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COMPORTAMENTO, PROPÓSITO E TELEOLOGIA

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COMPORTAMENTO, PROFOSITO E TELEOLOGIAT

Á,RTURO ROSENBLUETH, NORBERT WIENER E JULIEN BIGELOW

Este ensaio

tem

dois objetivos.

O primero

é

definir o

estudo comportamental (behavioristic) dos eventos naturais e fornecer uma classifìcação do comportamento. O segundo é ressaltar a importância do conceito de propósito Qnrpose).

Dado

um

objeto

qualquer, relativamente abstraído

de

suaS circunvizinhanças

para

fins

de

estudo,

a

abordagem comportamental consiste

no

exame

da

saída

(output) do objeto e

das relações

entre

essa saída

e

a entrada

(input).

Por saída designamos qualquer mudança produzida pelo objeto em seu ambiente. Por entrada, reciprocamente, qualquer evento externo ao objeto que modifica de algrma maneira.

No

enunciado acima sobre

o

que

se entende

por

método comportamental de investigação estiá

omitida

qualquer referência à estrutura específìca e

à

organizaçõo lntrfnseca

do

objeto investigado. Esta omissão

é

fundamental, pois nela se baòeia a

rlistinção entre

o

mdtodo comportamental

e

o

funcional. Numa análise funcidnal, em oposiçlo à abordagem comportamental, o principal objetivo é a organnação intrfn-¡eca da entidade estudada, sua estrutura e suas propriedades; as relações entre o objeto e seu meio são relativamenie secundárias.

Desta definiçâ'o

do

método comportamental decorre uma

definiçro,

em sentido bastante amplo, de comportamento. Comportamento quer dizer qualquer mudança de uma entidade em relação a seu meio. Essa mudança podg ser, por um lado,

essen-cialmente

uma

saída

do

objeto,

sendo

a

entrada

mínima,

remota

ou

irrelevante. Por outro lado, a mudança pode remeter imediatamente a uma certa entrada. Assim, qualquer modificação

de um

objeto, desde que ,possa ser detectável extemamente, será designada

como

comportamento.

O termo

será,

no

entanto,

muito

amplo, e

portanto

inütil,

se

nto

puder ser restringido pelo acréscimo de uma qualifìcação

-isto é, se o comportamento n,to for classificado.

A

consideraçã'o das mudanças de energia envolvidas

no

comportamento fornece uma primeira base para a classificação. Comportamento ativo é aquele no qual o objeto é

fonte

da energid de saída envolvida em uma dada e específìca reação.

o

objeto pode armazenar energia fornecida por uma certa entrada, remota ou relativamente imediata, mas

a

entrada

não

enetgiza diretamente

a

safda.

No

comportamento passivo, ao

contrário,

o

objeto

nÍo

é uma fonte de energia;toda energia na salda pode ser atribuf-da

â

entrada imediata (p. ex., o lançamento de um objeto), ou ainda, o objeto pode controlar a energia que permanece extema a ele durante a reação (p.ex.,umpássaro planando).

O comportamento ativo pode ser subdividido em duas classes: não propo$itado ou

.

Nota editorial. Esto artþo apareceu originalmente em Phylosophy of Science

l0

(1943), pp. 18-24, sob o título: "Behaviour, Purpose and Teleology". O artþo foiaquireproduzidoim tradução com a permissão de Williams &Wilkins Co., em carta datada de 20 de julho, 1981. Cadernos de Histöria e Fílosofia da Clêncio 2 (1981), pp. 43-50.

(2)

44 A.

Rosenbtueth,

N.

tltiener e J' Biegelow

casual,

e

propositado.

O

termo

propositado denota que

o

ato ou

comportamento pode ser interpretado como visando a conæcução de um objetivo, isto é, uma condição final, na qual o objeto que se comporta atinge uma correlaçÍo definida, no espaço ou no tempo, com respeito a um outro objetivo ou evento. O comportamento não

propù

sitado é, por sua vez, aquele que não é interpretado como dirigido parâ um objetivo.

Pode-se argumentar que a expresslfo "pode ser interpretado", tal cgmo usada aCima,

é

tão

vaga que

torna inrttil a

distinção apresentada.

No

entanto, é

rltil

e

inevitável reconhecer

que

o

comportamento pode algumas vezes ser propositado, como será

visto

a

seguir.

A

base

do

conceito de propósito é a consciência da "atividade

volun-tária". Ora,

o

propósito

dos atos voluntários nÍio é uma questão de interpretação arbitrária, rnas

um fato

fisiológico. Quando realizamos uma ação voluntdria,

o

que voluntariamente selecionamos é um propósito especlfico, não um movimento especf'

fico.

Assim, ao decidir segurar um copo de água e trazê-lo à boca, o que fazemos, não é comandar a contração, em certo grau e numa certa seqü6ncia, de certos mûsculos; simpiesmente desencadeamos o propôsito e a reação segue-se imediatamente.

fato, a fisiologia experimental tem sido incapaz em grande parte, de explicar o mecanismo

da

atividade voluntária- Propomos que essa

falha

se deve ao

fato

de que, quando

um

experimentador estimula

æ

regiões motorari do córtex cerebral, ele não duplica

uma

reação voluntária; ele ativa

circuitos

nervosos eferentes, mas não desencadeia um propôsito, cøno (lcotre no ato voluntiârio.

Foi

muitas vezes expresso o ponto de vista de que todas as máquinas são dotadas

de

propósito. Essa posiçlto

é

insustentável.

Em primeiro

lugar, pode'se mencionar

artefatos como

a

roleta,

projetados especialmente

para geru

eventos aleatórios.

A

seguir, podem ser considerados dispositivos tais como relógios, os quais, ainda que projetados

com um

propósito, têm

um

desempenho que, embora ordenado, não d propositado,

isto

é,

nÍo

hrl nenhuma condição

final

especffica para a qual se dirija o movimento

do

relógio.

Do

mesmo modo, embora

um

revólver possa ser usado com

um

propósito defìnido,

a

consecução

do

objetivo não

é

intrfnseca ao desempenho da arma;

tiros

ao acaso podem ser dados, deliberadamente desprovidos de progósito.

Aþmas

mdquinas, por outro lado, sfo intrinsicamente dotadas de propósito, como

por

exemplo um torpedo equipado com um mecanismo localizador de alvo. O termo servo-mecanismo

foi

cunhado precisamente para designar máquinas com comporta-mento intrinsicamente propositado.

Após estas considerações, fìca claro que, embora

a

defìnição de comportamento propositado æja relativamente vaga e, portanto, com pouco sentido do ponto de vista operacional, o conceito de propósito é

rltil

e deveria, poftanto, s€r preservado.

O

comportamento ativo propositado pode ser subdividido em duas classes:

"reali-mentado"

Çeedback)

ou

"teleolôgbo",

e

"nfio

realimentado

(non'feedback)

ou "não teleológico".

A

palavra realimentação é usada pelos engenheiros em dois sentidos diferentes.

Num

sentido amplo, denota que parte da energia de safda de um aparato

ou

máquina

é

reconduzida

à

entrada;

como

exemplo pode-se

citar

o

amplifìcador elétrico com realimentação. Neste caso, a realimentação é positiva

-

afrtçÃo de salda

(3)

hmportamento, hopósito

e Telælogía 45

que entra novamente

no objeto

tem

o

mesmo sinal algébrico

(+

ou

-)

que o sinal original de entrada.

A

realimentaçõo positiva aumenta os sinais de entrada, ela não os corrige.

O

termo realimentação

é

também empregado

num

æntido mais restrito, para signifìcar que

o

comportamento de um objeto é controlado pela margent de erro dentro da qual, em determinado momento, o objeto se situa com referência a um objetivo relativamente especffìco.

A

realimentação é, neste caso, negativa, pois os sinais ¡rrove-nientes do objetivo são usados para restringir saldas que, de outra forma, ultrapassa-¡iam

o

objetivo.

É

neste segundo sentido que usaremos aqui o termo realimentação.

Todo comportarnento propositado pode ser considerado como exigindo reolirnen-tação negativa. Se um objetivo deve ser atingido, são necessários,em algum momento, sinais provenientes

do

objetivo, para

dirigir

o

comportamento. Designaremos por comportàmentos nâ'o realimentados aqueles

nós

quais não

sinais provenientes

do

objetivo que modifìcam a atividade

do

objeto durante a execaçlio

do

comporta-mento. Assim uma mdquina pode ser preparada para chocar-se com um objeto lumi-noso, embora ela

própria

seja insensfvel à

luz. Do

mesmo modo, uma cobra pode apanhar

um

sapo,

ou um

sapo apanhar uma mosca, sem nenhuma informação visual

(ou

outra) da presa, após

o inlcio

do movimento.

Étao

rápido o movimento nestes casos que não

é

provável que os impulsos nervosos tenham tempo para, surgindo na retina, dirigir-se para

o

sistema nervoso central, desencadea¡rdo novos impulsos que possam alcançar os mrlsculos em tempo para qualquer modificação efetiva do movi-mento.

Em

oposição aos exemplos considerados, o comportamento de algumas máquinas e algumas reaçoes dos organismos vivos envolveln uma realimentação contínua prove-niente do objetivo, que modifìca e guia

o

objeto em seu comportamento. Este riitimo

tipo

de comportamento

é

mais efetivo que o mencionado anteriormente, particular-mente quando o objetivo não é estaciondrio. Mas o controle por realimentação

coÍtÍnua

pode

con,luzir a um

comportamento bastante desajeitado se a realímentação, por estar inadequadamente amortecida, totnar-se, para certas freqüências de oscilação, positiva ao invés de negativa. Suponhamos, por exemplo, que uma máquina foi proje-tada com

o

objetivo de atingir

um

alvo luminoso móvel

-

a trajetória seguida pela máquina

é

controlada pela direção

e

intensidade da

luz

proveniente

do

objetivo. Suponhamos, além disso, que a máquina precipita-se em demasia ao perseguir

o

alvo em uma certa direção

e o

ultrapassa consideravelmente. Passar:f então a receber um estímqlo ainda mais

forte

a partir do alvo, que a impelirá na direção oposta. Se neste movimento ela novamente o ultrapasar, uma serie de oscilaçÕes cadavezmais amplas

irá ocorrer e a mdquina não atingirá o alvo.

Essa desirição

dos

efeitos

de uma

realimentação insuficientemente amortecida assemelha-se notavelmente ao que

é

visto durante a realizagÍo de um ato voluntdrio

por um

paciente cerebelar. Quando em repouso, este nÍ[o exibe nenhuma disfunção motorâ óbvia. Mas se lhe pedem para levar um copo de água da mesa para sua boca, a mão que catrega

o

copo executa uma série de movimentos oscilatórios de amplitude

(4)

46

A. Rosenblueth,

N.

IUiener e

f.

Biegelow

crescente,

à

medida que

o

copo se aproxima da boca

-- t

âgta acaba derramada e

o

propósito não

é

cumprido. Este teste é

tfpico

do desempenho

motor

desordenado

de

pacientes

com

afecções cerebelares.

A

analogia com

o

comportamento de uma máquina de realimentação n6o amortecida é tão vfvida que nos aventuramos a zugerir que a principal

funçfo

do cerebelo é o controle dos mecanismos nervosos de realimen-tação envolvidos na atividade motora propositada.

O

comportamento propositado realimentado pode ainda ser subdividido. Pode ser

extrapolativo (preditivo), ou não extrapolativo (não preditivo). As reações de

organis-mos

unicelulares conhecidas

como

tropismos sÍÍo exemplos

de

desempenhos não preditivos.

A

ameba simplesmente segue

a

fonte

à

qual

reage;

não há

evidência

de que

ela extrapole

a trajetória de uma fonte

móvel.

O

comportamento animal preditivo,

por outro

lado, é

um

lugar-comum. Um gato, ao iniciar a perseguiçlfo de

um rato

em movimento,

nÍio

corre diretamente em direção

à

região em que

o

rato se situa

num

dado instante, mas move-se, antes, em direção a uma posição futura extrapolada. Pode-se fornecer, também, prontamente, exemplos de servo-mecanismos, tanto preditivos como não preditivos.

O

comportamento

preditivo pode ser

subdividido

em

diversas ordens.

O

gato caçando

o

rato é um exemplo de prediçao de primeira ordem

-

o gato simplesmente prevê

a

trajetöria do rato.

Atirar

uma pedra em um alvo móvel requer uma predição de segunda ordem

-

devem ser previstas as trajetórias do alvo e da pedra. Exemplos

de

predições

de

ordem superior são

atirar

com uma funda

ou

com arco

e

flecha. O comportamento preditivo exige a discriminação de ao menos duas coordenadas, um eixo temporal e ao menos um eixo espacial. Contudo, a predição será mais efetiva e flexível se

o

objeto, em seu comportamento, puder responder a mudanças em mais de uma coordenada espacial. Os receptores sensoriais de um organismo, ou os elementos correspondentes

de

uma

máquina,

podem

limitar,

portanto,

o

comportamento

preditivo.

Assim,

um

cão de

caça segue

vma

pista,

isto

é,

não mostra nenhum comportariento preditivo

no

rastreamento, pois os estímulos olfativos, químicos, de

entrada, trazem apenas informação espacial: distância, indicada pela intensidade. As mudanças extemas capazes de afetar receptores auditivos ou, melhor ainda, visuais, permitem uma localização espacial mais precisa,

daí

a possibilidade de reações pre-ditivas mais eficientes quando a entrada afeta tais receptores.

Além das limitações impostas pelos receptores sobre a habilidade em realizar ações extrapolativas, podem ocorrer também limitações devidas

à

oryanizaçã,o interna do objeto cujo comportamento obseryamos. Uma máquina que deva rastrear preditivamente

um

objeto luminoso móvel não deve ser apenas sensível à luz (p. ex,, dispor de uma célula fotoelétrica), mas deve também ter a estrutura adequada para interpretar o sinal luminoso

de

entrada.

É

provável que essas limitações

da

organização interna, em

particular da

organização

do

sistema nervoso central, determinem

a

complexidade do comportamento preditivo que um mamífero pode exibir. Assim, é plausível pensar que

o

sistema nervoso de um rato ou de um cão seja tal que não permita a integração entrada'saída necessária para

o

desempenho de uma reação preditiva de terceira ou

(5)

C-omportamento,

hopösito

e Teleologia 47

quarta ordem. É possível, na realidade, que uma das características da descontinuidade

do

comportamento observada

ao

se comparar

o

homem com

outros mamlferos zuperiores repouse no fato de estarem estes mamlferos limitados a um comportamento preditivo de ordem inferior, ao passo que o homem é capaz, potencialmente, de ordens de previsão bastante elevadas.

A

classifìcação do comportamento até aqui sugerida.pode ser tabulada da æguinte maneira: 19 ordem de predição 29 o¡dem de predição Preditivo (extrapolativo) Proposil (teleológico) Ativo

Não preditivo (não extrapolativo)

alo realimento (não teleológico)

Comportamento

Não propositado (causal)

Não ativo (pasivo)

Vê-se, portanto, que cada uma das dicotomias estabelecidas isola arbitrariamente

um

aspecto julgado interessante, deixando um resíduo amorfo: a nãeclasse. Nota-se também que os critérios para as diversas clases dicotõmicas são heterogêneos. Assim, é ôbvio que muitos outros tipos de classificaçlo, independentes do desenvolvido acima, são igualmente possíveis. Desse modo,

o

comportamento em geral, ou qualquer dos grupos

da

tábua apreæntada, poderia

ær

dividido em linear (saída proporcional à

entrada)

e

não

linear. Uma

divisão em

contínuo e

descontínuo pode ser

fitil

para

muitos propósitos. Os

diversos graus

de

liberdade

que

o

comportamento exibe poderiam também ser empregados como baæ de sistematízação.

A

classifìcação acima tabulada

foi

adotada

por

diversas razões. Ela leva a ressaltar

a

classe

dos

comportarnentos preditivos,

uma

classe particularmente interessante,

pois

sugere

a

possibilidade

de

sistematizar testes cada

vez mais

complexos do comportamento

dos

organismos,

Ela

põe

ênfase

nos

conceitos

de propósito

e

teleologia, conceitos que, embora algo desacreditados

no

presente, são importantes, como

foi

mostrado. Finalmente, ela revela que uma análiæ comportamental uniforme

(6)

48

A. Rosenblueth,

N.

Wiener eJ. Biegelow

é

aplicável

tanto

a

máquinas

çanto a

organisrnos vivos, independentemente da complexidade do comportamento.

Afirma-se algumas vezes

que os

projetistas

de máçinas tentam

simplesmente

duplicar

o

desempenho

de

organismos vivos.

Tal

afirmação

é

precipitatla,

Não

é

zurpreendente que o comporlamento global de certas máquinas seja similar às reações

dos

organismos.

O

comportamento

animal inclui muitas

variedades

de todos

os possíveis modos de comportamento e as máquinas até agora construídas estão longe

de

exaurir todas essas possibilidades.

Há,

portanto, uma considerável zuperposþão entre esses dois planos de comportamento. Contudo, exemplos de máquinas feitas

pelo homem cujo

comportamento transcende

o

cornportamento humano podem facilmente

ser

encontrados. Máquinas que produzem sinais elétricos

de

saída são

um

exemplo, pois os homens, ao contrário das enguias, são incapazes de transmitir eletricidade.

A

rádietransrnissão

é

talvez

um

e,xemplo ainda melhor,

pois não

se

conhece

nenhum animal

capaz

de

gerar ondas curtas, mesmo

se

considerarmos seriamente os assim chamados experimentos em telepatia.

Uma

comparação adicional

entre

organismos vivos

e

máquinas

nos

conduz às

seguintes inferências. Os métodos de estudo dos dois grupos são atualmente similares. Se eles serlfo ærnpre os me$nos, isso depende, talvez, de haver ou não uma ou mais características peculiares, qualitativamente distintas,

que

estejam preæntes em um grupo e ausentes do outro. Essas diferenças qualitativas até agora não zurgiram.

As

clasæs amplas

de

comportamentos

sÍio as

mesmas

nas

máquinas

e

nos organismos

vivos.

Classes

mais

específicas

e

restritas podem ser encontradas, no entanto, exclusivamente nestes

ou

naquelas. Assim, não há ainda nenhuma máquina capaz de escrever um dicionário sânscrito-mandarim. Do mesmo modo, não se conhece organismo

vivo

que

role

sobre rodas

-

imagine-se qual

teria

sido

o

res¡ltado se os engenheiros tivessem insistido em copiar organismos vivos e tivesæm, portanto, posto pernas e pés em zuas locomotivas, em vez de rodas.

Se

a

análise comportamental

de

organismos vivos e máquinas é, em grande parte,

uniforme,

seu estudo

funcional

apresenta diferenças profundas.

Do ponio

de vista

estrutural,

organismos

são

basicamente

coloidais,

formados principalmente por moléculas de proteínas, grandes, complexas e anisotrópicas;máquinas são primariamente metálicas, formadas

por

moléculas simples.

Do ponto

de vista energético, máquinas apresentam

em

geral diferenças relativamente grandes de potencial, que permitem

uma

rápida mobilização de energia; em organismos,

a

energia está distribuída mais uniformemente

e

não é.

muito

móvel. Assim, em máquinas elétricas,

a

condução é

principalmente eletrônica,

ao

passo que

em

organismos as mudanças elétricas são uzualmente iônicas.

Alcance e flexibilidade são obtidos nas máquinas, em grande parte, pela mrftiplicação temporal

de

efeitos; freqiiÊnciæ de

um milhão

de ciclos

por

ægundo, ou mais, são

(7)

C-omportamento,

hopósìto

e Teleologia 49

a temporal, que é a regra; os desempenhos temporais são pobres

-

as fibras nervosas mais rápidas podem conduzir apenas cerca de mil impulsos por segrndo; a multiplicação espacial

é,

por

outro lado,

abundante

e

admirável

por

seu caráter compacto. Esta diferença

é

bem

ilustrada

pela

comparaçâ'o

entre

o

olho e um

receptor

de

TV.

O

receptor de televisäo pode ser descrito como um único cone da retina; as imagens são formadas por varredura

-

isto é, pela detecção ordenada e zucessiva do sinal com

uma taxa

de

vinte

milhões de ciclos

por

ægundo.

A

varredura é

um proceso

que raramente ou nunca ocorre em organismos, dado que requer freqüências rápidas para æu deæmpenho efetivo. O olho usa um multiplicador espacial, e não temporal. Em vez

do único

cone

do

receptor de televisão,

o

olho humano tem 6,5 milhões de cones, e cerca de I

l5

milhões de bastonetes.

Se hoje

um

engenheiro fosse projetar

um

robô, não tentaria construí-lo a partir de proteínas ou outros colóides, mas o faria, provavelmente, a partir de componentes metálicos e dielétricos, e muitas válvulas eletrônicas. Os movimentos do robô poderiam facilmente ser

muito

mais rápidos e poderosos do que aqueles do organismo original.

A

aprendizagpm

e

a

memória seriam,

no

entanto,

muito

rudimentares.

Nos

anos

futuros, ao

ampliar-se

o

conhecimento sobre colóides

e

proteínas, os engenheiros poderão tentar projetar robôs similares aos mamíferos, não apenas em comportamento como também em estrutura. O modelo máximo de um gato é, evidentemente, outro gato, seja este nascido de um terceiro gato ou sintetizado em um laboratório.

Ao

classifïcar

o

comportamento,

o termo 'teleologia" foi

usado como sinônimo de "propósito controlado por realimentação". No passado, a teleologia foi interpretada como implicando propósito, acrescentandose muitas vezes

o

vago conceito de uma "causa

final".

Esta idéia

de

causas

fìnais levou

à

oposição

entre

teleologia e

determinismo.

Uma

discussão sobre causalidade, determinismo

e

causas fìnais está além

do

escopo deste ensaio. Pode-se ressaltar, no entanto, que o caráter de ser

pro

posital Çturposefulness),

tal

como definido aqui, independe bastante da causalidade

inicial

ou

final.

A

teleologia

foi

desacreditada principalmente

por ter

sido defìnida como implicando uma causa subseqüente

no

tempo

a

um

efeito

dado.

Ao

se

rejei

tar

esse aspecto

da

teleologia,

contudo,

rejeitou-se também, infelizmente,

o

recù nhecimento, que lhe é associado, da importância do propósito. Visto que consideranios

o

caráter

de

ser proposital

como um

conceito necesário para

o

entendimento de

certos modos

do

comportÍrmento, sugerimos que

o

estudo teleológico é

útil,

se ele

evitar

os

problemas

da

causalidade

e

aplicar-se simplesmente

a uma

investigação do propôsito.

Restringimos a conotação de comportamento teleológico aplicando essa designação apenas

a

reações propositadas que são controladas pelo erro da reação

-

isto é, pela diferença entre o estado, num dado momento, do objeto que se comporta, e o estado

final,

interpretado

como

propósito.

Comportamento

teleolôgico

torna-se assim

sinônimo

de

comportamento

controlado

por

realimentação negativa; ganhando, portanto, em precisão, por ter uma conotação zuficientemente restrita.

(8)

5O A. Rosenblueth,

N.

Wiener eJ. Biegelow

De acordo com esta defìnição limitada, a teleologia não se opõe ao determinismo, mas

à

não

teleologia.

Tanto

os sistemæ teleolôgicos como os não teleológicos são

determinísticos,

quando

o

comportamento considerado pertence

ao domlnio

ao

qual

o

determinismo se aplica.

O

conceito de teleologia

tem

apenas uma coisa em comum com

o

conceito de causalidade:

um eixo

temporal.

A

causalidade, contudo,

implica uma

relação

funcional

unidirecional

e

relativamente irreversível, enquanto o que concerne þ teleologia é o comportamento e não relações funcionais.

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Referências

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