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Recurso Ordinário - Rito Sumaríssimo

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Academic year: 2022

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Poder Judiciário Justiça do Trabalho

Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região

Recurso Ordinário - Rito Sumaríssimo 0000195-33.2020.5.23.0126

Processo Judicial Eletrônico

Data da Autuação: 21/07/2021 Valor da causa: R$ 21.064,52

Partes:

RECORRENTE: SANDRA DE SOUZA BRITO ADVOGADO: MARCOS ANDRE SCHWINGEL ADVOGADO: NELTON SCHWINGEL

ADVOGADO: LEONARDO SCHWINGEL RECORRENTE: JBS S/A

ADVOGADO: CARLA TRAVAINA BRAZ

ADVOGADO: ADRIANA PAULA TANSSINI RODRIGUES SILVA ADVOGADO: VIVIANE LIMA

ADVOGADO: SILVANA NAOMI SAKAI RECORRIDO: SANDRA DE SOUZA BRITO ADVOGADO: MARCOS ANDRE SCHWINGEL ADVOGADO: NELTON SCHWINGEL

ADVOGADO: LEONARDO SCHWINGEL RECORRIDO: JBS S/A

ADVOGADO: CARLA TRAVAINA BRAZ

ADVOGADO: ADRIANA PAULA TANSSINI RODRIGUES SILVA ADVOGADO: VIVIANE LIMA

ADVOGADO: SILVANA NAOMI SAKAI

PAGINA_CAPA_PROCESSO_PJE

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PODER JUDICIÁRIO JUSTIÇA DO TRABALHO

TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO 1ª Turma

Identificação

0000195-33.2020.5.23.0126

RECORRENTES: SANDRA DE SOUZA BRITO, JBS S/A RECORRIDAS: SANDRA DE SOUZA BRITO, JBS S/A ÓRGÃO JULGADOR: 1ª Turma

RELATOR: TARCÍSIO VALENTE

Certidão de Julgamento - Rito Sumaríssimo

CERTIFICO que, na 26ª Sessão Ordinária realizada nesta data, de forma telepresencial, sob a presidência do Excelentíssimo Senhor Desembargador TARCÍSIO RÉGIS

com a presença do Excelentíssimo Senhor Desembargador

VALENTE (RELATOR), PAULO

do Excelentíssimo Senhor Juiz Convocado

ROBERTO RAMOS BARRIONUEVO, WANDERLEY

e da Excelentíssima Senhora Procuradora do Trabalho

PIANO DA SILVA THAYLISE CAMPOS

, a Egrégia 1ª Turma de Julgamento do Tribunal Regional do COLETA DE SOUZA ZAFFANI

Trabalho da 23ª Região, DECIDIU, por unanimidade, conhecer do recurso da Ré, assim como das contrarrazões correlatas, enquanto, no mérito, negar provimento ao apelo obreiro e dar parcial provimento ao apelo patronal, quanto ao adicional de insalubridade, com fim de reduzir o percentual de 40% (grau máximo) para 20% (grau médio), limitando a condenação do respectivo adicional a outubro de 2019, em conformidade com o voto do Desembargador Relator, a seguir transcrito:

"ADMISSIBILIDADE

Por se tratar de inovação recursal, não conheço do recurso ordinário patronal, no que tange ao requerimento para que "[...] sejam desconsiderados os minutos do relógio de ponto, pois o sistema utiliza valores numéricos de base decimal ou centesimal para calcular, ou seja, as horas, da forma como são lidas no relógio, não servirão de base para cálculos de adição, subtração, multiplicação ou de divisão" (ID. b0d8bf0 - Pág. 8/9)

MÉRITO

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

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Nos presentes autos, a Autora limitou a pretensão condenatória ao período contratual de 05/02/2019 a 01/04/2020, considerando o prévio ajuizamento da ação trabalhista sob nº 0000045-86.2019.5.23.0126. Portanto, aplicam-se ao caso concreto as inovações da reforma trabalhista implementada pela Lei nº 13.467/2017.

ADICIONAL DE INSALUBRIDADE (Recurso da Ré)

A Ré pugna pela imprestabilidade do laudo pericial técnico, com intuito de se eximir da condenação pelo pagamento do adicional de insalubridade, em grau máximo (40%), e reflexos. Outrossim, alega que a insalubridade restaria neutralizada pelo regular fornecimento e/ou substituição dos EPIs aptos e suficientes.

Analiso.

Inicialmente, cumpre destacar que o texto da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em seu art. 189, dispõe que serão consideradas atividades ou operações insalubres aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância.

Ademais, estatui, em seu art. 191, que a eliminação ou a neutralização da insalubridade ocorrerá com a adoção de medidas que conservem o ambiente de trabalho dentro dos limites de tolerância e/ou com a utilização de equipamentos de proteção individual ao trabalhador que diminuam a intensidade do agente agressivo a condições de segurança.

Durante o contrato, a Autora laborou no setor de abate (área quente), tendo o Juízo a quo condenado a Ré ao pagamento de adicional de insalubridade, no percentual de 40%, pela exposição a agentes biológicos em grau máximo (40%), além da exposição a agentes físicos (calor, umidade e ruído) em grau médio (20%), considerando a insuficiência/ineficácia dos EPIs.

O Anexo 14 da NR-15 do MTE fixa a relação das atividades com agentes biológicos, nos seguintes termos: "Insalubridade de grau máximo - Trabalho ou operações, em contato permanente com: [...] - carnes, glândulas, vísceras, sangue, ossos, couros, pêlos e dejeções de animais portadores de doenças infecto-contagiosas (carbunculose, brucelose, tuberculose)".

Em outras palavras, isso significa que haverá insalubridade, em grau máximo (40%), quando o trabalhador se ativar em contato permanente com partes ou secreções de animais portadores de doenças infectocontagiosas. Tal constatação é feita mediante avaliação qualitativa, o que exige o exame do laudo pericial realizado no bojo dos presentes autos (ID. 71a50ab).

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In casu, o perito judicial constatou a insalubridade do ambiente de trabalho, em grau máximo, considerando o alto índice de casos de brucelose nos animais abatidos, sem comprovação do fornecimento de EPIs com características de impermeabilidade, além do contato direto do obreiro com sangue e vísceras de animais portadores de doenças infectocontagiosas.

No laudo pericial, o expert ponderou que a insalubridade ocorreria pela exposição, não pela contaminação. Outrossim, argumentou que, se há contaminação, seria porque os empregados estariam expostos, de maneira habitual, ao agente biológico. Acrescentou, ainda, a possibilidade de contaminação, pela eventual entrada de animais doentes, no processo de produção.

De acordo com o auxiliar do juízo, nos autos do processo de n. 2267-37, haveria vasta relação de animais infectados por doenças, nas instalações da Ré, para além da detecção de animais com a chamada "Bursite" (lesão sugestiva de brucelose), observando a existência de 30 (trinta) casos em alguns meses. Outrossim, o perito registrou a insuficiência de entrega e uso de EPIs.

Com efeito, a prova técnica aponta no sentido de ter havido contato de trabalhadores com animais infectados, em razão de possível insuficiência no controle da saúde daqueles que são abatidos no local, conforme "relação de ocorrências de contaminações dos animais abatidos pela Reclamada a partir de 01/01/2015 até 17/02/2017 (disponível no Anexo V do presente Laudo Pericial)".

No entanto, data maxima venia, penso que tal fato não faz presumir, como concluiu o perito judicial, que os animais manipulados sejam, de regra, considerados contaminados. Ao contrário, presume-se que, em frigoríficos, os animais abatidos sejam saudáveis, pelo que o contato com o agente biológico, caso ocorra, é eventual. Aliás, a pretensão obreira refere-se a período posterior (05/02 /2019 a 01/04/2020).

Assim, em sentido contrário à opinião do perito judicial, entendo inviável o enquadramento do local de trabalho nas hipóteses do Anexo 14 da NR 15, que exige contato permanente com o agente biológico insalubre detectado, razão pela qual torna-se indevido o pagamento da parcela com fulcro na exposição da parte autora a agentes biológicos.

Sobre o tema, cito os seguintes julgados deste Tribunal: RO 0000607- 83.2015.5.23.0046, 2ª T., Rel. Des. Osmair Couto, Publicado em 15/02/2017; RO 0000987- 09.2015.5.23.0046, 1ª T., Rel. Des. Tarcísio Régis Valente, Publicado em 13/10/2016; RO 0000464- 82.2014.5.23.0126, 1ª T., Rel. Juiz Conv. Juliano Girardello, Publicado em 12/07/2016.

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Nesse sentido, penso que não há comprovação de exposição permanente a agentes insalubres biológicos, conforme previsto no anexo 14 da NR 15 do MTE, sendo despicienda a análise de suficiência ou não de fornecimento de EPIs para neutralizar os agentes biológicos. Indevido, desse modo, o pagamento de adicional de insalubridade em grau máximo.

Por outra vertente, o perito constatou o labor em local encharcado e com umidade, sem o fornecimento de todos os EPIs necessários para sua neutralização, pois o "kit" fornecido pela Ré não seria capaz de proteger as pernas da Autora, porque se limita a "[...] luvas para proteção contra agentes químicos e proteção das mãos, antebraço e tronco do usuário [...]".

Ademais, o expert identificou exposição ao agente físico calor, mensurando a temperatura em 28,4ºC IBUTG, ou seja, acima do limite de 26,7ºC IBUTG previsto para o trabalho contínuo, até 11/12/2019, quando passou a vigorar a nova redação do anexo 03 da NR 15, que estabelece limite de tolerância entre 28,5ºC e 28,6ºC IBUTG (Portaria SEPRT 1.359/19).

Ainda de acordo com o laudo técnico, o perito mensurou ruído em 91 dB no setor de abate (acima do limite de 85 dB para uma jornada de 8 horas), sem a completa neutralização pelos EPIs, os quais teriam vida útil de "cerca de 02 (dois) meses para um Protetor Auricular tipo Plugue e de cerca de 06 (seis) meses para um Protetor Auricular tipo Concha".

Conforme ficha de entrega de EPIs (ID. 9c80c7c), há registro de protetores auriculares do tipo plugue em 23/01/2019 e 20/02/2019 (CA nº 11512). Considerando a vida útil dos protetores, restaria efetivamente neutralizado apenas em parte do período sub judice, persistindo a insalubridade a partir de 20/04/2019 até a extinção do contrato de trabalho.

No particular, entendo que não prospera a impugnação da Empresa quanto ao tempo de vida útil (dos protetores auriculares) registrada na prova técnica, visto que não fornece subsídios técnicos capazes de afastar os dados trazidos pelo expert, não se confundindo a validade do CA do equipamento com o tempo de vida útil após o início da utilização.

O art. 167 da CLT dispõe que os EPIs só podem ser postos à venda ou utilizados "com a indicação do Certificado de Aprovação do Ministério do Trabalho". Já o item 6.6.1 da NR-6, da Portaria 3.214/78 do MTE prevê que cabe ao empregador fornecer "somente o aprovado pelo órgão nacional competente em matéria de segurança e saúde no trabalho", bem como "registrar o seu fornecimento".

A par do registro da entrega e correta anotação do CA, penso que critérios como atenção às condições de uso, manutenção e substituição também são condições necessárias para a

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comprovação da eficácia dos EPIs fornecidos aos empregados com fim de neutralizar a insalubridade.

Todavia, a Ré não se desincumbiu do encargo que lhe competia no tocante a todos esses aspectos.

Embora o juiz não esteja adstrito às conclusões do laudo pericial, podendo formar seu convencimento livremente, no caso concreto, reputo fundamentada e válida a prova pericial acima transcrita, no particular, não havendo nos autos outra prova capaz de infirmar as conclusões do laudo técnico quantos aos agentes insalutíferos calor, umidade e ruído, devendo prevalecer seu conteúdo.

Face a todo o exposto, porquanto evidenciada a exposição aos agentes físicos calor, umidade e ruído, sem a devida neutralização por EPIs aptos e suficientes, durante o período sub judice (a exceção daqueles indicados alhures, no que diz respeito ao calor e ruído), concluo que a Empregada faz jus ao pagamento de adicional de insalubridade, em grau médio (20%), de 05/02/2019 até 01/04/2020.

Todavia, considerando que o adicional de 20% passou a ser pago em novembro de 2019 (ID. 43f490c - Pág. 4), torna-se devido o pagamento dessa verba de forma limitada no tempo. Destarte, mantenho a condenação ao pagamento de adicional de insalubridade, mas dou para reduzir o percentual de 40% (grau máximo) para 20% (grau médio), provimento parcial ao apelo

limitada a outubro de 2019.

Em que pese o provimento parcial do apelo patronal, mantenho o valor dos honorários advocatícios outrora fixados equitativamente na sentença, tendo em vista que a parte demandante não sucumbiu integralmente do pedido de diferenças do adicional de insalubridade.

HONORÁRIOS PERICIAIS (Recurso da Ré)

A Demandada alega que "[...] foge a razoabilidade a fixação de honorários no valor de R$ 1.000,00, quiçá o valor postulado pelo Perito, pois sequer houve visita técnica, sendo o trabalhado replicado, em quase a sua totalidade, logo dispensou horas a justificar o valor fixado, sugerindo o montante de R$ 500,00" (ID. b0d8bf0).

Ao exame.

Os honorários periciais são fixados, em regra, de acordo com critérios específicos: o primeiro deles, o critério objetivo, refere-se ao próprio conhecimento técnico do expert e à complexidade da perícia realizada. Já o segundo critério, reconhecido tanto pela jurisprudência quanto pela doutrina, contempla a subjetividade do magistrado na avaliação do trabalho desempenhado pelo perito, de modo que haja total congruência entre os dois parâmetros.

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Para quantificar os honorários periciais, o Magistrado deverá pautar-se nos critérios da razoabilidade, observando elementos tais como: a natureza e a complexidade do trabalho, o zelo profissional, o local de prestação da perícia e o tempo exigido para o desenvolvimento do seu labor. In casu, verifico que a diligência foi desenvolvida dentro de um padrão de boa qualidade, tendo sido o perito eficiente e criterioso na elaboração do laudo pericial.

A propósito, esta Turma Revisora entende razoável a fixação de honorários periciais no importe de R$ 2.000,00 (dois mil reais) para perícias realizadas no interior do Estado de Mato Grosso, como na hipótese fática sob exame. Assim, considerando que a condenação recorrida está, na verdade, aquém do quantum pacificado por este Colegiado, mantenho a condenação dos honorários periciais outrora fixados em R$ 1.000,00 (mil reais).

Nego provimento.

COMPENSAÇÃO DA JORNADA (Recurso da Ré)

A Ré alega que a Autora não estava inserida em ambiente insalubre, em razão do fornecimento dos EPIs por todo o contrato laboral e que não subsistiria a restrição prevista no art. 60 da CLT, para a compensação horária. Subsidiariamente, requer a limitação da condenação ao adicional, com fulcro no art. 59-B da CLT.

Ao exame.

A r. sentença não merece reforma, quanto ao pagamento de horas extras e adicional, tendo em vista o labor em ambiente insalubre, com habitualidade de sobrejornada, conforme controles de ponto e holerites. Nos termos do art. 60 da CLT, obrigatória a existência de licença prévia da autoridade competente para a prorrogação de jornadas em ambiente insalubre, que não veio aos autos.

Vale reforçar, ainda, que as alterações promovidas pela Lei n. 13.467 /2017 não afastam a redação do art. 60 da CLT, mas apenas introduziram a possibilidade de que a norma coletiva se sobrepusesse à lei para dispensar a licença prévia exigida para o sobrelabor em ambiente insalubre (art. 611-A, XIII, da CLT). Contudo, sequer existe norma coletiva, nesse sentido, no presente processo.

Também não prospera a pretensão de limitação da condenação ao adicional, como quer a Recorrente. Isso porque o posicionamento adotado antes da vigência da Lei n.

13.467/2017 era o de que, em caso de ausência da licença prevista no art. 60 da CLT, deveria haver o pagamento tanto das horas extras quanto do adicional, pois tal situação não se configura como mero descumprimento de requisito legal.

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Trata-se de desrespeito às normas protetivas, descaracterizando qualquer sistema de compensação de jornadas, a teor do que já previa o item VI da Súm. 85 do TST, segundo o qual "Não é válido acordo de compensação de jornada em atividade insalubre, ainda que estipulado em norma coletiva, sem a necessária inspeção prévia e permissão da autoridade competente, na forma do art.

60 da CLT".

A propósito, considerando que o caput do art. 59-B da CLT apenas reproduziu os termos do item III da Súm. 85 do TST, não vislumbro razão para que, após a "reforma trabalhista", o entendimento acima seja alterado, mormente porque permanece em vigor, sem confronto com novo dispositivo legal, o teor do item VI da Súm. 85 do TST, sendo hipótese de silêncio eloquente do legislador reformista.

Anulado o regime de compensação, tornam-se devidas horas extras excedentes à 8ª ou 44ª semanal (critérios não cumulativos), restando adequada a sentença, no particular.

Correta, ainda, a determinação com vistas à incidência do adicional de 60% para o sobrelabor durante todo período, uma vez que os holerites demonstram a utilização de tal adicional para o habitual pagamento de horas extras.

Nego provimento.

MODALIDADE DE RUPTURA CONTRATUAL (Recurso da Autora)

A Autora refuta a prática de ato ofensivo à honra ou difamação da Ré.

Argumenta que a prova oral seria inservível, pois a testemunha ocuparia cargo de confiança da empresa.

Argumenta, ainda, que as mensagens partiram do perfil virtual do seu companheiro, não podendo ser responsabilizada por elas, e que as mensagens estariam fora do contexto, sem links, datas e horários, nem autenticação de cartório.

Ao exame.

Conforme Maurício Godinho Delgado, justa causa é "[...] motivo relevante, previsto legalmente, que autoriza a resolução do contrato de trabalho por culpa do sujeito contratual comitente da infração" (in Curso de Direito do Trabalho, 15ª ed., São Paulo: LTr, 2016, p.

1320). Aliás, para aplicação da penalidade, exige-se a observância de critérios objetivos, subjetivos e circunstanciais.

Os critérios objetivos referem-se à conduta humana que se busca penalizar, incluindo-se a tipicidade da conduta, a natureza da matéria envolvida e a avaliação da

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gravidade do ato. Já os critérios subjetivos referem-se ao envolvimento ou não do empregado na conduta tida como censurável, abrangendo a definição da autoria da infração e a verificação de dolo ou culpa do infrator.

Na seara dos critérios circunstanciais, são avaliados, especialmente, o nexo causal; a adequação e a proporcionalidade entre a falta e a pena aplicada; imediaticidade da punição (ausência de perdão tácito); singularidade da punição (non bis in idem); inalteração da punição; ausência de discriminação e caráter pedagógico do exercício do poder disciplinar, com a gradação de penalidades.

A despedida por justa causa, pelos prejuízos e constrangimentos corolários, deve ser comprovada de forma robusta e inconteste. O ponto fulcral consiste em aferir se os elementos da lide configuram falta grave, autorizadora de dispensa por justa causa, cabendo à empresa o ônus da prova da prática de algumas das hipóteses previstas nas alíneas do art. 482 da CLT.

Conforme é possível extrair da comunicação de dispensa, a Ré dispensou a Autora por incontinência de conduta ou mau procedimento, com fulcro no art. 482, alínea "b", da CLT, em decorrência dos seguintes fatos:

"A colaboradora vem fazendo vários comentários ofensivos e difamatórios contra a empresa em redes sociais, dizendo inverdades sobre os procedimentos de saúde e segurança da empresa, dizendo ainda que a empresa precisa fechar, pois possui alto risco de contaminação de colaboradores com o COVID 19, causando pânico na população da cidade e prejudicando a imagem da empresa perante a sociedade" (ID. 32f68f7 - Destaquei)

Penso, entretanto, que os fatos narrados enquadram-se melhor na alínea

"k" do art. 482 da CLT, por se tratar de ato lesivo à honra patronal, mediante mensagens difamatórias publicadas nas redes sociais, sobre os procedimentos de segurança que seriam ou não adotados para a prevenção contra a contaminação dos colaboradores pelo coronavírus (Covid-19).

O ato lesivo, previsto na alínea "k" do art. 482 da CLT, refere-se: "[...] à injúria, calúnia, difamação e às agressões físicas, estas praticadas contra o empregador ou superiores hierárquicos, seja no ambiente do trabalho, ou mesmo, fora dele." (Saraiva, Renato. Direito do Trabalho:

versão Universitária - 2. Ed. - Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2009).

De acordo com documento intitulado "apuração de falta grave", foi dada a oportunidade de defesa, mas a Autora "[...] não quis fazer declarações por escrito sobre o tema, e se mostrou agressiva disparando palavras de baixo calão, dizendo que a Friboi tinha que "ir para o inferno"

e as redes sociais eram dela e ela fazia o que bem queria" (ID. 9f805ef - Destaquei).

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Nas mensagens "printadas", ou seja, das quais se tirou "print screen", que significa impressão em português, verifico que o usuário denominado "José X Sandra" escreveu sobre a JBS, nos seguintes termos (ID. d71301c):

"Nada do que disseram e verdade eu trabalho laaaa"

"Pra passar na catraca de entrada não te dão nem alcool pra passar na mão já q vc tem que pegar nela encostar pra passar"

Existem algumas pessoas que estão aí dizendo q se parar vão passar fome ou perder o emprego fome eu não passo pq tenho coragem pra trabalhar em qualquer lugar do mundo não existe só JBS e perder o emprego eu perco com prazer se for pra salvar a vida da minha família"

"Tão falando aí q o dia q tiver abate não terá desossa e mentira. outra lá não só tem esses dois setores lá não são vários e outra o abate são inúmeras pessoas topando uma nas outras vão aumentar as plataformas pra ficar um distância de um metro e meio um do outro pq lá tem plataforma q mal cabe dois colocam três"

"A e as roupas são marcadas mais um dia vc veste a sua um mês vc veste de outra pessoa e bem assim" (Destaquei).

A Empregada, em impugnação, negou os fatos que lhe foram atribuídos, bem como as declaração do procedimento administrativo e a autoria das mensagens colacionadas, oportunidade em que requereu a intimação da Empregadora para que juntasse certificação de autenticidade cartorária (ID. 4f15b57).

A Ré, em audiência, declarou que "[...] as conversas postadas foram apagadas, o que impede a reclamada de fornecer os links de acesso, tendo em vista ter feito apenas os prints conforme anexos ao processo. Entretanto, a reclamada informa que as publicações das conversas que ensejaram a justa causa da autora, foram por ela postadas na página do Facebook da Prefeitura Municipal de Confresa/MT, bem como na página do Prefeito [...]" (ID. 24ea143).

A Demandante não apresentou testemunhas, de maneira que a instrução processual limita-se ao depoimento de uma única testemunha conduzida pela Demandada, sem registro de objeção ou contradita.

Oficiada a se manifestar, a filial responsável pelo Facebook respondeu que não podia contribuir para a solução da controvérsia, por vários motivos, especialmente porque só tinha a obrigação legal de guardar (em sua base de dados os registros dos acessos pelo período de 6 (seis) meses, conforme disposto no Marco Civil da Internet (ID. 8ecc73d).

Pois bem.

De plano, esclareço que é juridicamente possível obrigar os provedores de aplicação ao fornecimento dos dados cadastrais de usuários que acessaram perfil de rede social em um

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determinado período de tempo, conforme entendimento do STJ (3ª Turma. REsp 1.738.651, Rel. Min.

Nancy Andrighi, julgado em 25/08/2020 - Info 678).

Aliás, o art. 15 da Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet) prevê a guarda desses dados para facilitar a identificação de usuários da internet pelas autoridades competentes e mediante ordem judicial. Isso porque a responsabilização dos usuários é um dos princípios do uso da internet no Brasil, consoante art. 3º, VI, da referida lei.

Com efeito, o Marco Civil da Internet atribui ao provedor a obrigação de guardar as informações pelo prazo de 06 (seis) meses, contados da data de acesso do usuário. Após o transcurso desse prazo, cessa a obrigação do provedor de internet, o que aconteceu no caso concreto, considerando a data dos fatos e a data da ordem judicial.

Contudo, persiste a responsabilidade do usuário pelos atos praticados na rede mundial de computadores, porque o art. 3, VI, in fine, da Lei nº 12.965/2014 trata da responsabilização do agente (usuário) "nos termos da lei", o que remete à aplicação das regras de responsabilidade civil e trabalhista.

Veja:

"Art. 3º A disciplina do uso da internet no Brasil tem os seguintes princípios:

I - garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição Federal;

II - proteção da privacidade;

III - proteção dos dados pessoais, na forma da lei;

IV - preservação e garantia da neutralidade de rede;

V - preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas;

VI - responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei; VII - preservação da natureza participativa da rede;

VIII - liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet, desde que não conflitem com os demais princípios estabelecidos nesta Lei.

Parágrafo único. Os princípios expressos nesta Lei não excluem outros previstos no ordenamento jurídico pátrio relacionados à matéria ou nos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.

[...]

Da Guarda de Registros de Acesso a Aplicações de Internet na Provisão de Aplicações

Art. 15. O provedor de aplicações de internet constituído na forma de pessoa jurídica e que exerça essa atividade de forma organizada, profissionalmente e com fins econômicos

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deverá manter os respectivos registros de acesso a aplicações de internet, sob sigilo, em ambiente controlado e de segurança, pelo prazo de 6 (seis) meses, nos termos do regulamento." (Destaquei)

Considerando a rapidez com que as mensagens eletrônicas são disseminadas e dissipadas no âmbito das redes sociais atualmente, admito a prova consubstanciada na impressão do conteúdo da tela do computador e/ou smartphone, sendo inexigível a lavratura de ata notarial, sob pena de dificultar ou obstaculizar o direito à produção da prova. Além disso, entendo desnecessária a indicação do link para conexão ou redirecionamento, justificando-se a não apresentação pelo argumento de que teriam sido apagadas depois.

Também reputo desnecessária a indicação das datas e horários específicos das mensagens constantes das impressões apresentadas nesse processo, uma vez que o conteúdo delas remonta ao contexto da pandemia. Além disso, destaco que a parte demandante não requereu perícia técnica com intuito de demonstrar que as impressões teriam sido forjadas pela parte demandada. Sendo assim, entendo pela validade das impressões juntadas aos autos, no que diz respeito às mensagens objeto de prova.

Prossigo no exame da prova. Nas aludidas impressões, vejo o nome da Autora (Sandra) ao lado do nome do seu companheiro (José), bem como a foto do casal no perfil que emitiu as mensagens, o que indica que eles tinham uma "conta conjunta" na rede social. Com efeito, ao consentir com a criação de uma conta conjunta na rede social, a Empregada assumiu o risco de ser vinculada a eventuais publicações, que são atribuídas aos integrantes do casal indistintamente. Logo, ela não se exime da responsabilidade.

Ademais, a prova oral confirmou a tese defensiva, restando preclusa a insurgência contra a testemunha, pois a contradita deveria ter sido efetuada em audiência ou logo em seguida, na primeira oportunidade. Ainda que assim não fosse, a circunstância da testemunha ter participado da apuração dos fatos no procedimento administrativo, enquanto coordenador de recursos humanos, não tem o condão de macular o conjunto probatório constante do processo judicial, especialmente o conteúdo das mensagens impressas.

Penso que as publicações atribuídas à Autora, na rede social "Facebook", têm conotação depreciativa e desfavorável sobre os procedimentos de segurança adotados pela Ré para a prevenção contra o coronavírus, prejudicando a imagem da marca perante o público em geral, com a exposição negativa na rede mundial de computadores, acessível a clientes e investidores, sendo censurável a ponto de romper a fidúcia indispensável para a continuidade do contrato de trabalho, justificando a aplicação da penalidade máxima.

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Sendo assim, porquanto comprovada a existência da infração tipificada na alínea "k" do art. 482 da CLT, consistente em ato lesivo à honra e boa fama patronal, sem notícia de eventual excludente de ilicitude, e também porque caracterizada a proporcionalidade da penalidade imposta pela Empregadora, além da imediaticidade da aplicação da penalidade, voto pela manutenção da r. sentença que validou a justa causa aplicada à Empregada. Nestes termos, nego provimento ao recurso ordinário interposto pela Demandante."

Acórdão proferido de forma líquida, conforme com as planilhas de cálculo elaboradas pela Contadoria deste Regional e que integram a presente decisão para todos os efeitos legais.

Anote-se e registre-se a nova patrona da Ré, sendo as intimações subsequentes direcionadas apenas à Advogada ADRIANA PAULA TANSSINI R. SILVA (ID.

1af0993; ID; cc5aa05).

A Procuradora do Trabalho manifestou-se pelo regular prosseguimento do feito.

Acórdão em conformidade com o art. 895, § 1º, IV, da CLT.

Obs.: A Excelentíssima Senhora Desembargadora Eliney Bezerra Veloso não participou deste julgamento em razão do usufruto de férias regulamentares. Representando o Ministério Público do Trabalho, a Excelentíssima Senhora Procuradora do Trabalho Thaylise Campos Coleta de Souza Zaffani. O Excelentíssimo Senhor Desembargador Tarcísio Valente presidiu a Sessão.

Plenário Virtual, terça-feira, 31 de agosto de 2021.

(Firmado por assinatura eletrônica, conforme Lei n. 11.419/2006) DESEMBARGADOR TARCÍSIO RÉGIS VALENTE

RELATOR

VOTO VENCIDO

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