Tribunal de Justiça de Minas Gerais
1.0480.13.018712-7/001
Número do Númeração 0187127-
Des.(a) Alexandre Victor de Carvalho Relator:
Des.(a) Alexandre Victor de Carvalho Relator do Acordão:
02/06/2015 Data do Julgamento:
11/06/2015 Data da Publicação:
EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL - ROUBO - RECURSO MINISTERIAL:
SIMULAÇÃO DE ARMA DE FOGO - MEIO CAPAZ DE ATEMORIZAR O OFENDIDO - NÃO-CARACTERIZAÇÃO DA CAUSA DE AUMENTO DE PENA DO INCISO I DO § 2º DO ARTIGO 157 - MAJORANTE DO CONCURSO DE PESSOAS - RECONHECIMENTO - NECESSIDADE - R E C U R S O D A D E F E S A : A B S O L V I Ç Ã O - I M P O S S I B I L I D A D E - DESCLASSIFICAÇÃO PARA O DELITO DE FURTO - VIOLÊNCIA E GRAVE AMEAÇA COMPROVADAS - TENTATIVA - RECONHECIMENTO - DESCABIMENTO.
APELAÇÃO CRIMINAL Nº 1.0480.13.018712-7/001 - COMARCA DE PATOS DE MINAS 1º APELANTE: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS - 2º APELANTE: J. P. C. C. - APELADO: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS, J. P. C. C. - VÍTIMA: L.C.O.S.
A C Ó R D Ã O
Vistos etc., acorda, em Turma, a 5ª CÂMARA CRIMINAL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso do Ministério Público, para reconhecer a majorante prevista no art. 157, §2º, II, do CP, restando a pena fixada, ao final, em cinco anos e quatro meses de reclusão e treze dias- multa, mantidos os demais termos da sentença.
DES. ALEXANDRE VICTOR DE CARVALHO RELATOR.
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DES. ALEXANDRE VICTOR DE CARVALHO (RELATOR)
V O T O
I - RELATÓRIO
Cuida-se de apelação criminal interposta pelo Ministério Público de Minas Gerais (1º apelante) e J. P. C. C. (2º apelante), contra sentença oriunda da Vara Criminal e de Acidentes do Trabalho da Comarca de Patos de Minas, que condenou o réu como incurso nas iras do art. 157, caput, do CP, às penas de quatro anos de reclusão, regime inicial semiaberto, e dez dias- multa (f. 153/168).
Pleiteia o Parquet, 1º apelante, o reconhecimento das majorantes previstas no art. 157, §2º, I e II, do CP (f. 190/201).
Já a Defesa, 2ª apelante, busca a absolvição do réu ou, subsidiariamente, a desclassificação para o delito de furto ou ainda, reconhecimento da tentativa - art. 14, II, do CP (f. 211/213).
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Contrarrazões da Defesa às f. 204/206 e ministeriais às f. 216/228v.
Instada a se manifestar no feito, a douta PGJ opinou pelo parcial provimento do recurso ministerial e improvimento do recurso defensivo (f.
235/241v.).
É o relatório.
II - CONHECIMENTO
Por preencherem os requisitos legais de admissibilidade, conheço dos recursos.
III - MÉRITO
Tendo em vista que ambos os recursos demandam um reexame de todo o conjunto probatório, analiso os pleitos em conjunto.
Como visto, busca a Defesa absolvição do réu ou,
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subsidiariamente, a desclassificação para o delito de furto ou ainda, reconhecimento da tentativa - art. 14, II, do CP (f. 211/213). Já o Parquet, requer, o reconhecimento das majorantes previstas no art. 157, §2º, I e II, do CP (f. 190/201). Vejamos.
Consta dos autos que, no dia, horário e local descritos na denúncia, o réu, que estava na companhia de um menor, abordou a vítima, empurrou-lhe com violência contra uma parede e, com a mão sob a camisa, simulando estar armado, ordenou que a mesma "ficasse quieta e entregasse o aparelho celular" - f. 02D.
Infere-se ainda que, acionada, a Polícia Militar, após diligências, encontrou o apelante, na posse da res furtiva, ocasião em que teria confessado a prática do delito.
Em juízo, a vítima ratificou seu depoimento prestado na DEPOL, onde reconheceu o réu (f. 04/04v.) e afirmou:
"(...); que não chegou a ver arma de fogo com o acusado; que este apenas colocou a mão por debaixo da camisa, como se estivesse armado, empurrou o declarante e apossou-se de seu celular que se encontrava em seu bolso;
que, conforme declarado na polícia, o menor permaneceu durante todo o tempo em sua bicicleta, não dirigindo qualquer palavra ou ação ao depoente;
que o menor estava junto com o acusado, porém não se sentiu intimidado com a sua presença; que apenas o acusado agrediu e causou temor ao depoente; (...); que após a subtração, o menor e o acusado saíram juntos, na mesma direção" - vítima, f. 116.
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Dois policiais militares, ouvidos às f. 117 e 118, confirmaram que chegaram até o acusado através das características fornecidas pela vítima, tendo esta reconhecido o autor na DEPOL. Ambos ratificaram suas declarações prestadas na fase inquisitiva, onde alegaram ter encontrado o autor na posse na res, conforme consta de auto de apreensão de f. 15.
A testemunha de defesa ouvida às f. 119 nada acrescentou sobre os fatos, tratando-se de testemunha conhecida como "de beatificação".
Interrogado, o réu admitiu que subtraiu o aparelho celular da vítima, mas nega tê-la empurrado ou ainda, simulado emprego de arma de fogo para ameaçá-la. Disse que o menor não participou do delito, tendo em vista que aquele apenas o acompanhava naquele momento (f. 120/121).
Inicialmente, a absolvição, conforme pretendida pela Defesa, não merece prosperar em face do reconhecimento da vítima, da confissão do réu e ainda, da apreensão da res em seu poder.
Da mesma maneira, a desclassificação para o delito de furto não é cabível.
Certo é que, se por um lado, temos a palavra firme da vítima que
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manteve sua coerente versão, em ambas as oportunidades em que foi ouvida, por outro temos a retratação isolada do réu em juízo, sob o vago argumento de ter sido pressionado pelos policiais na DEPOL.
Desta feita, tanto a violência empregada contra a vítima, que foi empurrada, quanto a intimidação realizada através de simulação de arma de fogo, caracterizam as elementares do delito de roubo, classificação que deve ser mantida.
Também não merece prosperar o pleito de reconhecimento da tentativa - art. 14, II, do CP, já que o critério para tal definição não é a posse mansa e pacífica. Ao contrário, como estampado na uníssona orientação dos Tribunais Superiores, a consumação está caracterizada quando o agente obtém a posse da res furtiva, ainda que não seja mansa e pacífica e/ou haja perseguição, sendo prescindível que o objeto do crime saia da esfera de vigilância da vítima. Cito:
"HABEAS CORPUS. PENAL. ROUBO SIMPLES. CONSUMAÇÃO.
OCORRÊNCIA. DESNECESSÁRIA A POSSE MANSA E PACÍFICA.
IMPOSIÇÃO DE REGIME PRISIONAL FECHADO. PENA SUPERIOR A 04 ANOS E INFERIOR A 08. RÉU REINCIDENTE. PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO.
ORDEM DE HABEAS CORPUS DENEGADA. 1. Considera-se consumado o crime de roubo no momento em que o agente obtém a posse da res furtiva, ainda que não seja mansa e pacífica e/ou haja perseguição policial, sendo prescindível que o objeto do crime saia da esfera de vigilância da vítima.
Precedentes do STJ e do STF. 2. Fixada a pena-base acima do mínimo legal, porquanto reconhecida a presença de circunstância judicial desfavorável ao réu, portador de maus antecedentes e reincidente, é cabível infligir regime prisional mais gravoso. Precedentes do STJ. 3. Ordem de habeas corpus denegada.
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(HC 239.921/MG, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 21/06/2012, DJe 29/06/2012)"
A inversão da posse do bem subtraído foi claramente demonstrada pelas provas acima citadas, de modo que não há que se falar em roubo tentado, restando perfeitamente caracterizada a consumação.
Não há que se falar, todavia, em configuração da causa de aumento de pena prevista no inciso I do § 2º do art. 157, conforme pretendido pelo IRMP.
É que, a despeito das respeitáveis opiniões em sentido oposto, expendo entendimento no sentido de que a referida causa de acréscimo da sanção relativa ao delito de roubo só tem cabimento quando houver efetivo emprego de arma, ou seja, quando o ofensor utilizar-se de instrumento capaz de produzir ofensa à integridade física ou corpórea, à saúde ou à vida.
Enquanto para a caracterização da figura típica do roubo é mister seja o meio empregado examinado subjetivamente, para a configuração da causa de aumento de pena recitada apenas se admite análise objetiva, concernente à potencialidade lesiva do instrumento usado para o cometimento da conduta delituosa.
A subjetivação da apreciação da causa de aumento do inciso I do § 2º do artigo 157 do Estatuto Repressivo é, ao meu sentir, intolerável,
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pois haveria, penso, inarredável bis in idem, porquanto a constatação de que a vítima ficou terrificada serviria, ao mesmo tempo, para gerar o tipo fundamental e o acréscimo especial de pena.
Por outro lado, a majorante do concurso de pessoas merece prosperar.
A presença do menor foi confirmada pela vítima e também pelo réu, como visto acima. O concurso de pessoas é cristalino. A singela leitura da prova oral descreve claramente a adesão à vontade criminosa, a existência de liame subjetivo entre ambos.
Com essas considerações, NEGO PROVIMENTO ao recurso da Defesa (2ª apelante) e DOU PARCIAL PROVIMENTO ao recurso do Ministério Público, para reconhecer a majorante prevista no art. 157, §2º, II, do CP.
Passo a reaplicar a pena, nesta Instância recursal:
A culpabilidade do réu, entendida aqui como o grau de reprovação e censurabilidade de sua conduta, ao contrário do sugerido pelo juiz de primeiro grau, com base nas provas dos autos, deve ser compreendida como normal.
Os antecedentes não são desfavoráveis.
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A personalidade, por ser o conjunto dos atributos psicológicos que determinam o caráter e a postura social da pessoa, deve ser considerada favorável ao apelante, pois, para sua real aferição necessário se mostraria um estudo técnico-científico mais apurado que, nas palavras de Paganella Boschi, compreenderia "o mergulho na história pessoal e familiar do acusado
". Tal estudo, entretanto, não ocorreu no presente caso.
Igualmente, não há nos autos elementos probatórios comprometedores da conduta social da ré.
No tocante aos motivos do crime, é sabido que não pode ser considerada a motivação própria do delito (no caso em comento o intuito de lucro fácil ou o apoderamento indevido de bens alheios).
As circunstâncias, reconhecidas em primeiro grau, lhe são desfavoráveis.
As conseqüências foram diminutas, pois a res foi recuperada.
A vítima também não se comportou de modo a facilitar o crime, não havendo que se falar em vítima colaboradora neste caso.
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Sendo assim, com base na análise supra, na primeira fase, diante da nova análise das circunstâncias judiciais subjetivas do art. 59 do CP, fixo a pena-base no mínimo, ou seja, quatro anos de reclusão e dez dias-multa.
Na segunda fase, reconhecida a atenuante da confissão espontânea (art.
65, III, "d",CP), mantenho a pena-base fixada, atendendo, assim, o disposto na Súmula 231, do STJ.
Na terceira fase, presente a majorante do concurso de pessoas, exaspero a reprimenda em 1/3 (um terço), tornando-a definitiva em cinco anos e quatro meses de reclusão e treze dias-multa.
Mantenho os demais termos da sentença.
IV - CONCLUSÃO
Com essas considerações, NEGO PROVIMENTO ao recurso da Defesa (2ª apelante) e DOU PARCIAL PROVIMENTO ao recurso do Ministério Público, para reconhecer a majorante prevista no art. 157, §2º, II, do CP, restando a pena fixada, ao final, em cinco anos e quatro meses de reclusão e treze dias-multa, mantidos os demais termos da sentença.
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É como voto.
Custas ex lege.
DES. PEDRO COELHO VERGARA (REVISOR) - De acordo com o Relator.
DES. ADILSON LAMOUNIER - De acordo com o Relator.
SÚMULA: "DERAM PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO (1º APELANTE); NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO DA DEFESA (2ª APELANTE)."