O REI DO RIO DE OURO
Charles Dickens
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O REI DO RIO DE OURO
CAPÍ TULO I
Com o o senhor vent o sudoest e se m et eu no sist em a de lavoura dos irm ãos negr os
Num a rem ota e m ontanhosa região da Estíria, houve noutros tem pos um vale da m aior e m ais surpreendente fertilidade. Era com pletam ente rodeado de m ontanhas escarpadas e rochosas cuj os picos m uito altos estavam
sem pre cobertos de neve e de onde corriam em constantes cataratas inúm eras torrentes. Um a destas m ontanhas era tão alta que, quando o sol se punha para tudo o m ais - e j á em volta dom inava a escuridão - ainda os seus raios brilhavam intensam ente sobre o rio que se despenhava do seu cum e, dando- lhe o aspecto de um chuveiro de ouro. Por esse m otivo o povo daqueles sítios cham ava- lhe o Rio de Ouro.
Era estranho que nenhum a daquelas torrentes ia cair no vale, m as todas desciam pelos outros lados dos m ontes e serpenteavam através de vastas planícies e cidades populosas. As nuvens eram im pelidas tão
constantem ente para os picos cobertos de neve e ficavam tanto tem po por sobre aquela concavidade, que, nas épocas das grandes secas e do calor, quando os cam pos próxim os estavam queim ados, ainda chovia no valezinho; as suas colheitas eram t ão abundantes, e o seu feno tão alto, e as suas m açãs tão verm elhas, e as suas uvas tão roxas, e o seu vinho tão rico, e o seu m el tão doce, que era um a m aravilha para quem os possuía e todos o conheciam pelo nom e de Vale do Tesouro.
Todo este vale pertencia a três irm ãos cham ados Schwartz, Hans e Gluck. Schwartz e Hans os dois irm ãos m ais velhos, eram m uito feios, de
sobrancelhas salientes, olhos pequenos e baços, sem pre sem icerrados para que ninguém pudesse ver o que eles pensavam e eles vissem o que
pensavam as outras pessoas.
lim as. Faziam trabalhar os criados sem lhes pagar, até que eles se
recusavam a isso; então questionavam com eles e m andavam - nos em bora sem lhes dar absolutam ente nada.
Seria m uito estranho se, com um a propriedade daquelas e sem elhante sistem a de se governarem , não enriquecessem . E enriqueceram .
Em geral arranj avam as coisas para conservar o trigo em seu poder até que ele encarecia e então vendiam - no pelo dobro do que ele valia; tinham
m ontões de ouro no chão da sua casa, m as não constava que tivessem
algum a vez dado dinheiro ou algum a côdea, de esm ola a alguém . Nunca iam à m issa, resm ungavam sem pre que pagavam as décim as e, num a palavra, eram tão cruéis e tinham t ão m au génio que as pessoas que precisavam lidar com eles os tinham alcunhado de I rm ãos Negros.
Gluck, o m ais novo, era absolutam ente diferente dos irm ãos, tanto no feitio com o no aspecto. Não tinha m ais de doze anos, era louro, de olhos azuis, e benevolente para as pessoas e para os anim ais. Claro que não se dava m uito bem com os irm ãos, ou, por outra, os irm ãos não se davam m uito bem com ele. Em geral incum biam - no do honroso trabalho de virar o espeto, quando havia algum a coisa para assar, o que não era frequente, porque, para fazerm os j ustiça aos irm ãos, devem os dizer que eles eram pouco m ais generosos consigo próprios do que com as outras pessoas. De outras vezes encarregavam - no de lim par os sapatos, o chão e a louça, apanhando de quando em quando os restos que ficavam nas travessas, com o gratificação, e m uita pancada para ser educado. As coisas cont inuaram assim durante bastante tem po, até que, por fim , veio um Verão m uito húm ido e tudo se t ransform ou nos arredores do vale.
Mal t inham acabado de colher o feno quando as m edas foram levadas para o m ar por um a inundação; a saraiva despedaçou as vinhas; a geada negra queim ou o trigo e só no Vale do Tesouro tudo cont inuou bem com o de costum e.
Assim com o tinha chovido ali quando não chovia noutros lados, assim fez sol quando não fazia noutros lados. Todos iam com prar trigo à herdade e se iam em bora m aldizendo os I rm ãos Negros. Estes pediam tudo quanto queriam pelo trigo e davam - lhes, excepto os que andavam a pedir esm ola e m orriam à sua porta, sem que eles m esm os dessem por isso.
Aproxim ava- se o I nverno e tem po frio, quando, um dia, tendo saído os dois irm ãos, Gluck ficou a tom ar sent ido no assado, com a recom endação de não dar nada a ninguém nem deixar entrar ninguém . Gluck sentou- se ao pé do lum e, porque estava m uito frio, chovia e a cozinha era desconfortável. Virou e revirou o espeto até que o assado ficou louro e apetitoso.
- Que pena os m eus irm ãos nunca convidarem qualquer pessoa para j antar! - pensou Gluck. - Estou certo que nesta ocasião em que tanta gente só tem pão seco, seria um a satisfação ter m ais alguém à nossa m esa.
abafadas com o se o m art elo est ivesse am arrado, m ais pareciam em purrões do que pancadas.
- Deve ser o vento! - disse Gluck consigo próprio. - Ninguém se atreveria a bater duas vezes à nossa porta.
Mas não era o vento e logo em seguida bateram outra vez com m ais força, e, caso estranho! com o se quem batia estivesse apressado e não receasse as consequências. Gluck abriu a j anela e debruçou- se para ver de que se t rat ava. Era um senhor com o aspect o m ais ext raordinário que ele t inha visto em toda a sua vida. Tinha um grande nariz levem ente acobreado, as faces m uito redondas e verm elhas, e não custava a acreditar se dissessem que ele tinha passado as últim as quarenta e oito horas a soprar um lum e difícil de acender. Os olhos brilhavam - lhe alegrem ente através das pestanas com pridas e sedosas. O bigode t inha as pontas encaracoladas com o saca-rolhas, dos dois lados da boca, e o cabelo, de um a cor grisalha m uito curiosa, chegava- lhe aos om bros. Tinha cerca de quatro pés e seis polegadas de altura e trazia na cabeça um barrete de bico, quase do tam anho dele, enfeitado com um a pena preta de uns três pés de
com prim ento. O seu gibão tinha a aba m uito com prida, atrás, lem brando um a cauda de andorinha excessivam ente exagerada, m as estava m eio escondido pelas pregas grossas de um a enorm e capa preta, que devia ser dem asiado grande para tem po calm o, visto que o vento, assobiando em volta da casa, lha levava para cim a a um a alt ura quatro vezes m aior do que a dele.
Gluck estava surpreendido pelo estranho aspecto do visitante que ficou sem se m exer nem dizer palavra, até que o velhote, depois de bater novam ente e com m ais força ainda à port a, se voltou para agarrar a capa que
esvoaçava ao vento. Nest e m ovim ento viu a cabeça loura de Gluck fora da j anela e cham ou:
- Olha! I sso não é m aneira de atender quem bate à porta. Deixa- m e entrar que estou m olhado da chuva.
Era verdade, o senhor estava m uito m olhado. A pena do barrete caía com o a cauda de um cãozinho pequeno, sovado, e escorria com o um chapéu de chuva; das pontas do bigode a água corria- lhe para dentro das algibeiras do colete, e dali para o chão com o se fossem ribeirinhos.
- Desculpe, senhor! - disse Gluck. - Tenho m uita pena, m as não posso. - Não podes o quê? - perguntou o velhote.
- Não posso deixá- lo entrar, senhor. Não posso, na verdade. Os m eus irm ãos m atavam - m e com pancada se eu pensasse em sem elhante coisa. O que quer, senhor?
- O que quero? - retorquiu o outro petulantem ente. - Quero lum e e abrigo. Tens aí um grande lum e a arder a crepitar, sem ninguém que o aprecie; deixa- m e entrar, não ouves? Só quero aquecer- m e.
com eçava a sentir que estava na verdade bastante frio. Quando se voltou e viu o fogo a crepitar e a arrem essar as suas labaredas brilhantes pela
cham iné acim a, com o se lam bessem as costeletas da apet itosa peça de carneiro, sentiu- se com ovido, pensando que ninguém se utilizava dele e disse consigo:
- Na verdade parece m uito m olhado e vou deixá- lo entrar só por um quarto de hora.
Foi à porta e abriu- a. Logo que o senhor entrou sentiu- se na casa um pé- de-vento que fez oscilar as cham inés.
- És um bom rapaz - disse o velhote. - Não te im portes com os teus irm ãos; eu falarei com eles.
- Não, senhor! Não faça sem elhante coisa! - pediu Gluck. - Não posso deixá-lo estar até que eles venham ; isso seria a m inha m orte.
- Meu Deus! Tenho pena de ouvir isso. Quanto tem po posso estar?
- Só até eu acabar de assar o carneiro, que j á vai estando m uito adiantado! - replicou Gluck.
O velhote deu um as passadas pela cozinha e sentou- se j unto do lum e. O extrem o do barrete tocava na parte de cim a da cham iné, porque era dem asiado alto para estar dentro de casa.
- Aqui depressa enxugará, senhor - disse Gluck sentando- se outra vez a assar o carneiro.
Mas o senhor não se enxugou. Pelo contrário, o fato cont inuou a deixar cair pingos entre as cinzas, e o lum e, espirrando, com eçou a enegrecer e a
arrefecer. Nunca se tinha visto um a capa com o aquela; de cada prega corria água com o de um a goteira.
- Desculpe, senhor - disse Gluck depois de ter visto durante um quarto de hora a água a correr em longos regat inhos prat eados pelo chão da cozinha -não posso tirar- lhe a sua capa?
- Não, obrigado - respondeu o velhote. - Nem o seu barrete?
- Estou bem assim . Obrigado! - tornou o outro j á m al- hum orado.
- Mas... senhor... Desculpe - disse Gluck hesitante. - Mas... na verdade, senhor... está... a apagar o lum e!
- Mais tem po levará a assar o carneiro! - respondeu o visitante.
Gluck estava m uito surpreendido com aquele procedim ento, que era um m isto de frieza e de hum ildade, e voltou às suas m editações durante uns cinco m inutos.
- Este carneiro tem m uito bom aspecto - observou por fim o velhote. - Não m e podes dar um bocadinho?
- É im possível, senhor.
- Tenho im ensa fom e, pois nem ontem nem hoj e com i nada. Certam ente não darão por falta de um bocadinho da perna.
Os m eus irm ãos prom eteram que m e dariam hoj e um a fatia disse. -Posso dar- lhe essa, m as m ais, não.
- És um bom rapaz! - repetiu o velho.
Então Gluck aqueceu um prato e afiou um a faca enquanto pensava: - Não m e im porto que m e batam por isto!
No m om ento em que cortava um a grande fatia do carneiro sentiu- se um a forte pancada na porta.
O velhote saltou do pé da cham iné, com o se de repente sentisse calor dem ais.
Gluck esforçou- se por t ornar a colocar a fat ia no sít io de onde a t inha t irado e correu a abrir a porta.
- Por que nos deixaste estar à espera tanto tem po? - pergunt ou Schwartz entrando e arrem essando o guarda- chuva para a cara de Gluck.
- Porquê, m eu vadio? - perguntou Hans dando- lhe um trem endo m urro na orelha, enquanto seguia atrás do irm ão.
- Louvado sej a Deus! - disse Schwartz j á dentro de casa.
- Am em ! - respondeu o velhote, que t inha t irado o barrete e estava no m eio da cozinha curvando- se em reverências tão rápidas quanto possível.
- Quem é este hom em ? - perguntou Schwartz pegando num rolo de estender a m assa e volt ando- se para Gluck com ar furioso.
- Não sei quem é! - respondeu Gluck aterrorizado. - Com o entrou cá? - berrou Schwartz.
- Não sei - disse Gluck hum ildem ente. - Ele estava tão m olhado!...
O rolo da m assa desceu sobre a cabeça de Gluck, m as no m esm o instante o velho estendeu o barrete, que aparou a pancada; esta fez espalhar a água por toda a casa. O m ais extraordinário de t udo foi que, logo que o rolo tocou no barrete, se escapou da m ão de Schwartz, redem oinhando com o um a palha ao vento, e caiu no canto m ais afastado da casa.
- Quem é o senhor? - perguntou Schwartz dirigindo- se ao velhote. - O que faz aqui? - disse Hans por sua vez.
- Sou um pobre hom em - respondeu m odestam ente o desconhecido - e com o vi através da j anela um lum e tão bom , pedi abrigo durante um quarto de hora.
- Nesse caso tenha a bondade de sair outra vez! - ordenou Schwartz. - Já tem os água que chegue na cozinha, sem fazer dela um secadouro.
- Está um dia m uito frio para porem assim um a pessoa na rua; olhem para o m eu cabelo grisalho!
Este chegava- lhe aos om bros, com o j á dissem os.
- Já o vi! - respondeu Hans. - Chega para se aquecer. Mexa- se!
- Tenho m uita fom e, senhores. Não m e podem dar um bocadinho de pão antes de m e ir em bora?
- Por que não vende a pena do seu barrete? - alvitrou Hans desdenhosam ente. Ponha- se a andar!
- Só um bocadinho! - suplicou o velhote. - Rua! - gritou Schwartz.
- Por favor, senhores!
- Sum a- se da m inha vista! - exclam ou Hans, agarrando- o pelo colarinho. Mas, m al lhe tocou, seguiu o cam inho do rolo da m assa, dando voltas no ar até que foi parar ao m esm o canto. Então, Schwartz, que estava m uito zangado, correu para o desconhecido no intuito de o em purrar para a rua, m as, assim que lhe tocou, foi, com o Hans e o rolo, parar ao canto, e bateu com a cabeça na parede ao cair. Ali ficaram pois os três.
O velhote rodou tam bém com grande velocidade, m as para o canto oposto e, um a vez lá, continuou a andar de roda até que a sua grande capa lhe ficou toda enrolada em volta do corpo; m eteu o barrete na cabeça m uito à banda, porque o tecto não t inha altura para ele ficar direito, t orceu de novo as pontas do bigode e disse com um a grande indiferença:
- Muito bom dia, m eus senhores. À m eia- noite cá estarei outra vez e, depois de m e terem recebido tão bem , por certo não se adm iram se essa for a últ im a visita que lhes faço.
- Se o apanho aqui m ais algum a vez... resm ungou Schwartz, m eio assustado, saindo do canto.
Mas, antes de ele poder acabar a frase, o desconhecido saiu, batendo com a porta.
No m esm o instante o farrapo de um a nuvem passou pela j anela,
redem oinhou e afastou- se em direcção ao vale, tom ando toda a espécie de form as. Deu voltas e voltas até que finalm ente se desfez num enorm e aguaceiro.
- Bonito serviço, senhor Gluck! - disse Schwartz. - Ponha o carneiro num a travessa. Se o torno a apanhar num a destas... Mas por que diabo está o carneiro partido?
- Prom eteste- m e um a fatia, irm ão, bem sabes! - m urm urou Gluck.
- E então cortaste- a quente, para ficares com o m olho todo! Não será tão depressa que te prom eto sem elhante coisa outra vez. Sai daqui, e faz favor de esperar na carvoeira até que eu te cham e.
Gluck foi- se em bora m uito triste. Os irm ãos com eram todo o carneiro que quiseram , fecharam o rest o no arm ário e puseram - se a beber, a beber. Que noit e aquela! O vent o assobiava e a chuva caía sem int errupção.
Os dois irm ãos beberam t anto que m al puderam fechar as portas interiores das j anelas e correr as duas trancas da porta antes de irem para a cam a. Habit ualm ente dorm iam no m esm o quarto.
Quando bateu a m eia- noite, um enorm e barulho acordou- os e a porta abriu-se com tal violência que toda a casa estrem eceu.
- Sou eu! - disse o desconhecido dessa tarde.
Os dois irm ãos sentaram - se na cam a e ficaram a olhar na escuridão. O quarto estava cheio de água e, à luz de um raio de luar enevoado, que conseguia entrar por um buraco da j anela, distinguiram no m eio da espum a um a bolha de água flutuando, sobre a qual, recostado com o na m ais luxuosa alm ofada, estava o velhote com barrete e tudo. Agora j á podia ter o barrete a direito, porque a casa não tinha tecto.
- Desculpem - m e incom odá- los - disse ele ironicam ente. - Talvez as vossas cam as estej am húm idas e sej a m elhor passarem para o quarto do vosso irm ão, que ainda tem tecto.
Não precisaram ouvir isto duas vezes.
Cheios de m edo e m olhados até aos ossos, correram para o quarto de Gluck. O m eu cartão de visita fica sobre a m esa da cozinha disse o velhote. -Lem brem - se que é a últim a visita.
- Oxalá assim sej a! - resm ungou Schwartz com um arrepio. A bolha de água desapareceu.
Finalm ente rom peu o dia e, de m anhã, os dois irm ãos olharam através da j anela do quarto de Gluck.
O Vale do Tesouro estava transform ado num desolado m ontão de ruínas. A cheia tinha levado árvores, colheitas e gado, deixando em seu lugar um a enorm e extensão de areia verm elha e lam a acinzentada.
Apavorados e a t rem er, os dois irm ãos encam inharam - se para a cozinha. A água t inha entrado no prim eiro andar; trigo, dinheiro, quase t udo o que podia ser arrastado, tinha desaparecido, m as na m esa da cozinha t inha ficado um cartão branco sobre o qual se via em grandes letras est as palavras: o senhor vento sudoeste.
CAPÍ TULO I I
O que os t r ês ir m ãos fizer am depois da visit a do senhor vent o sudoest e, e com o o pequeno Gluck t eve um a ent r evist a com o r ei do r io de our o
procurarem m eio de ganhar a vida nas cidades grandes e populosas. Todo o seu dinheiro t inha desaparecido, ficando apenas algum as peças da baixela de ouro, restos da sua riqueza m al adquirida.
- E se nos fizéssem os ourives? - lem brou Schwartz a Hans, quando
entravam num a grande cidade. - É um bom negócio e podem os m isturar um a grande quantidade de cobre no ouro, sem que ninguém dê por isso. O outro achou a ideia esplêndida e, com binado tudo, alugaram um forno e fizeram - se ourives.
Porém , duas circunstâncias afectaram o negócio: em prim eiro lugar a
m aioria das pessoas não gostava do ouro acobreado e, em segundo, os dois irm ãos sem pre que vendiam algum a coisa deixavam o m ais novo a tom ar conta do forno, e iam para a taberna do lado gastar todo o dinheiro em vinho.
Deste m odo derreteram todo o ouro sem guardar dinheiro suficiente para com prar m ais. Em pouco tem po ficaram reduzidos a um a grande caneca que um t io tinha dado ao pequeno Gluck. O rapazinho gostava m uito dela e por nada no m undo queria vê- la desaparecer, em bora só lhe servisse para beber leite ou água.
A caneca t inha um aspecto m uito extraordinário; a asa era form ada por duas argolas de cabelo dourado, tão fino que m ais pareciam fios de seda do que de m etal; est as argolas desciam em m adeixas a j untar- se com um a barba e suíças do m esm o requint ado trabalho, que rodeavam um a cara de ouro, o m ais averm elhado que se podia im aginar, na frente da caneca, e cuj os olhos pareciam dom inar tudo em redor. Era im possível beber pela caneca sem que eles se fitassem na pessoa que bebia, e Schwartz assegurava que j á um a ocasião, em que a tinha bebido cheia de vinho do Reno dezassete vezes a fio, a t inha visto piscar o olho.
Quando chegou a vez da caneca ser transform ada em colheres, o pobre Gluck sent iu despedaçar- se- lhe o coração; m as os irm ãos riram - se dele, arrem essaram a caneca para o cadinho e foram para a taberna, deixando- o com o de costum e incum bido de fazer o ouro em barras quando estivesse pronto para isso.
Depois de eles saírem . Gluck deitou um olhar de desdita ao am igo que estava dentro do cadinho. As m adeixas do cabelo t inham desaparecido. Só rest ava agora o nariz verm elho e os olhos brilhant es, que pareciam m ais vingativos do que nunca.
«Não adm ira! » - pensou Gluck. - Tendo sido tratado da m aneira que foi! Encam inhou- se tristem ente para a j anela e sentou- se ali para apanhar o fresco da tarde e fugir ao bafo quente do forno. Desta j anela via- se a
de fogo, que pareciam labaredas, e o rio, m ais brilhante que todas elas, caía com o um a coluna de ouro puro de precipício em precipício, com o um duplo arco- íris que se estendesse pela encost a, tornando- se ora de um verm elho m ais forte ora m ais desm aiado por entre a espum a.
Depois de ter olhado para ali durante alguns m om entos, Gluck exclam ou: - Que bom seria se aquele rio fosse, na verdade, todo de ouro!
- Não. Estás enganado. Gluck! - disse perto do seu ouvido um a voz clara e m etálica.
- Deus m eu! O que é isto? - perguntou o rapaz dando um salto.
Não havia ali ninguém . Procurou por todo o quarto, debaixo da m esa, atrás de si. e, quando se certificou de que estava sozinho, voltou a sentar- se j unto da j anela.
Desta vez não falou, m as não pôde deixar de pensar nas vantagens que haveria se o rio fosse realm ente de ouro.
- De m odo nenhum , m eu rapaz! - disse a m esm a voz ainda m ais alto. - Deus m eu! - tornou Gluck. - O que é isto?
Rebuscou todos os cantos e arm ários; com o não viu nada, com eçou a andar de roda, de roda, tão depressa quanto podia, no m eio do quarto, pensando que est aria alguém por t rás dele, e ouviu de novo a m esm a voz, agora j á não a falar, m as a cantar alegrem ente: «Lara- lira- lá». Não dizia palavra, m as cant arolava num a m elodia cheia de vivacidade, que lem brava a água a ferver num a chaleira. Gluck olhou para fora da j anela. Não; era certam ente dentro de casa. Em cim a ou em baixo? Não podia deixar de ser naquele m esm o quarto, e cada vez m ais apressada e em notas m ais claras. «Lara-lira- lá».
De repente, Gluck notou que parecia ouvir- se m elhor perto do forno. Aproxim ou- se e olhou para dentro. Sim , o som vinha não só de dentro do forno, m as de dentro do cadinho. Destapou- o e deu um salto, assustado, porque era na verdade dali que saía a voz. Conservou- se durante um ou dois m inutos no canto m ais distante da casa, com as m ãos na cabeça e a boca aberta, até que a voz deixou de cantar e pronunciou com grande clareza: - Ouve!
Gluck não respondeu.
- Ouve, m eu rapaz! - tornou a voz.
Gluck cham ou a si todas as suas energias e encam inhou- se para o cadinho; tirou- o de cim a da fornalha e olhou para dentro. O ouro estava todo
derretido e, ao de cim a, tão liso e polido com o um rio; m as, ao olhar para lá, Gluck não viu a sua cabeça reflect ida. Em lugar dela, o seu olhar distinguiu no fundo do cadinho o nariz verm elho e os olhos penetrantes do seu velho am igo da caneca; um nariz m il vezes m ais verm elho e uns olhos m il vezes m ais penetrantes do que nunca.
Mas Gluck estava de tal m aneira atónito que não podia fazer nada. - Vaza- m e, j á te disse! - tornou a voz m uito m al- hum orada.
Gluck cont inuou sem se m over.
- Não m e queres vazar? - repetiu a voz irritadíssim a. - Estou dem asiado quente.
Com um esforço violento, Gluck conseguiu m exer os m em bros, agarrou no cadinho com o para vazar o ouro, m as, em lugar de correr líquido, saíram de lá prim eiro duas perninhas am arelas, logo a aba de um casaco, depois dois braços dobrados, e finalm ente a bem conhecida cabeça do seu am igo da caneca.
Todos estes artigos se j untaram à m edida que iam rolando e ficaram depois de pé no chão do quarto, com a form a de um anãozinho de ouro, com cerca de pé e m eio de altura.
- Muito bem ! - disse o anão estendendo prim eiro as pernas e os braços e logo sacudindo a cabeça para cim a e para baixo, tão depressa quanto podia, durante cinco m inutos, sem parar.
Parecia querer certificar- se se as suas articulações se m oviam bem , enquanto Gluck o olhava m udo de espanto. Tinha vest ido um gibão
golpeado, do m ais fino tecido de ouro e de fios de cores m uito brilhantes, e que em conj unto lem bravam m adrepérola; sobre este gibão caía- lhe o cabelo e a barba at é quase aos pés, em ondas de um a delicadeza t ão requintada que m al se podia dizer onde acabavam , ou se se desfaziam no ar. As feições distinguiam - se nit idam ente; eram grosseiras, e a cor da pele acobreada dava a im pressão que o anãozinho era um a pessoa m al disposta e intratável. Quando acabou de se exam inar a si próprio. voltou- se para Gluck e, depois de o fitar com os seus olhos penetrantes um ou dois m inutos, disse:
- Não, Gluck. Estás enganado, m eu rapaz!
I sto era de certo um m odo disparatado de com eçar a conversa. Podia na verdade supor- se que se referia ao seguim ento dos pensam entos de Gluck, vist o que fora a est es que a prim eira observação do anão t inha respondido. Mas, fosse com o fosse, Gluck não se sentia inclinado a discut ir e perguntou, hum ilde e subm isso:
- Acha que estou, senhor?
- Decert o que sim , afirm ou o anão.
Dito isto, puxou o boné até às sobrancelhas e com eçou a passear no quarto de um lado para o outro, levantando m uito as pernas e assentando os pés com grande força.
Esta pausa deu tem po a Gluck para coordenar ideias; não vendo razão para tem er o seu pequeno visitante e sentindo m aior curiosidade do que espanto, aventurou- se a fazer esta pergunta bastante m elindrosa:
- Diga- m e, por favor, senhor, era a m inha caneca?
Gluck e, em pertigando- se, disse: - Eu sou o Rei do Rio de Ouro.
Em seguida tornou a voltar- se, deu m ais um ou dois passeios de cerca de seis pés, para dar tem po a que se desvanecesse a em oção causada no seu interlocutor pelo que acabava de dizer. Depois encam inhou- se outra vez para ele e parou na sua frente com o se esperasse um com entário à sua afirm ação.
Gluck decidiu dizer algum a coisa, desse por onde desse, e perguntou: - Vossa Maj estade está bem ?
Ouve! disse o anão sem se dignar responder a esta frase tão cortês. -Sou o Rei daquilo a que vocês, m ortais, cham am o Rio de Ouro. Vês- m e sob esta form a devido à m aldade de um rei m ais forte do que eu, e de cuj o encant o acabas de m e libertar. O que sei a t eu respeito e do teu
com portam ento para com os teus dois m aus irm ãos, leva- m e a proteger- te; por conseguinte, ouve o que vou dizer- te: para aquele que subir até o topo da m ontanha onde nasce o Rio de Ouro, e deitar na nascente do rio três gotas de água benta, para ele e só para ele, o rio transform ar- se- á em ouro. Mas o que não conseguir fazer pela prim eira vez, tam bém o não fará pela segunda, e, se alguém deitar no rio água que não sej a benta, aquele cobri-lo- á e t ransform á- cobri-lo- á num a pedra negra.
Dizendo isto, o Rei do Rio de Ouro voltou- se e cam inhou deliberadam ente para o ponto m ais esbraseado da fornalha. A sua figura tornou- se verm elha, branca, deslum brante de luz rósea, trem eu e desapareceu. O Rei do Rio de Ouro tinha- se evaporado.
- Oh! - gritou o pobre Gluck, correndo, na esperança de o ver subir pela cham iné. - Meu Deus! Meu Deus! A m inha caneca! A m inha caneca! A m inha caneca!
CAPÍ TULO I I I
Com o o senhor Hans par t iu num a expedição par a o r io de our o e quant o lucrou com isso
Contudo, na m anhã seguinte, a exactidão com que o rapaz tornou a contar a sua história fê- los acreditar. Em consequência disto, os dois irm ãos, depois de questionarem , durante m uito tem po, sobre qual deles devia ser o
prim eiro a tentar fortuna, desem bainharam as suas espadas e com eçaram a com bater. O barulho da contenda alarm ou a vizinhança, que, vendo- se incapaz de os apaziguar, cham ou a polícia.
Ouvindo isto, Hans conseguiu fugir e esconder- se, m as Schwartz foi levado diante do m agistrado, m ultado por alterar a ordem e, com o na noite anterior tinha gasto em vinho os últim os cobres, ficou preso, até poder pagar a
m ulta.
Quando soube esta not ícia, Hans, satisfeitíssim o decidiu partir
im ediatam ente para o Rio de Ouro. O m ais difícil era obter a água benta. Foi pedi- la ao padre, m as o padre não podia dar água benta a um a pessoa tão m al com portada; por isso Hans foi nessa noite assistir às vésperas pela prim eira vez na sua vida e, fingindo m olhar a m ão para se persignar, furtou um copo cheio de água e voltou para casa, radiante.
Na m anhã seguinte levantou- se antes do nascer do sol, deitou a água benta num frasco e pôs este, com duas garrafas de vinho e um bocado de carne, num cesto. At irou tudo para as costas, agarrou no seu pau ferrado e partiu para a m ontanha.
Quando ia sair da cidade, passou pela prisão e olhou para as j anelas. Quem havia ele de ver espreitando pelas grades com ar m uito desconsolado? Schwartz, o próprio irm ão.
- Bom dia, irm ão! - disse Hans. - Queres algum a coisa para a Rei do Rio de Ouro?
Schwartz rangeu os dentes de raiva e sacudiu as grades com toda a força, m as Hans riu- se dele e aconselhou- o a ficar quieto até ao seu regresso. Em seguida puxou o cesto para baixo, tirou o frasco da água benta, chocalhou- o perto da cara do irm ão até a água fazer espum a, e foi- se em bora na m elhor das disposições.
Na verdade, a m anhã estava para fazer feliz qualquer pessoa, m esm o que não tivesse de ir à procura do Rio de Ouro.
Do vale envolto em neblina erguiam - se as m ontanhas enorm es, com as encostas em tons de verde pálido que m al se dist inguiam do nevoeiro, e subindo gradualm ente até lhes dar a luz do sol, que punha com o que
pinceladas de cores vivas ao longo dos precipícios, e penetrava com os seus raios baixos por ent re a verdura dos pinheiros. Muit o m ais acim a elevavam -se as rochas enorm es, tom ando as m ais fantásticas form as; aqui e além o reflexo do sol na neve assinalava as arestas das suas fendas, que pareciam cham ej ar. Mais longe ainda e m ais alto que tudo isto, quase indist intos na luz da m anhã, m as puros e im ut áveis, destacavam - se no céu azul os picos onde a neve é eterna.
estava agora quase na som bra. Só os m ais altos j actos de espum a, que se elevavam com o fum o acim a da linha ondulante da catarata, flutuavam com o frágeis grinaldas ao vento da m anhã. Era ali, e ali apenas, que se fixavam os olhos e os pensam entos de Hans. Esquecido da distância que tinha de andar, pôs- se a cam inho num passo dem asiado rápido, que o fat igou antes de ter escalado a prim eira colina. Além disso, surpreendeu- o sobrem aneira ver que um a enorm e geleira, cuj a existência ignorava por com pleto, apesar de
conhecer bem a m ontanha, o separava ainda da nascente do Rio de Ouro. Entrou nela com a audácia de um alpinist a prát ico, m as não sem pensar que nunca tinha atravessado outra tão perigosa. O gelo era m uito escorregadio e de todas as suas fendas vinha um barulho sem elhante ao da água
rebentando da terra; não m onótono ou baixo, m as variado e alto, lem brando m elodias selvagens, depois descendo em tons m elancólicos, com o gritos ou gem idos de vozes hum anas em desespero e dor. O gelo estava estilhaçado e tinha form as confusas, m as nenhum a igual às que costum ava ter. Aquelas lem bravam caras de pessoas, contorcidas e desdenhosas.
Miríades de som bras enganadoras e de luzes pálidas m oviam - se através das arestas m ais altas, deslum brando e encandeando a vista do viaj ante,
cansando- lhe os ouvidos e entontecendo- o com os ruídos constantes das águas ocultas. Estas dolorosas circunstâncias agravavam - se à m edida que avançava. O gelo estalava e abria- se em fendas aos seus pés; agulhas
estrem eciam à sua volta e caíam em estilhas no cam inho; em bora j á m uitas vezes tivesse encarado perigos assim , nas m ais terríveis geleiras e com m uito pior tem po, foi com um sent im ento opressivo de horror que saltou a últ im a fenda e se arrem essou, esgotado e a trem er de frio, para a terra firm e da m ont anha.
Tinha- se visto obrigado a abandonar o cesto das provisões por se tornar um perigoso est orvo ao at ravessar a geleira, e não t inha agora m aneira de se alim ent ar senão quebrando e com endo algum bocadito de gelo. I sto, ainda assim , aliviou- lhe a sede. Um a hora de repouso deu- lhe novo alent o, e com o seu indom ável espírit o de avareza recom eçou a laboriosa j ornada. O cam inho, agora, seguia pela ladeira de um a m ontanha de rochas verm elhas e escalvadas, sem o m ais leve vislum bre de erva que facilitasse o andar, ou um ângulo saliente, cuj a som bra o protegesse do sol ardente.
Passava do m eio- dia e os raios do sol incidiam no cam inho íngrem e. Não corria a m ais leve aragem e o calor era int enso. Um a sede horrível agravou em breve a fadiga que afligia Hans. Já por várias vezes tinha relanceado um olhar ao frasco da água que levava à cintura.
«Três gotas chegam - pensou por fim - e poderei ao m enos refrescar os lábios».
secas, os m em bros estendidos e sem vida; um a porção de form igas
cam inhavam - lhe pelo focinho e pelo pescoço. Estava com os olhos fitos no frasco que Hans segurava, m as este bebeu, afastou o anim al com o pé e passou.
Não soube bem com o, m as convenceu- se de que subitam ente um a som bra estranha tinha atravessado o céu azul.
O cam inho tornava- se m ais íngrem e e difícil a cada m om ento, e o ar daquela altitude, em lugar de refrescar, parecia pôr- lhe no sangue o calor da febre. O ruído da água que caía dos m ontes ecoava- lhe escarninho aos ouvidos. Era m uito longe e a sede aum ent ava cada vez m ais.
Passou outra hora e ele de novo olhou para o frasco que levava ao lado; estava m eio, t inha, por conseguinte, m uito m ais de três gotas de água. Parou para o abrir, e de novo viu ali perto um a coisa que se m ovia. Era um a criança loira, estendida quase sem vida, sobre a rocha. Estava ofegante, tinha os olhos fechados e os lábios secos. Hans olhou para ela e, num gesto resoluto, bebeu e seguiu o seu cam inho. Um a nuvem cinzenta escura
encobriu o sol, e som bras, com pridas com o serpentes, rastej aram ao longo da encosta.
Hans cont inuou a subir.
O sol declinava, m as nem assim o calor dim inuía. O ar, pesado com o chum bo, oprim ia o coração de Hans, m as o fim estava perto. Já via a catarata do Rio de Ouro cachoando na encosta a uns escassos quinhentos pés de dist ância. Parou um m om ento para respirar e continuou. Pouco depois ouviu um grito fraco. Voltou- se e viu um hom em de cabelo grisalho estendido nas rochas. Tinha os olhos encovados, o rosto pálido e pediu num desalento estendendo os braços para Hans:
- Água! Água! Estou a m orrer.
- Não tenho nenhum a! - respondeu Hans. - Já viveste o que t inhas a viver! Passou por cim a do corpo estendido no cam inho e seguiu.
Um clarão de luz azul ergueu- se do lado do Oriente e tom ou a form a de um a espada; agitou- se por três vezes no céu e deixou tudo im erso na m ais
im penetrável som bra. O sol estava a esconder- se, m ergulhando no horizonte com o um a bola de fogo.
Hans ouviu o rugido do Rio de Ouro. Parou à beira da abertura por onde ele saía. A luz verm elha do sol poente trazia a sua água, cuj a espum a brilhava em línguas de fogo. O som tornava- se cada vez m ais forte e entontecia Hans. Com um arrepio, t irou o frasco do cinto e arrem essou- o para o m eio da torrente. Logo sentiu um frio estranho gelar- lhe os m em bros. Cam baleou e caiu com um grito.
CAPÍ TULO I V
Com o o senhor Schw ar t z par t iu num a expedição par a o r io de our o e quant o lucrou com isso
O pobre Gluck, sozinho em casa, esperou ansiosam ente a volta de Hans. Quando se convenceu de que ele não vinha, ficou m uito apoquentado e foi à prisão dizer a Schwartz o que t inha acontecido.
Schwartz, m uito satisfeito, respondeu- lhe que Hans provavelm ente se tinha transform ado num a pedra negra e que, sendo assim , todo o ouro ficaria para ele. Mas Gluck cont inuou m uito triste e chorou toda a noite.
Na m anhã seguinte, quando se levantou, não havia pão nem dinheiro em casa, por isso foi- se oferecer a outro ourives. Trabalhou tanto, tão bem e tantas horas em cada dia, que em breve teve dinheiro bastante para pagar a m ulta do irm ão. Foi à prisão levar- lha e o outro foi posto em liberdade.
Então Schwartz prom eteu dar- lhe algum do ouro do rio, m as Gluck só lhe suplicou que fosse para ver o que era feito do irm ão Hans.
Schwartz, ao saber que Hans t inha furtado a água benta, disse com os seus botões que por certo sem elhante processo não tinha sido bem visto pelo Rei do Rio de Ouro, e resolveu arram ar as coisas de m elhor m aneira.
Assim , com algum do dinheiro de Gluck, foi procurar um m au padre que facilm ente lhe vendeu água benta. Convencido de que tudo estava assim bem , Schwartz na m anhã seguinte levantou- se antes do sol nascer, m eteu algum pão e vinho num cesto, deitou a água benta num frasco e partiu para a m ontanha.
Tal qual com o o irm ão, ficou m uito adm irado quando viu a geleira e teve grande dificuldade em atravessá- la, m esm o depois de abandonar o cesto das provisões. O dia não estava enevoado, m as tam bém não estava claro, pois havia um a leve neblina suspensa do céu e os m ontes pareciam som brios e tristes.
À m edida que Schwartz ia subindo o cam inho íngrem e e rochoso, a sede assalt ava- o, com o t inha assalt ado o irm ão, e em certa alt ura levou o frasco aos lábios para beber. Ent ão viu a criança loira estendida perto dele nas rochas, chorando e pedindo água.
- Água? Não tenho nem m etade da que preciso para m im !... - disse Schwartz.
E seguiu.
Pareceu- lhe que os raios de sol eram m enos claros e viu um a nuvem negra erguer- se do Oeste.
Depois de andar m ais um a hora, sent iu novam ente um a sede intensíssim a e pensou em beber.
Schwartz. E seguiu.
Teve a im pressão de que a luz lhe fugia dos olhos e, olhando para cim a, notou que um a nuvem cor de sangue t inha encoberto o sol.
A nuvem estava m uito alta e as suas extrem idades m oviam - se com o as vagas de um m ar revolto, proj ectando som bras com pridas que
ziguezagueavam no cam inho.
Schwartz continuou a andar durante outra hora; de novo a sede voltou e, quando ia levar o frasco à boca, j ulgou ver Hans, o seu irm ão, estendido no cam inho, levantando os braços para ele pedindo- lhe água.
- Ah! Ah! - riu Schwartz. - Estás aqui? Lem bra- te das grades da prisão, m eu rapaz! Água? I m aginas que vim até aqui com um frasco de água para te dar?
Passou por cim a do corpo e seguiu, m as ao passar j ulgou ver um sorriso de escárnio nos seus lábios.
Deu m ais uns passos e olhou para trás, m as j á não distinguiu nada. Sem saber porquê, sentiu um súbito terror; no entanto a sede do ouro venceu tudo e ele continuou a cam inhar.
A nuvem negra subiu até ao zénite e dela saíram espirais de luz e vagas escuras, que pareciam flutuar por entre as cham as, espalhando- se por todo o céu.
À luz do sol poente todo o firm am ento parecia um lago de sangue; levantou-se um vento forte que despedaçou as nuvens verm elhas em fragm entos, atirando- as para longe, e, quando Schwartz chegou à beira do Rio de Ouro, as suas águas estavam negras com o nuvens de trovoada e a sua espum a parecia fogo.
Quando ele deitou o frasco ao rio, o rugido das águas e o dos trovões
confundiram - se, brilharam luzes diante dos seus olhos, a terra cedeu sob os seus pés e as águas fecharam - se sobre ele. O barulho do rio tornou- se m aior ao saltar para cim a das duas pedras negras
CAPÍ TULO V
Com o o pequeno Gluck par t iu num a ex pedição par a o r io de our o e o que ele lucrou com isso, e out ros assunt os de int eresse
Quando viu que Schwartz não voltava, Gluck ficou m uito triste e não sabia que fazer. Não tinha dinheiro e viu- se obrigado a oferecer- se outra vez ao ourives que o fazia trabalhar tanto e lhe dava tão pouco dinheiro.
Ao fim de um ou dois m eses, Gluck estava cansado e decidiu ir tentar fort una ao Rio de Ouro.
negra! - pensou.
Foi ter com o padre, que logo lhe deu a água benta.
Então, Gluck m eteu um bocado de pão num cesto, pegou na garrafa da água e partiu de m anhã cedo para a m ontanha.
Se a geleira tinha dado m uitos trabalhos e fadigas aos seus irm ãos, foi vinte vezes pior para ele, que não era tão forte nem tinha tanta prática de
m ontanhas. Caiu várias vezes, perdeu o cesto com o pão e passou grandes sustos ao ouvir os barulhos estranhos da água sob o gelo.
Quando saiu da geleira, ficou um bocado deitado na relva a descansar e com eçou a subir precisam ente à hora m ais quente do dia.
Depois de andar um a hora, sent iu m uita sede e ia beber, com o os irm ãos, quando viu um velho, que parecia m uito fraco, cam inhar ao seu encontro am parado a um bordão.
- Meu filho - disse o velhote - dá- m e um a pinguinha de água, que estou a m orrer de sede.
Então, Gluck olhou para ele e, vendo- o pálido e cansado, deu- lhe a água. - Só lhe peço que não beba toda! - disse Gluck.
Mas o velhote bebeu m uita e, quando lhe entregou a garrafa, esta est ava quase vazia.
Desej ou- lhe boa viagem e Gluck seguiu alegrem ente.
O cam inho era agora m ais fácil, viam - se algum as ervas e as cigarras com eçaram a cantar. Gluck pensou que nunca t inha ouvido um canto tão alegre.
Cam inhou m ais um a hora, e, com o a sede aum entasse, estava j á decidido a beber, m as, m al pegou na garrafa, viu ao seu lado um a criança ofegante que lhe pedia água.
Gluck lutou consigo próprio e, decidido a suportar a sede por m ais algum tem po, pôs a garrafa à boca da criança, que deixou apenas algum as gotas de água. Em seguida sorriu- se para ele e desceu a encosta a correr.
Gluck ficou a olhá- la até que ela se tornou pequenina com o um a estrela. Voltou- se então e seguiu o seu cam inho.
Nas rochas abriam as m ais lindas flores. O m usgo, de um verde tenro, estrelava- se de pequeninas flores cor- de- rosa, de gencianas m ais azuis do que o céu e de lírios brancos e t ransparent es. Borbolet as esvoaçavam aqui e além e o céu tinha um a luz t ão pura que o pequeno Gluck nunca se sent ira tão feliz na sua vida.
Subiu durante m ais de um a hora, ao fim da qual a sede se tornou
intolerável, m as quando olhou para a garrafa viu que só lhe restavam cinco ou seis gotas de água e não se atreveu a beber.
que o não conseguir fazer pela prim eira vez tam bém o não fará pela
Segunda», e tentou passar pelo cão, m as este uivou tão doloridam ente que o pequeno Gluck tornou a parar, dizendo consigo:
- Pobre anim alzinho! Se o não socorro j á, estará m orto quando volt ar para baixo.
Em seguida aproxim ou- se m ais e viu nos olhos do cão um a tal tristeza, que não pôde resistir.
- Maldito o Rei e o seu ouro! - disse Gluck abrindo o frasco e deitando na boca do cão toda a água que ele continha.
O anim al levantou- se e pôs- se de pé nas pernas de trás.
A cauda desapareceu- lhe e as orelhas foram - se tornando m ais com pridas, sedosas e douradas; o nariz fez- se verm elho e os olhos brilhantes. Em três segundos o cão desapareceu e Gluck viu na sua frente o seu velho
conhecido, o Rei do Rio de Ouro.
- Obrigado! - disse o rei. - Não te assustes que está t udo bem ! - acrescentou vendo que o pequeno Gluck parecia arrependido do que acabava de dizer. -Por que não vieste há m ais tem po, em lugar de m e m andares os pat ifes dos teus irm ãos, que m e deram o trabalho de os transform ar em pedras? E bem duras que elas são! ...
- Oh! Meu Deus! Foi assim tão cruel?
Cruel? Lem bra te que a água que eles deitaram no m eu rio não era benta -disse o anão. - I m aginas que estou disposto a consentir sem elhante coisa? - Mas - respondeu Gluck - eu estou certo que eles trouxeram a água da igrej a.
- É provável - cont inuou o anão m ostrando- se j á m uito zangado - m as a água que se recusa a um m oribundo perde a virtude, em bora antes disso tenha sido abençoada por todos os santos e santas da corte do Céu. E a água que fica no cálix de m isericórdia depois de ter socorrido um infeliz, está benta, ainda que qualquer contacto a tenha tornado im pura.
Falando assim , o anão dobrou- se e cortou um lírio que crescia a seus pés, e em cuj as pét alas brancas repousavam três gotas de orvalho cristalino.
Deitou- as para dentro do frasco que o pequeno Gluck t inha na m ão, e aconselhou- o:
- Deita- as agora no rio e desce pela outra encosta da m ontanha até ao Vale do Tesouro. Boa viagem !
Enquanto falava, a figura do anão tornou- se indist int a. As cores do seu fato form aram um nevoeiro irisado que o cobriu por instantes com o se fosse o verdadeiro arco- íris. Pouco a pouco as cores apagaram - se e o nevoeiro diluiu- se no ar. O rei tinha- se evaporado.
Gluck encam inhou- se para a beira do Rio de Ouro, cuj as ondas eram lím pidas com o o cristal e brilhantes com o o sol.
a olhar durante algum tem po.
Estava m uito desapontado, porque não só o rio se não t inha transform ado em ouro, m as as suas águas pareciam m uito dim inuídas.
No entanto, obedeceu ao seu am igo anão e desceu pela outra encosta da m ontanha para o Vale do Tesouro.
Enquanto andava, j ulgou ouvir o barulho da água abrindo cam inho por debaixo da terra, e, quando avistou o Vale do Tesouro, um rio, com o o Rio de Ouro, saía de um a nova fenda das rochas e corria em inúm eros braços de água por entre os m ontões de areia seca e verm elha.
À m edida que o pequeno Gluck abria os olhos cheios de espanto, cresciam nas m argens dos ribeirinhos relva fresca e plantas trepadeiras, que iam alast rando por ent re o solo húm ido. Flores abriam de súbit o, com o as
estrelas que com eçam a cint ilar quando a noite desce, e m oit as de m urta e hastes de vinha ensom bravam o vale.
Assim o Vale do Tesouro se transform ou outra vez num j ardim , e a riqueza que os irm ãos t inham perdido em castigo da sua crueldade era agora
recuperada com o prém io da sua abnegação.
Gluck ficou a viver no vale e nunca os pobres foram escorraçados da sua porta, por isso os celeiros se lhe encheram de trigo e a casa de tesouros. Para ele o rio tinha- se transform ado num Rio de Ouro - conform e a
prom essa do anão.
Desde esse dia os habitantes do vale m ostram o lugar onde as três gotas de orvalho foram deitadas no rio, apontando o curso do Rio de Ouro por
debaixo da terra até aparecer no Vale do Tesouro, e no topo da catarata vêem - se ainda as duas Pedras Negras, em volt a das quais as águas rugem tristem ente todos os dias ao pôr- do- sol. A gente do vale ainda hoj e cham a a essas pedras os irm ãos negros.
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