RAÇA, CIÊN CIA E SO CIEDADE. M arcos Chor M aio & Ricardo Ventura Santos (organizadores). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/ Centro Cultural Banco do Brasil, 1996. 252 pp. (brochura) ISBN 85-85676-25-6
A co letâ n ea d e a rtigo s o rga n iza d a p o r Ma rco s Ch o r Ma io (p e sq u isa d o r d a Ca sa d e Oswa ld o Cru z, Fio -cru z) e Rica rd o Ven tu ra Sa n tos (p rofessor d o Mu seu Nacion al e p esq u isad or d a Escola Nacion al d e Saú d e Pú b lica) é resu ltad o d o sem in ário Raça, Ciên cia e So-cied ad e, realizad o n o Cen tro Cu ltu ral Ban co d o Bra-sil, em m aio d e 1995. Trata-se d e u m a feliz e p reciosa com b in ação d e textos q u e, m ed ian te u m a p lu ralid a-d e a-d e e n fo q u e s te ó rico -m e to a-d o ló gico s, re ve la m n a su a totalid ad e u m a an álise m u ltid iscip lin ar d a h istó-ria, d as ciên cias sociais e, em certa m ed id a, d a litera-tu ra p ara com p reen d er o fen ôm en o com p lexo e p olifacetad o d o cen ário racial b rasileiro. Pela ab ran gên -cia e riq u eza d o te m a tra ta d o, a co le tâ n e a re to m a com ad m irável origin alid ad e u m an tigo d eb ate sob re a cu ltu ra b rasileira e a id en tid ad e n acion al.
Ten d o em vista a com p osiçã o, o escop o e orien -tação d os artigos ap resen tad os, o livro p od e ser an a-lisad o sob óticas d iversas: p od e-se em p reen d er u m a caracterização d os d iferen tes m od elos teórico-m eto-d o ló gico s su b ja cen tes a o s texto s, u m a eto-d escriçã o eto-d o “estad o atu al d a arte” n os estu d os sob re a qu estão ra-cial n o Brasil, ou m esm o u m a d iscu ssão acerca d a se-le çã o d o s te m a s e sp e cífico s q u e ga n h a m d e sta q u e n os artigos. Lim itar-m e-ei ap en as ao con teú d o d o li-vro e, p o rta n to, u m a a p re se n ta çã o su cin ta d e ca d a cap ítu lo.
O livro está com p osto p or q u in ze a rtigos d ivid i-d os em q u atro seções. Cai-d a seção corresp on i-d e a u m corte cron ológico, id en tifican d o e caracterizan d o d e m od o p arad igm ático o p en sam en to b rasileiro sob re o im b rica m en to en tre ra ça , ciên cia e so cied a d e. Na p rim eira p a rte estã o in clu íd os q u a tro ca p ítu los q u e d iscu tem co m o o s d iscu rso s d e in telectu a is e p rá ticas p olítiticas esp ecífiticas sob re as qu estões raciais aju -d a ra m , n a vira -d a -d o sécu lo, a form a r u m a -d efin içã o d e id en tid ad e n acion al. O p rim eiro trab alh o, d e Joh n Man u el Mon teiro (As “raças”in dígen as n o pen sam en -to brasileiro d o im p ério), an alisa com o a p en etração n o Bra sil d e n ova s id éia s so b re ra ça e evo lu çã o teve q u e d ia lo ga r co m u m co n tra d iscu rso q u e via n o ín -d io, p or m eio -d e u m p rocesso -d e m estiçagem , u m ca-m in h o p ara o fu tu ro d a civilização b rasileira. O texto segu in te, Con d en ad o p ela raça, absolvid o p ela m ed i-cin a: o Brasil d escoberto p elo m ovim en to san itarista d a Prim eira Rep ú blica, d e Nísia Trin tad e Lim a e Gilb erto Hoch m an , d iscu te d e form a m u ito Gilb em d ocu -m en ta d a co-m o o -m ovi-m en to p ela refor-m a d a sa ú d e p ú b lica e con stitu ição d a ciên cia m éd ica n a Prim eira Rep ú b lica tiveram u m p ap el cen tral e p rolon gad o n a recon stru ção d a id en tid ad e n acion al, aju d an d o a le-gitim ar a p resen ça d o Estad o n o cam p o d a saú d e p
ú-b lica e a su p era r o esta d o d e ú-b a rú-b á rie em q u e o Pa ís se en con trava. A tese fu n d am en tal d os au tores é a d e q u e, d ia n te d e u m p a ís in terp reta d o co m o d o en te – com o d izia o m éd ico Migu el Pereira em 1916, “O Bra-sil é u m im en so h osp ital” –, a cam p an h a p elo san ea-m en to, ao ten tar resolver o q u ad ro ea-m órb id o vigen te n o s “sertõ es b ra sileiro s” m ed ia n te u m a reo rga n iza -ção d os serviços san itários fed erais, con trib u iu tan to p ara a d escob erta sociológica d a d oen ça, q u an to p a -ra a con solid ação d e u m a n ova id en tid ad e p rofissio-n al, a d o m éd ico esp ecializad o em saú d e p ú b lica.
Gira ld a Se yfe rth é a u to ra d o te rce iro ca p ítu lo,
Con stru in do a n ação: h ierarqu ias raciais e o papel do racism o n a p olítica d e im igração e colon iz ação. Partin d o d a cren ça d om in an te n a ép oca d e q u e p erten -cer a u m gru p o étn ico é o qu e d á sen tid o à in d ivid u a-lid ad e n acion al, a au tora an alisa com o o d iscu rso so-b re im igração e raça, fu n d am en tad o n a id éia d a m is-cigen a çã o, p ro cu ra va co n stitu ir a n o çã o d e u m tip o n acion al, resu ltan te d e u m p rocesso seletivo d irecio-n a d o p a ra o b ra irecio-n q u e a m e irecio-n to d a p o p u la çã o. Re to r-n a r-n d o a o te m a d a im igra çã o, Jo e l d e So u za Ra m o s en cerra o ú ltim o texto d a p rim eira seção d o livro, Dos m ales qu e vêm com o san gu e: as represen tações raciais e a categoria do im igran te in desejável n as con cep ções sobre im igração d a d écad a d e 20. Ne sse ca p ítu lo, o a u to r o b se rva q u e, e m co n tra p o siçã o a o im igra n te id eal, o in d esejável seria aqu ele rep resen tad o p or p ovos cu ja ra ça lim ita ria a com p osiçã o d e u m tip o eu -gên ico n acion al. Nesse asp ecto, a p olítica im igratória d a Prim eira Rep ú b lica p rocu rava orien tar-se b asica-m en te p ara a forasica-m ação d e u asica-m tip o id eal d e h oasica-m oge-n eid ad e racial, cu ja m iscigeoge-n ação física e cu ltu ral resu ltaria u m tip o b rasileiro. Esse m ecan ism o p resresu -p u n h a u m a se le çã o q u e le va sse e m co n ta , a lé m d o au m en to d o con tin gen te d e san gu e b ran co, a “n eces
sid ad e d e se obter os m ais assim iláveis en tre os bran -cos e, qu an do n ão fosse possível evitar, os m ais ‘dóceis’ en tre as ‘raças in feriores’” (p. 81).
A segu n d a seçã o d o livro – A rein ven ção d a raça n as décadas de 30 e 40– está con stitu ída de três textos. Sem p reten d er estab elecer m arcos cron ológicos rígi-d os e in corp oran rígi-d o o rígi-d eb ate in tern acion al, torígi-d os os três cap ítu los in d agam sob re o sign ificad o d a su b sti-tu ição do con ceito de raça p elo de cu lsti-tu ra. O p rim eiro desses textos in titu la-se Do saber colon ial ao lu so-tro-p icalism o: “raça”e “n ação”n as so-tro-p rim eiras d écad as d o salazarism o. Seu au tor, Om ar Rib eiro Th om az, valen -d o-se -d os trab alh os ap resen ta-d os p elas Con ferên cias d e Alta Cu ltu ra Colon ial (even to p rom ovid o em 1936 p elo Estad o Portu gu ês n a Socied ad e d e Geografia d e Lisboa), observa qu e u m a gran de p arte da In telligen t
id ea l, p o is, a o a d vo ga r a s b o a s in ten çõ es d o p ro jeto colon ial p ortu gu ês, o au tor de Casa Gran de & Sen zala ap on ta p ara a criação de u m a dem ocracia racial, u m a h om ogen eização da n ação avessa à violên cia racial. O artigo d e Lou rd es Marín ez-Ech azáb al (Cu ltu ralism o d os an os 30 n o Brasil e n a Am érica Latin a: d esloca-m en to retórico ou esloca-m u d an ça con ceitu al?) d iscu te, d e form a exem p lar, com o, a p artir da segu n da m etade do sécu lo XIX, a p reocu p ação on tológica ou a h erm en êu tica da iden tidade latin oam erican a torn ase m ais in ten sa n as exegeses d os cien tistas sociais. Id en tifican -d o as p rin cip ais etap as -d o “i-d eologem a” -d a m estiça-gem , a a u to ra co n clu i q u e o d iscu rso d a etn icid a d e form u lado p elos in telectu ais dos an os 20 aos 50 (m ais esp ecifica m en te Gilb erto Freyre e Jo rge Am a d o ), a o ten ta r d isso cia r ra ça e cu ltu ra , a tu a lizo u a o b ra d e seu s an tecessores. Ricard o Ven tu ra San tos escreve o ú ltim o texto da segu n da p arte da coletân ea – Da m or-fologia às m olécu las, d e raça à p op u lação: trajetórias con ceitu ais em An trop ologia Física n o sécu lo XX. Em u m estilo claro, con ciso, sem se p erder em detalh es, o a u tor a n a lisa a tra jetória d o con ceito d e ra ça n a a n -tro p o lo gia física (o u b io ló gica ). A p rim eira p a rte d o artigo discu te o con texto h istórico e teórico da tran si-çã o h íb rid a e sin gu la r d o co n ceito d e ra ça p a ra o d e p op u lação, term o ch an celad o p ela sín tese n eod arwi-n iaarwi-n a. Nesse coarwi-n texto, argu m earwi-n ta Ricardo, os debates desen volvidos p ela Un esco, n a década de 50, a resp ei-to d os Estatu tos sobre Raçativeram u m a im p ortân cia esp ecial q u an to a essa q u estão. Por ú ltim o, an alisan -d o o sign ifica-d o -d e raça n a an trop ologia física b rasi-leira, o au tor ob serva a existên cia d e d u as gran d es li-n h a s d e ili-n vestiga çã o: a p rim eira , rep reseli-n ta d a p elo Mu seu Na cion a l, ca ra cterizou -se p ela con tin u id a d e da n oção tip ológica de raça; a segu n da, cen tralizou -se n a gen ética de p op u lações.
A terceira p arte d a coletân ea – O Brasil com o “la-boratório racial”: os estu dos sobre relações raciais en tre os an os 40 e 60– reú n e q u atro cap ítu los q u e têm com o eixo cen tral a an álise das obras de sociólogos e an tro p ó lo go s, n a cio n a is e estra n geiro s, q u e in vestiga -ram as relações raciais n o Brasil en tre os an os 40 e 60. O p rim eiro texto, d e An tô n io Sérgio Alfred o Gu im a -rães (Cor, classes e statu s n os estu dos de Pierson , Azeve-d o e Harris n a Bah ia: 1940-1960), d iscu te os q u ad ros teóricos em qu e os con ceitos de cor, classe e statu s fo-ram relacion ad os n as ciên cias sociais n o Brasil. Com b a se n o exa m e d e três clá ssico s (Do n a ld o Pierso n , Ma rvin Ha rris e Th a les d e Azeved o ), o a u to r a n a lisa du as gran des h ip óteses sobre a relação en tre cor e p o-sição social: aqu ela qu e teoriza as d iscrim in ações ra-ciais com o d iscrim in ações d e classe e aq u ela q u e ex-p lica a esex-p ecificid a d e d o sistem a d e rela ções ra cia is p ela p erm an ên cia de u m a h ierarqu ia estam en tal cria-d a p ela escravicria-d ão. No texto segu in te, Maria Lú cia cria-d e San tan a Braga escolh eu Roger Bastid e p ara d esen vol-ver u m a refin ad a an álise (Roger Bastid e, Paisagista). En fatizan d o o p lu ralism o m etod ológico d esse au tor, Maria Lú cia con clu i q u e a ob ra d e Bastid e, assim co-m o a d e Ma ch a d o d e Assis, o ferece-n o s u co-m q u a d ro am p lo (p aisagístico) da vida e cu ltu ra u rban a brasilei-ra. Alian do ciên cia e arte, Bastide con segu iu u ltrap as-sar os lim ites d e u m a visão restrita sob re as relações raciais qu e m arcou o trabalh o de m u itos de n ossos es-tu d iosos. O trab alh o d e Marcos Ch or Maio, A qu estão racial n o p en sam en to d e Gu erreiro Ram os, d iscu te a form a com o esse a u tor tra ta o tem a d a s rela ções ra
-cia is, p a rtin d o d o p ressu p o sto d e q u e a a b o rd a gem ad otad a está in tim am en te vin cu lad a a d eterm in ad os a sp ecto s d a su a tra jetó ria d e so ció lo go, ta is co m o a su a m ilitân cia n o m ovim en to n egro e p articip ação n a bu rocracia estatal. In sp irado n o m odelo n acion al-de-sen volvim en tista cep alin o, o in telectu al b aian o acre-d ita va n a existên cia acre-d e u m a cu ltu ra ra cia l b ra sileira con viven d o com d oses eleva d a s d e ra cism o n o Pa ís. Para Gu erreiro Ram os, essa situ ação con trad itória só seria p assível d e resolu ção com a efetiva p articip ação dos in telectu ais n a con stru ção de u m a iden tidade n a-cion al. Maria Arm in da do Nascim en to Arru da, n o seu tra b a lh o – Dilem as d o Brasil m od ern o: a qu estão ra-cial n a obra de Florestan Fern an des –sobre o au tor de A In tegração do Negro n a Sociedade de Classes, an alisa com o esse sociólogo in vestiga a situ ação d os n egros so b o p rism a d a s fo rm a s so cia is exclu d en tes e d a s p ossib ilid ad es d e in tegração qu e têm caracterizad o a ord em cap italista b rasileira.
A q u arta e ú ltim a seção d a coletân ea – Persp ecti -vas con tem p orân eas acerca d a qu estão racial– tra z q u atro cap ítu los q u e d iscu tem o d ilem a racial b rasi-leiro e su a in serção n o con texto in tern acion al. Lívio San son e in au gu ra essa seção com o artigo in titu lad o As relações raciais em Casa Gran de & Sen zala revisita-das à lu z do processo de in tern alização e globalização. Trata-se d e u m estu d o q u e p rocu ra salien tar com o o h abitu s raciale o d iscu rso lu so -tro p ica lista e stã o d escrito s em Gilb erto Freyre. Ba sea d o em u m a p es-qu isa realizad a em d u as áreas d a Região Metrop olita-n a d e Salvad or, Lívio Saolita-n soolita-n e coolita-n clu i q u e, ap esar d o cu ltu ralism o e p rovin cian ism o d as categorias freyria-n a s, h á m u ito s p o freyria-n to s d e co freyria-n ta to e freyria-n tre a re a lid a d e b aian a e o q u ad ro esb oçad o em Casa Gran d e & Sen -zala. Joel Ru fin o d os San tos em u m texto cu rto e ob -jetivo (O n egro com o lu gar) ob serva qu e o n egro d eve se r e n te n d id o co m o u m a co n figu ra çã o so cia l cu ja s coord en ad as são d ad as p elo fen ótip o (criou lo), con -d içã o so cia l (p o b re), p a trim ô n io cu ltu ra l (p o p u la r), origem h istórica (ascen d ên cia african a) e id en tid ad e (au tod efin ição e d efin ição p elo ou tro). Yvon n e Mag-gie – “Aqu eles a qu em foi n egada a cor do dia”: as cate-gorias cor e raça n a cu ltu ra brasileira – in ve stiga o com p lexo sistem a d e ca tegoriza çã o d e cores e ra ça s p ela cu ltu ra b rasileira. An alisan d o o PNAD d e 1976 e as p ergu n tas d o cen so d em ográfico, a au tora con clu i q u e a p e rgu n ta a b e rta e se m u m co n te xto d e fin id o sob re a cor e raça p rop iciou u m sistem a classificató-rio q u e a b a rca ta n to o lu ga r socia l, q u a n to a origem ou id en tid ad e étn ica d os en trevistad os. Por ú ltim o, o texto d e Carlos Hasen b alg (En tre o m ito e os fatos: ra-cism o e relações raciais n o Brasil) tra ta d o ra cism o e d as d esigu ald ad es raciais. Tais qu estões estão p resen -tes n a n ossa realid ad e e se a con vivên cia h arm ôn ica en tre gru p os raciais p erm an ece n o d iscu rso id eológi-co b ra sileiro d eve-se, en tre o u tro s a sp ecto s, à s d ifi-cu ld ad es en fren tad as p elo m ovim en to social d os n e-gros em en cam in h ar as su as reivin d icações esp ecífi-cas e am p liar a su a b ase social.
Pelo ráp id o resu m o acim a ap resen tad o, p od e-se p erfeitam en te con clu ir qu e o livro Raça, Ciên cia e So-cied ad eé , co m o d iz Gilb e rto Ve lh o n a co n tra ca p a , u m a “referên cia obrigatória p ara tod os os estu d iosos de relações raciais”.
Pau lo César Alves
A EN DEM IA HAN SÊN ICA: UM A PERSPECTIVA M ULTIDISCIPLINAR. M arcos de Souza Q ueiroz & M aria Angélica Puntel. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1997. 120 pp.
ISBN: 85-85676-33-7
A h an sen íase, am p lam en te con h ecid a com o lep ra, é u m a d o en ça a n tiga , a lta m en te estigm a tiza d a , co m m ecan ism os d e cu ra e d e p reven ção con h ecid os, qu e n ão exige gran d es in corp orações tecn ológicas, estan -do p raticam en te erradicada n os p aíses desen volvi-dos. Con tu d o, n o Brasil, ela ain d a é altam en te p revalen te, con stitu in d ose em u m sério p rob lem a d e saú d e. En -q u an to, p or u m lad o, os d ad os ep id em iológicos d is-p o n íveis revela m u m a ta xa d e crescim en to eleva d a , p or ou tro, h á u m certo d escaso d os serviços p ú b licos q u a n to a o seu tra ta m en to. Assim , n ã o ca u sa gra n d e su rp re sa q u e o Bra sil a tu a lm e n te d e te n h a 85% d o s p acien tes d e h an sen íase d e tod as as Am éricas.
Em b ora seja u m a área p rivilegiad a p ara a in vesti-gação social, p ou cos estu d os têm sid o realizad os so-b re essa en d em ia . Nesse a sp ecto, o livro A En d em ia Han sên ica: Um a Perspectiva Mu ltidisciplin ar, de Mar-cos d e Sou za Qu eiroz (an trop ólogo) e Maria An gélica Pu n tel (en ferm eira), vem su p rir u m a im p ortan te la -cu n a n a n ossa b ib liografia. Esse, sem d ú vid a, é o p ri-m eiro (ri-m as n ão ú n ico) gran d e ri-m érito d o trab alh o.
Marcos e Maria An gélica tom aram com o p rin ci-p a l o b jetivo d e in vestiga çã o a s reci-p resen ta çõ es e es-tratégias qu e tan to os p acien tes e seu s fam iliares (co-m u n ican tes), co(co-m o os agen tes e esp ecialistas d e saú-d e (m é saú-d ico s, e n fe rm e iro s e a te n saú-d e n te s) fo rm u la m so b re a h a n se n ía se. Os a u to re s, te n ta n d o ce rca r o p rob lem a d essa d oen ça b asead os em u m a p ersp ecti-va h istórica, ep id em iológica, sociológica e an trop o-ló gica , p ro m overa m d e fa to “u m a sín tese in terd isci-p lin ar en tre as ciên cias sociais e a Saú d e Pú blica” (p. 11), con form e p rom etid o logo n o in ício d o livro. Den -tro d essa p ersp ectiva, d iscu tem os p rob lem as d e m a-n u te a-n çã o e re cu p e ra çã o d a sa ú d e d e h a a-n se a-n ia a-n o s q u a n to a o co n su m o d e ser viço s m éd ico s e a o s p ro -ce sso s d e a d a p ta çã o a o m e io so cia l e fa m ilia r. Essa d iscu ssão está, p elo seu lad o, fu n d am en tad a em u m cu id ad oso trab alh o d e cam p o, d esen volvid o em 1993, n a região d e Cam p in as (São Pau lo). Na p esq u isa, foram en volvid as 34 fam ílias (45 d oen tes d e h an sen ía -se, n a su a gra n d e m a io ria so b tra ta m e n to p o liq u i-m ioterá p ico, e 164 coi-m u n ica n tes) e in fori-m a n tes d o Cen tro d e Saú d e I (Policlín icas I). In form ações tam b ém foram ob tid as n a Prefeitu ra Mu n icip al d e Cam -p in as, n a Secretaria Estad u al d e Saú d e e n a Un icam -p. A p esqu isa, d e b ase em in en tem en te qu alitativa, u tili-zo u -se d e en trevista s sem i-estru tu ra d a s e d e fo n tes se cu n d á ria s, co m o d a d o s e p id e m io ló gico s e d o cu -m en tos oficiais, en tre ou tros. U-m d os p on tos altos d o tra b a lh o é a im p o rtâ n cia q u e o s a u to re s d ã o p a ra o d iscu rso d os in form an tes, p erm itin d o ao leitor com -p reen d er m ais d e -p erto o sign ificad o qu e a d oen ça, o tratam en to e as p ráticas d e cu ra têm p ara estes.
Divid id o em n ove ca p ítu los, a lém d a a p resen ta-ção e con clu são, o Cap ítu lo 1 ap resen ta d e form a cla-ra e su cin ta o s p ressu p o sto s teó rico -m eto d o ló gico s d a p esq u isa. O p rin cíp io teórico q u e n orteia o trab a-lh o está b a sea d o n a p rem issa d e q u e o s sa b eres, re-p re se n ta çõ e s e re-p rá tica s d e se n vo lvid a s re-p e lo s a to re s sociais só têm sen tid o e ad q u irem sign ificad o n o in -terior d e u m d eterm in ad o con texto sócio-econ ôm ico
e cu ltu ra l. Os a sp ecto s só cio -cu ltu ra is d e u m a d a d a realid ad e d evem ser, p ortan to, in vestigad os en q u an -to e le m e n -to s q u e “in flu en ciam ou m esm o d eterm i-n am o qu e e com o p rod u z ir i-n o m om ei-n to m esm o d a p rodu ção e n ão n u m a esfera m etafísica ou ideológica da realidade” (p. 22). Assim , ao in vés d e red u zir o fe-n ô m efe-n o d a h a fe-n sefe-n ía se a u m m ero ep ifefe-n ô m efe-n o d e cau sas m aiores, com o a estru tu ra d e classe ou orga-n ização d o Estad o, Marcos Qu eiroz e Maria Aorga-n gélica estu d a ra m , sem exclu ir a in flu ên cia d e fa to res m a is a b ra n ge n te s, a re a lid a d e e sp e cífica d e ssa d o e n ça . Nesse asp ecto, a p esq u isa, en q u an to d esce à m icros-su b jetivid ad e d a exp eriên cia d e saú d e e d oen ça, p rocu ra , a o m esm o tem p o, rem etêla a u m n ível só cio -cu ltu ral m ais am p lo.
Os Cap ítu los 2, 3 e 4 tratam , resp ectivam en te, d e u m a b reve h istó ria d a sa ú d e p ú b lica n o Bra sil (co m esp ecial ên fase sob re a h istória d a h an sen íase), d a si-tu ação ep id em iológica d essa en d em ia n o Brasil e em Ca m p in a s e, p o r ú ltim o, d o s m e io s d e co n tro le d a d oen ça em Cam p in as. De certa form a, con stitu em – p ela form a d e ab ord agem e tem ática tratad a – a p ri-m e ira gra n d e p a rte d o livro. O a rgu ri-m e n to ce n tra l d esses cap ítu los p od e ser resu m id o d a segu in te for-m a : a h a n sen ía se é u for-m a d o en ça in fecto -co n ta gio sa crô n ica e q u a lq u e r p ro gra m a d e sa ú d e p ú b lica q u e visasse errad icar essa en ferm id ad e teria d e in tercep -ta r a ca d e ia d e re ce p çã o m e d ia n te a d e sco b e r-ta d e u m a vacin a esp ecífica. En tretan to, n ão h á tal vacin a e o tratam en to existen te ain d a está m u ito atrasad o em relação aos avan ços ob tid os com ou tras en d em ias. A p a rtir d a d é ca d a d e 80, co n fo rm e n o rm a s gove rn a -m en tais, a for-m a d e tratar a h an sen íase ficou li-m ita-d a ap en as à u tilização ita-d a p oliqu im ioterap ia. Essa es-tratégia é in su ficien te, p ois, além d e ou tros fatores, a “política im plem en tada pelo SUS preten de descen trar o diagn óstico e o tratam en to da doen ça através de to-da a rede básica de serviços de saú de e, com isso, dilu í-la n o qu adro geral de m orbidade” (p. 111). Com o d o-m ín io b iologicista e in d ivid u a liza n te n a red e b á sica d e serviços d e saú d e, o p acien te n ão receb e aten ção n ecessária p ara o tratam en to da doen ça. Sem o acom -p a n h a m e n to só cio --p sico ló gico, o h a n se n ia n o te m p recário en volvim en to com o p roced im en to terap êu tico e p ou ca p reocu p ação com os asp ectos in form a -tivos e ed u ca-tivos.
oi-m e n to s re la tivo s à h istó ria p e sso a l d o d e se n vo lvi-m e n to d o s sin to lvi-m a s, d a co n su lta a lvi-m é d ico s e d o d iagn óstico. Um d ad o sign ificativo n esses relatos d iz re sp e ito a o fa to d e q u e, e m a p roxim a d a m e n te 90% d os casos, o p acien te, an tes d e ter o d iagn óstico, p as-sou p or p elo m en os u m m éd ico q u e em itiu in for m açõ es erra d a s so b re a d o en ça . Co n tu d o, d e u m a m a -n eira geral, u m a gra-n d e p arte d a clie-n tela avalia p o-sitiva m en te o s serviço s p resta d o s p ela red e p ú b lica d e saú d e. Por ú ltim o, n o Cap ítu lo 9, é an alisad o o estigm a em relação à d oen ça. O p acien te ten d e a en co -b rir, com o ap oio d a fam ília n u clear e d os serviços d e saú d e, as m arcas q u e caracterizam o estereótip o es-tigm atizan te.
Na con clu são, os au tores ch am am aten ção p ara o caráter su b jetivo, em ocion al e cu ltu ral d a en ferm id a-d e, a-d estacam a im p ortân cia a-d o m étoa-d o qu alitativo a-d e in vestigação e su gerem qu e, p ara in corp orar u m a d i-m en sã o h o lística d a sa ú d e e d a d o en ça , a i-m ed icin a p recisaria am p liar a su a b ase red u cion ista b iológica, in clu in d o, n o en foqu e d e am b as, d im en sões sociais e cu ltu rais.
No con texto atu al, caracterizad o p or u m a am p la d iscu ssão sob re a n ecessid ad e d e rep en sar, em n ovas b a ses teó rico -m eto d o ló gica s, a in sta b ilid a d e d a re-form a ad m in istrativa e d a m u n icip alização d os servi-ços d e saú d e, a p u b licação d o livro d e Marcos Qu ei-roz e Ma ria An gé lica Pu n te l to rn a -se fu n d a m e n ta l. Trata-se d e u m trab alh o q u e p rocu ra estab elecer al-gu m a s p rem issa s sob re a s com p lexa s in ter-rela ções en tre a d oen ça, o d oen te e os serviços d e saú d e, tan to b iom éd icos, q u a n to p op u la res ou a ltern a tivos. Sem se lim itar a u m ú n ico en foq u e teórico p ara d ar sign i-ficad o à h an sen íase, os au tores foram b em su ced id os em resga ta r o s a sp ecto s estru tu ra is d a s in stitu içõ es sociais ten d o p or b ase o u n iverso vivid o d e su jeitos e atores sociais. Med ian te u m trab alh o etn ográfico sign ifica tivo, co sign cretiza ra m p elo m esign o s u m d o s gra sign -d es -d esafios -d as ciên cias sociais -d esse fim -d e sécu lo: a im p lem en tação d a p ersp ectiva m u ltid iscip lin ar n a an álise d os fen ôm en os h u m an os.
Pau lo César Alves
Un iversid ad e Fed eral d a Bah ia Salvad or, BA
SAÚDE EM DEBATE. M árcia Kupstas (organiza-dora). São Paulo: M oderna, 1997. 160 pp. ISBN 85-16-01653-6
Este é u m livro e n ca n ta d o r! É cla ro e in fo rm a tivo. Mais ain d a: in form ativo com coerên cia e con sciên cia social. De fato, é em ocion an te ver esp ecialistas com o o s a q u i reu n id o s, en u m era n d o, em lin gu a gem sim -p les e d ireta, e com tan ta atu alid ad e, valores qu e in s-p iraram e con form aram a vid a e trajetória d e tan tos d e n ossa geração. A saú d e com o d ever d e Estad o e d i-reito d e cid a d a n ia , a rela çã o sa ú d e-d oen ça , n ã o co-m o ob jeto d e co-m ercan tilização, co-m as coco-m o fato a soli-d arizar p essoas e in stitu ições, eis algu m as soli-d e n ossas u top ias aí claram en te p ostas e d iscu tid as n o âm b ito d o acessível e d o com p reen sível.
De con otação n itid am en te p arad id ática, con siste d e sete cap ítu los au tôn om os, p orém com p lem en ta res, a serviço ju stam en te d e p rovocar o p rocesso su -gerid o p elo títu lo, isto é, colocar a saú d e em d eb ate. Algu n s se d estacaram d e im ed iato n esse con texto: o
p rim eiro con ceitu a, sistem atiza e in cen tiva tal p rática. A b u sca d e visão d a realid ad e b rasileira con tem -p o râ n e a d o se to r sa ú d e, co m ê n fa se n a a lta m e n te sen sível q u estão d a assistên cia m éd ica, con stitu i d e-safio en carad o n a u n id ad e su b seq ü en te, A Saú de Pe-d e Socorro, d e a u to ria d e Sa ra Ro m e ra So rre n tin o, ap resen tad a com o m éd ica esp ecialista p ela Facu ld a-d e a-d e Saú a-d e Pú b lica a-d a Un iversia-d aa-d e a-d e São Pau lo.
Neste sen tid o, registra-se q u e a eq u ip e d os au to-res n ão é u n iform em en te con h ecid a, m as algu n s d e-les, sem d ú vid a n en h u m a, são p rofission ais d estaca-d os n os círcu los estaca-d e su as resp ectivas atu ações, com o o ca so d o s p ro fe sso re s Ma rilisa Be rti A. d e Ba rro s e Gastão Wagn er d e S. Cam p os. O texto d este colega é, realm en te, m u ito in teressan te: Trata-se d e con h ecer o “m édico: h erói, ou vilão, ou u m profission al em apu -ros”. Com eça com a p ergu n ta: “Qu an do os m édicos se tran sform am em com ercian tes, qu em cu id a d a saú d e d as p essoas?”, p a ra situ a r a s re sp o n sa b ilid a d e s d e “govern os, segu rad oras, ban cos, em p resas d e m ed ici-n a, im p reici-n sa e os p róp rios coici-n su m id ores”. Pa ra e n -saiar resp ostas, é n ecessário con h ecer os sistem as d e saú d e, o m éd ico d e fam ília – m eio sacerd ote, m eio ar-tesão-com ercian te –, a fim d e d esem b ocar n o m éd ico tra b a lh a d o r esp ecia liza d o e em p rega d o d e gra n d es em p resas, além d o m éd ico ou vid or p ú b lico: d e h erói au toritário a b u rocrata con form ad o.
Natu ralm en te, algu n s rep aros m erecem registro, n ã o p a ra a p eq u en a rse o va lo r d a o b ra , m a s, exa ta -m en te p elo con trário, p ara en gran d ecê-lo, n a -m ed id a em qu e se d estacam p on tos a serem revistos e recom -p ostos n a certam en te -p róxim a segu n d a ed ição, -p ro-d u zin ro-d o efeito form aro-d or ain ro-d a m ais exp ressivo ju n to a o s n o sso s joven s. Co m efeito, reco m en d a -se fo rte-m en te q u e as con clu sões d o p rirte-m eiro cap ítu lo sejarte-m realm en te recon sid erad as: ocorre q u e elas se for m u -lam p ela citação e d efesa d e d ois an exin s qu e, p rove-n ierove-n tes d o serove-n so com u m , são corove-n sid erad os, à lu z d o con h ecim en to cien tífico atu al, n o m ín im o ab solu ta-m en te qu estion áveis. Trata-se, d e u ta-m lad o, d o ou tro-ra a ce ito “m en te sã em corp o são”, a sso cia d a m e n te com “é m elh or preven ir do qu e rem ediar”. Ora, tod a a ep istem ologia d a m od ern a m otricid ad e h u m an a p ar-te d a su p eração d esta m an iq u eísta d u alid ad e d o físi-co físi-com o p síq u ifísi-co-esp iritu al, físi-con teú d o-físi-con tin en te, m as recon h ece a u n icid ad e d a tran scen d ên cia h u m a-n a. Da m esm a m aa-n eira, já em d écad a p assad a, o ep i-d em iologista An tôn io Au gu sto F. Qu ai-d ra, em seu co-n h ecid o Viver É Resistir: A História Natu ral da Doen -ça, verb alizava q u e “p reven ir é tão in ócu o qu an to re-m ediar”, u m a vez q u e, tan to p reven ção, q u an to tera-p êu tica, con stitu em con ju n tos d e técn icas e tera-p roced im en tos in tra setoria is q u e n ã o a tin geim , n a rea lid a -d e, a estru tu ra -d e -d eterm in ações -d os fatos sociais -d os agravos m órb id os, com o, p or exem p lo, os relacion a-d os a p roa-d u ção, a-d istrib u ição e con su m o a-d e b en s e ri-qu ezas.
fazê-lo, d estaca q u e “a h om eop atia foi u m a d as p rim eiras d iscip lin as m éd icas d o m u n d o ocid en tal a en carar o ser h u m an o com o u m todo, em su a bu sca de u m a cu ra ap rop riad a, aten d en d o n ão só p ara as alterações d o corpo com o tam bém para as da m en te”; faltou , en tre-ta n to, a d ve rtir co n su m id o re s p o te n cia is a ce rca d a in e xistê n cia d e q u a lq u e r d e m o n stra çã o d e b a se s cien tíficas d essa p rática; p elo con trár io, são classica-m en te con h ecid as situ ações eclassica-m q u e o p laceb o ap re-se n to u , e m e stu d o s clín ico s co n tro la d o s, m e lh o re s resu ltad os d o q u e aq u eles atin gid os p elo tratam en to h om eop ático.
Ta m b é m n o p la n o m a is ge ra l, o u tro e q u ívo co – d ú vid a, m elh or seria d izer? – vale a p en a ser d esvela-d o: o títu lo esvela-d o texto – Saú de em Debate– é o m esm ís-sim o d a re vista e xiste n te n o Bra sil h á m a is d e vin te a n o s e d e cu ja cria çã o e co n se lh o e d ito ria l p a rtici-p ou , m aterializan d o, d esd e en tão, realizações d o Ceb es – Cen tro Brasileiro d e Estu d os em Saú d e. A id en -tid ad e n ão só tem ática, m as d e ab ord agem e m esm o a té d e a u to re s e stá a su ge rir, p a ra fra se a n d o Me stre Frota Pessoa, qu e p arece m u ita coin cid ên cia p ara ser coin cid ên cia. A exp licitação d e u m a m en ção a resp ei-to seria, p ois, extrem am en te op ortu n a.
Ou tra revisão n ecessária, sob retu d o p or se tratar d e p u b licação in trin sicam en te com p rom etid a com o a to p e d a gó gico, co m a p le n itu d e d o e n sin a r, sã o a s re fe rê n cia s b ib lio grá fica s: a d e Ma rle t e t a l. p re cisa se r co m p le ta d a , p o rq u a n to e n co n tra -se fo rm u la d a sem a in d isp en sável d ata corresp on d en te.
Ru m o à reversã o, en treta n to, co n cen trem o -n o s em co n tem p la r o s a sp ecto s p o sitivo s d a o b ra . Co m efeito, n ão é p ara se d esgastar com a even tu al tortu o-sid ad e d as árvores qu an d o h á tan ta vitalid ad e n a flo-resta! Parab én s, colegas, au tores exp erien tes e leito-res con vid ad os!
Agu in ald o Gon çalves
Gru p o d e Saú d e Coletiva/ Ep id em iologia e Ativid ad e Física Facu ld ad e d e Ed u cação Física
Un iversid ad e Estad u al d e Cam p in as Cam p in as, SP
M OLÉCULAS, M OLÉSTIAS, M ETÁFORAS: O SEN -SO DOS HUM ORES. Luis David Castiel. São Pau-lo: Unimarco Editora, 1996. 176 pp.
ISBN 85-86022-03-9
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À lu z d as m od ificações q u e se op eram n o cam p o d as ciên cias b iológicas, p rivilegian d o os avan ços p rop or-cion a d os p ela b iologia m olecu la r e su a s in flu ên cia s sob re o cam p o d a saú d e p ú b lica, Castiel n os p rop or-cio n a m a is u m a d e su a s in stiga n tes reflexõ es m a te-rializad as n este seu ú ltim o livro. Ao tom ar com o b ase o con h ecim en to p rod u zid o p ela ciên cia e as su as in -su ficiên cias e lacu n as d e exp licação sob re a vid a, p er-co rre -se, n o livro, u m d e b a te er-co n stru íd o er-co m u m a a b ord a gem “in d iscip lin a r” (em b ora , com o d iz o a u -tor, “com todo o rigor da in disciplin a”), visan d o con s-tru ir u m a crítica à p rod u ção d e con h ecim en tos, sele-cion an d o a ep id em iologia, com o u m d e seu s ob jetos cen trais.
Ap roveita n d o-se d e textos a n teriorm en te p u b li-ca d o s e o u tro s in é d ito s, re o rga n iza a su a p ro d u çã o
in te le ctu a l o fe re ce n d o u m a re visã o so b re q u e stõ e s com p lexas q u e, ap esar d e n ão con tar com a con cor-d ân cia cor-d e tocor-d os (e é n ecessário qu e assim o seja!), retom a e revitaliza a n ecessária d iscu ssão d a saú d e p ú b lica e d a ep id em iologia, n as su as p ersp ectivas con -ceitu ais e m etod ológicas. Den tro d e su as característi-cas, o au tor, d e m od o b em d id ático e até b em h u m o-ra d o, su b m e te o ca m p o d a sa ú d e co le tiva a o m ovi-m en to d e an álise ep isteovi-m ológica p raticad o e valori-zad o p or d iferen tes áreas cien tíficas, m ovim en to es-se, d e certa fo rm a , p o u co reco n h ecid o p o r p a rte d e n ossos p ares.
A le itu ra d o s ca p ítu lo s tra z in icia lm e n te u m a an álise d as relações en tre a saú d e p ú b lica com a b io -logia m olecu lar, m ais esp ecialm en te a gen ética m ole-cu lar, d estacan d o-se, en tre ou tras tan tas q u estões, a crise en fren tad a p ela saú d e p ú b lica e p elo san itaris-ta , n a m ed id a em q u e este tem se tra n sfo rm a d o em “p erp lexo ad m in istrad or d e estran h ezas”. Ao lad o d is-so, traz elem en tos p olêm icos sob re a in flu ên cia qu e o d e se n vo lvim e n to d a m o d e rn a b io lo gia re p re se n ta p ara a saú d e p ú b lica (m atéria qu e foi su b m etid a a in -te re ssa n -te e re ve la d o r d e b a -te, p u b lica d o a n -te rio r-m e n te n o s Cad ern os d e Saú d e Pú blica), e p ro cu ra m ostrar com o o m od elo d e risco, con ceito cen tral d a m e to d o lo gia e p id e m io ló gica , “está ap aren tem en te circu n scrito a con dições bem delim itadas”, n ão levan -d o em con si-d eração, freq ü en tem en te, a reali-d a-d e n a qu al está im erso e n em su a d im en são su b jetiva e cu l-tu ral.
Na seqü ên cia, elege a p sican álise com o ob jeto d e reflexão e ap on ta p ara a u tilização d o raciocín io cau -sal m illian o e d a lógica in d u tivista feita p or Freu d n a exp licação d a h isteria, su gerin d o q u e, n a con stru ção d e su as h ip óteses, este estaria p ersegu in d o a id éia d e u m a d im en são p reven tiva qu e legitim asse a p sican á-lise, tal com o a ep id em iologia o é n o con trole e erra-d icação erra-d e algu m as erra-d oen ças.
No cap ítu lo segu in te, Castiel ab ord a as m etáforas e su as relações com o corp o h u m an o, su as fu n ções e seu p rocesso d e ad oecim en to. An alisan d o a relações d a m etáfora com a p sican álise e com o in term ed iação p sicossocial, tom a-as com o ilu stração d a “relevân cia das possíveis redes in terativas en tre represen tações co-letivas, in dividu ais e m an ifestações m en tais/psicosso-m áticas”. Deb ru ça -se so b re a s rela çõ es d a s p rá tica s m etafóricas n os d iscu rsos d a clín ica m éd ica e d as d i-ficu ld ad es p or esta en fren tad a.
A rep ro d u çã o d a a p resen ta çã o feita p elo a u to r p erm ite a a p recia çã o d o q u e p reten d e n os d ois ú lti-m os cap ítu los: “... abordam se aspectos teóricos e con -ceitu ais da Ep idem iologia, com ên fase n as dim en sões m etafóricas vin cu lad as à p rod u ção cien tífica, d e u m m od o geral, e à p esqu isa ep id em iológica, em p articu -lar. N esta p ersp ectiva, ap resen tam -se as relações d a disciplin a com a lógica iden titária e m etáforas em pregad as, tan to em term os d e cau salid ad e com o referen -tes à idéia de ‘risco’... são descritas algu m as ten tativas de desen volver m étodos qu e avan cem n o con h ecim en -to da situ ação de saú de/doen ça das popu lações”, colo-can d o a au torid ad e exp licativa d a ciên cia ao lad o d a n ossa exp eriên cia cotid ian a e im ed iata.
O texto d e Castiel se ju stifica, sen ão p elo con teú -d o -d e su a e xp o siçã o q u e e stá b a sta n te e n r iq u e ci-d a p elo farto referen cial b ib liográfico u tilizad o e in d ica-d o, p ela con trib u ição q u e faz ao in troica-d u zir m ais u m im p ortan te trab alh o ao d ifícil e árd u o (reiteran d o, às vezes p ou co valorizad o) p rocesso d e con stru ção e con h ecim econ to d os cocon ceitos op erad os con a ep id em iolo -gia.
Moisés Gold b au m
Dep artam en to d e Med icin a Preven tiva Facu ld ad ed e Med icin a