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Entre o Ecocine e o curta-metragem: amor e cuidado em A casa de pequenos cubos

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Academic year: 2021

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Entre o Ecocine e o curta-metragem: amor e

cuidado em A casa de pequenos cubos

RESUMO

André Aparecido Medeiros [email protected]

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Bauru, São Paulo, Brasil.

Marcos Henrique Camargo [email protected]

Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Curitiba, Paraná, Brasil.

O curta-metragem constitui excelente opção para inúmeros realizadores. A apresentação mais concisa das personagens e da narrativa não impossibilita a transmissão de sentimentos e valores. A pesquisa se voltará para o amor e o cuidado, enquanto sentimentos e valores de preservação, com a compreensão de Leonardo Boff e para o Ecocine, concordando com considerações de Raquel Cabral. São discutidas particularidades de um curta-metragem e a abordagem de sentimentos e valores em narrativas. É analisado o curta A casa de pequenos cubos (Kunio Katô, 2008), observando a presença do amor e do cuidado, posicionando-o como cinema ecologista. Entende-se que amor e cuidado são temáticas universais que favoreceram o desenrolar da narrativa, contribuindo para torná-la um exemplo de Ecocine, agregando sentimentos e valores relacionados, incluindo os ecológicos.

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QUANTO AO CURTA-METRAGEM

Definido pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) como um filme com duração de até 15 minutos (ANCINE, 2013), o curta-metragem possui grande produção no mundo. Porém, por questões de ordem comercial, de distribuição e de aceitação do público, esse tipo de filme nem sempre goza da mesma importância atribuída a um longa-metragem. Ainda assim, conforme apontam vários autores, o formato está em expansão no Brasil desde os anos 1970 e, com a “explosão” da internet na última década, vem sendo cada vez mais difundido.

Dados os facilitadores de produção, no que se refere ao tempo de filmagem, questões técnicas e custos financeiros, entre outras características, o curta-metragem constitui uma escolha bastante comum no cinema de baixo orçamento, em documentários e em experimentações estéticas e de linguagem, por diferentes diretores, bem como por estudantes de audiovisual, que encontram nele uma possibilidade mais viável de colocar sua criatividade em prática. Muitos diretores produzem curtas-metragens enquanto não encontram espaço para a produção de um longa-metragem; outros o fazem por opção, de acordo com o roteiro ou com a ideia que pretendam transmitir.

Com sua pequena duração, esse tipo de filme exercita a prática da sintetização, considerando a necessidade de transmitir o perfil das personagens e de contar uma história em um período de tempo menor. O curta-metragem também se tornou uma ótima opção para atender o público de internautas e usuários de segundas telas (smartphones, tablets e laptops); a experiência de consumo desse tipo de mídia, certas vezes, demanda audiovisuais de menor duração.

Quanto aos sentimentos e aos valores, o tempo conciso não impossibilita a sua abordagem. Eles são constantes nos enredos, motivando a trama no desenrolar dos fatos e potencializando a identificação do público. Sobre o amor e o cuidado, sentimentos, ações e valores tão controversos, quanto variados, também são frequentemente abordados nos curtas-metragens narrativos. Por abrangerem temática universal, com grandes chances de prender a atenção do espectador, a forma com que amor e cuidado são tratados permite enredos surpreendentes, comumente trazendo à tona outros valores e sentimentos: a abordagem da saudade, por exemplo, frequentemente se relaciona à presença do amor; a preservação, por sua vez, pode ser associada ao amor e ao cuidado.

Altmann (2008, p. 613) considera que toda obra cultural é resultado de experiências do mundo da vida e observa que a arte cinematográfica pode ser considerada “documento e técnica de análise para melhor conhecer o social”, sendo que o realizador poderá traduzir os reflexos da realidade e oferecer-nos algumas novas visões. Assim sendo, analisar sentimentos e valores em filmes - tipo de arte que pode se inspirar em acontecimentos reais, conhecidos pelo autor para o desenvolvimento de características da narrativa – é também uma maneira de observar possíveis manifestações de sentimentos e valores na sociedade, em alguns de seus aspectos.

A seguir, procederemos à análise de uma obra de curta-metragem, que permite observar a plasticidade desse tipo de filme, que não apenas é capaz de narrar histórias com enredos objetivos e sintéticos, mas também é competente na

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abordagem de temas complexos e subjetivos, como sentimentos e valores relacionados ao amor, ao cuidado e à preservação, incluída a esfera ambiental.

QUANTO À ABORDAGEM ECOLÓGICA E ÀS DEMAIS CARACTERÍSTICAS DE A CASA DE PEQUENOS CUBOS

A casa de pequenos cubos (Tsumiki no ie, Kunio Katô, 2008) é um curta-metragem de animação realizado no Japão. Com aproximadamente 12 minutos de duração, o premiado trabalho alcançou enorme popularidade ao receber o Oscar, em 2009, comprovada pelo imenso público que atingiu na internet.

A narrativa do filme se desenvolve ao mostrar a necessidade de um solitário senhor de construir níveis adicionais em sua casa de tijolos, para que não sejam encobertos (casa e morador) pela água, que já inundou a cidade e continua aumentando seu volume. A elevação do nível da água, elemento essencial ao filme, representa o efeito de um impacto ambiental.

A devastação dos ecossistemas afeta a toda a humanidade, entretanto ela se faz sentir de modo mais direto em alguns pontos do planeta (no exemplo da elevação do nível das águas, nas regiões litorâneas e de baixa altitude) ou mesmo de uma localidade (como regiões degradadas ou de risco). Para outras partes, a alteração ambiental pode, comumente, passar despercebida ou não receber a devida atenção, considerando, por exemplo, o fato de ser gradativa e, por vezes, ainda não manifestar, sobre o segmento social mais favorecido, impacto direto,

perceptível ou associável à destruição da natureza. (Certas alterações climáticas

ou acontecimentos ambientais são inevitáveis, sendo fenômenos naturais, porém muitos casos são provocados ou acelerados pelo desgaste ambiental.) Desse modo, a história deste filme também funciona como difusora do cenário de mudança climática. Contando histórias de ficção, o cinema, em seu papel de meio de comunicação, tem o potencial de difundir situações locais para diferentes espaços do globo, ampliando a percepção e o conhecimento de situações.

A reflexão sobre problemas ambientais é um assunto que, isolado, pode não despertar tanta atenção quanto ao implicar envolvimento, como o gerado pelo filme. Ainda que grande parte da população mundial não se depare de modo tão visível com as repercussões dos problemas climáticos, incluindo as consequências do aquecimento global – processo acelerado pela degradação ambiental – pode ter acesso à informação com os meios de comunicação e pode se envolver na causa, por meio de uma história. No caso do filme analisado, o enredo foi construído de modo a gerar empatia, potencializando o interesse do público pela vida do protagonista, trazendo à tona a universalidade do tema.

A abordagem ecológica no cinema é importante por despertar a sensibilização direcionada ao meio ambiente, constituindo uma oportunidade de reflexão. Um filme que transita por essa temática, como abordado por Raquel Cabral (2015), pode ser considerado Ecocine ou cinema ecologista. Tal termo, ao menos por enquanto, não abrange um gênero cinematográfico, mas representa uma estratégia narrativa presente no enredo de filmes de diferentes gêneros.

Como explica Cabral (2015), o cinema ecológico se relaciona, inclusive, a pautas do eixo de comunicação da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) na promoção de estratégias de construção de uma Cultura da Paz. Tendo em vista o âmbito sociocultural, a pedagogia desse

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cinema é pautada pela educação em valores, incluindo a solidariedade. Mesmo assim, o Ecocine é ainda pouco pesquisado, carecendo de maior atenção, neste contexto de urgência do debate ecológico.

Em A casa de pequenos cubos, a realidade ambiental de uma comunidade fictícia é gradativamente transmitida ao público, podendo gerar a sensibilização para a causa ecológica e para os sentimentos da personagem.

No primeiro minuto de filme, já se pode observar uma tranquilidade transmitida pela obra, presente nas atitudes de seu protagonista. Por meio do olhar da personagem para o conjunto de fotografias existente na parede, incluindo a imagem de sua esposa, pode-se perceber o carinho que tem por ela e por seus familiares, representados em seus gestos e expressões. A música de Kenji Kondo é suave e sempre acompanhada do barulho do ambiente, como: a água, o canto dos pássaros e os movimentos empregados pela personagem.

Quando o senhor joga um anzol na água, observa-se o cenário de inundação atual da cidade, exibido tanto de fora da água quanto por baixo dela. A sequência de abertura chega ao fim, o título vem à tela e aparece a imagem da personagem na janela a observar a paisagem e, em seguida, a fechar a janela para se alimentar. Percebe-se o passar da noite e, em seguida, observa-se a personagem saindo da cama e levando um cachimbo à boca. Quando vai colocar seus calçados, se depara com a mais recente elevação do nível da água e se prepara para construir um novo andar em sua casa. Inicia a construção. Observa-se a passagem do tempo por meio da presença e do uso de diferentes elementos no cenário.

Em um dado momento, o cachimbo escapa de sua boca e passa pelo alçapão, que se encontrava aberto, caindo em algum andar inferior. Atenta, a personagem demonstra refletir, ao observar a queda do objeto. Em seguida, aparece, no piso superior, organizando seus retratos. Desce para receber um vendedor que trouxe consigo alguns cachimbos. Enquanto escolhe um cachimbo, a personagem visualiza equipamentos de mergulho. Em uma elipse, aparece usando a nova aquisição, pondo-se a mergulhar no interior do cômodo submerso. Passa por uma segunda portinhola.

Enquanto o senhor mergulha, veem-se alguns peixes no cenário. Visualiza o cachimbo sobre outra passagem. Ao tocá-lo, vem à sua memória a época em que vivia ali. Surge-lhe um episódio em que sua esposa, já senhora, entrega a ele o cachimbo caído. Ele parece ter ficado um pouco surpreso com a lembrança; reage como se tivesse acordado de um sonho. Não resiste; vai abrindo passagem para os pisos inferiores, cada vez tendo acesso a outras lembranças, de quando vivia no respectivo andar, em outras épocas. À medida que vai descendo na água, segue recordando fatos do passado, vendo-se, em suas lembranças, cada vez mais jovem. Como os andares superiores representam períodos mais recentes, nota-se a passagem do tempo e os rumos que as personagens tomaram na trama, inversamente à ordem cronológica. Com sutileza, é mostrado o carinho com que o senhor aprecia as lembranças que tem de sua família.

Na lógica da ordem cronológica inversa, enquanto é mostrado o rejuvenescimento do casal, com a mudança dos pisos da construção: pela redução, nota-se que ocorreu um aumento no número de retratos na parede, conforme o passar do tempo de vida das personagens; pelo encolhimento, nota-se o crescimento das crianças, também demonstrando a passagem do tempo e as

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mudanças de período. É apresentado o casamento da filha do casal, a presença de netos, os momentos vividos a dois, o singelo amor, o envelhecimento. O cuidado com os traços também está presente, passo a passo. Conforme desce em profundidade, tendo acesso a lembranças mais antigas, nota-se a imagem mais turva, a diminuição das luzes e o escurecimento do ambiente.

Em dado momento, a personagem atinge o fundo do leito das águas. Contempla o cenário e se recorda de uma árvore onde viveu muitos momentos com sua esposa, desde as brincadeiras da infância à descoberta da paixão; mais tarde, próxima a si, a construção da base inicial da casa – feita pelos dois – e os primeiros momentos nela. Sempre é cuidadosamente transmitida a passagem “presente-lembrança”, nas mudanças de cenário e na coloração cada vez mais sépia. O retorno ao tempo presente, suavemente construído, traz à personagem a constatação de que se encontra sozinha.

A história termina com a presença dessa consciência da solidão e da passagem do tempo, mas com a manutenção das memórias e do amor sentido por sua antiga companheira. O senhor arruma a mesa para o jantar e serve vinho em duas taças, como costumava fazer no passado. Brinda! Sua esposa não está mais fisicamente consigo, mas ele a mantém em pensamentos.

Dentre as constatações possíveis, nota-se que o filme trabalha uma atmosfera de encantamento. O diretor apresenta, poeticamente, em poucos minutos, uma história marcante, enquanto oferece uma metáfora sobre a passagem do tempo das vidas, indicando a água como elemento da memória, e os “mergulhos” no passado como resgate de lembranças queridas, que o tempo rouba na medida em que se avançam os anos, “construindo andares” onde se vive acima do passado.

O amor e o cuidado são apontados de modo leve, mas não superficial. A animação permite que tais sentimentos sejam lidos no protagonista, nas relações que mantinha com as pessoas, no passado, e na relação que mantém com tal passado. O amor fica subentendido em seu interesse pelas memórias que preserva e no apreço que demonstra por elas, expresso em seus gestos e na sequência dos fatos.

O modo com que lida com a situação acrescenta mais dimensões à história, situando o amor como um valor relacionado ao respeito com a trajetória vivida. Além disso, a história do filme tem o potencial de levar o público a se lembrar dos valores ambientais e da preservação do planeta, refletindo sua responsabilidade e seu próprio amor e cuidado à Terra.

O curta é caracterizado pela ausência de diálogos e falas, mas consegue comunicar a narrativa por meio da arte das imagens em movimento. Uma mensagem do filme se revela ao espectador quando deixa entrever os desejos humanos submersos pelas contingências da vida: a força da natureza, a passagem do tempo e o desenrolar de existências, que parecem ganhar sentido quando “mergulha-se” em lembranças.

A personagem, como em diversos outros filmes, tem seus sentimentos expostos na medida em que passa por circunstâncias difíceis. Kunigami (2011) reflete sobre a finalidade de mostrar o sofrimento de uma personagem. Aponta que o efeito de real ganha força na representação do sofrimento em seus desdobramentos políticos. Em seguida, inverte o questionamento: da finalidade de mostrar o sofrimento para a necessidade de vê-lo, mesmo sendo uma

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representação. Constata-se que o chamado realismo é um conjunto de códigos, cuja legitimidade de seu efeito depende de diversos fatores culturais. A exposição realista do sofrimento, conforme o autor, recebeu destaque na cultura visual contemporânea, sendo demanda na legitimação do real. Assim, inferimos que o resultado do trabalho com a sensibilização, ao tornar a ficção compreensível a partir de experiências reais de sensações, tem o potencial de aproximar as personagens com o público, possibilitando empatia e identificação.

São também características de A casa de pequenos cubos: a suavidade e delicadeza das linhas, a sutileza da narrativa, a “leveza” e a “tranquilidade” transmitidas pelas personagens, o valor poético da obra. Pelo conjunto dessas qualidades estéticas apresentadas pelo filme, a personagem pode levar o telespectador a se identificar consigo, com sua história, com seu passado e com o amor vivido. Merece destaque também o uso da trilha sonora, que enfatiza emoções.

Desse modo, abordando valores humanos que se relacionam à preservação ambiental, A casa de pequenos cubos tem o potencial de tocar a emoção humana e transmitir mensagens ricas em conteúdo.

QUANTO À ABORDAGEM DO AMOR E DO CUIDADO

A casa de pequenos cubos é um filme que retrata um amor que teve início em anos remotos e permanece no tempo presente da narrativa, aliado às recordações que um idoso, com nostalgia, mantém.

O enfrentamento da realidade, vivido pela personagem, funde-se com a leveza que caracteriza o enredo, nos cenários ligados à natureza, com paisagens ricas em composições, traços detalhados, produtos finais ricos em significâncias, gerando um equilíbrio, transmitindo a mensagem de que não houve a perda da serenidade e do interesse de tentar lidar com a falta, seguindo adiante e vivendo o presente. Mesmo que as emoções da personagem principal possam ser de difícil enfrentamento, ela apresenta o controle como resposta.

Amor e cuidado são elementos universais, presentes não apenas nesta narrativa como também em inúmeras outras, despertando o interesse de pessoas diversas, localizadas em diferentes lugares do mundo. A influência do cinema na vida das pessoas possibilita que elas possam, por meio de uma catarse emocional proporcionada por um filme, canalizar suas forças para o alcance de seus objetivos pessoais, além de possuírem a chance de ampliar seu repertório cultural, expandir seu conhecimento e se sensibilizar para diferentes causas.

O cinema, meio de comunicação e manifestação artística, é um canal de análise e intervenção cultural com potencial de promover mudanças individuais e coletivas, pois pode gerar um envolvimento que modifique a assimilação dos conteúdos de nossas experiências, considerando as emoções que desperte. Assim, o cinema é uma potente ferramenta educativa e pode direcionar a consciência de pessoas para diferentes temas.

Refletindo o cinema como um espaço de mediação entre sociedade, cultura e política e pensando no impacto sensorial em termos de informação, sedução e entretenimento, Cabral (2015, p. 72) aponta que o cinema constitui um recurso

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para estabelecer relacionamentos, atuando sobre a formação de imaginários, sendo uma potencialidade...

[...] fundamental para a geração e legitimação de discursos capazes de desenhar imagens socialmente responsáveis de um futuro sustentável. Oferece elementos argumentativos, persuasivos e expressivos para ações de responsabilidade social e meio-ambiental que respondem à agenda ecológica deste século. [...] Reúne elementos persuasivos e expressivos que atuam principalmente junto às emoções humanas. Isso lhe converte em um instrumento de poder simbólico, pois trabalha a partir da imagem, do som, e dos signos que tratam de representar e conformar a realidade social. [...] A importância do cinema e seu papel no século passado nos fazem compreender não somente sua inerente característica de meio para o entretenimento, mas algo além de tudo isso nos impulsiona a estudá-lo também como instrumento de ação social que potencialmente trabalha com narrativas que podem educar em valores.

Tais aspectos enfatizam a importância da discussão de temáticas de interesse cultural, ambiental e social em audiovisuais, incluindo o filme estudado. Assim, abordando amor e cuidado, o filme de animação analisado nesta pesquisa soube expressar a sensibilidade humana, tornando nítida a amplitude de certos sentimentos.

Somado a isso, o filme dá voz, mesmo que de modo sutil, ao debate ecológico, uma importante pauta contemporânea. Optando por não mostrar, diretamente, a violência a qual o meio ambiente é submetido, o filme aponta vestígios de tal problema por meio de seus impactos e de suas consequências sobre a vida da personagem principal. O enredo traz a temática socioambiental para junto do público, no âmbito das repercussões emocionais, visto que importantes cenários da memória da personagem foram todos inundados pelos níveis de águas que não cessam de subir. Tal fato é inspirado em uma realidade que assola partes do planeta, afetando – junto à natureza – a sociedade, urgindo mobilização.

Se esse elevado número de problemas encontra, frequentemente, suas causas em atitudes de seres humanos, a resposta para mudanças deve vir daí. É necessário que a humanidade respeite e cuide adequadamente do planeta. Como alerta Boff (1999), filósofo ecologista, a falta de cuidado abrange o sintoma dos maiores problemas da humanidade.

Como se pode notar, A casa de pequenos cubos carrega a abordagem do cuidado. O cuidado é tido por Boff (1999) como um importante valor humano, um modo de ser no mundo que cria a atmosfera que permite o florescimento de um sentimento profundo que humaniza, de uma vontade de partilhar e de buscar o amor. Para o autor, o cuidado está na linha da essência humana, abrangendo uma atitude de envolvimento afetivo, com implicações pessoais e humanitárias, transpassando o âmbito universal e abrangendo o planeta (“Mãe-Terra”), sendo importante para a preservação de todo tipo de vida. Por meio do cuidado, o ser humano pode coexistir e conviver em união, sintonia, interação, comunhão, acolhida e respeito com todo tipo de vida.

A casa de pequenos cubos traz, como mencionado, a dimensão do amor. Boff (1999) reconhece o amor como o mais alto valor da vida, sendo causa da existência

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da sociedade, permitindo a sociabilidade, incluindo a cooperação, pela abertura ao outro. Como a sociedade moderna neoliberal é pautada na competição, e não na partilha, ela se mostra excludente e faz muitas vítimas, sendo inumana e prejudicando o futuro da Terra. O amor é força de agregação e de solidariedade. O cuidado essencial, de acordo com o autor, conserva e expande o amor, religa a humanidade ao mundo, afetivamente, tornando-a responsável por ele.

O filme abrange diferentes dimensões do cuidado, seja na narrativa ou na consciência que desperta: o cuidado a si mesmo (lidando com a ameaça e mantendo o equilíbrio das emoções, cuidando da vida que em si sustenta); o cuidado entre semelhantes (evidenciado nas memórias de afeto); o cuidado com o ambiente no qual se vive (o habitat, a casa); e, por fim, o cuidado ao planeta, em sua gama de ambientes, que acolhem diversas formas de vida. A Terra, como uma grande casa que não sobrevirá sem conscientização, amor e cuidado, por parte de seus moradores humanos, constitui mais uma possível metáfora do filme. Aqui, o cuidado toma a forma de preservação.

Em sua narrativa, A casa de pequenos cubos foi capaz de integrar a humanidade à natureza, não apenas trazendo à tona a natureza no ser humano (demonstrando a mudança de ciclos e o envelhecimento), como também fazendo notá-lo como parte dela (o ser humano, junto aos demais seres vivos e ao ambiente, inserido em um ecossistema, estando em inter-relação com os demais componentes, conectados em âmbito global). Com um enredo criativo, crítico e poético permitiu, junto ao entretenimento e a possíveis interpretações, um despertar da reflexão.

Além de constituírem raiz para saudade e superação, cuidado e amor também são motivadores para o debate ecológico, impulsionando a preservação, por poderem atuar despertando um sentimento de comunhão interplanetária. Quando presentes no enredo de filmes, como o curta-metragem analisado, podem provocar a empatia do público, conduzindo o imaginário à responsabilidade ambiental, à sustentabilidade e à solidariedade.

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Between the ecocine and the short film:

love and care in A casa de pequenos cubos

ABSTRACT

The short film is an excellent choice for many filmmakers. The most concise presentation of the characters and of the narrative does not prevent the conveyance of feelings and values. Research will turn to love and care, while feelings and values of preservation, with an understanding of Leonardo Boff and to the ecocine, agreeing with Raquel Cabral’s considerations. Particularities of a short film and the approach of feelings and values in narratives are discussed. It is analyzed the short A casa de pequenos cubos (Kunio Katô, 2008), in love and care approach, positioning the work as an ecology film. It is understood that love and care are universal themes that favored the development of the narrative, contributing to make it an example of ecocine, adding other related feelings and values, including the ecological ones.

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REFERÊNCIAS

A CASA DE PEQUENOS CUBOS. Kunio Katô. Japão, 2008, digital.

ALTMANN, Eliska. Olhares da recepção, a crítica cinematográfica em dois tempos.

Caderno CRH, Salvador, v. 21, n. 54, set./dez. 2008, pp. 611-622. Disponível em:

<http://www.scielo.br/pdf/ccrh/v21n54/13.pdf>. Último acesso em: 28 nov. 2016.

ANCINE (Agencia Nacional do Cinema). Emissão do Certificado de Produto

Brasileiro – CPB. Passo-a-Passo. Disponível em:

<http://www.ancine.gov.br/media/passoapasso/RegistroObraCPB.pdf>. Último acesso em: 25 nov. 2016.

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999.

CABRAL, Raquel. ECOCINE e Relações Públicas: estratégias integradas de sensibilização meio-ambiental para construção de uma Cultura de Paz. Revista

Interdisciplinar de Direitos Humanos, Bauru: Unesp, n. 4, jun. 2015, pp. 67-86.

KUNIGAMI, André Keiji. Apontamentos: cinema, sofrimento e alteridade. In: SOCINE: Encontro Internacional da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema, 15., 2011, Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.socine.org.br/anais/2011/>. Último acesso em: 26 nov. 2016.

Recebido: 29 nov. 2016.

Aprovado: 18 dez 2016.

DOI: 10.3895/rde.v8n12.5087

Como citar:

MEDEIROS, J.A.; CAMARGO, M.H. Entre o Ecocine e o curta-metragem: amor e cuidado em A casa de pequenos cubos. R. Dito Efeito, Curitiba, v. 8, n. 12, p. 58-67, jan./jun. 2017. Disponível em:

<https://periodicos.utfpr.edu.br/rde>. Acesso em: XXX.

Direito autoral: Este artigo está licenciado sob os termos da Licença Creative Commons-Atribuição 4.0 Internacional.

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