MBA GESTÃO ESTRATÉTI
Gestão Estratégica das
Finanças Organizacionais
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Gestão Estratégica das
Finanças Organizacionais
Prof. Dr. Pedro Piccoli
MBA GESTÃO ESTRATÉTICA
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Finanças Organizacionais
MBA GESTÃO ESTRATÉGICAMBA GESTÃO ESTRATÉGICA
Apostila didática
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA
A que nos referimos quando falamos de “Gestão Estratégica das Finanças Organizacionais”? Como as finanças corporativas devem ser geridas em linha com a estratégia estabelecida pela empresa? Acreditamos que uma resposta eficiente a essa pergunta pode ser dada pelo Balanced Scorecard, proposto por Kaplan e Norton em 1992. Como visto em outras disciplinas, o BSC busca ser um instrumento de operacionalização estratégica, isto é, uma ferramenta para colocar em ação os objetivos estratégicos estabelecidos.
Segundo esse modelo, os objetivos organizacionais devem ser estruturados em quatro perspectivas interligadas entre si, conforme mostrado na Figura 1. Assim, as medidas de Crescimento e Aprendizado (1ª perspectiva), ligam-se às de Processos Internos (2ª perspectiva) que, por sua vez, impactam a perspectiva dos Clientes que, finalmente, irão influenciar as perspectivas Financeiras. Assim, a escolha de medidas financeiras alinhadas aos indicadores das perspectivas precedentes e que traduzam a opção estratégica adotada é de vital importância para colocar em ação o plano anteriormente estabelecido. Nesse contexto, a compreensão do que os diversos indicadores financeiros usualmente empregados realmente mensuram é essencial ao gestor, visto que a escolha equivocada poderá comprometer a consecução dos objetivos estratégicos. Metaforicamente, um
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comandante que não saiba ler seus instrumentos de navegação dificilmente levará seu navio ao destino correto.
Figura 1:Perspectivas do BSC
Fonte: Elaborado pelo autor
O objetivo deste módulo é, portanto, essencialmente instrumental, ao preparar o gestor para a compreensão dos relatórios contábeis da empresa, bem como dos indicadores deles emergentes, auxiliando-o na escolha das métricas financeiras que melhor traduzem o objetivo estratégico.
A Unidade 1 terá por objetivo apresentar os principais demonstrativos financeiros da empresa de maneira sintética e sob um enfoque gerencial. Serão abordados, portanto, os aspectos essenciais para uma interpretação básica da informação contida no Balanço Patrimonial, na Demonstração de Resultado do Exercício e do Fluxo de Caixa Operacional. Assim, aqueles alunos que já tem intimidade com esse demonstrativo poderão acelerar sua leitura, detendo-se com mais calma no caso ilustrativo da Erald S.A. Para tais alunos, também são recomendados os materiais adicionais indicados nas seções “Um passo a mais”.
Na Unidade 2 abordaremos os indicadores de liquidez, que buscam mensurar a solvência da empresa, assim como os indicadores de atividade, que se relacionam com a avaliação da eficiência operacional da empresa, sob a ótica das finanças corporativas. Serão também trabalhados os conceitos de Ciclo Operacional e Ciclo de Caixa, ambos de enorme importância para a gestão financeira de curto prazo, sendo também abordada a relação desses indicadores com a operacionalização da estratégia corporativa.
Perspe ctiva Financeira
Perspectiva do Cliente
Pe rspectiva dos Processo Internos
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A Unidade 3 aprofunda-se na análise da situação financeira de curto prazo da empresa ao apresentar a Análise Dinâmica das contas circulantes do Balanço. O rearranjo proposto por essa análise, em conjunto com algumas das informações reportadas pela DRE permite-nos realizar uma verificação mais completa da saúde financeira de determinada unidade de negócio, principalmente quando a mesma apresenta-se ou em fase de rápida expansão, ou em crescente dificuldade financeira.
Por fim, a Unidade 4 traz algumas medidas adicionais de eficiência operacional ao abordar indicadores de rentabilidade, lucratividade e geração de valor ao acionista. Para proporcionar uma perspectiva mais concreta dos conceitos, ao longo de todas as unidades é apresentado o caso ilustrativo da Erald S.A. com as devidas análises sobre a situação econômico-financeira da empresa. Seu entendimento é de fundamental importância para a apreensão do conteúdo pertinente, bem como para o desenvolvimento dos exercícios de fixação do guia didático e, posteriormente, das atividades avaliativas. Boa leitura!
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UNIDADE 1 – ESTRATÉGIA E INDICADORES FINANCEIROS
PARTE 1:ALINHAMENTO ENTRE ESTRATÉGIA E INDICADORES FINANCEIROS
Para que os indicadores estabelecidos possam medir com eficiência os objetivos estratégicos, é essencial que tais métricas estejam alinhadas ao ciclo de vida da empresa e/ou unidade de negócios. Assim, uma organização que, por seu planejamento estratégico, estiver iniciando suas operações em um novo mercado, por exemplo, deverá focar mais no crescimento de receita do que no ganho de rentabilidade a fim de mensurar a perspectiva financeira de sua estratégia, dado ser comum um alto investimento nos anos iniciais de uma nova operação a fim de superar as barreiras de entradas e ampliar o marketshare. Kaplan e Norton (2000), sugerem que o Ciclo de Vida de uma empresa seja dividido em 3 partes: crescimento, sustentação e maturidade (colheita).
Na fase de crescimento, é usual que a unidade de negócios opere com baixíssima rentabilidade, ou até mesmo com a geração de caixa negativa. Neste cenário, medidas financeiras de Rentabilidade ou Lucratividade não são recomendadas, indo na contramão do objetivo maior subjacente a essa fase que é o ganho de participação no mercado. Quando o Facebook abriu seu capital, em 2012, o valor atribuído à empresa pelo mercado foi de U$ 100 bilhões, sendo seu Lucro Líquido à época de U$ 1 bilhão. É evidente, portanto, que os acionistas que compraram os papeis da empresa em sua abertura de capital não estavam focados em sua rentabilidade (de meros 1% em relação ao valor da empresa), mas antes na expectativa de uma incrível geração de receita. Em 4 anos, a empresa triplicou suas vendas, sendo que o mesmo ocorreu com o valor de suas ações. O foco na rentabilidade nos anos iniciais certamente não seria a melhor tradução da perspectiva estratégica de suas finanças.
Para organizações que apresentem unidades de negócios em diferentes fases, sendo uma ou mais delas no período de crescimento, indicadores que mensurem a contribuição marginal destas unidades para a geração de receita da empresa são bastante recomendados. Com a crise global de 2008, o setor aeroespacial sofreu enorme declínio em suas receitas. A fim de diversificar seu portfólio, a partir do ano seguinte, a Embraer decidiu aumentar sua atuação no setor de Defesa, dado que o mesmo sempre se mostrou mais resiliente às crises econômicas. Assim, a participação deste segmento nas receitas da
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Embraer saltou de 8,8% em 2008 para 23% em 2014, contribuindo para a valorização das ações da empresa em mais de 170% no período.
A fase de sustentação é aquela na qual se encontram a maior parte das empresas. Como seu objetivo é aliar a manutenção da participação de mercado à geração de resultado operacional, medidas de rentabilidade ou de geração de caixa são especialmente importantes. Como o foco estará em obter excelência operacional, a perspectiva financeira deverá trazer indicadores baseados nas medidas contábeis presentes na Demonstração de Resultados do Exercício (DRE) e nas contas circulantes do Balanço Patrimonial, dado que as mesmas traduzem financeiramente o desempenho operacional da empresa.
Por fim, haverá unidades de negócio que terão atingido a fase de maturidade, na qual a organização deve colher os resultados obtidos a partir dos investimentos anteriormente realizados. Como nesta etapa a empresa não mais realiza investimentos vultuosos, medidas que associem o resultado organizacional ao capital investido (como o ROIC) deverão ser substituídas por outras que capturem a capacidade da empresa maximizar sua geração de caixa. Nesta perspectiva, o caso da Souza Cruz é emblemático. A empresa era líder em um setor de alto declínio: fumo. Entre 2011 e 2015, as receitas da empresa cresceram, em média, 4% abaixo da inflação brasileira. Por outro lado, como a empresa usufruía de enorme participação no mercado, focou no aumento de sua margem operacional por meio de rigoroso controle de custos e ganho de produtividade. Não por acaso, a empresa optou por distribuir mais de 90% de seu lucro como dividendos, engordando o retorno a seus controladores, e indicando o reconhecimento por parte dos mesmos de que não fazia sentido reter capital para novos investimentos em uma indústria decadente no Brasil. Em 2015, a British Tabacco, sua controladora, decidiu fechar o capital da empresa, deixando claro seu objetivo de colher para si a alta rentabilidade proporcionada pela companhia nessa fase de maturidade.
Um cuidado adicional a ser tomado na escolha dos indicadores financeiros para a operacionalização da estratégia refere-se à distinção entre medidas de estratégia e medidas de diagnóstico. Enquanto as medidas de diagnóstico monitoram a saúde financeira atual da empresa, as medidas de estratégia mensuram como a empresa quer estar no longo prazo. Ou seja, as medidas de diagnóstico devem mostrar a situação atual da empresa quanto à perspectiva econômica, mas não serão, necessariamente, os vetores de sucesso. Tal fato não quer dizer que as métricas de diagnóstico não devam ser acompanhadas pela empresa, dado que o objetivo estratégico de longo prazo dificilmente será obtido à custa de sua sustentabilidade financeira de curto prazo. Essa diferenciação indica simplesmente que as medidas de diagnóstico não devem ser entendidas como a tradução financeira da estratégia
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corporativa, pelo simples fato de que, muito dificilmente, a estratégia se resumirá à sobrevivência da organização.
Outro cuidado que deve ser observado é a necessidade de contínua revisão dos indicadores financeiros, ainda que a estratégia organizacional se mantenha a mesma ou que a unidade de negócios não tenha modificado sua fase do ciclo de vida. Esse exame contínuo traz consigo dois benefícios principais: 1º) evitar a perpetuidade de métricas pouco eficientes na perspectiva financeira; 2º) diminuir a possibilidade do comportamento oportunista por parte de alguns gestores que, a partir do conhecimento mais apurado da dinâmica subjacente ao indicador, podem adotar ações oportunistas (moral hazard) que deturpem o significado intrínseco à métrica. Obviamente, quando a organização passar por um processo de mudança estratégica, os indicadores financeiros que a traduzem devem ser, necessariamente, modificados.
Uma vez apresentada a importância de buscar indicadores financeiros que traduzam a estratégia organizacional em função das especificidades das unidades de negócio, a próxima seção irá revisar,
UM PASSO A MAIS: O ocaso da GOL
A trajetória financeira da GOL retrata ‘bem a diferenciação entre medidas de diagnóstico e de estratégia. Fundada em 2001, a empresa aproveitou o vácuo deixado pela falência da Varig e rapidamente se catapultou como a segunda principal empresa do setor aéreo nacional, lutando ombro a ombro com cinquentenária TAM. A rápida ascensão da GOL, levou a empresa a ocupar o ponto de Empresa do Ano de 2014 pela revista Exame. A transformação desse robusto marketshare (que chegou a superar os 45% do mercado nacional) em caixa, no entanto, mostrou-se muito mais complexo. Os desafios enfrentados pelo setor, bem como pela economia nacional a partir de 2010, contribuíram para uma sucessão de prejuízos. Nos últimos 5 anos, apesar da empresa ter conseguido melhorar os substancialmente seus indicadores financeiros de curto prazo (os chamados índices de atividade que serão estudados posteriormente), a companhia acumulou resultados negativos que fizeram com que seu patrimônio líquido ficasse no vermelho, indicado que a empresa possui Passivos em uma quantidade muito superior aos Ativos. Em outras palavras, apesar da empresa conseguir uma melhora substantiva em alguma de suas medidas de diagnóstico, ela não foi capaz de apresentar a mesma eficiência em suas medidas estratégicas. Não por acaso, seus acionistas viram os papeis da companhia se desvalorizarem mais de 80% nos últimos 10 anos. Leia mais sobre a difícil situação vivida pela GOL em:
http://exame.abril.com.br/mercados/noticias/gol-completa-15-anos-mas-investidor-nao-tem-o-que-comemorar
Para acompanhar a evolução de alguns dos indicadores contábeis da GOL, acesse:
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brevemente, os principais demonstrativos financeiros, dado que sua correta compreensão facilitará o processo de escolha de métricas adequadas por parte do gestor estratégico.
PARTE 2:REVISANDO OS PRINCIPAIS DEMONSTRATIVOS FINANCEIROS
O Balanço Patrimonial e as Demonstrações dos Resultados do Exercício (DRE) são os principais demonstrativos contábeis exigidos pela legislação brasileira, visto que os demais relatórios são elaborados com base nas informações neles contidas. Por esse motivo, a maior parte dos indicadores financeiros utilizados são baseados nestes dois relatórios, justificando nossa opção por trabalhar quase exclusivamente com eles ao longo deste módulo. Assim, essa seção tem por objetivo revisar os conceitos fundamentais inerentes a esses dois demonstrativos, sob o enfoque de uma análise gerencial. Isto é, nossa preocupação não será quanto aos conceitos contábeis/legais, mas majoritariamente quanto à interpretação de suas contas e implicações das mesmas para com os indicadores financeiros que norteiam a operacionalização da estratégia corporativa.
Balanço Patrimonial
Esse relatório busca refletir a situação econômico-financeira da empresa em um momento específico, representando, portanto, uma configuração estática de seu status patrimonial. Assim, quando olhamos para o Balanço Patrimonial de uma corporação, estamos analisando a posição acumulada de suas contas, desde o início de sua atividade empresarial. Como consequência, o Balanço de um único exercício social (ano fiscal) não é suficiente para medir a evolução da empresa naquele período, diferentemente do que ocorre com a DRE. Tal exercício só será possível quando incluímos o Balanço do período anterior, pois as variações apresentadas em cada conta indicarão a evolução das mesmas naquele exercício social.
Descendo ao concreto, quando verificamos, por exemplo, que a conta Lucros Acumulados de 2015 de certa empresa era de R$ 20 milhões, nada se pode afirmar sobre a evolução de seus lucros no período. No entanto, caso a mesma empresa tivesse encerrado o exercício social de 2014 com um montante de R$ 17 milhões nessa conta, poderíamos saber que houve uma retenção de lucros da ordem de 3 milhões ao longo de 2015.
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O Balanço Patrimonial está estruturado em 3 partes inter-relacionadas. Do lado esquerdo são apresentadas as contas pertencentes aos Ativos da empresa, isto é, aos seus bens (máquinas e edifícios, por exemplo) e direitos (recebimentos a prazo de seus clientes, por exemplo). É pela utilização desses ativos que a empresa poderá gerar suas receitas. Os recursos utilizados na obtenção desses ativos aparecem discriminados no lado direito do balanço, que reúne as contas do Passivo – o qual agrega os recursos de terceiros utilizados na empresa –, e as contas do Patrimônio Líquido, que por refletir o patrimônio dos proprietários, agrega os recursos de capital próprio da organização. Assim, pode-se dizer que as contas do lado direito do Balanço (Passivo + Patrimônio Líquido) aglutinam os recursos que financiam os ativos da empresa. A Figura 1 apresenta estes grupos de forma esquemática.
Figura 1: Grupos de contas do Balanço Patrimonial
Elaborado pelo autor (2016)
A relação entre essas três partes do balanço permite-nos definir o Patrimônio Líquido de uma empresa como sendo a diferença entre seus Ativos e Passivos, conforme traduzido na equação abaixo:
ܲܽݐݎ݅݉ô݊݅ ܮíݍݑ݅݀ = ܣݐ݅ݒ − ܲܽݏݏ݅ݒ (1)
Em outras palavras, ao subtrairmos os deveres (passivo) dos bens e direitos (ativos) de uma organização, temos uma medida de seu patrimônio, o chamado valor contábil. Dessa forma, quanto maior a diferença entre ativo e passivo, maior seu valor contábil. Isto é, maior o patrimônio acumulado pelos seus proprietários. Analogamente, caso as obrigações de certa empresa superem seus bens e direitos, a mesma terá Patrimônio Líquido negativo, indicando, evidentemente, uma situação de grande fragilidade financeira.
ATIVO
PASSIVO
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Contas Circulantes e Não Circulantes
As contas do Balanço Patrimonial são subdivididas em dois grupos em decorrência do tempo para que os itens pertencentes a cada conta sejam realizados (isto é, pagos ou recebidos). Quando essa realização se dá em um prazo menor que 1 ano, pertencerá às contas Circulantes (Ativo ou Passivo), ao passo que irão compor as contas Não-Circulantes quando tal prazo for superior a 1 ano. A título de exemplo, suponha a situação de uma construtora que está lançando um novo empreendimento. As parcelas de suas vendas com vencimento durante o ano fiscal irão compor o Ativo Circulante (pois são um direito de recebimento de uma venda já realizada), enquanto que as parcelas com vencimento superior a esse prazo serão reunidas no Ativo Não Circulante. Analogamente, caso a empresa tenha contratado um empréstimo bancário para financiar o empreendimento, as parcelas desta dívida com vencimento em até 1 ano seriam alocadas no Passivo Circulante, ao passo que as com vencimento superior a esse prazo fariam parte do Passivo Não Circulante.
Fazem parte, ainda, do Ativo Não Circulante, grandes partes dos bens da empresa, como edificações, licenças de softwares e mesmo a participação em outras empresas. Tais itens seriam alocados, respectivamente, nas contas de Imobilizado, Intangível e Investimento, por exemplo.
Esquematicamente, as contas do Ativo são distribuídas em ordem decrescente de liquidez. Isto é, quanto mais fácil é para a empresa transformar aquele bem/direito em caixa, maior a prioridade do
UM PASSO A MAIS: Valor Contábil, Valor de Mercado e Valor Econômico da empresa
O Valor Contábil normalmente não reflete o Valor Econômico (ou intrínseco) de uma empresa. O entendimento mais moderno em finanças é de que esse valor decorre da capacidade que a empresa tem em gerar caixa. Assim, tem-se três conceitos distintos: o Valor Contábil, que mede o Patrimônio Líquido da empresa, o Valor de Mercado, que mede o valor atribuído à empresa pelo mercado acionário quando a mesma é listada na Bolsa, e o Valor Econômico, que indica quanto a empresa vale realmente. Um exemplo emblemático da diferença entre o Valor Contábil e o Valor de Mercado é o da GOL Linhas Aéreas S.A. A empresa é listada na Bovespa e encerrou 2015 com um Patrimônio Líquido negativo de R$ -4,5 bilhões. No entanto, nesse mesmo período, seu Valor de Mercado na Bolsa era de R$ 10,8 bilhões. A diferença entre Valor Contábil e Valor de Mercado é tão comum, que o indicador que as relaciona (o chamado Preço/Valor Patrimonial) é bastante utilizado para verificar o quão cara/barata uma ação está sendo negociada no mercado. Neste contexto, uma ação com um Valor de Mercado muito maior que seu Valor Patrimonial será considerado “cara”, ao passo que será dita “barata” quando essa relação for menor do que 1. Indicamos o site abaixo como uma interessante plataforma que reúne alguns dos principais indicadores contábeis das empresas de Capital Aberto brasileiras: www.fundamentus.com.br
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referido item no ordenamento do Balanço. Por esse motivo, o ordenamento comumente encontrado no Ativo Circulante será: Disponibilidades –> Contas a Receber –> Estoques, visto ser muito mais rápido para a empresa converter em moeda uma aplicação financeira (disponibilidade) do que um componente da matéria-prima (estoque). A Figura 2 apresenta um Balanço Patrimonial genérico com algumas de suas principais contas.
Figura 2: Exemplo genérico de um Balanço Patrimonial
Elaborado pelo autor
Alternativamente, as contas do Passivo também podem ser agrupadas em dois conjuntos conforme a natureza da obrigação existente. Quando a obrigação se refere a uma dívida financeira, na qual há incidência de juros em decorrência do empréstimo, ela é considerada um passivo oneroso, enquanto que as obrigações inerentes às atividades operacionais (como faturas de fornecedores a pagar) são chamadas de passivo não-oneroso. Neste contexto, vale observar que os valores que compõem o passivo não-oneroso incluem não apenas eventuais contas em atraso, mas também aqueles itens com prazo para pagamento. Assim, uma fatura de R$ 20.000 que a empresa tenha com um de seus fornecedores para pagamento em 45 dias, por exemplo, irá compor a conta de “Fornecedores a pagar” do Passivo Circulante. Da mesma forma, uma venda a prazo que ela tenha feito a um de seus clientes será alocada no “Contas a Receber” do Ativo Circulante.
Demonstração do Resultado do Exercício – DRE
Conforme mencionado anteriormente, enquanto o Balanço Patrimonial fornece uma visão estática da empresa, em virtude de seu caráter cumulativo, a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE)
Ativo Circulante Passivo Circulante
Disponibilidades Empréstimos e Financiamento
Contas a Receber (Clientes) Contas a Pagar (Fornecedores)
Estoques Salários a pagar
Impostos a pagar
Ativo Não Circulante
Realizável a longo prazo Passivo Não Circulante
Investimentos Exigível a longo prazo
Imobilizado Empréstimos e Financiamento
Intangível
Patrimônio Líquido Capital Social Lucros Acumulados
ATIVO PASSIVO + PATRIMÔNIO LÍQUIDO
C a p it a l d e T e rc e ir o s C a p it a l P ró p ri o
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apresenta uma visão dinâmica do resultado econômico da empresa ao longo de um determinado exercício social. Metaforicamente, poderíamos dizer que dois Balanços de exercícios sucessivos fornecem os pontos de início e partida da trajetória econômica da organização, enquanto a DRE mostra como ela percorreu esse trajeto. Em essência, esse relatório mostra de que forma as Receitas e os Gastos (Custos e Despesas) contribuíram para a geração de resultado da empresa. A Figura 3 apresenta um modelo genérico da forma como a DRE é estruturada.
Figura 3: Modelo genérico de DRE
Elaborado pelo autor
Esquematicamente, podemos dividir a DRE em três grupos: resultados operacionais, resultados não operacionais, e resultados líquidos. O primeiro apresenta como a empresa gerou resultado a partir de suas atividades operacionais, isto é, pela compra e venda de serviços. Neste grupo, os gastos incorridos pela empresa são divididos em Custos do Produto Vendido e Despesas Operacionais, sendo que os primeiros referem-se aos dispêndios relacionados ao processo produtivo (como matéria-prima, por exemplo), e estes decorrem de gastos não-relacionados ao processo produtivo (como o aluguel, por exemplo). A diferença entre esses grupos resultará no Lucro Operacional da empresa, informação de enorme valia para o gestor da organização.
No segundo grupo são reunidas as receitas e gastos decorrentes de operações financeiras. Exemplos desses itens são os juros auferidos pela empresa em suas aplicações financeiras, no caso das receitas, e os juros pagos em eventuais empréstimos, no caso das despesas financeiras. Reunindo as informações do primeiro e segundo grupos, tem-se o Lucro Antes do Imposto de Renda (LAIR) o qual, após a dedução tributária, resulta no Lucro Líquido do exercício. A parte deste lucro que não for
DRE
Receita Bruta
(-) Impostos sobre receitas (=) Receita Líquida
(-) Custo do Produto Vendido (=) Lucro Bruto
(-) Depreciação e Amortização (-) Despesas Operacionais (=) Lucro Operacional
(+/-) Receitas/Despesas Financerias Resultado Não Operacional
(=) Lucro Antes do Imposto de Renda (-) IR e CSLL
Lucro Líquido
Resultado Operacional
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distribuída aos proprietários em forma de dividendos será somada à conta de Lucros Acumulados do Balanço Patrimonial. Assim, o Balanço se vincula à DRE pela conta de Lucros Acumulados.
Regime de Competência e Fluxo de Caixa Operacional
Uma informação essencial na análise do Balanço e da DRE é que os registros realizados nestes relatórios são feitos pelo critério do “regime de competência”. Isto é, as movimentações são contabilizadas no momento em que são contratadas, e não quando são efetivamente desembolsadas. Assim, por exemplo, uma venda realizada a prazo será imediatamente registrada como receita na DRE, independentemente de seu pagamento. Concomitante a esse registro, tal venda será também lançada no Balanço no item “Contas a Receber”, sendo baixado da mesma somente quando do pagamento por parte do cliente. Analogamente, uma compra a prazo realizada com um fornecedor de matéria-prima, por exemplo, será registrada na conta “Custo do Produto Vendido” da DRE, e lançada no “Contas a Pagar” do Passivo no Balanço Patrimonial, sendo baixada desta última conta somente quando a empresa pagar o fornecedor.
Tal entendimento é importante pois traz uma implicação prática na leitura da DRE: as informações nela contidas não refletem necessariamente as movimentações (entradas/saídas) de caixa da empresa. Assim, é necessário que se façam alguns ajustes na DRE para que se possa demonstrar as movimentações de caixa geradas pela organização naquele exercício social. O relatório denominado “Demonstração dos Fluxos de Caixa”, cuja divulgação é obrigatória para as empresas de capital aberto, visa cumprir essa função. Por brevidade, não trataremos em detalhes esse relatório, limitando-nos à análise somente do fluxo de caixa gerado pelas atividades operacionais da empresa, visto ser essa a informação de maior validade ao gestor financeiro da organização. A Figura 3 sintetiza os ajustes que devem ser realizados na DRE para que seja demonstrado o Fluxo de Caixa gerado pela empresa em suas operações.
Figura 4: Fluxo de Caixa Operacional gerado pela empresa
FLUXO DE CAIXA OPERACIONAL
Lucro Líquido
(+/-) Diminuição/Aumento do Contas a Receber (+/-) Diminuição/Aumento dos Estoques (+/-) Aumento/Diminuição do Contas a Pagar (+/-) Aumento/Diminuição de Salários a Pagar (+/-) Aumento/Diminuição de Impostos a Pagar
(+) Depreciação e Amortização
MBA GESTÃO ESTRATÉGICAMBA GESTÃO ESTRATÉGICA Elaborado pelo autor
A título ilustrativo, vamos supor que uma certa empresa tenha realizado, logo antes do final de seu exercício social, uma venda a prazo no valor de R$ 50.000, bem como uma compra a prazo no valor de $ 30.000 junto a um de seus fornecedores de matéria-prima. Ora, pelo princípio do regime de competência, as duas movimentações terão sido registradas na DRE, mas sem o respectivo desembolso financeiro, dado que foram feitas a prazo. Assim, para refletirmos a real circulação financeira, devemos diminuir os R$ 50.000 da venda a prazo da DRE (pois, de fato, a empresa não recebeu esse valor) e aumentar o resultado em R$ 30.000 (pois, de fato, a empresa não pagou esse valor). Conforme já citado, no Balanço Patrimonial a venda a prazo estaria no “Contas a Receber” do Ativo, e a compra a prazo, no “Contas a Pagar” do Passivo. Generalizando este raciocínio, os aumentos do Contas a Receber devem ser diminuídos do resultado do exercício mostrado na DRE, ao passo que os aumentos do Contas a Pagar, devem ser somados. O termo “aumento” é necessário pois, conforme já exposto, o Balanço reflete uma posição estática (acumulada) das contas da empresa. Assim, para sabermos quanto uma empresa gerou de “Contas a Receber” em determinado exercício, por exemplo, devemos medir a variação dessa conta ao longo do período.
O mesmo raciocínio vale para as outras contas operacionais do passivo/ativo, ilustradas na Figura 4. Já a conta “Depreciação e Amortização”, deve ser sempre somada, pois se trata apenas de uma informação contábil que visa refletir a deterioração dos bens da empresa em função do uso dos mesmos, não refletindo um desembolso financeiro propriamente dito. Em termos coloquiais, a empresa não “paga” a ninguém a despesa de depreciação. Logo, esse “gasto”, que diminui o resultado na DRE deve ser novamente somado para refletir a movimentação financeira que de fato foi realizada.
Para sabe
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produtivos no Brasil, acesse:
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Os indicadores setoriais estão disponíveis em:
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MBA GESTÃO ESTRATMBA GESTÃO ESTRATÉGICAÉGICA Caso Ilustrativo: as demonstrações financeiras da Erald S.A.
Abaixo são apresentados o Balanço Patrimonial da Erald S.A. nos últimos dois exercícios sociais, bem como a DRE de 2015. Com base neles, responda as questões que seguem:
BALANÇO PATRIMONIAL - Erald S.A. 2.015 2.014
Ativo Circulante 321.045 254.000
Caixa 16.590 19.410
Aplicações Financeiras 39.455 49.590
Contas a receber 124.100 80.500
Estoques 140.900 104.500
Ativo Não Circulante 1.108.555 1.098.390
Imobilizado 1.097.135 1.087.730 Intangível 11.420 10.660 ATIVO TOTAL 1.429.600 1.352.390 Passivo Circulante 147.710 120.720 Empréstimos e Financiamentos 58.760 34.270 Fornecedores 47.600 49.500 Salários a pagar 23.500 21.070 Impostos a pagar 17.850 15.880
Passivo Não Circulante 742.115 716.650
Empréstimos e Financiamentos 715.990 693.690
Impostos diferidos 26.125 22.960
Patrimônio Líquido 539.775 515.020
Capital Social 144.770 144.770
Lucros Acumulados 395.005 370.250
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01. Qual foi o aumento exibido pelas contas de curto e de longo prazo da empresa em 2015? Curto Prazo: Ativo Circulante = 321.405 – 254.000 = 60.956
Passivo Circulante = 147.710 – 120.720 = 26.990 Longo Prazo: Ativo Não Circulante = 1.108.555 – 1.098.390 = 10.165
Passivo Não Circulante = 742.115 – 716.650 = 25.465
02. Pode-se afirmar que a empresa contraiu empréstimos em 2015? Justifique.
Sim. Pois a conta “Empréstimos e Financiamentos” sofreu um aumento tanto no curto quanto no longo prazo, denotando que a empresa adquiriu mais empréstimos no período. Especificamente, esse aumento foi de 24.490 no curto prazo (58.760 – 34.270) e de 22.300 no longo prazo (715.990 – 693.690), totalizando 46.790.
03. Qual foi a evolução da conta “Lucros Acumulados” no período, e qual o % do resultado
líquido que a empresa reteve?
Lucro Acumulado_2014 = 370.250
Lucro Acumulado_2015 = 395.005, logo: Variação = 24.755 Lucro Líquido_2015 = 49.510
% Retido = 24.755 / 49.510 = 50%. Logo, concluímos que a empresa reteve 50% de seu lucro e distribuiu como dividendos os outros 50%.
04. A empresa possui mais bens e direitos ou obrigações no curto prazo? Justifique. Bens e direitos. Ativo Circulante_2015: 321.045. Passivo Circulante_2015: 147.710.
05. A empresa financia suas operações majoritariamente com Capital Próprio ou com Capital de
Terceiros? Justifique.
DRE - Erald S.A. 2.015
Receita Bruta 1.491.600
(-) Impostos sobre receitas 223.740
(-) Custo do Produto Vendido 745.800
(=) Lucro Bruto 522.060
(-) Depreciação e Amortização 88.946
(-) Despesas Operacionais 250.700
(=) Lucro Operacional 182.414
(-) Despesas Financerias 107.399
(=) Lucro Antes do Imposto de Renda 75.016
(-) IR e CSLL 25.505
MBA GESTÃO ESTRATMBA GESTÃO ESTRATÉGICAÉGICA Com Capital de Terceiros. Capital Próprio: 539.775. Capital de Terceiros: 889.825 (=147.710 + 742.115).
06. Qual foi o Fluxo de Caixa Operacional gerado pela empresa em 2015?
Fluxo de Caixa Operacional = Lucro Líquido – Aumento Contas a Receber – Aumento dos Estoques + Aumento dos Fornecedores a pagar + Aumento Salários a pagar + Aumento Impostos a pagar + Depreciação e Amortização.
Aumento Contas a Receber = 124.100 – 80.500 = 43.600 Aumento Estoques = 104.500 – 140.900 = 36.400
Aumento Fornecedores a pagar = 47.600 – 49.500 = – 1.900 (diminuição, portanto) Aumento Salários a pagar = 23.500 – 21.070 = 2.430
Aumento Impostos a pagar = 17.850 – 15.880 = 1.970
Fluxo de Caixa Operacional = 49.510 – 43.600 – 36.400 + (- 1.900) + 2.430 + 1.970 + 88.940 = 60.956
REFERÊNCIAS
BERK, J.; DEMARZO, P. Finanças Empresariais. Porto Alegre: Bookman, 2009.
FLEURIET, M.; KEHDY, R.; BLANC, G. O Modelo Fleuriet. A dinâmica financeira das empresas brasileiras. Rio de Janeiro. Editora Campus, 2003
GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12ª ed. São Paulo. Editora Pearson, 2010 HELFERT, E. A. Técnicas de Análise Financeira: um guia prático para medir o desempenho dos negócios. 9 ed. Porto Alegre: Bookman, 2000
MBA GESTÃO ESTRATÉGICAMBA GESTÃO ESTRATÉGICA UNIDADE 2 – INDICADORES FINANCEIROS DE CURTO PRAZO
Como vimos na unidade anterior, as contas do Balanço Patrimonial podem ser divididas em dois grupos: contas de curto prazo (circulantes) e de longo prazo (não-circulantes). Assim, quando falamos da análise financeira da empresa no curto prazo estamos nos referindo ao seu comportamento econômico inferior a um ano. Consequentemente, indicadores que envolvam a mensuração de sua situação financeira neste prazo terá seu foco nas contas circulantes do Balanço, bem como em todos os itens da DRE, dado que esta compreende a geração de resultado ao longo de 1 ano fiscal.
De forma geral, os indicadores estabelecidos com o uso dessas informações terão caráter de medidas de diagnóstico (ver Unidade 1), visto que mensuram a situação financeira de curto prazo da empresa. No entanto, caso o posicionamento estratégico da empresa se alinhe com a busca pela excelência em suas operações, então o uso de indicadores dessa natureza será bastante recomendável, visto que os mesmos são medidas financeiras de eficiência operacional justamente por seu caráter de curto prazo. Nos demais casos, o papel desses indicadores não deve ser minorado visto que, conforme já exposto, nenhuma estratégia empresarial se mostrará eficaz à custa da sustentabilidade financeira de curto prazo da empresa.
Neste contexto, a presente unidade busca apresentar os principais indicadores financeiros de curto prazo. Para tanto, a mesma está subdividida em duas partes: Indicadores de Liquidez e Indicadores de Atividade. Boa leitura!
PARTE 1:ÍNDICES DE LIQUIDEZ
Em finanças corporativas, o termo “liquidez” se refere à solvência financeira da empresa, isto é, à sua capacidade de honrar com as obrigações de curto prazo (passivo circulante). Dessa forma, os indicadores de liquidez relacionam, de alguma forma, as contas do ativo e do passivo circulantes da empresa. Dentro da perspectiva da disciplina, tais índices enquadram-se, normalmente, como sendo medidas de sobrevivência, uma vez que a deterioração dos mesmos é comumente associada a problemas graves de fluxo de caixa ou mesmo da insolvência iminente do negócio. Neste material, destacaremos três dentre os diversos existentes: a) índice de liquidez corrente; b) índice de liquidez seca; e c) índice de liquidez imediata.
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Índice de Liquidez Corrente
Relaciona todas as contas circulantes (correntes) do ativo e do passivo e é dado pela equação:
ܮ݅ݍݑ݅݀݁ݖ ܥݎݎ݁݊ݐ݁ = ܣݐ݅ݒ ܥ݅ݎܿݑ݈ܽ݊ݐ݁
ܲܽݏݏ݅ݒ ܥ݅ݎܿݑ݈ܽ݊ݐ݁ (2)
De modo geral, quanto maior o índice de liquidez corrente, mais líquida é a empresa, isto é, maior sua capacidade de honrar suas dívidas de curto prazo. Por exemplo, uma liquidez corrente de 2,0 indica que para cada $1,00 em obrigações de curto prazo, a empresa detém $ 2,00 em ativos, apresentando, portanto, capacidade de sobra para honrar com essas obrigações.
A análise da saúde financeira da empresa por meio dos índices de liquidez deve sempre ser colocada sob a perspectiva do setor em que a empresa está inserida. Setores industriais associados a bens duráveis (isto é, produtos cujo uso é prolongado, como veículos e imóveis, por exemplo) demandarão, normalmente, um maior investimento da empresa em ativos circulantes – basta pensar no valor dos estoques para as empresas de construção civil, por exemplo. Já empresas prestadoras de serviço com ampla participação de mercado, como as concessionárias de serviço público, por exemplo, demandam um investimento muito menor em seus ativos circulantes, o que lhes permite manter níveis de liquidez bem menores. Assim, um índice de liquidez de 1,2 para uma construtora poderá ser muito mais preocupante que um índice de liquidez 0,8 de uma prestadora de serviços. Analogamente, uma empresa com um índice de liquidez muito acima da média do seu setor provavelmente não estará fazendo bom uso de seus ativos de curto prazo (por exemplo, mantendo níveis de estoques elevados em excesso), indicando possível ineficiência em suas operações.
Logo, um nível satisfatório de liquidez será definido por meio da comparação com empresas do mesmo setor em igual período ou da comparação deste índice para a mesma empresa ao longo de períodos sucessivos.
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Na unidade anterior mencionamos que as contas do Ativo Circulante são classificadas em ordem de liquidez, isto é, da capacidade que a empresa teria de transformas aqueles direitos em caixa. Dentre as contas de curto prazo clássicas do ativo (Disponibilidades, Contas a Receber e Estoques), os Estoques são as menos líquidas, visto apresentarem maior dificuldade de serem convertidas em dinheiro. Nesse contexto, a liquidez seca busca ser uma medida mais refinada da capacidade da empresa honrar com suas obrigações circulantes ao excluir do Ativo Circulante a conta “estoques”. Além disso, conforme exposto anteriormente, uma empresa com um nível de estoques excessivamente elevado teria uma liquidez corrente alta, o que não implica, necessariamente, em maior saúde financeira, dado que este excesso poderia denotar o acúmulo de produtos desatualizados ou obsoletos. Dessa maneira, a liquidez seca estrutura-se assim:
ܮ݅ݍݑ݅݀݁ݖ ܵ݁ܿܽ =ܣݐ݅ݒ ܥ݅ݎܿݑ݈ܽ݊ݐ݁ − ܧݏݐݍݑ݁ݏ
ܲܽݏݏ݅ݒ ܥ݅ݎܿݑ݈ܽ݊ݐ݁ (3)
Índice de Liquidez Imediata
A liquidez imediata vai um passo além da seca ao excluir todos os ativos circulantes que não sejam “caixa” – dinheiro em conta corrente – ou “Equivalentes a Caixa” – aplicações financeiras de altíssima liquidez. A proposta desse indicador é medir a capacidade da empresa honrar imediatamente todas as obrigações de curto prazo, se necessário. A junção dessas contas é comumente denominada “disponibilidades”, termo bastante comum de ser encontrado nos informes financeiros. Assim, o índice é calculado da seguinte forma:
ܮ݅ݍݑ݅݀݁ݖ ܫ݉݁݀݅ܽݐܽ = ܦ݅ݏܾ݈݊݅݅݅݀ܽ݀݁ݏ
ܲܽݏݏ݅ݒ ܥ݅ݎܿݑ݈ܽ݊ݐ݁ (4)
Novamente, a análise desse indicador deve ser feita de forma relativa. Uma empresa com liquidez imediata excessiva em relação a seus pares, ainda que objetivamente tenha grande saúde financeira de
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curto prazo, pode apresentar uma gestão demasiadamente conservadora, deixando de lado oportunidades de negócio a fim de buscar a geração de resultados financeiros, fugindo de suas competências essenciais.
Caso Ilustrativo: a liquidez da Erald S.A.
Utilizando o Balanço Patrimonial da Erald S.A, disponibilizado na página 13, determine a liquidez corrente, seca e imediata da empresa em 2014 e 2015 e avalie, com base nesses indicadores se a empresa melhorou ou piorou sua situação financeira de curto prazo (Nota: por simplicidade, a figura abaixo apresenta apenas as contas de curto prazo da empresa).
01. Liquidez: a) Liquidez Corrente2014 = 254.000/120.720 = 2,10 Liquidez Corrente2015 = 321.045 / 147.710 = 2,17 b) Liquidez Seca2014 = (254.000 – 104.500) / 120.720 = 1,24 Liquidez Seca2015 = (321.045 – 140.900) / 147.710 = 1,22 c) Liquidez Imediata2014 = (19.410 + 45.590) / 120.720 = 0,54 Liquidez Imediata2015 = (16.590 + 39.455) / 147.710 = 0,38 02. Análise.
O índice de Liquidez Corrente apresenta um leve aumento, o que poderia, inicialmente, indicar uma pequena melhora da situação financeira da empresa. No entanto, ao analisar os demais índices mais a fundo, percebemos que esse aumento foi provocado pelo incremento dos Estoques e do Contas a Receber, que são ativos menos líquidos. Com isso, o índice de Liquidez Imediata sofreu uma sensível deterioração, indicando que a empresa aumentou sua fragilidade financeira de curto prazo.
BALANÇO PATRIMONIAL - Erald S.A. 2.015 2.014
Ativo Circulante 321.045 254.000 Caixa 16.590 19.410 Aplicações Financeiras 39.455 49.590 Contas a receber 124.100 80.500 Estoques 140.900 104.500 Passivo Circulante 147.710 120.720 Empréstimos e Financiamentos 58.760 34.270 Fornecedores 47.600 49.500 Salários a pagar 23.500 21.070 Impostos a pagar 17.850 15.880
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PARTE 2:ÍNDICES DE ATIVIDADE
Como se depreende de seu nome, os indicadores de atividade monitoram a eficiência da empresa no exercício de suas atividades operacionais. Em finanças corporativas, o termo “operação” da empresa refere-se ao seu ciclo produtivo, isto é, aos prazos associados à compra da matéria-prima, processamento do produto, venda e efetivo recebimento financeiro da venda de sua mercadoria. Quanto menores estes prazos, mais eficiente é a empresa, inclusive do ponto de vista econômico, dado que a redução desses prazos irá implicar em uma menor necessidade da empresa investir capital em estoques ou no giro do negócio. Logo, empresas cujo planejamento estratégico tenha seu enfoque no ganho de eficiência, ou na excelência em custos, por exemplo, encontrarão nos indicadores de atividade uma forma consistente de se medir o êxito da perspectiva financeira da estratégia. Neste material enfatizaremos os seguintes índices de atividade: Prazo Médio de Estoques, Prazo Médio de Recebimento e Prazo Médio de Pagamento.
Prazo Médio de Estoques
Este indicador mede quantos dias, em média, os produtos comercializados pela empresa ficam em estoques. Ele compreende tanto o tempo médio que a empresa leva entre a compra da matéria-prima junto a seus fornecedores e a transformação desta em produto acabado, quanto ao número de dias que seus produtos acabados levam até serem efetivamente vendidos. Seu cálculo se dá pela seguinte fórmula:
ܲܯܧ = ܧݏݐݍݑ݁ݏ × 360
ܥݑݏݐ ݀ ܲݎ݀ݑݐ ܸ݁݊݀݅݀ (5)
O valor de 360 se refere ao número de dias convencionado para um ano. Sua multiplicação se faz necessária para compatibilizar os prazos envolvidos nas contas de Estoque e de Custo do Produto
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patrimonial que, por sua vez, mostra a posição contábil da empresa em um determinado dia, ao passo que a DRE, de onde provém a informação do Custo do Produto Vendido, reúne informações financeiras anuais da empresa. Assim, para que as contas sejam padronizadas, deve-se anualizar os estoques, multiplicando por 360, ou transformar em dias o Custo dos Produtos Vendidos, dividindo-o por 360. Por simplicidade, optamos pela primeira alternativa.
Prazo Médio de Recebimento
Esse índice busca medir quantos dias, em média, a empresa leva entre a venda de seu produto e o efetivo pagamento por parte dos clientes. Assim, tal indicador será influenciado tanto pelos prazos de pagamento que a empresa concede, quanto por eventuais inadimplências por parte de seus clientes. Seu cálculo se faz da seguinte forma:
ܲܯܴ =ܥ݊ݐܽݏ ܽ ܴܾ݁ܿ݁݁ݎ × 360
ܴ݁ܿ݁݅ݐܽ (6)
Prazo Médio de Pagamento
Esse indicador busca determinar, em dias, o prazo que a empresa consegue negociar junto de seus fornecedores, sendo parametrizado da seguinte maneira:
ܲܯܲ = ܨݎ݊݁ܿ݁݀ݎ݁ݏ × 360
ܥݑݏݐ ݀ ܲݎ݀ݑݐ ܸ݁݊݀݅݀ (7)
Deve-se salientar que, no uso desses indicadores de atividade, é assumido que os valores contidos nessas contas do Balanço Patrimonial ao final do período são uma boa aproximação do saldo médio da conta ao longo de todo o período de análise. A título de ilustração, imaginemos uma empresa que, a poucos dias do final do ano, realizou uma grande venda a prazo. Na elaboração de seu balanço
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anual em 31/12, em função dessa venda atípica, seu Contas a Receber receberia um valor alto que distorceria seu Prazo Médio de Recebimento, se o mesmo fosse calculado com base apenas na informação do Balanço desse dia. Consequentemente, decisões baseadas em tal indicador estariam enviesadas por um evento atípico que não reflete a operação da empresa na grande maioria de seus dias. Logo, sempre que possível, é aconselhável que se utilize Balanços Trimestrais ou mesmo Balancetes Mensais na determinação dos prazos médios dos índices de atividade da empresa, diminuindo a distorção trazida por eventos fora do padrão, ou pela sazonalidade enfrentada por certos setores.
Outra observação pertinente é que tais prazos devem ser colocados sob a perspectiva do setor a que a empresa pertença. Assim, para avaliar se um índice está ou não adequado, deve-se compará-lo ou com indicadores de empresas do mesmo setor, ou com os índices apresentados pela empresa em um período correlato do passado. Evidentemente, empresas pertencentes à Construção Civil, por exemplo, apresentarão prazos de estoque e de recebimento bastante altos, dada a natureza do bem que produzem (afinal, um prédio leva considerável tempo para ser construído e vendido – prazo médio de estoques – e outro longo período para que os apartamentos vendidos sejam efetivamente pagos – prazo médio de recebimento).
Caso Ilustrativo: Os Prazos Médios da Erald S.A.
Utilizando o Balanço Patrimonial da Erald S.A, disponibilizado na página 13, determine os Prazos Médios de Estoque, de Recebimento e de Pagamento da empresa em 2015. Sabendo que a média do setor para esses prazos é a seguinte: PME: 72 dias, PMR: 35 dias PMP: 20 dias, avalie se a empresa apresenta uma situação financeira de curto prazo melhor ou pior que seus pares setoriais. (Nota: por simplicidade, a figura abaixo apresenta apenas as contas de curto prazo e parte da DRE da empresa).
BALANÇO PATRIMONIAL - Erald S.A. 2.015
Ativo Circulante 321.045
Caixa 16.590
Aplicações Financeiras 39.455
Contas a receber 124.100
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PME = 140.900 x 360/745.800 = 68 dias PMR = 124.100 x 360/1.491.600 = 30 dias PMP = 47.600 x 360/745.800 = 23 dias
Seu PME é inferior ao da média do setor, indicando que a empresa é mais eficiente em suas operações. Seu PMR também é menor que o setorial, significando que a empresa consegue receber de seus clientes antes do que seus concorrentes. Por fim, seu PMP é superior ao do setor, o que mostra que a empresa consegue negociar prazos maiores com seus fornecedores, obtendo mais “fôlego” para seu giro. Por tais motivos, pode-se dizer que a empresa aprepode-senta uma situação financeira de curto prazo mais confortável do que a média do setor.
Ciclo de Caixa e Ciclo Operacional
Os indicadores de atividade acima apresentados permitem determinar ainda duas valiosas informações financeiras: o Ciclo Operacional e o Ciclo de Caixa. O primeiro, refere-se ao período compreendido entre a compra da matéria prima e o recebimento efetivo da venda por parte do cliente. Da forma como é definido, o Ciclo Operacional implica na soma dos Prazos Médios de Estoque e de Recebimento. Quanto mais longo esse prazo, maior a ineficiência operacional da empresa, dado ter sido maior o tempo consumido na elaboração, venda e recebimento de seus produtos.
Já o Ciclo de Caixa indica por quanto tempo a empresa deve financiar suas atividades operacionais, ou seja, o tempo compreendido entre o pagamento a seus fornecedores pela compra da matéria-prima
Passivo Circulante 147.710
Empréstimos e Financiamentos 58.760
Fornecedores 47.600
Salários a pagar 23.500
Impostos a pagar 17.850
DRE - Erald S.A. 2.015
Receita Bruta 1.491.600
(-) Impostos sobre receitas 223.740
(-) Custo do Produto Vendido 745.800
(=) Lucro Bruto 522.060
(-) Depreciação e Amortização 88.946
(-) Despesas Operacionais 250.700
(=) Lucro Operacional 182.414
(-) Despesas Financerias 107.399
(=) Lucro Antes do Imposto de Renda 75.016
(-) IR e CSLL 25.505
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e o efetivo recebimento da venda a seus clientes. Quanto mais longo for esse prazo, maior será o investimento em giro demandado por sua operação. A figura 5 ilustra esses ciclos:
Figura 5: Ciclo Operacional e Ciclo de Caixa
Elaborado pelo autor
A partir da interação entre os Prazos Médios ilustrados na figura, é possível deduzir as seguintes expressões:
ܥ݈݅ܿ ܱ݁ݎ݈ܽܿ݅݊ܽ = ܲܯܧ + ܲܯܴ (8)
ܥ݈݅ܿ ݀݁ ܥܽ݅ݔܽ = ܥ݈݅ܿ ܱ݁ݎ݈ܽܿ݅݊ܽ − ܲܯܲ = ܲܯܧ + ܲܯܴ − ܲܯܲ (9)
Novamente, a comparação com a média setorial é necessária para a qualificação dos prazos apresentados pela empresa. Setores de grande investimento em capital, como a construção civil, demandarão longos prazos de caixa e operacional, ao passo que empresas prestadoras de serviço, por não acumularem estoques e não comercializarem bens de alto valor de face, terão ciclos normalmente bastante reduzidos.
Caso Ilustrativo: O Ciclo de Caixa e o Ciclo Operacional da Erald S.A.
Utilizando os prazos médios da empresa calculados anteriormente, determine o ciclo de caixa e o
Compra da Matéria Prima a prazo
Venda do produto acabado a prazo
Pagamento da compra pelo cliente
Ciclo Operacional
Ciclo de Caixa
PME PMR
PMP
Para saber mais sobre os indicadores financeiros de diferentes setores
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Os indicadores setoriais estão disponíveis em:
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MBA GESTÃO ESTRATMBA GESTÃO ESTRATÉGICAÉGICA a) Erald: Ciclo Operacional = 68 + 30 = 98 dias
Ciclo de Caixa = 98 – 23 = 75 dias
b) Setor: Ciclo Operacional = 72 + 35 = 107 dias Ciclo de Caixa = 107 – 20 = 87 dias
A empresa encontra-se em situação financeira mais confortável que a média do setor, pois precisa financiar suas operações (investimento em capital de giro) por menos tempo.
REFERÊNCIAS
BERK, J.; DEMARZO, P. Finanças Empresariais. Porto Alegre: Bookman, 2009.
FLEURIET, M.; KEHDY, R.; BLANC, G. O Modelo Fleuriet. A dinâmica financeira das empresas brasileiras. Rio de Janeiro. Editora Campus, 2003
GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12ª ed. São Paulo. Editora Pearson, 2010 HELFERT, E. A. Técnicas de Análise Financeira: um guia prático para medir o desempenho dos negócios. 9 ed. Porto Alegre: Bookman, 2000
MBA GESTÃO ESTRATÉGICAMBA GESTÃO ESTRATÉGICA UNIDADE 3:ANÁLISE DINÂMICA DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS
A análise dinâmica das demonstrações financeiras é de grande importância no acompanhamento da situação econômica da empresa, pois apresenta uma visão mais aprofundada da saúde financeira empresarial do que a análise clássica de liquidez. Inicaremos esse capítulo apresentando um exemplo ilustrativo.
Na figura abaixo são apresentadas as contas circulantes de duas empresas pertencentes ao mesmo setor. Ambas apresentaram vendas de $ 1.000.000 e um custo do produto vendido de $ 600.000. Com base nessas informações, determine a liquidez corrente e seca e os índices de atividade e avalie qual das empresas apresenta a melhor situação financeira de curto prazo.
Conforme o exposto na unidade anterior, os índices de liquidez serão os seguintes: Empresa A: Liquidez Corrente = 125.000 / 120.000 = 1,04
Liquidez Seca = (125.000 – 45.000) / 120.000 = 0,67
Empresa B: Liquidez Corrente = 120.000 / 90.000 = 1,33 Liquidez Seca = (120.000 – 55.000) / 90.000 = 0,72
Como a Empresa B apresentou índices de liquidez superiores, concluímos que sua situação financeira é superior ao da empresa A. Analisemos agora os índices de atividade.
Empresa A: PME = 45.000 x 360 / 600.000 = 27 dias
Empresa A Empresa B Ativo Circulante 125.000 120.000 Caixa 5.000 2.000 Aplicações Financeiras 55.000 18.000 Contas a Receber 20.000 45.000 Estoques 45.000 55.000 Passivo Circulante 120.000 90.000 Empréstimos 15.000 40.000 Fornecedores 50.000 25.000 Salários a pagar 30.000 10.000
MBA GESTÃO ESTRATMBA GESTÃO ESTRATÉGICAÉGICA PMP = 50.000 x 360 / 600.000 = 30 dias
Ciclo de Caixa = 27 + 7 – 30 = 4 dias
Empresa B: PME = 55.000 x 360 / 600.000 = 33 dias PMR = 45.000 x 360 / 1.000.000 = 16 dias PMP = 25.000 x 360 / 600.000 = 15 dias Ciclo de Caixa = 33 + 16 – 15 = 34 dias
Como a empresa B leva mais tempo para produzir, vender e receber a venda de seus produtos, ao passo que apresenta menor prazo de pagamento junto a seus fornecedores seu Ciclo de Caixa mostra-se muito superior que o da empresa A, o que indica uma situação financeira de maior fragilidade. Assim, enquanto os índices de liquidez indicam que a empresa B possui maior solidez financeira, os índices de Atividade apontam para a empresa A. Por que tais resultados são contraditórios? Como avaliar qual empresa realmente apresenta a melhor situação financeira? A análise dinâmica dos demonstrativos financeiros fornece resposta a essas perguntas
PARTE 1:NECESSIDADE DE CAPITAL DE GIRO E SALDO DE TESOURARIA
Em muitas circunstâncias, a classificação tradicional das contas de curto prazo do balanço se mostra inadequada para uma análise dinâmica da situação econômico-financeira da empresa, fazendo com que certos indicadores contábeis se mostrem inadequados na mensuração da saúde financeira empresarial. Isso ocorre porque certas contas do ativo circulante como os Estoques e o Contas a Receber representam uma aplicação permanente de recursos da empresa. Assim, aumentos sucessivos nessas contas implicam necessariamente na diminuição do caixa gerado pela empresa (ver Unidade 1), podendo prejudicar sua situação financeira quando esse aumento é pronunciado.
Por outro lado, as contas de curso prazo do passivo representam uma fonte de financiamento empresarial que, quando administrada em patamares razoáveis, aliviam a demanda por capital para a manutenção das operações da empresa e aumentam a geração de caixa operacional. Incrementos na conta de Fornecedores, por exemplo, representa um aumento no prazo médio de pagamento que a empresa negocia com seus fornecedores, diminuindo o tempo no qual a empresa deve financiar o seu ciclo de caixa. Algo análogo ocorre com as contas de Salários ou Impostos. Como tais pagamentos são feitos após a operação que o gerou (afinal, o funcionário recebe após o respectivo mês de
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trabalho, e o imposto é recolhido no mês subsequente à venda), os mesmos “aliviam” o ciclo de caixa da empresa, pois permitem a ela receber a venda antes mesmo de ter que pagar os envolvidos nesse processo (fornecedores, funcionários ou governo), ou, na pior das hipóteses, evita pagar aos envolvidos muito antes do recebimento da venda efetivada.
Dessa forma, percebemos que certas contas do passivo circulante diminuem a necessidade de investimento em capital de giro (ciclo de caixa) ao passo que outras contas do ativo de curto prazo aumentam essa necessidade. No entanto, os índices clássicos de liquidez dão um tratamento contrário a essas contas, visto que níveis altos da conta Fornecedores, por exemplo, irão prejudicar o indicador, ao passo que valores representativos da conta de Estoque ou do Contas a Receber irão beneficiar o índice.
O Modelo Dinâmico de Análise de Empresas, também conhecido por Modelo Fleuriet busca tratar dessa questão ao propor um modelo que reclassifica as contas de curto prazo da empresa, de acordo com o ciclo operacional dela. Assim, as contas de curto prazo são reclassificadas em 2 grupos:
a. Contas Operacionais (ou cíclicas): neste grupo são reunidas aquelas contas diretamente relacionadas com o ciclo de atividade da empresa. Ex.: contas a pagar, estoques, fornecedores, salários, etc.
b. Contas de Tesouraria (ou erráticas): aquelas que não estão diretamente relacionadas com a operação da empresa. Ex.: caixa, aplicações financeiras, empréstimos, etc.
Estas contas são então agrupadas, sendo que a inter-relação entre as contas do ativo e do passivo dão origem a dois conceitos fundamentais para esse modelo: a Necessidade do Capital de Giro e o Saldo de Tesouraria.
Necessidade de Capital de Giro
Como se deduz de seu nome, a Necessidade de Capital de Giro (NCG) busca mensurar a demanda que a empresa apresenta de investimento em seu giro operacional. Empresas com alta NCG indicam que sua operação necessita de um alto volume de financiamento em suas operações seja por recursos próprios, seja por recursos de terceiros. Tais empresas apresentam um descompasso entre o prazo de pagamento com os fornecedores e o prazo de produção, venda e recebimento de seus clientes,
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necessitando que, nesse ínterim, suas atividades sejam financiadas de alguma forma. Assim, tem-se que valores altos e crescentes da NCG normalmente estarão associados a prazos longos e crescentes do Ciclo de Caixa. Ela é determinada da seguinte forma:
ܰܥܩ = ܣݐ݅ݒ ܱ݁ݎ݈ܽܿ݅݊ܽ − ܲܽݏݏ݅ݒ ܱ݁ݎ݈ܽܿ݅݊ܽ (10)
Quanto maiores os valores do Contas a Receber e dos Estoques, por exemplo (ambos classificados como Ativos Operacionais pela definição acima), em relação à conta de Fornecedores (passivo operacional), maior será o descasamento entre os prazos de Estoque-Recebimento e o prazo de Pagamento, implicando em maior necessidade de financiamento de suas atividades (NCG). Evidentemente, a NCG depende em grande medida do setor ao qual a empresa se insere. Empresas de bens duráveis, como construtoras, demandarão alta necessidade de financiamento de seu giro em virtude de seu longo ciclo operacional. Da mesma forma, empresas varejistas em geral também apresentarão uma NCG alta, pois precisam manter níveis mínimos de estoques de produto acabado para evitar perdas em suas vendas. Por outro lado, será comum que empresas prestadoras de serviço apresentem baixos valores de NCG, visto que seus estoques são comumente irrisórios.
Saldo de Tesouraria
As demais contas não classificadas como operacionais no circulante, são então reunidas no grupo “Tesouraria”. De forma análoga ao que ocorre na NCG, o Saldo de Tesouraria será determinado pela diferença entre as respectivas contas do Ativo e Passivo, conforme a expressão abaixo:
݈ܵܽ݀ ݀݁ ܶ݁ݏݑݎܽݎ݅ܽ = ܣݐ݅ݒ ݀݁ ܶ݁ݏݑݎܽݎ݅ܽ − ܲܽݏݏ݅ݒ ݀݁ ܶ݁ݏݑݎܽݎ݅ܽ (11)
Valores altos e/ou crescentes do Saldo de Tesouraria indicam que a empresa vem apresentando um acúmulo de recursos próprios (caixa e aplicações financeiras) em relação a recursos de terceiros (empréstimos e financiamentos no curto prazo), representando uma melhoria de sua saúde financeira. Por outro lado, valores negativos desse saldo indicam que a empresa apresenta uma demanda
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crescente por recursos de terceiros no curto prazo, e um consequente aumento de sua fragilidade financeira.
A associação entre esses conceitos (Necessidade de Capital de Giro e Saldo de Tesouraria) permite uma visão dinâmica da evolução financeira das operações da empresa. Assim, valores altos de NCG não seriam preocupantes, desde que lastreados por saldos positivos na Tesouraria. Por outro lado, quando associados a saldos negativos na tesouraria, significam que a empresa financia sua atividade com capital de terceiros. Quando tais demandas (de giro e de empréstimo de curto prazo) são crescentes, tem-se uma empresa a caminho da insolvência. De maneira análoga, uma NCG pequena, indica que a empresa possui um ciclo de caixa desafogado, permitindo um baixo investimento em suas operações. Quando negativa, demonstra que ela não necessita buscar recursos para financiar suas operações, pois as mesmas são financiadas pelos fornecedores.
Voltando ao exemplo que abriu a unidade, as contas circulantes seriam reclassificadas conforme a figura abaixo:
E, da reclassificação, teríamos que: Empresa A: NCG = (20.000 + 45.000) – (50.000 + 30.000 + 25.000) = - 40.000 Tesouraria = (5.000 + 55.000) – (15.000) = + 45.000 Empresa B: NCG = (45.000 + 55.000) – (25.000 + 10.000 + 15.000) = + 50.000 Tesouraria = (2.000 + 18.000) – (40.000) = - 25.000 Empresa A Empresa B Ativo Circulante 125,000 120,000 Caixa 5,000 2,000 Tesouraria Aplicações Financeiras 55,000 18,000 Contas a Receber 20,000 45,000 Estoques 45,000 55,000 Passivo Circulante 120,000 90,000 Empréstimos 15,000 40,000 Fornecedores 50,000 25,000 Operacional Salários a pagar 30,000 10,000
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A empresa A apresenta confortável situação financeira, pois não demanda nenhum investimento em suas operações, dado ter uma NCG negativa, o que a permite acumular em tesouraria todo o resultado operacional. Já a empresa B apresenta dificuldade financeira, pois sua necessidade de investimento em giro (NCG > 0) é financiada com empréstimos (Tesouraria < 0). Tais resultados mostram-se consistentes com o comportamento de seus indicadores de atividade.
Caso Ilustrativo: Análise Dinâmica do Balanço da Erald S.A.
Reclassifique as contas de curto prazo da Erald S.A de acordo com o modelo de análise dinâmica e avalie sua situação financeira de curto prazo.
Contas Operacionais: Contas a Receber e Estoques (no Ativo Circulante) e Fornecedores, Salários a pagar e Impostos a pagar (no Passivo Circulante).
Contas de Tesouraria: Caixa e Aplicações Financeiras (no Ativo Circulante) e Empréstimos e Financiamentos (no Passivo Circulante).
Assim, teremos que:
Em 2014: NCG = (80.500 + 104.500) – (49.500 + 21.070 + 15.880) = 98.550 Tesouraria = (19.410 + 49.590) – (34.270) = 34.730 Em 2015: NCG = (124.100 + 140.900) – (47.500 + 23.500 + 17.850) = 176.050 Tesouraria = (16.590 + 39.455) – (58.760) = - 2.715
BALANÇO PATRIMONIAL - Erald S.A. 2.015 2.014
Ativo Circulante 321.045 254.000 Caixa 16.590 19.410 Aplicações Financeiras 39.455 49.590 Contas a receber 124.100 80.500 Estoques 140.900 104.500 Passivo Circulante 147.710 120.720 Empréstimos e Financiamentos 58.760 34.270 Fornecedores 47.600 49.500 Salários a pagar 23.500 21.070 Impostos a pagar 17.850 15.880
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Os resultados demonstram que a empresa piorou substancialmente sua situação financeira de curto prazo, pois ela aumentou a necessidade de financiar suas operações (aumento do NCG em quase 80%) no período. No entanto, essa necessidade não foi acompanhada de uma geração de caixa em igual proporção. Com isso, a empresa se viu obrigada a financiar sua operação com recursos de terceiros - veja o aumento substancial em empréstimos de curto prazo – levando o seu saldo de tesouraria a patamares negativos. Caso a empresa não reaja a essa situação, em pouco tempo poderá apresentar problemas severos de solvência.
PARTE 2:AUTOFINANCIAMENTO E CICLO FINANCEIRO
Em termos gerais, a situação mais comum encontrada nas empresas é a ocorrência de uma Necessidade de Capital de Giro positiva, pois o usual é que o Ciclo Operacional (lembrando, o prazo entre adquirir, produzir, vender e receber a venda) seja superior ao prazo que a mesma negocia com seus clientes. Como a NCG está diretamente relacionada às atividades que a empresa exerce, é natural que ela apresente uma NCG crescente à medida que suas vendas cresçam. Tal comportamento não representa, por si mesmo, nenhum indicativo de turbulência financeira, desde que tal aumento seja acompanhado por uma geração de caixa coerente. Neste contexto, cabe o seguinte questionamento: como avaliar se o crescimento da NCG decorrente de sua expansão operacional é sustentável, isto é, não irá prejudicar sua saúde financeira de curto prazo? A resposta a essa pergunta é de fundamental importância, principalmente em vista de organizações, ou unidades de negócios em fase de crescimento. A comparação entre as taxas de autofinanciamento e o ciclo financeiro auxilia a elucidar essa questão.
Taxa de Autofinanciamento e Ciclo Financeiro
O termo autofinanciamento aqui empregado refere-se à capacidade que a empresa demonstra de gerar caixa a partir de suas atividades operacionais. Em vista desse objetivo, o autofinanciamento assume expressão quase idêntica ao do fluxo de caixa operacional apresentado na Unidade 1, sendo, portanto, calculado da seguinte forma: