Forças Armadas e Amazonia : (1985-2006)
Texto
(2) FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP. Lourenção, Humberto José L934f Forças Armadas e Amazônia (1985-2006) / Humberto José Lourenção. - Campinas, SP : [s. n.], 2007. Orientador: Shiguenoli Miyamoto. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. 1. Amazônia - História. 2. Relações internacionais - Amazônia. 3. Política externa – Brasil. 4. Estratégia. I. Miyamoto, Shiguenoli. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III.Título.. sfm/ifch. Título em inglês: Armed Forces and Amazonian (1985 to 2006) Palavras chaves em inglês (keywords):. Amazonian - History International relations - Amazonian Foreign policy - Brazil Estrategy. Área de Concentração: Estudos políticos Titulação: Doutor em Ciências Sociais Banca examinadora: Prof. Dr. Shiguenoli Miyamoto (orientador) Prof. Dr. João Roberto Martins Filho Prof. Dr. Marcos Aurélio de Oliveira Prof. Dr. Paulo César Souza Manduca Prof. Dr. Valeriano Mendes Ferreira Costa Data da defesa: 19/10/2007 Programa de Pós-Graduação: Doutorado em Ciências Sociais.. ii.
(3) H UMBERTO J OSÉ L OURENÇÃO. FORÇAS A RMADAS E A MAZÔNIA (1985 A 2006). Este exemplar corresponde à redação final da Tese de Doutorado em Ciências Sociais defendida e aprovada pela Comissão Julgadora em 19 de outubro de 2007.. COMISSÃO JULGADORA Prof. Dr. Shiguenoli Miyamoto (orientador). Ass: ____________________________. Prof. Dr. João Roberto Martins Filho. Ass: ____________________________. Prof. Dr. Marcos Aurélio de Oliveira. Ass: ____________________________. Prof. Dr. Paulo César Souza Manduca. Ass: ____________________________. Prof. Dr. Valeriano Mendes Ferreira Costa. Ass: ____________________________. Suplentes: Profa. Dra. Suzeley Kalil Mathias. Ass: ____________________________. Prof. Dr. Luís Alexandre Fuccille. Ass: ____________________________. Prof. Dr. Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. Ass: ____________________________. CAMPINAS, 2007.. iii.
(4) iv.
(5) A GRADECIMENTOS. Agradeço, primeiramente, a meu orientador e extraordinário mestre, prof. Dr. Shiguenoli Miyamoto, pelas críticas e sugestões, sempre muito focais e pertinentes. Agradeço a meus professores do curso de doutorado em Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH, pela formação recebida. Agradeço aos funcionários do IFCH, secretários, bibliotecários, gestores, faxineiros, jardineiros, todos bastante solícitos e dedicados. Agradeço à instituição na qual trabalho, a Academia da Força Aérea (AFA), pelas licenças concedidas, propiciando que eu empreendesse essa pesquisa. Agradeço a meus colegas docentes e pesquisadores, companheiros de profissão, na árdua tarefa de aprender e ensinar, por todo apoio intelectual e sócio-emocional. Agradeço à minha irmã Dalva Lourenção e ao meu irmão Fernando Lourenção, pela convivência fraterna e solidária. Agradeço ao Prof. Tomio Kikuchi, pelos ensinamentos aplicáveis a toda a vida e ao meu amigo José Prado. Agradeço às minhas filhas Juliana e Caroline pela resignação diante da ausência paterna. Agradeço, sobremaneira, à mãe delas Márcia Valéria pelo intenso apoio e profunda compreensão nos momentos mais difíceis.. v.
(6) vi.
(7) D EDICATÓRIA. A meus pais, Sr. Adércio Lourenção e Sra. Helena Aparecida Moreli Lourenção, agricultores, pouco escolarizados mas extremamente sábios.. vii.
(8) viii.
(9) R ESUMO A presente tese trata do pensamento militar a respeito da Amazônia. Especificamente, aborda as concepções geopolíticas, estratégicas e de defesa da Amazônia Legal brasileira produzidas por oficiais, tanto os da ativa como os da reserva e reformados, das Forças Armadas brasileiras: Exército, Marinha e Aeronáutica, elaborado entre os anos de 1985 e 2006. Apurando a compreensão do pensamento expresso por oficiais das Forças Armadas, esta pesquisa buscou evidenciar três assuntos predominantes nesse pensamento, bem como a relação entre eles: primeiro, a percepção da importância estratégica das potencialidades e recursos da Amazônia brasileira no contexto nacional, regional e internacional; depois, a percepção dos riscos e ameaças que incidiriam sobre a região, incluindo o nível de vulnerabilidade em que se encontram os recursos amazônicos; por fim, as concepções de defesa, que tendem a se basear em ambas as percepções anteriores. A pesquisa caracteriza-se por ser exploratória, adotando um sistema qualitativo de análise. Sobre a metodologia de coleta de dados, o material empírico é constituído por documentos impressos ou eletrônicos que refletem a produção teórica de oficiais militares; especificamente os que possuem patentes de major ou superiores, portanto, há muitos anos nas Forças Armadas, representando fortemente o ideário político-estratégico cultivado no interior dessa instituição. O presente trabalho está divido em quatro capítulos. No primeiro, levantamos algumas notas acerca do sistema internacional, incluindo uma incursão nas teorias das relações internacionais com o objetivo de situar-se teoricamente para compreender, posteriormente, o pensamento militar. Destaca-se no conjunto de teorias de relações internacionais, o realismo, abordagem com a qual tenho maior afinidade. Depois, fez-se uma breve reflexão acerca das relações civil-militares na formulação de políticas de defesa, destacando-se como esta relação tem se dado recentemente no que tange à defesa da Amazônia. No capítulo dois, tem-se uma análise da inserção do Brasil no Sistema Internacional. O capítulo três apresenta o contexto amazônico, uma síntese histórica da ação governamental na Amazônia, em que se discutem as mudanças paradigmáticas que têm norteado esta ação. O capítulo quatro se assenta sobre os dados empíricos da pesquisa exploratória, estruturando as concepções militares de defesa da Amazônia. Finalizando, na conclusão empreendemos uma análise interpretativa, buscando referenciar o enfoque dos integrantes das Forças Armadas a respeito da defesa da Amazônia, bem como suas percepções dos contextos internacional, nacional e regional, nas teorias das relações internacionais. Aqui interpreta-se que o Realismo constitui o principal, mas não o único, paradigma pelo qual se pode compreender as concepções de defesa da Amazônia e as análises conjunturais do Sistema Internacional formuladas pelo oficialato das Forças Armadas. Palavras -chaves: Segurança, Defesa, Amazônia, Relações Internacionais, Estratégia.. ix.
(10) x.
(11) A BSTRACT To present theory treats of the military thought about the Amazonian. Specifically, it approaches the geopolitics conceptions, strategics and the defense of the Legal Brazilian Amazonian produced by officials, as much the ones of the active as the ones of the reservation and reformed, of the Brazilian Armed forces: Army, Navy and Aeronautics, elaborated among the years of 1985 and 2006. Cleaning the understanding of the thought expressed by officials of the Armed forces, this research looked for evidence three predominant subjects in this thought, as well as the relationship among them: first, the perception of the strategic importance of the potentialities and resources of the Brazilian Amazonian in the national, regional and international context; then, the perception of the risks and threats that would happen on the area, including the vulnerability level in what Amazonian resources are found; finally, the defense conceptions, that tend to be based in both previous perceptions. The research is characterized by being exploratory, adopting a qualitative system of analysis. On the methodology of collection data, the empiric material is constituted by documents printed or electronic that reflects the military officials' theoretical production; specifically the ones that possess major's patents or superiors, therefore, in many years in the Armed forces, representing the political-strategic ideal strongly cultivated inside that institution. The present work is divided in four chapters. In the first, we lifted some notes concerning the international system, including an incursion in the theories of the international relationships with the objective of placing theoretically to understand, later, the military thought. It stands out in the group of theories of international relationships, the realism, approach with which I have larger likeness. Then, it was made an abbreviation reflection concerning the civil-military relationships in the formulation of politics defense, standing out as this relationship has given recently with respect to the defense of the Amazonian. In the chapter two, an analysis of the insert of Brazil is in the International System. The chapter three presents the Amazonian context, a historical synthesis of the government action in the Amazonian, where the changes paradigm that they have been orientating this action are discussed. The chapter four settles on the empiric data of the exploratory research, structuring the military conceptions of defense of the Amazonian. Concluding, in the conclusion undertook an interpretative analysis, looking for reference the focus of the members of the Armed forces regarding the defense of the Amazonian, as well as their perceptions of the international, national and regional contexts, in the theories of the international relationships. Here it is interpreted that the Realism constitutes the main, but no the only, paradigm for which one can understand the conceptions of defense of the Amazonian and the analyses of the situation of the International System formulated by the officership of the Armed forces. Key Words: Safety, Defense, Amazonian, International Relationships, Strategy.. xi.
(12) xii.
(13) S UMÁRIO. APRESENTAÇÃO .......................................................................................................................5 INTRODUÇÃO .........................................................................................................................13 CAPÍTULO 1 O SISTEMA INTERNACIONAL: POLÍTICA E PODER ...............................................17 ANÁLISE ESTRUTURAL DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ..................................................19 TENDÊNCIAS TEÓRICAS NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS .................................................21 REALISMO ....................................................................................................................22 LIBERALISMO ...............................................................................................................26 MARXISMO...................................................................................................................31 CONCEPÇÕES DE DEFESA E SEGURANÇA NAS TENDÊNCIAS TEÓRICAS ...........................34 CAPÍTULO 2 O BRASIL E O SISTEMA INTERNACIONAL ...........................................................37 O CONTEXTO INTERNACIONAL ..........................................................................................37 O CENÁRIO REGIONAL.......................................................................................................42 BRASIL: POLÍTICA EXTERNA E INSERÇÃO NO CENÁRIO REGIONAL.....................................45 O BRASIL NO CENÁRIO REGIONAL DE SEGURANÇA E DEFESA ........................................46 A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA EM MATÉRIA DE SEGURANÇA E DEFESA ..................54. 1.
(14) CAPÍTULO 3 A AMAZÔNIA NACIONAL...................................................................................63 AMAZÔNIA LEGAL ............................................................................................................63 POTENCIAL DE RECURSOS AMBIENTAIS DA AMAZÔNIA .................................................67 DIFICULDADES E DESAFIOS AMAZÔNICOS .....................................................................70 A AÇÃO GOVERNAMENTAL: POLÍTICAS DE DEFESA DA AMAZÔNIA DE 1985 A 2006.........80 O PROGRAMA CALHA NORTE.......................................................................................84 O SISTEMA DE VIGILÂNCIA DA AMAZÔNIA - SIVAM ....................................................91 ANÁLISE DAS POLÍTICAS DE DEFESA DA AMAZÔNIA .....................................................93 CAPÍTULO 4 A AMAZÔNIA SOB A ÓTICA DAS FORÇAS ARMADAS .........................................99 REFERÊNCIAS À IMPORTÂNCIA POLÍTICO- ESTRATÉGICA DA AMAZÔNIA ..........................101 A QUESTÃO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DA AMAZÔNIA .................................................107 HISTÓRICO DA PRESSÃO INTERNACIONAL SOBRE A AMAZÔNIA BRASILEIRA ...............113 AS QUESTÕES DOS ÍNDIOS E DAS ONGS ......................................................................126 A QUESTÃO DO P LANO COLÔMBIA .............................................................................138 O EPISÓDIO DO MAPA DO BRASIL SEM A AMAZÔNIA ..................................................140 A DEFESA DA AMAZÔNIA ................................................................................................144 A QUESTÃO DA LEI DO ABATE.....................................................................................151. 2.
(15) CONCLUSÃO .........................................................................................................................155 CONCEPÇÕES DE DEFESA DA AMAZÔNIA NO SISTEMA INTERNACIONAL (1985-2006)......155 O DEBATE SOBRE INTERVENÇÃO E SOBERANIA ...........................................................156 A AMAZÔNIA E A QUESTÃO ECOLÓGICA .....................................................................160 ANÁLISE DO ENFOQUE DAS FORÇAS ARMADAS ACERCA DA DEFESA DA AMAZÔNIA .......162 CONCEPÇÕES DE DEFESA DA AMAZÔNIA NAS TEORIAS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ...................................................................................................................................168 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................................173 FONTES PRIMÁRIAS .........................................................................................................184 ANEXO .................................................................................................................................191. 3.
(16) 4.
(17) A PRESENTAÇÃO. O presente trabalho trata do pensamento militar a respeito da Amazônia. Especificamente, aborda as concepções geopolíticas, estratégicas e de defesa da Amazônia Legal brasileira produzidas por oficiais, tanto os da ativa como os da reserva e reformados, das Forças Armadas brasileiras: Exército, Marinha e Aeronáutica, elaborado entre os anos de 1985 e 2006. Apurando a compreensão do pensamento expresso por oficiais das Forças Armadas, esta pesquisa buscou evidenciar três assuntos predominantes nesse pensamento, bem como a relação entre eles: primeiro, a percepção da importância estratégica das potencialidades e recursos da Amazônia brasileira no contexto nacional, regional e internacional; depois, a percepção dos riscos e ameaças que incidiriam sobre a região, incluindo o nível de vulnerabilidade em que se encontram os recursos amazônicos; por fim, as concepções de defesa, que tendem a se basear em ambas as percepções anteriores. Dado que concepções de defesa sofrem influências das vicissitudes ocorridas no cenário sócio-político-econômico, buscou-se relacionar estas com aquelas, investigando a natureza e as razões das transformações ocorridas no pensamento militar sobre o tema. Atentou-se exatamente para discernir, entre os elementos deste pensamento, aqueles mais permanentes, que foram constantes, de forma menos dependente das mudanças conjunturais, e aqueles que se apresentaram mais voláteis, que surgiram e/ou feneceram em função de circunstâncias e pressões externas pontuais. Levando-se em conta que concepções de defesa contribuem para determinar políticas de defesa - e que, por sua vez, estas fomentam aquelas -, a análise incluiu as repercussões do debate teórico originado em torno da concepção e implantação de dois grandes programas de defesa da Amazônia, ocorridos exatamente no período abarcado por esse estudo, a saber: o Programa Calha Norte (PCN) e o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Esta análise nos propiciou verificar o quanto, no pensamento militar, há de pensamento propositivo, que procura se antecipar aos fatos históricos, concebendo cenários futuros de médio e longo prazo para a defesa da Amazônia; e o quanto há de pensamento reativo, de teor mais imediatista. 5.
(18) Assim, a análise do quadro internacional surgido a partir de meados da década. de. 1980,. dependência/autonomia. precisamente. a. análise. da. inserção. do. Brasil,. econômico-tecnológica. no. sistema. internacional,. sua tal. relativa como. formulada pelos discursos militares levantados, tornou-se necessária na medida em que tal leitura da realidade é o que fundamenta e sustenta um entendimento militar sobre a Amazônia. Ou seja, buscou-se apreciar os fatores da análise conjuntural considerados de maior relevância na formulação de políticas estratégicas, de defesa e segurança do país, em geral, e da Amazônia, em particular, tal como figuraram nos escritos de seus proponentes. Tome-se como exemplo a definição oriunda das Forças Armadas de novas ameaças "globalizadas" à soberania nacional, como tráfico de drogas, contrabando e lavagem de dinheiro, constantes no material analisado. No que concerne à revisão bibliográfica, abordamos as várias escolas das teorias das relações internacionais, com destaque para a escola realista. Essas teorias não foram entendidas nesse trabalho como fundamentos do pensamento militar. Ocorre que o pensamento militar não se envolve ordinariamente com o debate teórico acerca das relações internacionais que ocorre no meio acadêmico, pelo contrário, como demonstrado abaixo, ele possui um caráter muito mais doutrinário e auto-referente. Por isso, as teorias das relações internacionais aqui levantadas constituem um quadro de referências, servindo ao propósito de melhor situar teoricamente as concepções militares de defesa da Amazônia. A opção pela delimitação temporal de 1985 a 2006 do estudo das concepções militares de defesa da Amazônia decorre de várias razões significativas. Inicialmente, sem aprofundar as análises quantitativas, uma pré-pesquisa revelou que, no referido período em comparação aos anteriores, seguramente houve um aumento considerável do volume, em termos relativos e absolutos, de publicações e discursos militares a respeito da temática amazônica e de sua defesa, verificado em simpósios, debates, artigos, etc. Outra razão para se ater ao período entre 1985 e 2006 encontra-se na relação entre pensamento estratégico e política de defesa da Amazônia. Como se explicitará 6.
(19) adiante, esse período abrange o surgimento, desenvolvimento e implantação política e operacional de dois grandes programas de defesa da Amazônia: o Programa Calha Norte (PCN) e o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), que constitui um marco histórico da atuação governamental no que tange à defesa da região. Sendo que os oficiais das Forças Armadas brasileiras são os principais formuladores de defesa para a Amazônia, objetivouse também explicitar como o pensamento militar inspirou, endossou e se refletiu na concepção e implementação desses programas de defesa. Além. disso,. nesse. período. ocorreram. mudanças. significativas. no. entendimento da importância estratégica da Amazônia e de sua defesa. Tais mudanças advieram dos novos cenários e desafios que se estabeleceram com mais evidência em fins da década de 1980, a partir da queda do muro de Berlim, marcando o fim da guerra-fria, com o subseqüente esfacelamento da ordem bipolar encabeçada pelos Estados Unidos (EUA) e pela então União Soviética (URSS). No contexto dos novos cenários internacionais e regionais, a Amazônia foi se tornando, crescentemente, um símbolo mobilizador das Forças Armadas brasileiras, na medida em que as ameaças soviética e argentina deixaram de existir no plano externo e o comunismo não representaria mais uma referência para a segurança interna. (OLIVEIRA, 1994). Por fim, há também uma razão na política nacional para a delimitação do período abrangido por este estudo. Ele inicia-se com o primeiro governo civil, de José Sarney, após o regime militar inaugurado em 1964, e termina com o primeiro governo do presidente Luiz Ignácio Lula da Silva. Hipoteticamente, em um ambiente de governo civil, os ministérios e comandos militares, nas pessoas de seus oficiais superiores, são forçados a lançar mão de uma argumentação mais volumosa e expressiva acerca das necessidades de defesa da Amazônia, tal como a percebida. Ou seja, provavelmente, com o início da redemocratização, as Forças Armadas tiveram que se empenhar mais do que no período do regime militar para sensibilizar os órgãos decisores civis, em última instância, a Presidência da República, a respeito das questões amazônicas.. 7.
(20) Sobre a metodologia de coleta de dados, o material empírico desta pesquisa é constituído por documentos impressos ou eletrônicos que refletem a produção teórica de oficiais militares; especificamente os que possuem patentes de major ou superiores. Portanto, são oficiais há muitos anos nas Forças Armadas, representando fortemente o ideário político-estratégico cultivado no interior dessa instituição. Assim, as fontes primárias se constituíram de escritos contidos em publicações oficiais e institucionais, disponíveis tanto na forma impressa como eletrônica. O material levantado foi extenso, pois as publicações militares conferem grande destaque ao tema da Amazônia brasileira e sua importância estratégica e geopolítica. Nos textos publicados em livros, revistas, sites, etc. mantidos pelas Forças Armadas ou por seus membros também se encontram autores civis que, via de regra, são membros do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ESG) ou diplomados e conferencistas dessa instituição, além de professores de instituições de ensino militar, jornalistas especializados e outros estudiosos do assunto. Em geral, os artigos ou excertos reproduzidos em publicações militares são endossados pelos oficiais responsáveis pelo conselho editorial de tais publicações, simpatizantes às mesmas causas e que preservam o mesmo enfoque institucional. Por essa razão, esses textos também foram considerados como fontes primárias, mas secundariamente, em favor daqueles escritos por oficiais superiores. Especificamente, o universo de investigação manteve-se circunscrito aos seguintes conjuntos de textos. O primeiro conjunto é constituído pelas monografias ostensivas escritas pelos egressos das Escolas de Estado-Maior das três forças: a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME); a Escola de Guerra Naval (EGN), da Marinha; e a Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR). O segundo conjunto é formado por artigos de periódicos oficiais oriundos dos comandos militares e da Escola Superior de Guerra (ESG), a saber: a revista "A Defesa Nacional", publicação da ECEME (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército); a "Revista Marítima Brasileira", que é uma publicação oficial do Comando da Marinha; o periódico "Idéias em Destaque", editado pelo Instituto Histórico-cultural da Aeronáutica (Incaer); e a "Revista da Escola Superior de Guerra". Por fim, um terceiro conjunto de textos incluiu os artigos. 8.
(21) escritos por oficiais superiores na imprensa e outras manifestações ideológicas produzidas nas várias agremiações militares extra-oficiais, como são, por exemplo, o Clube Militar, que. publica. a. "Revista. do. Clube. Militar". e. vários. textos. no. site. <www.clubemilitar.com.br> e a Associação Nacional dos Militares das Forças Armadas (ANMFA), que publica textos de autoria de oficiais das Forças Armadas no site <http://www.anmfa.org/>. Sobre a qualificação do conjunto de fontes, entende-se que as monografias das escolas de Escolas de Estado-Maior têm importância relevada, dado que seus autores, ao saírem das respectivas escolas ocupam a patente de coronel, normalmente passando a ocupar postos de comando influentes e estratégicos dentro da hierarquia das forças ou do Governo Federal, muitas vezes como definidores de políticas de defesa. Por outro lado, os dois últimos conjuntos possuem particularidades muito interessantes ao conterem textos, normalmente, mais polêmicos e contundentes, menos atidos às questões pontuais. Via de regra, foram escritos por militares da reserva ou já reformados, portanto, numa condição em que são menores os comprometimentos com a hierarquia e as preocupações com a ascensão na carreira militar. Os dados levantados acerca dos aspectos político-estratégicos da Amazônia, contidos no capítulo três da tese, foram obtidos em fontes primárias e secundárias, a saber: documentos e publicações governamentais e institucionais, como os provindos de órgãos ministeriais - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Instituto Nacional de Pesquisas espaciais (INPE), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Instituto do Homem e Meio-ambiente da Amazônia (IMAZON), etc.; material acadêmico, composto de publicações oriundas das instituições superiores de ensino e pesquisa; e artigos publicados em meios de comunicação, em formatos eletrônicos e impressos.. 9.
(22) Nessa pesquisa, caracterizada por ser exploratória, adotou-se um sistema qualitativo de análise, portanto, não focado na representatividade quantitativa1 . A partir da interpretação dos documentos no contexto histórico em que foram produzidos, foi construída uma estrutura temática das abordagens militares sobre a defesa da Amazônia, delimitada pela abordagem conceitual adotada, desenvolvida no capítulo 1. A análise e interpretação dos textos conduziram para que se descartasse a construção de qualquer tipologia, tal como poderia ser feita, por exemplo, referente às forças em particular Exército, Marinha e Aeronáutica. A pesquisa qualitativa pressupõe que há uma realidade empírica passível de ser decifrada - no caso, as concepções militares expressas em textos - por meio da pesquisa, da reflexão e da interpretação. Porém, devido principalmente ao caráter hermenêutico da análise e interpretação de documentos, a metodologia da pesquisa qualitativa acarreta o risco da perda da cientificidade. No intuito de afastar esse risco, nas referências aos documentos analisados, procurou-se manter o máximo de fidelidade ao conteúdo original dos documentos, reproduzindo-os "ipsis litteris". A análise dos documentos fundamentou-se na teorização formulada em torno das relações internacionais. Isso porque as diferentes teorias de relações internacionais inspiram diferentes percepções e análises do quadro internacional surgido a partir de meados da década de 1980 e da inserção específica do Brasil, sua relativa dependência/autonomia de natureza política, estratégica, econômica e tecnológica nesta ordem internacional. Por sua vez, essas leituras conjunturais resultam e sustentam concepções de defesa e de segurança do país, em geral, e da Amazônia, em particular, tal como formuladas pelos integrantes da alta hierarquia das Forças Armadas. O presente trabalho está divido em quatro capítulos. No primeiro, levantamos algumas notas acerca do sistema internacional, incluindo uma incursão nas teorias das relações internacionais com o objetivo de situar-se teoricamente para. 1. Para uma análise quantitativa, especificamente sobre as monografias da Eceme, cf Leirner, 2006. 10.
(23) compreender, posteriormente, o pensamento militar. Destaca-se no conjunto de teorias de relações internacionais, o realismo, abordagem com a qual tenho maior afinidade. Depois, fez-se uma breve reflexão acerca das relações civil-militares na formulação de políticas de defesa, destacando-se como esta relação tem se dado recentemente no que tange à defesa da Amazônia. No capítulo dois, tem-se uma análise da inserção do Brasil no Sistema Internacional. O capítulo três apresenta o contexto amazônico, uma síntese histórica da ação governamental na Amazônia, em que se discutem as mudanças paradigmáticas que têm norteado esta ação. O capítulo quatro se assenta sobre os dados empíricos da pesquisa exploratória, estruturando as concepções militares de defesa da Amazônia. Finalizando, na conclusão empreendemos uma análise interpretativa, buscando referenciar o enfoque dos integrantes das Forças Armadas a respeito da defesa da Amazônia, bem como suas percepções dos contextos internacional, nacional e regional, nas teorias das relações internacionais.. 11.
(24) 12.
(25) I NTRODUÇÃO. Em sociedades que se pretendem democráticas a definição dos denominados "objetivos nacionais", incluindo o sistema de defesa e a política militar, constitui uma prerrogativa própria do poder político, isto é, prevalece a supremacia do poder político, legítimo e representativo, na formulação de concepções de defesa e definição das políticas de defesa e militar. Ao poder militar cabe fornecer recursos, análises e alternativas estratégicas para que o poder político possa definir como o Estado vai empregar ou não sua força militar, e, estabelecidas estas definições, obviamente, é função também das Forças Armadas operacionalizá-las. Assim, apesar dos militares terem a atribuição de participar ativamente da definição e planejamento da política de defesa nacional, em tese, eles constituem apenas um dos atores principais; tal definição e planejamento comportam, primordialmente, um diálogo entre a sociedade política, instituições da sociedade civil e organismos militares. A priori, a participação mais atuante da sociedade civil e do parlamento contribui para melhorar a articulação da defesa nacional com os objetivos estratégicos do país. Contudo, tradicionalmente, no Brasil, por questões histórico-culturais e de ordem operacional, o tema da defesa é ainda pouco debatido pela sociedade civil, em geral, e pelo poder político, em particular, não sendo freqüente no debate parlamentar, até porque não propicia grande retorno eleitoral. Some-se a isso o fato de que a Constituição de 1988 não dotou o Congresso da prerrogativa de definir a política de defesa, como ocorre na maior parte dos países democráticos, assim, fazendo com que a política de defesa seja tratada ao sabor das circunstâncias ou se constitua num tema reservado quase que exclusivamente à área militar. Em suma, no Brasil, as Forças Armadas, representadas por seus oficiais superiores, ainda são as protagonistas na definição, proposição e articulação de políticas de defesa para o país e para a Amazônia - aqui inclusos os atores políticos estatais e não-estatais, civis e militares, novos e tradicionais: governo federal, principalmente através do Ministério da Defesa e das Relações Exteriores e governos estaduais, 13.
(26) principalmente dos estados amazônicos; parlamentares; pesquisadores e cientistas das áreas tecnológicas, de política e de relações internacionais, abrigados em instituições acadêmicas, notadamente. as. universidades públicas; Organizações Não-Governamentais (ONGs),. nacionais e estrangeiras; etc. A importância estratégica conferida à Amazônia a partir dos anos de 1990, se reflete, no nível teórico e político, no documento governamental "Política de Defesa Nacional" (PDN), em sua versão atual (BRASIL, Ministério da Defesa, 8 Dez. 2006) e também na de 1996 (BRASIL, Presidência da República, 8 Dez. 1999). Na versão de 1996, uma das diretrizes propostas era "proteger a Amazônia brasileira, com o apoio de toda a sociedade e com a valorização da presença militar". De acordo com a atual PDN, a Amazônia brasileira, dadas as riquezas que abrigam, é considerada área prioritária para a Defesa Nacional. Segundo o documento, visando à defesa das riquezas naturais e do meio ambiente amazônico, "[...] é imprescindível executar uma série de ações estratégicas voltadas para o fortalecimento da presença militar [... e] efetiva ação do Estado no desenvolvimento sócio-econômico [da região]". No nível operacional também houve um significativo aumento da presença militar na região. Ao longo da década de 1990, novos Batalhões Especiais de Fronteira e Batalhões de Infantaria na Selva foram criados na Amazônia. Em 1991 a primeira Brigada de Infantaria Motorizada de Petrópolis foi transferida para Boa Vista (RR), denominada Primeira Brigada de Infantaria da Selva. Em 1993, a 16ª Brigada de Infantaria Motorizada de Santo Ângelo (RS) foi transferida para Tefé (AM), denominada 16ª Brigada de Infantaria da Selva. Em agosto de 2002 foi inaugurado o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), com mais de noventa por cento de suas instalações funcionando. Por isso, entre os anos de 1998 e 2002, concentradamente nos últimos 18 meses desse período, o número de soldados na longa linha de fronteira com os sete países da região cresceu de 3,3 mil para 23,1 mil e, a partir de 2000, os quartéis dos novos pelotões de fronteira em Uiramutã, Tiriós, Pará-Cachoeira e Maturacá foram construídos ou terminados. Por sua vez, a Marinha também mobilizou forças para a Amazônia: em 1994, transformou a Flotilha do Amazonas em Comando Naval da Amazônia Ocidental; e, em 2002, iniciou a 14.
(27) mudança do Grupamento de Fuzileiros Navais em Batalhão de Operações Ribeirinhas. Enfim, trata-se do maior remanejamento de tropas realizado na história do País desde 18702 . Em resumo, o Brasil tem reforçado a presença de suas Forças Armadas na Amazônia, em função de uma estratégia dissuasória de caráter unicamente defensivo. Outro indicativo desse movimento pode ser encontrado no exercício combinado da Marinha, Exército e Força Aérea, denominado Operação Timbó, realizado em junho de 2003, na região da fronteira com a Colômbia, com a finalidade de coibir a ação de narcotraficantes e guerrilheiros, bem como os ilícitos ambientais, especialmente os próximos às comunidades indígenas. De fato, a Amazônia tem se tornando, cada vez mais, um símbolo mobilizador das Forças Armadas no Brasil - um símbolo da soberania e da missão militar uma vez que as ameaças representadas pela União Soviética e Argentina deixaram de existir no plano externo e o comunismo não configuraria mais uma referência para a defesa interna (OLIVEIRA, 1994). Para este cenário contribuíram a resolução das divergências e assinatura de acordo de cooperação em segurança e defesa entre Brasil e Argentina, em junho de 1996, e o desenvolvimento do Mercosul. De fato, a região platina não apresenta sérios problemas na área da defesa, somente requerendo alguns cuidados na área de segurança, o que diminui a importância geopolítica do sul do país. Particularmente a região que vai do Pantanal ao Amapá é, sabidamente, frágil e problemática nas áreas de segurança e defesa, demandando a necessidade de que políticas de segurança e de defesa se articulem às demais políticas públicas no eixo amazônico-pantaneiro. Esse crescimento da importância estratégica da Amazônia está em conformidade com a necessidade e dificuldade que o Brasil enfrenta em defender e desenvolver o território amazônico e em responder à pressão internacional, diante das questões humanitárias e ambientais, que têm. 2. Para se ter uma noção mais exata do significado desses remanejamentos é preciso levar em conta seus custos econômicos e políticos. A transferência de uma unidade completa do porte de uma brigada de infantaria inclui aquisição de equipamentos, obras civis da nova base e instalação dos militares. Essas operações de mudança e da infra-estrutura estão na ordem de centenas de milhões. Há ainda o preço político, envolvendo protestos da comunidade de origem da tropa e mobilização de políticos, que, via de regra, atrasa os procedimentos.. 15.
(28) crescido na agenda internacional com o advento da chamada globalização, principalmente após o fim da guerra-fria. No caso amazônico, as questões humanitárias se referem prioritariamente aos indígenas, com o desafio duplo por parte do Estado de proteger as culturas e promover o desenvolvimento sócio-econômico das comunidades indígenas, ao mesmo tempo em que garante a defesa da soberania nacional nos territórios por eles habitados. No que concerne aos aspectos sócio-econômicos, a constituição do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) - firmado em julho de 1978 como instrumento multilateral para promover a cooperação e a integração entre países amazônicos (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela) - tinha por objetivos o desenvolvimento sustentável da região e a proteção da região contra interesses escusos; para o Brasil, permitindo a entrada de produtos brasileiros no mercado andino. Apesar do TCA ainda não ter atingido plenamente seus objetivos, a conscientização sobre a riqueza do patrimônio ambiental amazônico, particularmente de sua biodiversidade, fortaleceu nos países amazônicos a percepção de que a essa região tem uma importância capital em seus projetos de desenvolvimento econômico e social, desde que o desenvolvimento da região esteja alinhado com o paradigma da utilização racional e sustentável de seus recursos naturais e em benefício das suas populações. Nesse contexto e diante das críticas generalizadas à destruição do meio ambiente amazônico, o governo passou a enfatizar a denominada diplomacia verde, com políticas afirmativas quanto à proteção dos recursos naturais, como por exemplo, o Programa Nossa Natureza, de fevereiro de 1989 e a Declaração da Amazônia, de maio de 1989. (BRASIL, 8 Dez. 1999).. 16.
(29) C APÍTULO 1 O SISTEMA INTERNACIONAL : POLÍTICA E PODER. No campo das Relações Internacionais, diferentes abordagens teóricas trazem consigo concepções bastante diferenciadas acerca do denominado Sistema Internacional. O presente capítulo busca inicialmente explicitar essas concepções, bem como, num momento posterior, caracterizar ideologicamente as principais tendências teóricas que, em conjunto, formam essa disciplina chamada Teoria das Relações Internacionais. Para os realistas, a estrutura do sistema está determinada pela distribuição dos recursos entre os Estados, por isso, depende da quantidade de estados com os maiores recursos de poder. "O sistema internacional esteve sempre estruturado em relações de poder, com o Estado jogando papel de primordial importância". (MIYAMOTO, Jan. 2003, p. 3). Em toda a história verifica-se quebra de acordos, desrespeito aos tratados e soberanias dos Estados, invasões de fronteiras e subjugação dos mais fracos. Em síntese, é uma ordem precária, instável, sujeita às flutuações de algo muito dinâmico, que são as equações de poder. (FONSECA JR., Dez. 1994). Na ótica realista, se durante a guerra fria da segunda metade do século XX, o sistema internacional era considerado bipolar, após seu término, o sistema internacional adotou, alternativamente, uma estrutura unipolar, na qual os EUA eram vistos como a única superpotência, e multipolar, em que se consideravam outras potências como Europa (em especial, França e Alemanha unidas), Rússia, China e Japão. Por seu turno, na concepção liberal da estrutura do sistema contemporâneo o mundo não é tido simplesmente como unipolar, bipolar ou multipolar. Nye (Jul/Aug, 1999) descreve o sistema internacional pós-guerra fria como um bolo em camadas: a camada superior, de ordem militar, é unipolar, os EUA continuam sendo a principal potência militar; no meio há uma camada econômica que tem sido tripolar desde a década de 1970; 17.
(30) na parte inferior, existe uma camada de interdependência transnacional que reflete a difusão e fragmentação do poder, incluindo os atores não-estatais. Para os marxistas, o fim da guerra fria não alterou a estrutura do sistema mundial.. Segundo. Wallerstein. (1979),. a. estrutura. do. sistema,. determinada. economicamente, pode ser ilustrada como um conjunto de três círculos concêntricos: o núcleo, formado pelas sociedades industriais avançadas dominantes; na parte externa, na periferia, estão as sociedades menos desenvolvidas da América Latina, África e Ásia; no meio, se encontram as sociedades que estão evoluindo da periferia para o núcleo e aquelas que já não pertencem ao núcleo. As teorias liberais, propaladas, sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, tendem a minimizar as políticas de poder, fazendo referência à perda da influência do Estado como principal ator nas negociações mundiais. Nessas teorias, fatores como território, forças armadas, recursos naturais e população não têm mais o mesmo peso que tinham em situações passadas. Entretanto, o que se observa é que os elementos tradicionais de poder continuam resistindo à mudanças de conjunturas. Na verdade, no contexto atual de globalização econômica, tal como vem sendo denominado, verifica-se o recrudescimento da luta pela defesa dos interesses nacionais de ordem econômica, política e estratégicomilitar. Por exemplo, se os foros internacionais, tão destacados pela visão liberal, como a Organização Mundial do Comércio - OMC servem para arbitrar sobre as diferenças de interesses entre empresas, ocorre que é justamente o Estado nacional que as representa naquele âmbito. (MIYAMOTO, Jan. 2003). O que se verifica, portanto, no momento atual é que a defesa do Estado, tanto no plano político quanto no estratégico-militar não foi desativada, permanecendo mais sólida do que antes, criando mecanismo e instrumentos, e visando impedir até mesmo a livre circulação das populações. (MIYAMOTO, Jan. 2003, p. 24).. À revelia da visão liberal, fato é que os princípios definidos pelos regimes internacionais. que. buscam. garantir. a. igualdade. jurídica. das. nações. têm. sido. sistematicamente negligenciados. A própria Organização das Nações Unidas - ONU não. 18.
(31) constitui uma instância punitiva supranacional, até porque não tem política de poder, na medida em que não tem fatores de poder que possibilitam projeta-lo. No cenário pós-guerra fria, diante dos vários acordos regionais firmados nos anos 1990, em que o conflito Leste-Oeste deixou de ser o referencial principal, as questões econômicas tornaram-se fator extremamente relevante na garantia da segurança de uma país ou de uma região, o que não significa, entretanto, que o fator estratégico-militar tenha sido desconsiderado ou descuidado. Assim, os anos 1990 apresentaram novos elementos, além. dos. tradicionais. pontificados. pela. vertente. estratégico-militar,. que. estariam. envolvidos com a questão da segurança, a saber, os problemas econômicos, demográficos, as desigualdades sociais, as questões culturais, a questão ambiental, o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Essa última, geralmente proveniente do tráfico de drogas atinge países produtores e consumidores, corrompendo os poderes constituídos de ambos os lados. "A idéia. de. segurança. passou,. portanto. a. abarcar. diferentes. facetas,. tornando-se. multidimensional, visto que todos os problemas passaram a ser considerados no cálculo dos países e do sistema internacional como um todo". (MIYAMOTO, Jan. 2003, p. 54).. ANÁLISE ESTRUTURAL DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS Mesmo considerando o mundo como um cenário em que se movimentam atores de todos os tipos, os Estados nacionais se destacam, mantendo-se como atores privilegiados. A própria tese da interdependência das nações focaliza principalmente as relações exteriores, diplomáticas, internacionais, ou seja, as ações entre países: diplomacia, aliança, pacto, bloqueio, invasão, ocupação, guerra, dumping, espionagem, terrorismo de Estado. Ou seja, apóia-se sempre no emblema do Estado-nação, reconhecendo que ele está sendo desafiado pelas relações internacionais. "A idéia de sistema mundial reconhece as novas realidades da globalização, mas persiste na tese das relações internacionais, o que afirma a continuidade, vigência ou preeminência do Estado-nação". (IANNI, 2003, p. 81).. 19.
(32) O aumento da competitividade econômica e tecnológica, e a constituição de megablocos regionais, não resultaram no aumento do grau de confiança recíproco entre os Estados, e a preocupação com a segurança está presente no cotidiano de países grandes, médios e pequenos. Pragmaticamente acordos e coalizões bi ou multilaterais podem ser rompidos a qualquer momento, quando a relação custo/benefício não se apresentar interessante para uma das partes. A ênfase analítica na eficiência econômico-produtiva e tecnológica no cenário competitivo induz que o fator militar atue, preponderantemente, como elemento de dissuasão no plano da defesa dos Estados. Por isso, a atribuição de uma maior importância estratégica às relações diplomáticas, econômicas e culturais, na esteira do processo denominado globalização ou mundialização, não significa que os temas da defesa e segurança estejam subestimados ou descartados pelos Estados-nações, mas sim que adquiriram novos contornos e dimensões. (MIYAMOTO, Dez. 1996). O decréscimo da polarização ideológica abriu espaço para a irrupção de nacionalismos - não necessariamente democráticos e pluralistas - e para manifestações agressivas de coletivos étnico-religiosos, almejantes de unidades territoriais exclusivas e, às vezes, excludentes. (DREIFUSS, 1994). Esse recrudescimento de extremismos étnicos, nacionalistas e religiosos, bem como o fenômeno da fragmentação, observado em diversos países no pós-guerra-fria, evidencia que conceitos tradicionais como soberania, autodeterminação e identidade nacional continuam a ter relevância. Esse quadro invalida, parcialmente, a tese do declínio progressivo do uso da força militar nas relações internacionais. Além disso, as grandes potências, isoladamente ou em blocos, têm feito valer seus interesses internos, mesmo em detrimento da segurança e dos interesses coletivos, ao mesmo tempo em que resistem às ingerências externas que forem contrárias aos seus interesses. (BRASIL, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 8 Dez. 1999). Lembra-nos Bobbio (1995) que, segundo Kant, a anarquia das relações entre os homens foi superada através da criação de uma autoridade estatal; da mesma maneira as relações anárquicas entre os Estados, em que a força tem sido a reguladora das controvérsias internacionais, poderiam ser eliminadas através da constituição de uma autoridade suprema na sociedade dos Estados, de uma federação universal, capaz de impor. 20.
(33) o domínio universal do direito. Entretanto, para Russell (1956), a constituição de uma autoridade supra-estatal, uma união de âmbito mundial é uma utopia muito difícil de ser concretizada, devido à ausência de uma força coesiva substancial. Ao contrário do que ocorre no âmbito interestatal, em que indivíduos se unem em sociedades estado-nacionais em confronto com outros estados, para a constituição do governo mundial faltaria um inimigo comum a temer que atuasse como um estímulo à coesão. Em suma, pelo menos até a constituição de um governo mundial - hipótese considerada apenas para efeitos analíticos - os Estados-nações manterão políticas de defesa que podem acarretar o sacrifício de princípios jurídicos, éticos, políticos e econômicos. Mesmo não estando em combate efetivo, todo Estado é compelido a praticar certa política de potência, que não significa, a rigor, uma política externa explicitamente agressiva, mas uma política de permanente confronto de força, prontificando ou usando, em casos extremos, seus meios de poder. Por mais que se valorize a força econômica ou tecnológica, todo Estado, em situações extremas, usará seu poderio militar na defesa de seus objetivos e interesses ou na proteção de seus habitantes e instituições. Nesse cenário, as Forças Armadas continuam a desempenhar um papel capital para a sobrevivência dos Estados como unidades independentes, atuando como instrumentos de ação política do Estado; mesmo em tempos de paz, inibindo potenciais inimigos e intenções de desrespeito à soberania nacional ou às regras de convivência internacional. Especificamente em relação ao contexto brasileiro, não é realista conceber um Estado de razoável porte e influência internacional que possa abdicar de uma força de defesa confiável, pois seria o mesmo que renunciar ao exercício do direito de autodefesa.. TENDÊNCIAS TEÓRICAS NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS De modo geral, a ação efetiva requer entendimento e não existe entendimento sem teoria; a teoria está incorporada nos conceitos, nos enquadramentos analíticos e nos enfoques utilizados pelos estrategistas e planejadores de forças. (NGAIRE, 1996; ROSS, 8 Dez. 1999). As concepções de defesa produzidas por oficiais das Forças Armadas encontram nas teorias das relações internacionais um quadro de referência 21.
(34) esclarecedor. Objetiva-se neste capítulo apresentar as perspectivas teóricas que contribuem para o entendimento das concepções militares de defesa da Amazônia. Para isso, serão desenvolvidas brevemente três perspectivas analíticas, comuns no estudo das relações internacionais: o realismo, o liberalismo e o marxismo. Como se poderá observar no capítulo 3, não obstante essas três perspectivas se refletirem, com maior ou menor intensidade, nas concepções de defesa da Amazônia, o pensamento militar é fortemente fundamentado na tradição do realismo, que será, por isso, enfatizada abaixo.. REALISMO Para o realismo, os Estados são os atores mais importantes, têm unidade e racionalidade e a segurança nacional domina a hierarquia das questões internacionais. Dentre as denominações utilizadas para as diversas versões desta perspectiva analítica se encontram:. realismo. clássico,. neo-realismo,. realismo. estrutural,. realismo. ofensivo,. realismo defensivo e realismo neoclássico. (ROSS, 8 Dez. 1999). Dentre os autores realistas. clássicos. das. Relações. Internacionais. destacam-se:. Edward. Carr,. Hans. Morgenthau e Raymond Aron. Os maiores representantes do neo-realismo são: Kenneth Waltz, John Herz e Stephen Krasner. Apesar de nenhum dos enfoques teóricos ser hegemônico na regência da teoria e prática das relações internacionais, o realismo tem sido a tradição dominante. (NYE JR., 1993, p. 3). A essência do pensamento realista já estava presente no conceito renascentista da raison d'etát (razão de estado) e nas elaborações, dentre outros, de Maquiavel e Hobbes. Este importante legado deu forma aos escritos de analistas mais recentes, tais como Hans Morgenthau (1978), Kenneth Waltz (1959 e 1979) e John Mearsheimer (Winter, 1994/95), assim como guiou as ações de figuras políticas como Richard Nixon e Henry Kissinger.. 22.
(35) A doutrina da Razão de Estado afirma que a segurança do Estado é tão primordial que os governantes, para garanti-la, se obrigam a violar normas jurídicas, morais, políticas e econômicas. Essa doutrina também se constitui numa teoria que procura explicar a conduta efetiva dos homens de Estado no contexto das relações interestatais e intra-estatais, a partir da necessidade de segurança do Estado. Segundo os teóricos da Razão de Estado a anarquia internacional é a situação estrutural que determina que estadistas violem sistematicamente, para garantir a segurança externa do Estado, os princípios aplicados ordinariamente no âmbito interno. A anarquia internacional significa concretamente a falta de governo, de uma autoridade suprema, capaz de impor um ordenamento jurídico eficaz. Uma autoridade assim se impôs nas relações internas como conseqüência da monopolização da força por parte da autoridade central do Estado, mas não se impôs nas relações internacionais dado o grande número de Estados soberanos e autônomos. Dessa forma, sem um instrumento de imposição eficaz das normas necessárias à pacífica convivência entre os Estados, para a solução das controvérsias, resta somente o critério último do confronto de forças. O discurso da Razão de Estado, além de identificar o nexo que ocorre entre as políticas externas e o contexto de anarquia internacional, também analisa a influência da política exterior sobre a política interna, a partir da tese de que o grau de liberdade interna de um Estado é inversamente proporcional à pressão exercida sobre suas fronteiras, o que depende decisivamente de sua posição geográfica. (Bobbio, 1995). A preocupação central do realismo é a manutenção da segurança nacional contra ameaças militares exteriores; portanto, a questão da guerra é um tema onipresente nessa perspectiva analítica. O realismo contemporâneo considera seis hipóteses principais a respeito do funcionamento mundial. A primeira é que a política internacional é anárquica, dada a inexistência de uma autoridade política central que governe as unidades – os estados – constituintes do sistema internacional; na verdade, o sistema político internacional é constituído por unidades políticas soberanas independentes que não estão sujeitas ou regidas por autoridades políticas superiores. Na ausência de uma autoridade mundial, as relações entre os Estados tendem a ser competitivas e até mesmo violentas, por isso, o. 23.
(36) conflito é tido como um estado normal nas Relações Internacionais. Desse entendimento decorre o privilégio conferido aos assuntos de segurança, denominados "high politics", em detrimento das questões econômico-sociais, chamadas de "low politics". A segunda das hipóteses centrais é que o estado constitui a unidade política mais importante, o ator fundamental no sistema internacional, principalmente quanto à tomada de decisões críticas nas relações internacionais, como as que se referem à guerra e à paz. Os realistas reconhecem, obviamente, a existência de outros atores não estatais, porém sustentam que os atores não estatais não possuem nem a independência nem as capacidades dos estados, em particular dos estados mais importantes; os demais atores, ou são constituídos por estados (organizações internacionais) ou são sujeitos a eles (organizações não governamentais). Em terceiro lugar, para fins de análise, os realistas partem da hipótese de que os estados têm uma única política sobre um tema determinado, ou seja, são atores unitários, integrados, que falam em uma só voz com outros estados, em nome das sociedades que representam; os interesses de grupos intraestatais estão subordinados ao interesse superior do estado. Em quarto lugar, os realistas consideram que os estados são atores racionais, tanto quanto atores unitários. Trata-se de uma racionalidade instrumental, pela qual os estados, através de cálculos de custo-benefício procuram alcançar seus interesses e objetivos. (ROSS, 8 Dez. 1999). A quinta das hipóteses principais do realismo sustenta que o sistema internacional é o elemento mais importante na determinação do comportamento de um estado. Uma vez que esse sistema é anárquico, sem uma autoridade central capaz de impor ordem, oferecer segurança, resolver conflitos e fazer cumprir as decisões, os estados devem valer-se por si mesmos. Em outras palavras, o sistema internacional é um sistema de autoajuda, segundo o qual os estados procuram assegurar sua sobrevivência mediante a acumulação das capacidades ou poderes, necessários para manter a segurança nacional. (ROSS, 8 Dez. 1999; Waltz, 1979). O poder que mais importa aos estados não é o poder absoluto, mas o relativo, especialmente o poder militar ofensivo e defensivo. Conforme Mearsheimer (Winter, 1994/95), quanto maior a vantagem militar de um país sobre os outros, maior sua segurança. Portanto, para os realistas, o conflito é inexorável, abarcando 24.
(37) todos os estados, e as políticas internacionais constituem um jogo que soma zero; se um estado ganha, o outro deve perder. A sexta hipótese do realismo é a que afirma a prioridade dos temas de segurança nacional, na forma em que têm sido concebidos tradicionalmente. Isso significa que, para o realismo, os temas de segurança e os da política prevalecem sobre os temas econômicos, não importando quão vitais sejam. Para Mearsheimer (Winter, 1994/95), dado que um estado não pode ter um objetivo superior que o da sobrevivência, ocorre a primazia do contexto político sobre os demais. A própria capacidade econômica é tida como meio de segurança nacional, servindo para reforçar, melhorar e sustentar a capacidade militar e de projeção de poder. Nos anos 1970, Kenneth Waltz formulou o denominado neo-realismo ou realismo. estrutural,. ao. responder. às. críticas. feitas. pelos. liberais. ao. realismo,. particularmente aquelas referentes ao fato de não dar importância suficiente à economia, de não aceitar a interação entre o espaço doméstico e o espaço internacional, e por não aceitar outros atores, além do Estado, nas relações internacionais. Portanto, o acréscimo do prefixo "neo" ao termo "realismo" indica a incorporação desses novos temas suscitados pelas críticas liberais. Waltz, a partir de uma análise estrutural, procurando superar a redução do sistema internacional à soma das unidades, baseou-se em três elementos para definir esse sistema: a organização das unidades; a distribuição das funções das unidades; e a distribuição das capacidades das unidades3 . Quanto à organização do sistema, duas formas de organização são identificáveis: a hierárquica, que ocorre quando um centro determina o que deve ser feito e tem monopólio do uso legítimo da força; e a anárquica, que ocorre quando nenhuma parte tem o monopólio legítimo do uso da força, como ocorre nas relações internacionais. Quanto à distribuição das funções das unidades, formula-se que no nível. 3. Por pretender fazer uma teoria de relações internacionais atemporal, Waltz optou pelo termo unidade em vez de estado. 25.
(38) internacional não existe divisão do trabalho, todas as unidades são similares, pois cada estado sozinho deve garantir sua segurança e defesa, num sistema de auto-ajuda. Quanto à distribuição das capacidades, ela pode ser bipolar ou multipolar; se as capacidades são atributos do próprio Estado, a distribuição delas constitui atributo do sistema. Apesar de o neo-realismo fazer algumas concessões ao liberalismo, retirando de sua análise a ênfase nos estados e transferindo-a para o sistema, ainda se estabelece que todos os demais atores somente podem agir no sistema internacional através do Estado, que, portanto, mantém um papel central nas relações internacionais. Em resposta à crítica liberal de que a economia tem um papel fundamental nas relações internacionais, Waltz reafirma a centralidade da esfera política, pois mesmo em assuntos da economia internacional prevalece o interesse nacional, estatal. Em outras palavras, os instrumentos da análise realista se aplicariam também aos assuntos econômicos. Frente aos questionamentos liberais, a abordagem neo-realista procura responder à questão de como os Estados equacionam a segurança militar e a capacidade econômica. Em outras palavras, quanto um estado pode aumentar sua capacidade militar em detrimento de sua posição relativa do sistema econômico internacional, ou, de forma inversa, abrir mão de investimentos bélicos para fomentar o crescimento econômico. Partindo da premissa realista de que o estado busca no mínimo a sobrevivência e no máximo a hegemonia, para Waltz os Estados utilizam a política comercial como instrumento para atingir seus objetivos, a saber, maior autonomia e poder no Sistema Internacional. Ou seja, os estados cooperam, quando cooperam, não para promover o "crescimento mútuo", mas para assegurar sua própria sobrevivência. (WALTZ, 1959, 1979). Por fim, o neo-realismo, apesar de considerarem a existência das relações domésticas, tal como suscitadas pelos liberais, afirmam que elas são irrelevantes para o estudo das relações internacionais.. LIBERALISMO De modo contrário ao realismo, o liberalismo enfatiza a função dos atores não estatais, afirma que o estado não é nem unitário nem racional e amplia a agenda da política internacional aos temas econômicos e sociais. Outros termos utilizados para 26.
(39) nomear as diferentes versões dessa vertente analítica são idealismo, otimismo, pluralismo, neoliberalismo e institucionalismo neoliberal. A tradição intelectual do liberalismo inclui os filósofos Platão, Aristóteles, Locke, Montesquieu, Rousseau, Kant, Bentham e, na economia, Adam Smith e David Ricardo. Entre seus defensores contemporâneos estão Francis Fukuyama (1989, 1992, 1999), Robert Keohane (1984, 1993) e Joseph Nye (1990) e podendo o ideário liberal ser encontrado na atuação de figuras políticas como Woodrow Wilson e Franklin Roosevelt. A problematização central dos liberais refere-se às questões de conflito e cooperação. Argumentam que as relações internacionais são mais que a guerra e a paz, a guerra não é a única forma de conflito e a paz não é a única forma de cooperação. A política internacional estaria impregnada de conflitos econômicos, ideológicos, culturais, sociais, religiosos e étnicos tanto quanto militares; a sobrevivência dos povos e dos estados seria ameaçada não só pela guerra, mas também pelas pestes, pragas e pela fome. Por sua vez, a cooperação não ocorre só quando há paz ou, pela lógica do realismo, na perspectiva de um inimigo comum, mas também quando o conflito prevalece, como, por exemplo, a cooperação entre EUA e União Soviética durante a Guerra Fria. (ROSS, 8 Dez. 1999). Para os liberais, as relações internacionais contemporâneas possibilitam várias críticas aos principais fundamentos do realismo. Em primeiro lugar, o liberalismo faz ressalvas ao caráter anárquico que os realistas atribuem ao sistema internacional; mesmo considerando a inexistência de uma autoridade política central dentro do sistema internacional que imponha ordem, proporcione segurança e resolva conflitos, ocorre a cooperação entre os estados em prol de uma ordem, da segurança e da resolução de conflitos. (ROSS, 8 Dez. 1999). Ou seja, o desenvolvimento de princípios, normas e convenções que regem e limitam o comportamento dos estados e outros atores, torna possível concluir que existe positivamente uma sociedade internacional, ainda que num sistema anárquico, na qual as ações do Estado dependem, em grande medida, dos acordos institucionais prevalecentes. Para os liberais, a soberania é menos importante que para os realistas, no sentido de não ser inviolável; de maneira deliberada, pode ser cedida num 27.
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