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Saúde Coletiva ISSN: Editorial Bolina Brasil

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Chagas de Assis, Dnieber; de Resende, Deisy Vivian; Bernardes da Silva, Andréa Mara; Silveira Miranzi, Mário Alfredo

Fatores predisponentes à ocorrência dos acidentes de trabalho com material perfurocortante entre trabalhadores de enfermagem

Saúde Coletiva, vol. 9, núm. 56, 2012, pp. 51-55 Editorial Bolina

São Paulo, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=84223413004

Como citar este artigo Número completo Mais artigos

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Fatores predisponentes à ocorrência

dos acidentes de trabalho com material

perfurocortante entre trabalhadores

de enfermagem

Trata-se de uma revisão bibliográfica com objetivo de analisar a ocorrência de acidentes com material perfurocor-tante na equipe de enfermagem. Foram analisados 18 artigos, indexados nas bases de dados Lilacs e Medline, pu-blicados no período de 2000 a 2008. A baixa experiência profissional e a múltipla jornada de trabalho destacaram-se como os fatores predisponentes à ocorrência dos acidentes. Escalpes e agulhas foram os principais objetos causadores de lesões. Os dados reforçam a necessidade de estudos dos acidentes com abordagem sociotécnica e programas educacionais que esclareçam aos trabalhadores a importância da notificação do acidente, as condutas pós-acidente e a adoção de medidas preventivas.

Descritores: Ferimentos Perfurantes; Exposição Ocupacional; Riscos Ocupacionais.

This study is a literature review that aimed to determine factors related to occupational accidents involving need-lestick material in nursing team. Thus, eighteen scientific articles were analyzed, indexed in the Lilacs and Medline databases and published in the period of 2000 to 2008. The low professional experience and consecutive work day were the main predisposing factors to the occurrence of occupational accidents. The scalp and needles were the main objects of injury. It was concluded that research and preventive educational programs that ensure the health of the worker should be offered.

Descriptors: Piercing injuries; Occupational Exposure; Occupational Risks.

Esta es una revisión de literatura con el objetivo de analizar la incidencia de accidentes de trabajo con material corto-punzante entre trabajadores de enfermería. Fueron analizados 18 artículos, indexados en las bases de datos Lilacs y Medline, publicados de 2000 a 2008. La poca experiencia profesional y la doble jornada de trabajo se des-tacaron como factores que predisponen a la ocurrencia de los accidentes. Las agujas fueron los principales objetos que causan lesiones. Estos datos refuerzan la necesidad de estudios de accidentes con el enfoque sócio-técnico y programas educativos para demonstrar a los trabajadores la importancia de la comunicación de accidente de trabajo y la adopción de medidas preventivas.

Descriptores: Heridas Punzantes; Exposición profesional; Riesgos Laborales.

Recebido: 18/10/2010 Aprovado: 19/11/2011

Dnieber Chagas de Assis

Enfermeiro do Trabalho. Mestre em Atenção à Saúde. Docente da Escola Técnica de Saúde da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)-MG, Brasil.

[email protected]

Deisy Vivian de Resende

Biomédica. Mestre e Doutoranda em Medicina Tropical e Infectologia pela Universidade Federal

do Triângulo Mineiro (UFTM). Docente da Escola Técnica de Saúde UFU-MG, Brasil.

Andréa Mara Bernardes da Silva

Enfermeira. Mestranda em Atenção à Saúde.

Mário Alfredo Silveira Miranzi

Cirurgião Dentista. Doutor em Saúde Coletiva. Docente do Mestrado em Atenção à Saúde da UFTM- MG, Brasil.

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urante a assistência ao paciente, os trabalhadores de enfermagem estão expostos a inúmeros riscos oriundos de agentes químicos, físicos, ergonômicos e biológicos, presentes no ambiente hospitalar.

Os acidentes envolvendo a manipulação de materiais perfurocortantes contaminados com fluídos biológicos são os mais prevalentes entre os trabalhadores de enfermagem e responsáveis pela transmissão de 60 diferentes tipos de pató-genos ou espécies, com destaque para o Vírus da Hepatite B (HBV), Vírus da Hepatite C (HCV) e Vírus da Imunodeficiência Adquirida (HIV)1-3. Estudos têm demonstrado que o risco de transmissão de doenças virais do paciente ao trabalhador é variável e dependente da carga viral e quantidade de sangue veiculada durante o acidente4.

No Brasil, o registro de acidentes com fluídos corpóreos é garantido pela Lei n. 8.213/1991 e pela Portaria n. 777/ 2004, com a notificação por meio da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), pelos trabalhadores regidos pela CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) e através do SINAN NET para todos os trabalhadores5,6. Porém, dados da literatura demonstram que as taxas de subnotificação de aci-dentes envolvendo os trabalhadores de enfermagem variam de 40% a 92%, o que reforça a importância do tema e a fragilidade do sistema atual de notifi-cações7-10.

Diante do exposto e considerando que os acidentes de trabalho entre os profissionais da equipe de enfermagem

configuram uma questão preocupante em virtude de sua alta prevalência, foi conduzida uma revisão da literatura com o objetivo de identificar os fatores predisponentes aos acidentes de trabalho com perfurocortantes na equipe de enfermagem, os índices de subnotificação e as principais condutas pós-acidente.

METODOLOGIA

Foi realizado um levantamento bibliográfico, do período de 2000 a 2008, por meio dos bancos de dados Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Li-lacs) e National Library of Medicine (Medline), utilizando os unitermos “needlestick injuries”, “accidents occupatio-nal nursing”, “percutaneous injuries”, acidentes do traba-lho, perfurocortante e risco ocupacional.

A coleta de dados foi realizada utilizando um protocolo contendo informações sobre o periódico, os trabalhadores

viço e carga horária de trabalho), os fatores associados à ocorrência dos acidentes com perfurocortantes, profilaxia pós-acidente e a notificação. Os dados foram tabulados e processados utilizando o software Statistical Package Social Science (SPSS) versão 17.0.

Em seu aspecto ético, este estudo está de acordo com a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e não apresenta conflitos de interesse.

RESULTADOS

Foram analisados 18 artigos científicos sendo 13 nacio-nais e cinco internacionacio-nais publicados no período de 2000 a 2008. Observou-se que 100% dos artigos

analisa-dos citaram os profissionais de enfer-magem do gênero feminino como sen-do os mais acometisen-dos por acidentes com materiais perfurocortantes, o que pode ser explicado pelo grande con-tingente de mulheres na equipe de en-fermagem11,12. A grande porcentagem de mão-de-obra feminina em ativida-des hospitalares apresenta um caráter histórico, sendo que as primeiras, cha-madas de cuidadoras, desenvolviam atividades voluntárias, realizando par-tos ou auxiliando os doentes. Como os hospitais eram considerados espaços para a profissionalização do trabalho doméstico, as mulheres foram domi-nando este campo13.

Ao se analisar a ocorrência de aci-dentes entre os profissionais de enfer-magem, verifica-se que a categoria profissional mais acometida foi a dos auxiliares de enfer-magem (56%), seguida do técnico de enferenfer-magem (28%) e o enfermeiro (16%). A justificativa apresentada é a de que os profissionais com pouca ou nenhuma qualificação pro-fissional estão mais expostos aos riscos de acidentes10,14. Adicionalmente, estes profissionais estão em contato dire-to com o paciente, realizando curativos, administrando medicamentos e outros procedimentos que os mantém em contato com o risco de acidente15.

O tempo de experiência e a múltipla jornada de traba-lho também se relacionaram com a ocorrência de aciden-tes com perfurocortanaciden-tes. O tempo de experiência menor que dez anos foi citado em dois artigos e a múltipla jorna-da de trabalho em quatro como fatores responsáveis pelo aumento no número de acidentes. Segundo Lima et al16 o trabalho de enfermagem executado em um estabelecimen-to hospitalar acarreta desgaste à saúde do trabalhador, que

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torna-se mais comprometida quando o profissional exerce ocupação em outro local, tornando-se mais vulnerável a acidentes de trabalho. A duplicidade de emprego decor-rente da redução do poder aquisitivo e dos baixos salários desgasta a condição física e psíquica dos profissionais17, acarretando afastamentos do trabalho e alto custo econô-mico e social para as instituições de saúde18.

Dentre os sete artigos que citam o uso de equipamen-tos de proteção individual (EPIs) pelos profissionais de enfermagem, cinco relatam o despreparo destes, com a ausência de EPIs no momento dos acidentes com perfu-rocortantes. De acordo com Correa e Donato17, o não esclarecimento sobre os riscos de infecção a que estão suscetíveis e a falta de capacitação dos profissionais são fatores determinantes na baixa adesão ao uso de EPIs.

Já em um estudo realizado por Caixeta e Barbosa-Branco14, a relação entre o conhecimento e a adesão dos profissionais de saúde ao uso de barreiras de proteção não foi significativa. Segundo os autores, embora os

profissio-nais detenham o conhecimento sobre as medidas preventi-vas, apresentam uma percepção incorreta com relação ao risco, ao fazer uso de EPIs apenas mediante o diagnóstico de soropositividade para o HIV. A utilização de EPIs pro-tege o trabalhador em relação aos riscos proporcionados pelo trabalho, como, por exemplo, a transmissão de doen-ças infecciosas mediante o contato com sangue, hemode-rivados ou instrumentos contaminados com organismos potencialmente patogênicos14. Adicionalmente, a Norma Regulamentadora n. 32 (NR-32) destaca a importância da adoção de barreiras de proteção coletiva, como as agulhas retráteis, a serem implementadas gradativamente nos esta-belecimentos de saúde19.

Além da adoção destas medidas, ressalta-se a impor-tância de não reencapar agulhas e da disponibilidade de recipientes de descarte adequados para materiais perfurocortantes após a realização de procedimentos16. Dentre os artigos analisados, o escalpe e a agulha foram os principais responsáveis pelos acidentes com materiais

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citada durante a ocorrência do acidente, seguida da admi-nistração e preparação de medicamentos.

Galon, Robazzi e Marzialle20, demonstraram que dentre as tarefas realizadas na administração de medicamentos (punção venosa, preparo, administração e descarte), o des-carte de material merece maior atenção. Acidentes podem ser evitados com a adoção de rotinas para o descarte do material, obediência ao limite de capacidade do recipien-te e posicionamento adequado do mesmo21.

A subnotificação de acidentes com perfurocortantes foi considerada alta em seis artigos, sendo que em um deles, este índice chegou a 90%. Diversos fatores têm sido considerados como os causadores da subnotificação

dos acidentes com perfurocortantes, tais como a falta de conscientização do risco por parte dos trabalhadores e gestores de hospitais, ao medo da perda de emprego pelo trabalhador, à falta de organização adequada das ações do serviço de aten-dimento ao trabalhador, às dificuldades do sistema de informação e, ainda, à descrença da importância do acidente do trabalho desta natureza15,22,23. O fato da comunicação do acidente de trabalho ser procedimento facultativo é um problema grave, pois, muitas vezes, o acidente não gera nenhuma das

situa-ções previstas na definição de acidente de trabalho, nem fica caracterizada a transmissão. Soma-se a isto, a falta de divul-gação do procedimento de registro junto aos profissionais de saúde e o precário conhecimento destes sobre o assunto14.

Cinco artigos relataram as condutas realizadas após o acidente com perfurocortantes. Em três deles foram reali-zados exames laboratoriais, como sorologia para HIV, HBV e HCV, nos pacientes e trabalhadores, enquanto em dois artigos foi realizado somente o acompanhamento médico.

em um artigo como método importante para prevenir a contaminação por este vírus. Apesar da ausência de relatos de contaminação com perfurocortantes observada neste estudo, deve-se ressaltar a importância destes ins-trumentos como veiculadores de patologias infecciosas.

Dados da literatura demonstram que, no ano de 1994, 67 trabalhadores de saúde foram infectados com o vírus HIV no mundo24. As estimativas apontam 400 novos casos/ano de transmissão ocupacional pelo HBV e 1000 casos/ano pelo HCV em trabalhadores da área da saúde em todo o mundo25.

Em relação à vacinação pré-acidente (hepatite B e antitetânica), dois artigos relataram que os profissionais acidentados esta-vam imunizados, sendo que em um dos trabalhos, 95% dos acidentados estavam imunizados contra Hepatite B e 100% estavam imunizados com a vacina antitetânica. Em outro estudo, a imunização pré-acidente para hepatite B foi realizada em 90% dos aciden-tados. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, através da NR-3219, os trabalhadores que estão ou poderão estar expostos aos riscos biológicos têm o direito de receber a imunização prévia contra essas doen-ças, além do direito de adquirir o reforço das vacinas quando necessário.

Orestes-Cardoso et al26 sugerem que, constatado o risco de exposição a material biológico, é necessário estabele-cer estratégias de intervenções urgentes, com medidas que possam abranger questões de ordem administrativa e orga-nizacional das instituições, assim como aquelas relaciona-das à educação continuada com ênfase em qualidade de atendimento e prevenção de acidentes.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

As medidas atuais de prevenção de acidentes no trabalho apre-sentam uma visão individualista, uma vez que preocupam-se em impedir o ato inseguro do trabalhador, mas esquecem dos fatores externos a eles associados tais como o estresse físico, mental e social, jornada prolongada, trabalhos em turnos al-ternantes, ritmo acelerado e tempo de descanso insuficiente, dentre outros. Neste contexto a prevenção de acidentes no am-biente laboral relaciona-se diretamente com a melhoria de vida do trabalhador e sua participação na promoção de condições salubres no trabalho, além da adoção de medidas e barreiras de proteção coletiva.

A reorganização dos serviços de enfermagem, de modo a distribuir os trabalhadores conforme o grau de risco do setor hospitalar, o tempo de formação profissional, as habilidades

inerentes a cada indivíduo e a carga de trabalho, são medidas imprescindíveis para a diminuição dos acidentes de trabalho. As instituições de saúde devem, ainda, disponibilizar um sistema prontamente acessível para os funcionários de modo a incluir programas educacionais, protocolos bem estabelecidos para as notificações de agravos relacionados à saúde do trabalhador através do SINAN NET, avaliação, aconselhamento, profilaxia, tratamento e acompanhamento do profissional acidentado.

No Brasil, a escassez de dados sistematizados sobre acidentes com perfurocortantes não permite conhecer a magnitude global do problema. Estudos com abordagem sociotécnica dos aciden-tes, das condições de trabalho, dos programas de prevenção e saúde destes trabalhadores são necessários para que se tenha uma real noção da qualidade das medidas de biossegurança adotadas atualmente nas instituições de saúde.

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Referências

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