Universidade Federal da Paraíba - UFPB Centro de Ciências Exatas e da Natureza – CCEN
Departamento de Sistemática e Ecologia Curso de Ciências Biológicas
DANIELA DE CARVALHO MELO
DISTRIBUIÇÃO DE FALCONIFORMES EM PAISAGENS ABERTAS DA PLANÍCIE LITORÂNEA DA PARAÍBA, BRASIL
JOÃO PESSOA 2010
DANIELA DE CARVALHO MELO
DISTRIBUIÇÃO DE FALCONIFORMES EM PAISAGENS ABERTAS DA PLANÍCIE LITORÂNEA DA PARAÍBA, BRASIL
Trabalho de conclusão do curso apresentado para a obtenção do grau de Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal da Paraíba.
Área de conhecimento: Zoologia Orientador: Prof. Dr. Alan Loures Ribeiro
JOÃO PESSOA 2010
DANIELA DE CARVALHO MELO
DISTRIBUIÇÃO DE FALCONIFORMES EM PAISAGENS ABERTAS DA PLANÍCIE LITORÂNEA DA PARAÍBA, BRASIL
Trabalho de conclusão do curso apresentado para a obtenção do grau de Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal da Paraíba.
Área de conhecimento: Zoologia Orientador: Prof. Dr. Alan Loures Ribeiro
BANCA EXAMINADORA:
_________________________________________
Prof. Dr. Alan Loures Ribeiro - CCEN/DSE/Campus I/UFPB
_________________________________________
Prof. Dr. Helder Farias Pereira Araújo - CCA/DCB/Campus II/UFPB
________________________________________
Prof. Dr. Luiz Carlos Serramo Lopez - CCEN/DSE/Campus I/UFPB
_________________________________________ MSc. Andrei Langeloh Roos - CEMAVE/ICMBio
JOÃO PESSOA 2010
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho aos meus pais Joaquim Melo Sobrinho e Maria Margareth Carvalho por toda a compreensão e apoio em todos estes anos.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente à Deus por sempre ter me dado forças para superar os desafios.
Agradeço à minha família por todo o apoio e paciência durante esses anos.
Agradeço ao amor da minha vida Alvino Pedrosa Ferreira por estar sempre comigo, sendo meu pilar de luz, assim como por ter sido meu parceiro por toda a trajetória deste trabalho.
Agradeço aos meus amigos que me ajudaram a superar momentos estressantes do curso.
Ao Professor Doutor Alan Loures Ribeiro por toda a orientação, apoio e conhecimentos partilhados nos trabalhos acadêmicos.
Ao Professor Doutor Helder pela introdução à Ornitologia e todo o treinamento inicial, assim como por fazer parte da banca examinadora.
Ao MSc. Andrei Langeloh Roos e ao Prof. Dr. Luiz Carlos Serramo Lopez por aceitarem o convite para fazerem parte desta banca examinadora.
À UFPB/PRPG e CNPq pela oportunidade de participar da Iniciação Cientìfica.
Ao IBAMA e ICMBio pelo licenciamento para o trabalho de campo.
À Reserva Biológica Guaribas, Destilarias Miriri e Japungú pelo apoio logístico e autorização de trabalho em suas áreas de mata, assim como aos seus funcionários que estiveram em campo conosco nos auxiliando em diversos momentos.
“A mente que se abre a uma nova idéia, jamais retornará ao seu tamanho original”.
SUMÁRIO DEDICATÓRIA...4 AGRADECIMENTOS...5 LISTA DE ILUSTRAÇÕES...8 LISTA DE TABELAS...9 LISTA DE APÊNDICES...9 RESUMO...10 ABSTRACT...11 1. INTRODUÇÃO...12 2. OBJETIVOS...15 2.1 Objetivo Geral...15 2.2 Objetivos Específicos...15 3. MATERIAL E MÉTODOS...16 3.1 Área de Estudo...16 3.2 Amostragens...20 3.3 Análise de Dados...21 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO...23 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...39 6. REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS...42 7. APÊNDICES...49
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1. Mapa mostrando a área de estudo situada na região de planície litorânea
da Paraíba, na região nordeste do Brasil...18
Figura 2. Localização em detalhe dos fragmentos florestais na região litorânea da
Paraíba...19
Figura 3. Curva acumulativa de espécies (Sobs, linha sólida) e o intervalo de confiança de 95% (linhas tracejadas) da assembléia de Falconiformes da planície litorânea da Paraíba, Brasil...24
Figura 4. Estimador de riqueza Jackknife 2 para a assembléia de Falconiformes
(linha sólida) com seu respectivo desvio-padrão (linhas tracejadas) obtida a partir de dados de incidência em diferentes paisagens da planície litorânea da Paraíba, Brasil.
...26 Figura 5. Gráfico de número de espécies para cada tipo de paisagem...28
LISTA DE TABELAS
Tabela 1. Espécies de Falconiformes encontradas ao longo de paisagens abertas
circundantes de fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea do Estado da Paraíba, Brasil...29
Tabela 2. Dados da autoecologia de cada uma das espécies de Falconiformes
encontradas ao longo de paisagens abertas circundantes aos fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea do Estado da Paraíba, Brasil...34
Tabela 3. Dieta conhecida das espécies de Falconiformes encontradas ao longo de
paisagens abertas circundantes de fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea do Estado da Paraíba, Brasil...37
LISTA DE APÊNDICES
RESUMO
Levantamentos de Falconiformes em paisagens abertas da planície litorânea da Paraíba foram realizados entre os meses de junho de 2009 e junho de 2010. Para as amostragens, foram realizados censos a partir das primeiras horas da manhã até aproximadamente as 10:00 h em cada dia. Ao todo, foram realizados 40 censos de Falconiformes em áreas abertas localizadas ao redor de oito fragmentos de floresta Atlântica. Todas as observações foram realizadas com o auxílio de binóculos 10x50mm. Quando possível, as vozes das espécies foram gravadas com o auxílio de gravador e microfone direcional. No total, foram identificadas cinco diferentes paisagens. Um total de 302 indivíduos de 14 espécies foram registradas. As espécies mais comumente observadas foram o carcará (Caracara plancus) e o gavião-carijó (Rupornis magnirostris) com 60% e 25% das detecções, respectivamente. As espécies encontradas em menor número foram o gavião-de cabeça-cinza (Leptodon cayanensis), o pedrês (Buteo nitidus), o gavião-peneira (Elanus leucurus) e o gavião-preto (Buteogallus urubitinga), todos com apenas uma observação, totalizando para cada um 0,33% das observações. A paisagem que apresentou maior representatividade foi a de plantações e lavouras, com cerca de 65% do total. O tipo de plantação mais comumente encontrada foi cana-de-açúcar. Todas as paisagens apresentaram alto grau de perturbação e interferência humana. Os resultados apresentados sugerem que plantações ofertam recursos para a sobrevivência de espécies generalistas e tolerantes a habitats em paisagens modificadas. Contudo, espécies com requerimentos de habitats específicos, tais como as florestais, não são capazes de se manter neste tipo de ambiente.
ABSTRACT
Surveys of Falconiformes in open landscapes of the coastal plain of Paraíba were conducted between the months of June 2009 and June 2010. For sampling, censuses were conducted from early morning until about 10:00 each day. We conducted 40 censuses of Falconiformes in open areas located around eight fragments of Atlantic forest. All observations were made with the aid of binoculars 10x50mm. Where possible, the voices of the species were recorded with the aid of a recorder and directional microphone. In total, we identified five different landscapes. A total of 302 individuals from 14 species were sampled. The species most commonly observed were the Southern Caracara (Caracara plancus) and Roadside Hawk (Rupornis magnirostris) with 60% and 25% of detections, respectively. The species found in smaller numbers were the Gray-headed Kite (Leptodon cayanensis), the Gray Hawk (Buteo nitidus), the White-tailed Kite (Elanus leucurus) and Great Black-Hawk (Buteogallus urubitinga), all with just one observation, totaling 0.33% for each of the observations. The landscape with the highest representation was of plantations and crops, with about 65% of the total. The type of planting is most commonly found sugar cane. All landscapes showed higher degree of disturbance and human interference. The results suggest that plantations offer resources for the survival of species habitat generalists and tolerant in modified landscapes. However, species with specific habitat requirements, such as forestry, are not able to maintain this kind of environment.
1. INTRODUÇÃO
A Mata Atlântica brasileira é representada atualmente por 11,41% da sua área original, apresentando um total de 147.018 km² de vegetação nativa (FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA e INPE, 2009). Originalmente, ocupava quase toda a costa brasileira, sendo 92% de toda a sua extensão neste território (FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA e INPE, 1998). Como conseqüência direta da expansão urbana (VIANA et al., 1997), a maioria das áreas restantes encontra-se sob a forma de pequenos fragmentos, o que provocou a perda de habitat para diversas espécies (RIBON et al., 2003).
Apesar disso, a Mata Atlântica é uma importante área de conservação, abrigando, por exemplo, a segunda maior diversidade de aves do Brasil, com cerca de 1020 espécies, sendo 188 táxons endêmicos e 112 ameaçados de extinção (MACHADO e FONSECA, 2000, IUCN, 2008, MARINI e GARCIA, 2005).
A avifauna pode ser usada, algumas vezes, como bioindicadora de qualidade dos ambientes (SICK, 1997, RODRIGUEZ-ESTRELLA et al., 1998). As aves de rapina estão entre alguns destes representantes sensíveis a perturbações, principalmente aquelas ocasionadas pelo homem (FLETCHER et al., 1999). A sensibilidade relativa de algumas espécies de aves de rapina pode ser explicada principalmente por fatores como o seu grau de especialização (p.ex, requerimentos específicos de habitat e/ou alimentação) e comportamento (p.ex, intolerância à presença humana). Além disto, como geralmente estão localizadas nos topos das teias alimentares, podem ser afetadas pelos distúrbios sofridos em outros níveis tróficos (ALBUQUERQUE, 1995, SICK, 1997, LOURES-RIBEIRO e ANJOS, 2006).
As aves de rapina são animais que caçam vertebrados e invertebrados, conhecidas como águias, falcões, gaviões e abutres, porém foram realizados novos estudos e os abutres foram separados da Ordem Falconiformes Bonaparte, 1831 pelo Comitê Brasileiro de Ornitologia (CBRO, 2009) e agrupados na Ordem Cathartiformes Seebohm, 1890. Aqueles raptores também são chamados de aves de rapina diurnas, para diferenciar das aves de rapina noturnas como por exemplo as corujas (Ordem Strigiformes) (FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001). Embora
também sejam consideradas como aves de rapins diurnas as corujas de hábitos diurnos.
As aves de rapina diurnas fazem parte da ordem Falconiformes, que engloba as famílias Accipitridae, Falconidae e Pandionidae (FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001), compõem um grupo cosmopolita, onde a América Latina é a região com maior diversidade e com menos estudos na área (SICK, 1997).
A família Accipitridae Vigors, 1824 é a mais numerosa da ordem e uma das mais numerosas dentre todas as Aves. Atualmente o número de espécies reconhecidas para essa família varia entre 212 a 240 espécies (HOYO et al., 1994).
Falconidae Leach, 1820 é uma família pouco numerosa que engloba espécies com hábitos de vida bastante diversificados, sendo por este motivo uma família não muito bem definida. Possui em torno de 59 a 63 espécies. A maior parte das espécies deste táxon está concentrada nos Neotrópicos (HOYO et al., 1994).
A família Pandionidae Bonaparte, 1854 possui apenas uma espécie Pandion haliaetus conhecida popularmente por águia pescadora, essa espécie é especialista em pescar seu alimento, possuindo adaptações únicas para tal modo de vida que a difere claramente dos membros das outras famílias. (HOYO et al., 1994).
Embora seja notável a importância dos Falconiformes nos ecossistemas, considerando, dentre outros, seu papel no controle de populações de presas, a biologia de muitas espécies ainda é pouco conhecida (THIOLLAY, 1898a, 1989b, 2007, BIERREGAARD, 1998, RODRIGUEZ-ESTRELLA et al., 1998, ZORZIN et al., 2006). Geralmente estas aves apresentam ocorrência restrita em pequenos fragmentos de Mata Atlântica (ALBUQUERQUE, 1995, SICK, 1997, RODA, 2006), já que muitas necessitam de grandes áreas de vida e alimentação especializada (THIOLLAY, 1989a, 1989b, 2007). Pelo menos 45% destas aves são encontradas em Florestas Neotropicais (BILDSTEIN et al., 1998).
Florestas Neotropicais são ecossistemas dinâmicos em que os distúrbios frequentemente abrem clareiras na floresta e com o passar dos anos se transformam em paisagens abertas e heterogêneas (Hartshorn 1980).
Alguns estudos indicam que a diversidade de espécies de Falconiformes em paisagens abertas tendem a aumentar conforme aumenta a heterogeinidade das paisagens em florestas tropicais (Hartshorn 1980).
São escassos os estudos sobre este grupo na Mata Atlântica (ALBUQUERQUE, 1995, LOURES-RIBEIRO e ANJOS, 2006), incluindo na área de ocorrência do bioma na Paraíba (RODA e PEREIRA, 2006).
2. OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Investigar a riqueza e abundância das aves de rapina em paisagens abertas antropizadas associadas aos fragmentos florestais da planície litorânea da Paraíba.
2.2 Objetivos Específicos
- Estudar a composição específica de espécies de aves de rapina diurnas em paisagens abertas antropizadas no entorno de fragmentos de floresta da planície litorânea da Paraíba;
- Estimar a riqueza de espécies a partir dos dados de incidência das espécies amostradas nos diferentes tipos de ambientes antropizados no entorno de fragmentos de floresta Atlântica de baixada na Paraíba;
- Determinar a abundância relativa das espécies de Falconiformes a partir das diferentes paisagens amostradas;
- Verificar se existe alguma relação entre os dados de ocorrência de habitat e autoecológicos das diferentes espécies de aves de rapina diurnas amostradas a partir das áreas investigadas.
3. MATERIAL E MÉTODOS
3.1 Área de Estudo
A Paraíba (7º14’S/36º46’O) está situada a leste da região Nordeste e tem como limites o estado do Rio Grande do Norte ao norte, o Oceano Atlântico a leste, Pernambuco ao sul e o Ceará a oeste, ocupa uma área de 56.439 km² e pertence à faixa tropical do Hemisfério Sul. O Estado apresenta três conjuntos de formas de relevo ligadas ao clima: planície litorânea, onde se encontram os fragmentos que foram neste projeto, além de uma área de planalto (região central) e uma depressão a oeste (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO, GOVERNO DO ESTADO DA PARAÍBA, UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA, 1985).
A região de planície litorânea é caracterizada por apresentar clima predominantemente quente e úmido. As temperaturas médias anuais oscilam entre 24 e 27°C, com índices pluviométricos em torno de 900 a 1.800 mm/ano e umidade relativa em torno dos 80%. A rede de drenagem é representada por pequenas bacias restritas ao tabuleiro que se desenvolvem no sentido oeste-leste (bacias do rio Guajú, Soé, da Estiva, entre outras) intercaladas por outras de maior porte, provenientes da Borborema como, por exemplo, as bacias dos rios Paraíba e Mamanguape. A planície litorânea compreende a área de menor expressão espacial, com níveis altimétricos que variam entre 0 a 10 metros. As condições de umidade dominantes neste setor permitem uma diversificação da cobertura vegetal, onde podem ser identificados campos de várzea, formações florestais (matas e mangues), cerrados, praias, entre outros. A faixa de Mata Atlântica da planície costeira da Paraíba apresenta formação densa, sempre verde, com árvores altas (mais de 30m) e tronco com diâmetros consideráveis, apresentando muitas lianas e várias espécies de epífitas nos locais mais úmidos (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO, GOVERNO DO ESTADO DA PARAÍBA, UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA, 1985).
Foram estudadas paisagens abertas nos arredores de oito fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea da Paraíba. Os diferentes tipos de paisagens identificados na região foram: (i) capoeira, caracterizada principalmente pelo avanço do estágio sucessional da vegetação, porém sem o predomínio de vegetação de
porte arbóreo; (ii) lagoas e campos alagados, basicamente com vegetação típica de várzeas; (iii) campos e pastagens, com uso restrito à criação de animais e/ou abandonados em estágio inicial de sucessão; (iv) plantações e lavouras que neste trabalho se apresentaram como sendo a maioria de plantações de cana-de-açúcar, seguidas por plantações de café, de banana, de mamão, de côco e de hortaliças; (v) área urbana que se localiza no entorno de um fragmento; este último foi adicionado posteriormente ao início do trabalho, através da observação da relevância e influência que a área urbana causou em um dos fragmentos estudados, a Mata do Buraquinho.
Estas paisagens estiveram localizadas nos arredores dos seguintes remanescentes florestais, a saber: Mata do Buraquinho, situada no município de João Pessoa; Reserva Biológica Rebio Guaribas Sema 2 dividida em duas unidades amostrais: Sede e Cabeça do Boi, situada no município de Mamaguape; Reserva Biológica Rebio Guaribas Sema 3, situada no município de Rio Tinto; RPPN Guargaú dividida em unidades 1 e 2, situada no município de Santa Rita; RL Pau Brasil; RPPN Fazenda Pacatuba, situada no município de Sapé (Fig. 1 e 2).
I II
III
Figura 1: Mapa mostrando a área de estudo. O mapa I mostra o mapa do Brasil com destaque para a região onde é localizado o Estado da Paraíba. O mapa II mostra uma porção ampliada do litoral nordeste do Brasil, com destaque para a região litorânea do Estado. O mapa III mostra a região da planície litorânea.
Figura 2: Localização em detalhe dos fragmentos florestais na região litorânea da Paraíba. Em verde, os fragmentos, e em branco, localidades de referência. (Fonte: Google Earth, 2010).
3.2 Amostragens
No período compreendido entre junho de 2009 a junho de 2010 foram empreendidas expedições no entorno de cada fragmento para a amostragem dos diferentes tipos de paisagens abertas. Em cada uma das localidades eleitas, foram realizadas cinco amostragens ao longo do ano. O entorno de cada fragmento foi percorrido, onde foram identificados os diferentes tipos de paisagens.
O percentual dos elementos da paisagem circundantes de cada um dos fragmentos foi estimado a partir de incursões terrestres no entorno dos remanescentes estudados, calculado proporcionalmente em relação ao perímetro de cada fragmento. Para fins de consideração do uso da paisagem por cada uma das espécies registradas, foi considerado válido somente o registro daquelas espécies que estiveram efetivamente realizando algum tipo de atividade biológica ligada à paisagem (p. ex., forrageamento, reprodução). Aves de rapina diurnas voando muito alto ou simplesmente cruzando a paisagem não foram incluídas em nenhum tipo de ambiente.
Com o intuito de evitar superestimativas, no máximo dois espécimes de cada espécie foram considerados quando os registros foram realizados por meio de vocalizações. Quando a natureza do registro foi visual, mais indivíduos puderam ser registrados na condição de terem sido avistados simultaneamente. Todas as observações foram realizadas com o auxílio de binóculos 8x42 e 10x50 mm e foram anotados todos os detalhes da observação em uma planilha de campo previamente elaborada (Apêndice 1).
As amostragens foram realizadas nas primeiras horas da manhã entre as 05:00 h e 10:00 h. A maioria das amostragens foram realizadas com boas condições de tempo. Guias de campo foram utilizados para facilitar a identificação das espécies (ERIZE et al., 2006, SIGRIST, 2007). A nomenclatura e a sistemática adotada seguiram os critérios do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO, 2009).
Dados históricos relativos à ocorrência das espécies de aves de rapina diurnas em áreas de Mata Atlântica da Paraíba foram utilizados para discutir o grau de conservação destas espécies. Uma revisão bibliográfica foi realizada a partir das bases de dados disponíveis, e nos principais periódicos relacionados ao tema, empregando as seguintes palavras-chave: Falconiformes, Mata Atlântica, Paraíba,
Aves de Rapina e nordeste do Brasil (português); Atlantic Forest, Birds of prey, northeastern e Brazil.
3.3 Análise de Dados
Curvas acumulativas de espécies e estimativas de riqueza foram geradas a partir da lista de espécies no programa Estimates 6.0. Para a curva cumulativa foi adotado o estimador Sobs que através dos dados amostrados (número de espécies)
projeta uma curva que apresenta a variação possível da amostra encontrada, e o estimador de riqueza Jackknife 2, este último empregado para estimativas que levam em conta dados de incidência das espécies (COLWELL e CODDINGTON, 1994). Análises de abundância relativa foram empregadas para cada paisagem com objetivo de se estimar a abundância de cada espécie nas diferentes paisagens, seguindo o cálculo: número total de indivíduos de uma espécie em uma paisagem, dividido pelo número total de indivíduos encontrados daquela espécie (somando sua ocorrência em todas as paisagens), assim como foi calculada a abundância relativa geral para cada espécie, seguindo o cálculo: número total de indivíduos de uma espécie (somando sua ocorrência em todas as paisagens), dividido pelo número total de indivíduos de todas as espécies encontradas no trabalho.
Comparações entre as abundâncias das espécies não foram realizadas em função das diferenças de detectabilidade existentes entre elas. Também não foram feitas comparações entre as paisagens já que estes tipos não estiveram igualmente representados na região de estudo.
Dados da autoecologia das espécies foram obtidos em STOTZ et al., 1996, sendo eles: Nível de sensibilidade: baixa (1), média (2) e alta (3); Estratos de forrageamento: levou em conta o somatório do número de estratos de forrageamento utilizado por cada espécie; Centro de abundância: localidade onde os contingentes populacionais das espécies atingem o seu ápice, sendo: planícies tropicais (1), subtropical (2); Abundância relativa: relativamente comum (1), incomum/distribuição esparsa (2), incomum (3), comum (4), razoavelmente comum (5); Elevação máxima: de 0 a 500 m (1), de 600 a 1200 m (2), acima de 1200 m (3); Habitats: foi considerado o somatório dos diferentes tipos de regiões zoogeográficas de cada espécie, indicando o grau com que a mesma se distribui pelos continentes; Dieta: número itens potenciais que compõem a dieta das diferentes espécies de
Falconiformes. Os seguintes agrupamentos foram considerados: invertebrados não-artrópodes, artrópodes não-insetos, artrópodes-insetos, carcaças, anfíbios, peixes, répteis, aves, mamíferos, outros (lixo e frutas).
A partir dos dados de ocorrência das espécies nos diferentes tipos de habitat, bem como através dos seus dados de autoecologia, foram produzidas duas matrizes de similaridade (KOENING e KNOPS, 1998). Os dados autoecológicos, assim como os dados sobre habitats foram inseridos no programa Bioestat 5.0 para a construção de duas matrizes numéricas separadas, que serviram como subsídio para a realização do Teste de Mantel. As matrizes empregadas utilizaram a distância multivariada de Penrose. Após a elaboração das duas matrizes, o teste de Mantel foi empregado para verificar o grau de correlação entre elas (p<0,05). (DINIZ-FILHO e BINI, 1996).
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram amostradas paisagens abertas localizadas ao redor de oito fragmentos totalizando 40 dias de amostragem, entre os meses de junho de 2009 a junho de 2010. O esforço total de amostragem foi de 200 horas. Foram observados 302 indivíduos de 14 espécies. O horário da manhã foi escolhido devido à maior detecção de indivíduos nesse período do que no período da tarde (SEAVY e APODACA, 2002).
Anderson (2001) utilizou um método similar de observação em Honduras, utilizando-se de cinco diferentes áreas de paisagem, com duração de quatro horas logo após o término da madrugada, observando 137 indivíduos de 18 espécies. Contudo, a área utilizada para as observações foi de 525.000 hectares de mata protegida, o que justifica o fato de terem sido encontradas mais espécies do que neste trabalho, pois em áreas protegidas as paisagens são mais conservadas e oferecem melhores condições de vida para espécies mais sensíveis.
Em nosso estudo, a espécie mais frequentemente observada foi o carcará (Caracara plancus) com 60% dos registros, seguida pelo gavião-carijó (Rupornis magnirostris) com 25% do total dos indivíduos detectados. Donázar et al. (1993) também observou o predomínio de C. plancus nas paisagens abertas da Patagonia. O gavião-carijó também foi amplamente encontrado por Anderson (2001) em paisagens abertas e de grande heterogeneidade em Honduras. Esta espécie é mais comumente observada em paisagens abertas do que em áreas de floresta (MILLSAP e LEFRANC, 1988 apud SEAVY e APODACA, 2002). Em geral, estas duas espécies tem as paisagens abertas como o seu principal tipo de habitat (SICK, 1997).
O gavião-de cabeça-cinza (Leptodon cayanensis), o gavião-pedrês (Buteo nitidus), o gavião-peneira (Elanus leucurus) e o gavião-preto (Buteogallus urubitinga) foram encontrados apenas uma vez, totalizando em 0,33% das observações.
A curva acumulativa de espécies (Fig. 3) indicou que o esforço amostral não foi suficiente, pois a mesma não alcançou uma assíntota. O Sobs foi de 14 ± 5.47, ou
variância para mais e para menos de 5.47 indivíduos (desvio padrão) apresentando intervalo de confiança de 95%.
Figura 3: Curva acumulativa de espécies (Sobs, linha sólida) e o intervalo de confiança de 95% (linhas tracejadas) da assembléia de Falconiformes da planície litorânea da Paraíba, Brasil.
Esses resultados demonstram que ainda é necessário um esforço amostral maior para que possam ser detectadas todas as espécies com provável ocorrência para essas áreas. Esta curva pode ser justificada pelo fato a detecção de Falconiformes ser dificultada, já que a maioria das espécies ocorre em baixas densidades, apresentando hábitos solitários, em geral, escondendo-se em copas de árvores, ou mesmo passando muito tempo empoleiradas e em silêncio. A grande parte das espécies evita a presença humana (THIOLLAY, 1989a, 1989b).
Além disso, habitats não propícios às exigências de vida de muitos Falconiformes, somado à baixa densidade dos mesmos, dificultam muito a sua detecção (THIOLLAY, 1985a, 1985b). É provável que mais espécies possam ser
adicionadas aos registros considerando os números aqui apresentados, incluindo aquelas com potencial ocorrência para o Estado da Paraíba, tal como o sovi (Ictinia plumbea), uma espécie migratória, observada em uma ocasião na Reserva Biológica de Guaribas por Almeida e Teixeira (1995).
Segundo Araujo et al. 2006, o gavião-caranguejeiro (Buteogallus aequinoctialis) tem ocorrência nos estuários dos rios Paraíba e Mamanguape. Outra espécie já registrada no Estado foi a águia-pescadora (Pandion haliaetus). Possivelmente essas espécies encontradas em outras ocasiões não tenham sido detectadas neste trabalho em razão das áreas amostradas ainda não representarem a diversidade total de habitats existentes na região. Diferenças quanto à metodologia empregada neste trabalho em comparação ao realizado por outros autores podem também ser utilizadas como uma das explicações para este fato.
Baseando-se nas nossas amostragens, o estimador de riqueza Jackknife 2 (Fig. 4) indicou uma riqueza de 24 espécies para as áreas amostradas. De acordo com a lista de espécies de Falconiformes da Paraíba (ICMBIO/CEMAVE, 2000) sete outras espécies possuem ocorrência provável em nossa área de estudo, sendo elas: caranguejeiro (Buteogallus aequinoctialis), gaviãozinho (Gampsonyx swainsonii), sovi (Ictinia plumbea), gavião-caramujeiro (Rosthramus sociabilis), águia-pescadora (Pandion haliaetus), cauré (Falco rufigularis), falcão-peregrino (Falco peregrinus). Algumas dessas espécies necessitam de habitats de áreas de mata contínua e pouco alterada o que é encontrado com muita dificuldade na planície litorânea. Devido à ausência dessas condições, elas não podem ser encontradas nas paisagens de entorno das matas estudadas. Já outras espécies, como a águia-pescadora (Pandion haliaetus) e o gavião-caramujeiro (Rosthramus sociabilis), necessitam de áreas de mata com curso d’água vinculado, devido ao fato de utilizarem esse curso d’água para realizarem sua atividade de caça e alimentação. Neste trabalho não foi estudada nenhuma área que possuísse um curso de água significativo. O caranguejeiro (Buteogallus aequinoctialis) é comumente encontrado em áreas de manguezais e pântanos, podendo ser observado sobrevoando manguezais em grandes alturas (SICK, 1997). Neste trabalho nenhuma das paisagens estudadas estiveram associadas ou próximas à manguezais.
Algumas espécies de Falconiformes são migratórias, como é o caso do falcão-peregrino (Falco peregrinus), do sovi (Ictinia plumbea) e do gaviãozinho (Gampsonyx swainsonii). Desta forma, algumas destas espécies podem não ter sido
encontradas nas paisagens estudadas. Sua ocorrência na Paraíba pode ser incidental, com poucos indivíduos de fato permanecendo na região ou com passagem efêmera pelos ambientes da região. No nordeste do Brasil, algumas destas espécies já foram registradas (SILVA e SILVA, 1996 apud PEREIRA, 2006). Considerando a lista de espécies de aves da Paraíba, podem ser consideradas como novos registros para o Estado o gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) e o gavião-pedrês (Buteo nitidus).
Outras três espécies que não foram encontradas nas paisagens investigadas integram a lista de espécies observadas em nosso trabalho. São elas o cauré (Falco rufigularis), visto uma vez na borda de um dos fragmentos, na primeira hora da manhã, o gavião-pernilongo (Geranospiza caerulescens), avistado algumas vezes dentro da floresta em alguns fragmentos e o gavião-relógio (Micrastur semitorquatus), ouvido na maioria das expedições enquanto vocalizava no interior dos remanescentes florestais em quase todos os fragmentos. Esta última espécie foi também comumente observada por Roda e Pereira (2005), na RPPN Gargaú, o qual foi um dos fragmentos estudados neste trabalho.
Figura 4: Estimador de riqueza Jackknife 2 para a assembléia de Falconiformes (linha sólida) com seu respectivo desvio-padrão (linhas tracejadas) obtida a partir de dados de incidência em diferentes paisagens da planície litorânea da Paraíba, Brasil.
Quando um ambiente florestal é fragmentado e transformado em paisagens abertas, espécies residentes que são tolerantes a habitats abertos substituem as espécies residentes de florestas (THIOLLAY, 1985a). A maioria das paisagens estudadas foi modificada, apresentando um alto grau de perturbação antrópica, principalmente nas áreas de plantações e lavouras.
O número de espécies e de indivíduos detectados entre as diferentes paisagens variou. Este fato se deve provavelmente a duas razões. A primeira delas diz respeito à detectabilidade de cada uma das espécies, já que este fator varia muito entre elas. O segundo motivo diz respeito à representatividade de cada um dos ambientes encontrados em nossa área de estudo.
Ao redor dos fragmentos, as paisagens apresentaram uma representatividade distinta, tendo prevalecido como maioria a paisagem de plantações e lavouras, com cerca de 65% de ocorrência, seguida de campos e pastagens com 15%, capoeira com 10%, lagoas e campos alagados com 5% e área urbana com 5%.
A categoria plantações e lavouras foi mais comum no entorno dos fragmentos, sendo também aquela em que foram registrados o maior número de indivíduos, totalizando 93% das detecções. Para Seavy e Apodaca (2002) no trabalho realizado em três diferentes paisagens com alto grau de perturbação em Uganda, o que compunha a maioria das paisagens eram áreas de agricultura de plantações e lavouras e igualmente o maior número de indivíduos foi detectado nessa paisagem.
A categoria lagoas e campos alagados foi a menos frequente no entorno dos fragmentos e também foi aquela em que foram observados somente 0,6% do total de aves de rapina diurnas. Essa diferença pode ser explicada por sua representatividade ao longo das localidades estudadas. Em duas paisagens, campos e pastagens e capoeira, foram detectados um número semelhante de indivíduos, 1,6% do total em cada uma. Já em áreas urbanas, 2,6% dos indivíduos foram observados nestes ambientes. A maioria dos indivíduos (71,43% do total) foi encontrada em apenas um tipo de paisagem, e 28,57% foi encontrada entre dois e três tipos de paisagens distintas. Duas espécies foram observadas em dois tipos de paisagens, tais como o gavião-carrapateiro (Milvago chimachima) e o gavião-de-cauda-curta (Buteo brachyurus). Dentre as espécies com ocorrência mais ampla, estão o gavião-carijó (Rupornis magnirostris) e o carcará (Caracara plancus), encontrados em três paisagens diferentes (Fig. 5 e Tabela 1).
Tabela 1: Espécies de Falconiformes encontradas ao longo de paisagens abertas circundantes de fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea do Estado da Paraíba, Brasil, Número de indivíduos, abundância relativa e total de Falconiformes detectados nos cinco tipos de paisagens.
Taxa Nome Popular N°.¹ Habitat²
(%)
Abund.³ (%)
CA LC CP PL AU
Accipitridae
Buteo albicaudatus (Vieillot, 1816) gavião-de-rabo-branco 6 - - - 100 - 1,98
Buteo albonotatus (Kaup, 1847) gavião-de-rabo-barrado 2 - - - 100 - 0,66
Buteo brachyurus (Vieillot, 1816) gavião-da-cauda-curta 3 - - - 75 25 1,32
Buteo nitidus (Latham, 1790) gavião-pedrês 1 - - - 100 - 0,33
Buteogallus urubitinga (Gmelin, 1788) gavião-preto 1 - - - 100 - 0,33
Elanus leucurus (Vieillot, 1818) gavião-peneira 1 - - - 100 - 0.33
Heterospizias meridionalis (Latham, 1790) gavião-caboclo 4 - - - 100 - 1,32
Leptodon cayanensi (Latham, 1790) gavião-de-cabeça-cinza 1 - - - 100 - 0,33
Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788) gavião-carijó 71 2.63 2.63 - 85.52 9.21 25,1
Falconidae
Caracara plancus (Miller, 1777) carcará 187 0.54 - 2.71 96.73 - 60,9
Falco femoralis (Temminck, 1822) falcão-de-coleira 2 - - - 100 - 0,66
Falco sparverius (Linnaeus, 1758) gavião-quiriquiri 12 - - - 100 - 3,97
Herpethotheres cachinnans (Linnaeus, 1758) acauã 2 - - - 100 - 0,66
Milvago chimachima (Vieillot, 1816) gavião-carrapateiro 6 33.33 - - 66.66 - 1,98
Total 302 100
¹ N°.: Número de contatos de cada espécie e total geral.
² Habitat (%): (CA) capoeira; (LC) lagoas e campos alagados; (CP) campos e pastagens; (PL) plantações e lavouras; (AU) área urbana. Índice de abundância relativa de cada espécie para cada tipo de paisagem, seguindo o seguinte cálculo: n° total de indivíduos de uma espécie para uma paisagem, dividido pelo n° total geral de indivíduos dessa espécie (soma da ocorrência da espécie em todas as paisagens).
³ Abund. (%): Índice de abundância relativa das espécies no geral, seguindo o seguinte cálculo: n° total geral de indivíduos de uma espécie (somando sua ocorrência em todas as paisagens), dividido pelo n° total de indivíduos de todas as espécies (total de indivíduos observados no trabalho = 302)
Algumas espécies foram observadas menos do que o esperado para certas paisagens, como é o caso do gavião-carrapateiro (Milvago chimachima). Esta espécie pode ser vista comumente associada a bovinos, geralmente alimentando-se de carrapatos desses animais (SICK, 1997). Outra espécie observada nestas áreas é o gavião-peneira (Elanus leucurus). No caso da nossa área de estudo, a espécie pode ser vista sobrevoando plantações de cana-de-açúcar, praticando o ato de “perneirar no ar”, típico comportamento de caça da espécie (SICK, 1997).
Falconiformes são mais observados fora do fragmento florestal, ou seja, em paisagens do entorno, do que dentro da floresta (ANDERSON, 2001). Um dos motivos para isso, é que nas paisagens abertas o alimento é encontrado com maior facilidade, tanto devido á sua abundância, quanto à facilidade para detectar presas, já que o ambiente aberto proporciona um campo de visão amplo, assim como a visualização das espécies pelo observador é facilitada nesse tipo de ambiente.
A maioria das aves de rapina diurnas são solitárias. Algumas poucas espécies podem ser vistas em pares, dependendo da época do ano, como é o caso do falcão-quiriquiri (Falco sparverius) detectado na maioria das vezes em casais. Já para outras, o hábito de se agrupar em grande número de indivíduos se torna mais comum, como é o caso do gavião-carijó (Rupornis magnirostris) e do carcará (Caracara plancus). Este último pode ainda ser visto em bandos numerosos de mais de setenta indivíduos em locais que possuem abundante fonte de alimento (Hoyo et al., 1994).
Existiram variações na detectabilidade de indivíduos em uma mesma paisagem, variando de acordo com o tempo e as condições locais. Em dias de queimadas de plantações de cana-de-açúcar, a detectabilidade do carcará (Caracara plancus) aumentou muito, juntamente com a detectabilidade do gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis) visto apenas nesses dias. Isto ocorreu provavelmente como uma função da oferta oportunística de recursos, evidenciada pela fuga de invertebrados e vertebrados do solo enquanto a lavoura é queimada. Em plantações de coqueiros foi possível observar mais facilmente algumas espécies de falcões, como é o caso do falcão-quiriquiri (Falco sparverius) encontrado em casais fazendo ninho nas cavidades de troncos de coqueiro e falcão-de-coleira (Falco femoralis) encontrado em cima de um coqueiro sem folhas, caçando. A presença de postes de energia elétrica dentro de plantações e lavouras favoreceu
também a detectabilidade desses falcões, que ficavam dispostos nos fios em casais ou sozinhos.
Foi observado que a maioria das espécies esteve intimamente associada a áreas fragmentadas e paisagens abertas com perturbações, tirando muitas vezes vantagens dessas condições. Em áreas urbanas, como é o caso da Mata do Buraquinho, o entorno apresentou intensa atividade de algumas espécies que se utilizavam dela para construção de ninhos e obtenção de alimento.
Porém o distúrbio causado no ambiente pode influenciar a composição da comunidade de Falconiformes. As espécies mais sensíveis podem desaparecer, causando uma grande perda na biodiversidade (THIOLLAY, 1999).
As espécies encontradas neste trabalho não fazem parte da lista de espécies ameaçadas (IUCN, 2010). Contudo, para algumas delas, torna-se necessária alguma atenção no que se refere ao critério de semi-dependência de fragmentos florestais próximos às localidades de áreas abertas onde as mesmas realizam suas atividades bióticas. Portanto, este fato não exclui nem diminui a necessidade de preservação dos fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea. A criação e ampliação de reservas biológicas, a diminuição da perturbação nas paisagens do entorno podem auxiliar na proteção não só das espécies de áreas abertas, mas também aquelas com requerimentos mais específicos de habitat.
Salvo algumas exceções de espécies generalistas e tolerantes como é o gavião-carijó (Rupornis magnrostris) e o carcará (Caracara plancus), poucos estudos foram feitos com os Falconiformes. Diante da importância do grupo e do relativo de grau de sensibilidade de algumas espécies, tornam-se necessárias mais investigações a fim de conhecer as ameaças que essas espécies estão sujeitas.
As espécies que apresentam maior sensibilidade, sendo considerada como sensibilidade média, são Buteo albonotatus, Buteo brachyurus, Buteo nitidus, Buteogallus urubitinga e Leptodon cayanensis.
As demais espécies apresentam sensibilidade baixa. Estes dados assim como os outros dados autoecológicos estão representados na Tabela 2.
Os dados autoecológicos reunidos sobre sensibilidade, forrageio, centro de abundância, abundância relativa, altura máxima, habitats, regiões zoogeográficas e dieta fornecem várias informações que auxiliam no conhecimento aprofundado da espécie e corroboram para o entendimento dos resultados obtidos.
O gavião-de-rabo-barrado (Buteo albonotatus) possui uma distribuição não muito bem determinada, embora seja encontrado em uma ampla gama de habitats (HOYO et al., 1994), porém ocorre com uma densidade populacional baixa, aparência críptica, área de vida ampla, afinidade por áreas remotas, muitas vezes áreas rudes (STOLESON e SADOTI, 2010), essas características dificultam a visualização da espécie e contribuem para o seu status de sensibilidade média. Estes fatos justificam a sua baixa detecção, tendo sido encontrado apenas duas vezes, sobrevoando plantações de cana-de-açúcar juntamente com urubus (Coragyps atratus).
Buteo brachyurus é considerado como uma espécie rara ou incomum para algumas localidades até razoavelmente comum em outras possuindo uma ampla distribuição (HOYO et al., 1994, FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001), para as paisagens estudadas, ele pode ser considerado como pouco comum, devido ao fato de ter sido encontrado apenas três vezes, embora tenha sido encontrado em área urbana, o que demonstra que ele possui boa tolerância à antropização junto a ambientes florestais.
O gavião-pedrês é uma espécie rara e incomum, sendo razoavelmente comum em algumas localidades (HOYO et al., 1994, FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001), tendo sido detectado apenas uma vez sobrevoando plantações de cana-de-açúcar.
O gavião carijó (Rupornis magnirostris) é a espécie de gavião mais abundante do Brasil (SICK, 1997) e habita uma grande variedade de ambientes (FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001), podendo ser encontrado em até sete tipos de habitats, tendo sido encontrado em quatro dos cinco tipos de paisagens amostradas.
Buteogallus urubitinga possui uma ampla distribuição (HOYO et al., 1994). É considerado como uma espécie pouco ativa, pois fica pousado em árvores grandes à espreita de suas presas (CARVALHO-FILHO et al., 2006), esse comportamento pouco ativo pode justificar a dificuldade em sua visualização e o fato de ter sido encontrado apenas uma vez se utilizando da área aberta.
Leptodon cayanensis apesar de não ser considerado como uma espécie ameaçada possui baixa densidade populacional e é considerado como uma espécie incomum à rara (HOYO et al., 1994, FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001) com exceção da Amazônia (SICK, 1997). Todos esses fatores podem justificar o fato de
esta espécie possuir sensibilidade média e grande dificuldade de detecção, tendo sido detectado apenas uma vez neste estudo.
Tabela 2: Dados da autoecologia de cada uma das espécies de Falconiformes encontradas ao longo de paisagens abertas circundantes aos fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea do Estado da Paraíba, Brasil. Fonte: Stotz et al., 1996.
Nome Sensibilidade Forrageio Centro de
Abundância Abundância Relativa Altura Máxima Hab¹ Regiões Zoog.² Accipitridae
Buteo albicaudatus (Vieillot, 1816)
Baixa Terrestre Planície tropical Relativamente
Comum 2200
6 10
Buteo albonotatus (Kaup, 1847)
Média Dossel Planície tropical Incomum/
Distribuição Esparsa 2800
5 10
Buteo brachyurus (Vieillot, 1816)
Média Dossel/Ar Planície tropical Relativamente
Comum 1200
4 9
Buteo nitidus (Latham, 1790)
Média Dossel Planície tropical Relativamente
Comum 1300
4 8
Buteogallus urubitinga (Gmelin, 1788)
Média Terrestre/Dossel Planície tropical Relativamente
Comum 1600
4 10
Elanus leucurus (Vieillot, 1818)
Baixa Dossel/Ar Planície tropical Incomum/
Distribuição Esparsa 2600
5 8
Heterospizias meridionalis (Latham, 1790)
Baixa Terrestre/Dossel Planície tropical Relativamente
Comum 1200
3 6
Leptodon cayanensi (Latham, 1790) Média Dossel Planície tropical Incomum 1000 3 8
Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788) Baixa Dossel Planície tropical Comum 2500 7 10
Falconidae Planície tropical
Caracara plancus (Miller, 1777) Baixa Terrestre Planície tropical Comum 2600 6 20
Falco femoralis (Temminck, 1822) Baixa Terrestre/Dossel Planície tropical Incomum 4400+ 6 13
Falco sparverius (Linnaeus, 1758)
Baixa Terrestre/Dossel Subtropical Baixo Razoavelmente
Comum 4400
7 21
Herpethotheres cachinnans (Linnaeus, 1758)
Baixa Dossel Planície tropical Razoavelmente
Comum 1500
5 9
Milvago chimachima (Vieillot, 1816) Baixa
Terrestre/Dossel Planície tropical Comum 1800 4 8
¹ Hab.: Número de diferentes habitats onde cada uma das espécies é encontrada.
Buteo albicaudatus consome uma relativa quantidade de itens alimentares, sendo mamíferos, répteis, insetos e anfíbios (MOTTA-JUNIOR e GRAZINOLLI, 2006) e foi encontrado também o comportamento de comer carcaças (FARQUHAR, 1992 apud GRAZINOLLI e MOTTA-JUNIOR, 2003).
Buteo albonotatus é considerado uma espécie relativamente incomum e de distribuição conhecida para os Estados Unidos e América Latina (BROWN e AMADON, 1968 apud KENNEDY et al., 1995). A diversidade da dieta dessa espécie permite com que ela procure por presas em áreas não florestadas (STOLESON e SADOTI, 2010).
Buteo brachyurus é considerado como um especialista em caçar aves, consumindo ainda outros itens como insetos, répteis, mamíferos (OGDEN, 1974), tendo sido relatado o consumo de carcaças (FISHER, 1893 apud OGDEN, 1974)
O gavião preto (Buteogallus uribitinga) possui uma dieta bem diversificada, composta por aves, mamíferos, répteis, insetos, peixes (GROSSMAN e HAMLET, 1964 apud CARVALHO-FILHO et al., 2006), possuindo uma preferência por sapos (SICK, 1997).
A espécie Caracara plancus é bastante conhecida por possuir hábitos alimentares onívoros realizando vários tipos de forrageamento (SICK, 1997, TRAVAINI et al., 2001), podendo consumir até oito diferentes tipos de itens alimentares, além do fato de possuir um amplo papel trófico (SAZIMA, 2007). Estes fatos contribuem para sua ocorrência em uma ampla variedade de habitats e regiões zoogeográficas, tendo sido encontrado em três das cinco categorias de paisagens amostradas.
Elanus leucurus em seu comportamento de forrageio realiza uma combinação de vôo ou de patrulha combinado com paradas no ar para pairar por alguns segundos e então descer e atacar sua presa (MARQUEZ et al., 2005), exibindo portanto, mais de um tipo de forrageio e forrageio diferenciado no ar, este comportamento pôde ser observado com um indivíduo pairando por cima de uma plantação de cana de açúcar.
Herpetotheres cachinnans é considerado um especialista em se alimentar de serpentes (DUVAL et al., 2006), tendo sido visualizado um indivíduo saindo de uma paisagem de plantação de cana-de-açúcar com uma serpente no bico e voando em direção à borda do fragmento florestal, onde foi possível detectar a presença de um ninho.
Heterospizias meridionalis é considerado um dos principais predadores de coelhos e outros pequenos mamíferos neotropicais (EMMONS, 1982 apud DURANT e GUEVARA, 2000).
O gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) possui uma ampla variedade de itens alimentares em sua dieta, sendo alguns destes itens insetos, artrópodes, aves, invertebrados (HILTY e BROWN, 1986), e répteis (FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001). O falcão-de-coleira (Falco femoralis) apresenta uma dieta restrita, consistindo em aves, répteis, mamíferos e insetos (FERGUSSON-LEES e CHRISTIE, 2001), possui ampla distribuição geográfica, não ocorrendo em áreas altamente florestadas (SICK, 1997), tendo sido observado pousado em uma área aberta de plantação e lavoura.
O falcão quiri-quiri (Falco sparverius) possui uma dieta generalista e se alimenta principalmente de invertebrados, consumindo também insetos e artrópodes (TEIXEIRA e TEIXEIRA, 2008), répteis, mamíferos, aves (SICK, 1997). Esta espécie foi bastante observada em tocos de coqueiros que utilizava como um poleiro para caçar e também para construção de ninhos.
Milvago chimachima possui uma dieta bastante restrita, se alimentando principalmente de carrapatos (SICK, 1997) podendo consumir também peixes (SAZIMA e OLMOS, 2009). A representatividade de campos e pastagens foi baixa, esse fato pode sugerir uma explicação para a baixa detecção desta espécie.
Os dados de dieta de cada uma das espécies fazem parte dos dados auto ecológicos, eles foram obtidos através de uma revisão bibliográfica realizada com o objetivo de ser um complemento para conhecer melhor a biologia das espécies e auxiliar na discussão dos resultados obtidos ao longo do trabalho. Estes dados estão reunidos na Tabela 3.
Tabela 3: Dieta conhecida das espécies de Falconiformes encontradas ao longo de paisagens abertas circundantes de fragmentos de Mata Atlântica da planície litorânea do Estado da Paraíba, Brasil, Dieta, Itens Alimentares. Fonte: Stotz et al., 1996.
Nome Dieta Itens Alimentares¹
Accipitridae
Buteo albicaudatus (Vieillot, 1816) artrópodes insetos, mamíferos, répteis, aves, carcaça,
anfíbios.
6
Buteo albonotatus (Kaup, 1847) anfíbios, répteis, aves, mamíferos, invertebrados não
artrópodes.
5
Buteo brachyurus (Vieillot, 1816) aves, mamíferos, répteis, artrópodes insetos, carcaça. 5
Buteo nitidus (Latham, 1790) - -
Buteogallus urubitinga (Gmelin, 1788) artrópodes insetos, peixes, répteis, anfíbios, aves,
mamíferos.
6
Elanus leucurus (Vieillot, 1818) mamíferos, répteis, aves, artrópodes não insetos,
artrópodes insetos.
5
Heterospizias meridionalis (Latham, 1790) mamíferos. 1
Leptodon cayanensi (Latham, 1790) mamíferos, artrópodes insetos, artrópodes não insetos,
aves, anfíbios, invertebrados não artrópodes, répteis.
7
Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788) artrópodes não insetos, mamíferos, artrópodes insetos,
répteis, aves.
5 Falconidae
Caracara plancus (Miller, 1777) carcaça, artrópodes não insetos, mamíferos, répteis,
artrópodes insetos, artrópodes não insetos, peixes, outros.
8
Falco femoralis (Temminck, 1822) aves, artrópodes insetos, mamíferos, répteis. 4
Falco sparverius (Linnaeus, 1758) artrópodes insetos, aves, répteis, mamíferos, artrópodes
não insetos, invertebrados não artrópodes.
6
Herpethotheres cachinnans (Linnaeus, 1758) répteis. 1
A correlação entre os dados autoecológicos e os dados de ocorrência realizada através do Teste de Mantel para associação de matrizes demonstrou uma relação positiva entre os dados autoecológicos e os habitats, apesar de ter sido evidenciada uma fraca correlação (r = 0,302) entre eles. O índice de significância foi de (p = 0,003).
Os resultados do Teste de Mantel demonstram que existe uma baixa correlação positiva entre as matrizes de dados autoecológicos e de habitat, esse fato pode ocorrer devido ao caráter generalista da maioria das espécies detectadas, tanto em termos de dieta, quanto em termos de distribuição, pois muitas das espécies possuem ampla distribuição e relativa tolerância à distúrbios em seu habitat.
Algumas poucas espécies possuem uma raridade intrínseca e baixa densidade populacional, possuindo uma sensibilidade mediana, o que dificulta a sua detecção. Além disso, algumas das variáveis analisadas neste trabalho não possuíram uma grande representatividade, como no caso da dieta, devido à falta de informações completas existentes sobre algumas espécies. Portanto, esses fatos podem ter interferido nas correlações investigadas, não permitindo a visualização de um panorama mais completo entre as relações de dados autoecológicos e dados de ocorrência das espécies.
Devido ao fato de a curva cumulativa de espécies ter demonstrado que são necessárias mais visitas às áreas para que se possa obter uma amostragem mais completa da comunidade de Falconiformes, esse pode ser mais um motivo para a baixa correlação, que poderia se intensificar caso novos dados fossem adicionados.
Para fins de se alcançar maior precisão entre a correlação dos dados autoecológicos das espécies e os habitats estudados, seria necessária a utilização de métricas em ecologia da paisagem, com um refinamento das variáveis de habitat através da utilização de mapas de satélite de cada uma das paisagens amostradas, com medição detalhada de cada um dos recursos presentes e um mapeamento dos pontos de ocorrência de cada espécie.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados obtidos através das observações e análises deste trabalho são muito importantes para o registro da comunidade de Falconiformes na Paraíba. Até o presente momento o Estado carecia de estudos realizados especificamente com os Falconiformes, sendo observados apenas alguns registros pontuais em trabalhos que possuíam outros temas. Os resultados desta pesquisa podem ser utilizados como norteadores para o planejamento do manejo das espécies e seus respectivos habitats.
As análises realizadas demonstram que ainda são necessárias mais investigações para que se possa ter um panorama completo de todas as espécies de Falconiformes presentes na região, tendo sido evidenciado que ainda existem algumas espécies que não foram encontradas devido ao grau de dificuldade de detecção devido aos seus hábitos conspícuos, assim como dificuldade de acesso à algumas áreas com potencial para abrigarem aves de rapina diurnas. Portanto estas espécies podem estar presentes e serem detectadas em novas expedições.
Além disso, a baixa detecção das espécies está associada ao longo processo de degradação que a Mata Atlântica enfrenta no Estado. Os fragmentos remanescentes encontram-se sobre processos de modificação antrópica através de caça e retirada de madeira.
Torna-se necessário, portanto, uma análise mais aprofundada do grau de conservação dos fragmentos de Mata Atlântica na Paraíba. Para isto é necessário que sejam adicionadas novas áreas de estudo a fim de aumentar os tipos de ambientes amostrados, sobretudo áreas que possuam um curso d’água vinculado, pois as espécies associadas à corpos de água não foram encontradas devido à ausência desse tipo de habitat em nosso trabalho, tendo essa ausência ocorrido por motivos de dificuldade de acesso à essas áreas. Sendo assim, algumas espécies estiveram ausentes em nossas amostras provavelmente como uma função da representatividade do seu ambiente de ocorrência. Devido a isso, novos locais deverão ser amostrados futuramente a fim de garantir uma análise mais precisa da ocorrência ou não destas espécies na região.
Foi observado que a maior parte das paisagens do entorno da planície litorânea na Paraíba são constituídas por plantações e lavouras, sendo, portanto
áreas com intensa modificação de suas condições naturais. As espécies encontradas em sua maioria estiveram associadas à áreas agrícolas.
Particularmente duas espécies demonstraram maior plasticidade ecológica, sendo elas o gavião-carijó (Rupornis magnirostris) e o carcará (Caracara plancus). Ambas foram beneficiadas pelo acentuado grau de antropização das áreas investigadas.
A maioria das espécies observadas possui um caráter generalista e apresentam tolerância à modificações antrópicas se beneficiando delas por possuírem uma ampla dieta e ampla distribuição. A correlação realizada entre os dados autoecológicos e os dados de ocorrência contribuiu para a observação desse fato.
Porém, apesar do caráter generalista da maioria das espécies e de nenhuma delas estarem presentes na lista vermelha (IUCN, 2010), esta situação pode ser revertida e elas tornarem-se ameaçadas se o grau de degradação dos fragmentos de Mata Atlântica continuar avançando e não foram adotadas medidas de conservação e manejo.
Embora em algumas áreas tenham sido registrados cuidados no que se refere ao manejo destas áreas, mesmo em áreas protegidas como a Reserva Biológica Rebio Guaribas e as áreas visitadas do Consórcio Miriri, ainda assim espécies com sensibilidade alta e média, principalmente aquelas dependentes de floresta, tiveram baixa ocorrência nestas áreas. Este fato demonstra que as paisagens abertas tem caráter limitado no que se refere ao uso de habitat abertos, englobando principalmente espécies mais generalistas, no entanto, se as matas associadas às paisagens forem bem conservadas e possuírem os recursos necessários, as espécies mais sensíveis, incluindo espécies consideradas como florestais, poderão utilizá-las e serão capazes de se beneficiar das paisagens ao redor se utilizando delas principalmente para caça.
O estudo das paisagens ao redor de fragmentos florestais é muito importante para se analisar o grau de degradação da floresta e o nível de importância que aquela determinada paisagem possui para as espécies florestais e não florestais que dela se utilizam. É necessário o estudo do entorno dos fragmentos florestais para que seja possível a compreensão dos hábitos de vida de cada espécie, pois para muitas espécies a sua área de vida total se compõe de um conjunto entre fragmento e paisagem de seu entorno, ambos oferecem fontes de recursos distintas, esse
conjunto influencia de maneiras diferentes e não menos importantes nos hábitos de vida de uma espécie.
Portanto, uma atenção especial deve ser dada à proteção e conservação dos fragmentos que se encontram presentes junto a essas áreas de paisagem, pois mesmo que no presente momento algumas das espécies mais sensíveis não sejam encontradas devido ao estado de degradação dos fragmentos, futuramente se estes fragmentos encontrarem-se em melhores estados de conservação poderão oferecer condições adequadas ao manejo de espécies de Falconiformes mais sensíveis. Por fim, ressalta-se a necessidade de diferentes estudos no que se refere aos fatores mais importantes que ameaçam a biodiversidade local e regional.
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