Capítulo 4: A PERCEPÇÃO DA TEMÁTICA DAS RELAÇÕES DE GÊNERO NA
4.2. Relações de gênero no currículo real da escola
4.2.1. As concepções de Relações de Gênero no discurso das professoras
Quando se fala em relações de gênero e educação é importante ter presente que todo o processo educativo, iniciado na família, nas convivências sociais, na escola e na trajetória de vida, tem de ser levado em consideração para qualquer análise que façamos. Sendo assim, constata-se que
ao chegar à escola, aos seis anos, em geral, a criança já teve, em parte, suas identidades sociais de gênero e de sexualidades definidas na família. Ou seja, a criança já foi construída como menina ou menino e, possivelmente, o papel de um ser heterossexual já foi definido discursivamente para sua identidade em casa. No entanto, é a escola, como primeiro contexto social do qual a criança participa fora de casa, que vai ter a função de legitimar ou recusar essas identidades, entre outros significados construídos previamente (MOITA LOPES, 2002, p. 203-204).
Com o objetivo de aprofundar esta análise, trazemos o conceito de gênero27 que surge em oposição à noção de que a mulher nasce meiga, fraca, incapaz, tentando romper com algumas dicotomias: divisão entre específico - geral, público - privado, produção - reprodução. Este conceito combate o determinismo biológico, pois reconhece o ser humano como uma construção social, ou seja “para que se compreenda o lugar e as relações de homens e mulheres numa sociedade importa observar não exatamente seus sexos, mas sim tudo o que socialmente se construiu sobre os sexos” (LOURO, 2008, p. 21).
Neste sentido, a compreensão acerca do conceito de gênero, por parte das entrevistadas (professoras e direção), é fundamental para a análise deste trabalho, uma vez que um dos objetivos centrais do projeto da escola prevê que seja abordada a importância deste conceito nos componentes curriculares.
Ao serem questionadas (professoras e direção) sobre qual entendimento tinham acerca do conceito de relações de gênero, obtivemos as mais variadas
27 “O conceito de gênero foi construído a partir do vocabulário inglês ‘gender’ e é utilizado para falar da construção cultural e simbólica das relações homem-mulher” (SOUSA, 1997, p. 22).
considerações e afirmações. Algumas professoras tinham um pouco mais de clareza e aproximação com a temática, enquanto outras demonstravam dificuldades enormes para conceituar relações de gênero. De acordo com a professora Márcia (Educação Física)28, relações de gênero,
são relacionamentos entre as pessoas, entre as pessoas de diferentes sexos, diferentes etnias... de todo o tipo de relacionamento em relação de várias pessoas de sexo, de raça, de cor... estilo de ser, modo de pensar, modo de agir, acho que tem isso aí sempre em relações de gênero.
O relato da professora Márcia reforça o tema geral do projeto, que evidencia a escola como espaço de conhecimento e convivência entre homens e mulheres. Nesta mesma linha de pensamento, a professora Terezinha (Língua Portuguesa) entende que gênero é “relações... são relacionamentos, entre pessoas, têm relações de gênero interpessoais, não é só de pessoas”. Ainda, a professora Jéssica (Ciências), acrescenta que “é a relação entre as pessoas, é o relacionamento, o convívio, uma relação que teria, uma relação entre duas pessoas, numa conversa, num grupo, numa atividade que envolve as pessoas”. A impressão que temos com estas conceituações supracitadas é de que o entendimento das professoras entrevistadas sobre relações de gênero é bastante superficial, posto que a temática é mais abrangente, assim como falta clareza nas afirmações, que deixam transparecer muita incerteza em torno do tema. Percebe-se, assim, que a falta de domínio da temática de estudo pode prejudicar a introdução deste projeto no currículo real.
A professora Anita (Educação Física), por sua vez, acrescenta, aos poucos, a afirmação de que gênero trata do feminino e do masculino, como trocas de experiências. Segundo ela: “questão de gênero pra mim é a questão do feminino e do masculino. Então, essa relação seria só porque existe entre ambos os sexos e, bem, é essa visão que eu tenho, assim, dessas relações, dessas trocas de experiências”.
Já a professora Adelaide (Língua Portuguesa) direciona sua conceituação de gênero tendo em vista as grandes lutas das mulheres em prol de direitos, como a igualdade no trabalho entre ambos os sexos:
Relação de gênero pra mim não é só relação do masculino e feminino, mas tudo que envolve o trabalho, a cultura, as relações pessoais, domésticas, na escola entre os diferentes sexos. Dentro da problemática que ainda tem em nosso país entre a diferença salarial, entre um cargo de chefia, digamos entre um homem e uma mulher, ainda há diferença, envolve uma questão também racista relacionada à relação de gênero não que seja de cor, mas de gênero, quando se fala em ocupação de cargo, posição ou liderança entre escolher o sexo feminino ou masculino.
No caso da professora Adelaide, percebe-se claramente que sua visão acerca da temática em questão é mais ampla do que as elencadas anteriormente. Isto se deve ao fato de que esta foi uma das professoras que auxiliou na elaboração do projeto da escola acerca da temática das relações de gênero.
Trazemos ainda a concepção de uma professora que atualmente integra a direção da escola, que, diferentemente das concepções anteriores, traz presente a discussão acerca da diversidade das relações de gênero. Segundo Rejane,
gênero é toda complexidade que envolve ali a questão do ser humano. Acho assim que tem uma diversidade muito grande em termos de gênero, não é só a questão do masculino e feminino mas tudo o que envolve essa questão de gênero. E a gente trabalha bastante aqui na escola a perspectiva assim da questão gênero enquanto relações também, entre no caso masculino e feminino...Hoje é feminino, é masculino, porque na verdade é toda uma complexidade posta hoje que a gente tem que respeitar a individualidade de cada um e a diversidade também.
Num primeiro momento tem-se a impressão de que há uma grande dificuldade no entendimento acerca do conceito de relações de gênero. Isto é compreensível considerando que esta temática é pouco abordada no meio educacional e também não há uma definição única para a mesma, uma vez que
constantemente está em discussão. Até mesmo pesquisadores/as da área muitas vezes tem dificuldades em conceituá-la. Neste contexto também é importante ter presente que a mulher, ao longo da história, sempre foi ocultada, inferiorizada, e isto se reflete em nosso meio nos dias atuais, principalmente quando trazemos à tona a discussão acerca da participação da mulher na sociedade. “Agora, quando a metade feminina que estava faltando na história começa a ser estudada com seriedade, podemos começar a desenvolver uma nova teoria da história e da evolução cultural que leve em consideração a totalidade da sociedade humana” (EISLER, 2007, p. 214).
O importante para esta pesquisa, no entanto, é partir da compreensão que as pesquisadas têm acerca do conceito de gênero, para uma posterior análise da forma como esta temática vem sendo trabalhada no currículo escolar para que, a partir da categoria gênero, possamos “entender as relações entre os sexos também no âmbito da cultura, do simbólico, das representações, e isso é muito importante quando se pensa em educação, porque, quando trabalhamos nessa área, reconstruímos a cultura, os valores (...) reproduzindo ou transformando as hierarquias” (CARVALHO, 1999, p. 9).
4.2.2. Currículo Formal X Currículo Real: análise do desenvolvimento do