A CIDADE MORTA e seus fantasmas
A CIDADE MORTA
e seus fantasmas
Luiz Coelho Medina
Copyright © Luiz Coelho Medina, 2022
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Medina, Luiz Coelho
A cidade morta e seus fantasmas / Luiz Coelho Medina. - 1. ed. - Rio de Janeiro:
Letra Capital, 2022.
120 p. ; 15,5x23 cm.
ISBN 978-65-89925-55-2
1. Contos brasileiros. 2. Crônicas brasileiras. 3. Literatura brasileira. I. Título.
22-75394 CDD: 869
CDU: 821.134.3(81) Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439
Dedico este livro às memórias de Gelson Maciel e de Claudio Bispo, dois queridos amigos que durante esta edição cruzaram a linha do mistério, para serem transformados em personagens eter- nos da saudade.
Agradecimentos a
Carlos Zurck Cruz e a Solange Maria de Souza,
que foram de fundamental importância
pelo empenho e carinho dedicados,
para que essa edição fosse concluída.
Sumário
Apresentação ... 9
Observar uma cidade é ler aspirações, orgulho, esperanças, mas também sonhos perdidos ... 11
p
rimEirap
artE ... 17A chegada do louco Ederaldo na Porta do Céu I ... 19
A chegada do louco Ederaldo na Porta do Céu II ... 21
A cidade morta ... 22
A página 21 ... 27
“Aquele indivíduo” ... 31
A rainha do tráfico e suas conexões ... 32
As “anomalias” do reverendo ... 33
Cunhado não é parente ... 37
“Di Menor” – Reflexões Em 4 Partes ... 39
Efeito dominó ... 42
“Essa tal felicidade” ... 44
Jeremias, o tarado despauperado ... 46
Goiaba com café ... 48
“Herança eterna” ... 51
Honestina – uma história de amor ... 53
“Ninguém é de ninguém” ... 56
O comedor de estrelas cadentes ... 58
O filho do meio ... 60
O menino e o canário ... 61
O pavilhão Z ... 62
O presidente e seus ministros ... 68
“O rei da confusão” e sua fórmula ao avesso ... 73
Os “músicos” ... 75
“Os reis da titica” e a fã nº 1 ... 76
Sururu no cemitério ... 79
Utopia ... 82
s
EGundap
artE ... 85As jaqueiras ... 87
A solidão ... 87
Assalto frustrado ... 88
Através da janela ... 88
Ausências ... 90
Blocos de concreto ... 91
Bola de cristal ... 91
Bolinhos de aipim ... 92
Cacofonia e paixão ... 93
Cheiros da infância ... 93
Controles remotos ... 94
Cupido literário ... 94
Dois irmãos ... 95
Duplo “love” ... 96
Empatia ... 96
Encantamento ... 97
Eternidade ... 98
Evolução ... 98
Fezes ... 98
Fogos de artifício... 100
Gerações ... 100
Invisibilidade ... 101
Lola ... 101
Loucura... 102
O esfacelado ... 102
O morador de lua (Uma breve história) ... 103
Operação plástica ... 104
Orelhões ... 105
Os vermes ... 106
O vizinho do 107 ... 106
Pedra ... 107
Pedro ... 107
Perdidas ... 108
Pessoas em fumaças ... 108
Pluma ... 108
Pódio ... 109
Presságio – o último voo para a liberdade ... 109
Procura ... 110
Quando o amor “bomba” ... 110
Sagrado coração (em VI partes) ... 112
Salto ... 114
Seu Ferreira ... 115
Tempo felino ... 116
Tio juca ... 117
Vestidinho rosa ... 120
Vida que segue ... 119
Vírgula e ponto ... 119
Luiz Coelho Medina – A cidade morta e seus fantasmas 9
Apresentação
Na primeira parte deste livro, escrevi 26 pequenos contos, apresentados durante o período em que participei do SARAU CATANDO CONTOS. Sarau este, realizado toda primeira segunda feira do mês (no inicio na casa de Paulo Zanpa, posteriormente no Bar do Alexandre, ambos, em Morro Agudo, Nova Iguaçu, RJ), onde cada contista propunha um tema para ser desenvolvido e lido no mês seguinte. Devo salientar que esses momentos foram para mim muito importantes e agradáveis, onde fiz novos amigos e revi os antigos, entre eles Antonio Feitoza, o Totó (que me apresentou ao grupo). Por esse motivo, em quase todos os contos, coloquei os nomes desses amigos nos personagens, como uma forma de homenageá-los ao participarem comigo daquela efeméride. Dedico a eles essas histórias.
Na segunda parte, escrevo contos e crônicas, ora tristes, ora alegres, ora pessoais, ora desabafos quanto às agruras do dia a dia, enfim, procuro retratar a vida com todas as cores que ela possui, mas sempre fiel a minha visão de mundo.
Espero que os leitores se identifiquem com esses meus gritos.
Agradeço a todos pela leitura.
Luiz Coelho Medina
Luiz Coelho Medina – A cidade morta e seus fantasmas 11
Observar uma cidade é ler aspirações, orgulho, esperanças, mas também sonhos perdidos
“O que se faz urgente é pensar e sentir o mundo por trás dos olhos de quem já chorou”
(provérbio africano)
,
aí chegamos aos anos 70 (tenho 15 anos): O Pasquim, Hendrix e Pink Floyd; Joe Cocker, Santana e Woodstock (o filme).“Aquarius/Let The Sunshine In”; “London London”; “Volks- Volkswagen blues”; “Coqueiro Verde”; “Top Top”. O MAM; a Cinemateca do MAM; hippies; “Aldeia do MAM” e lá estava eu.
O MAM um locus de liberdade, resistência, criatividade ou só de desbunde mesmo.
Os “malucos” de todas as colorações também lá estavam fazendo Jóias Artesanais e Poesia e Teatro e Cinema e Música e HQs e Artes Visuais, ou só sendo malucos mesmo e morando sob o chafariz como o “Índio”.
O que líamos nessa época? Tudo o que líamos era apreciado por ser chocante, obsceno (no sentido lato) ou, melhor ainda, ambos: “Operação França” (1969); “O Dia do Chacal” (1971);
“Os Segredos da Cosa Nostra” (1972); “O Passado Ainda Dói”
(1970), Adelaide Carraro; “As mulheres do cabelo de metal”
(1971), Cassandra Rios e os quase que exclusivamente masculinos, hoje revolucionários, “catecismos” pop-porno-eróticos do vanguardista Carlos Zéfiro (Alcides Aguiar Caminha). Claro, não estou falando dos livros que nos eram exigidos ler pela escola –
“O Diário de Dany”, os meninos e “O Diário de Ana Maria”, as meninas, ambos do presbítero francês Michel Quoist e toda sua moral repressora judaico cristã; “Sidarta” do Hesse; “Quincas Borba”, Machado de Assis, “Meu Pé de Laranja Lima”, José Mauro de Vasconcelos –, esses líamos por obrigação e algumas vezes gostávamos deles.
12 Luiz Coelho Medina – A cidade morta e seus fantasmas
Uma tarde, me chega o Braz com um livro de humor, não lembro o título, mas era qualquer coisa como “Contos de Humor Universal”, por aí, Eça de Queiroz; Guy de Maupassant; Machado de Assis; Gogol; Voltaire, estavam todos lá e aquilo foi uma epifania, descobrimos que humor também podia ser literatura e das boas e que autores clássicos estavam envolvidos nisso. A partir desse singelo episódio, o texto cômico – Leon Eliachar;
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta); Millôr Fernandes; Carlos Eduardo Novaes – para nós, ganhou um status de literatura de primeira e o humor, como aponta Gregory Bateson, papel fundamental na nossa socialização.
Bem, toda essa digressão é só pra dizer que este livro “A CIDADE MORTA E SEUS FANTASMAS”, me desculpem, já nasceu clássico, Luiz Medina é um mestre da sátira sutil, do sarcasmo homeopático, explorando o mundo e sua própria vivência, “ com todas as cores que ela possui”, fiel a sua filosofia de vida – que pode ser resumida na frase: “vida é delicada e breve” – ou como diriam os Beatles, “ Life is very short, and there’s no time...” –, em busca dessa matéria fluída para nos fazer rir e nos compreendermos como a personagem fantástica e bizarra que somos nós, seres humanos (in)comuns, “fugidos da página 21” – se referirá o autor ao produto de dois números sagrados (três vezes sete) relacionado à perfeição ou ao “caminho da conciliação”, na kabbalah ou seria apenas palpite para o jogo do bicho (touro ou grupo da cabra)?
nunca saberemos –, “no rio do nosso destino, boiando, agarrados a algum sonho”, trauteando “Casaco Marrom” (sem esperança de “voltar aos velhos tempos de mim”), “engarrafando nuvens, bebendo chuva, encantando pássaros, domando dragões” e derivando “prazer de rabiscar o céu”.
Se a ideia de comédia soa cativante, Medina se esquiva habilmente das armadilhas do sentimentalismo e da previsibilidade.
Apesar da comicidade, com generosas pitadas de realismo fantástico e seus elementos inverossímeis, imaginários, distantes da realidade dos homens – que segundo Tzvetan Todorov, “dentro da nossa realidade regida por leis, ocorrências que não podem ser explicadas por essas leis incidem na incerteza de ser real ou imaginário” –,
Luiz Coelho Medina – A cidade morta e seus fantasmas 13
há em sua narrativa, um quê do sentido “trágico aristotélico” onde o protagonista deve ter um caráter admirável, mas imperfeito e o público precisa simpatizar com ele e compreendê-lo. Provavelmente, todos os “personagens principais” dos contos de Luiz Medina, seriam capazes tanto do bem como do mal.
Provavelmente você já sorriu espontânea e discretamente, ao princípio de algum conto de Nélson Rodrigues e em seguida, ainda sorrindo, perplexo, se deparou com a tragédia. Pois bem, Luiz Medina, como no provérbio africano, tem os olhos, também, sobre a perspectiva dos oprimidos, dos humilhados, dos desvalidos e ousa capturar o desespero que se esconde por trás dos sorrisos e quixotices (ou vice-versa), daqueles que estão, como nós, nos andares de baixo. Acho que afora Bukowski, que eu conheça, ninguém escreveu tão bem sobre o fracasso, em todo conto há um perdedor e, apesar do “sense of humour” do autor, ou até por isso, lágrimas ali estão. Há um desalento, uma amargura “esperançosa”, uma melancolia excitante, nesse humor lírico, mas também a sensação de que o infortúnio está logo ali.
A ambientação dos contos é atemporal e cheia de “atores”
partícipes dos próprios encontros de contistas (Aline; Ane;
Átomo; Avellar; Beth; Cleber; Bispo; Dudu; Edu; Eliane;
Elizabeth; Escobar; Evellyn; Feitoza; Fernanda; Ivone; J. Batista;
Joana; Joaquim; Lafayette; Laica; Lisa; Paulô; Marujo, Reginaldo;
Rufino; Samuel; Sergio; Sertório; Solange; Totó; Wallace; Medina, sim, ele próprio etc.), uma homenagem que os eterniza e “al fin y al cabo”, a mim também, por estar aqui escrevendo este prefácio.
Parafraseando Herbert Vianna: “se eu queria me eternizar essa é a minha chance”.
Medina tece magistralmente o humor, o sarcasmo, a ironia e o fantástico, em suas narrativas pessoais, sem abrir mão da critica social, que está sempre presente, nem da comicidade nostálgica de quem também é candidato a fantasma e que “aos poucos”, vai se despedindo da “cidade morta”, e isso é o que torna estas histórias tão cativantes e envolventes.
Já se perguntou porque as peças de Shakespeare se mantiveram atuais ao longo do tempo?
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Responde o professor Pedro Süssekind: “Porque a obra dele não ficou datada, pois se abre para novas abordagens, interpretações, releituras [...] e continuamos a nos identificar com os grandes conflitos humanos retratados ali”. Eu não estaria sendo exagerado se afirmasse que esta coletânea de contos está fadada a essa condição. No futuro, quem se predispor a lê-los, vai se identificar e dali obterá a substancia etéria, instável, inconstante, necessária para pensar em si próprio e em seu momento histórico, futuro – em que esperamos, a expressão “Ivy Marãey”, desejo do povo Tupi, não seja mais um desejo, seja a realidade – e compreender o nosso, passado.
* * *
“Não faz sentido dividir as cidades nessas duas categorias [felizes ou infelizes], mas em outras duas: aquelas que continuam ao longo dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos conseguem cancelar a cidade ou são por esta cancelados.”
(Ítalo Calvino (in As Cidades Invisíveis)
,
“segunda parte.”.O que seria uma “segunda parte” de um livro de contos? O que seria a segunda parte de uma existência? O que é existência?
Qual o propósito da existência?
Desde há 200 mil anos no nosso ‘lar ancestral’ as margens do enorme lago ao sul da bacia do Rio Zambeze ao norte de Botsuana, são feitas essas perguntas e não encontramos respostas.
Apenas o fato maior e mais certo sobre a existência, que podemos saber com segurança, é que ela é finita.
Nesta “segunda parte”, Luiz continua a nos alertar que “o tempo é fugaz “ e que cada um de nós está em uma marcha atlética constante e ainda que a “linha de chegada é sempre o silencio e o pódio, areia movediça” e da existência “restará apenas sobras de nossas ousadias, de nossa coragem”.
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No entanto, há um alento: buscar “no fundo da gaveta um pedaço de alegria”; “o cheiro de aconchego” do petrichor (o fluido vivificante que corre nas veias dos deuses, a fragrância que se sente quanto a chuva molha a terra); observar que “existem vários tipos de paixão durante nossa vida, entre elas as que são encantamento e as que apenas são sublimes”, “que sempre seremos únicos, homens e bichos . Bichos e homens”. Para tanto, devemos constantemente permanecer “inconformados” com o dado-aí, “sermos pessoas com personalidade transformadora”.
Ainda que “ filhos e netos quando vierem visitá-lo, tragam sacolas cheias de sobras de carinho, migalhas de beijos, mentiras enlatadas”, aconselha, “caia na gargalhada”, é o bastante.
Nesta “segunda parte”, Luiz nos exorta a não agir como o gado metafórico seguindo a massa em uma “jornada nonsense”
para o abismo, sejamos “heróis” uns para os outros, encontrando um propósito no campo de batalha da vida cotidiana, enfrentando com determinação os “fogos de artifício que anunciam a chegada de um novo abandono”, ainda que “esfacelados, pedaços a beira mar, atônitos nas grandes cidades ou numa rede colorida. Nunca seremos um todo mesmo”.
Em vez de ficar preso aos padrões destrutivos cristalizados pela sociedade que se mostra destrutiva todo tempo, pergunte-se:
“como seria sua vida se tivesse aprendido a flutuar?” E sigamos combatendo “o desperdício do nunca vivido”, porque, em algum momento do futuro, “cê nem vai tá aqui”, “vida que segue e ponto final”.
É possível que estes contos e crônicas de humor, aqui reunidos, estejam seguramente, entre os melhores já produzidos por autores contemporâneos da Baixada Fluminense, não sei, só sei que este livro espirituoso me fez sorrir muitas vezes e me emocionou outras tantas, mas agora estamos na segunda década do Sec. XXI, em plena “Era de Aquarius”.
Inverno de 2021, Carlos Zürck