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Antonio Gramsci em Curitiba

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Academic year: 2021

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Antonio Gramsci em Curitiba

Lançamento de livro sobre as ideias do político italiano na capital paranaense contará com a exibição de um raro retrato seu, feito quando este ainda era vivo e prisioneiro do fascismo na Itália.

No dia 18 de outubro, sábado, o Museu de Arte Contemporânea do Paraná exibirá ao público uma importante relíquia da luta contra o fascismo que faz parte de seu acervo. Se trata de um desenho do intelectual e dirigente comunista italiano Antonio Gramsci (1891-1937), feito pelo gravurista brasileiro Lívio Abramo (1903-1992). O retrato, de 1932, será exibido durante o lançamento do livro Política e Literatura: Antonio Gramsci e a crítica italiana, da cientista política curitibana Daniela Mussi. O livro trata das ideias de Gramsci a respeito da arte, literatura e crítica literária.

O retrato feito por Lívio Abramo era parte de uma campanha pela libertação de Gramsci, o qual havia sido encarcerado pela ditadura de Benito Mussolini. Nesta época, Lívio, um brasileiro descendente de italianos, já atuava como desenhista e gravurista e era um ativista político na cidade de São Paulo. O desenho – um dos primeiros registros da “chegada” de Gramsci e de suas ideias no Brasil – foi feito no período em que muitas pessoas se organizavam ao redor de uma plataforma política de enfrentamento do integralismo, expressão brasileira do fascismo.

O “retrato ideal de Antonio Gramsci”, nome dado por Abramo ao desenho na época, é único do gênero no Brasil e um dos poucos no mundo, compondo um diminuto acervo de imagens e fotografias de Gramsci registradas durante sua vida. Ao longo dos 11 anos em que esteve preso na Itália, este pensador italiano registrou suas reflexões em uma série de cadernos, sobre história, arte, política, gramática, literatura e teoria. Estes escritos, publicados a partir dos anos 1940 e conhecidos

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por Cadernos do Cárcere, inspiraram milhares de leitores ao redor do mundo a respeito das ideias e da vida de seu autor. O lançamento do livro de Daniela Mussi com a exibição do desenho de Lívio Abramo pretende reconstruir justamente a unidade entre as reflexões de Gramsci sobre a arte e a política. O evento convida o público a refletir sobre a cultura e engajamento político, seja na produção, seja na recepção literária. Em seus escritos, Gramsci buscou entender por que determinada literatura ou obra artística se torna popular, enquanto outras tantas passam despercebidas. E, ainda, por que os produtos culturais de determinado país, ou conjunto de países, é capaz de se expandir internacionalmente. As respostas de Gramsci a esses questionamentos não o conduziram a uma teoria fechada ou dogmática sobre a arte e a literatura. Ao contrário, serviram para pensar a apreciação cultural como um processo sempre aberto e em disputa, impactado em seu desenvolvimento pela economia e pela política. E levaram a uma elaboração muito cara ao conjunto do seu pensamento: a ideia de que a história da formação do gosto popular moderno revela momentos importantes de iniciativa cultural entre as classes subalternas. O resultado é o principio pedagógico relacional no mundo da arte: o autor educa o leitor, e o leitor educa o autor.

Por fim, é importante registrar um agradecimento especial ao escultor argentino radicado no Brasil, Alfi Vivern, que chamou a atenção para a existência deste importante desenho e tornou possível este “encontro” entre a arte e a política.

Lançamento “Política e literatura: Antonio Gramsci e a crítica italiana”

Quando: 18 de outubro de 2014, sábado. Horário: entre 11h00 e 15h00

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Rua Desembargador Westphalen 16 (em frente à Praça Zacarias)

E v e n t o n o F a c e b o o k :

https://www.facebook.com/events/335891473254029/ O livro estará à venda no lançamento por R$ 38,00

O que não fazer?

Valerio Arcary

“Se uma pessoa te enganar ela merece uma surra. Se esta mesma pessoa voltar a te enganar, quem merece a surra é você.” (Sabedoria Popular Chinesa) Poucos mais de quinze dias nos separam do segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Pela quinta vez, desde o fim da ditadura, haverá segundo turno.

A campanha pelo voto útil em Dilma Rousseff aumenta de intensidade sobre os militantes e eleitores da esquerda anticapitalista. Sob a pressão de uma eleição ainda muito apertada e incerta, a direção do PT abraçou um discurso catastrofista que quer apresentar a disputa entre Aécio e Dilma como um armagedon político.

A credulidade na vida não é, necessariamente, um defeito grave. O benefício da dúvida em relação aos outros, ou seja, alguma inocência nas relações humanas é uma forma de levar a vida com mais leveza. Mas, na política a ingenuidade é fatal. Não é verdade que a única forma de lutar contra Aécio é colocando o voto na urna para Dilma.

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anulação do voto da oposição de esquerda. Dilma corre o risco de ser derrotada por si mesma, ou melhor, pelo que fez, e por aquilo que o PT não fez nos últimos quatro anos.

Não nos enganemos. A verdade nua e crua é que há vários pontos de contato entre o programa que ele representa, e o programa de Dilma. Quais? Um exemplo? Voltamos a ter, em 2014, uma das maiores taxas de juros básica do mundo, a exigência nº 1 dos rentistas. Não satisfeitos, Mantega, ministro do governo Dilma, e o Banco Central dirigido por Tombini, aquele que não é independente, mas tem autonomia, vêm sinalizando que estão dispostos a fazer um ajuste fiscal anti-inflacionário com redução de gastos, e superávit fiscal ainda maior. Derrotar o programa de ajuste que o capital exige só será possível, portanto, com a resistência que precisará ser construída em 2015 nas ruas.

O alarmismo quer nos fazer crer que Aécio seria do mal, Dilma seria do bem. Ai de nós, se não votarmos no mal menor. Essa campanha de dramatização não é educativa. O apelo emocional ao voto é muito eficaz, mas diminui o significado da disputa política. Sempre que há um segundo turno, de dois em dois anos, seguindo o ritmo do calendário eleitoral, que não devia ser sinônimo de democracia, assistimos a este espetáculo bizarro, cuidadosamente encenado, em que se cria um clima político irracional, em que a esquerda é convidada a regredir a uma infantilização política.

Que os partidos burgueses usem, contra o PT e Dilma, todos os recursos da manipulação emocional mais demagógica, não devia ser o bastante para que a direção do PT e seus aliados façam o mesmo.

Aécio é, evidentemente, um candidato que provoca mal-estar, ou até ira e fúria em qualquer um que tenha compromisso com a luta pela igualdade social, que é o que define uma identidade de esquerda. Pelo que é, e pelo que representa. Merece o justo ódio de classe de todos os trabalhadores e jovens. Muito

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especialmente, os que tiveram a pouca sorte de ter que aturá-lo como governador em Minas Gerais. Aécio esconde o pacote de maldades que trás no bolso, e que é o sonho de consumo dos setores mais retrógados do capitalismo brasileiro. Quais seriam suas primeiras medidas de governo? Ajuste nos preços dos derivados do petróleo e álcool? Austeridade nas contas públicas e arrocho para o funcionalismo federal? Nova política para o salário mínimo, com reajustes ainda menores? Flexibilização trabalhista, com revisão dos poucos direitos presentes na CLT? Nova reforma da previdência reacionária, com introdução de idade mínima, de 60 ou 65 anos, além dos 35 anos de carteira assinada? Mais terceirizações? Inclusive no s e r v i ç o p ú b l i c o ? E p o r q u e n ã o , u m a n o v a o n d a d e privatizações? Um horror.

Merece, portanto, ser combatido. Não há porque ter medo das palavras: impiedosamente. Devemos todos denunciá-lo. A mão não deve tremer. Mas, para aqueles que lutamos contra a injustiça, não vale tudo. É preciso saber lutar, mas sempre com grandeza. A crítica deve ser política, demonstrando quais são os interesses de classe que ele defende. Uma linha de argumentação de classe que revele o lugar de Aécio, como porta-voz das reivindicações do capital: por isso a exigência de menos impostos e o silêncio diante da proposta de taxação das grandes fortunas. Devemos dialogar com nossos colegas de trabalho, em especial aqueles que por fadiga e cansaço com os governos de colaboração de classes liderados pelo PT, podem estar inclinados a votar nele. Para tentar convencê-los do perigo que significaria uma vitória do PSDB.

Uma análise marxista abraça um método menos emocional que o alarmismo: é uma interpretação da realidade orientada por um critério de classe. Muitas vezes na história os governos dos partidos reformistas com eleitorado entre os trabalhadores foram mais úteis para a defesa da ordem que os partidos da própria burguesia: protegiam o capitalismo dos capitalistas. Esse foi o papel lamentável dos governos liderados pelo PT nos

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últimos doze anos. Por isso Lula se transformou em uma coqueluche mundial em Davos, e recebeu o apoio dos governos mais reacionários do planeta. Porque foi o governo que garantiu a estabilidade social no país que foi, nos anos oitenta, o campeão mundial de horas de greve.

Os marxistas não indicam nunca a escolha do carrasco menos cruel. Em 1989 os militantes que se organizavam em uma das correntes que constituiu o PSTU, a Convergência Socialista chamaram a votar em Lula, e o fizeram novamente em 2002. Era outro contexto. O PT ainda não havia chegado ao poder.

Votamos em Lula em 1989, e em 2002, apesar de nossa discordância do programa do PT, por que a maioria dos trabalhadores confiava em Lula e não queríamos ser um obstáculo à sua eleição. Não tínhamos qualquer ilusão em um governo do PT, mas acompanhamos no voto, e somente no voto, a vontade do movimento da classe trabalhadora de levar Lula ao poder, depois de uma espera de vinte anos, alertando que estavam iludidos aqueles que tinham esperança que o governo iria romper com o programa neoliberal de ajuste dos governos de Fernando Henrique.

Depois de doze anos, nossa responsabilidade nos impede esse voto. Porque doze anos é um intervalo histórico significativo. Lula não só não rompeu com o modelo neoliberal, como o PT manteve durante mais de uma década o tripé macroeconômico intacto. Pequenas variações nas taxas de juros durante dezoito meses não foram uma mudança de rumos, como ficou claro no início de 2013, e Mantega deixou claro para quem prestou atenção. O capitalismo brasileiro não tem porque temer o PT. Não terá sido por isso que a arrecadação de Dilma entre as grandes corporações foi até maior do que a de Aécio? Alguém, minimamente, informado ainda pode acreditar que esta eleição é uma disputa entre o capital de um lado e o trabalho do outro? Não são dois projetos de gestão do capitalismo, ainda que com diferenças de ênfase?

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E agora, como em 2010, por que não votaremos em Dilma, se a maioria do movimento organizado dos trabalhadores deseja derrotar Aécio? Porque nos últimos doze anos o PT governou o Brasil ao serviço do capitalismo. Uma parcela mais consciente dos trabalhadores sabe, também, que Lula e Dilma governaram ao serviço dos banqueiros, mas acham que não era possível uma política de ruptura. Os trabalhadores e a juventude, em situações políticas de estabilidade da dominação capitalista, não têm expectativas elevadas, ou seja, não acreditam senão em reformas nos limites da ordem existente. Não acreditam que é possível, porque perderam a confiança em si mesmos, portanto, na força de sua união e de sua luta.

O papel dos socialistas não pode ser o de reforçar essa prostração político-social, mas, ao contrário, o de incendiar os ânimos, inflamar a esperança, e combater a perigosa ilusão de que é possível regular o capitalismo. A história vem demonstrando de maneira trágica que não é possível. Os mercados não aceitam ser limitados pela via da negociação. Quem decidir indicar o voto em Dilma, mesmo que na forma mais elegante de voto crítico, ou seja, com a mão no nariz, para derrotar Aécio, deve se perguntar como vai se sentir quando for anunciado o primeiro pacote de ajuste fiscal em 2015. Vai s e a r r e p e n d e r e , i n f e l i z m e n t e , s e d e s m o r a l i z a r . A desmoralização tem um custo alto para a esquerda. Ela é o pântano que alimenta a decepção de que não há saída coletiva, porque afinal “todos seriam iguais”. Ela é o combustível do “cada um por si, todos contra todos”.

A tarefa daqueles que defendem o programa socialista consiste em demonstrar para os trabalhadores que era e é possível ir além. Era e continua sendo possível desafiar a ordem do capital. Às vezes, infelizmente, muitas vezes, é preciso ter a firmeza de nadar contra a corrente.

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O fim da CLT?

Ruy Braga Um espectro ronda o mundo do trabalho no Brasil – o espectro do fim da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Políticos e organizações patronais uniram-se em uma Santa Aliança para pressionar o Congresso pela aprovação do Projeto de Lei no. 4330/2004 do deputado e empresário do setor de alimentos, Sandro Mabel (PMDB-GO). Este projeto autoriza a terceirização de qualquer função nas empresas. Na mesma direção, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprecia o recurso da fabricante de celulose Cenibra condenada em todas as instâncias por terceirizar trabalhadores em suas atividades-fim. O relator, ministro Luiz Fux, acolheu o recurso da indústria e o processo aguarda parecer da Procuradoria-Geral da República. Uma eventual vitória da Cenibra afetaria toda a regulação jurídica das relações de trabalho no país.

A ofensiva patronal sobre os direitos trabalhistas não tardou a repercutir no debate eleitoral. No programa de governo da candidata Marina Silva, por exemplo, pode-se ler: “Existe hoje no Brasil um número elevado de disputas jurídicas sobre a terceirização de serviços com o argumento de que as atividades terceirizadas são atividades-fim das empresas. Isso gera perda de eficiência do setor (comércio e serviços), reduzindo os ganhos de produtividade e privilegiando segmentos profissionais mais especializados e de maior renda.” Resta saber como a candidata pretende “disciplinar a terceirização” e, ao mesmo tempo “assegurar o respeito às regras de proteção do trabalho”?

Simpatizante da candidata pessebista, o empresário Benjamin Steinbruch decidiu fustigar a CLT em uma entrevista concedida

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à Folha de S. Paulo no início da semana passada. Após entoar a indefectível cantilena sobre o elevado custo do emprego no Brasil, o dono da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) reivindicou “um país leve na lei trabalhista”, isto é, com jornada mais flexível, idade legal diminuída e horário de almoço encurtado: “(…) Não precisa de uma hora (de almoço). Se você vai numa empresa nos EUA, você vê (o trabalhador) comendo o sanduíche com a mão esquerda e operando a máquina com a mão direita. Tem 15 minutos para o almoço.”

Se implementada, a proposta de Steinbruch de substituição do legislado pelo negociado nas relações trabalhistas implicaria no fim da CLT. De quebra, ameaçaria o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o transporte e o vale-alimentação. Em um país com altas taxas de rotatividade, onde o valor do salário do recém-contratado tende a ser menor do que o do demitido, alguém acredita que a “redução pela metade dos direitos (trabalhistas)” iria realmente parar no “bolso do trabalhador”?

Ao tomar conhecimento das opiniões do atual presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), um desavisado concluiria que o Brasil é o paraíso da proteção trabalhista, onde demitir é praticamente impossível, os salários são altos, as relações contratuais são rígidas e não há terceirização. Na realidade, o percentual médio do trabalho informal no ano passado ainda era de 33% da População Economicamente Ativa (PEA). Dados do DIEESE indicam que a taxa de rotatividade, especialmente saliente entre os jovens, os que recebem até dois salários mínimos e os ocupados no setor de serviços, cresceu, entre 2003 e 2012, de 52% para 64%. Esta taxa atinge 53% dos trabalhadores em vários setores da indústria de transformação.

A respeito da terceirização, o quadro permanece desalentador. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), nos últimos três anos, cerca de 70% das indústrias brasileiras contrataram empresas terceirizadas. Dos 50 milhões de

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trabalhadores com carteira assinada do país, 12 milhões são terceirizados, recebendo, em média, salários 30% inferiores em relação aos contratados diretamente. Além disso, eles são mais vulneráveis tanto aos acidentes de trabalho, quanto às condições análogas à escravidão. Caso fosse levada adiante, a agenda advogada por Steinbruch deterioraria ainda mais uma condição social já calamitosa.

Ao contrário do que muitos imaginam, a CLT não foi uma dádiva de Vargas aos pobres. Antes, ela resultou de duas décadas e meia de lutas sociais e da institucionalização de direitos trabalhistas contra os abusos de uma classe empresarial herdeira do éthos escravocrata. Além disso, a CLT atraiu milhares de trabalhadores rurais para os grandes centros urbanos em busca de oportunidades e de proteção social. Assim, a legislação trabalhista ajudou a criar a classe operária necessária à expansão do moderno parque industrial brasileiro cujo marco foi a própria CSN – vendida, em 1993, ao empresário Benjamin Steinbruch.

Em suma, a ameaça à CLT não expressa o embate das forças vanguardistas da globalização econômica contra o que restou do atrasado poder corporativo dos sindicatos. Na verdade, testemunhamos a desforra de organizações empresariais passadistas pela ousadia do subalterno de apropriar-se da linguagem dos direitos sociais. O que o Projeto de Lei no. 4330/2004, o recurso da Cenibra ao STF, o programa de governo marinista e a agenda de Steinbruch buscam ocultar é a incompetência histórica de uma classe empresarial retrógrada que, a fim ampliar suas margens de lucro, ao invés de alcançar ganhos de produtividade investindo em inovação tecnológica, contenta-se em investir contra os direitos dos trabalhadores.

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Zé Maria fala sobre ciência e

tecnologia

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) encaminhou queastionário a Zé Maria (16), candidato à presidência da República nestas eleições. As respostas do candidato esboçam um programa dos socialistas para a ciência e a tecnologia no Brasil.

Política Nacional de C,T&I

ANPG: Historicamente, muitos países alcançaram elevados patamares de desenvolvimento quando foram capazes de apresentar inovações tecnológicas capazes de influenciar o cotidiano de seus cidadãos e, posteriormente, de cidadãos de outros países. Nesses casos, houveram fortes investimentos estatais (muitas vezes na área de Defesa Nacional) que

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i m p u l s i o n a r a m a p e s q u i s a b á s i c a p a r a o p o s t e r i o r desenvolvimento tecnológico. Como o seu eventual futuro mandato pretende relacionar a questão Ciência&Tecnologia com o Desenvolvimento Nacional?

Zé Maria: Não há desenvolvimento científico e tecnológico sem uma decidida política estatal que oriente e financie as iniciativas de pesquisa. E não existe desenvolvimento nacional autônomo sem uma política científica e tecnológica nacional. Quando falamos em desenvolvimento nacional não estamos pensando exclusivamente em crescimento econômico ou aumento do PIB. Essa é uma visão simplificadora. Nossa prioridade são os trabalhadores e trabalhadores deste país, por isso para nós desenvolvimento implica em bem-estar e proteção social. Nossa candidatura tem um firme compromisso com a destinação de 10% do PIB para o financiamento da educação pública. Também estamos comprometidos com a proposta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que considera necessário que 2% do PIB sejam destinados para o desenvolvimento harmonioso da ciência básica, da ciência aplicada e da tecnologia nacional. ANPG: O que propõem para aumentar o número de patentes registradas no Brasil? Quais suas considerações sobre a atual Lei de Patentes?

Z.M.: Uma observação preliminar: o problema não é o de aumentar simplesmente o número de patentes, mas o de desenvolver o conhecimento que possa aumentar o bem estar da população. A Lei de Patentes precisa ser rediscutida. Em sua forma atual destina-se a proteger os ativos das grandes corporações farmacêuticas e tecnológicas. Não achamos correto que os resultados de pesquisas realizadas com financiamento público sejam apropriados privadamente. Além disto, a propriedade de uma patente não pode se contrapor à necessidade pública, como muitas vezes ocorre no caso de medicamentos. O bem comum sempre deve prevalecer sobre a propriedade privada, inclusive no campo das ideias.

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ANPG: O crescimento da pós-graduação strictu senso nos últimos anos se deu na esteira da expansão das Universidades Federais. Essa expansão tem aumentado significativamente a demanda por recursos. Quais suas propostas para atingir a meta de mestres e doutores expressa pelo PNPG?

Z.M.: O crescimento da pós-graduação tem ocorrido de maneira desordenada, assim como a expansão das universidades federais, a qual é orientada, muitas vezes, por critérios meramente clientelistas. A expansão das vagas sem uma expansão proporcional dos recursos é insustentável e demagógica. Sou a favor de uma ampla democratização do acesso às universidades em todos os níveis mas para isso a prioridade é a destinação de 10% do PIB para a educação. Sem recursos apropriados a expansão é feita sem qualidade e baseada na precarização e superexploração do trabalho dos docentes e servidores técnico-administrativos.

Financiamento de C,T&I

ANPG: A aprovação do PNE e da destinação de 75% dos royalties do pré-sal foram respostas às demandas por mais financiamento na Educação. A regulamentação, entretanto, trouxe esvaziamento de parte do FNDCT. Qual sua proposta para recompor esse fundo e para ampliar o investimento no setor?

Z.M.: O PNE compromete seriamente um ensino público, gratuito, universal, laico, unitário e de qualidade social, como dever do Estado e direito universal. Ele dilui o dever do Estado na garantia do direito à Educação Pública institucionalizando as Parcerias Público Privadas (PPP’s). Dois princípios norteiam nossa visão a respeito. Primeiro, o aumento dos recursos destinados à educação não pode ser uma moeda de troca para a privatização da exploração do petróleo no Brasil. Segundo, os recursos públicos não podem ser dirigidos para o benefício de instituições privadas, as verbas públicas devem ser destinadas a universidades e centros de pesquisa públicos e estatais. O caminho adotado pelo governo viola esses dois princípios. O

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PNE prevê a destinação de recursos públicos para empresas privadas de ensino. Consolida, assim, a política do governo federal, o qual destinou recentemente R$ 5 bilhões para o Fundo de Financiamento Estudantil, destinado a socorrer as instituições privadas de ensino. O esvaziamento dos recursos destinados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico é a contrapartida dessa política privatista. Desse modo, a recomposição desse fundo passa pelo fim do financiamento público às instituições privadas, as quais reconhecidamente tem uma participação irrelevante na produção de novos conhecimentos, e pela destinação de 2% do PIB para C&T.

Regulamentação do Lato Sensu

ANPG: A expansão do número de formados no ensino superior ampliou as expectativas do mercado sobre as especializações como fator de diferenciação. A proliferação de cursos de especialização aconteceu sem qualquer tipo de regulamentação por parte do governo. Qual sua proposta para regulamentação do ensino superior?

Z.M.: O sistema nacional de ensino superior deve ser completamente público e gratuito. Seu objetivo deve ser a formação intelectual e profissional de nossa juventude e o combate às desigualdades sociais. As instituições particulares de ensino estão orientadas pelo lucro. Não tem outro propósito. É por essa razão que o ensino nessas instituições é geralmente de má qualidade e que a pesquisa feita nelas praticamente inexiste. A regulamentação dessas instituições particulares tem se revelado ineficaz. As recorrentes fraudes nos sistemas de avaliação e as artimanhas inventadas para elevar artificialmente os conceitos obtidos por essas instituições mostram que se trata de um beco sem saída. O ensino superior, e isto inclui o sistema de pós-graduação, deve ser completamente público e estatal. Esse é o começo de toda e qualquer regulamentação eficaz e de um planejamento consistente, que permita expandir o ensino e pesquisa onde as

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carências são maiores. A regulamentação do ensino superior deve ser parte de uma política de expansão com qualidade. Ela deve ser sensível às desigualdades regionais e as diferentes demandas das comunidades locais, garantindo padrões de qualidade e a relevância social das instituições. As instituições de ensino superior devem estar mais próximas do povo trabalhador e não podem estar subordinadas às necessidades imediatas do mercado ou subordinada a polícias clientelistas, como até o momento.

Ciências sem Fronteiras

ANPG: O programa Ciências sem Fronteiras é uma forte aposta no intercâmbio acadêmico com outros países. Qual sua opinião sobre o programa? Como resolver a contradição de oferecer bolsas de estudo para estudantes no exterior enquanto este benefício não está universalizado nas Universidades brasileiras?

Z.M.: A universidade brasileira precisa se internacionalizar. Ela deve estar atenta ao que está ocorrendo no mundo, precisa trocar experiências com instituições de pesquisa de outros países. Não é possível produzir conhecimento inovador encerrado em um casulo. Por isso o intercâmbio acadêmico de estudantes, professores e pesquisadores com outros países é muito importante. Mas se o cobertor é curto uma parte vai ficar de fora. Enquanto as verbas para a educação continuarem a ser drenadas para pagar a dívida pública, esse cobertor continuará curto. Oferecer bolsas de estudo no exterior sem um aumento considerável das bolsas de estudo no Brasil é um absurdo. Mas é um absurdo perfeitamente compreensível, embora não justificável. O governo fez uma opção errada, uma opção preferencial pelos banqueiros.

Bolsas de pesquisa: natureza, concessão e valorização

ANPG: O desenvolvimento econômico dos últimos anos elevou os salários de recursos humanos especializados. O mercado,

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através do pagamento de altos salários, passou a competir pelos melhores profissionais com a academia e a carreira cientifica, que oferece pífias bolsas de estudo ao passo que exige dedicação exclusiva. Em um futuro e eventual governo, como pretende lidar com o problema da falta de valorização das bolsas de pesquisa? Existe alguma outra proposta para manter o interesse de jovens profissionais na carreira acadêmica?

Z.M.: A solução passa por uma política de valorização da pesquisa científica e da atividade docente, ou seja, valorização das bolsas e salários dos pesquisadores e docentes. Sem condições de uma permanência digna na universidade durante a formação e sem perspectivas profissionais razoáveis não conseguiremos segurar jovens promissores nas instituições de ensino superior. É preciso lembrar que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva acabou com um dos poucos atrativos da carreira docente, o direito à aposentadoria integral. Isso precisa ser revertido imediatamente. O Brasil não está perdendo talentos só para as grandes corporações. Está perdendo, também, para instituições de ensino e pesquisa no exterior.

ANPG: As bolsas de pesquisa, ofertadas pela CAPES e CNPq, sofreram forte desvalorização se comparadas com o salário mínimo nos últimos dez anos. Qual sua proposta para reverter essa tendência?

Z.M.: As bolsas de pesquisa precisam ser reajustadas imediatamente recuperando suas perdas históricas e é preciso definir uma política de reajuste automático de acordo com a inflação. Atualmente esses reajustes dependem da vontade arbitrária das agências de fomento.

ANPG: O que o sr. pensa sobre o acúmulo entre bolsa de pesquisa e vínculo empregatício?

Z.M.: Só se justifica se a atividade laboral tiver um número restrito de horas semanais, estiver diretamente associada às

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atividades de ensino e pesquisa e não implicar na precarização do trabalho do docente e do pesquisador.

Direitos dos pós-graduandos

ANPG: O pós-graduando ocupa uma função social híbrida. Ao mesmo tempo que é um estudante, é também um trabalhador, de quem se exige um produto (dissertação ou tese). Se esse produto não for entregue o pós-graduando bolsista pode ser acionado judicialmente para que o Estado receba de volta o valor pago a título de bolsas, afastando a interpretação de que a bolsa é um mero auxílio ou apoio assistencial. A ANPG tem se dedicado a debater as condições de trabalho dos pós graduandos. Qual sua opinião a respeito? Quais direitos devem ser garantidos? Como viabilizar essa demanda?

Z.M.: De maneira cada vez mais nítida estudantes de pós-graduação têm se tornado trabalhadores precários. Não se exige deles apenas um produto final. Trabalham cotidianamente em laboratórios e centros de pesquisa, muitas vezes participam de atividades pedagógicas e auxiliam na formação de colegas mais jovens. Essa precarização do trabalho intelectual tem que acabar. Eu defendo que os pós-graduandos tenham seus direitos trabalhistas assegurados, dentre eles, evidentemente, a seguridade social, a licença maternidade, férias e décimo-terceiro.

Não é somente com batalhas

campais que se luta uma

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guerra

Diego Braga

Como professor de literatura e escritor amador (no sentido de amar o que faço), talvez surpreenda-se o leitor com uma confissão minha: quase via de regra, detesto ler crítica literária. A ojeriza surge normalmente diante daquela de tipo mais comum, acessível e clara, encontrada nos jornais e revistas de grande circulação e determinando as escolhas dos organismos paralelos do mercado editorial: os prêmios e feiras literárias. Com frequência, também tenho asco diante da irmã mais nova da crítica literária porta-voz das editoras, ou seja, a menina mais problemática, com mais personalidade, mais escolarizada e também mais pobre materialmente que é a crítica acadêmica expressa nos Estudos Literários. É também nesta última que encontro quase todas as exceções, as valorosas e valiosas críticas que valem a pena ler. Estas são, em todo caso, muito raras. Sobretudo quando comparadas à imensa massa de papel, de tinta e, hoje em dia, de megabites produzida tanto pelos que praticam a crítica como arautos extraoficiais d o m e r c a d o e d i t o r i a l n a g r a n d e m í d i a q u a n t o p e l o s pesquisadores das faculdades de letras do país, ansiosos por situarem-se bem em meio à lógica produtivista subjacente aos critérios quantitativos de avaliação da produção acadêmica do país. A qualidade, neste quesito, sempre foi tratada pelos governos como um detalhe.

Ambas as ramas da crítica literária, plantas bastante adequadas para monocultura de latifúndio no solo brasileiro por razões históricas diversas, também são ervas daninhas em nível mundial. As contradições em que elas se encontram emaranhadas e que as atravessam manifestam-se, com variações de foco e intensidade, onde quer que estas duas formas de crítica existam no mundo, este grande mercado global em que também se vende cultura e literatura. Obviamente, o mercado editorial brasileiro é bastante modesto se considerado no

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quadro de sua população absoluta e de seu peso econômico. Ainda assim, tem relevância. É o 9º do mundo, muito embora isto seja pouco para a quinta economia do planeta. Tal como a c r í t i c a d e m e r c a d o , a c r í t i c a a c a d ê m i c a t a m b é m é representativa na vida cultural nacional, feitas as ressalvas cabíveis para um país com ilhas de vegetação universitária em meio a vastas planícies de analfabetismo funcional.

Como porta-voz do mercado editoral, o debate acerca da literatura é um dos elementos fundamentais em que se sustenta o sistema de vendas das obras, de prestígio e desprestígio dos autores e de distribuição de fatias do mercado através das premiações. Além de alavancar o lucro das grandes editoras e dar estofo cultural para conversas em jantares e eventos sociais da classe média alta para cima, esta crítica também traça os limites da sociedade literária, determinando quem está dentro e quem está fora. Precisa, evidentemente, sustentar o mito da mobilidade social democrática, de modo não muito diferente de sua contraparte no mercado de trabalho, incorporando alguns membros oriundos da classe explorada e dos setores oprimidos, o que tende a camuflar a exclusão sistemática da maioria dos indivíduos daquela classe e destes setores.

Nestes marcos, o condicionamento de classe é mais claro. A rigor, cabe até evidenciá-lo. Lidando com a literatura como uma preciosa, única, universal, humana, esteticamente elaborada e profundamente existencial mercadoria, a crítica que dinamiza o consumo dos produtos da indústria editoral não se diferencia muito dos ditames das tendências da moda sobre o jeito de se vestir com “bom gosto”. Ocorre que o produto em questão, a literatura, requer o uso do cérebro para ser consumido, não bastando um corpo. É um produto que, pelo menos em tese, confere ao seu consumidor os fumos de um QI alto. Quiçá por isso não seja o seu consumo criticado como futilidade, pois trata-se de cultura e mais, de Alta Cultura. Literatura com “L” maiúsculo devidamente incensada pela

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intelectualidade crítica, por sua vez ungida como porta-voz da cultura oficial. A leitura de livros requer tempo livre e presume boa escolarização. De fundo, fica demonstrado que a leitura de certos livros pode funcionar socialmente como afirmação de um status social e do “bom gosto” correspondente, evidente também no terno Armani, na escolha dos melhores vinhos, do melhor charuto e da decoração apropriada da casa. Já a crítica acadêmica sofre de uma neurose de infância. Quando nasce, toda disciplina precisa estabelecer de modo minimamente objetivo qual o seu campo e qual o seu método de estudo. Ora, a literatura não é um campo delimitável objetivamente. Não apenas porque o que é literatura digna de leitura e de estudos para uns pode não ser para outros, mas porque o que é considerado socialmente como literatura é condicionado cultural, histórica e politicamente. O livro “Cultura Letrada”, de Márcia Abreu[1], é muito interessante no que tange esta questão. A autora conduz uma lúcida discussão sobre os contrastes entre leitores de “alta literatura” e leitores de literatura “comercial”, mostrando que há muito pouco de objetivo e nada de universal no juízo estético. O juízo estético é expressão de valores sociais e pessoais. Não apenas o juízo estético, como também a própria obra ajuizada. Costuma-se afirmar, nas discussões mais lúcidas sobre o tema, que a literatura “reflete” ou “contém” ideologias, quando na verdade é muito mais que isso. Afinal, se assim fosse, se a literatura refletisse ou contivesse ideologias, de certa forma a literatura em si estaria fora do campo da ideologia, uma vez que ela o refletiria como algo alheio, ou o conteria como algo que é apenas parte uma parte de si. A verdade, porém, é que a própria literatura é, ela mesma, ideologia. Em outras palavras, o que é e o que não é normalmente tido como literatura em uma determinada sociedade faz parte da constelação que forma a ideologia dominante desta sociedade. Há muito pouco de objetivo no “objeto literário” e nos métodos recomendados para sua abordagem.

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Ainda assim, os Estudos Literários existem como disciplina acadêmica, para a tristeza de alguns jovens excêntricos que ingressam no curso de Letras porque adoram Gramática. Até quando os governos brasileiros pagarão gente para ler romances e poemas e falar sobre eles, não se sabe. Muitos críticos já vaticinaram a morte da Literatura, diante dos e-books. Escutam na gritante indigência estética das massas educadas pela indústria cultural os estertores da Alta Cultura, não os do capitalismo. Como é verdade que se fez semelhante alarde quando do surgimento do cinema e, antes disso, do livro de bolso e, antes dele, da imprensa industrial, nós, professores, e s c r i t o r e s e a m a n t e s d a l i t e r a t u r a , p o d e m o s f i c a r despreocupados por ora. Ficaremos desempregados por cortes de verbas, não por falta de demanda. A verdade é que os Estudos Literários seguem fortes porque têm um papel fundamental na sociedade, como renovadores e perpetuadores de valores e instituições importantes, que têm certo peso na hegemonia de classes mesmo num país de parco letramento como o Brasil. Reconhecer este papel não implica ignorar que, no seio da crítica acadêmica e, em menor escala, até mesmo na crítica de mercado, haja movimentos e linhas de força alternativas e, mais raramente, dissidentes ou contra-hegemônicas.

Majoritariamente, como área especializada, com seus jargões, suas polêmicas internas por vezes altamente herméticas e suas formalidades pseudocientíficas, em parte a crítica acadêmica se enclausura numa torre de marfim, tornando-se o debate sobre literatura assunto de interesse quase exclusivo de estudiosos da área. No máximo, também de alguns escritores que são, além de escritores, pasmem: estudiosos da área. Aprendi a desconfiar de críticos que tornam a discussão sobre literatura um tema cabalístico tanto quanto de políticos que obscurecem as suas posições ao discursar. Em geral, ambos tem muito pouco a dizer ou defendem ideias tenebrosas, que melhor ficam se incompreensíveis para a maioria de nós.

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especialistas, a Literatura precisa estar configurada como um objeto, ainda que ao preço de muita fumaça metafísica para borrar a silhueta ideológica do suposto objeto. O tratamento da literatura como objeto autônomo, infenso à luta de classes, aproxima a vertente acadêmica dos Estudos Literários à crítica que funciona como relações-públicas do mercado editorial. Não à toa, ambas comumente hostilizam a defesa de uma perspectiva de crítica literária politicamente informada e direcionada. Em termos teóricos, o carro-chefe de tal hostilização é a premissa de que a cultura e as artes de um modo geral habitam um terreno onde aflora a realização daquilo que há de universal e eterno no homem. Em outras palavras, a crítica comercial ou acadêmica em suas mais corriqueiras variedades opera sobre o pressuposto de que a literatura, ou melhor, a Literatura, é um terreno onde a humanidade não está cindida em classes sociais, nem em raças, gêneros, sexualidades e nacionalidades.

O que, de certa forma, é até bem verdadeiro. Se levarmos em conta o que é a Literatura, com “L” maiúsculo – o cânone consagrado das Grandes Obras, produzidas pelos Grandes Homens – veremos que ela é quase exclusivamente de uma raça, a branca, de um gênero, o masculino, de uma sexualidade, a heterossexual, de uma classe, a dominante, e de uma só nacionalidade por sobre as possíveis nacionalidades oprimidas. Não apenas seus autores, mas também seus leitores, seus personagens principais, os valores veiculados e as línguas em que são escrita as Literaturas com “L” maiúsculo. Isso, não apenas no Brasil. Portanto, querer dizer que a discussão sobre literatura não deve envolver questões de classe é uma forma de se esquivar teoreticamente de qualquer menção explícita à classe que domina a literatura (e a cultura em geral), ocultando assim esta dominação. Não falar de raça, por exemplo, considerando um absurdo o uso do termo “literatura negra” no Brasil, é uma forma de desqualificar qualquer discussão que evidencie que a literatura canonizada no Brasil é quase totalmente branca. É também uma forma de negar o

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sentido da obra de uma poetisa do quilate de Miram Alves, por exemplo, que se reivindica uma escritora de literatura negra. Assim o argumento segue, passando por gênero, sexualidade e nacionalidades oprimidas.

O empenho por uma crítica literária que articule forma estética e processo social, mostra-se, neste horizonte, uma luta política de grande importância, que pode insuflar valor de uso no debate sobre literatura. Insuflar valor de uso em uma luta política no terreno da cultura, por sua vez, é considerado pelo pensamento que informa a crítica majoritária da academia e sua variedade mercadológica como a mais diabólica das heresias. Alega-se representar esta postura a violência do esquecimento da arte em nome da política, a morte da cultura como arte, substituída pela propaganda e assim por diante. Os que recitam tais mantras da religião estética tentam converter quem os ouve à crença de que toda crítica política marxista é jdanovismo encubado. Jdanov foi o lacaio cultural de Stalin que esteve à frente da confusão proposital de uma proposta de cultura politicamente informada e direcionada, própria dos revolucionários, com uma cultura burocraticamente controlada e oficializada como braço ideológico da contrarrevolução.

Entre cultura e política existem diferenças e identidades. A tarefa da crítica deve ser evidenciar tanto umas quanto outras. Não se pode no cumprimento desta tarefa entrar no beco em que se meteu certa crítica de orientação supostamente marxista, marcada por visões mecânicas e não dialéticas do materialismo, que consideravam a expressão literária como superestrutura que refletiria mais ou menos diretamente a realidade material. Qualquer leitura pouco minuciosa de uma obra como Grande Sertão: Veredas, por notável exemplo, é suficiente para desbancar o materialismo mecanicista. Com base neste, desqualifica-se a crítica marxista como um todo e não apenas sua versão vulgar. Eu mesmo fui vítima disto na academia. O fato é que submeter a cultura aos ditames do

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partido único é uma violência tão grande quanto deixá-la reger-se pelas leis do mercado. Se por um lado subentende-se, na cantilena cultural da estética burguesa, uma antinomia ilusória entre literatura e política, por outro lado, no hino da cultura stalinista, a literatura é mostrada como uma emanação direta da política oficial. Ambos os extremos são perigosamente ideológicos, no sentido negativo do termo.

Em suma, o que é preciso debater são os parâmetros de uma crítica política que não deixe de ser a crítica de uma prática cultural específica, capaz de evidenciar as linhas constitutivas e distintivas da obra literária de modo minucioso e específico. Capaz, igualmente, de problematizar o conceito de literatura e o cânone, em nome do que a história literária dos vencedores calou e cala, bem como em compromisso com a construção de uma sociedade mais livre. Portanto, de uma sociedade na qual a literatura possa existir como prática cultural para todos que dela queiram participar. Enfim, uma crítica que reconheça que em literatura a política está na forma expressiva tal como no conteúdo expresso. Almeja-se a uma crítica capaz de lidar tanto com a autonomia relativa da arte em relação à política quanto com a autonomia relativa da arte em relação à política. Não se pode confundir crítica política com a crítica que se limita a classificar a literatura segundo categorias gerais ou que utiliza as obras literárias como ilustrações ou motes para discutir assuntos “propriamente políticos”. Tampouco com a crítica que trata a literatura como mero reflexo superestrutural, mais ou menos direto, de uma superestrutura tomada como algo dado.

E isto não basta. Uma crítica política que tenha valor deve ir além da mediação entre as obras e os leitores. Deve se diferenciar da crítica acadêmica majoritária e da crítica de mercado também neste ponto, porquanto a crítica como mediação não transcende, por si, os limites do que vou chamar aqui de uma “propedêutica do consumo”. Uma das marcas características das vertentes de crítica literária mais comuns que viemos

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discutindo e, em boa parte, também de algumas tendências que manifestam resistência a tal hegemonia é que elas se limitam a orientar e estimular o público para a recepção/consumo das obras. Ou seja, trata-se de explicar os mecanismos das obras literárias para viabilizar ou ampliar-lhes a compreensão enquanto objetos, no caso da crítica acadêmica, ou de comentar suas qualidades para estimular-lhes o consumo enquanto valor de troca, no caso da crítica de mercado.

Em ambos os casos, a obra é um objeto consumido por sujeitos, que são os leitores. A leitura, tratada como consumo, é vista como uma atividade individual isolada, tal como se acredita ser a produção do objeto literário pelo escritor. Nestes limites, qualquer eventual declaração de que a literatura, como toda manifestação cultural, não é apenas um reflexo superestrutural da vida social objetivado em obras a serem consumidas tende a ser mera petição de princípio. Ir além da propedêutica do consumo permite a crítica não apenas afirmar, mas demonstrar que a literatura é uma prática social, no sentido de ser parte da produção e da reprodução do modo de vida dos homens em sua interação social. Uma crítica literária politicamente informada e direcionada deve adrede se ocupar e se colocar como participante desta prática social, como um dos elementos necessários a esta prática, e não apenas como uma atividade de explicação ou de valoração do objeto para o consumo do sujeito individual. Como propedêutica do consumo, a atividade crítica invisibiliza a prática na qual o objeto “obra literária” existe dinamicamente, produzido e reproduzido por sujeitos sociais cuja ação influi nos rumos e constitui o teor de tal prática. Esta prática é mais conhecida como política. Não é por não ser este aspecto da prática política o mais decisivo na luta pela emancipação da humanidade que devemos entregá-lo de mãos beijadas ao inimigo de classe. Marx, se ele pode nos servir de exemplo neste assunto, no círculo de trabalhadores que fundou em Bruxelas reservava um dia na semana para a discussão de literatura e teatro.

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Concluindo, porquanto veiculada como propedêutica do consumo de um objeto inerte, a discussão sobre estilos, gêneros, temática, estruturas, movimentos e escolas, interessantíssima para um apreciador de literatura, perde todo o valor e quase todo o sabor, desprovida de qualquer densidade, própria da dinâmica social. A crítica da obra literária como um objeto isolado da vida social, supostamente elevado acima dos conflitos reais, circulando em torno de uma humanidade genérica e abstrata, teria o mesmo valor dos elétrons que pudessem existir em um átomo sem núcleo, girando em torno do vazio. Ademais, o problema não está apenas no fato de que o poder de abrir horizontes e de intensificar experiências se perde quando a discussão sobre a forma literária é feita como propedêutica para o consumo. Outro grande motivo para evitar esta forma de crítica é que, discutida e estudada como objeto, assunto restrito a especialistas, ou como mercadoria, escamoteia-se o fato de que tanto a literatura quanto qualquer forma de se a tratar criticamente são práticas condicionadas por critérios de classe, de raça, de nacionalidade, de gênero, etc. Portanto, a literatura, ao contrário do normalmente se afirma, não é uma forma de se escapar dos conflitos mundo, nem apenas uma forma de vesti-los ou desnudá-los. É uma forma de participar deles e influenciá-los, embora talvez seja mais semelhante a uma série de escaramuças que à grande e decisiva batalha campal de uma revolução de massas.

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