RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 109949-79.2013.8.09.0000 (201391099494)
COMARCA DE APARECIDA DE GOIÂNIA
RECORRENTE AMILTON DA SILVA
RECORRIDO MINISTÉRIO PÚBLICO
RELATOR DES. ITANEY FRANCISCO CAMPOS
“RECURSO EM SENTIDO ESTRITO. ROUBO CIRCUNSTANCIADO PELO EMPREGO DE ARMA. ESTUPRO. INTIMAÇÃO DA SENTENÇA PENAL CONDENATÓRIA. CARGA DO AUTOS
PELO ADVOGADO CONSTITUÍDO.
PUBLICAÇÃO NA IMPRENSA OFICIAL DE EXPEDIENTE CONTENDO O NOME DO
DEFENSOR. CIÊNCIA INEQUÍVOCA.
INTEMPESTIVIDADE CONFIRMADA. A carga dos autos feita por advogado constituído pelo réu, após a prolação da sentença penal condenatória, consiste em ato idôneo e inequívoco da sua ciência a respeito do ato judicial praticado, ainda mais se, anteriormente a isso, foi publicado expediente na imprensa oficial que continha seu nome, mesmo sem ser ainda formalmente o defensor do sentenciado. A interposição de Embargos de Declaração após o prazo previsto em Lei, mesmo se considerada a eventualidade de serem recebidos como Apelação Criminal, impõe o não conhecimento da insurgência. RECURSO
IMPROVIDO.
A C Ó R D Ã O
VISTOS, relatados e discutidos os presentes autos
de Recurso Em Sentido Estrito nº 109949-79.2013 (201391099494), Comarca de Aparecida de Goiânia, em que é Recorrente Amilton da Silva e Recorrido o Ministério Público.
ACORDAM os integrantes da Primeira Turma
Julgadora da Primeira Câmara Criminal do egrégio Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, por unanimidade de votos, acolhendo o parecer da Procuradoria-Geral de Justiça, em conhecer do recurso, mas negar-lhe
provimento, nos termos do voto do Relator.
VOTARAM, além do Relator, os
Desembargadores Ivo Fávaro, que presidiu o julgamento e J. Paganucci Jr. Presente o ilustre Procurador de Justiça, Doutor Nilo Mendes Guimarães.
Goiânia, 03 de dezembro de 2013.
DES. ITANEY FRANCISCO CAMPOS RELATOR
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 109949-79.2013.8.09.0000 (201391099494)
COMARCA DE APARECIDA DE GOIÂNIA RECORRENTE AMILTON DA SILVA RECORRIDO MINISTÉRIO PÚBLICO
RELATOR DES. ITANEY FRANCISCO CAMPOS
RELATÓRIO
A defesa do réu Amilton da Silva interpôs, na data de 5 de outubro de 2012, Recurso em Sentido Estrito (fls. 163-170), contra decisão proferida pela MM. Juíza de Direito em auxílio, Dra. Luciana Cristina Duarte dos Santos, da Terceira Vara Criminal da Comarca de Aparecida de Goiânia-GO (fls. 88-90), que não conheceu dos Embargos de Declaração (fls. 65-82) opostos à sentença penal (fls. 2-36), a qual condenou o acusado a 12 anos e 4 meses de reclusão, em regime inicial fechado, com 13 dias-multa, pela prática, em concurso material (art. 69, CP), dos crimes de roubo circunstanciado pelo emprego de arma (art. 157, parágrafo 2º, I, CP) e de estupro (art. 213, CP).
Concomitantemente à interposição do Recurso em Sentido Estrito, a defesa manejou Carta Testemunhável (fls. 100-102), seguida de razões de Apelação Criminal (fls. 104-126).
Tanto nas razões do Recurso em Sentido Estrito, quanto nas da Carta Testemunhável, os defensores Julierme Francisco
Maciel e José Roberto Baccin Neto, inscritos na OAB sob o nº 33.978 e nº 32.572, respectivamente, aduziram que o fato desse primeiro advogado nominado ter feito carga dos autos, após a prolação da sentença penal condenatória, não pode ser considerado como intimação desse ato judicial, uma vez que se estaria criando uma espécie de comunicação ficta.
Sustentaram que a contingência de o nome daquele primeiro defensor haver sido incluído no expediente que circulou na imprensa oficial, relativo à publicação da sentença penal condenatória, consiste em equívoco dos auxiliares do juízo, por conta de que àquela época ele ainda não havia sido constituído pelo réu, o que aconteceu somente posteriormente à circulação.
Requerem a reforma da decisão impugnada, a fim de que seja restituído o prazo para o oferecimento das razões recursais da Apelação, ou de que as razões já apresentadas sejam devidamente processualizadas.
Em juízo de retratação realizado antes da apresentação das contrarrazões, a autoridade judiciária admitiu o Recurso em Sentido Estrito, manteve a decisão denegatória de seguimento dos Embargos de Declaração e não conheceu da Carta Testemunhável, em virtude de que aquela primeira espécie de insurgência já havia sido conhecida.
Justiça, dos quais constavam a Apelação Criminal interposta por outro réu também condenado na sentença penal e o presente Recurso em Sentido Estrito, determinei que fosse feito o traslado dos documentos constantes desde às fls. 250 até às fls. 511, os quais formariam o instrumento deste Recurso em Sentido Estrito, com o propósito de respeitar as distintas tramitações daquela Apelação Criminal e deste Recurso. A diligência foi cumprida.
Nas contrarrazões, a Segunda Promotoria de Justiça da Comarca de Aparecida de Goiânia-GO se pronunciou pelo improvimento do recurso.
A Procuradoria de Justiça, por intermédio do Dr. Leonidas Bueno Brito, também se manifestou pelo improvimento da insurgência.
É o Relatório.
VOTO
Em exercício do juízo de admissibilidade, considero atendidas as exigências legais, de sorte que conheço do Recurso em Sentido Estrito e passo a apreciar a matéria nele impugnada.
A questão colocada na insurgência consiste no requerimento de reforma da decisão que não conheceu dos Embargos
de Declaração (fls. 65-82) opostos à sentença penal (fls. 2-36), a qual condenou o acusado a 12 anos e 4 meses de reclusão, em regime inicial fechado, com 13 dias-multa, pela prática, em concurso material (art. 69, CP), dos crimes de roubo circunstanciado pelo emprego de arma (art. 157, parágrafo 2º, I, CP) e de estupro (art. 213, CP).
O argumento central com que se busca a reforma diz respeito a que o fato de o advogado constituído pelo réu ter feito carga dos autos, após a prolação da sentença penal condenatória, não pode ser considerado como intimação desse ato judicial, uma vez que se estaria criando uma espécie de comunicação ficta.
A alegação subsidiária é a de que a contingência de o nome do defensor escolhido pelo acusado haver sido incluído no expediente que circulou na imprensa oficial, relativo à publicação da sentença penal condenatória, consiste em equívoco dos auxiliares do juízo, por conta de que àquela época ele ainda não havia sido constituído pelo sentenciado, o que aconteceu somente posteriormente à circulação.
Mas a formulação, contextualizada que seja com os documentos formadores dos autos, não merece acolhida.
É da praxe forense e da exegese jurisprudencial considerar a carga dos autos, pelo advogado constituído pelo réu, como meio idôneo e inequívoco de sua ciência, não só do último ato judicial porventura praticado, no caso concreto, a sentença penal condenatória, mas de tudo o quanto eventualmente houvera se passado durante o
procedimento penal.
Esse meio de se comunicar a realização de atos processuais tanto é idôneo e inequívoco, que o próprio recurso que ora se examina foi interposto após a serventia do juízo fazer carga do autos ao defensor constituído pelo réu, supervenientemente à decisão que não conheceu dos Embargos de Declaração, de acordo com o que se infere das fls. 98. Nessa situação, o advogado levou os autos no dia 4 de outubro de 2012 e manejou o recurso no dia seguinte (5 de outubro de 2012).
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e deste Colegiado exprime de forma coesa essa compreensão. Como demonstrativo da predominância dessa intelecção nos Tribunais, transcrevo os seguintes precedentes:
“CRIMINAL. HABEAS CORPUS. CONCESSÃO DE LIBERDADE AO RÉU. PLEITO NÃO DEBATIDO NO TRIBUNAL A QUO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. SENTENÇA
CONDENATÓRIA. RÉU INTIMADO
PESSOALMENTE. DEFENSOR INTIMADO MEDIANTE CARGA DOS AUTOS. NULIDADE PROCESSUAL. INOCORRÊNCIA. ORDEM PARCIALMENTE CONHECIDA E DENEGADA. I. Sobressai a incompetência deste Superior Tribunal de Justiça para a análise do pedido de concessão de
liberdade ao réu, pois este tema não foi objeto de debate e decisão pelo Tribunal a quo, ao analisar o habeas corpus ali impetrado, sob pena de indevida supressão de instância. Precedentes. II. O paciente foi pessoalmente intimado do teor da sentença condenatória, nos termos do art. 392, inciso I do Código de Processo Penal. E o defensor constituído pelo réu fez carga dos autos, oportunidade em que teve
conhecimento da sentença
condenatória, não havendo falar em posterior intimação pessoal para tanto. III. A ausência de interposição de eventual recurso não pode ser indicada como decorrente da ausência de intimação da defesa sobre a sentença condenatória - ora colocada como causa de nulidade processual -, mas sim imputada à defesa. IV. Ordem parcialmente conhecida e, nesta parte, denegada.” (STJ, Quinta Turma, HC 200506 / MS, Rel. Min. Gilson Dipp, j. 14-8-2012, DJe 20-8-2012)
APELAÇÃO INTEMPESTIVA. INÍCIO DA CONTAGEM DO PRAZO. CARGA DOS AUTOS AO DEFENSOR. CIÊNCIA INEQUÍVOCA. DECISÃO MANTIDA. 1 - O prazo para interposição da Apelação poderá iniciar da carga dos autos ao defensor, oportunidade em que, de forma inequívoca, ele toma ciência da sentença condenatória. 2 - Mantém-se a decisão que deixa de receber Apelo intempestivo. Recurso desprovido.” (TJGO, Primeira Câmara
Criminal, ApCrim 449912-27.2010.8.09.0129,
Rel. Des. Ivo Fávaro, DJ 1069 de 25-5-2012)
“APELAÇÃO CRIMINAL. RECURSO
INTEMPESTIVO. CARGA DOS AUTOS. EFETIVA CIÊNCIA DO ADVOGADO. É intempestivo o recurso apelatório que não observa o prazo assinalado pelo art. 593, do Código de Processo Penal, para a interposição, contado da última comunicação processual da
resposta penal desfavorável,
considerada a efetiva ciência do advogado a partir da carga dos autos, dispensando, para a certificação da data do ato
intimatório, a publicação da sentença condenatória na imprensa oficial, dele ausentando pressuposto objetivo de admissibilidade, matéria de ordem pública que não reclama suscitação da contraparte, pelo que não merece conhecido, negando-lhe trânsito pelo grau revisor, impedindo, assim, a avaliação do seu mérito. APELO NÃO CONHECIDO.” (TJGO, Segunda Câmara Criminal, ApCrim 339944-73.2008.8.09.0051, Rel. Dr. Jairo Ferreira Júnior, DJ 1392 de 23-9-2013)
No caso em julgamento, consta às fls. 64, que o advogado, Dr. Julierme Francisco Maciel, fez carga dos autos na data de 10 de setembro de 2012, mas somente interpôs os Embargos de Declaração em 18 de setembro de 2012.
Seguindo a linha de entendimento da autoridade judiciária dirigente do processo, nem mesmo se a insurgência fosse eventualmente admitida como Apelação Criminal e, daí, se constasse o prazo de cinco dias, mais extenso do que os dois dias estabelecidos para aquela peculiar espécie recursal, a interposição seria intempestiva, pois o intervalo, nessa hipótese, se exauriria dia 17 de setembro de 2012.
Além disso, no expediente de publicação na imprensa oficial da sentença penal condenatória, datado de 30 de agosto
de 2012 (fls. 87), constou o nome daquele douto defensor, embora ainda não estivesse formalmente regularizada a sua constituição como defensor do réu, pois ainda não havia juntado a procuração nos autos.
De todo modo, se me afigura clara a conclusão de que, materialmente, o defensor do réu foi intimado duas vezes da sentença penal condenatória.
Porém, mesmo considerando dois marcos inaugurais do intervalo que a defesa deveria observar, em nenhuma das duas situações o recurso de Embargos de Declaração é tempestivo.
Portanto, é de se reconhecer que a sentença penal condenatória transitou em julgado para o réu Amilton da Silva, quanto mais porque o próprio sentenciado foi cientificado do ato em 4 de setembro de 2012 (fls. 85), seis dias antes de seu procurador.
Com essas considerações, acolhendo o parecer da Procuradoria de Justiça, nego provimento ao recurso.
É como voto.
Goiânia, 03 de dezembro de 2013.
DES. ITANEY FRANCISCO CAMPOS RELATOR