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42º Encontro Anual da ANPOCS Caxambu, MG

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Academic year: 2022

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42º Encontro Anual da ANPOCS

Caxambu, MG

GT 12 – ESTUDOS SOBRE ESTADOS UNIDOS

Título

„Orange Isthe New Black‟: disputas discursivas sobre a identidade racial

Autor/a

Daniela Rocha Drummond (Doutoranda – PPGCP - UFPR) [email protected]

Nelson Rosário de Souza (Doutor - UFPR) [email protected]

Juliana Inez Luiz de Souza (Doutoranda – PPGCP - UFPR) [email protected]

Natália Luiza de Souza (Mestranda – PPGCP – UFPR) [email protected]

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‘Orange Isthe New Black’: disputas discursivas sobre a identidade racial.

Daniela Rocha Drummond Nelson Rosário de Souza Juliana Inez Luiz de Souza Natália Luiza de Souza

RESUMO:

O objeto deste trabalho é o seriado de TVOrange isthenew black. Entendemos este produto midiático como uma construção social, perpassada, portanto, por interações e tensões presentes na sociedade. Mobilizamos como referencial a „midiaculturas‟, a qual recusa atribuir à mídia uma função essencial, pré-estabelecida, do tipo alienação. As questões que orientaram a investigação são as seguintes: Quais disputas discursivas aparecem no conteúdo da série? Quais linhas discursivas sobre raça são apropriadas pelo seriado e quais significados apresentam? Os objetivos a serem alcançados são estes:

analisar o conteúdo do programa procurando traços de reprodução e inovação das linhas discursivas a respeito da questão racial nos EUA. Observar as tensões, contradições e negociações na apropriação destes conteúdos. Identificar o tipo de representação dos afrodescendentes e da questão racial na quinta temporada do seriado. Verificar a existência, ou não, de propostas de normalização dos comportamentos e solução dos conflitos sociais dentro da linguagem e do formato televisivo. Observar se as proposições presentes no seriado refletem o cenário político e social a respeito da questão racial nos EUA.

Palavras-chave:Série de TV EUA,disputas discursivas, questão racial, Orange isthe new black.

Introdução

O objeto deste trabalho é a série televisiva norte-americana: „Orange isthe New Black‟ (OITNB). A primeira temporada da série foi exibida em 2013, nosso olhar recairá sobre as cinco primeiras temporadas no que diz respeito à análise qualitativa e sobre a quinta temporada, que estreou em 2017, quanto aos dados quantitativos1. Essa série se passa numa penitenciária feminina, o espaço aparece dividido segundo a ocupação de vários grupos étnico-raciais. A diversidade de personagens, com personalidades complexas e a pluralidade temática tornam o programa rico em conteúdos a serem observados. Iremos priorizar as disputas discursivas em torno da identidade negra. Para isso, faremos a relação de alguns conteúdos da série com herança das linhas discursivas sobre questão racial nos Estados Unidos.

1Em 2018 aconteceu a estreia da sexta temporada.

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Entendemos este produto midiático como uma construção social, perpassada, portanto, por interações e tensões presentes na sociedade. Mobilizamos como referencial a „midiaculturas‟2 (SOUZA, 2017), que procura não naturalizar a instituição midiática, ou seja, trata-se de questionar o paradigma da dominação que considera que a mídia, exclusivamente, reproduza ideologia da classe hegemônica. Os artefatos comunicacionais televisivos, como outros produtos da indústria cultural, apontam as imbricações entre objetos técnicos, relações interpessoais e ordens sócio-políticas (MAIGRET, 2010).

As questões que orientaram a investigação são as seguintes: Quais disputas discursivas aparecem no conteúdo da série? Quais linhas discursivas sobre raça são apropriadas pelo seriado e quais significados apresentam? Quais soluções narrativas o seriado propõe? Quais semelhanças e diferenças com seriados brasileiros podem ser identificadas?

Nosso objetivo, portanto, é analisar o conteúdo do programa procurando traços de reprodução e inovação das linhas discursivas a respeito da questão racial nos EUA.

Interessa observar as tensões, contradições e negociações na apropriação destes conteúdos. Pretendemos identificar o tipo de representação dos afrodescendentes e da questão racial que aparece no seriado. Nesse percurso poderemos verificar se as proposições presentes no seriado refletem o cenário político e social a respeito da questão racial nos EUA.

Aplicamos as metodologias qualitativa e quantitativa. A respeito da primeira, analisamoso conteúdo, não para encontrar dissimulações, mas para observar como configurações discursivas se constituem buscando uma coerência estratégica, como elas operam no interior de um dispositivo televisivo: normalizando comportamentos, marcando fronteiras identitárias, sujeitando individualidades e sofrendo resistências.

Buscamos olhar o conteúdo do programa para apreender as linhas de força discursivas que ele mobiliza, tendo em vista também, a relação destas estratégias discursivas com a herança histórica. Observamos as trajetórias das personagens protagonistas, a relação que elas estabelecem com os demais personagens, especialmente os brancos; as diferenças de trajetórias em relação à etnia das protagonistas; os enquadramentos mobilizados nas cenas, especialmente as que envolvem diretamente a temática racial.

2A „midiaculturas‟ agrega pensadores franceses, tais como: ÉricMaigret, ÉricMacé e HervéGlevarec.Para uma análise detalhada do referencial „midiaculturas‟ consultar (SOUZA, 2017).

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A parte quantitativa diz respeito ao conteúdo dos 13 episódios da quinta temporada do seriado que foi decomposto em 487 segmentos segundo o critério de mudança de assunto e/ou de cena. Para cada segmento foi aplicada uma planilha dividida em 18 categorias analíticas que procuram identificar conteúdos, tais como: raça, gênero, orientação sexual dos protagonistas e interlocutores na cena; tema tratado na cena; viés dado ao tema (de esquerda/progressista; conservador/liberal; de direita/extrema direita);

contestação ou não do viés; existência de violência ou conflito; quem levou vantagem no conflito ou foi vítima da violência; etc. Os dados foram rodados no software estatístico SPSS que gerou as frequências e correlações.

Para cumprir seus propósitos o paper está dividido em três partes. Na primeira explicamos o referencial da „midiaculturas‟ e apresentamos as principais linhas discursivas sobre questão racial nos Estados Unidos. Na segunda parte traçamos o retrato quantitativo da série a partir de frequências e cruzamentos de conteúdos presentes nos segmentos. Por fim, na terceira parte procedemos à análise qualitativa dos conteúdos da série buscando suas relações com as linhas discursivas apresentadas no segundo item.

O debate sobre mídia, poder e sociedade.

A perspectiva teórica por nós adotada se inscreve nessa postura de reação ao olhar hegemônico no campo sociológico. Nossa inspiração mais próxima é o movimento teórico e político-acadêmico intitulado „midiaculturas‟. Esse referencial, que agrega principalmente intelectuais franceses, entende que processos interativos, e não dicotômicos,envolvem as relações de poder entre as mídias e a sociedade. A perspectivada „midiaculturas‟ se inspira nos Estudos Culturais ingleses, na Sociologia Construtivista e na concepção de esfera pública polifônica (MAIGRET, 2010). Ao se opor à herança adorniana da „indústria cultural‟ e bourdiana do „consumo cultural‟, seus autores procuram valorizar a capacidade reflexiva dos públicos em suas práticas cotidianas interativas. Esse ponto de vista valoriza os produtos midiáticos de entretenimento, pois, eles condensam conflitos discursivos por identidade. Os discursos são entendidos como práticas que operam nas interações cotidianas e que são, por elas, desafiados. Trata-se de um jogo tenso que envolve, por um lado, a reprodução dos quadros interpretativos do mundo e seu poder de estabilizar as relações e, por outro, os desafios e resistências que apontam para as transformações da sociedade (MACÉ, 2006).

As relações de força que perpassam o dispositivo midiático são ambíguas, tensas e contraditórias. Entre outros motivos, porque a mídia, em busca da audiência, opera a

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reprodução das suas fórmulas, mas, também necessita de inovação (MORIN, 2011); ela almeja tudo representar. A mídia é mais um dispositivo do que um sistema, um dispositivo que engendra ordens discursivas plausíveis, proposições, justificativas que buscam ancorar as ações dos sujeitos rumo às estabilidades, mas, que para fazê-lo precisa, paradoxalmente, iluminar as vozes dissonantes.

Trata-se, portanto, de abandonar o „midiacentrismo‟ ou a essencialização da mídia enquanto estrutura exclusivamente alienadora e de dominação. É importante valorizar o fato de que os meios de comunicação aproximam as instituições e a sociedade civil,apresentando códigos que tanto resultam de negociações quanto as propõem (MAIGRET, 2010). As interações entre mídia e sociedade se desenrolam em contextos instáveis marcados por diferenças e desigualdades, envoltos por disputas por hegemonia a respeito do sentido da vida em comum, a propósito do sistema de valores.

A complexidade deste processo de produção e recepção de mensagens midiáticas se evidencia, também, pelo caráter responsivo dos meios de comunicação de massa (PORTO, 2012). Ou seja, a mídia responde, ao menos parcialmente, às pressões advindas da sociedade, o que solicita atenção à circulação de discursos sobre o mundo social. Os criadores precisam agradar, mas, também produzir mudanças, por isso, o olhar do observador deve valorizar as tensões, o conflito, as disputas simbólicas por identidade.

As estabilidades correspondem mais a cristalizações provisórias de sentido do que a dominações sistêmicas e automáticas. Significa que os meios de comunicação registram as relações de força entre os grupos sociais (MAIGRET, 2010) ao mesmo tempo que delas participam, negociando a multiplicidade de significados e promovendo apropriações, muitas vezes, contraditórias.

A série OITNB oferece elementos muito ricos para observação das disputas discursivas. Os episódios são perpassados por tensões identitárias étnico-raciais, de gênero, de sexualidade, de espaço etc. Neste trabalho iremos privilegiar a análise da questão racial.

OITNB é uma comédia dramática, um dos dez programas mais vistos daNetflix.

Ela foi produzida por três mulheres: JenjiKohan, Sara Hess e Tara Herrmann. É baseadanaobra de Piper Kerman, Orange Is the New Black: My Year in a Women's Prison (2010).

A protagonista da série é a personagem Piper Chapman, uma mulher branca, na faixa dos 30 anos, loira de olhos azuis, de classe média-alta, condenada a 15 meses

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deprisão por envolvimento com o tráfico de drogas. A narrativa central versa sobre o choque de Piper com o ambiente prisional marcado pelas tensões entre uma multiplicidade de grupos étnicos, sexuais, geracionais e sócio-políticos. Como afirma Gray (1995), a televisão privilegia a classe-média branca como audiência ideal, mas, no caso em tela, as autoras exploram a interação da personagem Piper com as minorias raciais, étnicas e sexuais visando abrir caminho junto a uma audiência diferenciada.

As mulheres afrodescendentes formam uma comunidade importante no seriado. O tema central da quinta temporada é a rebelião que eclode na prisão após a morte de uma jovem negra por um guarda. O contexto favorece a observação das tensões que envolvem: a busca de alianças entre os grupos de prisioneiras, a superação das diferenças, as dificuldades em planejar e executar estratégias conjuntas, as vitórias e derrotas.

Nossa análise irá valorizar o encontro das linhas discursivas presentes na sociedade com a narrativa contida na série, especialmente no que tange à questão racial nos Estados Unidos. Portanto, é importante identificar essa herança discursiva, ainda que nos seus traços principais.

A herança discursiva sobre a questão racial nos Estados Unidos.

Assim como no caso brasileiro, os EUA têm um passado escravocrata não plenamente resolvido ou pacificado. Em ambos os casos o fim da escravidão não significou a conquista automática do status de cidadão no âmbito político e social. Ao contrário, a população negra se viu marginalizada e estereotipada. À parte as semelhanças, muitas diferenças existem nesta história com efeitos diversos, mas, também reencontros.

Uma variação fundamental é que no Brasil pós-escravidão o Estado pouco, ou quase nada, legislou sobre a relação entre brancos e negros, deixando o problema para ser resolvido na esfera privada das decisões individuais (AVRITZER & GOMES, 2013).

No caso dos EUA, apesar da guerra civil que culminou com a abolição da escravatura, o Estado foi o protagonista de um sistema jurídico que legalizava a segregação, a exclusão dos negros e impedia o trânsito entre as raças. A cultura foi mobilizada para reproduzir a hierarquia e o estereótipo da população negra. Essa herança fez com que o racismo norte americano fosse de „origem‟, ou seja, as tonalidades da pele importam menos do que a ancestralidade. Isto explica a criação da „one-drope rule‟, onde a origem era determinante para impedir o casamento inter-racial.

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Na herança brasileira, a título de comparação, é muito evidente a preocupação com os rumos da nação e com a formação do povo. As proposições que apontavam para a homogeneidade do povo prevaleceram sobre aquelas que sugeriam a separação dos afrodescendentes em decorrência de suas supostas diferenças negativas que inviabilizariam o projeto de nação (COSTA, 2009). A nação mestiça, nesta linha que vem de Gilberto Freyre, poderia sim servir de base para o desenvolvimento da sociedade.

O racismo brasileiro profere um discurso de negação absoluta das diferenças e promove o ideal de homogeneidade (GUIMARÃES, 1995), por exemplo, nos enunciados do embranquecimento e da democracia racial, cujo principal efeito foi manter as desigualdades associadas à questão racial longe da arena política. Todavia, se faz presente também uma linha discursiva que enfatiza a negatividade da herança mestiça gerada pelo padrão português de colonização, cuja procedência é Sérgio Buarque de Holanda. Esse passado pesaria pelo seu legado: um complexo de vira-lata, uma postura pré-moderna, pouco racional e muito emotiva. Racismo de marca e não de origem, como o norte-americano,aparece também nessa herança.

A linha discursiva da identidade nacional unificada, por seu turno, contém a ideia de que a mistura das raças teria a capacidade de superar a suposta herança negativa africana graças ao embranquecimento do povo. A miscigenação, é fundamental frisar, resulta da elaboração de um mito fundador, mas, também da trágica experiência de exploração sexual das mulheres negras pelos colonizadores brancos, tensão que chega até os dias atuais. Aparece com vigor o traço de privatização da questão racial no Brasil, sua aparência de escolha individual e problema de autoestima. No caso brasileiro a cor ocupa posição central menos por remeter a uma ascendência inferior e mais por evidenciar e justificar a posição subalterna da pessoa (GUIMARÃES, 1995). Ao circunscrever a questão racial à esfera privada a sociedade brasileira não garante igualdade de status, muito ao contrário. O cenário brasileiro é diametralmente oposto ao contexto original dos EUA de regulação legal estatal até mesmo de casamentos intra-raciais e status de descendência (AVRITZER & GOMES, 2013). Nosso racismo não institucionalizado se mantém pela contradição que associa cidadania formal com direitos negados pela concretude da pobreza, do déficit educacional, da injustiça e da violência.

O mito da democrática mistura de raças se caracteriza como um discurso aberto a diferentes significados e apropriações (COSTA, 2009) ao longo da história brasileira. O

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desejo inter-racial funciona como elo que funda a nação e reaparece, em diferentes combinações.

O discurso da mestiçagem, associado ao do branqueamento, parece ter operado, mais recentemente, uma dualidade: a cultura negra, ou mestiça, é celebrada como símbolo da identidade nacional, entretanto, ela permanece separada da cultura branca que não reivindica simbolizar a nação, mas, se mantém dominante econômica e politicamente. Os brancos celebram a miscigenação da qual não fazem parte (MACHADO, 2002; COSTA, 2009) num contexto de extrema desigualdade e pobreza que atinge uma população, em grande parte, negra. O discurso da mestiçagem serve, por exemplo, para ratificar o mito da democracia racial. Diante das desigualdades sociais o apelo discursivo conservador é pela igualdade das raças e dos seres humanos. Por outro lado, frente aos privilégios raciais dos brancos a linha argumentativa liberal enfatiza a diferença, a meritocracia supostamente garantida pelo mercado. Aliás, um traço da hegemonia liberal, nessa disputa discursiva, pode ser visto na valorização do mercado combinada com a desconfiança no Estado e na participação política popular.

Após essas breves observações sobre o caso brasileiro, estamos com condições de prosseguir nas considerações sobre a herança discursiva norte-americana a respeito da questão racial. Como dizíamos o contexto após a escravidão foi marcado por leis contra a miscigenação, pela segregação, pela restrição dos direitos civisdos afrodescendentes e pela mobilização da cultura para estereotipar o negro, cujo exemplo máximo esteve na retomada da canção „Jump Jim Crow‟, encenada pelo ator Thomas D. Rice em 1832, com o rosto coberto por maquiagem escura, tipo „blackface’. Posteriormente a legislação segregacionista ficou conhecida como „Jim Crow laws’.

As mobilizações em favor a extensão dos direitos civis à população negra, nos anos 50 e 60, foi vitoriosa e levou a mudanças profundas na questão racial nos Estados Unidos. Após a resistência do movimento negro, amparada por instituições como as igrejas protestantes e as faculdades para afrodescendentes, o Estado passou a ser o fiador de uma legislação contra a segregação e favorável à compensação pelas consequências da escravidão e do racismo. O movimento negro soube se apropriar de valores morais, do discurso da justiça, liberdade e igualdade, para apontar as contradições da democracia estadunidense e avançar na conquista de direitos e oportunidades (ANDREWS, 1985).

As mudanças não significaram o fim do racismo ou da questão racial. Uma parcela da população negra experimentou a ascensão social, mas, as estatísticas sobre

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pobreza, população carcerária, desemprego, salários, escolaridade são indicativos de que muitas barreiras raciais persistem. O aparato institucional criado para ajudar a população negra conquistar efetivamente os direitos de igualdade se revelaram viciadas (WEST, 1994). O autoritarismo tecnocrático combinou-se com o etnocentrismo dos brancos, o que gerou a „problematização‟ dos espaços, valores e comportamentos dos afrodescendentes. O negro é definido como polo negativo do branco, de modo semelhante ao que acontece no Brasil (AVRITZER & GOMES, 2013). O efeito foi a perpetuação da discriminação agora de forma velada, às sombras da rede institucional pedagógica, de assistência social, jurídica e carcerária. Entretanto, o crescimento da violência policial contra a população negra é a face explícita desse novo racismo.

O discurso a respeito de uma sociedade pós-racial, que idealizou uma sociedade que combina diversidade, igualdade e paz, implicou na responsabilização individual dos negros pelos seus supostos fracassos em alcançar o sonho americano que, agora, estaria ao alcance de todos. A desesperança pessoal, a sensação de inutilidade social e a depressão coletiva passaram a ser tratados como problemas do „self’, enfim, como efeitos naturais da seleção via meritocracia. Assim como no Brasil, o discurso da igualdade de status remete o racismo para o âmbito das relações privadas de preconceito e para a esfera da psique. As conquistas formais do passado e a ascensão econômica de uma parcela dos negros dificulta a mobilização contra os problemas coletivos ligados à questão racial. Cenário que contribui para o cinismo político, para a baixa estima, para a desconfiança interpessoal e para o declínio da eficácia política subjetiva. A carência de líderes políticos da magnitude daqueles que guiaram as lutas no passado é um indicativo da dificuldade da reelaboração da identidade negra nos Estados Unidos. A última grande empreitada política de um líder negro se deu pelas mãos de Jesse Jackson nos anos 80, com a proposta de aliança inter-racial, antecipando a questão multicultural, mas, sem grande sucesso.

O novo cenário depois das lutas pelos direitos civis, de preconceito velado e descriminação que passa por mecanismos sociais mais sutis (ANDREWS, 1985) como a escola, a seletividade do mercado, a pobreza (GUIMARÃES, 1995), a justiça, tornaram o racismo, sua percepção e combate,mais complicados. Paralelamente a isso, reações ressentidas às políticas afirmativas, temperadas de ódio, passaram a habitar o cenário político e social desde os anos 90. A questão racial nos EUA se aproximou do racismo assimilacionistabrasileiro (GUIMARÃES, 1995), o país do norte parece viver algo

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semelhante com a nossa „democracia racial‟. A brutalidade inicial do racismo nos EUA representou também a sua fraqueza; quando a discriminação é mais sutil o racismo se faz mais forte (ANDREWS, 1985). A sutileza, a proximidade entre brancos e negros, parece permear a questão racial no Brasil e nos EUA nos tempos atuais. Nesse contexto os norte-americanos aparentemente se defrontam com o seu próprio mito da igualdade racial. Entretanto, os casos de violência contra negros principalmente por parte da polícia, tenciona as relações, enfraquecem a naturalização pós-racial e favorecema continuidade do ativismo, ainda que na agenda apareçam temas como o empoderamento financeiro e a representatividade sociocultural.

Guimarães identifica mudanças de percepção do racismo nos EUA e, por consequência no Brasil, após a luta por direitos civis:

Desde então adenúncia das desigualdades raciais mascaradas em termos de classe social ou de status passaram a ser um item importante na pauta anti- racista. Os racismos brasileiro e norte-americano tinham se tornado muito maisparecidos entre si (GUIMARÃES, 1995, 29).

Entretanto, uma nova dinâmica de percepção por parte dos agentes do antirracismo emergiu com o nacionalismo negro e o feminismo. Segundo o autor, passou-se a valorizar a recuperação e preservação do legado cultural africanosubalternizado no antirracismo assimilacionista e universalista. Também se passou a enfatizar “o caráter racializado das diferenças sexuais como parte de um processo denaturalização e de justificação social de hierarquias culturais”

(GUIMARÃES, 1995, 29). A interseccionalidade entre gênero e raça fica mais evidente.

A nova migração para a Europa de povos do terceiro mundo que passaram a ser vistos como inassimiláveis completou o processo de geração de um novo racismo no cenário mundial, um racismo sem raça (GUIMARÃES, 1995), onde a cultura aparece circunscrita pelas fronteiras étnicas, vinculada à raça, perdendo fluidez e potencial interativo, virando propriedade natural de comunidades raciais naturalizadas. A antiga naturalização biológica ganhou uma nova camada no diferencialismo cultural essencializado. Mas, em determinadas situações a discriminação mantém o referencial central na raça, num típico racismo. O novo desafio é, a partir das diferenças, construir alianças baseadas em interesses comuns inter-raciais e antirracistas.

A perspectiva da „midiaculturas‟ baseia a nossa hipótese de que o seriado OITNB, enquanto construção social interativa, negocia com as linhas discursivas a respeito da questão racial nos EUA, retrata as tensões do discurso pós-racista no país, assim como,

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tenciona com as fantasias da igualdade racial, da ascensão social e da “cegueira” da diferença entre as cores. A difícil equação da igualdade e da diferença, assim como a dificuldade de construção de objetivos inter-raciais, também constituem linhas discursivas que se oferecem aos produtores do programa em tela.

Apresentado o referencial teórico e as principais linhas discursivas sobre a questão racial nos Estados Unidos, estamos em condições de analisar os conteúdos do seriado OITNB com vistas a responder as nossas indagações: Quais disputas discursivas aparecem no conteúdo da série? Quais linhas discursivas sobre raça são apropriadas pelo seriado e quais significados apresentam? Quais soluções narrativas o seriado propõe?

Quais semelhanças e diferenças com seriados brasileiros podem ser identificadas?

Começaremos essa análise pelos dados quantitativos e, no próximo item, passaremos às observações qualitativas.

A quinta temporada do seriado OITNB em números.

O ponto de partida da análise quantitativa é a distribuição temática. A análise se dá pela divisão do seriado em segmentos, ou cenas, os critérios principais para segmentação são amudança de cenário, ou a alteração do tema, ou ainda, a mudança do agente protagonista. A quinta temporada da série foi dividida em 487 segmentos.

Na tabela 1 é possível identificar a presença da „questão racial‟ em 4,1% dos segmentos. Fica evidente que não é propósito do seriado, na quinta temporada, fazer um investimento quantitativo nesse tema. Aliás, e evento central da temporada em análise é a rebelião. Portanto é lógico que assuntos ligados a tal fato apareçam em destaque. O tipo do seriado também leva à saliência dos assuntos „afetividade‟ e „sexualidade‟.

Tabela 1 - Tema Principal

Tema Frequência Percentual

Segurança 101 20,7

Política, poder, estratégias e disputas 88 18,1

Afetividade 71 14,6

Outros 53 10,8

Rebelião 51 10,5

Crime, contravenção 42 8,6

Sexualidade 22 4,5

Questão étnico-racial 20 4,1

Felicidade 20 4,1

Luta de classes, Movimento Social 19 3,9

Total 487 100,0

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

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A tabela 2 retrata o protagonismo na série. O programa conta com a participação de diferentes núcleos étnicos, com personagens variados em relação a gênero e condição sexual. Em termos de frequência de presença em segmentos, confirma-se a hegemonia dos heterossexuais, com destaque para as mulheres brancas. Entretanto, contra-públicos

„subalternos‟ também se destacam, como as mulheres latinas, as mulheres negras e as mulheres homossexuais. Uma personagem é mulher transexual negra, Sophia controla o espaço do salão de beleza, ela foi protagonista em seis dos 487 segmentos.

Tabela 2 – Protagonismo Protagonista

Frequência Percentual

Mulher preta heterossexual 71 14,6%

Homem preto heterossexual 2 0,4%

Mulher branca heterossexual 125 25,7%

Homem branco heterossexual 48 9,9%

Mulher latina heterossexual 106 21,8%

Homem latino heterossexual 1 0,2%

Mulher asiática heterossexual 1 0,2%

Mulher preta homossexual 16 3,3%

Mulher branca homossexual 49 10,1%

Homem branco homossexual 12 2,5%

Mulher trans preta homossexual 6 1,2%

Mulher branca bissexual 35 7,2%

Mulher asiática bissexual 4 0,8%

Outros 11 2,2%

Total 487 100,0%

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

A tabela 3 indica a interação entre protagonista e interlocutor. Não deixa de ser surpreendente que a interatividade que ganhou mais espaço foi entre as mulheres latinas heterossexuais, com 53 do total de 336 segmentos onde foi verificada interação. Em seguida aparece o núcleo de mulheres brancas heterossexuais interagindo entre si em 45 cenas. Ou seja, considerando as duas maiores frequências é possível afirmar que existe uma hegemonia de interações entre iguais. No quesito interações entre diferentes a primeira a aparecer é entre homens brancos heteros e mulheres brancas heteros com 22 casos, mas, empatada com a interação entre as próprias mulheres negras heterossexuais.

Esse dado corrobora a percepção de que as afrodescendentes têm uma representação significativa no seriado. Merece destaque ainda o fato de que o seriado não parece ter enfatizado, ao menos em termos quantitativos, interações entre grupos inter-raciais. Ao

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que tudo indica, a linha discursiva das alianças entre diferentes etnias não foi privilegiada.

Tabela 3 – Protagonismo x Interlocução Protagonista e interlocutor

Protagonista

Interlocutor

Nenhum

Mulher preta hetero

Homem preto hetero

Mulher branca

hetero

Homem branco

hetero

Mulher latina hetero

Mulher preta hetero 0 22 3 14 10 5

homem preto heterossexual

1 0 0 0 1 0

mulher branca heterossexual

6 6 0 45 22 18

homem branco heterossexual

1 1 0 16 16 3

mulher latina heterossexual

2 2 0 14 14 53

mulher branca homossexual

0 2 1 10 4 2

Homem branco homossexual

2 0 0 3 2 0

Outros 3 6 1 11 6 8

Total 15 39 5 113 75 89

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Ao observarmos a tabela 4 é possível verificar que a questão racial apareceu, principalmente, em cenas protagonizadas por mulheres negras, mas, mulheres brancas também merecem destaque neste quesito. Das 20 cenas cujo tema principal foi questão étnico-racial, 9delas foram protagonizadas por mulheres negras heterossexuais e 6 cenas por mulheres brancas heterossexuais, além de uma cena por mulher negra homossexual.

Se somarmos as mulheres negras hetero e homossexuais temos que 50% das cenas com a temática principal de questão étnico-racial foi protagonizada por mulheres negras.

Quando o tema predominante da cena é sexualidade, temos principalmente como protagonistas as mulheres brancas heterossexuais, das 22 cenas sobre sexualidade, 8 são protagonizadas por mulheres brancas heterossexuais, 4 por mulheres brancas bissexuais e 4 por homens brancos heterossexual. É interessante observar que a protagonista do seriado, a Piper, é uma jovem branca bissexual. Ainda que a soma de cenas de sexualidade com protagonismo de mulheres bissexuais e homossexuais seja significativa, 7 de 22 segmentos, não se faz quantitativamente hegemônica na quinta temporada.

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Em relação aos temas„Luta‟ e „Movimento Social‟,juntos aparecem em terceiro lugarcom uma distribuição mais equitativa entre os agentes. Das 19 cenas com essa temática predominante, 7 tem como protagonistas mulheres negras heterossexuais, 6 mulheres brancas heterossexuais e 3 mulher latina heterossexuais.

Tabela 4 – Protagonismo x Tema

Protagonista

Tema 1 Questão

étnico-racial

Sexuali

dade Gênero

Desigual Dade

Feminista/luta /movimento

Luta de classe/movimento

social mulher preta

hetero

9 0 0 1 1 7

mulher branca hetero

6 8 2 0 0 6

homem branco hetero

1 4 1 0 0 0

mulher latina hetero

2 3 1 1 1 3

mulher preta homo

1 1 0 0 0 0

mulher branca homo

0 2 1 0 0 1

Mulher branca bi

0 4 0 1 0 2

Outros 1 0 1 0 1 0

Total 20 22 6 3 3 19

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Outro critério por nós mobilizado para classificar os segmentos foi o viés.O objetivo foi indicar a tendência que predominou na cena, principalmente, em relação ao tema: 1. Esquerda/progressista: crítico, contestador, (em relação: ao status quo, à hegemonia, às desigualdades, ao racismo, à misoginia, à homofobia). O discurso do tipo:

„somos todos diferentes e toda normalidade é uma construção social com efeitos de poder‟. 2. Conservador/liberal: mantém a moralidade, a ordem e os costumes - de predomínio masculino, heterossexual, branco. Entende que existe um „normal‟, padrão, mas, as diferenças devem ser toleradas e respeitadas. Defende a meritocracia e o mito da democracia racial. 3. Extrema-direita: reprodutor dos preconceitos e discriminações (que reforça e defende a dominação, a desigualdade – enfatizando a hierarquia, a superioridade dos „iguais‟ em relação à„outros‟. Ênfase no machismo, no patriarcalismo, na homofobia; questionando ou relativizando os direitos humanos). Discurso de que os brancos são superiores e/ou outras etnias são inferiores. Uso do recurso pejorativo contra

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os públicos dominados. Além da possibilidade de não ter viés, 0. Descritivo: neutro, enfim, sem um viés claro. Ou não se aplica.

Também observamos se havia contestação em relação ao viés ou ao tema predominante da cena. Mesmo se a contestação fosse implícita, relacionada ao contexto do seriado, ela foi considerada, isso levando em conta a dimensão dramática da cena.

Classificamos como: 0. sem contestação; 1. contestação relacionada ao viés e ao tema (juntos); 2. contestação relacionada só ao viés; 3. contestação relacionada só ao tema.

Conforme apresentada na tabela 5, ao cruzarmos o „Viés‟ com o tipo de contestação, percebemos que do total de 487 cenas analisadas, 373 cenas não tinham nenhum tipo de viés e também nenhum tipo de contestação, isso corresponde a 76% do total das cenas. Aconteceu uma distribuição bastante equilibrada entre vieses de esquerda com 38 (7,8%) e de extrema-direita com 37 (7,6%); 11 (2,3%) dos segmentos tiveram um viés conservador. Deve-se salientar que o seriado contava com um núcleo de skinheads defensoras da supremacia branca. O critério da contestação serve para auferir se ocorreu repúdio ao enquadramento hegemônico proposto na cena. Foi possível perceber que foram poucas as contestações quanto o viés foi deesquerda, apenas 3 em números absolutos. Por outro lado, quando o enquadramento foi de extrema-direita as contestações foram mais frequentes, 13 de um total de 37. Incluindo as contestações relacionadas só ao tema, ou seja, considerando o conjunto das contestações, é possível afirmar que a quinta temporada do seriado valorizou o contraditório, pois, do total de 487 segmentos em 53 (10,9%) apareceu algum tipo de contestação substantiva, associada ao tema e/ou viés da cena.

Tabela 5 – Viés e Contestação

Viés Contestação

Sem Relacionada ao viés e ao tema

Relacionada só ao viés

Relaciona da só ao

tema

Total

Sem viés

% do total

373 76%

2 0,4%

0 26

5,3%

401 82,3%

Esquerda

% do total

31 6,4%

3 0,6%

0 4

0,8%

38 7,8%

Conservador

% do total

7 1,4%

0 0

3 0,6%

1 0,2%

11 2,3%

(16)

Viés Contestação Sem Relacionada ao

viés e ao tema

Relacionada só ao viés

Relaciona da só ao

tema

Total

Sem viés

% do total

373 76%

2 0,4%

0 26

5,3%

401 82,3%

Esquerda

% do total

31 6,4%

3 0,6%

0 4

0,8%

38 7,8%

Conservador

% do total

7 1,4%

0 0

3 0,6%

1 0,2%

11 2,3%

Extrema- direita

% do total

23 4,7%

8 1,6%

5 1%

1 0,2%

37 7,6%

Total

% do total

434 89,1%

13 2,7%

8 1,6%

32 6,6%

487 100%

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Ainda em relação à contestação verifica-se, conforme demonstrado na tabela 6, que houve um grau significativo de contestação quanto o tema era „Questão Racial‟, ou seja, em 7 segmentos do total de 20, o que representa 1,4% do total analisado. Na temática „Rebelião‟a ocorrência foi de6 segmentos com contestação, o que soma 1,2%

dos segmentos analisados, com predomínio da contestação somente ao tema que foi de 0,8%, ou seja 4 segmentos.

O tema „Segurança‟ também merece ser mencionado, ele teve contestação em8 do total de 101 segmentos, ou seja, um índice baixo, o que pode indicar que este tema não foi muito debatido na quinta temporada, apesar de a rebelião ter sido o assunto dos 13 episódios. A mesma observação vale para o tema „Política e Poder‟comcontestações em 13 segmentos do total de 88. Quanto ao tema „Crime e Contravenção social‟, a relação foi de8 segmentos com contestação de um total de 42. Merece destaque os temas com potencial de polêmica, mas, que não apresentaram contestação, são os caso de „gênero‟ e

„desigualdade‟.

Tabela 6- Tema e contestação Contestação

Tema Sem/ Não tem

Relacionada ao viés e ao tema

Relacionada só ao viés

Relaciona da só ao

tema

Total

Questão étnico-racial

13 2,7%

5 1%

1 0,2%

1 0,2%

20 4,1%

(17)

Sexualidade 21 4,3%

0 0

0 0

1 0,2%

22 4,5%

Gênero 6

1,2%

0 0

0 0

0 0

6 1,2%

Desigualdade 2 0,4%

0 0

1 0,2%

0 0

3 0,6%

Movimento Feminista

3

0,6%

0 0

0 0

0 0

3 0,6%

Luta de classe/Mov.

Social

19 3,9%

0 0

0 0

0 0

19 3,9%

Rebelião 45

9,2%

1 0,2%

1 0,2%

4 0,8%

51 10,5%

Economia/Co nsumo

1 0,2%

0 0

0 0

0 0

1 0,2%

Cultura 4

0,8%

0 0

2 0,4%

0 0

6 1,2%

Trabalho 1

0,2%

0 0

0 0

0 0

1 0,2%

Felicidade 20 4,1%

0 0

0 0

0 0

20 4,1%

Afetividade 68 14%

0 0

0 0

3 0,6%

71 14,6%

Segurança 93

19,1%

1 0,2%

0 0

7 1,4%

101 20,7%

Religião 4

0,8%

0 0

0 0

1 0,2%

5 1%

Política/Poder 75 15,4%

4 0,8%

3 0,6%

6 1,2%

88 18,1%

Crime/

Contravenção

34 7%

2 0,4%

0 0

6 1,2%

42 8,6%

Outros 25

5,1%

0 0

0 0

3 0,6%

28 5,7%

Total 434

89,1%

13 2,7%

8 1,6%

32 6,6%

487 100%

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Também nos interessou verificar quem foi o agente da contestação (tabela 7).

Percebemos que as mulheres negras, apesar de não liderarem no protagonismo, predominam no quesito contestação, polemizando em 17 segmentos se considerarmos a soma de heteros e homossexuais. O conjunto das mulheres brancas aparece em segundo lugar também com um número alto de frequência, ou seja, 15. As mulheres latinas também se destacam com 11 aparições.

Tabela 7 – Agente da Contestação e Contestação Contestação

(18)

Agente da Contestação

Sem/

Não tem

Relacionada ao viés e ao tema

Relacionada só ao viés

Relaciona da só ao

tema

Total

Ninguém 434 1 0 0 435

Mulher preta heterossexual

0 4 3 8 15

Mulher branca heterossexual

0 3 1 2 6

Homem branco heterossexual

0 1 0 3 4

Mulher latina heterossexual

0 2 2 7 11

Homem latino heterossexual

0 0 0 0 1

Mulher preta homossexual

0 1 0 1 2

Mulher branca homossexual

0 1 0 4 5

Mulher branca bissexual

0 0 0 4 4

outros 0 0 1 1 2

Detentas (grupo) 0 0 1 1 2

Total 434 13 8 32 487

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Outra variável utilizada no ordenamento dos segmentos foi a presença ou não de violência. Classificamos as cenas em relação à violência como: sem violência;presença de violência física e presença de violência simbólica, no caso de atos que causam constrangimento, humilhação ou representem assédio.Também incluímos uma quarta variável quando a cena continha ambas as violências, física e simbólica.Nos interessou ainda verificar quem foi o agente desta violência, conforme demonstramos na tabela 8.

Verificou-se que em quase metade das cenas (45,8%) ocorreu violência. Na maior parte das cenas o principal agente da violência foram as mulheres latinas heterossexuais, com 27 segmentos, ou seja, 10,7%. Elas se envolveram predominantemente com a violência física, foram 26 segmentos. O segundo agente da violência foram as detentas em grupo, agindo coletivamente, em 28 segmentos, ou seja, em 5,7% dos segmentos. O que se explica pelo fato de a quinta temporada ter sido toda dedicada à rebelião no presídio. A violência dos guardas como agentes da ação também merece destaque, ela ocorreu em 3,7% dos segmentos analisados.

Tabela 8 – Agente da Violência x Violência

(19)

Tipo de Violência Agente da

Violência

Não teve

Sim, física Sim, simbólica

Sim, física e simbólica

Depredação do Patrimônio

Total

Não há protagonista

% do total

263 54%

2 0,4%

2 0,4%

1 0,2%

0 0

268 55%

Mulher preta heterossexual

1 0,2%

8 1,6%

6 1,2%

7 1,4%

0 0

22 4,5%

Mulher Branca heterossexual

0 0

13 2,7%

23 4,7%

7 1,4%

0 0

43 8%

Homem branco heterossexual

0 0

17 3,5%

8 1,6%

2 0,4%

0 0

27 5,5%

Mulher latina heterossexual

0 26

5,3%

16 3,3%

10 2,1%

0 0

52 10,7%

Homem latino heterossexual

0 0

1 0,2%

0 0

0 0

0 0

1 0,2%

Mulher asiática heterossexual

0 0

0 0

2 0,4%

0 0

0 0

2 0,4%

Mulher preta homossexual

0 3

0,6%

1 0,2%

1 0,2%

0 0

5 1%

Mulher branca homossexual

0 0

1 0,2%

4 0,8%

2 0,4%

0 0

7 1,4%

Homem branco homossexual

0 0

10 2,1%

1 0,2%

3 0,6%

0 0

14 2,9%

Mulher branca bissexual

0 0

3 0,6%

1 0,2%

1 0,2%

0 0

5 1%

Mulher asiática Bissexual

0 0

0 0

1 0,2%

0 0

0 0

1 0,2%

Detentas 0

0

13 2,7%

7 1,4%

8 1,6%

0 0

28 5,7%

Guardas 0

0

7 1,4%

4 0,8%

7 1,4%

0 0

18 3,7%

Outros 0

0

2 0,4%

2 0,4%

0 0

0 0

4 0,8%

Total 264

54,2%

106 21,8%

71 14,6%

45 9,2%

1 0,2%

487 100%

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Em relação às vítimas da violência (tabela 9) homens brancos heterossexuais se destacam com 46 segmentos (9,4%), ou seja, o contexto da rebelião favoreceu a ação das presas sobre os guardas, numa espécie de revanche. Aliás, a este número podemos acrescentar a violência sofrida pelo coletivo dos guardas, 18 cenas (3,7%); que sofreu menos do que o coletivo das presas, 28 cenas (5,7%). Mas, as mulheres brancas heterossexuais também se destacam como vítimas, foi o caso de 42 segmentos (8,6%), entre elas existem guardas, mas, também presas. Merecem destaque ainda, as mulheres

(20)

brancas bissexuais que foram vítimas da violência em 15 cenas e os homens brancos homossexuais com 10 cenas.

Tabela 9 – Vítima x Tipo de violência Tipo de Violência

Vítima da Violência

Não teve

Sim, física Sim, simbólica

Sim, física e simbólica

Depredação do Patrimônio

Total

Sem vítima 263 54%

6 1,2%

5 1,0%

0 0

1 0,2%

275 56%

Mulher preta heterossexual

0 0

1 0,2%

8 1,6%

0 0

0 0

9 1,8%

Homem preto heterossexual

0 0

2 0,4%

0 0

0 0

0 0

2 0,4%

Mulher branca heterossexual

0 0

16 3,3%

12 2,5%

14 2,9%

0 0

42 8,6%

Homem branco heterossexual

0 0

29 5,9%

11 2,3%

6 1,2%

0 0

46 9,4%

Mulher latina heterossexual

0 0

8 1,6%

6 1,2%

2 0,4%

0 0

16 3,3%

Homem latino heterossexual

0 0

1 0,2%

0 0

0 0

0 0

1 0,2%

Mulher asiática heterossexual

0 0

0 0

1 0,2%

0 0

0 0

1 0,2%

Mulher preta homossexual

0 0

2 0,4%

1 0,2%

2 0,4%

0 0

5 1,0%

Homem preto homossexual

0 0

1 0,2%

0 0

0 0

0 0

1 0,2%

mulher branca homossexual

0 0

6 1,2%

1 0,2%

0 0

0 0

7 1,4%

Homem branco homossexual

0 0

4 0,8%

4 0,8%

2 0,4%

0 0

10 2,1%

Mulher latina homossexual

0 0

0 0

0 0

1 0,2%

0 0

1 0,2%

Mulher branca bissexual

0 0

6 1,2%

7 1,4%

2 0,4%

0 0

15 3,1%

Mulher asiática bissexual

0 0

1 0,2%

0 0

0 0

0 0

1 0,2%

Detentas 0

0

13 2,7%

7 1,4%

8 1,6%

0 0

28 5,7%

Guardas 0

0

7 1,4%

4 0,8%

7 1,4%

0 0

18 3,7%

Outros 0

0

1 0,2%

1 0,2%

0 0

0 0

2 0,4%

Total 264

54,2%

106 21,8%

71 14,6%

45 9,2%

1 0,2%

487 100%

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Também nos interessou saber se a cena tinha uma característica de comédia, drama ou ambas.Na tabela 10 este critério é cruzado com o viés predominante no segmento. Considerando o total de cenas, houve um predomínio daquelas exclusivamente

(21)

dramáticas, com 328 casos (67,4%). A frequência de cenas dramáticas com viés de esquerda (28) foi um pouco superior às de extrema-direita (23) e bem acima daquelas com viés conservador (8).

Tabela 10 – Víés x Tipo de cena Tipo de Cena

Viés

% do total

Outros Comédia Drama Ambos Total

Neutro/ sem viés 5

1,0%

25 5,1%

269 55,2%

102 20,9%

401 82,3%

Esquerda 0

0

0 0

28 5,7%

10 2,1%

38 7,8%

Conservador 0

0

0 0

8 1,6%

3 0,6%

11 2,3%

Extrema-direita 1

0,2%

0 0

23 4,7%

13 2,7%

37 7,6%

Total 6

1,2%

25 5,1%

328 67,4%

128 26,3%

487 100%

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

Quando se trata de saber se o tom da cena é predominantemente irônico/debochado ou sério conforme o viés, o resultado é parecido com o anterior. Ou seja, nenhuma cena com viés apresentou tom exclusivamente irônico ou de deboche.

Foram predominantes as cenas com viés onde o tom de ironia e seriedade apareceram combinados. Cenas com viés de extrema-direita tiveram uma diferença maior entre o predomínio de ambos os tons frente ao tom exclusivamente sério se comparada com aquelas de viés de esquerda.

Tabela 11- Viés e Tom cena Tom da Cena Viés

% do total

Nenhum Irônico/

deboche

Sério Ambos Total

Neutro/ sem viés 2 0,4%

29 6,0%

177 36,3%

193 39,6%

401 82,3%

Esquerda 0

0

0 0

15 3,1%

23 4,7%

38 7,8%

Conservador 0

0

0 0

2 0,4%

9 1,8%

11 2,3%

Extrema-direita 0 0

0 0

10 2,1%

27 5,5%

37 7,6%

Total 2

0,4%

29 6,0%

204 41,9%

252 51,7%

487 100%

Fonte: Grupo Midiaculturas - UFPR

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