F T & P O E S I A : A C I D A D A N I A D E P É Q U E B R A D O
I u m n a M a r i a S I M O N *
T ã o pouco se discute poesia no Brasil, que parece um absurdo a l g u é m v i r a p ú b l i c o para embirrar com um poema que expressa s i m p á t i c a a d e s ã o ao candidato do PT à s e l e i ç õ e s presidenciais, o que evidentemente mereceria antes c e l e b r a ç ã o do que alguma crítica. Falando a verdade, mais me indignaram os termos i n a c r e d i t á v e i s do elogio feito ao poema em resenha h á pouco publicada (Teixeira, 1994) do que o primarismo p o é t i c o e i d e o l ó g i c o de "Por um Brasil -C i d a d ã o " , estampado na Folha de S. Paulo (1994), j á que n ã o causa surpresa alguma encontrarmos formas de e x p r e s s ã o desse tipo na recente p r o d u ç ã o de Haroldo de Campos.
O referido poema f o i escrito para ser divulgado no material de campanha do PT, a pedido de S é r g i o Mamberti (coordenador da c o m i s s ã o de artistas que apoia a candidatura de Lula). O que t e r á motivado o poeta a aceitar a encomenda e a p r o n t á - l a a tempo? É claro que o pretexto criativo e a atitude p o l í t i c a n ã o o desabonam, antes pelo c o n t r á r i o . Sobretudo em tempos de conservadorismo como o nosso, quando a poesia de i n s p i r a ç ã o e c o n v i c ç ã o políticas, se n ã o está absolutamente desmoralizada, é o g ê n e r o p o é t i c o menos prestigiado. O fato de a l g u é m se dispor a trovar em torno de suas p r e f e r ê n c i a s p o l í t i c a s , mesmo que m o m e n t â n e a s , j á é um acontecimento - ainda mais em se tratando de um poeta cosmopolita, que j á v i u tanta coisa neste mundo - leia-se "Meninos eu v i " (Campos, 1992) - p o l i l í n g ü e , í n t i m o de atrizes globais e "pop stars", tradutor da B í b l i a e de Severo Sarduy, e sobretudo o vanguardista mais indiscutivelmente pontual de nossa literatura. Por que o poeta n ã o poderia se
* Departamento de Teoria Literária Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP -Campinas - SP.
impor um tema, ou partir de um assunto qualquer, para realizar seu trabalho de arte? A f i n a l , os temas considerados como indignos da poesia pura ou sublimizante - os temas da vida dos homens - foram objeto de poetas os maiores que conhecemos, em todos os tempos e lugares. Neste sentido, tendo a concordar com o J o ã o Cabral dos anos 50 quando, à s voltas com q u e s t õ e s da p r o f i s s i o n a l i z a ç ã o do escritor e da comunicabilidade da poesia moderna, dizia que o preconceito dos poetas contra a encomenda advinha n ã o da p o s s í v e l baixeza, banalidade ou p r o s a í s m o dos temas propostos, mas de um certo desprezo pela r a z ã o e pela atividade intelectual, numa a c e i t a ç ã o comodista de que o homem nada pode por si mesmo. Certamente n ã o e s p e r a r í a m o s que Haroldo de Campos, ex-tudo, mas sempre poeta, viesse hoje endossar os p r i n c í p i o s de racionalidade e c o n s t r u ç ã o do trabalho de arte, nos termos defendidos pelo poeta de Agrestes. Quem vive batendo na tecla da " r a z ã o a n t r o p o f á g i c a " , do descentramento, contra o logocentrismo, s ó mesmo por motivos inesperados poderia aprontar a encomenda que um petista lhe solicitou, em nome da r a z ã o e da boa c o n s c i ê n c i a política. Se atendeu o pedido, é porque tem uma n o ç ã o p ó s - v a n g u a r d i s t a e p ó s - m o d e r n a tanto da i n t e r v e n ç ã o p o é t i c a quanto do engajamento político, o que, aliás, d á idéia de como evoluiu o i d e á r i o construtivo da poesia brasileira de 1945 para c á , a t é desembocar em "Por um B r a s i l - C i d a d ã o " .
De qualquer modo, Haroldo de Campos fez um poema para L u l a , e entrou para a campanha do PT inspirado pelo "engajamento p o é t i c o de M a i a k ó v s k i " . E o que ele p r ó p r i o alardeia na m a t é r i a que fez acompanhar a p u b l i c a ç ã o do poema, numa toadinha e s t r a t é g i c a que repete as mesmas palavras do "salto participante" da imaculada poesia concreta, nos idos do p r é
-1964. Se, e n t ã o , isso significava uma enorme c o n c e s s ã o que a poesia pretensamente mais alta, pura e radical fazia aos imperativos impuros daquele momento h i s t ó r i c o , cujas t e n s õ e s políticas e sociais exigiam sacrifícios do artista, obrigando-o a tomar p o s i ç ã o e alterar seus planos, agora, em 1994, o vanguardista consagrado pode chamar os refletores da m í d i a para acompanhar a entrega de sua encomenda. Nada mudou? A d i f e r e n ç a é que, naqueles anos, a d i s c u s s ã o se travava por meio de manifestos, propostas e p o l ê m i c a s inflamadas - uma verdadeira batalha de p o é t i c a s -, em cujas idéias se acreditava, cada t e n d ê n c i a p o l í t i c a a seu modo, e dos quais resultariam, esperava-se, t r a n s f o r m a ç õ e s sociais e culturais decisivas para o p a í s . A o passo que hoje, o que resta? C o m o sou uma professora de Literatura que estuda o p e r í o d o ,
vejo-me obrigada a lembrar que, naqueles anos, Haroldo de Campos expressou num poema as perplexidades do poeta puro e esteticista diante da necessidade h i s t ó r i c a de a ç ã o política, nos moldes da esquerda oficial da é p o c a . " S e r v i d ã o de Passagem" (1961) definia bem a m á c o n s c i ê n c i a do intelectual b u r g u ê s , culto e estranho à política, que precisava jogar fora suas p a n ó p l i a s , seus termos raros, seu refinamento artificial, para se solidarizar com a luta por reformas estruturais. Introduziam-se modestamente no reino da poesia pura a r e f e r ê n c i a da m i s é r i a , do trabalho explorado e da fome, enfim, a r e f e r ê n c i a do subdesenvolvimento brasileiro, na qual o azul n ã o é puro, as m e t á f o r a s n ã o s ã o reais e a poesia é pouca. Era apenas a i n s e r ç ã o ( p r o v i s ó r i a ou n ã o , tirem os leitores sua c o n c l u s ã o ) do e s p a ç o da História no esteticismo mais abstruso. N o Brasil, f o i um acontecimento, sem d ú v i d a , pois a força do processo p o l í t i c o era tanta que empurrava a t é um escritor esteticista a agir fora de suas m o t i v a ç õ e s e mitologias privadas. Se havia um m é r i t o pessoal aí, n ã o se restringia ao â m b i t o n a r c í s i c o da c r i a ç ã o , uma vez que a u r g ê n c i a dos acontecimentos sobrepunha-se ao impulso pessoal de c r i a ç ã o . J á nos dias de hoje, que energias profundas teriam mobilizado o vanguardista da m í d i a e dos saraus a homenagear o candidato do PT, em alto e bom som?
Trinta anos depois, o compromisso eleitoral com o candidato petista vem amparado por justificativas e e x p l i c a ç õ e s iguaizinhas às dos anos 60: "Por um B r a s i l - C i d a d ã o " é uma c o n c e s s ã o ao momento político, mas n ã o implica, de modo algum, r e n ú n c i a aos p r i n c í p i o s de e x p e r i m e n t a ç ã o p o é t i c a , aos quais o poeta d i z se manter fiel. Se é possível ao escritor repetir o mesmo comportamento da juventude, certamente é porque está convencido de que a política e o p a í s s ã o os mesmos de outrora, e que ele pode se d i r i g i r à iníelligentsia e ao povo do alto de sua c á t e d r a , como se nada tivesse se passado. C o m o prova disso, eis que outra vez se recorre a idéias, recursos e artifícios autorizados pelo poeta r e v o l u c i o n á r i o mais oficial de todos, M a i a k ó v s k i -sempre invocado, no Brasil, para resolver dilemas do engajamento! S e r á que n i n g u é m pode fazer poesia política, sem precisar recorrer a algum nome ilustre, bolchevique ou n ã o , como que pedindo desculpas aos leitores, no caso presente, pelo pecadilho petista que e s t á sendo cometido?
Se o mestre é M a i a k ó v s k i , vamos lá. O poeta cubo-futurista entendia a encomenda como encargo social, destinada a enfrentar " u m problema cuja s o l u ç ã o é c o n c e b í v e l unicamente por meio de uma obra p o é t i c a " , a qual deveria assim expressar uma c o n s c i ê n c i a clara do objetivo a a l c a n ç a r pela classe social
interessada na m a t é r i a . O objetivo de Haroldo de Campos, mais do que apoiar Lula e colaborar para a vitória deste candidato, é criar palavras-de-ordem ( p o é t i c a s ou n ã o ) para serem gritadas a "plenos p u l m õ e s " em c o m í c i o s e passeatas. A f i n a l , n ã o é hoje o PT o partido p o l í t i c o que levantou o nível e a seriedade da p o l í t i c a brasileira, como lembrou recentemente o insuspeito Mangabeira Unger? E n ã o estava L u l a na l i d e r a n ç a das pesquisas, quando a encomenda f o i aceita? Portanto era a hora certa para encenar o gesto h i s t ó r i c o e ganhar a simpatia de uma faixa ampla e diferenciada de leitores. Boa o c a s i ã o para que o escritor, conquistando uma a u d i ê n c i a inesperada, se regozijasse no ê x i t o popular de sua c r i a ç ã o . A coisa pode t a m b é m ser vista pelo outro lado, como nos lembra, sem qualquer pudor, Ivan Teixeira: "Deve ter sido uma conquista para a campanha contar com o apoio de um poeta como Haroldo, cujo projeto é um dos mais rigorosos e coerentes da poesia no Brasil". À parte a b a j u l a ç ã o , ele e s t á insinuando que é uma maravilha para um partido de gente p r i m á r i a , poder contar com um poeta t ã o erudito, t ã o viajado, c o s m o p o l i t é r r i m o , com cacife de maioral, cuja seriedade, c o m p e t ê n c i a e c o e r ê n c i a , acima da poesia e da ideologia, d a r ã o uma boa lição no petismo. J á n ã o h á nenhuma d e c i s ã o h i s t ó r i c a na qual as pessoas possam se engajar e pela qual valha a pena lutar ? Quem faz arte política age por interesses individuais os mais i n c o n f e s s á v e i s , ou e n t ã o para massagear o ego, se tem algum. De fato, em 1994, os partidos no Brasil arregimentam à esquerda e à direita seus artistas, seus "marqueteiros", seus p u b l i c i t á r i o s . Ó t i m o se os primeiros podem apresentar suas credenciais vanguardistas.
Nesse sentido, vale acompanhar a franqueza das c o n s i d e r a ç õ e s de Ivan Teixeira, cuja resenha cito: " A outra face de "Por um B r a s i l - C i d a d ã o " é aquela do texto enquanto e x e r c í c i o de p r o v o c a ç ã o . Por essa perspectiva, o poema ganha mais sentido se for lido como m a n i f e s t a ç ã o singular do programa geral do poeta. C o m efeito, trata-se de um gesto resultante do conceito de arte como busca do imprevisto. Tendo praticado sobretudo uma poesia h e r m é t i c a e intelectualizada - destinada sobretudo a leitores com e x p e r i ê n c i a na melhor t r a d i ç ã o da poesia universal -, Haroldo, ultimamente, tem escrito poemas de leitura clara e comunicativa. Assim, a melhor atitude diante de "Por u m Brasil-C i d a d ã o " s e r á c o n s i d e r á - l o d e p u r a ç ã o de uma das vertentes da poesia haroldiana (...). N ã o obstante, trata-se de um poema refinado. Sua estrutura simples baseia-se na e n u m e r a ç ã o ostensiva de versos formulares ainda que
renovados por sutilezas sonoras e sintáticas, que ecoam na poesia popular brasileira desde os trovadores portugueses".
P e ç o ao leitor que se detenha nas palavras citadas: a a d e s ã o p o l í t i c a é interpretada como e x e r c í c i o de p r o v o c a ç ã o , que, por sua vez, seria um desdobramento do programa geral do poeta. Para o resenhista, t ã o irrisório é o significado h i s t ó r i c o desta e l e i ç ã o , que mais vale o gosto do imprevisto, arma tradicional da vanguarda, que o pretexto da encomenda p o é t i c a . O que importa aqui é a p r o v o c a ç ã o : o poeta, e m é r i t o transgressor, escreve um poema p o l í t i c o como quem n ã o se subordina a nada, para reafirmar que e s t á acima das regras e para surpreender seus leitores habituais, destruindo a mesmice onde ela estiver. A o c o n t r á r i o de tudo o que se possa dizer do poema, deve-se c o n s i d e r á - l o sobretudo como um estratagema, porque é i n c o n c e b í v e l que um poeta t ã o culto faça um texto t ã o simples, mas se é simples é porque é culto, e mais do que culto é principalmente "refinado": e s t á inscrito na melhor t r a d i ç ã o da poesia luso-brasileira e na p r ó p r i a obra do autor. Por que um poema para ser bom precisa ser "refinado"? Por que n ã o pode ser simples, d i d á t i c o , engajado e a t é singelo? Exemplos na literatura n ã o faltam, mas o resenhista e s t á lembrando que o poeta precisa lisonjear a comunidade de leitores qualificados, a comunidade do seu c o r a ç ã o , com a referência maiakovskiana, a d e c l a r a ç ã o de extrema c o e r ê n c i a e o r ó t u l o de experimentalismo, os quais e s t ã o em foco no poema, mais do que o significado p o l í t i c o que ele possa ter. Se o poema tem uma linguagem clara e comunicativa é para enganar os bobos, cujos desejos s ã o atendidos e os sonhos realizados, porque os espertos, esses s ã o capazes de nele ler um texto sofisticado, uma verdadeira e x i b i ç ã o de t é c n i c a s , procedimentos e que tais. Enfim, Haroldo de Campos é poeta rigoroso e coerente a um grau que, quando faz o oposto do que sempre fez, sabe transmutar o que é s i m p l ó r i o em algo refinado, onde ecoa a poesia desde os trovadores. Jamais ocorreria ao resenhista, como estamos vendo, admitir que um artista colaborasse despretenciosa ou engajadamente com uma campanha política, escrevendo refrões e versinhos simples mas eficazes. Este é um ponto a ser meditado.
Seguindo o r a c i o c í n i o de Teixeira, o grande poeta, de seu pedestal, vai subverter a vulgaridade da p o l í t i c a e demonstrar, mais uma vez, a qualidade de sua t é c n i c a vanguardista. D e i x o que o leitor j u l g u e as palavras de l o u v a ç ã o : "Os que acreditam nas t r a n s f o r m a ç õ e s imediatas de L u l a devem ter visto no poema uma profecia apaixonada e m e s s i â n i c a , com a confortante h i p ó t e s e de iminente r e a l i z a ç ã o . A i n d a nessa linha de entendimento, houve leitores (e estes se
manifestaram pela imprensa) que contemplaram no poema a e x p r e s s ã o equivocada das expectativas do poeta. Embora a d m i s s í v e l , esta é a menos esperada das leituras,pois, vinda de pessoas preparadas, desconsidera a idéia de que a poesia engajada, tal como a teorizou M a i a k ó v s k i , deve simplificar a m a t é r i a para intensificar sua p e n e t r a ç ã o . N ã o leva em conta, t a m b é m , o p r i n c í p i o elementar do fingimento p o é t i c o " . Noutras palavras: a p o é t i c a pessoana do "poeta fingidor", a t é e n t ã o sempre compreendida como c o m p r o v a ç ã o de que a poesia moderna conquistara sua autonomia, n ã o se confundindo com a esfera da subjetividade e da psicologia individual, estando, pois, livre dos condicionamentos imediatos da vida diária, f o i promovida assim, e pela primeira vez - a t é onde eu saiba -, a j u s t i f i c a ç ã o do oportunismo p o é t i c o . O poeta p o l í t i c o é t a m b é m um fingidor? H a v e r á c o n v i c ç ã o na aposta p o é t i c o -política de Haroldo de Campos? O u a poesia -política é sempre fingida ? T ã o ousada é a s u g e s t ã o , que passei a olhar para o passado com outros olhos: o " p u l o da o n ç a " da poesia concreta t a m b é m n ã o t e r á sido um fingimento ? O poeta-provocador, i m b u í d o da e s t é t i c a do imprevisto, permite-se trocar de m á s c a r a a torto e a direito, com a liberdade de praticar todas as formas de m i s t i f i c a ç ã o , p o r é m sempre driblando todo mundo com suas atitudes p o é t i c a s , p o l í t i c a s e m e r c a d o l ó g i c a s .
A o identificar no poema p r ó - P T uma grande r e a l i z a ç ã o de Haroldo de Campos nessa linha, Teixeira assume um ponto de vista pertinente e atual, bastante c í n i c o e desencantado por sua vez, para dar legitimidade a qualquer m i s t i f i c a ç ã o que um escritor venha a praticar. Amparado na teoria do fingimento, ele se dispensa de discutir a m a t é r i a formulada poeticamente em "Por um B r a s i l - C i d a d ã o " , podendo fazer vistas grossas para o que e s t á em j o g o no poema e no c e n á r i o em que aparece. C o m o meu ponto de vista é outro, e n ã o quero prescindir da forma como r e a l i z a ç ã o do sentido p o é t i c o , prefiro me deter no que o poema diz. Mas como sei que no Brasil as q u e s t õ e s de é t i c a e s t ã o em baixa, n ã o s ó na p o l í t i c a mas t a m b é m na cultura e na vida intelectual, seria um d e s p r o p ó s i t o perguntar sobre as c o n v i c ç õ e s políticas de um poema desse tipo, que intenciona pegar de imprevisto todos n ó s . Lembro que na mesma m a t é r i a da Folha de S. Paulo, o mestre da p r o v o c a ç ã o d á a entender que n ã o acredita em nada do que apregoa em seu poema ( s e r á esta sua p r o v o c a ç ã o ?) - nem no candidato que ora louva, nem em seu programa político, menos ainda nas i d é i a s do PT. Faz a í q u e s t ã o de se proteger de alguma falha que, porventura, a profecia eleitoral de seu p a n e g í r i c o esteja cometendo, pois essa i n c u r s ã o no
poema p o l í t i c o - p a n f l e t á r i o , assim como n ã o implica r e n ú n c i a aos p r i n c í p i o s da e x p e r i m e n t a ç ã o estética, t a m b é m n ã o significa uma a d e s ã o p a r t i d á r i a incondicional. D i z assim: " N ã o p e r t e n ç o e nunca pertencerei ao P T , pois acho que o intelectual deve ser independente. Concordo com as atuais propostas de um socialismo d e m o c r á t i c o , mas tenho d i v e r g ê n c i a s com os senhores xiitas do partido" - palavras pronunciadas ao j o r n a l , devidamente acrescidas da d e c l a r a ç ã o de voto em Brizola no primeiro turno das e l e i ç õ e s de 89. Em vez de uma d e c l a r a ç ã o de simpatia ou c o n f i a n ç a na t r a n s f o r m a ç ã o política (o m í n i m o a ser exigido num caso como este), o c i d a d ã o repete a lengalenga dos conservadores, para ressaltar que n ã o trai sua arte nas s i t u a ç õ e s mais adversas. T ã o excepcional é sua i n d e p e n d ê n c i a intelectual, que a t é um encargo p u b l i c i t á r i o d á pretexto para que ele reafirme a fé na liberdade de c r i a ç ã o ! Lembro apenas que quem se superestima aos olhos da m í d i a pode j á ter se rebaixado artisticamente.
E bom prestarmos um pouco mais de a t e n ç ã o no poema que, por certo, lançará novas luzes sobre as q u e s t õ e s que nos interessam. Ler o texto em voz alta, v á r i a s vezes, em tons diferentes, mas obedecendo ao seu impulso r í t m i c o , é uma e x p e r i ê n c i a curiosa, e, d i r ã o alguns, p r ó x i m a do riso. A c a d ê n c i a sincopada, sobrecarregada de batidas fortes e m o n ó t o n a s , apoiada na rima em " ã o " e pontuada basicamente pela redondilha, com certos truques, quebras e l i c e n ç a s , pede tanto o t o m c í v i c o - c e l e b r a t ó r i o da d e c l a m a ç ã o adornada com g e s t i c u l a ç õ e s b r a ç a i s t í p i c a s , quanto o grito, p r ó p r i o à euforia dos slogans e palavras de ordem que animam m a n i f e s t a ç õ e s políticas. Os versos martelam na c a b e ç a sempre a mesma coisa, a t é chegarem à fluência e n c a n t a t ó r i a do " l u l a l á lulalá l u l a l á " (cantarolado), que é interrompida pelo didatismo cavernoso do d í s t i c o final. O ú l t i m o verso retoma o título e a cantilena r e c o m e ç a . Observe-se como a quebra da linha mais alongada e m e l ó d i c a da c a n ç ã o petista citada, exige m u d a n ç a de t o m e r i t m o para dar e m p o s t a ç ã o solene à banalidade do c h a v ã o de ouro: " n ã o vote em v ã o : vote em lula/por um b r a s i l - c i d a d ã o " . A p o n t u a ç ã o , impondo uma pausa forte no meio do primeiro verso, quebra ideologicamente a redondilha em duas o r a ç õ e s com força de slogan. A pausa na palavra " v ã o " acentua o peso da r i m a interna com " c i d a d ã o " , e o " ã o " , pedal fônico do poema, amarra sons e sentidos, à maneira da versalhada de Violão de Rua.
Recursos convencionais de c o m p o s i ç ã o , misturados ao sonho da estrutura verbi-voco-visual, e s t ã o a s e r v i ç o de frases assertivas, fáceis e
p r i m á r i a s , cujo sentido de m ã o ú n i c a é justificar a certeza do estribilho: vai dar Lula nas e l e i ç õ e s de 94. N o intuito de mistificar a candidatura do PT, Haroldo de Campos se d i s p õ e a traficar com todas as e s p e r a n ç a s : "quem quer terra/vai ter terra", "quem tem fome/vai ter p ã o " , "adeus meninos de rua", enfim, o p a í s vai ser moralizado, a reforma a g r á r i a vai ser feita, o Brasil vai ser integrado no sistema mundial, etc. S ã o prometidas, a l é m do p a r a í s o na terra, todas as m u d a n ç a s estruturais que nunca vieram, e que as elites dirigentes e s t ã o sempre prontas a liquidar (a mesma m i s t i f i c a ç ã o que Collor aprontou em 89 e que f o i denunciada pelo PT desde e n t ã o ) . Noutras palavras: arrogando-se m á x i m a liberdade de e s p í r i t o , a l é m de sua c o n d i ç ã o de ave de a r r i b a ç ã o petista, o poeta oferece ao partido tudo aquilo que n ã o se coaduna com sua p r á t i c a p o l í t i c a e que, certamente, aos olhos da m i l i t â n c i a , deve parecer um atestado de atraso. U m intelectual simpatizante do PT antes de tudo perguntaria, sem qualquer a f e t a ç ã o : como fazer uma campanha honesta, sem mentir e sem falsear as reais c o n d i ç õ e s de m u d a n ç a que a vitória de um candidato progressista pode trazer. Todavia, o messianismo n ã o incomoda nem um pouco Haroldo de Campos, porque ele n ã o age nem como artista, nem como intelectual; o que prefere fazer, como disse o resenhista, é uma " c o m p i l a ç ã o e s t é t i c a das idéias do PT", expressa de "maneira fácil e n ã o problematizante" (aqui, Ivan Teixeira revela sua p r e f e r ê n c i a pela arte comercial, cuja v o c a ç ã o crítica é zero, sendo certeiro em identificar a vanguarda c o n t e m p o r â n e a com esta arte). J á que o comercialismo e a facilitação pesam mais que tudo, s ó restaria ao poeta e ao intelectual o e s p a ç o p u b l i c i t á r i o , no qual as apostas políticas e artísticas s ã o rebaixadas a jogada de marketing - no caso presente, é o que se entende como margem de imprevisto e fingimento?
A s s i m , com algum e s f o r ç o de a r i t m é t i c a e uma rima fácil - " c o m o u m mais dois s ã o t r ê s / vai dar lula desta vez" - pode-se ganhar as e l e i ç õ e s . E tudo vai dar certo para o Brasil. Neste d í s t i c o , estribilho do poema, h á uma certeza elementar, i r r e t o r q u í v e l , que descaetaniza ("como dois e dois s ã o c i n c o " ) qualquer complexidade p o é t i c a que possa haver numa soma. O problema é fazer um r a c i o c í n i o desse tipo para fins eleitorais e colocar a m o r a l i z a ç ã o do p a í s , a reforma a g r á r i a , a garantia de qualidade b á s i c a de vida, a retomada do desenvolvimento, na mesma r e l a ç ã o paralelística. Como leitores de Jakobson, nunca nos esquecemos da força que o paralelismo tem na c o n f i g u r a ç ã o do sentido do poema e, por isso, sentimos o quanto é p a l p á v e l o menosprezo pela cultura p o l í t i c a do eleitor. Nas duas primeiras estrofes, a c o n s t r u ç ã o s i n t á t i c a
insiste em afirmar com todas as letras que vai dar Lula por uma q u e s t ã o de soma, a reforma a g r á r i a s e r á feita por quem quiser, o Brasil v a i desmentir a frase de De Gaulle. S ã o p r e v i s õ e s que o poeta garante, com seu profetismo ou sua autoridade intelectual, sem cogitar do emaranhado de problemas que cada uma delas envolve. Observemos a banalidade da imagem da " c o n t r a m ã o " em que o p a í s entrou: a d é c a d a perdida, o colapso dos projetos de desenvolvimento, a crise política, s ã o tratados como se fossem escolha v o l u n t á r i a de quem estacionou o carro no lugar proibido. C o m um simples "adeus" r o m â n t i c o , à G o n ç a l v e s Dias, e pronto, a s i t u a ç ã o m i s e r á v e l dos meninos de rua se resolve. E x o r t a ç õ e s m á g i c a s conjuram os males da "grande n a ç ã o " . V a i embora m i s é r i a , vai embora fome, vai embora sem terra, vai embora desemprego, porque o Messias vem aí - devidamente anunciado num h i p é r b a t o erudito que coloca sua vinda no f i m do verso e sua a ç ã o c i r ú r g i c a num enjambement audacioso ("de um m e t a l ú r g i c o vem / esta o p e r a ç ã o c i r ú r g i c a / que vai tirar da U T I / o brasil-grande n a ç ã o - " ) . O efeito é o seguinte: a força do v a t i c í n i o se acentua pela o p o s i ç ã o do vai/vem, pela m e t á f o r a surrada d o e n ç a / c u r a , pelo ufanismo desajeitado do aposto e pela surpresa de que o agente da t r a n s f o r m a ç ã o seja um o p e r á r i o . A preferência por um r a c i o c í n i o simplificado, ao gosto da a r i t m é t i c a do um + dois, retira da f o r m u l a ç ã o verbal das redondilhas qualquer g r a ç a e humor que os contrastes absurdos e jocosos criam na poesia popular. Em lugar da alegria pela satisfação de um desejo temos a austeridade de um esquema pouco imaginativo, cuja falta de e l ã criativo se socorre ao p r e v i s í v e l . A bem da m é t r i c a e da rima, e lá vem um tal de "luís lula", para realçar, a despeito de revelar a falta de familiaridade com o candidato Luís I n á c i o , o efeito sonoro ( p a r o n o m á s i a ) . Esta forma de i n t e r v e n ç ã o do "anunciado" que vem salvar a pátria contraria, a t é onde se saiba, os p r i n c í p i o s defendidos pelo PT, rebaixando-os a termos personalistas e c a r i s m á t i c o s . Outro disparate é a imagem do o p e r á r i o que o poema apresenta: a rima e s d r ú x u l a " m e t a l ú r g i c o / c i r ú r g i c a " (de i n s p i r a ç ã o m a i a k ó v s k i a n a , segundo declara o poeta ao j o r n a l ) , ao i n v é s de exaltar as qualidades do candidato, sua confiabilidade e eficiência p o l í t i c a s , associa o p e r á r i o e c i ê n c i a à maneira do i d e á r i o científico-t e c n o l ó g i c o que a poesia concrecientífico-ta sempre divulgou, reafirmado mais uma vez em artigo recente por Augusto de Campos (1993). Por ser torneiro m e c â n i c o , L u l a é quem tem a c i ê n c i a da m á q u i n a , conhece, ama e se identifica com seu torno, estando assim apto a fazer, com a " m á x i m a objetividade", a cirurgia que vai tirar o Brasil da U T I ( " O o p e r á r i o quer um poema racional, que lhe ensine a agir e pensar - como a m á q u i n a lhe ensina", porque, acrescenta D é c i o Pignatari
em c é l e b r e passagem da Teoria da Poesia Concreta, o " o p e r á r i o ama a m á q u i n a " ) . A q u i a i d e a l i z a ç ã o do o p e r á r i o e da t é c n i c a certamente remete ao i m a g i n á r i o da m e c a n i z a ç ã o e da i n d u s t r i a l i z a ç ã o dos tempos da " c o n s t r u ç ã o do socialismo em um s ó p a í s " . Por sua vez, a eficiência da U T I e s t á no fato de ser uma sigla publicitária, cujas m a i ú s c u l a s s ã o o ú n i c o destaque propriamente visual do poema. U m a gracinha p o é t i c a que n ã o disfarça o gosto j á passado por siglas - e se o mundo der numa sigla, e s t á tudo resolvido.
A o longo do texto, o mal estar maior é provocado pela idéia de Brasil-c i d a d ã o que surge da prodigiosa i n t e r Brasil-c e s s ã o de Lula. A Brasil-cidadania é uma outorga de direitos feita pelo Esperado. Contudo, no e s f o r ç o de o r g a n i z a ç ã o e m o b i l i z a ç ã o que a sociedade brasileira vem realizando, à margem da falência do Estado e do clientelismo, quem fala em cidadania está ativamente lutando por seus direitos, pelo cumprimento da lei, pelo a p e r f e i ç o a m e n t o das i n s t i t u i ç õ e s , para que a sociedade seja menos excludente, e t c , e sabe que as conquistas dos movimentos sociais dependem de uma luta política m i ú d a e diária, pois nunca v i r ã o de m ã o beijada. Nas ú l t i m a s d é c a d a s o povo brasileiro tem inventado formas de o r g a n i z a ç ã o mais a u t ô n o m a s e consistentes do que é capaz de supor um vanguardista, que as desconhece. N o poema, tal é a irracionalidade a t r i b u í d a à i n t e r c e s s ã o de Lula que a m u d a n ç a política, ao invés de promover a cidadania, é concebida como r e a l i z a ç ã o do destino m í t i c o da unidade nacional, sonho de qualquer patriotismo. Por isso, justamente no verso em que o Brasil " v a i virar p a í s - c i d a d ã o " - impulso desejante do poema inteiro, em que tudo " v a i dar", " v a i ter", " v a i sair", etc. -, ritmo e sentido se atropelam, incluindo a t é uma l i c e n ç a p o é t i c a (a n ã o ser que se coma o hiato da palavra " p a í s " ) . O u seja: o v a t i c í n i o do Brasil c i d a d ã o s ó cabe na m é t r i c a g r a ç a s ao truque do poeta que t e m autoridade para acrescentar uma sílaba à redondilha, do mesmo modo que sua majestade " l u í s lula" tem poderes para decretar a r e d e n ç ã o do p a í s . Por rebaixar o tom do debate p o l í t i c o a m e s s i â n i c o s acenos de m u d a n ç a imediata, por estimular m i s t i f i c a ç õ e s de toda ordem, quando caberia ao intelectual se manifestar criticamente, o poema desqualifica a imagem do candidato e a i n t e l i g ê n c i a de seu eleitor.
E ó b v i o que a surpresa deste poema n ã o está na sua forma. De qualquer maneira, ele demonstra por um mais dois que a f u n ç ã o p o é t i c a da linguagem e s t á em pleno funcionamento. Mas esta plenitude, o que quer dizer ? Que "sutilezas sonoras e s i n t á t i c a s " s ã o capazes de renovar as f ó r m u l a s e c l i c h ê s enumerados, dando acabamento refinado ao texto ? É i n e g á v e l a 2 2 6
-habilidade t é c n i c a do poeta no trato com estruturas l i n g ü í s t i c a s elementares, trocadilhos de a p a r ê n c i a visual, f ó r m u l a s p r e v i s í v e i s , buscando à antiga maneira concretista uma r e l a ç ã o estreita (o chamado isomorfismo) entre forma e fundo, s ó que voltada agora para o popularesco. "Por um B r a s i l - C i d a d ã o " desconcerta-nos ao eleger um dos ritmos p o é t i c o s mais tradicionais, a redondilha, ao i n v é s de qualquer outro g ê n e r o ou forma de e x p r e s s ã o que o poeta tem f r e q ü e n t a d o nas ú l t i m a s d é c a d a s . Preferindo assim o que existe de mais sedimentado na t r a d i ç ã o popular, por seu evidente rendimento comunicativo, n ã o por suas virtualidades expressivas, sempre valorizadas na t r a d i ç ã o tanto popular quanto culta. Enquanto, no passado, a p o s i ç ã o de vanguarda idealizava o poema comunicativo de largo alcance, formalizando propostas de economia vocabular, r e d u ç ã o sintática, síntese, para atingir o " m í n i m o m ú l t i p l o c o m u m " da linguagem verbal, isto é, a m á x i m a visualidade da poesia do futuro, agora tudo pode descambar para a m é t r i c a regular p o r é m d e s t i t u í d a de maleabilidade r i t m i c o - s i n t á t i c a e amplitude s e m â n t i c a . A redondilha, para o poeta, é uma e s p é c i e de automatismo, mais do que o verso fácil e musical de gosto r o m â n t i c o - p o p u l a r . Desse modo, o concretista que banira o encadeamento temporal do verso, fica desobrigado de t r a n s f o r m á - l o conforme as e x i g ê n c i a s de uma t é c n i c a mais a v a n ç a d a ou vanguardista. À primeira vista, ta) procedimento denotaria uma i d e a l i z a ç ã o reverente da t r a d i ç ã o popular, como se o povo fosse uma entidade fora do tempo e, por isso, insensível às formas p o é t i c a s menos tradicionais. O povo que n ã o vota em v ã o em 1994 é aquele povo r o m â n t i c o que cultiva suas t r a d i ç õ e s à margem da m o d e r n i z a ç ã o conservadora e que na sua ingenuidade e s u b m i s s ã o n ã o foi modificado pelas formas mais c r u é i s e perversas do capitalismo no Brasil. Mas atribuir a tal emprego da redondilha a boa i n t e n ç ã o de quem glorifica a r e s i s t ê n c i a popular talvez seja o t i m i s m o demais. N a o c a s i ã o desta e l e i ç ã o presidencial, a ú n i c a coisa que o poeta sabe fazer, com sua e x o r t a ç ã o m á g i c o - e n c a n t a t ó r i a , é celebrar o preconceito conservador que diz que " o povo é bom aluno" porque na labuta "aprendeu sua l i ç ã o " . Qualquer um reconhece aí a m i s t i f i c a ç ã o sentimental do paternalismo brasileiro que civicamente exalta as qualidades de s u b m i s s ã o , o b e d i ê n c i a e sacrifício populares. M e s m o embalada nas coitadas das redondilhas do "artista-pop dos anos 90", pode haver imagem mais inexata ? A imagem do povo que salta de "Por um B r a s i l - c i d a d ã o " é uma l i c e n ç a ( p o é t i c a e s o c i o l ó g i c a ) que n ã o corresponde à dureza da vida em nosso p a í s , nem ao povo que consegue resistir a essa dureza.
A i n d a assim, o poema ilumina aspectos inesperados do debate sobre o engajamento do artista no contexto brasileiro. A o c o n t r á r i o da v e r s ã o corrente, "Por um B r a s i l - C i d a d ã o " revela o parentesco profundo que o poeta concreto tinha com seu maiores antagonistas no debate cultural dos anos 60, os poetas reunidos no Violão de Rua, cuja o r i e n t a ç ã o p o l í t i c o - i d e o l ó g i c a é reiterada, com trinta anos de d i s t â n c i a . Podemos agora pensar que n ã o foram a s o f i s t i c a ç ã o e o cuidado extremo com o lay-out do poema o empecilho para que a poesia concreta participasse dos debates sobre arte popular r e v o l u c i o n á r i a , dos Centros Populares de Cultura. C o m o se v ê , "Por um B r a s i l - C i d a d ã o " é um poema nacional-desenvolvimentista, à maneira dos anos 50, ao acreditar que o latifúndio "estrangula" o país; é populista, pois decreta que o "povo é bom aluno" e aprende as lições; é moralista, ao constatar que o povo é bom porque trabalha, sua e sofre; é m e s s i â n i c o , por entender que a l g u é m possa representar as forças redentoras do bem, sem c o n t r a d i ç õ e s . Em resumo, as p o s i ç õ e s p o l í t i c a s e sociais do CPC e da poesia concreta n ã o eram lá t ã o diferentes, o mesmo se diga do primarismo artístico que um poema como este faz q u e s t ã o de escancarar. Se n ã o houve na é p o c a um maior entendimento entre eles, tal a u s ê n c i a de d i á l o g o pode ter sido devida, especulemos, à falta de c o n v i c ç ã o i d e o l ó g i c a e ao j u v e n i l i s m o concretistas. Enquanto o Partido dos Trabalhadores c o m e ç o u criticando o populismo, o peleguismo sindical e a r e t ó r i c a nacionalista, o mais importante pensador da vanguarda no Brasil escreve em homenagem a Lula um hino nacionalista, populista e cultor da personalidade. Se ele n ã o v i u a novidade h i s t ó r i c a que o PT representa na vida brasileira, m u i t o menos se deu conta de que seus p r ó p r i o s esquemas e s t ã o marcados pela d e s i n f o r m a ç ã o política, pela d e s a t u a l i z a ç ã o histórica, pela d e s q u a l i f i c a ç ã o literária e, salvo engano, pela imaturidade p s i c o l ó g i c a ( s ó esta é que pode sustentar uma c o n c e p ç ã o de mundo onde n ã o exista qualquer bloqueio à r e a l i z a ç ã o de desejos, inclusive dos desejos populares) - o que impede o e x e r c í c i o da poesia política esteticamente c o n s e q ü e n t e .
"Por um B r a s i l - C i d a d ã o " f o i um ato p o é t i c o premeditado em todos os p o s s í v e i s efeitos que poderia produzir, a ponto de ser imediatamente transformado, pelo p r ó p r i o autor, em feito h e r ó i c o de uma pobre e p o p é i a destes tempos de m í d i a e mercado. Se havia alguma afinidade política, por que Haroldo de Campos n ã o deu sua c o n t r i b u i ç ã o à campanha do PT, fundindo-se na t e n d ê n c i a geral? Por que fez q u e s t ã o de assinar o poema-hino? N ã o seria esta uma o c a s i ã o das mais p r o p í c i a s para levar a efeito aquele ideal de anonimato
p o é t i c o dos anos 50, que, por seu c a r á t e r j u v e n i l , coletivizante e vagamente socialista, era o lado mais bonito da poesia concreta? O ex-concretista talvez tenha mais n o ç ã o das fraquezas de seu poema do que possamos imaginar, tanto que, como v i m o s , sente necessidade de e x p l i c á - l o por fora, de m o d o a manter i n c ó l u m e a imagem do artista complexo, defensor i n c a n s á v e l da alta qualidade da linguagem da poesia. Jamais admitiria, para consumo externo, a fragilidade de um texto escrito por encomenda, com intencionalidade p o l í t i c o - p a n f l e t á r i a . E m 1945, D r u m m o n d escreveu "a galope" - como ele p r ó p r i o d i z - o "Poema de M a r ç o de 45", em prol da campanha da anistia e das liberdades d e m o c r á t i c a s . Foi publicado simultaneamente em três jornais da é p o c a , por iniciativa da campanha. Certamente o nosso poeta maior n ã o pretendia colher dividendos p o l í t i c o s ou p o é t i c o s com isso; tinha c o n s c i ê n c i a clara de que o resultado n ã o era dos melhores, o que em nada desmerecia suas c o n v i c ç õ e s sobre a i m p o r t â n c i a da luta pela r e d e m o c r a t i z a ç ã o do p a í s , nem levantava suspeita sobre o valor e a r e l e v â n c i a de sua obra. De modo que n ã o precisou sobrepor ao gesto p o l í t i c o a defesa de qualidades que o poema n ã o tinha, ou justificar os procedimentos e n f á t i c o s da d i c ç ã o escolhida pelo grau de e l a b o r a ç ã o artística de sua p r o d u ç ã o anterior.
N o caso de Haroldo de Campos, o problema é ele escrever um poema regressivo, infantilizado, popularesco, alheio à vida e à poesia atenta ao c o n t e m p o r â n e o , pretendendo a despeito disso a l ç á - l o a c o n t r i b u i ç ã o decisiva para uma campanha eleitoral e, ao mesmo tempo, acompanhado por um coro de "capachildos", dar-lhe o estatuto de obra g e n u í n a de e x p e r i m e n t a ç ã o e s t é t i c a . Sabemos que o PT, como os demais partidos, tem dificuldade de delinear um programa cultural adequado à complexidade vertiginosa da c i r c u n s t â n c i a brasileira, com tantos d e s n í v e i s e c a r ê n c i a s . N a falta desse programa, artistas e personalidades culturais t ê m sido requisitados sobretudo para exibir ao grosso da p o p u l a ç ã o (ainda desinformada sobre as idéias do partido) uma fachada mais s i m p á t i c a , popular e light. Nesse a r r a s t ã o , recalca-se o fato de que muitas dessas figuras e s t ã o comprometidas a t é à raiz dos cabelos com o obscurantismo e a d e s q u a l i f i c a ç ã o promovidos pela m í d i a , pelo capital e pela cultura enlatada made in Brazil. A o c o n t r á r i o de sua a p a r ê n c i a popular, essa fachada talvez queira t a m b é m dizer que a t r a n s f o r m a ç ã o política, a t é a mais temida de todas, n ã o seria t ã o radical a ponto de transformar a cultura de massa e seus meios de d i f u s ã o , que, sob u m bom socialismo, poderiam continuar a droga que s ã o . Entretanto, o baixo nível e o comercialismo da i n d ú s t r i a cultural que j á
tomaram conta da sociedade brasileira, de c i m a a baixo, inclusive da p r o d u ç ã o culta de poetas e intelectuais aparentemente c r í t i c o s , devem ser atacados de frente por qualquer t e n d ê n c i a que intencione elevar o nível da cultura p o l í t i c a , da democracia e, por que n ã o , a qualidade de vida no p a í s .
como um mais dois são três vai dar lula desta vez quem quer terra vai ter terra quem tem fome vai ter pão
o brasil vai ficar sério cadeia para o ladrão emprego para quem sua adeus meninos de rua vão ter saúde e lição: o brasil vai ficar sério vai sair da contramão
de um metalúrgico vem esta operação cirúrgica que vai tirar da UTI o brasil grande nação
-Por um Brasil-Cidadão
que o latifúndio estrangula mas que graças ao luis lula vai virar país-cidadâo
como um mais dois são três vai dar lula desta vez e já no primeiro turno pois o povo é bom aluno e no suor diurno e noturno aprendeu sua lição
como um mais dois são três vai dar lula desta vez lulalá lulalá lulalá
nâo vote em vão: vote em lula por um brasil-cidadâo
R E F E R Ê N C I A S B I B L I O G R Á F I C A S
CAMPOS, H . Por um Brasil-Cidadão. Folha de S. Paulo, São Paulo, 3 set. 1994. CAMPOS, H. Meninos eu v i . In: . Os melhores poemas de Haroldo de Campos. São
Paulo: Global, 1992.
CAMPOS, H. Invenção poética escapa de morte precoce. O Estado de São Paulo, São Paulo, 4nov. 1993.
TEIXEIRA, I . Haroldo de Campos, artista do provável. O Estado de São Paulo, São Paulo, Cultura, 3 set. 1994.