamadas Vierges Ouvrantes que eram veneradas na Idade Média cristã, retratam o corpo grávido de Virgem Maria na mesma postura de algumas das chamadas estatuetas grávidas de Vênus, no período paleolítico” (Eisler, 1996, p. 41).

Originalmente, na iconografia indiana, o sinal de infinito (∞) significava, aparentemente, a união sexual: dois tornando-se um. Composto de dois círculos, próximos um do outro – um no sentido dos ponteiros do relógio e o outro no sentido inverso, sem um ficar sobre o outro –, simbolizava a igualdade de mulheres e homens, em relação à totalidade ou ao infinito (Eisler, 1996, p. 42).

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Riane Eisler também traz interpretações da paleoantropóloga Adrienne Zihlman e da antropóloga Nancy Tanner acerca da fundação da sociedade humana, orientada “pela idéia do chimpanzé como o protótipo pré-hominídeo – sugere que foi através da partilha entre mães e filhos do alimento colhido, e não através do vínculo masculino ligado à caça, que os elos sociais, sobre os quais baseia-se a sociedade humana, se desenvolveram” (Eisler, 1996, p. 55-56).

Ao contrário dos teóricos do “homem caçador” – que supõem que as primeiras ferramentas humanas foram paus e pedras usados como armas para matar animais, assim como homens –, propõem que a primeira ferramenta humana foi usada por mulheres para aumentar, processar e carregar o alimento colhido para sua prole (Eilser, 1996, p. 56).

Tanner e Zihlman também assinalam que, “entre os chimpanzés (e, de fato, também babuínos), as fêmeas não apenas colhiam seu próprio alimento como freqüentemente demonstravam uma preferência flagrante em fazer sexo com machos menos agressivos, que eram cordiais e não as assustavam ou ameaçavam” (apud Eisler, 1996, p. 56). Sendo assim, as referidas autoras reforçam que as primeiras relações entre os gêneros se davam por intermédio da parceria, “em vínculos de confiança mútua mais do que no medo e na força –, ou dito de outro modo, se conformavam mais a um modelo de relações sexuais e sociais de parceria que a um de dominação” (apud Eisler, 1996, p. 56).

Com o povo da tribo Musuo, que viviam nos vales do Nordeste da China, “as relações sexuais entre mulheres e homens baseiam-se exclusivamente no prazer entre os amantes (…) a organização familiar é matrifocal (centrada na mãe), e a responsabilidade da distribuição igualitária de recursos é das mulheres mais velhas” (Eisler, 1996, p. 70). Nesta organização familiar, “embora os filhos homens herdassem a propriedade, a terra da família (como entre o povo Musuo) cabia de direito à mulher” (Eisler, 1996, p. 71). Neste tipo de sociedade, inclusive a política é assunto de mulher e os princípios da coletividade, da solidariedade e da paz são

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extremamente mantidos (Coler, 2008)7.

A arqueologia possibilitou que tivéssemos um olhar positivo acerca do corpo da mulher, até então negligenciada8. Isto fica evidente principalmente nos santuários de grutas europeias, onde foram encontradas esculturas de mulheres nuas. “Comumente descritas como Vênus, essas estatuetas de corpo inteiro, altamente estilizadas, são hoje geralmente percebidas como imagens antigas dos poderes que concedem e nutrem a vida, como os simbolizados pela vulva, seios e útero (Eisler, 1996, p. 75).

A explicação provável para o estudo “de nossos ancestrais pelo nascimento – ou mais precisamente, o renascimento – da vida ajuda a explicar freqüentes representações de vaginas nos santuários pré-históricos nas cavernas” (Eisler, 1996, p. 77).

Essas imagens obviamente não tinham relação com a caça. Uma explicação bem mais plausível é que se baseavam em observações extremamente cuidadosas, por parte de nossos ancestrais, dos ritmos da natureza – observações que, como Marshack assinala, são surpreendentemente científicas em relação aos detalhes e precisão matemática. E, como ilustra o bastão de Montgaudier, essas imagens provavelmente figuravam em cenas de significação mítica associadas a ritos que celebravam o retorno cíclico da primavera – e, portanto, a renovação periódica da vida em todas as plantas, animais e formas humanas (Eisler, 1996, p. 78).

É difícil, no entanto, termos acesso à verdadeira natureza destes mitos. “Mas é evidente, a partir dos vários pares de animais fêmeas e machos da arte paleolítica, que nossos ancestrais estavam impressionados com a existência de dois sexos em várias espécies” (Eisler, 1996, p. 78). Além disso, o povo paleolítico igualava a mulher como Mãe Divina, retratando que o gênero feminino teve, sim, importância

7 A obra “O reino das Mulheres: o último matriarcado”, de Ricardo Coler (2008), relata uma pesquisa realizada junto a este povo que é considerado o último matriarcado que se tem notícia, revelando uma organização social totalmente diferente da que se vive no mundo moderno.

8 Vale salientar que esta releitura dos dados arqueológicos é recente. Até então a análise destes dados era realizada por homens, os quais interpretavam através de uma linha de pensamento conservadora, patriarcal e dominadora.

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fundamental no decorrer da História.

As pessoas do paleolítico percebiam a fonte original da vida nesta terra não como um Pai divino, mas como uma Mãe divina, como a força de vida tão dramaticamente manifestada no corpo da mulher. E não tentaram, como faz a Bíblia judaico-cristã, simular que na criação da vida humana a mulher foi uma mera parte suplementar (Eisler, 1996, p. 83).

Os indícios arqueológicos apontados ao longo da história manifestam que, de fato, existiam sociedades mais igualitárias, de parceria. Isto evidencia-se, pois,

em escavações extensas dos primeiros povoados europeus neolíticos, que mantinham comércio regular e outros contatos uns com os outros, há poucos sinais de destruição por guerras e de fortificações. Além do mais, há na rica arte neolítica uma ausência extraordinária (para nós) de cenas de homens matando uns aos outros em batalhas “heróicas” e de homens violando mulheres (Eisler, 1996, p. 99).

As profissões importantes do período, como o tear, a cerâmica, a criação de artefatos, eram ocupadas principalmente por mulheres, que, inclusive, tinham espaços religiosos fundamentais, posto que “há evidências na arte, sepulturas e templos, de que as mulheres foram sacerdotisas, ocupando posições religiosas importantes” (Eisler, 1996, p. 100). A arqueóloga Gimbutas, citada por Eisler, (1996, p. 100), destaca que “o fato de mulheres desempenharem tais papéis importantes na vida da Europa antiga não significa que os homens fossem oprimidos”.

(…) relicários em miniatura, oriundos da antiga Europa, nos informam sobre as atitudes neolíticas em relação às atividades que, nas sociedades contemporâneas pré-industriais, geralmente são classificadas como trabalho de mulher, tais como fiar, tecer, fazer farinha e assar pão. Como vemos nesses templos (a partir de várias figuras femininas), lareiras, fornos e teares, estas eram algumas das atividades das mulheres que prestavam serviço como sacerdotisas nas sociedades neolíticas. E o fato de fornos, rodas de cerâmica e teares terem sido retratados nos informa que essas atividades eram extremamente valorizadas – assim como as várias representações posteriores de armas e guerreiros indicam a alta valorização das atividades envolvidas na guerra (Eisler, 1996, p. 102-103).

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(1996) empregou o “termo parceria por ser conhecido e ter a conotação de mutualidade. Também cunhei a palavra gilania9 para satisfazer a necessidade de

uma alternativa específica de gênero tanto para o patriarcado quanto para o matriarcado” (p. 100).

Ao referir-se aos cuidados com os/as filhos/as, Eisler (1996) reforça a teoria da parceria, sendo a responsabilidade do “cuidar” não uma função somente individual, mas principalmente social, ou seja, o cuidado das crianças era uma atribuição da sociedade e não das mães.

(…) o cuidado e o bem-estar dos filhos era uma responsabilidade comunal e não meramente privada – atitude que ressurge gradualmente em nossa época, particularmente nos chamados sistemas previdenciários escandinavos, mais voltados para a parceria, onde a custódia da criança é vista como uma preocupação também social, em vez de exclusivamente individual (p. 105).

A relação de parceria, no entanto, nem sempre prevaleceu. Segundo Eisler (1996), o enigma da mudança de sociedade de parceria para uma sociedade de dominação, ainda persiste. Citando o geógrafo James DeMeo, entretanto, cogita-se que as primeiras sociedades de dominação eram oriundas de duas regiões. “A primeira, onde hoje é o deserto árabe, e a segunda, bem próxima de onde Gimbutas considera a terra natal dos kurgans, na Eurásia” (p. 124). Ainda, segundo Eisler, DeMeo atribui essa mudança para uma sociedade de dominação como sendo consequência das mudanças radicais do clima.

Essas alterações teriam resultado nas invasões pastoralistas que alteraram tão radicalmente o mundo antigo. Em outras palavras, segundo DeMeo, essas mudanças ambientais drásticas foram a mola propulsora de uma seqüência complexa de eventos – fome, caos social, abandono da terra e migração em massa –, que acabaram levando a uma modificação fundamental da organização social e sexual que prevalecia na evolução cultural humana (Eisler, 1996, p. 125).

9 “Gilania” é um composto de gy (do grego gyne ou mulher) e de an (de andros ou homem). O l entre eles é a primeira letra do verbo grego lyos, que tem o duplo sentido de liberar (como em catálise) e resolver (como em análise) (Eisler, 1996, p. 534-535).

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Com base nesta teoria, DeMeo (1991), citado por Eisler (1996), fez a descoberta de “que havia uma correlação, nas sociedades tribais pré-industriais, entre um meio ambiente árido, a rígida subordinação social e sexual das mulheres, a equiparação da masculinidade com agressividade (…) e a repressão e/ou distorção do prazer sexual” (p. 125). Afirma, ainda, que a manutenção e consolidação do atual sistema de dominação deu-se principalmente pelo controle efetivo que se passou a ter, principalmente, sobre a sexualidade feminina.

Da mesma forma, as teorias da antropóloga Peggy Reeves Sanday vão ao encontro do que DeMeo defendia. Segundo a autora, em certas culturas, “os homens reagem à tensão causada pela escassez de alimento ou pelas circunstâncias da migração se unindo, excluindo as mulheres das cerimônias de poder de orientação masculina, e voltando a agressão contra elas” (Sanday, 1981, p. 158, citada por Eisler, 1996, p. 127).

Eisler (1996) ainda acrescenta a essas teorias, a necessidade de análise dos fatores tecnológicos e econômicos. Segundo ela,

é extremamente significativo que as pessoas que originalmente disseminaram um tipo dominador e androcrático de organização social em regiões mais hospitaleiras (onde se desenvolveram originalmente as sociedades agrícolas voltadas para a parceria) fossem pastoralistas nômades. Em outras palavras, penso que o pastoralismo nômade, enquanto tecnologia, é mais propenso a estimular uma organização de dominação do que a agricultura (p. 127-128). (…) quando nos habituamos a viver de animais escravizados (para carne, queijo, leite, couro, etc.) como praticamente a única fonte de subsistência, podemos nos acostumar mais facilmente a encarar a escravidão de outros seres humanos como admissível (p. 129-130).

Concomitante com essa abordagem, Eisler (1996) traz à reflexão também as consequências para construção da ideologia da mulher como mera reprodutora ou procriadora. Segundo a autora, essa dependência dos animais para o abate, tendo em vista a subsistência, “também pode servir como parte do fundamento psicológico para a visão da mulher (…) como meramente procriadora ou tecnologia sexual para

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a reprodução – como propriedade do homem” (p. 130), ou seja, no princípio, os seres humanos se alimentavam da coleta de frutas e sementes, atribuição essencialmente feminina. Com a escassez deste alimento, as comunidades necessitaram abater animais, tarefa esta masculina.

De modo geral, segundo DeMeo, as relações sociais de dominação masculina se intensificaram e geraram a “institucionalização do trauma, não apenas através da crueldade sistemática com as crianças e mulheres, mas também através da guerra e do governo despótico de homens fortes” (apud Eisler, 1996, p. 136). Isto é visível por meio dos registros arqueológicos e de sociedades em que vigora a dominação masculina na família, na cultura e nos costumes.

Na sociedade ateniense a dominação masculina também prevaleceu. Segundo a historiadora Eva Keuls, fica claro que a mulher era considerada, perante as leis atenienses, como escrava do homem.

Como escrava, uma mulher não recebia virtualmente nenhuma proteção da lei, exceto enquanto fosse propriedade de um homem. Na verdade, de acordo com a lei, ela não era uma pessoa. A dominância do homem sobre a mulher era tão completa durante o período em questão, quanto a do senhor sobre o escravo (Cfe. Peradotto; Sullivan, 1984, p. 33, citados por Eisler, 1996, p. 140).

A fim de “privá-las ainda mais de qualquer poder autônomo, também havia a prática de lhes serem proibidos, além do serviço público e voto, a educação sexual” (Eisler, 1996, p. 143). Isto abafava qualquer possibilidade de ascensão da mulher nos setores da sociedade. Mesmo assim, muitas mulheres resistiram e tiveram um papel muito importante e decisivo no desenvolvimento das civilizações. Embora a história do mundo ocidental cita a leitura de Homero e de filósofos gregos como Sócrates, Platão e Aristóteles, em leituras suplementares é possível descobrir uma outra realidade:

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Pitágoras aprendeu ética com uma certa Themistoclea, sacerdotisa em Delfos, e que Sócrates foi aluno de Diotema, sacerdotisa em Mantinea. (...) líderes de todo o mundo grego iam até Delfos para receber, de uma sacerdotisa chamada Pitonisa, conselhos quanto às questões sociais e políticas mais contundentes daquele tempo. Mas, sem dúvidas, a maior parte dos textos nem fazem menção a mulheres, nem tampouco a Creta (Eisler, 2007, p. 166).

Não somente este fato supracitado, como tantos outros, podem ser encontrados na história da humanidade10. A institucionalização de hierarquias autoritárias também se tornaram visíveis não apenas na Grécia Antiga, mas também na Palestina, Suméria e Babilônia. “Por exemplo, o sumerólogo Samuel Noah Kramer relata que, sob a lei sumeriana, se a esposa não tivesse filhos por se recusar a manter relações conjugais com o marido, podia ser jogada na água e afogada” (Eisler, 1996, p. 153).

Os estudos resgatados por Riane Eisler (1996), com base em indícios arqueológicos, portanto, são extremamente importantes, uma vez que nos auxiliam “a compreender que as questões elementares – como vemos nosso corpo, sexo, nascimento e morte – podem ser, e de fato foram, profundamente alteradas” (p. 138). O que fica evidente é que nos primórdios da humanidade existia uma sociedade em que vigoravam relações mais igualitárias e de parceria entre homens e mulheres e que, então, a opressão das mulheres não é um fato natural.

1.3. Afinal, qual é a origem da opressão das mulheres?

Os estudos acerca da origem da opressão da mulher encontram-se longe de serem esgotados. Há controvérsias na versão quanto à da origem da opressão da mulher nas relações de gênero, como pôde ser observado nas duas principais teorias anteriormente dissertadas.

10 A obra “O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro”, de Riane Eisler, apresenta uma importante retomada histórica da trajetória das mulheres, a qual é omitida, escondida e distorcida.

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A fundamentação das teorias de Bachofen, Morgan, Engels e, após, Eisler, com base nos primórdios da humanidade, nos demonstram um novo olhar acerca da temática de gênero, quando fica claro que a situação de opressão da mulher não é algo natural e muito menos imutável. Por intermédio da Antropologia e da Arqueologia, pudemos constatar as diferentes formas de organizações familiares, bem como os diferentes papéis atribuídos a mulheres e homens no decorrer da história e que estes se alteraram com o passar do tempo. “As descobertas antropológicas permitem afirmar que a mulher não nasceu oprimida, mas passou a sê-lo devido a inúmeros fatores, dentre os quais os decisivos foram as relações econômicas” (Toledo, 2005, p. 33) que sustentaram a opressão por meio dos costumes, da cultura e das crenças.

Já a análise arqueológica, segundo a historiadora Riane Eisler, vai em uma direção similar no que diz respeito à valorização do sexo feminino, condenando a inferioridade e a dominação. Mais uma vez está explícito que a dominação não é natural e que esta foi sendo construída historicamente, por meio de mudanças significativas oriundas de vários fatores. Eisler, conforme descrevemos anteriormente, trabalha com a hipótese de que existia uma sociedade de parceria, anterior à sociedade de dominação. Nesse sentido, e no campo da origem da opressão da mulher, Eisler tece algumas críticas às teorias de Morgan, Engels e Simone de Beauvoir que, segundo ela, “propõem que sistemas sociais cada vez mais complexos e adiantados estruturalmente requerem hierarquias de dominação” (Eisler, 1996, p. 118).

É importante, todavia, destacar e conhecer as teorias que procuram explicar a origem desta opressão, tendo presente o contexto dos acontecimentos da história da humanidade, uma vez que teorias são apenas tentativas de explicação de fenômenos e, também, podem ser alteradas ou modificadas.

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1.4. O aprofundamento da desigualdade entre homens e mulheres

A fim de verificar as causas das desigualdades nas relações de gênero no decorrer da História, perpassamos, a seguir, a Idade Média e Moderna, bem como se fará uma breve análise da forma de educação a que as mulheres tiveram acesso.

1.4.1. As mulheres na Idade Média

A participação das mulheres na história foi, muitas vezes, ignorada pelos historiadores e filósofos desde a Idade Antiga. Na Idade Média, principalmente, os registros encontrados retratam a inferioridade da mulher perante o homem, que são, predominantemente, relatados pelos religiosos da época, que eram as pessoas que “escreviam” a história e tinham uma identificação muito incisiva com o “pai”, numa visão patriarcal e dominadora.

Para os clérigos, a mulher é considerada frágil, inferior, tentadora e pecadora. A justificativa central para estas características atribuídas às mulheres era fundamentada no papel assumido por Eva, a qual foi considerada a grande culpada pela queda do gênero humano. Além disso, ainda consta a figura de Maria Madalena, retratada como “a prostituta arrependida que escolhe um caminho de purificação e penitência” (Dalarun, 1990, p. 49). Segundo Eisler,

o Novo Testamento menciona Maria Madalena repetidas vezes. Ela é descrita como prostituta – uma mulher que violou a lei androcrática mais fundamental: ser um objeto sexual de propriedade exclusiva de seu marido e senhor. Mas apesar dessa tentativa de desacreditá-la, ela continua evidentemente um membro importante do movimento cristão inicial. De fato, como vemos, há forte evidência de que Maria Madalena foi uma líder do movimento cristão primitivo depois da morte de Jesus. De fato, em um documento suprimido da Bíblia ela é tratada como alguém que resistiu fortemente à reintrodução, em algumas seitas cristãs, daquele tipo de escalonamento que Jesus havia questionado. Tais evidências, obviamente, não foram mantidas nas escrituras que os líderes daquelas seitas reuniram sob o nome de Novo Testamento (2007, p. 185).

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virgens, ou seja, “no mundo medieval, infância e adolescência unem-se numa mesma etapa, a da virgindade” (Dalarun, 1990, p. 43). Em síntese, ela era vista como disseminadora do mal para a humanidade. Isto pode ser constatado, claramente, pela perseguição das mulheres pela Igreja e pelo Estado, no período da “Santa Inquisição”, momento este em que milhares delas foram difamadas, desprezadas e exterminadas da sociedade11.

Foram empregados vários métodos para desvalorizar a mulher. O seu sangue menstrual era considerado impuro e sujo. Dizia-se que “a mulher possui pouco calor natural: é fria, (…) fora dos períodos de gestação, os resíduos que a sua falta de calor não lhe permite transformar pela cocção são expulsos sob a forma de sangue menstrual” (Thomasset, 1990, p. 79). Na época medieval, não se consegue descrever os órgãos sexuais da mulher sem compará-los com os dos homens. Assim, “pensa-se que a matriz é a forma inversa do pênis. Os ovários são os testículos femininos” (Thomasset, 1990, p. 77). As mulheres, por muito tempo, foram definidas, segundo Casagrande (1990), citando Aristóteles,

como homens incompletos e imperfeitos, dotadas de uma forma adequada à debilidade e à imperfeição da sua transbordante matéria, privadas de uma racionalidade capaz de governar plenamente as paixões, as mulheres dos comentários aristotélicos são frágeis, plasmáveis, irracionais e passionais. O seu corpo, caracterizado em comparação com o masculino por um excesso de humidade, torna-as capazes de receber mas não de conservar; húmidas, moles e inconstantes, vagueiam continuamente em busca da novidade, incapazes como são de terem opiniões resolutas e estáveis nas várias situações (p. 119).

O bispo Isidoro de Sevilha, no primeiro terço do século 7, no seu livro XV, descreve a função principal da mulher, que é a perpetuação da espécie, ou seja, a maternidade. “A mulher é inteiramente um ser natural, já que é o instrumento da

11 A “Inquisição” admitiu diferentes formas, dependendo das regiões em que ocorreu, porém não perdeu sua característica principal: uma massiva campanha judicial realizada pela Igreja e pela classe dominante contra as mulheres da populaç ão rural (EHRENREICH & ENGLISH, 1984, p. 10, citado por Angelin, 2005). Essa campanha foi assumida, tanto pela Igreja Católica, como a Protestante e até pelo próprio Estado, tendo um significado religioso, político e sexual. Estima-se que aproximadamente 9 milhões de pessoas foram acusadas, julgadas e mortas neste período, onde mais de 80% eram mulheres, incluindo crianç as e moç as que haviam “herdado este mal” (MENSCHIK, 1977, p. 132, citado por Angelin, 2005).

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continuidade da raça humana, o elemento essencial da Natureza, essa força activa que estabeleceu e que mantém a ordem do universo” (Thomasset, 1990, p. 65). Desta forma, o matrimônio, instituído pela Igreja, aliado à maternidade, era tido como caminho de salvação, por influência de três modelos que marcaram o período medieval: Eva, Maria e Maria Madalena.

a) Em primeiro lugar, a mulher como a tentadora, velha conhecida nas imagens associadas à serpente do Gênese, que tenta Eva, que, por sua vez, tenta Adão. Trata-se da imagem da mulher como introdutora do pecado no mundo. b) Por outro lado, temos a imagem da rainha do céu. A mãe do próprio Deus. Deus tem mãe. A salvação vem por uma mulher. Rainha dos apóstolos, mediadora de todas as graças, etc. c) Em terceiro lugar, a mulher como pecadora resgatada, Maria Madalena, a prostituta que, conta a Bíblia, andava com Jesus por todos os lados e a quem por primeiro ele se revela quando ressuscitado (Culleton, 2002, p. 141).

A maternidade passa a ser um dos principais papéis da mulher, ou melhor, uma imposição social, concomitantemente com as obrigações domésticas. “A esposa, por intermédio da oração, santifica-se a si mesma e à sua família” (Vecchio, 1990, p. 155). O casamento vai incidir diretamente na construção do modelo social da época, quando na economia evidencia-se o trabalho doméstico como sendo um espaço feminino e, ao mesmo tempo, um trabalho realizado gratuitamente e “por amor” à família. As únicas mulheres que estavam livres das responsabilidades do casamento eram aquelas que se refugiavam em um mosteiro ou as que ficavam em casa como santas mulheres de Deus. O modelo a ser seguido era o de uma “nora respeitosa, mulher fiel, mãe cuidadosa, avisada dona de casa, mulher irrepreensível sob qualquer ângulo” (Vecchio, 1990, p. 143). Vale ressaltar, aqui, que a mulher casada tinha que ser sexualmente fiel ao seu parceiro, posto que esta era uma das únicas garantias da paternidade, bem como da legitimidade da prole, uma vez que o “marido é, por definição, a figura central do universo da mulher casada” (Vecchio, 1990, p. 149).

Boa esposa é aquela que está em casa e que da casa toma conta. Fundada sobre a autoridade das Escrituras e da Patrística, e difundida desde sempre na mentalidade comum, esta convicção encontra um suporte válido nos textos aristotélicos, nos quais a atenção à casa

Referências

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