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O CENÁRIO REGIONAL

No documento Forças Armadas e Amazonia : (1985-2006) (páginas 54-57)

Após o fim da Guerra Fria, o tema da regionalização da segurança emergiu com um vigor não observado durante o período bipolar. De fato, as regiões constituem uma dimensão fundamental do sistema internacional, havendo uma tendência, no pós Guerra- Fria, de que os conflitos estejam circunscritos à sua esfera regional. Atualmente, está em discussão mecanismos que resultem em maior cooperação nessa esfera, dado que a dinâmica regional guarda peculiaridades que devem ser consideradas em si próprias. (HERZ, 2004).

A administração da segurança regional pode se dar através do balanço de poder, com diversas variações da distribuição de poder, e através de concerto entre atores, quando os mais poderosos se incubem de fornecer bens coletivos e assumem as responsabilidades pela administração dos conflitos. Uma comunidade de segurança pressupõe que seus membros não usem a violência para a resolução de seus contenciosos, como pode ser exemplificado pela União Européia, cujos membros assumiram os seguintes compromissos: ausência do uso da força, inviolabilidade das fronteiras, grande redução de armamentos, posturas militares predominantemente defensivas, adoção de um modelo econômico e político similar, crescente fluxo de bens, serviços, idéias etc. (HERZ, 2004).

Um instrumento de que lançam mão alguns países para gerar e aumentar sua confiabilidade diante dos demais é a difusão de suas doutrinas de defesa nacional através da edição dos chamados livros brancos, que consolidam os princípios norteadores de suas Forças Armadas. Os livros brancos podem ser entendidos como um passo a mais no sentido da construção de confiança, sobretudo com os vizinhos, por expor aos governos e à opinião pública internacional conteúdos que até muito recentemente era confinado a círculos bem

estreitos. No continente sul-americano, somente Argentina, Chile e Peru já publicaram seus livros brancos.

A redemocratização do continente sul-americano, após o ciclo autoritário que findou em princípios dos anos 1980, trouxe consigo o descrédito nas hipóteses belicistas acalentadas pelos respectivos estados-maiores segundo as quais os países vizinhos eram potenciais inimigos e os conflitos com esses países eram, se não iminentes, muito prováveis. Posteriormente, nos anos 1990, seguindo esse mesmo curso, o sistema interamericano foi fortemente influenciado, sob iniciativa dos Estados Unidos, pelo estabelecimento do paradigma da democracia, consagrado na Carta Democrática Interamericana de 2001, preconizando a associação entre instituições democráticas e estabilidade regional. (HERZ, 2004). Nesse sentido, a ênfase na criação de medidas de confiança mútua, transparência e fortalecimento de instituições internacionais, em tese, é positiva para a efetivação da segurança cooperativa.

Diz-se em tese porque embora a análise formal das instituições do sistema interamericano indique a existência de mecanismos de concertação, estes mecanismos têm se mostrado limitados frente às ameaças que incidem na região e o tema está ausente do debate público nacional. O próprio Comitê de Segurança, criado em 1995, ainda não conseguiu definir propostas que enfrentem os principais conflitos na região. (HERZ, 2004). O breve conflito entre o Peru e o Equador, em 1995, também serve para relativizar o exagerado otimismo contido nas análises formuladas a partir do fato de que a América do Sul possui, em termos proporcionais, um dos gastos militares mais baixos do planeta. Além disso, as prioridades do governo norte-americano em sua guerra contra o terror prejudicam o estabelecimento de uma agenda de segurança regional.

Os países latino-americanos compartilham apenas parcialmente com os países desenvolvidos as preocupações referentes às "novas ameaças". Por seu turno, implícitos no processo de globalização, há um conjunto de riscos e coerções que podem desestabilizar países com instituições democráticas frágeis e economias vulneráveis, com poucas reservas cambiais. Cite-se, por exemplo, a volatilidade dos fluxos de capitais

especulativos, que expõe países susceptíveis financeiramente. Dessa forma, o conjunto de ameaças que afligem os países latino-americanos está mais vinculado ao plano da segurança do que ao da defesa, com a necessidade de se focar menos na dimensão militar, em favor das dimensões econômico-comerciais e político-estratégicas.

No plano regional, a aproximação político-estratégica tem sido o fator de maior contribuição à relativa estabilidade em matéria de defesa e segurança. Entre os vários casos que confirmam isso, tome-se como exemplo o estreitamento de relações político- estratégicas entre Argentina e Chile a partir do final da década de 1980, que resultou na superação das divergências prevalecentes em 1978, quando ambos os países estavam dispostos a um conflito armado em torno da questão do Canal de Beagle. A partir de fatores como a consolidação da democracia e o estreitamento de vínculos econômicos e comerciais, as relações bilaterais aperfeiçoaram-se com a assinatura, em 1991, do "Tratado de Paz e Amizade", que solucionou 23 das 24 disputas territoriais que estavam pendentes. Posteriormente, em fevereiro de 1999, os Presidentes Frei e Menem assinaram uma declaração conjunta sobre transparência de gastos na área de defesa; nessa ocasião também assinaram um acordo para a produção conjunta de fragatas para as respectivas Marinhas de Guerra. No terreno político, ressalta-se o apoio chileno à soberania argentina sobre as Falklands. (SOARES, 2004).

No âmbito sub-regional, a crescente cooperação no combate ao crime organizado e ao narcotráfico, no rol das ameaças denominadas "globalizadas", é exemplificada pela assinatura, em dezembro de 1999, do "Plano Geral de Cooperação e Coordenação Recíproca para a Segurança Regional do Mercosul", entre Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile.

No contexto latino-americano, as denominadas novas ameaças ocorrem basicamente sob a forma de ilícitos transnacionais - em especial, derivados do tráfico de drogas - agravados diante de situações em que instituições estatais, principalmente a justiça penal, não funcionam adequadamente. A América do Sul é uma região de produção, trânsito e consumo de entorpecentes. Como, freqüentemente, os serviços do tráfico são

pagos em drogas, o trânsito das drogas gera aumento do consumo, o qual, por sua vez, acarreta aumento da violência urbana. O tráfico de drogas também é o substrato para o desenvolvimento de outras modalidades de crime organizado, incluindo os tráficos de armas e de pessoas e, principalmente, a lavagem de dinheiro ilegal. Em virtude do fato das novas ameaças encontrarem um terreno fértil em conjunturas compostas por pobreza e marginalização, um dos foros sub-regionais pertinentes para se tratar do tema é a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma vez que a cooperação internacional é fundamental para que um país consiga controlar os problemas dos ilícitos e das drogas dentro de suas fronteiras, atuando tanto na redução da oferta, como na repressão ao tráfico, ou seja, no combate à distribuição das drogas.

Entre as operações policiais conjuntas realizadas pelo Brasil com países vizinhos em torno do tema dos ilícitos transnacionais, podem ser citadas: a operação CoBra, envolvendo a inteligência policial na fronteira com a Colômbia; a Aliança I-X, objetivando erradicar cultivos de maconha no Paraguai; e a Aeron GuiSu, para destruir pistas de pouso clandestinas na Região do Tigre, objeto de disputa territorial entre Guiana e Suriname. Além disso, o Brasil possui acordos antidrogas com todos os países da América do Sul mais México e Cuba, havendo assinado mais de 30 acordos bilaterais sobre a matéria. Tais acordos demandam a criação de comissões mistas antidrogas que incluem em suas pautas os temas da lavagem de dinheiro, da interceptação de aeronaves suspeitas e do reforço dos controles fronteiriços. (SOARES, 2004).

No documento Forças Armadas e Amazonia : (1985-2006) (páginas 54-57)