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Educ. Real. vol.40 número3

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Academic year: 2018

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e produção do professor-vendedor

Igor Vinicius Lima ValentimI IUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ – Brasil

EVANGELISTA, Simone Torres. Remuneração Variável de Professores: produ-zindo um superador de metas. Rio de Janeiro: ComPassos Coletivos, 2013.

A remuneração variável em si não é uma novidade. A importação de políticas neoliberais para o setor público e até mesmo para a área da Educação no Brasil também não o são. Mas a equação se torna mais complexa e preocupante quando se criam políticas que unem remune-ração variável como instrumento para gerir a educação e o trabalho de docentes em escolas públicas.

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O livro Remuneração Variável de Professores: produzindo um supe-rador de metas mergulha no universo das políticas de gestão da educa-ção pública do município do Rio de Janeiro, com especial ateneduca-ção aos impactos trazidos pela adoção da remuneração variável como política de gestão do trabalho docente. O que sentem os professores e profes-soras? Como lidam com essa política? Como isso afeta o trabalho que realizam, seus cotidianos, saúde e vidas? Essas são algumas das funda-mentais perguntas que esse livro busca aprofundar.

A obra tem como principal objetivo analisar os impactos – na pro-dução de subjetividades – da adoção da remuneração variável por de-sempenho como parte da política de gestão da educação e do trabalho dos professores da rede municipal de educação do Rio de Janeiro.

Utilizando-se de uma abordagem conceitual apoiada em autores como Deleuze, Guattari e Foucault, a autora compreende a remunera-ção variável de professores da PCRJ como uma política de subjetivaremunera-ção, ou seja, de produção de subjetividades. Neste sentido, em um traba-lho denso e coeso, analisa as legislações que regem o trabatraba-lho docente na rede carioca, lócus bem escolhido por adotar essa política desde a eleição do atual prefeito Eduardo Paes e da consequente nomeação de Claudia Costin como Secretária Municipal de Educação à época.

Para além do estudo documental, a autora vai a campo em pros-seguimento à pesquisa teórica já publicada por Educação e Realidade (Evangelista; Valentim, 2013), vivendo períodos de observação partici-pante e realizando diversas entrevistas com docentes da rede.

No capítulo um, Mudanças na Gestão do Trabalho Docente, Evan-gelista analisa diversas mudanças relacionadas à gestão do trabalho ao longo da história. A obra tem um mérito digno de reconhecimento e, muitas vezes, raro nos dias atuais: vai aos originais de Taylor e de Ford para mostrar a atualidade de suas proposições e políticas, apontando, por exemplo, que Taylor já propunha a remuneração variável como in-dutora de comportamentos desejados pelas empresas.

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Dois aspectos levantados pela autora são centrais para o debate proposto pelo livro: o aumento da responsabilização e as mudanças na avaliação educacional brasileira. Com relação ao primeiro aspecto, a autora salienta que com a reforma educacional trazida pela LDB (Bra-sil, 1996) aumenta-se a responsabilização, “[...] que atribui o fracasso escolar à falta de competência da escola e de seus professores, descon-siderando que a ação educativa é afetada por problemas estruturais” (Evangelista, 2013, p. 47). Aponta ainda que “[...] mais que uma reforma gerencial, o que se viu foi um mecanismo de reformatar os papéis dos servidores públicos e suas subjetividades, assim como ocorreu com os trabalhadores de empresas privadas com o advento da reestruturação produtiva do capitalismo” (Evangelista, 2013, p. 49).

Já com relação ao segundo aspecto, é fulcral notar que a avalia-ção educacional passa a incluir a cultura da performatividade (Ball, 2005), utilizando julgamentos, comparações, exposições de resultados e indicadores como mecanismos de controle. A utilização de provas de avaliação em massa, com suas consequentes políticas contemporâneas no Brasil, não deixam dúvidas de que cada vez mais a avaliação passa a se basear em números, convertendo a vida em morte (Ferreira, 1996) ou, nas palavras da autora, “[...] o uso do IDEB promove uma quantifi-cação do desempenho das diversas instituições de ensino público do país e também um ranking das mesmas, na medida em que faz com que cada uma passe a ter um índice como objetivo, um número como meta maior” (Evangelista, 2013, p. 49).

Por fim, o capítulo mostra que apesar da remuneração variável, como política de gestão da força de trabalho, já ser usada há dezenas de anos, a novidade está justamente quando essa política, oriunda da gestão de organizações privadas voltadas exclusivamente para o lucro, chega a ser utilizada para a gestão do trabalho docente nas instituições escolares públicas, feito que, na SME/RJ, teve início em 2009.

O capítulo dois olha para a prefeitura do RJ como organização. Passando rapidamente por um breve histórico, a análise da estrutu-ra organizacional conduz os leitores a compreender um pouco mais a respeito de como a SME se insere dentro do governo. Traz informações relevantes a respeito da então secretária de Educação, responsável pela implantação da remuneração variável como política de gestão do tra-balho docente. Essas informações apresentam especial interesse já que, na sequência, a autora analisa a política educacional da SME iniciada desde então, tentando caracterizar a nova política de remuneração do-cente da PCRJ como supostamente meritocrática.

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esco-lar. Junto com a responsabilização, é introduzido o prêmio para aqueles professores lotados em unidades escolares que atinjam suas metas, ou melhor, as metas estabelecidas para eles pela Administração Munici-pal, de cima para baixo.

Ao descer mais um degrau na profundidade da investigação e olhar para as legislações pertinentes à implantação da remuneração va-riável para professores da PCRJ, é possível notar como a prefeitura do RJ não relaciona o prêmio apenas ao atingimento das metas relacionadas ao IDEB, mas também ao número de ausências dos professores durante o ano letivo.

Que mérito então essa política supostamente meritocrática abor-da? Nas palavras da autora,

[...] toda a legislação que regulamenta a nova política de remuneração variável por desempenho se baseia em uma gestão do trabalho que bonifica pelo suposto mérito de elevar o desempenho escolar dos alunos, medido pelo al-cance das metas do IDEB ou IDERIO por unidade escolar. Essa ideia consiste em atrelar desempenho escolar, con-trole do absenteísmo e estímulo financeiro, aplicando o método de eficiência de Taylor à administração de pesso-al. Método que, teoricamente, está longe de preocupar-se com as necessidades humanas. Com esse método, o que a PCRJ pretende, com sua nova gestão, é uma reconfigura-ção dos papéis funcionais através de estímulos e sanções que moldam comportamentos, fazendo surgir novas sub-jetividades ao levar o docente tomar para si metas que são da SME/RJ (Evangelista, 2013, p. 87-88).

Na mesma linha de argumentação, a autora afirma, ainda, que

[...] [h]á uma tendência de julgar e responsabilizar os do-centes por uma situação que, muitas vezes, lhes foge ao controle, já que seu desempenho é medido através dos resultados dos estudantes nas avaliações externas (Evan-gelista, 2013, p. 89, grifo da autora).

A parte mais rica da obra está compartilhada com os leitores no capítulo quatro. Nele, a autora relata a pesquisa de fôlego que fez com professores de pelo menos cinco escolas da rede municipal do Rio de Janeiro, com o intuito de investigar como a remuneração variável por desempenho da PCRJ impacta a vida dos docentes. A autora chegou a fotografar marcas de tiros nas paredes de uma escola, conversou com professores da rede a respeito da remuneração docente, do plano de car-reira, da mudança na remuneração docente na PCRJ e, obviamente, da remuneração variável e seus impactos no cotidiano desses professores.

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a política implantada estimula a venda da educação, tratada como mer-cadoria.

Foram vivenciadas situações nas quais foi percebida a atuação de professores doentes para não perderem o prêmio. Surgiram também, nos diálogos trazidos pela obra, questões relacionadas à perda da auto-nomia docente, à utilização de cadernos pedagógicos (apostilamento) e ao direcionamento da prática em função das avaliações em massa, via treinamento de alunos. Apareceram também condutas de professores que sugeriam a seus alunos que fizessem provas a lápis, entre outras. Não seria exagerado o entendimento de alguns que consideram que a utilização da manipulação de resultados para garantir um adicional ao salário fere a ética na educação, reduzindo-a a mera mercadoria e esti-mulando um utilitarismo que enterra o compromisso social da função docente. Mas o livro não traz o intuito de culpabilização. Muito pelo contrário. A análise é fiel ao seu quadro teórico-conceitual ao apontar a triste constatação de que esses comportamentos são estimulados na medida em que se implanta uma política como a analisada.

Talvez um dos mais tristes efeitos da obra seja constatar como a política de remuneração variável premia o entendimento do estudante como meio, e não mais como finalidade da educação. E isso não ocorre sem o sofrimento dos professores. Se de um lado fazem o que podem para tentarem assegurar uma parcela adicional em sua baixíssima re-muneração, de outro sofrem ao controlarem os colegas, os estudantes e a se controlarem cada dia mais em prol de objetivos e metas das quais nem sequer participaram da construção. Nas palavras de uma das pro-fessoras participantes da investigação:

[...] eu acho que eu não tô sendo mais eu, eu professora. Eu fico muito ansiosa por querer um dinheiro a mais (Evan-gelista, 2013, p. 153).

Outro depoimento é ainda fundamental para ilustrar o argumen-to aqui analisado:

[...] eu me sinto assim muito angustiada, é uma coisa que eu não consigo me adaptar. Quer dizer, eu me adapto, mas eu não aceito. Não acho que prêmio é bacana (Evangelis-ta, 2013, p. 153).

A pesquisa mostra casos de problemas na saúde de professores e até de desistência e de burnout (Codo, 1999). A temática do adoecimento docente não é nova, porém, cabe observar-se - em estudos futuros - em que medida vem se intensificando com a nova política, principalmente em um momento que o valor do professor, na visão da Administração Pública, parece estar cada vez mais reduzido a ser um permanente su-perador de metas.

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para quebrar com a naturalização de políticas e objetivos que foram es-tabelecidos por outras pessoas e organizações e que não potencializam a vida. É fundamental nos questionarmos mais a respeito das implica-ções daquilo que fazemos, muitas vezes sem nos dar conta, daquilo que concordamos, inclusive quando silenciamos.

Em um mundo dominado por mercados de compra e venda, os índices que medem a qualidade da educação também estão à venda. E custam cada vez menos aos cofres públicos, comprometendo cada vez mais o cotidiano de professores e estudantes e a própria qualidade da educação se esta for compreendida como ligada à formação de cidadãos críticos.

Não importam as condições de vida dos estudantes, nem as condi-ções de trabalho nas escolas, nem tantas outras numerosas influências no desempenho de um estudante. Também não importa o tipo homo-geneizante e conteudista de avaliação realizado. Os estudantes foram convertidos em meios para avaliar o trabalho docente, como se seus desempenhos dependessem única e exclusivamente dos trabalhos des-tes professores e professoras. E, igualmente grave, como se suas notas em avaliações em massa pudessem ser relacionadas apenas à qualidade da educação. Só importam os resultados obtidos pelos estudantes nas avaliações em massa. Essa é a qualidade naturalizada por todos sem ter sido sequer discutida.

Construímos cotidianos nos quais a pressa é cada vez maior e a reflexão pouco valorizada e até mesmo criticada. Este livro é leitu-ra obrigatória não apenas paleitu-ra professores, mas paleitu-ra estudantes, pais e todos aqueles que desejam um entendimento da educação pública que estamos produzindo. Ele nos dá a oportunidade de refletir que não existem completos inocentes com relação ao sistema educacional con-temporâneo. Embora a responsabilidade daqueles que elaboram po-líticas cruéis tais como aquelas aqui apresentadas seja inegável, cada atitude nossa, inclusive a de permanecer em silêncio ou de não ques-tionar aquilo que (vi)vemos, ajuda a construir, ainda que pelo consenso ou pela passividade, o que nem sempre temos a coragem de criticar em nossas atitudes.

Obra corajosa, não só pelo tema, mas por escancarar os mecanis-mos utilizados para tentar contornar pressões, conseguir remunera-ções minimamente dignas – que nunca se tornam justas perante a res-ponsabilidade que têm. Por ouvir os professores e construir sem medo o triste modus operandi da educação pública carioca em nível municipal hoje. Resistências e possibilidades? Submissão e complacência? Tudo parece desesperador quando se pensa na educação que se está cons-truindo, bem como nos meios e políticas utilizados. Nos hábitos e sub-jetividades.

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ado-ecimento e culpa. São desnudadas as políticas de subjetivação em cur-so, ligadas à gestão do trabalho e da vida, como importantes elementos na construção de modos de ver, sentir, estar e trabalhar que conduzem grande parte das pessoas a enfermidades que não são apenas físicas, mas sociais, econômicas e, simultaneamente, existenciais.

Este livro é um contra-ataque em prol de subjetividades mais comprometidas com outros mundos e valores, diferentes daqueles hoje dominantes em nossas sociedades doentes, construídas por relações baseadas na repetição, na morte, na competição.

Não parece coincidência que os meses de agosto e setembro de 2013 testemunharam mais uma greve dos professores da municipal do Rio de Janeiro. E uma das reivindicações foi justamente relativa ao fim da remuneração variável. Entretanto, com um sistema judiciário de ce-gueira muitas vezes duvidosa, a greve foi declarada ilegal.

Por fim, espera-se que a obra possa servir como estímulo na dire-ção de lutas, mobilizações e resistências em prol da produdire-ção de outras subjetividades e da construção de outras concepções de educação e de vida.

Recebido em 09 de dezembro de 2014 Aprovado em 09 de abril de 2015

Referências

BALL, Stephen. Profissionalismo, Gerencialismo e Performatividade. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, Fundação Carlos Chagas, v. 35, n. 126, p. 539-564, set./ dez. 2005.

BRASIL. LDB. Lei 9394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Di-ário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996. P. 27833. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm>. Acesso em: 20 set. 2014. CODO, Wanderley (Coord.). Educação: carinho e trabalho. Petrópolis: Vozes, 1999.

DELEUZE, Gilles. Conversações (1972-1990). Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. EVANGELISTA, Simone Torres. Remuneração Variável de Professores: produ-zindo um superador de metas. Rio de Janeiro: ComPassos Coletivos, 2013. EVANGELISTA, Simone Torres; VALENTIM, Igor Vinicius Lima. Remuneração variável de professores: controle, culpa e subjetivação. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 38, n. 3, p. 999-1018, jul./set. 2013.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Pedagogia Libertária Versus Pedagogia Auto-ritária. 1996. Disponível em: <http://www.cedap.assis.unesp.br/cantoliberta-rio/textos/0139.html>. Acesso em: 20 set. 2014.

Igor Vinicius Lima Valentim é professor da Faculdade de Educação da

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