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A influência da mídia no tribunal do júri

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA FÁBIO BARBOSA

A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NO TRIBUNAL DO JÚRI

Araranguá 2019

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FÁBIO BARBOSA

A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NO TRIBUNAL DO JÚRI:

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Karlo André von Muhlen, Esp.

Araranguá 2019

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FÁBIO BARBOSA

A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NO TRIBUNAL DO JÚRI

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Araranguá, 04 de Dezembro de 2019.

______________________________________________________ Professor e orientador Karlo André von Mühlen, Esp.

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________ Prof. Natália Emerim Velho, Esp.

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________ Prof. Arnildo Steckert Júnior, Esp.

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A Deus, inspiração e refúgio de minha alma, e minha amada mãe Zôe, farol em meu dias nublados e esteio nesta árdua jornada acadêmica.

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AGRADECIMENTOS

Aos professores do curso de direito desta universidade, com quem tive a honra e prazer de aprender um pouco da ciência jurídica, em especial aos professores Karlo A. von Mühlen e a professora Fátima Hassan Caldeira.

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“Homens dotados dos mesmos sentidos e sujeitos às mesmas paixões se comprazem em julgá-los criminosos. Têm prazer em seus tormentos, dilaceram-nos com solenidade, aplicam-lhes torturas e os entregam ao espetáculo de uma multidão fanática que goza lentamente com suas dores.” (Beccaria, 1999, p.62-63).

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RESUMO

Este estudo avalia a criação do Tribunal do Júri no Brasil e a formação do conselho de sentença, tem como base de pesquisa a doutrina, a legislação e principalmente artigos e textos disponíveis na internet acerca do tema. O instituto do Júri, instituição democrática e de origem incerta, alimenta grande debate e controvérsia no meio jurídico brasileiro, a possibilidade de empossar o cidadão comum na responsabilidade pelo julgamento do acusado, cria um ambiente de grande repercussão e furor na sociedade, com isto o objetivo deste estudo é analisar a influência dos diversos meios de comunicação nas decisões do júri, especificamente da possibilidade de que a veiculação descontrolada das manchetes e notícias, influencie o convencimento e imparcialidade do conselho de sentença. De natureza comparativa, o estudo ressalta opiniões a favor e contra o procedimento processual do Tribunal do Júri. Nota-se que a sociedade tem especial interesse por notícias de crimes contra a vida, os veículos de comunicação bem sabem disto, dando ampla e total cobertura as notícias desta natureza, o excesso de exposição dos acusados e a visão quase sempre unilateral, criam um ambiente propicio a condenação moral antecipada do acusado, a exposição desmoderada e descontrolada cominam em prejudicar a imparcialidade entre defesa e acusação no plenário, afeta a presunção de inocência e induz os jurados a estabelecer sentença condenatória em desfavor do réu.

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ABSTRACT

This study evaluates the creation of the Jury Court in Brazil and the formation of the sentence council, is based on research on doctrine, legislation and especially articles and texts available on the internet on the subject.The institute of the Jury, a democratic institution of uncertain origin, feeds great debate and controversy in the Brazilian legal environment, the possibility of swearing the common citizen in the responsibility for the trial of the accused, creates an environment of great repercussion and furor in society, with this the The purpose of this study is to analyze the influence of the various media on jury decisions, specifically the possibility that uncontrolled headlines and news reporting may influence the conviction and impartiality of the sentencing board. Of comparative nature, the study highlights opinions for and against the Jury's procedural procedure.It is noted that the society has a special interest in news of crimes against life, the media well know this, giving wide and full coverage to news of this nature, the overexposure of the accused and the almost always unilateral view, create a environment conducive to the early moral condemnation of the accused, uncontrolled and uncontrolled exposition tends to undermine the impartiality between defense and prosecution in plenary, affects the presumption of innocence, and induces jurors to establish a sentencing sentence to the detriment of the defendant.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 11

2 TRIBUNAL DO JÚRI ... 13

2.1 O JURI NO BRASIL A LUZ DA CONSTITUIÇÃO ... 17

2.2 PRINCIPIOS CONSTITUCIONAIS NO PROCESSO PENAL ... 19

2.2.1 Plenitude de defesa ... 19

2.2.2 Sigilo das votações... 20

2.2.3 A soberania dos vereditos ... 21

2.4 GARANTIA DE ACESSO A JUSTIÇA ... 23

2.4 A FORÇA DA OPINIÃO POPULAR NOS JULGAMENTOS DO STF ... 25

3 PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DA INOCÊNCIA. Uma análise sob o viés do tribunal do júri ... 28

4 A ATUAÇÃO DA MÍDIA NO PROCESSO PENAL ... 30

4.1 TRIAL BY THE MEDIA... 35

4.2 PROVAS COLHIDAS PELA MÍDIA – licitude ou ilicitude? ... 36

4.4 LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O LINCHAMENTO MORAL NAS REDES SOCIAIS . 37 4.5 A MÍDIA E AS FALSAS MEMÓRIAS ... 38

4.6 MEDIDAS PARA GARANTIA DE IMPARCIALIDADE DOS JURADOS E INIBIR A INFLUÊNCIA DA MÍDIA ... 39

5 ANÁLISE DE CASOS CONCRETOS ... 41

5.1 CASO ISABELLA – Casal Nardoni ... 42

5.2 CASO GOLEIRO BRUNO ... 44

5.3 O CASO ESCOLA BASE – Um erro irreparável ... 48

CONCLUSÃO ... 52

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1 INTRODUÇÃO

Desde o princípio da vida em sociedade, o ser humano exerce fascínio pelas notícias e fatos socialmente reprováveis, dando especial atenção as sanções e castigos aplicados aos infratores, parece divertir-se observando as mazelas alheias.

É inegável o embate travado entre aqueles que respondem processos junto ao judiciário e a imprensa, esta discussão vem sendo travada a muito tempo em nossa sociedade, e já não resta dúvidas quanto a influência negativa da mídia na imagem dos acusados.

A mídia, em especial a sensacionalista, acaba por suprimir o princípio constitucional da presunção da inocência e impedir o exercício da ampla defesa, condenando o réu antes mesmo do fim do inquérito policial ou da eventual sentença de pronúncia pelo juiz.

A Constituição da República expressa em seu artigo 2º que são poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. No artigo 5º da Carta Magna, são delimitados direitos e estabelecidos deveres aos filhos desta nação.

O tribunal do júri ficou entabulado como a principal forma de julgamento dos crimes dolosos contra a vida, ou seja, uma forma de garantir que o acusado fosse julgado em igualdade de condições por seus pares, resguardado assim os possíveis excessos do poder público.

Fato é, porém, que não se conseguiu prever a influência da cobertura da mídia nos processos judiciais, que quando desprovida de escrúpulos acaba por ferir mortalmente os direitos e garantias dos acusados.

É ferrenha a batalha travada entre advogados de defesa e a imprensa de forma geral, com o advento dos meios digitais e das redes sociais, a divulgação de “fatos” e “notícias” tomou proporção muito mais abrangente.

No primeiro capítulo traz a origem e evolução do instituto do júri no Brasil, assim como seus conceitos fundamentais garantidos pela constituição da república, nos segundo e terceiros capítulos o trabalho analisa a influência dos canais de comunicação sob o viés das garantias fundamentais, o quarto capitulo se propõe a uma análise acerca da legalidade das ações da mídia, por fim, o quinto e último capitulo traz alguns exemplos práticos.

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Esta pesquisa tem como objetivo analisar a instituição do Tribunal do Júri no Brasil, processo acusatório e a sua atuação da mídia em desfavor de cidadãos que cometeram crimes dolosos contra a vida.

Pretende alcançar uma compreensão mais profunda de como a mídia interage com o sistema de justiça criminal e como isso se traduz na percepção da sociedade, ou a falta dela, e concomitantemente na atuação do judiciário.

A mídia é uma ferramenta poderosa para fortalecer e consolidar a democracia em um país, e sua independência é indicativo da emancipação da própria sociedade.

Seu papel é construtivo e multidimensional e consiste em: informação, educação, entretenimento, prevenção e monitoramento. Como tal, encontra expressão em muitas áreas da vida cotidiana: na política, artes, cultura, economia e justiça, e é vista como uma enciclopédia aberta à qual todos têm acesso.

Por um lado, a mídia, por meio de monitoramento, informação e cobertura em massa, oferece às pessoas uma imagem da realidade em que eles vivem, são relatados em eventos políticos, sociais, culturais e criminais em tempo real.

Além disso, a comparação de opiniões e pesquisa da verdade, muitas vezes faz da mídia um aliado da justiça na prevenção do crime através das denúncias de violações de funcionários, abuso de poder nas várias instituições.

A abordagem deste estudo tem o intuito de romper analiticamente com dogmas acerca do Tribunal do Júri no que diz respeito ao saber convencional e a análise da forma racional, pois se trata de pessoas (jurados) comuns da sociedade que são acostumados às críticas da realidade e toda a sua mistificação existente.

Como canal direto de acesso à informação, a mídia é principal percussora da exposição do trabalho realizado pelo judiciário e possui um monopólio das notícias, decidindo o que irá ser publicado ou não.

Tal afirmativa será estudada sob o viés da influência dos canais de informação, no modo em que a população cria sua opinião sobre assuntos que são decididos pelos aplicadores da lei.

Ainda, levando em consideração que a Constituição Federal de 1988 trouxe importantes inovações para o cenário jurídico do país, estabelecendo regras e princípios que devem reger as demais leis, o tema a ser abordado neste projeto, mostra-se totalmente atual, ao passo de que trata de uma garantia positivada em nossa Lei Maior.

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O princípio da presunção de inocência, ou da não culpabilidade é uma garantia fundamental, expressamente prevista pelo texto constitucional, e como tal, deve ser preservada das diversas interpretações que este princípio pode gerar.

Muito se ouve falar em Fake News, Trail by mídia e demais expressões que adjetivam o trabalho desleal e sensacionalista de alguns veículos de comunicação e outros órgãos, com o advento das redes sociais o tema ganhou ainda maior notoriedade.

Alguns autores defendem o segredo de justiça no processo penal como a única maneira de manter a presunção de inocência do acusado, mas quando isso deixa de ser parte do garantismo legal e começa a tornar-se censura ao jornalismo e ao direito de informação da população?

Esta discussão que permeia o tema, é o que se pretende trazer a este trabalho, através da análise do quanto a veiculação de notícias acerca de crimes dolosos contra a vida, podem influenciar na decisão futura dos jurados.

Tratados como formadores de opinião, os canais responsáveis pela veiculação das notícias, detém o poder absoluto sobre seus conteúdos, basta ligar a TV, principalmente em em horários específicos, e iremos apreciar o show de sangue vendido pela mídia, priorizando obviamente aquilo que lhes traz maior audiência.

Respaldados na retorica da censura, ficam protegidos de que qualquer tipo de entrave ou filtro, com isso continuam no controle absoluto do conteúdo e vinculam de acordo com seus próprios interesses.

A metodologia aplicada a este estudo refere-se a uma pesquisa bibliográfica baseada em livros na descrição de autores como Forense, Silva, Nucci, entre outros, a Constituição da República Federativa do Brasil, em artigos, decretos e leis e apresentação de casos concretos como do Casal Nardoni e goleiro Bruno.

2 TRIBUNAL DO JÚRI

Este capítulo apresenta as definições e breve histórico do tribunal do júri, sua instituição ao longo dos tempos, apesar de vasta história, mas mantendo um sistema unido por juízes togados e leigos na discussão de questões graves e de repercussão social.

O Tribunal do Júri, é sem dúvida um dos institutos mais polêmicos do direito penal brasileiro, alimentado no imaginário das pessoas comuns através de filmes que

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retratam um glamoroso espetáculo teatral, no qual réu e seus defensores na maioria das vezes, se apresentam como vilões e promotoria como paladinos da Justiça. Porém, seu surgimento não é preciso (NUCCI, 2012).

Na legislação Brasileira, o Tribunal do Júri nasceu no ano de 1822 por decreto do imperador Dom Pedro, recebeu a denominação de “juízes de fato” composto de 24 homens considerados bons, honrados, inteligentes e patriotas com competência para julgar apenas crimes de imprensa.

Em síntese trata-se de um conselho de sentença, formado por cidadãos comuns, escolhidos em uma lista apresentada pelo juiz e presidido por um juiz togado, decidem ao fim do julgamento se o acusado cometeu ou não o crime a ele imputado. Os julgamentos são geralmente públicos, mas as deliberações do júri devem ser privadas. Os réus têm o direito de comparecer, testemunhar e chamar testemunhas em seu nome (VENTURA, 2008).

Uma das principais forças do julgamento do júri é que ele atua como um cheque ao poder de acusação sem restrições. Os promotores têm uma quantidade enorme de poder ao decidir se acusam um réu de um crime, bem como as acusações a serem trazidas. No entanto, eles devem tomar essa decisão de cobrança entendendo que um grupo de indivíduos, totalmente desconhecido para eles, decidirá seu caso depois que apresentarem as evidências. Os promotores geralmente não querem perder tempo e recursos com acusações irracionais diante de um júri que avalia seu caso (STRECK, OLIVEIRA, 2012, p.104)

Outra característica do júri é a ideia de uma mitigação do poder do estado sobre o indivíduo, uma vez que parte da sociedade a condenação ou absolvição do acusado, por outro prisma se os juízes decidissem todos os casos isso poderia suscitar uma série de preocupações sobre a imparcialidade no processo judicial.

Por exemplo, os juízes designados para o caso podem ser tendenciosos a julgar sob influência política ou às pessoas que os designaram, ou influenciados pela opinião pública em um determinado caso (RANGEL, 2015).

O Brasil, além dos Juizados Especiais, ou Tribunais Especiais, (Tribunais Militares e Eleitorais), existem Juizados Federais e Estaduais. Em geral, a Justiça Federal (Tribunais Federais) tem jurisdição sobre crimes que envolvam os interesses do Governo Federal e outros crimes indicados pelo artigo 109 da Constituição.

A competência da Justiça do Estado (Tribunais Estaduais) é residual (RANGEL, 2015). De acordo com Silva (2010), o Ministério Público Federal atua nos Tribunais Federais investigando e processando crimes federais como falsificação de

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moeda, contrabando, esquiva de impostos federais, evasão de contribuições previdenciárias, trabalho escravo, formação de cartéis, lavagem de dinheiro, transferência ilegal de dinheiro para o exterior, fraudes bancárias, tráfico internacional de drogas, pedofilia na internet, crimes cometidos por funcionários da Receita Federal, policiais da Polícia Federal ou por pessoal de qualquer agência ou departamento federal; crimes ambientais, entre outros.

Os promotores públicos atuam nos Tribunais Estaduais, investigam e processam crimes como assassinato, roubo, fraude e todos os delitos não enquadrados nos demais Tribunais.

Em essência, existem quatro momentos diferentes no funcionamento do sistema penal brasileiro: primeiro, a Polícia investigativa, o Ministério Público ou outro órgão legalmente autorizado coleta, se necessário, evidências de um fato que possa ser um crime e seu agente (investigação) ; em segundo lugar, o Ministério Público ou, excepcionalmente, a vítima acusa o possível agente (processo); em terceiro lugar, o Judiciário condena ou absolve o réu (adjudicação); quarto, a condenação criminal é implementada (execução) (RANGEL, 2015).

Durante a primeira fase do júri, existe um sistema inquisitorial e não contraditório; os suspeitos podem optar por ser patrocinados ou não por um advogado e, por sua própria iniciativa, podem acessar evidências não seladas a seu respeito.

A intervenção judicial ocorre excepcionalmente, por exemplo, quando é necessária uma prisão temporária (SILVA, 2010).

A fase de julgamento é um sistema contraditório, em que a cláusula do devido processo legal e um julgamento justo são concedidos ao réu, com todos os meios relacionados de acordo com Rangel (2015). Em uma primeira instância, em geral, os casos são julgados por um único juiz, o mesmo que supervisiona a investigação.

Na fase de plenário, quando os debates são travados o comportamento do acusado, durante a sessão, a postura assumida pelo ofendido, e as reações das testemunhas ás perguntas são alvo dos olhares atento dos jurados. Assim, a percepção do jurado será aguçada não só pelo ouvir os relatos daquelas pessoas em plenário.

Neste norte ensina o mestre Aury Lopes Jr.:

O sistema inquisitório muda a fisionomia do processo de forma radical. O que era um duelo leal e franco entre acusador e acusado, com igualdade de

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poderes e oportunidades, se transforma em uma disputa desigual entre o juiz inquisidor e o acusado. O primeiro abandona sua posição de árbitro imparcial e assume a atividade de inquisidor, atuando desde o início também como acusador. Confundem-se as atividades do juiz e acusador, e o acusado perde a condição de sujeito processual e se converte mero objeto da investigação.

Em relação ao ofendido, lembra Antonio Scarance Fernandes que, não raro, será ele objeto da prova.

[...] muito comum que o acusado, para demonstrar sua inocência, torne a vítima alvo de sua defesa, tentando desmerecê-la. Aliás, queira-se ou não, o ofendido é quase sempre objeto de avaliação no processo criminal, pois o seu comportamento influi na análise da responsabilidade do réu.

Nos casos envolvendo crimes contra a vida, como homicídios, a sentença é anterior ao julgamento em plenário.

Em geral, após a acusação, começam os procedimentos no julgamento. Não existe um sistema de barganha no Brasil, onde o réu possa se declarar culpado (NUCCI, 2012).

Existem apenas dois benefícios que atenuam a regra geral: a transação (veja acima) e a "suspensão do processo". Esta última permite ao promotor suspender o procedimento, de dois a quatro anos, e, durante esse período, o réu estaria em um tipo de liberdade condicional. O promotor considera alguns desses fatores relacionados ao réu e ao crime: (i) a pena mínima legal não deve ser superior a 1 ano; (ii) o caráter do infrator e as circunstâncias em que o crime foi cometido; (iii) o réu não pode ser acusado de outro crime (RANGEL, 2015, p.105).

Além disso, o Código Penal brasileiro não permite procedimentos sumários, mesmo quando o réu se declarar culpado (SILVA, 2010).

Mesmo nesses casos, todo o longo e último procedimento deve ser observado e o promotor não tem discrição na decisão de processar, atribuindo tal função a um Tribunal de Populares, o constituinte quis proteger o cidadão comum dos possíveis excessos do poder público, dando a pessoas desprovidas de conhecimento técnico-jurídico, isto é, leigas em matéria do direito, o poder de julgar seus semelhantes.

A Lei no 11.689, de 09/06/2008, modificou de maneira profunda o procedimento do Júri, otimizando a justiça, os seus méritos e defeitos na aplicação de nova sistemática na jurisprudência em extrair do novo o modelo de sua seiva.

Segundo Silva (2009), esta modificação revogou expressamente o Capítulo IV do Título II do Livro III, do CPP, exatamente os arts.607 e 608, que disciplinavam a incidência daquela modalidade recursal.

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[...] uma visão inicial sobre o assunto, nos inclinamos a dizer que somente com uma condição a inconstitucionalidade do art. 4º, da Lei no 11.689/2008, não deverá ser reconhecida. Seria a hipótese de restringir a aplicação da revisão criminal, vedando-se que a definição do seu julgamento interfira na pena na pena aplicada por decisão do Júri, não ofendendo, assim, a soberania dos veredictos.

2.1 O JURI NO BRASIL A LUZ DA CONSTITUIÇÃO

O tribunal do júri “[...] em verdade, nasceu na Inglaterra em 1215, como um direito fundamental, pois era uma garantia de julgamento imparcial, feito pela própria sociedade, contra o absolutismo do soberano” (NUCCI, 1999, p. 36).

No Brasil a instituição surgiu no ano de 1822, disposta na Constituição do império de 1824, respectivamente mencionada nos artigos 151 e 152 da carta magna, fora criado inicialmente para julgar demandas criminais e cível.

Neste sentido expõe Rogério Lauria Tucci:

[...] a Constituição Política do Império, de 25 de março de 1824, estabeleceu, no seu art. 151, que o Poder Judicial, independente, seria composto de juízes e jurados, acrescentando, no art. 152, que estes se pronunciariam sobre os fatos e aqueles aplicariam as leis (1999, p. 31).

Na Carta Magna de 1891, o instituto passou a integrar o rol de direitos e garantias individuais, ganhando status de instituição de direito autônoma, integrando o rol de direitos e garantias individuais, ficando desvinculada do capítulo referente ao Poder Judiciário.

Assim afirma Nassif (2001, p. 18):

A Constituição de 1891, de cunho iminentemente federalista, consagrou a autonomia política dos Estados Federados, identificando-se com a estrutura norte-americana. As unidades federalistas passaram a legislar sobre o júri, e a respeito o Estado do Rio Grande do Sul criou-o de forma singular, merecendo destaque a Lei nº 19, de 16 de dezembro de 1895, regulamentadora da Instituição. Neste texto legal, foi determinado que as sentenças do júri, serão proferidas pelo voto a descoberto da maioria (art. 65, § 1º) e que os jurados não podem ser recusados.

Com a Constituição de 1934 o júri voltou a integrar o capítulo do poder judiciário, não foi elencado no rol de direitos e garantias individuais, e foi conferido ao poder legislativo a prerrogativa de alterar as normas do instituto conforme julgasse oportuno.

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O tribunal do júri voltou a figurar dentre a lista dos direitos e garantias individuais na Constituição de 1946, ficando porém, excluído do capítulo do poder judiciário.

Na mesma Carta Magna surgiram os princípios regentes do instituto, o princípio da plenitude de defesa, o princípio da soberania dos veredictos, o princípio do sigilo das votações, e a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida.

Sobre a Constituição de 1946 assevera Nassif (2001, p. 21):

A Constituição de 1946 proclamou entre os “Os Direitos e garantias Individuais” que era mantida a instituição do Júri, com a organização que lhe der lei, contando que seja ímpar o número de seus membros e garantindo o sigilo das votações, a plenitude de defesa do réu e a soberania dos veredictos. Serão obrigatoriamente de sua competência os crimes dolosos contra a vida (art. 141, §28).

Com a formação da constituinte de 1988 o júri foi elencado no inciso XXXVIII do art. 5º, atendendo “a função de julgar, originariamente, crimes dolosos, tentados ou consumados contra a vida, definidos nos arts. 121 a 128 do Código Penal” (LEITE, 2011, p. 3).

Deste modo, atualmente:

[…] Segundo o artigo 74, § 1°, do CPP, compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos artigos. 121, § 1°, § 2°, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do Código Penal, consumados ou tentados. Não se incluem, portanto, os crimes em que haja morte da vítima, ainda que causada dolosamente, se não são classificadas na lei como crimes dolosos contra a vida, como é a hipótese, por exemplo, do latrocínio. Como, porém, a Carta Magna de 1988 define apenas a competência mínima do júri, nada impede que a lei processual inclua outras infrações penais na competência do Tribunal Popular (MIRABETE, 2000, p. 482).

A independência judicial é mais importante para a eficácia dos direitos fundamentais do que qualquer proclamação constitucional escrita. Fundamental a constituição têm um papel essencial na limitação do Poder do Estado, portanto, é a efetividade dos direitos declarados na Constituição que constitui a Estado de Direito.

Com base nessa crença, a Constituição Brasileira de 1988 confiou ao Sistema Judiciário Brasileiro função que não havia sido concedida por nenhuma outra Constituição antes. Conferiu autonomia institucional ao Judiciário, garantindo autonomia administrativa e financeira, e concessão de independência funcional aos juízes.

A expressão “é reconhecida a instituição do Júri”, e não o termo tradicional (é mantida a instituição do Júri) autorizou identificar a intenção do constituinte no sentido de licenciar a legislação infraconstitucional a ampliar o rol dos delitos sujeitos a julgamento pelo Tribunal Popular, mantendo, para este,

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como competência irrevogável pelo legislador comum, a dos julgamentos dos crimes dolosos contra a vida (alínea d). O Código de Processo Penal foi, no entendimento maciço dos doutos, inteiramente recepcionado pela norma maior e, assim, é a lei que organiza o Júri Popular (NASSIF, 2009, p. 24).

2.2 PRINCIPIOS CONSTITUCIONAIS NO PROCESSO PENAL

Os princípios constitucionais do Júri estão elencados nas alíneas do inciso XXXVIII do art. 5º da CRFB/88, a plenitude de defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

2.2.1 Plenitude de defesa

Com relação ao tema, nos ensina Guilherme Nucci (2010), que no âmbito do processo penal comum o acusado é socorrido pelo princípio da ampla defesa, que reflete-se no acompanhamento do processo por uma defesa técnica.

Mais do que a ampla defesa, o processo criminal requer que o acusado disponha da plenitude de defesa, possibilitando ao réu defender-se de forma ilimitada e irrestrita, tanto por parte do Ministério Público como do magistrado.

O primeiro refere-se a uma garantia dos acusados de um modo geral, já o segundo é um elemento intrínseco da sistemática do Júri.

Segundo Guilherme de Souza Nucci (2011, p. 25) “amplo é algo vasto, largo, copioso, enquanto pleno equivale a perfeito, absoluto”.

E complementa:

o que se busca aos acusados em geral é a mais aberta possibilidade de defesa, valendo-se dos instrumentos e recursos previstos em lei e evitando- se qualquer forma de cerceamento. Aos réus, no Tribunal do Júri, quer-se a defesa perfeita, dentro obviamente das limitações naturais dos seres humanos

Neste sentido, o autor explica que, tratando-se de tribunal do júri, onde o resultado da persecução se dá pela vontade dos julgadores leigos, a defesa do acusado deverá aproximar-se ao máximo da perfeição.

Para que haja a devida elucidação dos fatos e teses defensivas de modo que possam ser compreendidas pelos jurados, resultado dessa forma em absolvição do réu, ou, em condenação justa, dentro dos limites legais de acordo com os fatos ocorridos.

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Dessa forma, o defensor obrigasse a angariar e analisar os argumentos defensivos que julgar convenientes para favorecer o acusado em plenário, observando, obviamente, as regras processuais do instituto em questão, qual seja o tribunal do júri.

2.2.2 Sigilo das votações

O princípio que garante o sigilo das votações está disciplinado na alínea “b”, do inciso XXVIII, do artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Consiste em proporcionar aos jurados segurança e garantir o resguardo a eventual censura ou represália, e por isso pode ser classificado como um dos mais – se não o mais – importantes princípios do instituto, eis que serve tanto para preservar os jurados quanto o réu.

O art. 485, caput, do Código de Processo Penal dispõe que, após encerrados os debates em plenário "o juiz presidente, os jurados, o Ministério Público, o assistente, o defensor do acusado, o escrivão e o oficial de justiça dirigir-se-ão à sala especial a fim de ser procedida a votação" (BRASIL, CPP, 2018).

Com relação ao tema, ensina Mirabete (2006, p. 494) que “[...] a natureza do júri impõe proteção aos jurados e tal proteção se materializa por meio do sigilo indispensável em suas votações e pela tranquilidade do julgador popular, que seria afetada ao proceder a votação sob vistas do público”.

A fase de debates é certamente o ponto alto do procedimento do júri, após a explanação de acusação e defesa, respeitadas as oportunidades de réplica e tréplica, o Tribunal é esvaziado ou passa a funcionar em sala secreta, a fim de preservar a análise do conselho de sentença e para que o juiz presidente realize a leitura e explicação dos quesitos apresentados por acusação e defesa aos jurados.

Após a leitura de cada quesito, os jurados são orientados a sinalizar seu voto em um cédula fornecida pelos serventuários do tribunal, e posteriormente depositá-los em uma urna. O procedimento é repetido até que sejam analisados todos os quesitos apresentados, e que se chegue a uma decisão por maioria.

Neste sentido, leciona Guilherme Nucci (2010):

Houve tempos em que se discutiu a constitucionalidade da sala especial para votação, por entender alguns que ela feriria o princípio constitucional da publicidade. No entanto, tal discussão foi superada por ampla maioria, tanto doutrinária, quanto jurisprudencial, por prever a Carta Magna a possibilidade

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de se limitar a publicidade de atos processuais quando assim exigirem a defesa da intimidade ou o interesse social ou público.

Na mesma toada salienta Hermínio Alberto Marques Porto que, as cautelas tomadas pela lei no sentido de garantir o sigilo das votações, vieram para conferir aos julgadores populares plena liberdade para que possam formar suas convicções bem como manifestar suas conclusões, sem que tais manifestações sejam alvos de qualquer tipo de constrangimento ou retaliação.

Por esta razão verifica-se ser de extrema relevância o intento legal de proteger as conclusões e manifestações dos jurados (1999, apud NUCCI, 2008, p. 31).

2.2.3 A soberania dos vereditos

O princípio alicerçasse na ideia de que a decisão motivada do conselho de sentença, representantes da sociedade, e portanto únicos verdadeiramente aptos a decidir o destino do agente ofensor é soberana, e portanto inadmite a possibilidade de recurso a segunda instancia pelo mero inconformismo da parte sucumbente.

O procedimento do Tribunal do júri admite a possibilidade de recurso em segunda instancia apenas nos casos em que a parte “perdedora”, entenda que os jurados agiram em desconformidade com as provas apresentadas nos autos, ou durante os debates. Ainda assim, não se admite a reforma em segunda instancia, e sim através da aplicação de novo júri.

Sobre o assunto, verifica-se o texto legal do art. 593 do Código de Processo Penal, que diz o seguinte:

Art. 593. Caberá apelação no prazo de 5 (cinco) dias: [...]

III - das decisões do Tribunal do Júri, quando: a) ocorrer nulidade posterior à pronúncia;

b) for a sentença do juiz-presidente contrária à lei expressa ou à decisão dos jurados;

c) houver erro ou injustiça no tocante à aplicação da pena ou da medida de segurança;

d) for a decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos.

§ 1o Se a sentença do juiz-presidente for contrária à lei expressa ou divergir das respostas dos jurados aos quesitos, o tribunal ad quem fará a devida retificação.

§ 2o Interposta a apelação com fundamento no no III, c, deste artigo, o tribunal ad quem, se Ihe der provimento, retificará a aplicação da pena ou da medida de segurança.

§ 3o Se a apelação se fundar no no III, d, deste artigo, e o tribunal ad quem se convencer de que a decisão dos jurados é manifestamente contrária à prova dos autos, dar-lhe-á provimento para sujeitar o réu a novo

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julgamento; não se admite, porém, pelo mesmo motivo, segunda apelação (BRASIL, CPP, 2018).

Esta norma principiológica traduz o afastamento da possibilidade de a decisão final proferida pelos jurados ser mudada, de tal forma é “[...] condição indiscutivelmente necessária para os julgamentos realizados no tribunal do júri” (MIRABETE, 2006, p. 495).

No ordenamento jurídico pátrio “[...] esta soberania é reconhecida na Constituição Federativa Brasileira de 1988, que em seu artigo 5º, XXXVIII, c, determinou que “é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados [...] c) a soberania dos veredictos” (BAYER, 2013).

Assevera Mirabete que:

[…] A soberania dos veredictos dos jurados, afirmada pela Carta Política, não exclui a recorribilidade de suas decisões, sendo assegurada com a devolução dos autos ao Tribunal do Júri para que profira novo julgamento, se cassada a decisão recorrida pelo princípio do duplo grau de jurisdição. Também não fere o referido princípio a possibilidade da revisão criminal do julgado do Júri, (LXXXI) a comutação de penas etc. Ainda que se altere a decisão sobre o mérito da causa, é admissível que se faça em favor do condenado, mesmo porque a soberania dos veredictos é uma “garantia constitucional individual” e a reforma ou alteração da decisão em benefício do condenado não lhe lesa qualquer direito, ao contrário beneficia (2006, p. 496).

É importante destacar que as hipóteses para a recorribilidade da decisão proferida pelo Conselho de Sentença, seguem o rol taxativo elencados no inciso III do artigo 593 do Código de Processo Penal.

2.3 O PAPEL DOS PRINCÍPIOS NA LEI

Antes de adentrarmos nos princípios norteadores do tribunal do júri, faz-se necessário uma análise do funcionamento prático.

O princípios servem como fundamento teórico para a interpretação das leis e são usados para interpretação e orientação das partes em um julgamento.

Este papel é de extrema importância, pois é um dispositivo crucial para garantir coerência de propósito entre várias leis relacionadas ao mesmo assunto (OLIVEIRA, 2010).

As vezes uma lei não é aplicada a um caso em que se baseia - com base no fazê-lo nessas circunstâncias particulares sacrificaria importantes princípios; mas a lei não é assim modificada. Isso pode ocorrer frequentemente em países onde a doutrina do precedente não é reconhecida, mas onde os princípios podem substituir regras em circunstâncias particulares (OLIVEIRA, 2010).

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Nos países de direito comum, o uso dos princípios legais é mais restrito, mas, no entanto, de considerável importância. Como nenhuma outra lei se aplica a uma certa variedade de problemas, os tribunais agem para regular a área criando novas regras.

É verdade, no entanto, que no geral existe uma tendência acentuada na lei de muitos países, para não confiar na aplicação direta de princípios, mas usá-los para governar o funcionamento das regras da maneira indicado acima.

Isto é particularmente verdade quando indivíduos do que tribunais e funcionários são os sujeitos-norma dos princípios (SILVA, 2010).

2.4 GARANTIA DE ACESSO A JUSTIÇA

A concepção utilizada na contemporaneidade para designar o acesso à justiça, em que pese ainda seja de entendimento complexo, é muito diferente daquela encontrada em meados dos séculos XVIII e XIX, quando representava apenas o direito formal de ingresso em juízo.

Baseando-se na ideia de que o acesso à justiça era algo anterior ao próprio sistema estatal, e assim sua função não era assegurar-lhe o pleno exercício, mas simplesmente impedir que tal direito fosse violado, o poder judiciário permanecia inerte, reservado a possibilidade de utilizar-se da justiça apenas àqueles que podiam arcar com suas custas, ou seja, uma pequena parcela da sociedade (CAPPELLETTI, 1988, p. 03;04).

Todavia, com as crescentes mudanças no cenário social, maiores foram as dificuldades encontradas pelo Estado para garantir a todas as pessoas seus direitos básicos, razão pela qual surgiu a necessidade de deixar “[...] para trás a visão individualista dos direitos, refletidas nas “declarações de direitos” “típicas dos séculos dezoito e dezenove” (CAPPELLETTI; GARTH, 1988, p. 04) e buscar meios para concretização dos direitos sociais.

Atualmente, mais do que a possibilidade de mero ingresso em Juízo, o acesso à justiça se traduz no direito a uma demanda sem formalismos exagerados, desprovida de burocracia, com profissionais competentes e estrutura compatível com a quantidade de trabalho, ou, nas palavras de Cappelletti e Garth (1988, p. 03):

A expressão “acesso à justiça” mesmo que de difícil definição serve para determinar o sistema jurídico que servem de base para a reivindicação de direitos das pessoas e a resolução de seus litígios sob os auspícios do Estado

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que, primeiro deve ser realmente acessível a todos; segundo, ele deve produzir resultados que sejam individual e socialmente justos.

A primeira onda de acesso à justiça surgiu na Europa, no início do Século XX, com a finalidade de “[...] proporcionar serviços jurídicos para os pobres” (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p.12).

Inicialmente, as medidas adotadas pelos governos eram discretas, caracterizadas pela elaboração de algumas diretrizes básicas no sentido de proporcionar à camada hipossuficiente da sociedade assistência jurídica de qualidade.

Após, já na década de sessenta, outros mecanismos, mais completos e seguros, foram criados no intuito de dar ainda mais condições às pessoas economicamente prejudicadas, como é o caso do Sistema Judicare, através do qual o Estado prestaria remuneração a advogados particulares para que estes prestassem assistência a todos aqueles que estivessem enquadrados nos requisitos trazidos pela lei (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p.13).

Tendo em vista a cultura do litígio individual criada desde as épocas mais remotas, os direitos difusos tinham pouquíssimo espaço no cenário social, sendo o processo “visto apenas como um assunto entre duas partes, que se destinava à solução de uma controvérsia entre essas mesmas partes a respeito de seus próprios interesses individuais.

Assim sendo, direitos coletivos ou difusos não tinham o mesmo grau de importância perante os indivíduos, o que ocasionou um sério problema na questão da representatividade desses interesses e ocasionou o segundo movimento (CAPPELLETTI, 1988, p.19).

Nas palavras de Migliavacca (2012, p. 42): “[...] o acesso à justiça se caracteriza pela efetividade da prestação jurisdicional pela possibilidade de submeter o conflito à apreciação judicial através de um ‘devido processo legal’ e sobretudo da razoável duração do processo”.

Desta forma, entende-se que o acesso à justiça, de maneira geral, está diretamente relacionado a dois importantes direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro: a inafastabilidade do Poder Judiciário (ou direito fundamental ao acesso à justiça) e a razoável duração do processo.

Enquanto o primeiro busca garantir a possibilidade de acesso pleno aos tribunais, o segundo procura tornar possível sair deles no menor tempo possível.

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Conforme as lições de Sarlet (2009, p. 29), enquanto os direitos fundamentais caracterizam-se por sua positivação na Constituição de determinado ordenamento jurídico, os direitos fundamentais são determinados por um caráter universal, de cunho internacional.

Em outras palavras, direitos fundamentais são aqueles direitos humanos reconhecidos e positivados no ordenamento de um Estado, cuja inviolabilidade está garantida por sua Constituição (SILVA, 2005, p.190).

Já os direitos humanos são aqueles reconhecidos por Estados por meio de acordos, tratados e convenções internacionais, cuja positivação é prescindível à sua validade, que é universal (SARLET, 2009, p. 29).

2.4 A FORÇA DA OPINIÃO POPULAR NOS JULGAMENTOS DO STF

O judiciário brasileiro está em estado de crise há muito tempo e permanece nesse estado apesar de várias tentativas de reformá-lo. Com a recente onda de falta de confiança social no judiciário, os brasileiros geralmente acreditam que seus magistrados punem os transgressores inadequadamente e de acordo com seus interesses.

Ancorado pelas notícias a opinião pública tem exercido forte pressão sob os ministros do STF, a última insurgência é no intuito de decretar válida a prisão em segunda estancia, ou seja, mudar o entendimento constitucional, todos os holofotes da sociedade estão voltados para o STF neste momento.

Há consenso na opinião pública de que o tribunal não realiza seus julgamentos com imparcialidade, e em vez disso, abranda as sentenças contra criminosos perigosos e certos categorias, particularmente os mais ricos e políticos.

Acredita-se que esses indivíduos nunca sejam adequadamente punidos por violar a lei (SILVA, 2010).

No tocante ao julgamento sobre a possibilidade de prisão em segunda instância, vejamos o que nos traz a legislação pátria.

O sistema judicial brasileiro é um sistema duplo que incorpora tribunais federais e estaduais bem como tribunais regulares e especializados. As várias divisões do sistema judicial incluem um Supremo Tribunal Federal, um Superior Tribunal de Justiça, Regional Federal Tribunais Federais do Trabalho, Tribunais

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Eleitorais, Tribunais Militares, Tribunais Estaduais e Tribunais do Distrito Federal (REALE, 2015)

O mais alto tribunal do Brasil é o Supremo Tribunal Federal (STF), consiste em onze juízes escolhidos pelo Presidente da República entre cidadãos com mais de trinta e cinco anos e menos de sessenta e cinco. Os juízes do STF são nomeados pelo Presidente da República após aprovação por maioria no Senado.

O STF fica em Brasília e tem jurisdição sobre todo o território nacional. Para preservar sua independência, os juízes podem escolher seu Presidente por um período de quatro anos, no entanto, é proibida a reeleição do Presidente (OLIVEIRA, 2010).

Os juízes do STF estão habilitados pela Constituição de 1988 a revisar a legislação antes de sua entrando em vigor. Em tais casos de revisão judicial da legislação, não há parte, porque esse modelo de revisão se apoia na interpretação judicial das normas legais em resumo. As decisões finais sobre ações diretas produzem efeitos erga omnes e não pode ser apelado (VENTURA, 1990).

Partindo do ponto que o princípio da presunção de inocência deve ser observado como uma garantia fundamental insculpida na Constituição, e que é uma norma que traz um dever de tratamento a necessidade probatória e uma norma de Juízo, passamos a analisar como a doutrina tem se posicionado diante da relativização deste princípio, com foco na execução provisória da pena a partir da sentença condenatória do segundo grau (duplo grau de jurisdição).

A doutrina brasileira, seguindo o modelo garantista da Constituição Federal de 1988, entende que o princípio da presunção de inocência perdurará até o trânsito em julgado da sentença condenatória, nos dizeres de Renato Brasileiro de Lima (2015. p. 43):

Consiste, assim, no direito de não ser declarado culpado senão mediante sentença transitada em julgado, ao término do devido processo legal, em que o acusado tenha se utilizado de todos os meios de prova pertinentes para sua defesa (ampla defesa) e para a destruição da credibilidade das provas apresentadas pela acusação (contraditório).

Há de se atentar às terminologias trânsito em julgado e duplo grau de jurisdição, pois, são dois marcos completamente distintos para o início do cumprimento da pena, e de extrema relevância para compreender o estudo ora dirigido.

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A Convenção Americana sobre Direitos Humanos dispõe, em seu artigo 8º, item 2, sobre este princípio, entretanto, exige apenas que haja o duplo grau de jurisdição, desde que a culpa esteja demonstrada legalmente. Por outro lado, a Constituição Federal de 1988 não utiliza este parâmetro, sendo mais abrangente, o que não caracteriza discordância com o texto da Convenção ao passo que:

[...] A própria Convenção Americana prevê que os direitos nela estabelecidos não poderão ser interpretados no sentido de restringir ou limitar a aplicação de normas mais amplas que existam no direito interno dos países signatários (Art. 29, b). em consequência, deverá sempre prevalecer a disposição mais favorável. LIMA (2015. p.44).

Percebe-se então, que o legislador constituinte originário pretendeu oferecer maior garantia dos direitos fundamentais ao estabelecer o trânsito em julgado como marco inicial para o cumprimento da pena no Brasil.

Ademais, ainda que os efeitos suspensivos aos recursos destinados ao STJ e ao STF sejam a exceção, tal regra não deve ser aplicada ao Processo Penal, porquanto, nas palavras de Caleffi (2017, p. 60):

Uma vez que os objetos tutelados pelas esferas civil e penal são absolutamente distintos, deve ser pontuado que a insurgência ora estabelecida em nada se relaciona com a presença (ou não) de determinado efeito recursal, mas, sim, ao fundamental direito de liberdade do indivíduo de ser presumido inocente.

Isso, pois, diferente do Processo Civil, em que a execução provisória é garantida por caução, no Processo Penal, o que se restringe é a Liberdade, ou seja, o retorno ao estado quo ante não é possível, ao passo que o homem ainda não descobriu uma maneira de voltar no tempo e reverter os erros cometidos.

Assim, impossibilitar o acusado de recorrer às instâncias superiores em liberdade sob o fundamento de que já houve o duplo grau de jurisdição, ou ainda, que os recursos não são dotados de efeito suspensivo, é “estabelecer, por consequência, uma via recursal de mero rito de passagem, passivo e inerte frente à decisão proferida nas instâncias inferiores” CALEFFI (2017, p. 63).

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3 PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DA INOCÊNCIA. Uma análise sob o viés do tribunal do júri.

O princípio da presunção de inocência garante a todo cidadão, por consequência ao réu, ser tratado como inocente até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Neste norte, temos a regra de ouro no Estado Democrático de Direito, e consta assegurado constitucionalmente na dicção do art. 5º:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória; [...].

A Constituição de 1988 atribui garantia pétrea a todos os cidadãos, a de ser considerados inocentes diante de qualquer infração penal, até que o julgamento o sentencia culpado.

Em tradução subjetiva, ainda que o inquérito reúna provas e indícios intermináveis em desfavor do acusado, o rótulo de culpa só lhe será imposto após julgamento em definitivo e em última instancia, após terem se esgotados todos os recursos cabíveis.

Nesse mesmo norte leciona o insigne mestre Aury Lopes Jr.:

Pode-se armar, com toda ênfase, que o princípio que primeiro impera no processo penal é o da proteção dos inocentes (débil), ou seja, o processo penal como direito protetor dos inocentes (e todos a ele submetidos o são, pois só perdem esse status após a sentença condenatória transitar em julgado), pois esse é o dever que emerge da presunção constitucional de inocência prevista no art. 5o, LVII, da Constituição.

Ao adentrarmos nas diversas percepções que o princípio da presunção da inocência pode ter dentro do processo penal, e consequentemente, dentro da sociedade brasileira, se faz importante a análise do princípio sob o viés da Constituição Federal de 1988, que busca, sobre tudo, a garantia da dignidade da pessoa humana.

A Constituição Federal de 1988 consagrou em seu artigo 5º, inciso LVII, a ideia de que todos são considerados inocentes, até que o Estado prove o contrário: LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

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A partir destas normas, é claro o objetivo do legislador em estabelecer que a prisão somente poderá ocorrer após o trânsito em julgado do processo, e que será assegurado ao acusado a presunção de sua inocência até este marco processual.

Como bem observa Ricci e Cavalcante (2017, p. 96), o princípio da presunção de inocência estabeleceu-se como direito universal do indivíduo, após seu surgimento na Magna Carta Libertatum, de João-Sem-Terra (1215).

Consolidando-se com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, em 1789, e posteriormente, adotada por tantas outras declarações, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e pelo Pacto de San José da Costa Rica.

Aury Lopes Junior (2014. p. 217), citando Ferrajoli, explica sobre o princípio:

Segue o autor explicando que é um princípio fundamental de civilidade, fruto de uma opção garantista a favor da tutela da imunidade dos inocentes, ainda que para isso tenha-se que pagar o preço da impunidade de algum culpável. Isso porque, ao corpo social, lhe basta que os culpados sejam geralmente punidos, pois o maior interesse é que todos os inocentes, sem exceção, estejam protegidos.

Além de ser uma norma que enseja um dever de tratamento, o princípio da presunção de inocência requer que haja provas, produzidas dentro dos ditames do processo penal, aptas a desconstituir o estado de inocência e ensejar a uma condenação, ou seja, a inocência será sempre presumida, devendo o órgão acusador demonstrar no deslinde do processo penal, que o acusado de fato cometeu o delito.

Nas palavras de Nereu José Giacomolli (2014. p. 96):

Partindo-se da inocência do acusado e não da sua culpabilidade, cabe à acusação a desconstituição do estado de inocência, ou seja, no processo penal é da acusação o encargo de provar. Com isso, também, se elimina a emissão de uma decisão com base no conhecimento privado ou extraprocessual do julgador

Em última análise, o princípio da presunção de inocência é uma norma de juízo, pois, para que se chegue a uma condenação, é necessário que, produzidas as provas no processo, o juiz fundamente sua decisão única e exclusivamente com o acervo probatório que lhe foi mostrado, não podendo tomar como base fatores externos e estranhos ao processo, porquanto tal decisão seria totalmente ilegal.

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Portanto, ainda que várias possam ser as interpretações acerca dos limites da presunção de inocência, certo é que, até para as interpretações existe um fim, ou seja, seu alcance somente poderá se dar a certo ponto, sob pena de se deixar de interpretar um princípio, e passar-se a criar uma nova norma.

Diferentemente dos casos em que o acusado já se encontra preso preventivamente, pois tal prisão é autorizada pela própria Constituição em seu artigo 5º, inciso LXI, e no artigo 312 do Código de Processo, com o fito de preservar e proteger os interesses da coletividade em geral e os dos cidadãos em particular.

Assim, questiona-se o direito de liberdade daqueles que a possuindo, perdem-na sem a completude do processo.

4 A ATUAÇÃO DA MÍDIA NO PROCESSO PENAL

Através do direito à informação, o indivíduo tem assegurado o conhecimento dos fatos e acontecimentos sociais é sem dúvida uma das mais importantes garantias do nosso ordenamento jurídico, porém, na corrida pela notícia a mídia em muitos casos, sobrepõe o direito à informação ao direito constitucional da presunção de inocência.

A priori antes de adentrarmos a questão suscitada, cumpre definirmos o conceito de mídia. Na definição literal, nosso dicionário defini a palavra mídia da seguinte maneira:

Toda estrutura de difusão de informações, notícias, mensagens e entretenimento que estabelece um canal intermediário de comunicação não pessoal, de comunicação de massa, utilizando-se de vários meios, entre eles jornais, revistas, rádio, televisão, cinema, mala direta, outdoors, informativos, telefone, internet etc.

Para Venício A.de Lima, mídia é:

(...) quando falamos da mídia, estamos nos referindo ao conjunto das emissoras de rádio e de televisão (aberta e paga), de jornais e de revistas, do cinema e das outras diversas instituições que utilizam recursos tecnológicos na chamada comunicação de “massa”.

Diante da análise dos diversos entendimentos acerca da publicidade no processo penal, importante se mostra a compreensão acerca do papel da mídia no judiciário, vez que é a principal percussora da opinião pública nos tempos atuais.

A mídia, como visto, exerce um papel preponderante na dinamização dos sistema penal pós-moderno. E parte desse papel consiste justamente em disseminar a insegurança, explorando o fenômeno crime de forma a incutir

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na crença popular um medo do crime que não necessariamente corresponde à realidade da violência. A mídia reforça e dramatiza a experiência pública do crime, colocando o fenômeno criminal na ordem do dia de qualquer cidadão. (FREITAS, 2016, p.150)

Em seu artigo, Cardoso (2008 p. 33) aduz que os jornais têm a necessidade de proporcionar notícias como uma diversão ao público que os assiste, pois, a grande massa, após um exaustivo dia de trabalho, não tem paciência, e tampouco interesse em refletir sobre temas de maior complexidade.

Com o poder de influência em mãos, e com o papel de ‘entreter’ quem os assiste, os jornalistas acabam por ditar os pensamentos da população, principalmente no que se refere à criminalidade.

Neste sentido, Oliveira (2013, p. 26):

A afirmação de que a mídia é capaz de influenciar no Direito é algo já incorporado pelas pessoas, ou seja, já é intuitivo que uma notícia, especialmente se veiculada repetidas vezes, pode gerar clamor social e, consequentemente, modular a opinião pública.

Cardoso (2008. p. 40) aponta que a mídia traz a pena como única solução para os conflitos sociais, sendo que os discursos incriminadores tornam-se legítimos, aceitos e incorporados à massa argumentativa dos editoriais.

Deste ponto, é importante destacar as teorias jurídicas acerca das características da pena, nas palavras de Santos (2012. p. 421): “A pena como retribuição do crime representa a imposição de mal justo contra o mal injusto do crime, necessário para realizar justiça ou restabelecer o direito”, que representa o sentimento de vingança para com aquele que cometeu um delito.

Por óbvio que com o advento das convenções sobre direitos humanos, sobretudo da Constituição Federal de 1988, tal perspectiva da pena é totalmente rechaçada, ou pelo menos deveria.

Já a teoria preventiva, concebida pelo autor (2007. p. 458-463) traduz que:

Na teoria preventiva – que se desdobra em prevenção especial e prevenção geral – a função da pena é evitar crimes futuros. Na dimensão da prevenção especial, o foco da pena é o indivíduo desviante. Como prevenção especial positiva destina-se à correção do autor durante a execução penal e como prevenção especial negativa visa a neutralização do sujeito na prisão como garantia da proteção da comunidade. Por outro lado, a pena como prevenção geral deve atingir a sociedade como um todo. A função clássica da prevenção geral negativa é exercida através da intimação e desestimulação das pessoas de praticarem crimes. A função da prevenção geral positiva é cumprida através da estabilização social normativa, isto é, a pena serve à demonstração da inviolabilidade do Direito, necessária à preservação da confiança na ordem jurídica e ao reforço da fidelidade jurídica do povo.

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Portanto, nas palavras de Cardoso (2008. p. 40), a mídia vê o delito como uma “equação penal”, em que, detectado o delito, a pena é a resposta automática. Essa necessidade por respostas imediatas, vai de encontro com a necessidade de respeitar o devido processo legal e as garantias decorrentes dele, incluído o Princípio da Presunção de Inocência.

Nesta perspectiva, Rafael Souza Lira (2014, p. 01);

[...] enquanto a imprensa trabalha com as notícias em tempo real, a justiça penal está adstrita ao princípio do devido processo legal, de modo que cada fase processual é imprescindível, sob pena de violação a algum direito fundamental, em especial, o tão importante direito de defesa do investigado/réu.

A situação se agrava quando, em casos de grande destaque na mídia, como o HC 152.752/PR que não concedeu a ordem de Habeas Corpus ao ex. presidente Lula, e determinou a execução provisória do cumprimento da pena, com o acórdão condenatório de segundo grau, para que não houvesse uma revolta generalizada contra o Judiciário, mantendo-se a ‘ordem pública’. Nas sabias palavras de Guilherme de Souza Nucci (2007. p. 591):

Crimes que ganham destaque na mídia podem comover multidões e provocar, de certo modo, abalo à credibilidade da Justiça e do sistema penal. Não se pode, naturalmente, considerar que publicações feitas pela imprensa sirvam de base exclusiva para a decretação da prisão preventiva. Entretanto, não menos verdadeiro é o fato de que o abalo emocional pode dissipar-se pela sociedade, quando o agente ou a vítima é pessoa conhecida, fazendo com que os olhos se voltem ao destino dado ao autor do crime. Nesse aspecto, a decretação da prisão preventiva pode ser uma necessidade para a garantia de ordem pública, pois se aguarda uma providência do Judiciário como resposta a um delito grave.

Acredita-se que a criminalização generalizada, ou de figuras públicas, quer sejam políticos ou pessoas públicas, causa um efeito ‘positivo’ pois em tese, a condenação resolveria os problemas sociais subjacentes, no caso in loco, com a condenação de um dos réus da operação ‘lava jato’ a impunidade contra a corrupção estaria com os dias contados – que por certo, está longe de ser verdade.

O direito de informar como aspecto da liberdade de manifestação de pensamento, revela-se um direito individual, mas já contaminado de sentido coletivo, em virtude das transformações dos meios de comunicação, de sorte que a caracterização mais moderna do direito de comunicação, que especialmente se concretiza pelos meios de comunicação social ou de massa, envolve a transmutação do antigo direito de imprensa e de manifestação do pensamento, por esses meios, em direitos de feição coletiva. (AFONSO, 2013, p.262)

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Cardoso (2008, p. 55) assevera que a sociedade procura ser protegida através do rigor punitivo que o Estado exerce, dando margem para os discursos criminalizantes criados pela mídia, e que se destoam da realidade, conforme aponta autora em seu estudo.

A situação agrava-se quando o discurso midiático não busca a veracidade das informações que transmite à população, formulando uma notícia manipulada e fora do contexto que realmente aconteceu, criando um ambiente de medo e insegurança.

Neste sentido, disserta Cardoso (2008, p.58):

Desenhado então o quadro conjuntural da produção do medo na sociedade brasileira fica evidente que o discurso do medo propagado pelos meios de comunicação projeta-se como estratégia de manutenção das relações de dominação existentes na sociedade capitalista, e, sendo assim, figura como instrumento de legitimação do sistema penal.

Em verdade, a mídia como canal de comunicação assume o importante papel de transmitir a informação como ela é, entretanto, dissemina o medo, sob o discurso de que a punição pelo encarceramento dos ‘criminosos’ é a solução mais adequada para chegar-se à paz social. Assim, a punição antes mesmo da certeza, torna-se institucionalizada pela opinião pública.

Na análise a que se propõe este artigo, fica notória a influência da mídia na opinião popular, a corrida pelo furo da notícia já não é mais o objetivo principal dos canais de comunicação.

Em tempos de rede social e outros canais alternativos de propagação em massa, os grupos de comunicação precisam “render” a matéria, neste sentido utilizam da “desgraça alheia” como principal artificio atrativo.

Já que notoriamente o banho de sangue permeia o imaginário popular e atrai o interesse popular, consequentemente vende notícia.

Comportamentos dessa natureza podem influenciar os jurados de retornar um veredicto imparcial de várias maneiras; por exemplo, os jurados podem tornar-se tendenciosos a favor ou contra um réu depois de se familiarizar com as informações pessoais no Facebook (FARIAS, 2014).

As mídias sociais permitem que os jurados previamente “transmitam suas deliberações e interajam com o público em geral”, comunicar instantaneamente sobre casos e divulgar informações com centenas ou milhares de amigos ou seguidores.

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Conforme discutido acima, a maioria das jurisdições australianas proíbe expressamente a publicação de informações protegidas, especialmente informações sobre o processo de deliberação. No entanto, ele sugeriu que o comportamento eletrônico é mais prejudicial à integridade do processo judicial do que as comunicações face a face, porque qualquer pessoa pode ver, responder ou compartilhar comentários (FARIAS, 2014).

Além disso, uma vez que as informações estão na Internet, pode ser impossível removê-las, devido ao processo de compartilhamento potencialmente ilimitado e ao fato de que as informações podem ser armazenadas online indefinidamente.

Significativamente, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos retém uma cópia acessível ao público de todos os tweets desde o início do Twitter (AFONSO, 2013).

Infelizmente, as ordens de supressão podem não ser suficientes para impedir que informações relacionadas a casos sejam publicadas pela mídia e redes sociais.

Com o uso de mídias sociais pelos jurados para se comunicar sobre um julgamento no qual eles estão sendo processados e, portanto, não explora em profundidade a questão dos jurados que intencionalmente conduzem suas próprias pesquisas independentes na Internet.

No entanto, é importante observar que é possível que os jurados acidentalmente encontrem informações divulgadas sobre o caso por meio de discussões, atividades e navegação geral em sites de mídia social.

Essas informações adicionais podem resultar em jurados que são tendenciosos e que podem deixar de julgar puramente as evidências apresentadas antes deles no tribunal (NUCCI, 2012).

A dificuldade das informações pré-julgamento que afetam a condução de um julgamento justo é agravada apenas pelas campanhas nas mídias sociais.

Entrando em contato com as partes os membros do júri são instruídos a não se comunicar com outras pessoas sobre o julgamento.

Discussões e interações com as partes podem resultar em tendenciosidade do jurado, o que pode resultar em erro judicial. No entanto, os jurados nem sempre percebem que usar a mídia social para entrar em contato com outras partes é tão sério quanto se comunicar com elas pessoalmente (FARIAS, 2014).

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Outro aspecto que deve ser observado é que pode ser mais fácil localizar indivíduos pelas mídias sociais do que os meios tradicionais (por exemplo, não há necessidade de saber o endereço postal ou de e-mail de uma pessoa).

A resolução dos problemas criados quando os membros do local são expostos à publicidade antes do julgamento, principalmente considerando a ineficácia das técnicas existentes como atualmente empregadas, exige uma clara compreensão do papel que o júri e os jurados devem preencher, e as qualidades que eles devem possuir para fazê-lo com sucesso.

O júri também desempenha um papel importante na preservação da ordem social (MELO. 2017).

Portanto, enquanto os juristas concordam que os jurados precisam ser imparciais, conforme definido pelo Supremo Tribunal e pela experiência de outros países que usam sistemas de júri, não significa desinformação ou sem opinião.

Não requer uma abordagem irrealista, indesejável e capacidade do robô inatingível de desconsiderar conhecimentos anteriores, obtido pela mídia ou por experiência em primeira mão. Pessoas com essas características, se existirem, são más escolhas para os jurados.

Segundo a Suprema Corte, a imparcialidade não é comprometida por "mera familiaridade com o peticionário ou seu passado", mas por "uma predisposição contra ele. " Imparcial significa vontade de ouvir fatos apresentados em juízo e para avaliar esses fatos à luz da experiência e bom senso (NUCCI, 2012).

Os jurados imparciais fazem um esforço consciente para ouvir e avaliar de maneira justa, mas devemos reconhecer francamente, eles nunca serão totalmente bem-sucedidos.

De fato, as habilidades de discernimento que a maioria dos cidadãos possuem, resume-se em exercitar e refinar diariamente a avaliação da enxurrada de notícias, publicidade e retórica apresentada pela mídia.

4.1 TRIAL BY THE MEDIA

A expressão trial by the media, surgiu em decorrência da grande influência que a mídia exerce em sociedade, no decurso do processo penal e por consequência nas decisões prolatadas pelo poder judiciário.

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Esta expressão teve surgimento nos Estados Unidos da América do Norte, e objetiva a caracterização do que é entendido como pré-julgamento da imprensa, a priori no que tange aos crimes atendidos pelo tribunal do júri.

A incidência e abrangência dos novos meios de comunicação e das redes sociais, a mídia vem extrapolando seu papel em informar, e acaba por influenciar e manipular a opinião pública, que por sua vez exercem uma força sobre os juízes. Em alguns casos é nítido o desconforto criado para que estes não venha a julgar de maneira contrária àquilo que vem sendo explorado como justo pelos órgãos de comunicação.

Devido a esta tendência popular, a muito vem sendo questionada a imparcialidade dos juízes no processo, embora imbuído na magistratura este também faz parte do contesto social e porquanto também está sujeito a influencias externas.

O próprio conceito de justiça vem sofrendo distorções, prestando-se aos anseios punitivos da opinião pública, e não mais restritamente ao cumprimento da lei.

A interferência desmoderada da mídia durante o tramite processual, mitiga a garantia a um processo justo, e por conseguinte a todas as consequências constitucionais garantidas durante o transito processual, como o respeito aos direitos e garantias fundamentais, e princípios norteadores, estão sendo comprometidos, em especial no que se refere ao réu do processo. (ANDRADE, 2007, p. 285).

O anseio dos veículos de comunicação, pelo frescor da notícia e em “render” ao máximo sua cobertura jornalística, vai em direção contrária do direito ao justo processo legal, vez que a condenação dos acusados pela mídia dá-se mesmo antes de encerrado o inquérito policial, ou fitado pelo poder judiciário.

Diante de tantas interferências e inversões/subversões na lógica processual, Odoné Sanguiné apud Fábio Martins de Andrade (2007, p. 87) expõe que:

atualmente não se pode duvidar já da influência de um quarto poder o mas media e a opinião pública - no Juiz ou Tribunal, que pode, às vezes, representar um perigo mais real para a independência da Justiça que eventuais ingerências do Poder Executivo.

4.2 PROVAS COLHIDAS PELA MÍDIA – licitude ou ilicitude?

Visando embasar suas matérias jornalísticas, a mídia se propõe a produção de provas responsáveis por convencer seu público alvo de que suas histórias possuem substancia.

Referências

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