o autor. JUAREZ ESTEV AM XA VIER TA VARES, Procurador Regional da Rl:púhlíca. além de mestre e doutor em Direito. é consagrado professor univer-sitário. kcional1lio. como titular da cadeira de DireHo Penal. no curso de mestrado e limJtOfado em Direito da Universidade GaJ11d Filho e no curso de graduação da Es-cola de Ciências Jurídicas lla Universidade do Ri o ele Janeiro. Foi pesquisador
cil:ntífi-li)no Institulo Max-Planck para Direito Pe-na] ESlrangeiro e Internacional (Alemanha) c pro rcssor convidacio da cadeira de Direito Pena] de W.Hassemer na Universidade de FrankfurL Integra ainda o quadro docente da Esco]a Superior ele Advocacia da Ordem dl)s Alhogmlos do Brasil. Seção do RIO lir.: .I;lneiro e é proCessm convidado do Curso dc P()s-Graduação ele Direito Penal da Uni-vnsielade de Buenos Aires. Faz parte. ade-111'11S. conw memhro detivo. da Comissão de Rcll1fm,l do C(ldigll Penal Brasileiro.
Delllrc suas ohras, cumpre-se des-tacar Teorias do Deliro. que mereceu
inclu-SI\'C. com trallllção ao castelhano, edição argenlina c DireifO Penol do Negligência,
LJuc trala da temia do delito culposo, além de vários artigos em revistas especializadas. São igualmente de sua autoria as segui11les lr,lduçfJes Johannes Wessels - Direito Penal. Pane Gna] (de) llriginal Alemão), MuFioz Conde - Teoria Geral eloDelito (em colabo-laçJ.o com Luiz Regis Prado) e Eugênio Rau] Zaffaroni - Poder Judiciário.
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AS CONTROVÉRSIAS
EM TORNO DOS
CRIMES OMISSIVOS
INSTITUTO LATINO-AMERICANO DE COOPERAÇÃO PENAL
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, -INSTITUTO LATINO-AMERICANODE
COOPERAÇÃO PENAL AV.GRAÇA ARANHA, 416 - S/301 RIo DE JANEIRO - RJ - 20030-0001 lH.: 262-3515 / FAX.: 533-7300Escrito em homenagem aos professores portugueses Paulo de Sousa Mendes e Teresa Serra, amigos e antigos colegas no Instituto Max-Planck
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Conselho Editorial:
C
Professores Benigno Rojas Via, Eugenio Raúl
Zaffaroni, Juarez Tavares, Joaquín Pedro da Rocha, ~
Jorge Vázquez Rossi, Luiz Regis Prado, Monica :2
Cuiíarro, Raúl Cervini, Sergio do Rego Macedo e Técio
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Uns e Silva.
Capa: Nana Gouvêa
Diagramação: Marcos do Nascimento Rocha Revisor: Antonio Augusto de Carvalho Junior
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, foto-gráficos, reprofoto-gráficos, fonofoto-gráficos, videográficos. Vedada a memorização e/ou a recuperação total ou parcial bem como a inclusão de qualquer parte desta obra em qualquer sistema de processamento de dados. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art.184 e parágrafos, do Código Penal, cf. leis 6.895, de 17.12.80 e 8.635, de 16.3.93) com pena de prisão e multa, conjuntamente com busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 122, 123, 124, 126, da lei 5.988, de 14.12,73, Lei dos Direitos Autorais).
Impresso no Brasil( 05/96 ) ISBN .: 85-86178-01-2 1.INTRODUÇÃO _ 2. OS CASOS PRÁTICOS _ 3. O INTERESSE DO TEMA _ 4. A TAREFA INICIAL _ 5. A TEORIA CAUSAL _ 6.A CONTROVÉRSIA DA CAUSALIDADE _
7.BELING E SEUS ANTECESSORES _
8.AS CONTROVÉRSIAS NA TEORIA DA AÇÃO _
9.A TEORIA NEGA TIV A DE AÇÃO _
10. A TEORIA PERSONALISTA DE AÇÃO _
11. A VALORAÇÃO DA OMISSÃO E SEU SUBSTRA TO
SOCIAL _
12. CRIMES OMISSIVOS E COMISSIVOS _
13. AÇÃO E OMISSÃO NA ESTRUTURA NORMATIVA __
14. CRITÉRIOS DE DIFERENCIAÇÃO _
14.1. CRITÉRIO DA ENERGIA _
14.2. CRITÉRIO DA CAUSALIDADE _
14.3.CRITÉRIO DE SIEBER _
14.4. CRITÉRIO DO PONTO DE GRAVIDADE DA
CONDUTA _
14.5. CRÍTICA E OpçÃO DOUTRINÁRIA _
15. A REABILITAÇÃO DA C AUSALIDADE _
16. A CONTROVÉRSIA DA TEORIA DA CONDIÇÃO _
17.APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA CAUSALIDADE
À OMISSÃO _
18. CAUSALIDADE E INCREMENTO DO RISCO _
19. O CRITÉRIO AXIOLÓGICO _
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51 52 56 57 606 TAV ARES - CRIMES OMISSIVOS TAV ARES - CRIMES OMISSIVOS 91 92 93 94 95 95
20.CRIMES OMISSIVOS PRÓPRIOS E IMPRÓPRIOS
---
61 20.1. A CLASSIFICAÇÃO TRIPARTIDA 61 20.2. A CLASSIFICAÇÃO BIPARTIDA 6220.3. CRITÉRIOS DE DIFERENCIAÇÃO 63
20.3.1. CRITÉRIO DO SUJEITO
---
63 20.3.2. CRITÉRIO DA PREVISÃO LEGAL 6321. CRIMES OMISSIVOS IMPRÓPRIOS 64
22. A POSIÇÃO DE GARANTIDOR 66
23. ADELIMITAÇÃOLEGAL 70
23.1. O PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
---
7023.2. O CRITÉRIO NORMATIVO . 72
24. O TIPO DOS DELITOS OMISSÍVOS
---
7424.1. AINAÇÃO 74
24.2. A REAL POSSIBILIDADEDEATUAR 75 24.3. A SITUAÇÃO TÍPICA OMISSIV A 77
24.4. ODEVERDEIMPEDIRORESULTADO 78
25. A CLÁUSULA DA EQUIVALÊNCIA
---
7926. A SOLUÇÃO DOS CASOS 82
27. CONCURSO DE PESSOAS E TENTATIV A 85
27.1. CONCURSODEPESSOAS 85
27.2. TENTATIVA
---
8927.2.1. CRIMES OMISSIVOS PRÓPRIOS
---
8927.2.2. A TEORIA FORMAL-OBJETIVA 89
27.2.3. A TEORIA MATERIAL-OBJETIVA
---
90 27.2.4. EXEMPLO NOS CRIMES COMISSIVOS----
9127.2.5. CRÍTICA
---27.2.6. CRIMES QUALIFICADOS _
27.2.7. CRIMES OMISSIVOS IMPRÓPRIOS _ 27.2.8. TENTATIVA ACABADA E INACABADA _
28. DOLO E ERRO _ 28.1. OS ELEMENTOS DO DOLO _ 28.2. OS OBJETOS DE REFERÊNCIA DA REPRESENTAÇÃO 96 28.3.,OERRODETIPO 98 28.4. OERRODEMANDATO 98
29. A INEXIGIBILlDADE DE CONDUTA DIVERSA 100
1.INTRODUÇÃO
1.1. O Código Penal brasileiro prevê no art. 318 o crime de facilitação de contrabando ou descaminho, cuja ação está assim descrita: "Facilitar, com infração
de dever funcional, a prática de contrabando ou des-caminho".
Embora seja um antigo delito funcional, a artáli-se do respectivo tipo pode gerar, entretanto, alguma perplexidade, sugerindo, como primeira assertiva, aquilo que a· doutrina brasileira, desde NELSON HUNGRIA,e sem qualquer outra preocupação, vem admitindo, que o delito possa ser praticado por ação ou por omissão1. Mas esta simples afirmativa, ainda que correta, não esgota o âmbito da investigação típica. Se praticado por omissão, podemos, por exemplo, em se-guida perguntar: trata-se de crime omissivo próprio ou impróprio? Dadas as características do tipo legal, essa é uma pergunta para a qual não encontramos resposta à 1NELSON HUNGRIA - Comentários ao Código Penal, 1959, voI. IX, p. 374.
YJ primeira vista. Se concluirmos que é omissivo próprio,
imediatamente poderemos ser contestados para indicar
onde a lei se refere à omissão, isto é, onde se diz que o
crime consiste em omitir-se de taxar ou de investigar a mercadoria que entra no país. Se dissermos que se trata de crime omissivo impróprio, devemos também escla-recer acerca dos fundamentos do dever de garantidor. Por outro lado, a sua identificação, como crime omis-sivo próprio ou impróprio, não é produto de mera es-peculação doutrinária. Conforme se trate de um ou de outro caso, devem variar os pressupostos de sua pu-nibilidade. Daí que essa classificação mereça um tra-tamento mais específico do que poderia aparentar.
2. OS CASOS PRÁTICOS
Além de questões dessa ordem, que são comuns no trato judiciário, a vida cotidiana é extremamente rica de exemplos e de casos, aos quais a teoria jurídica muitas vezes não pode dar uma resposta satisfatória, porque ainda insuficientemente desenvolvida.
-Situemos alguns deles.
CASON° 1. Um guia alpinista convida umas pes-soas para fazerem uma excursão ao Pico da Bandeira. Nessa excursão, alguns morrem porque o alpinista não lhes dá a devida atenção, deixando de indicar o cami-nho mais adequado de subida. Uma vez iniciado o
pro-10 TAVARES - CRIMES OMISSIVOS TAVARES - CRIMES OMISSIVOS ~NIC.~
B. C.
1
cedimento criminal contra o alpinista, afirma este que, na realidade, não era ele um verdadeiro guia, já que não havia acordado com os demais de que os levaria sãos e salvos até o cume do morro, mas apenas havia-os convidado para tal aventura.
CASO
if
2. Fato semelhante ocorre com a pessoa que vai à praia com seu filho menor e, desejando re-frescar-se nas águas do mar, pede a alguém que está ao lado para dar uma olhada na criança, recebendo desse um rápido assentimento. Pois bem, enquanto a mãe dá seu mergulho, a criança corre, entra na água e morre afogada, porque a pessoa que deveria vigiá-Ia resolve dormir ao sol.CASON° 3. Dois irmãos, sem qualquer acordo prévio, estão nadando em águas profundas. Um deles, de repente, é acometido de cãibras e começa a afogar-se. O outro nada faz para ajudá-Io.
CASON°4. Em determinado edifício, observa-se defeito contínuo nos elevadores, a ponto de o ascenso-rista alertar o síndico para o problema, enfatizando que
alguém ali ainda fícaría preso, obtendo, no entanto,
como resposta de que tudo não passava de mera fanta-sia e que nada disso iria acontecer. Certo dia, um pro-fissional liberal, que possuía consultório no prédio, precisou trabalhar até mais tarde, vindo a deixar o serviço após 22:00 horas, quando no local apenas permanecia um vigia. Toma o elevador e este pára no
meio dos andares. Imediatamente, aciona o alarma e desperta o vigia. Este, contudo, apesar de sua boa vontade, não sabe como mover o elevador, nem como abrir suas portas. O profissional liberal pede-lhe, en-tão, que se comunique com o síndico pelo telefone da portaria, o que é feito. O síndico lhe diz, porém, que nada poderia fazer, que esperasse até o outro dia, de manhã, quando chegasse o ascensorista. Ademais, não poderia ir até o local, porque estaria de saída para uma festa.
,
. 3. O INTERESSE DO TEMA
Esses exemplos são simples e corriqueiros, mas sua análise sugere a prévia investigação acerca da es-trutura dos delitos omissivos, cujo complexo de fun-damentos distintos tem sido de certa forma relegado pela doutrina.
O tema dos delitos omissivos, na verdade, só passou a alcançar maior repercussão, quando, no art. 13, § 2° do CódÍgo Penal, o legislador brasileiro en-campou uma parte da elaboração doutrinária, inserindo nesse dispositivo as fontes do dever de garantidor, ou melhor, as fontes que fundamentam a posição de ga-rantidor. Desde então os juristas têm aguçado sua per-cepção na busca de soluções adequadas, ainda que não definitivas; às questões que daí decorrem, principal-mente acerca da parte omissiva dos crimes comissivos
e do perfeito equacionamento dos limites do dever de impedir o resultado, que expressam em certa medida os pontos centrais da investigação.
4. A TAREFA INICIAL
4.1. Mas, a primeira grande tarefa dos juristas, ao tratarem dos crimes omissivos, não se situa imedia-tamente na delimitação do dever de impedir o resulta-do, senão em determinar como se procede à diferenci-ação entre diferenci-ação e omissão. Esta é a tarefa inicial e de-cisiva. Afinal de contas, essa foi a preocupação de toda a doutrina do Direito Penal, desde que se formaram os sistemas da teoria do delito.
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4.2. Na evolução do conceito analítico de delito e tendo em vista a sua escassa incidência prática, a omissão não passava, inicialmente, de modalidade se-cundária de ação. Na realidade, o delito omissivo, como tal, só muito lentamente é que veio a despertar maior curiosidade de análise. O importante era a iden-tificação da ação positiva, da qual deveria resultar a omissão. Ainda que concebido como delito autônomo, os crimes omissivos só começaram a engendrar um re-gulamento próprio a partir do século XIX, quando se desperta a atenção à necessidade de uma regra geral da omissão. Antes disso, o problema se achava limitado ao exame de casos concretos, relativos aos delitos de
'( homicídio, infanticídio, omissão de socorro ou orms-são de comunicação de crime2.
A adoção de uma regra geral de omissão não de-corre, entretanto, de uma imposição legislativa, mas é fruto da evolução que se processa na teoria do delito, notadamente com a introdução do conceito de conduta, por parte de BERNER em 1857, que possibilitou a sepa-ração entre ação e punição, como conseqüência tardia da concepção hegeliana sustentada na culpabilidade de
vontade3. O ponto crucial dessa evolução foi traçado, porém, com o conceito de tipo, formulado por BELING,
o qual, superando as proposições da doutrina anterior, que se mostrava incapaz de diferenciá-Io da noção de conduta, possibilitou, ademais de outros efeitos, a con-secução de um conceito geral de ação, baseado no dogma causal4.
S.
A TEORIA CAUSALVê-se, portanto, que uma vez superada a questão da possibilidade de um conceito geral de ação, era na-tural que daí decorresse para a teoria causal uma difi-culdade ainda maior, que era a de estender o seu
con-2MEZGER- Tratado de Derecho Penal, tradução de Rodriguez Mufioz, 1955, vaI. 1, p. 19, nota 1.
3ROXIN- Strafrecht, Allgemeiner Teil, 2". edição, 1994, p. 180. 4ROXIN- Strafrecht, Allgemeiner Teil, 1994, p. 181.
14 TAV ARES - CRIMES OMISSIVOS TA V ARES - CRIMES OMISSIVOS 15
ceito de ação, tomada como causa de um resultado, à modalidade da omissão.
É
cediço que a teoria causal não formulou, a princípio, um conceito de ação no sentido de que, dire-tamente, se pudesse dizer que a ação fosse causa deum resultado. Há outros modos de expressar esse
con-ceito, de maneira indireta, mais literária, mas que no fundo significa a mesma coisa. O nosso saudoso
ANÍBAL BRUNO dizia que a ação constitui "um
compor-tamento humano voluntário que produz uma modifica-ção no mundo exterior"s. Igualmente, VON LISZT, um dos mais criativos penalistas de todos os tempos, con-ceituava ação como "a produção de uma modzficação
no mundo exterior, referenciada à vontade humana,,6.
Embora os enunciados se apresentem distintos, isto nada mais é do que a retratação de um procedimento causal que se desdobra, que se desenrola no mundo exterior e produz um acontecimento perceptível, que é o seu resultado. Se o que importa é o processo de pro-dução do resultado, a ação, que se identifica com esse processo, deve ser concebida como causa desse resul-tado. Como o conceito de ação serve de elemento pri-mário de ligação entre todos os elementos do delito, deve englobar também a omissão, a qual, é claro, de-veria da mesma forma ser vista nesse contexto como
"causa de um resultado".
5 Ao"1fBAL BRUNO- Direito Penal, Parte Geral, 1959, val. I,p.282. 6VONLlsZT- Lehrbuch des deutschen Strafrechts, 1891,p. 128.
Entretanto, a transposição da causalidade da ação à omissão não pode ser feita sem maiores pro-blemas. Como conceber, como causa de um resultado, uma inatividade que não tem no mundo exterior qual-quer expressão de procedimento causal? A discussão já começa a agravar-se quando se busca equacionar o
que se deva entender por causa de um resultado.
6. A CONTROVÉRSIA DA CAUSALIDADE
I
6.1. Não é de hoje que a causalidade tem susci-tado os mais acalorados debates, tanto no âmbito das ciências naturais quanto no Direito. Enquanto no Direi-to, pela necessidade de justificação da responsabilida-de, a causalidade é sempre tomada no sentido lógico de certeza, na teoria científica moderna, chegou-se à conclusão de que não há causalidade exata, precisa, inequívoca. A causalidade só pode ser aferida depois que o processo já se desenvolvera e se sabe o que o te-ria impulsionado ou se tem, então, uma idéia intuitiva de que existe um responsável por aquele resultado. Mas, antes disso, não há como elaborar hipoteticamen-te o que poderá constituir a causa de um resultado.Parece que, dado o grau de incerteza de suas variadas fórmulas, nenhuma teoria que se ocupe do conceito de causa pode elucidar essa matéria. No cam-po das ciências empíricas, essa incerteza quanto à
por exemplo, com as investigações procedidas no setor do átomo e sua evolução. O cientista alemão
HEISENBERG7,da Universidade de Munique e Prêmio Nobel de Física, ao proceder à elaboração dos princí-pios informadores da teoria quântica, enuncia na déca-da de trinta o princípio déca-da indeterminação, pelo qual a impossibilidade de serem obtidas medidas corretas de uma determinada magnitude, sem desconsideração de outra magnitude com ela relacionada, conduz à con-clusão de que, no mundo dos corpúsculos nucleares, a causalidade não é certa, mas 'meramente provável. Mas antes disso, a causalidade já era posta em questão com a antiga teoria de MAXWELL,enunciada para explicar um dos princípios da termodinâmica. Segundo este princípio, um corpo quente que se vincule a um corpo frio produz a passagem de seu calor para es.te corpo frio e não vice-versa. Quer dizer, quando dois corpos entram em contacto, um quente e o outro frio, o pri-meiro, que está quente, transfere ao segundo, que está frio, uma parte de seu calor, no sentido de um equilí-brio térmico. Segundo MAXWELL,essa constatação empírica, entretanto, não é certa, é meramente prová-vel, assim como tudo na investigação científica. Essa formulação da termo dinâmica, embora do século pas-sado e o princípio da indeterminação marcaram no campo da causalidade uma perspectiva completamente diferente do que a ciência até então havia indicado,
7HEISENBERG - Die physikaJischen Prinzipien der Quantumtheorie, 1930, IV §3°.
1-pois a desvinculavam dos enunciados da mecânica, até então dominantes e que sempre exerceram enorme e significativa influência no âmbito do Direito, e ainda alteravam o pressuposto empírico de sua configuração lógica.
6.2. Na esteira dessas modernas concepções, po-demos dizer que a causalidade não pode ser equacio-nada através de umá teoria única, segundo a qual sem-pre, e da mesma forma, ela deverá verificar-se. Daí a tentativa de superar a velha teoria da condição, medi-ante uma individualização da causalidade, primeira-mente no plano naturalístico, com a teoria da adequa-ção proposta por VONKRIES,e depois no plano norma-tivo, com a teoria da relevância jurídica, elaborada por MEZGER.
De acordo com a proposição de VONKRIES, a causalidade seria unicamente aferida com base na ex-periência, segundo um juízo de previsibilidade, o qual, conforme o complemento trazido por TRAEGER,deve-ria ter em conta todas as condições existentes ao tempo da ação, conhecidas ou cognoscíveis por um homem
prudente8. Por sua vez, MEZGERentende que a causali-dade, tomada no sentido da teoria da condição, não é suficiente para fundar o nexo de responsabilidade, se-não em atenção à relevância jurídica da condição, que
18 TA V ARES - CRIMES OMISSIVOS
TAVARES - CRIMES OMISSIVOS
(~U;.1 ~. 19 !
só poderá ser reconhecida no processo de interpretação te1eo1ógica da norma9.
Mas, como a causalidade é meramente provável, está claro que toda teoria causal é falha, porque traba-lha sobre juízos e critérios de probabilidade e não de certeza. Se a incerteza toma-se a regra, fica, assim, mais difícil ajustar-se o conceito de omissão, como inatividade, ao conceito de causa, que fundamenta o conceito de ação.
7. BELING E SEUS ANTECESSORES
7.1. Dentro da evolução percorrida pela teoria do delito, os primeiros critérios estabelecidos para jus-tificar a causalidade na omissão, até pelas sua dificul-dades, buscaram. fundamentá-Ia em algo positivo, como na prática de ação diversa. Assim, por exemplo, são as soluções apresentadas por LUDEN, com sua
teo-ria da ação contemporânea, pela qual o que
efetiva-mente causa o resultado proibido é a prática de uma ação positiva contemporânea à omissão, diversa da-quela que deveria ter sido executadalO, e por KRUG, GLASER e MERKEL, com a teoria da ação precedente,
9MEZGER- Tratado de Derecho Penal, tradução de Rodriguez Mufíoz, 1955,
voI. I, p. 243.
10LUDEN- Abhandlungen aus dem gemeinen deutschen Strafrecht, 1840, vaI.
1. P. 467
que tomava como referência não a ação contemporâ-nea, mas a ação realizada momentos antes11.
7.2. BELINGI2, que foi o grande teórico da teoria
causal, ciente dos transtornos lógicos provocados por uma concepção puramente causal do delito, chegou à conclusão de que para fundamentar a causalidade na omissão só dispunha de um recurso, que era partir da investigação sobre o organismo da pessoa do omitente. Segundo ele, isto se daria da seguinte forma: na ação, a pessoa produz um movimento corpóreo e, portanto, desenoadeia perceptivelmente a casualidade; na omis-são, ao 'contrário, a pessoa não produz movimento
COf-póreo algum, mas, para não fazê-Io, deve retrair sua capacidade muscular de movimentar-se. Justamente nesta retração subsistiria a causa do resultado. Esta concepção, entretanto, não era nova. Nada mais é, ali-ás, do que uma reformulação sistematizada na teoria do delito das teorias da interferência, mencionadas por LANDSBERG e sustentadas por diversos autores,
dentre os quais BINDING, que, ·contestando as antigas
teorias da ação precedente e da ação contemporânea, tentavam demonstrar que a omissão teria uma eficácia ativa, de modo que o omitente, ao não agir, passaria a expressar uma força interferente sobre o impulso que
11ADOLFOMERKEL- Kriminalistische Abhandlungen, 1867, p. 76.
12BELING_ Die Lehre vom Verbrechen, 1906, p. 17. Mais recentemente, esta concepção éreestilizada por NOVOAMONREAL- Fundamentos de Ias delitos de omisión, 1984, p.176.
normalmente o compelia a fazê-Iol3. Não será preciso socorrer-se de maiores indagações, para perceber a ar-tificialidade dessas construções, que novamente deslo-cam o tema da causalidade do setor lógico para o bio-lógico ou mecânico, tornando ainda mais obscura sua perfeita dimensão.
8. AS CONTROVÉRSIAS NA TEORIA DA AÇÃO
8.1. Procurando superar os percalços da concep-ção causal originária, MEZGER, com base nos postula-dos assentapostula-dos pelo neokantismo da Escola de Baden, principalmente por RrcKERT, enfatiza que "oproblema da causalidade nos delitos de comissão por omissão aparece situado exatamente da mesma man,eira e exatamente da mesma forma do que no fazer ativo, sÓ que não em referência à omissão como tal, senão à ação positiva esperada e ao seu resultado". A pergun-ta decisiva, será, porpergun-tanto a seguinte: "o resultado ju-ridicamente desaprovado teria sido evitado pela ação esperada"? Se a resposta for afirmativa, a omissão será considerada causa do resultado 14. Contudo, a referên-cia à ação esperada, que só pode ser vista em face da exigência da ordem jurídica, está em contradição com a concepção causal primitiva, porque desloca a questão do plano natural da causalidade para o mundo dos
va-13 BINDING- Die .Normen, II,p. 546; VON HIPPEL - Deutsches Strafrecht, 1930, voL lI,p. 158.
14MEZGER- Tratado de Derecl10 Penal, vol I,p.299
lores e só pode viger sob o enfoque da teoria da rele-vância jurídica, que deixa de ser uma verdadeira teoria da causalidade para transformar-se em teoria de impu-tação do resultado.
A omissão sempre representou, na verdade, um ponto nebuloso na teoria do delito, que não foi eluci-dado nem pela teoria causal e suas variantes e nem pelas teorias que se sucedem, por exemplo, a teoria fi-nalista, as quais continuaram a defrontar-se com difi-culdades para equacioná-Ia.
8.2. Afinal de contas, o que constitui a omissão?
É uma inatividade? Mas, sendo uma inatividade, é modalidade de ação? Será outra categoria de compor-tamento, que, juntamente com a ação, integra, em seu todo, a conduta humana?
A própria teo ria finalista da ação parte do con-ceito de que a ação, antes de sér valorada juridicamen-te, tem um fundamento natural, isto é, pertence à cate-goria ontológica do ser. Como a ação é conceito gené-rico e natural, assim também a omissão teria funda-mento naturalístico, como inação. Seria a omissão, portanto, modalidade de conduta, como inação, que se contrapõe à ação, como modalidade de conduta
positi-vaI5. A relação entre ação e omissão se situaria
logi-15 WELZEL _ Derecho Penal Alemán, tradução de Bustos Ramirez e Yafíez
22 TAV ARES - CRIMES OMISSIVOS TA V ARES - CRIMES OMISSIVOS
(uNlj
~
camente como os indicativos A e Não-A, objetos inde-pendentes do mundo do ser, cada qual com suas pro-priedades. Ainda que se reconheça a engenhosidade desta tese, talvez a única que poderia ser compatível ao esquema das categorias ônticas, ainda assim não abrange a questão em todas as suas pmticu1aridades e em toda a sua extensão.
8.3. A deficiência da teoria finalista reside na sua base, de conceber a omissão dentro da categoria do ser, quando esta só pode ser verdadeiramente retratada se vinculada a um dever de agir. A contradição não é superada com a tese de ARMIN KAUFMANN16, seguida
por CEREZO MIR17, de que não sendo a omissão uma
ação e apenas guardando em comum com esta a
capa-cidade de ação, o conceito finalista de conduta pode
cumprir a função de elemento básico do delito, ainda que não unitário, ao reconhecer-se que na omissão se trata da não realização de uma atividade finalista que
o sujeito podia realizar na situação concreta. Também
nesta hipótese, a omissão continua sendo enfocada como um dado do ser, vindo a complicar-se ainda mais, como já ocorria com WELZEL, com a adoção de
uma atividade final, que efetivamente não se realizou, mas podia realizar-se, quer dizer, a finalidade deixa de ser real e passa a ser potencial.
16ARMIN KAUFMANN -Die Dogmatik der Unterlassungsdelikte, 1959, p. 85. 17CEREZOMIR -OFinalismo, Hoje, tradução de Luiz Regis Prado, in Revista
Brasileira de Ciências Criminais, n° 12,1995, p. 43.
o
núcleo da discussão não se situa, evidente-mente, na tentativa de demonstrar a propriedade de uma finalidade potencial na conduta, senão, como já dissemos, na constatação de que inexiste omissão sem violação de dever de agir. E quando associamos uma ação, ou uma inatividade, a um dever de agir, já esta-remos descartando a hipótese de que esta atividade ou inatividade possa ser vista, exclusivamente, sob o en-foque naturalístico. É que o dever de agir não é qual-quer coisa pertencente à categoria ôntica, isto é, não possui substrato natural, mas possui, isto sim, um subs~ato axio1ógico. Quando impomos uma atividade a alguém, dizemos que essa atividade é imposta em face de um dever a que está vinculada determinada pessoa. Se a pessoa não estiver vinculada ao dever de agir, a sua inatividade é um nada, absolutamente irre-levante.9. A TEORIA NEGATIVA DE AÇÃO
9.1. Seguindo uma variante subjetiva da teoria finalista, com base no desdobramento do princípio da finalidade potencial, KHARS eHERZBERG,
primeiramen-te, e depois BEHRENDT e de certa forma JAKOBS criam
um conceito diverso de ação, com base no princípio da evitabilidade, a que se denomina de conceito negativo
um resultado em posição de garantia ,,18,OU "a reali-zação do resultado evitável ,,19. Com isso se quer
si-gnificar que comissão e omissão se constituem de uma não evitação de alguma coisa, pois também nos delitos comissivos subsistiria a responsabilidade de evitar o resultado decorrente do movimento corporal do agen-te, atualizado como foco potencial de perigo 20.
Este conceito negativo de ação, ainda que, para se constituir, tome como modelo um critério que po-deria fundamentar um ato omissivo, que seria a evi-tabilidade do resultado, é incapaz de solucionar os problemas do enquadramento lógico e dogmático da omissão em um conceito superior de ação. Primeira-mente, porque o próprio HERZBERG não vê necessidade
de utilizar um tal conceito na caracterização do;; deli-tos omissivos em espécie. Em segundo lugar, p(l)rque se para os fatos comissivos o que basta é a não-realização do resultado, a qual é identificada com a sua evitação, para os fatos omissivos, onde o que ocorre é
a não-realização da ação, o critério estaria baseado na
não-não-realização do resultado, o que soa um absur-do.
18 HERZBERG _ Die Unterlassung im Strafrecht und das Garantenprinzip, 1972, p. 174.
19JAKOBS - Vermeidbares Verhalten und Strafrechtssystem, in Festschrift für Welzel, 1974, p. 309.
20HERZBERG -ob. cit. , p. 173.
9.2. Por sua vez, não socorre tal conceito a posi-ção crítica de JAKOBS, que primeiramente nega um
conceito negativo e chega a taxá-Io de equivocad021,
mas, partindo do mesmo critério da evitabilidade, como elemento identificador da ação, desemboca uma posição mais equivocada ainda, quando, por exemplo, nega a qualidade de ação à realização inevitável da morte de outrem, porque não estaria juridicamente configurado o plano do autor e, por conseguinte, ine-xistiria uma lesão ànorma22.
9.3. Mais criticável ainda se mostra a tese psica-nalítica de BEHRENDT, para o quem o conceito de ação
não se ocupa do agir humano em geral, senão como expressão da por ele denominada destrutividade
hu-mana23. Assim, a ação praticada em legítima defesa
deixaria de constituir uma modalidade de causa de justificação, com a conseqüente exclusão da
antijuri-dicidade, para se transformar em uma hipótese de au-sêrlcia de ação, porque sendo tal fato inevitável con-duziria à conclusão de que igualmente não caracteri-zaria uma expressão da destrutividade humana24. A omissão não seria, portanto, entendida como a não execução de uma ação possível ou de uma ação espe-rada ou mandada, senão a omissão da direção contrária
21 J AKOBS -Strafrecht, Allgemeiner Teil, 1993, p. 143.
22JAKOBS _Strafrecht, Allgemeiner Teil, 1993, p. 144.
23 BEHRENDT _ Die Unterlassung im Strafrecht. Entwurf eines negativen Handlugsbegriffs aufpsychoanalytischer Grundlage, 1979, p. 96.
28 T A
v
ARES - CRIMES OMISSIVOS TAVARES - CRIMES OMISSIVOS 29pode deixar de reconhecer que o conceito de ação, muitas vezes, dadas as características reais de sua ma-nifestação, está vinculado também a juízos de valor, de ordem social ou pronunciados pela ordem jurídica, através dos respectivos tipos de delito. Esse inclusive é o caso da omissão, que tomada dentro do conceito de ação como manifestação da personalidade está prati-camente imbricada nos graus de valoração, que fun-damentam o injusto. A omissão só será considerada como manifestação da personalidade se tomada em re-ferência à ação esperada, a qual, normalmente, vem fundamentada socialmente, antes de sua configuração jurídica, em face de deveres sociais que são impostos
ao sujeit029. A~lção esperada, assim, não é a ação que
se poderia evitar, ou a ação simplesmente que não se realizou por interferência mecânica ou musculqr, nem a não-ação referente a uma ação final determina~a, in-serida no âmbito das categorias reais, mas, sim, a ação que a comunidade social ou a ordem jurídica aguarda-va como instrumento de proteção do bem jurídico.
Em face dessa abordagem acerca da omissão, a recente concepção personalista de ROXIN, portanto, não pode ser caracterizada como uma pura teoria natu-ralista de ação, mas simplesmente uma teoria de fundo naturalístico. Quer dizer, a ação não se compõe neces-sariamente de elementos puramente naturais, como condição de sua categoria ôntica, mas toma essa
con-29ROXIN -Strafrecht, A T, 1,p.200.
dição natural, de expressão da personalidade humana, como seu ponto de referência, evitando, com isso, uma concepção puramente normativista, própria do positi-Vlsmo.
10.2. A relevância da omissão, como violação do dever de agir, é que assinala, assim, a sua própria existência. Pertence ela àquela categoria dos objetos
dependentes, de que fala HUSSERL. Não possui
exis-tência real, por si mesma, senão quando associada a outro elemento, representado por um dever. Quando nos referimos à omissão, portanto, estamos no âmbito de um mundo axiológico, de um mundo onde valora-mos as diversas modalidades de comportamento e não apenas de um mundo puramente naturalístico, onde o importante
é
unicamente assinalar suas características reais. Por isso,é
que, na tarefa de diferenciação entre ação e omissão, para não cairmos nos mesmos erros causais, temos que descartar, desde logo, neste setor a posição meramente naturalística.Analisando a forma e as deficiências do trata-mento do comportatrata-mento omissivo dentro da teoria do
delito, que conduzem a posturas insolúveis, chegamos
à conclusão de que a teoria finalista é basicamente uma teoria da ação, que foi concebida de modo funci-onalmente correto no tocante aos crimes comissivos, mas que é claudicante quando procura tratar da omis-são. E, embora quando trate da ação, em geral, supere, sem a menor dúvida, os enunciados da teoria causal,
também como ocorre com essa teoria causal não con-segue superar suas contradições na omissão, justamen-te porque incorre no mesmo erro, de considerá-Ia como um dado do ser (categoria ôntica) e não como um dado de valor (categoria axiológica).
11. A
vALORAÇÃO
DA OMISSÃO E SEU SUBSTRATO SOCIAL11.1. Ao buscar diferenciar a ação da omissão, temos que nos situar, portanto, em plano axiológico: a omissão não é modalidade de conduta que se reduza a elementos puramente naturais. A omissão é modalida-de modalida-de conduta vaIorada. E justamente em razão modalida-dessa valoração, é que adquire relevância social30.
Por isso, o melhor modelo será aquele que situe o conceito de conduta dentro da ordem social e não exclusivamente na ordem natural. Quer dizer, a condu-ta como comporcondu-tamento humano socialmente relevan-te, onde se considere o seu momento axiológico e se descarte toda fundamentação naturalística no tocante à omissão. A omissão passa, assim, a se enquadrar den-tro de um campo valorativo e não num campo ontoló-gico real.
30Assim também, em linhas gerais, ROXIN- Strafrecht, AT, I,p. 201.
11.2. Mas, surge um outro aspecto. Se a omissão tem fundamento axiológico, isto significa que ela pas-sa a ser objeto de um juízo, pelo qual tem assegurada sua existência. E como objeto de um juízo, deve sub-meter-se
à
consideração de se depende também de uma norma jurídica ou possui relevância fora, do Direito. Estaé
uma questão que decorre do seu significado axiológico, como dado social ou normativo.Se reconhecemos nos valores um substrato so-cial e não exclusivamente normativo, como aliás deve ser, p~emos assumir a postura inicial de que a omis-são tem relevância e existência fora do Direito. A omissão, como modalidade de comportamento valora-do, não pode afastar-se de seu conteúdo social, que lhe assinala a relevância independentemente de seu reco-nhecimento normativo. E pode, quando valorada juri-dicamente, gerar efeitos nas mais variadas disciplinas jurídicas, dentre as quais o Direito Penal31.
Há ações, aliás, que presenciamos na coletivida-de, que constituem comportamentos, às vezes, conside-rados antiéticos, desleais, estranhos, irregulares, desvi-antes, mas que não configuram, em qualquer hipótese, comportamentos juridicamente enquadráveis. Quantas vezes, por exemplo, cruzamos com alguns colegas nossos e não recebemos o devido cumprimento? Essa
31Com posição semelhante, HEITORCOSTAJÚNIOR- Teorias Acerca da Omissão, in Revista de Direito Penal, vaI. 33, 1982, p. 71.
32 TAVARES - CRIMES OMISSIVOS TAVARES - CRIMES OMISSIVOS 33
ausência de cumprimento configura uma omissão des-sas pessoas, que nos atinge na nossa relação de cordia-lidade entre colegas. Mas isto não constitui nada em termos jurídicos, nem no âmbito do Direito Penal, nem no âmbito de outros ramos do Direito e nem tem assi-nalada sua existência porque referenciada a uma nor-ma.
É
uma omissão que sentimos socialmente e que, inclusive, produz efeitos mais amplos do que se pode-ria supor na ordem social, porque a pessoa que não cumprimenta um colega, em determinado momento fi-cará antipatizada. E as demais pessoas que sentem a ausência dessa atitude de cordialidade poderão dizer:"Bem, esse sujeito é um antipático; consequentemente, não vamos convidá-lo para
-
as nossas"
festividades, nem para nossas programaçoes etc.Há, portanto, uma reação das pessoas a e1ssetipo de comportamento omissivo, ainda que fora do Direito. Mas sua relevância não deriva da reação que poderá engendrar. Independentemente ou não dessa reação, que indicaria que a omissão, antes de sofrer a incidên-cia das respostas do Direito, produziria efeitos soincidên-ciais, deve-se considerar que, ao lado das imposições decor-rentes da norma jurídica, subsistem deveres sociais de convivência, que integram o substrato das categorias axiológicas. Justamente esse fundamento social é que assinala o conteúdo extrajurídico da omissão. Não po-demos, assim, partir do princípio de que a omissão só tem relevância para o campo do Direito, porque então estaremos emprestando à norma jurídica, além do seu
objetivo regulamentador, o efeito exclusivo de criado-ra de deveres sociais, como propunha nesse passo a orientação neokantista. Ao invés, devemos admitir que a não execução de uma ação esperada apresenta rele-vância na ordem social, antes de se constituir em obje-to jurídico. A ação esperada de MEZGERnão deve ser exclusividade jurídica, mas a expressão de exigências sociais de convivência.
Esta referência social da omissão representa um passo adiante na elaboração do conceito de conduta, que, tomado como conceito geral, deve ser suficiente-mente flexível e abrangente para englobar todas as modalidades concretas do comportamento.
11.3. Pode acontecer, ademais, que a orrussao não apresente qualquer fundamento valorativo na or-dem social, ainda que resulte relevante juridicamente. Isto, todavia, não desnatura seu conteúdo social extra-jurídico, mas apenas reflete um estado de instabilidade
normativa, pelo qual a norma vale durante certo tem-po, ainda que carente de substrato, mas cujo estado tenderá, a longo prazo, à sua ineficácia porque isenta de conteúdo. Mas, então temos que vê-la de outra ma-neira, não só no seu aspecto de existência, mas tam-bém no sentido que ela assume com vistas à proteção de bem jurídico, porque pode acontecer que a própria norma, em face do sentido protetivo que passa a de-sempenhar, venha a induzir a criação de deveres soci-ais de convivência, que lhe irão depois preencher os
fundamentos. Em face dessa capacidade inventiva do Direito, chega FIGUEIREDODIAS, através da crítica à
teoria social da ação, a postular uma postura inteira-mente normativista de conduta, ao entender que a ação esperada só pode ser vista através de uma imposição jurídica de ação, que nasce do tipo de ilícito32. Embora
não se deva aderir a essy pensamento normativista, não apenas sistematicamente, senão também em face da necessidade de não afastar o Direito Penal de seu substrato real, que principalmente na América Latina, a exemplo do que sucedeu na história européia dos anos trinta, poderá justificar a criação de delitos sem a correspondente lesão ou perigo de lesão a bens jurídi-cos, como meras infrações a deveres, assinala ele as deficiências de um conceito puramente natuf3lístico de conduta, como incompatível com a estrutura e as ca-racterísticas da omissão. Ainda que se possa dizer que será no tipo de injusto o local adequado a proceder-se
à perfeita separação entre, por exemplo, delitos omis-sivos e culposos, a adoção, entretanto, de um conceito puramente normativista de ação, que ficaria na depen-dência exclusiva da previsão do tipo de injusto, poderá bem servir ao seu escopo funcional, mas conduz na prática à sua desumanização. Será preciso sempre lem-brar, como faz RENÉDOTTI,que o Direito Penal, como ciência de valores, está referenciado a um sujeito
con-32FIGlJEIREDODIAS - Sobre o Estado Atual da Doutrina do Crime, in Revista Brasileira de Ciências Criminais, número especial de lançamento, 1992, p. 35.
creto, já que "valor é sempre valor para alguém ,,33. Na
atual sociedade de risco, ademais, a tipificação de con-dutas serve na maioria das vezes como resposta a situ-ações políticas emergenciais, confundindo-se com as normas puramente administrativas, que só interessam aos ditames imediatos do Estado, sem consideração ao seu real substrato social vinculado à proteção de um bem jurídico estratificado e sob a violação de direitos fundamentais, cuja observância deve anteceder a qual-quer elaboração normativa34.
É
nesse sentido, inclusi-ve, que se manifesta a crítica de HASSEMERde que o atual, modelo penal repressivo, sob a falácia dé sua eficiência prática, vem se transmudando em um verda-deiro direito policial35. Diante dessa anomalia legisla-tiva, mostra-se imprescindível sustentar a conduta típi-ca, qualquer que ela seja, sobre uma base ou um subs-trato sócio-individual, antes que por questões sistemá-ticas ou funcionais, como forma de sua delimitação.33 RENÉ DOTII _ A Incapacidade Criminal da Pessoa Jurídica, in Revista Brasileira de Ciências Criminais, n° 11, 1995, p. 186.
34 BARATA_ Funções Instrumentais e Simbólicas do Direito Penal,
Lineamen-tos de uma Teoria do Bem Jurídico, in Revista Brasileira de Ciências Crimi-nais, n° 5, 1994, p. 12 e ss.; PETER-ALEXISALBRECHT- Erosionen des rechtsstaatlichen Strafrechts, in Kritische Vierte1jahresscbrift für Gesetzge-bung und Recbtswissenscbaft, n° 2,1993, p. 163 e ss.
35 HASSEMER_ Aktuelle Perspektiven der Krimina1poJitik, in Strafverteidiger,
36 TAVARES - CRIMES OMISSIVOS TAVARES - CRIMES OMISSIVOS 37 12. CRIMES OMISSIVOS E COMISSIVOS
12.1. A proteção de bem jurídico, como sabe-mos, em face da multiplicidade de variantes sociais, muitas vezes não é desempenhada diretamente através de proibições de modalidades de ações juridicamente indesejáveis, que pela experiência possam pô-Io em perigo ou lesá-Io, senão mediante a imposição de deve-res concretos que pretendem evitar esses deve-resultados. Na omissão, a proteção pode ser exercida de duas es-pécies, ou mediante a imposição de ações possíveis, que devem ser executadas por todos justamente para impedir a concretização dessa lesão, ou por quem te-nha, em face da assunção de posturas pessoais, um de-ver de impedir tal resultado. Com isso, surge a neces-sidade inicial de distinguir essas duas modalidades da atuação estatal, como crimes omissivos próprios~ . te
im-propnos.
Aqui, devemos, por sua vez, observar o seguin-te: quando diferenciamos crimes omissivos e crimes
comissivos, não devemos fazê-Io através da
modalida-de modalida-de conduta.
A diferença entre esses crimes deve residir na estrutura da norma que impõe ou que proíbe a ativida-de. Sempre aprendemos, por exemplo, que o Direito Penal tem duas espécies de normas: proibitivas e man-damentais. E sempre aprendemos que são normas opostas, isto é, ou proibitivas ou mandamentais. Mas, a
teoria mais recente considera que não existe norma pu-ramente proibitiva, como não existe norma pupu-ramente
d 136 E~ - 'd
man amenta. que, se nao conSl erarmos que a norma é proibitiva e mandamental ao mesmo tempo, não poderemos proteger suficientemente o bem jurídi-co. Porque no momento em que dissermos que a norma mandamental é aquela simplesmente que impõe uma atividade, contentamo-nos em dizer que aquele que se encontre em inatividade viola a norma mandamental. Mas aquele que se encontre em inatividade, embora viole a norma mandamental, não é o único a fazê-Io. Também viola a norma mandamental aquele que reali-za outra atividade que não a que a norma determina. Portanto, a norma mandamental, ao mesmo tempo que impõe uma atividade, proíbe outra. Da mesma forma, a norma proibitiva. Ao mesmo tempo em que proíbe uma atividade, por exemplo, a atividade de matar, im-põe, também, uma atividade de respeito à vida huma-na. Isto está implícito na norma proibitiva. E nem teria sentido a proteção de bem jurídico através exclusiva-mente da proibição, pois seria absolutaexclusiva-mente inócua. Isto não quer dizer, porém, que nos crimes comissivos subsista, ao lado da proibição, um dever geral de obe-diência. A atividade positiva que resulta da proibição será aquela necessária à proteção do bem jurídico, na medida em que o sujeito se tenha decidido a empreen-dê-Ia.
12.2. Essas considerações, ainda que extensíveis a todos os delitos, adquirem maior relevância no âmbi-to dos delitos culposos.
Por exemplo, há pessoas que dirigem em exces-so de velocidade, algumas vezes ultrapassando todos os limites imagináveis, Contudo, o excesso de veloci-dade, por si só, não caracteriza delito algum, apenas demonstra que há violação de um dever de cuidado. A norma jurídica que impõe uma atividade cuidadosa é a mesma que proíbe uma atividade descuidada. À pessoa que dirige em excesso de velocidade, em determinado local, a,norma jurídica diz que éproibido violar o de-ver de cuidado, porque? violando o dever de cuidado,
se pode ocasionar um resultado penalmente proibido.
Mas, ao mesmo tempo em que proíbe o excesso de velocidade, diz que aquele que quiser dirigir, é obri-gado a dirigir em velocidade adequada. Portanto, a norma jurídica compõe um conjunto de proibições e comandos, num mesmo contexto, como forma de ampliar os limites da proteção do bem jurídico.
13. AÇÃO E OMISSÃO NA ESTRUTURA NOR-MATIVA
13.1.
É
importante salientar esse entendimento acerca da estrutura complexa da norma penal, porque com isto se podem assinalar com precisão as diferen-ças entre os crimes omissivos e os crimes comissivos.Partindo desse aspecto, podemos, desde logo, estabelecer os critérios de diferenciação entre a ação e aOlnissão dentro da estrutura normativa do Direito Pe-nalJ
Alguns exemplos, podem demonstrar~ aliás, que às vezes é penoso estabelecer-se uma linha divisória absolutamente nítida entre ação e omissão e cuja solu-ção, de caracterizar o fato como crilne conÚssivo ou
crime omissivo, não se limita a mera exigência c1assi-ficatória. Se optarmos pela Olnissão e tivermos um
crime omissivo, teremos que definir ademais se o sujei-to tinha ou não o dever de agir, exatamente nos termos em que a lei o determina.
13.2. EXEMPLOS I
EXEMPLO N" 1. Um sujeito, à noite e em meio
J
neblina, dirige seu caminhão sem as luzes traseiras deiadvertência acesas, as chamadas luzes de estaciona-i mento e acaba, com isso, ocasionando um acidente,i porque o motorista de um automóvel, que trafega emi
40 TAVARES'- CRIMES OMISSIVOS TAVARES - CRIMES OMISSIVOS 41
excesso de velocidade, não o vê e vem com ele a cho-car-se. Em conseqüência do acidente, o motorista do automóvel vem a morrer.
A pergunta é a seguinte: haverá crime omissivo
ou crime comissivo?
A resposta pode variar conforme a identificação da modalidade da conduta, se se trata de uma ação, ou de uma' omissão.
Poderíamos dizer, por um lado, que haveria, nesse caso, um crime omissivo culposo, porque o ca-minhão não tinha as luzes traseiras acesas, quando o motorista o dirigia, ou seja, omitiu-se esse motorista de verificar se as luzes traseiras estavam em condiçõys de tráfego. Mas também poderemos concluir que haverá um crime comissivo culposo, se entendermos que o sujeito trafegou sem as luzes traseiras. A diferença é sutil, mas é importante.
EXEMPLON° 2. O médico está cuidarido de certo paciente internado em estado grave num hospital. Ape-sar de todo cuidado e do tratamento intensivo que re-cebe, de repente apresenta parada cardíaca. O médico resolve socorrê-Ia através de massagens de reanima-ção, que são executadas sem qualquer proveito. Após algum tempo, é aconselhado por um seu colega que diz: "não adianta, ele não tem mais chance". O
médi-co pára de reanimar o paciente. Evidentemente, todos irão afirmar que se trata de crime omissivo.
Mas imaginemos que o médico não pare de rea-nimar o paciente e faça com que essa modalidade de reanimação tenha seqüência através de um aparelho automático, que se encarrega da estimulação do cora-ção enfermo e permanece em funcionamento durante alguns dias. Após certo tempo, vem outro assistente e diz: "não adianta insistir, porque esse aparelho não
poderá reanimar o paciente. O melhor será
desligá-lo ". Se ambos desligam o aparelho e, em seguida, o paciente morre, a indagação acerca da natureza do comportamento não será tão evidente. Haverá crime
omissivo ou comissivo?
EXE.tvIPLON° 3, Um sujeito está para salvar outra pessoa, que se está afogando na praia de Copacabana. Quando está prestes a salvá-Ia,
é
impedido de fazê-Ia por seu vizinho, porque este reconhecera no afogado um seu inimigo, Haverá crime omissivo ou crimeco-missivo?
EXEMPLON°4. Ainda sobre o mesmo quadro, o sujeito quer salvar uma pessoa que cai da barca Rio-Niterói e está se afogando. Para isso lança-lhe um sal-va-vidas e, uma vez agarrado pelo acidentado, passa a recolhê-Io. No meio do ato de salvamento, contudo, reconhece no afogado seu inimigo e refletindo acerca da fortuna do acidente resolve abandoná-Io à própria
sorte. lncontinenti solta a corda e deixa que a vítima se afogue. Haverá crime omissivo ou comissivo?
EXEM:PLO N° 5. Um caso da jurisprudência
ale-mã. Um fabricante importa da Pérsia algumas peles de carneiro para a confecção de cobertores, mas não man-da desinfetá-Ias previamente como deveria. As peles vêm impregnadas de um vírus que acaba matando os operários que as manipulavam para fazer o preenchi-mento desses cobertores. Haverá crime omissivo ou
comissivo?
0,
dever de agir pode ser visto como um devergeral imposto pela ordem jurídica, diante de certo caso concreto que esta própria ordem jurídica legalmente prevê (o chamado dever geral de assistência), ou como dever que decorre de vinculação especial entre sujeito e vítima, ou entre esse e a fonte produtora de perigo, de modo que se constitua em garantidor da proteção do bem jurídico com relação àquela pessoa determinada ou àquelas pessoas afetadas pela fonte de perigo (o chamado dever de impedir o resultado).
42 TA V ARES - CRIMES OMISSIVOS I
I
TAVARES - CRIMES OMISSIVOS 43
13.3. Note-se que em todos esses exemplos a afirmação acerca da modalidade da conduta não pode por si mesma elucidar acerca da natureza do delito, pondo em destaque a complexidade da diferenciação entre ação e omissão. Se enfocarmos de uma ou de outra maneira, podemos entender que são crimes
omissivos ou comissivos. Mas as conseqüências da
di-ferenciação são importantes, porque se em todos esses casos dissermos que se trata de crimes comissivos, as exigências de punibilidade serão menores, bastando demonstrar normalmente, além dos demais elementos que compõem o tipo legal, que o resultado pode ser imputado objetivamente ao sujeito. Mas se dissermos que haverá crimes omissivos, teremos, então, que tam-bém demonstrar a violação do dever de agir, com to-dos os consentâneos, o que altera os fundamentos da
punibilidade.
I
'14. CRITÉRIOS DE DIFERENCIAÇÃO
Dada a complexidade da distinção entre ação e onÚssão, que não pode ser tomada por simples opção, a doutrina sugere três critérios para torná-Ia possível.
14.1. Critério da Energia
°
primeiro critério, e o mais antigo, é o chama-do critério da energia, que, inclusive, é sustentachama-do por vários autores de renome, dentre os quais ENGISCH37.De acordo com este critério, a diferença entre delitos comissivos e omissivos reside em que nos crimes
co-missivos o agente desprende uma certa energia na
rea-37ENGISCH _Tun und Unterlassen, in Festschrift für W. Gallas, 1973, p. 163; OITO - Grundkurs Strafrecht, AT, 1982, p.127.
RUDOLPHI e SAMSON38 propõem que a análise se faça
exclusivamente em termos de causalidade.
É
a posição assumida também por WELZEL39. Haverá, portanto,comissão todas as vezes em que o sujeito desenvolver
um processo causal material, que produza dolosa ou culposamente o resultado proibido.
Assim, no caso do caminhão, haveria crime comissivo porque o motorista estava dirigindo
o'"yeícu-10. No caso do fabricante de cobertores, que não desin-fetou suficientemente as peles de carneiro, haveria
crime comissivo, porque fora ele quem entregara as
peles aos seus funcionários e, consequentemente, hou-vera provocado a infestação do vírus. Este critério so-fre as mesmas críticas ofertadas ao critério da energia, embora possa ser visto sob o plano lógico e não me-cânico. As deficiências permanecem ainda que se adote qualquer outra teoria da causalidade, diversa da teoria da condição, por exemplo, a teoria da causalida-de acausalida-dequada ou da relevância jurídica.
É
que com es-sas duas outras teorias, que se assentam, respectiva-mente, nos supostos de previsibilidade (adequação) ou da ação esperada, mais difícil se torna firmar, desde logo, uma nítida diferenciação entre fazer positivo e omissão, no plano exclusivo da causalidade.44 TAVARES - CRIMES OMISSIVOS
lização da ação. Desde que o sujeito não tenha impul-sionado qualquer energia, haverá crime omissivo.
Assim, no caso do motorista que trafega com seu caminhão sem as luzes traseiras de advertência acesas, haverá crime comissivo e não omissivo, porque ele mesmo estava dirigindo o veículo e, pois, despren-dendo energia para realizar tal atividade, vindo com essa atividade a produzir um resultado antijurídico.
Este critério, entretanto, é praticamente insusten-tável, porque em muitos casos não há comprovação efetiva de manifestação de energia, no momento em que o fato lesivo ocorre, porque mesmo no exemplo do caminhão a energia era no sentido da direção do
veícu-10, mas não no sentido de manter apagadas as luzes de advertência. Ademais, no momento do acidente, este caminhão poderia estar parado na pista, encontrando-se o motorista em plena inatividade, encontrando-sem desprender qualquer energia, a qual, então, deveria estar referida ao momento em que a atividade se havia iniciado e não ao momento em que se produzira o resultado, o que faria reeditar, para esse setor, a velha teoria da actio
libera in causa.
14.2. Critério da Causalidade
TAVARES - CRIMES OMISSIVOS 45
Em oposição a esse critério, JESCHECK,
38 JESCHECK - Tratado, p. 548; RUDOLPHI - StGB, Systematischer Kommen-tar, 1977, vaI. I, p. 74; SAMSON - Begehung und Unterlassung, in Festschrift fur H. We1zel, 1974, p. 579.
14.4. Critério
do Ponto de Gravidade
da
Conduta
40 SIEBER - Die Abgrenzung von Tun und Unterlassen. in Juristenzeitung,
1983, p.431.
41 WESSELS - Strafrecht, A T, 1992, p. 224; SCHONKESCHRODERSTREE -StGB Kommentar, 1991,p. 185.
14.4.1. Tendo em conta as dificuldades resultan-tes da adoção de critérios puramente materiais, a dou-trina postula por uma solução na órbita normativa, atendendo ao que se denomina de ponto de gravidade da conduta penabnente relevante41.
Na verdade, os critérios da energia e da causali-dade não podem explicar suficientemente, por exem-plo, a solução para o caso do médico que desliga os
aparelhos para evitar um prolongamento insatisfatório e até mesmo ineficaz da vida humana vegetativa. Por-que, neste aspecto, quando o médico mantém a vida do
47
TAVARES - CRIMES OMISSIVOS
paciente através do emprego dos aparelhos automáti-cos de reanimação e quando os desliga, na realidade, causou ele a sua morte, manifestando ainda energia para fazê-lo. Por outro lado, se não tivesse desligado os aparelhos, a vida humana se manteria, o que carac-teriza a conduta do médico como condição sine qua non do resultado. Mesmo para a teoria da adequação, o fato de desligar os aparelhos pode ser tido como causal para a morte do paciente, o que também se dá com a teoria da relevância jurídica, independentemente do socorro à ação esperada.
,
PGrtanto, os dois primeiros critérios (da energia e da causalidade) não apreendem a questão em seus pontos fundamentais, pois a vida humana já era em si mesma insustentável. Pelo contexto social, ao contrá-rio, a atividade do médico que desliga os aparelhos está vinculada a um preceito mandamental (de manter ligados os aparelhos) e não a um preceito de proibição (de não desligá-Ias), o que implica a considerar esse comportamento como onÚssão e não como comissão.
A caracterização do comportamento como ação ou omissão, no entanto, só pode ser inferida pelo sen-tido imprimido pela ordem social, jamais por critérios objetivos materiais. Justamente neste sentido de ordem social é que reside o fundamento do critério do ponto de gravidade da conduta penalmente relevante. No exemplo dado, só haveria comissão se o desligamento dos aparelhos fosse efetuado por terceiros, que não
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TAVARES - CRIMES OMISSIVOS
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14.3. SIEBER40, por sua vez, associa os dois cri-térios, da energia e da causalidade, para concluir que a solução correta só pode advir dessa combinação, por-que nem sempre o desprendimento de energia coincide com a interferência no processo causal, podendo acontecer ou não. Trata-se da conjugação de critério mecânico e de outro critério lógico, desde que eviden-temente se tenha em vista que a causalidade não se limita a exprimir um dado puramente naturalístico.
48 TAVARES - CRIMES OMISSIVOS TAVARES - CRIMES OMISSIVOS 49
vessem qualquer relação para com a manutenção da vida do paciente, porque, então, estariam violando uma norma proibitiva, mas não uma norma mandamental, que não lhes seria aplicável. Mas, se os aparelhos fos-sem desligados pelo próprio médico, tratar-se-ia de
omissão e não de comissão. O delito a ser analisado,
portanto, seria um delito omissivo e não delito
comis-SlVO.
14.4.2. O critério do ponto de gravidade, como critério normativo, deve ademais ser complementado pela orientação com vistas à proteção do bem jurídico. Isto quer dizer que a análise deve recair também na
forma e no modo da conduta que viola o bem jurídico.
Na comissão, a forma e o modo contrastam com a proibição inseri da na norma. Há, portanto, uma afronta
à modalidade de conduta permitida, através dai execu-ção de uma modalidade de conduta proibida. Isto dei-xa de ser relevante nos delitos dolosos, quando o con-traste entre o proibido e o permitido é direto e pode ser constatado desde logo através da comparação entre a conduta concreta e a conduta típica abstrata. Mas nos
delitos culposos, em que a contradição entre a conduta
do agente e a proibição se faz indiretamente, mediante a execução de uma conduta descuidada, o que se veri-fica é um contraste entre a conduta permitida e a mo-dalidade de conduta concreta que o agente executou, de modo que se possa dizer que o agente executou uma conduta proibida, justamente porque deixou de atender
aos cuidados que a ordem jurídica lhe impunha para praticar uma conduta permitida.
Na omissão, como a violação do bem jurídico não resulta de um contraste direto entre o proibido e o
permitido, mas da não execução daquilo que era
de-terminado ao sujeito, a contradição entre o comporta-mento do sujeito e a norma radica em outro suposto, que é a vinculação de proteção entre o sujeito e o bem jurídico. Assim, desde que se identifique no caso con-creto uma situação em que a proteção do bem jurídico não está situada na forma e no modo da conduta, mas na relação de dever para com o sujeito, estaremos dian-te de um quadro de omissão. Esta relação para com o sujeito é que assinala o conteúdo axiológico da omis-sÜoe a diferencia da comissão.
Como o critério do ponto de gravidade se orien-ta pelo sentido do compororien-tamento, pode-se explicar o porquê da caracterização do desligamento dos apare-lhos como omissão e não como comissão, consoante o sentido de proteção do bem jurídico indicado pela norma. Se tratássemos, além disso, esse caso como
crime comissivo o médico deveria responder por
ho-micídio, já que havia efetivamente produzido de modo causal a morte do paciente. Entretanto, acolhida a hi-pótese de crime omissivo, poderemos verificar, depois, se efetivamente a ação que deixou de ser realizada te-ria um sentido para o médico com vistas à proteção do
bem jurídico, o que não se daria na hipótese de delito
comlSSlVO. 15. A REABILITAÇÃO DA CAUSALIDADE
14.5. Crítica e Opção Doutrinária
Os três critérios vêm sendo modernamente criti-cados. Não só os dois primeiros, mas também o último. E a maior crítica que a ele se faz é que violaria o
prin-dpio
da legalidade. Porque afirma que, para a identifi-cação da onÚssão em face da comissão, o que vale não é o que está escrito na lei, como dado objetivo, senão exatamente o contrário, ou seja, uma valoração de .or-dem social, que é efetuada pelo julgador, sem qualquer parâmetro e, consequentemente, com possibilidades enormes de favorecer ou prejud.icar o réu. Isso, eviden-temente, configura um alto grau de insegurança nas relações jurídicas, especificamente na órbita do Direito Penal.Os três critérios, portanto, apresentam falhas e não são suficientemente aptos a dirimir a questão, sem sacrificar alguns dos postulados do Direito Penal. A solução não parece encontrar-se num critérjo único, senão em duas possibilidades: ou na conjugação do critério do ponto de gravidade com o critério da cau-salidade, revitalizado pela teoria moderna, ou mediante referência ao conteúdo axiológico emprestado ao fato.
Por outro lado, independentemente da sua defi-ciência para filmar a diferenciação entre ação e onÚs-são, que, como vimos, não pode ser obtida pelos crité-rios aventados, a doutrina tem procurado reabilitar o critério da causalidade, mediante uma reavaliação do conceito de causa com base em graus de probabilidade e não em parâmetros de certeza. Segundo essa postura, haverá conÚssão quando o processo de produção do resultado tenha aumentado consideravelmente o risco dessa, produção. ] á a Olnissão, que se baseia em outros parâmetros, isto é, na relação de proteção com vistas a um bem jurídico que efetivamente possa ser protegido em certo tempo e em certa medida, não pode ser aferi-da pelo critério do aumento do risco, que implicaria uma comissão. O parâmetro aqui seria o seu reverso, isto é, haveria onÚssão se com o comportamento do sujeito, ao não executar a ação possível, tivessem di-minuído as chances de impedir o resultado.
No caso do desligamento dos aparelhos, a morte não pode ser evitada de imediato, nem através de qual-quer outro processo terapêutico, senão única e exclusi-vamente pela continuação infinita dessa reanimação mecânica, o que significa que o seu desligamento não pode ser visto como um aumento do risco do resultado, pois este risco já era absoluto, mas sim pelo aspecto de que, com isso, diminuiria a possibilidade de que conti-nuasse o paciente a viver.
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Desde que não se possa configurar uma situação em que a conduta represente um aumento positivo do risco, estar-se-á diante de fato omissivo. Caso contrá-rio, haverá comissão. Este critécontrá-rio, porém, como vere-mos, é mais um critério de imputação do que de dife-renciação. Além disso, a circunstância do aumento do risco ou da diminuição das chances de salvamento re-sulta ser a mesma, apenas sob duas facetas.
16. A CONTROVÉRSIA DA TEORIA DA CONDIÇÃO
16.1. Em face do nosso Código Penal, qualquer refonnulação da questão da causalidade enfrenta, en-tretanto, um sério obstáculo, pois, em seu art. 13, dis-põe ele expressamente que se considera "causa a ação
ou omissão sem a qual o resultado não teria ocbrri-do". Acolhendo a teoria da condição, o Código
esten-deu-a também à omissão.
Neste ponto reside o problema. Não podemos imediatamente optar pelo critério puro da causalidade para estabelecer a diferença entre omissão e comissão, para dizer que na primeira não há causalidade, quando o Código assume a postura de que aquela é também causal para o resultado. Mas, apesar da regra do Códi-go, a causalidade deve ser adaptada à estrutura da
omissão.
16.2. Por exemplo, se estabelecermos, na teoria
da condição, que, segundo o princípio da eliminação hipotética, haverá causalidade quando eliminada mentalmente a ação (causa) será eliminado automati-camente o resultado, isto vale, é claro, geralmente para os crimes comissivos. Mas, ainda no caso de comissão, esse critério não se mostra correto, quando a causali-dade é incerta ou meramente provável, por exemplo, na questão surgida com o uso do medicamento
conter-gam (talidomida), por exemplo, que pode comportar
uma análise tanto sob o aspecto de uma conduta culpo-sa quanto omissiva. Esse medicamento, que produziu também no Brasil inúmeros efeitos desastrosos, foi lançado na Europa sob todos os encômios, porque era efetivamente um fantástico regulador dos casos de dismenorréia ou demais indisposições decorrentes da gravidez. Todos sabem, entretanto, os teratológicos re-sultados que provocou, gerando defeitos físicos irre-versíveis nos fetos, que os acompanharam até o final de sua vida adulta. Na discussão da responsabilidade decorrente desses efeitos maléficos, seria impossível a utilização do critério da eliminação hipotética do resul-tado, como proposto na teoria da equivalência das condições, posto que não havia certeza de que, com a ingestão desse medicamento, se produzissem os defei-tos físicos de que vieram a padecer os recém-nascidos. Na realidade, se fôssemos entender a causalidade ex-clusivamente no sentido mecânico, mediante o uso da fórmula da eliminação hipotética, jamais poderíamos concluir que a ingestão do medicamento fosse causa
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do resultado: Mas a doutrina penal, que há muito traba-lha com questões de causalidade, também há muito tem decidido que a fórmula da eliminação hipotética não vale em determinadas situações, senão quando já se tem como identificada, com certeza, a causa que determinara oresultad042.
Nos crimes omissivos, o problema é ainda mais complexo: eliminada mentalmente a causa - que seria a omissão - seria eliminado automaticamente o resulta-do? Não se sabe. Isto é mera hipótese.
16.3. OUTRO EXEMPLO
EXEMPLO W 6. Em edifício em chamas, encon-tra-se um sujeito com seus dois filhos menores, confi-nado em seu apartamento, situado em andar alto. No solo estão seus vizinhos, que, com gestos e acenos, gritam-lhe: "jogue as crianças, que nós as apanhare-mos aqui embaixo, sem qualquer problel1w". O pai, acossado diante da situação de desespero, e ademais nervoso pela demora da chegada do corpo de bombei-ros, está nesse dilema: ou jogar as crianças ou esperar o salvamento. Sobre isso, reflete, entretanto, que se jo-gasse as crianças, estas, apesar de toda a atenção dos vizinhos, poderiam morrer, por causa da altura; e se não as jogasse, poderiam morrer sufocadas pela
fuma-42ROXIN- Strafrecht, AT, 23edição, 1994, p. 287; WESSELS -Strafrecht, A T, 1992,p.48.
ça ou queimadas pelo fogo. Diante desse dilema, o su-jeito resolve que o melhor seria manter as crianças no apartamento, à espera do salvamento do corpo de bombeiros. Mas, resolve também jogar-se ele mesmo pela janela para ser aparado pelos vizinhos. Joga-se, quebra as pernas, mas não morre. As crianças, ao con-trário, que permaneceram no apartamento, perecem su-focadas pela fumaça. Aqui, independentemente da questão da colisão de deveres ou do estado de necessi-dade, que se situam no âmbito do injusto, o problema está em se saber se houve ou não uma relação de cau-salidade.
Verifiquemos como isso se passa. Eliminada a omissão (de jogar as crianças para serem apanhadas pelos vizinhos), que seria, afinal do resultado? Se o
sujeito tivesse efetivamente jogado as crianças, o resul-tado desapareceria? Não se sabe, é hipotético, poderia ou não desaparecer. A fórmula é incapaz de dirimir essa dúvida
Vê-se, pois, que a teoria da condição, que ado-tamos no Código Penal, quando aplicada à omissão não funciona de maneira escorreita. Baseia-se em mera hipótese, não em certeza, assim como qualquer outra teoria da causalidade.