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Capítulo 3: O RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE OPRESSÃO DAS

3.2. Da percepção das mulheres de sua condição de opressão

3.2.1. A Sujeição das mulheres segundo John Stuart Mill

John Stuart Mill22 traz, a partir de suas reflexões, algumas marcas das transformações ocorridas em decorrência da Revolução Francesa, assim como resgata questões pertinentes já apontadas pela feminista Mary Wollstonecraft23, no que diz respeito à emancipação da mulher na sociedade. Segundo Bernardo de Vasconcelos (2006), que escreveu o prefácio do livro “A Sujeição das Mulheres”,

Mill considerava que a subjugação de um sexo ao outro era “errada em si mesma” e constituía “um dos principais obstáculos ao progresso humano”. O sistema social, no que aos direitos da mulher dizia respeito, era a continuidade da escravatura primitiva na medida em que as mulheres eram privadas de quaisquer direitos. Com efeito, estavam até pior do que se fossem escravas, pois os homens não só lhe exigiam obediência, como também queriam o seu afecto! (p. 11).

As reflexões de Stuart Mill foram um dos marcos iniciais para a percepção da condição de inferioridade (principalmente pela comparação que existia em função da força muscular) a que as mulheres estavam submetidas. Ele afirmava que a superioridade de um sexo ao outro, além de ser uma visão totalmente equivocada, também era considerado um dos principais problemas para o desenvolvimento e progresso da humanidade, de modo que, “justamente por isso, deveria ser substituído por um princípio de perfeita igualdade, que não admitisse qualquer poder ou privilégio de um dos lados, nem discriminação do outro” (Mill, 2006, p. 33).

Concomitantemente, seus escritos deixam claro que a opressão das mulheres não é algo dado, imutável, mas que pode ser modificado, sendo a sociedade, e não a condição natural da mesma, responsável por esta escravidão das mulheres

22 John Stuart Mill nasceu em Londres em 1806. Desde cedo, por influência do pai, teve uma educação muito rigorosa. Em 1869 publica o livro A sujeição das mulheres, contribuindo decisivamente para a luta pela emancipação do sexo feminino.

23 Mary Wollstonecraft nasceu próximo a Londres em 1759. Publicou em 1792 o livro A Vindication of

perante os homens. Segundo Mill (2006), as mulheres “se encontravam num estado de servidão em relação a algum homem. E as leis e os sistemas políticos começam sempre por consagrar as relações já existentes entre os indivíduos” (p. 40). A sujeição das mulheres aos homens, na maioria das vezes, era uma das únicas possibilidades para alcançar o seu reconhecimento enquanto ser humano.

Todos os preceitos morais lhes dizem que é seu dever – e todos os sentimentalismos correntes afirmam que é de sua natureza – viver para os outros, abdicando por completo de si próprias, e não tendo outra vida que não seja para seus afectos. E esses afectos significam os únicos que lhes é permitido ter: o afecto pelo homem a quem estão ligadas e o afecto pelos filhos, que constituem um laço adicional e indissolúvel entre ambos. Quando adicionamos três coisas – primeiro, a atracção natural entre sexos opostos; segundo, a total dependência da mulher em relação ao marido, em consequência da qual qualquer privilégio ou prazer que tenha será ou dádiva dele, ou inteiramente fruto da sua vontade; e, por último, o facto de que é geralmente apenas através do marido que a mulher pode perseguir ou alcançar o principal objecto das aspirações humanas, a consideração dos outros, bem como todos os outros objectos da ambição social (Mill, 2006, p. 60).

Mill também destaca que “ao longo de toda evolução da história humana, a condição das mulheres tem-se vindo a aproximar da igualdade com os homens” (2006, p. 71). O autor também afirma que não se pode conhecer profundamente a natureza dos dois sexos, uma vez que sempre tivemos a oportunidade de vê-los na sua relação com o/a outro/a.

Se alguma vez se tivesse conhecido uma sociedade de homens sem mulheres, ou de mulheres sem homens, ou se tivesse existido uma sociedade de homens e mulheres em que estas não estivessem sob o controlo daqueles, teria sido possível adquirir algum conhecimento preciso acerca das diferenças psicológicas e morais eventualmente inerentes à natureza de cada um (2006, p. 71-72).

O autor também teceu algumas críticas ao casamento, posto que a sociedade da época insistia que este era um lugar primordial e considerado “o destino que a sociedade aponta às mulheres, a perspectiva para que são criadas e o objectivo que se pretende seja perseguido por todas, à excepção das demasiado feias para serem escolhidas como companheiras de qualquer homem” (Mill, 2006, p. 87). Ao discorrer sobre a desvantagem da mulher sobre o homem, o autor ainda retrata a condição

daquelas que eram consideradas feias pela sociedade e que, por uma questão de beleza, geralmente eram rejeitadas, sofrendo, assim, uma dupla carga de inferiorização. Este tipo de educação que era ensinada desde o nascimento, trazia nitidamente as influências da família, juntamente com sua cultura e costumes, com base no moralismo e influência visível das instituições religiosas. Segundo Mill (2006, p. 101),

se, nas suas melhores formas, a família é, como frequentemente se diz, uma escola de simpatia, afecto e abnegação carinhosa, mais serão as vezes em que se revela, no que respeita ao seu chefe, uma escola de arrogância, prepotência, auto-complacência desmedida, e de um rematado egoísmo, de que o próprio sacrifício constitui apenas uma forma particular – quando o cuidar da mulher e dos filhos mais não é do que o zelo por elementos da propriedade e do interesse próprios do homem, sendo a sua felicidade individual sacrificada de todas as formas à mais pequena das preferências dele.

Mill, entretanto, não condenava necessariamente a instituição do casamento, pois se o mesmo fosse realizado e mantido em condições recíprocas de igualdade e visasse o amor conjugal, não haveria maiores problemas. A questão levantada pelo autor é que o casamento estava instituído nos moldes sociais, e condicionava a mulher a uma situação de aprisionamento, sendo-lhe vedada principalmente a liberdade. Ele lamenta ainda que “as instituições, os livros, a educação, a sociedade, todos esses elementos continuam a formar os seres humanos para o antigo, já muito depois de o novo ter chegado – e muito mais ainda quando o novo está apenas a chegar” (Mill, 2006, p. 116). Nesta análise, Mill faz um recorte histórico a partir da situação vivida pela sociedade em épocas mais atuais, quando afirma que os “elementos seguem formando os seres humanos para o antigo”, enquanto, na atualidade em que vivia, já existiam ideias emancipatórias ou avançadas. Vale salientar, porém, que a humanidade em tempos remotos (ver capítulo 1) já viveu experiências ditas avançadas, quando as relações de gênero eram mais equilibradas.

Nos seus escritos sobre a condição das mulheres, Stuart Mill também destaca que elas próprias são culpadas em permanecer na condição em que se encontram.

Segundo ele, a maioria das mulheres não percebe que já naturalizou as “atribuições” que lhes foram sendo impostas e, inclusive, incorporou esse modo de ser e agir. Isso é fruto de uma cultura que perdura e continua dificultando o rompimento dessa condição de submissão em que as mesmas se encontram. Segundo Mill (2006, p. 34), “quando uma opinião está fortemente enraizada nos sentimentos, não só não se deixa abalar, como se torna ainda mais firme por haver argumentos de maior peso contra ela”. O autor justifica que existem muitos motivos para que as mulheres continuem a exercer uma posição de menoridade, mesmo estando as portas abertas para elas. Um deles é que “o domínio dos homens sobre as mulheres é diferente de todos os outros porque não é imposto pela força: é aceite voluntariamente, e as mulheres não só não se queixam como são co-responsáveis por nele consentirem” (p. 56).

Vale lembrar, contudo. que mesmo que as mulheres tentem conquistar o seu lugar também no mercado de trabalho, ou em outros espaços sociais, ainda “incumbe-lhes, em primeiro lugar, a supervisão da família e da economia doméstica, que ocupa pelo menos uma mulher em cada família, geralmente a de idade madura e experiência adquirida” (Mill, 2006, p. 172). Aliado a isso, são reféns de um salário reduzido comparado ao dos homens, sem considerar que o desempenho pode ser o mesmo ou até superior.

Será preciso uma doença na família, ou qualquer outra coisa fora do comum, para lhe conferir o direito de pôr os seus próprios assuntos acima da diversão dos outros. Tem de sempre estar a dispor de alguém ou, por norma, de toda a gente. E, se acaso tiver um estudo ou alguma outra actividade, tem de tentar aproveitar qualquer breve pausa que lhe surja para se dedicar a ela (p. 175).

As mulheres, porém, têm todas as condições de estar em pé de igualdade em relação aos homens e a história tem demonstrado aos poucos esta aproximação. “Embora isso, por si só, não prove que a assimilação tenha de ir até à completa igualdade, dá-nos seguramente algumas razões para supor que assim seja” (Mill, 2006, p. 71). Por exemplo, o que Aristóteles discerniu acerca do tamanho do cérebro

da mulher é facilmente contestado com argumentos convincentes de Stuart Mill quando afirma que

não está de forma alguma comprovado que o cérebro de uma mulher seja menor que a de um homem. Se essa conclusão se deve meramente ao facto de a estrutura física das mulheres ser, por norma, mais pequena que a dos homens, esse critério conduzir-nos-ia a conseqüências bizarras. É que, por essa ordem de idéias, um homem alto e espadaúdo teria de ser muitíssimo mais inteligente do que um homem pequeno, e a inteligência de um elefante ou de uma baleia prodigiosamente superior à de uma pessoa. Pelo que nos dizem os anatomistas, o tamanho do cérebro nos seres humanos varia muito menos do que o do corpo, ou até mesmo o da cabeça, sendo por isso totalmente impossível inferir um a partir do outro. E é um facto que algumas mulheres têm um cérebro tão grande como qualquer homem (Mill, 2006, p. 154).

Desta forma, pode-se afirmar que as análises empreendidas por Stuart Mill são de extrema importância para os estudos das relações de gênero, uma vez que apontam na direção da igualdade entre os sexos, condenando as formas de discriminação ainda existentes em nossa sociedade. Segundo Mill (2006, p. 116), “a verdadeira virtude dos seres humanos é a sua capacidade para viverem juntos como iguais, sem reclamar nada para si próprios que não estejam identicamente dispostos a conceder a todos os outros”. Assim como este autor, várias feministas da época começam a encontrar forças para reivindicar sua autonomia e buscar um mundo mais justo e humano.