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AS PRÁTICAS EDUCATIVAS ENTRE OS CARREIROS DE MOSSÂMEDES:

FÉ E DEVOÇÃO AO DIVINO PAI ETERNO

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LUIZ ALBERTO VIEIRA RODRIGUES

AS PRÁTICAS EDUCATIVAS ENTRE OS CARREIROS DE MOSSÂMEDES:

FÉ E DEVOÇÃO AO DIVINO PAI ETERNO

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Goiás como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Educação, sob a orientação da Profª Drª Elianda Figueiredo Arantes Tiballi

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R696p Rodrigues, Luiz Alberto Vieira.

As práticas educativas entre os Carreiros de Mossâmedes : fé e devoção ao Divino Pai Eterno [manuscrito] / Luiz Alberto Vieira Rodrigues. ± 2011. 212 f. : il.

Tese (doutorado) ± Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Programa Pós-Graduação em Educação, 2011.

Orientadora: Profª Drª Elianda Figueiredo Arantes Tiballi. Bibliografia

Inclui lista de ilustrações e Anexos.

1. Carreiros ± práticas educativas e religiosas ± Mossâmedes (GO). 2. Divino Pai Eterno ± festa ± tradição ± cultura ± Trindade (GO). 3. Romaria ± tradição religiosa. 4. Cultura religiosa. 5. Festas religiosas. I. Título.

CDU: 398.33(817.3) (043.3) 264-945

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DEDICATÓRIA

Aos paroquianos das Paróquias Jesus de Nazaré e Nossa Senhora das Graças pela oportunidade que me deram para ingressar no doutorado e, em especial, à Arquidiocese de Goiânia, que não mediu esforços para custear as despesas durante todo o curso.

Aos meus colegas e professores do doutorado e aos amigos, que sempre me apoiaram nesta grande jornada, de modo especial ao professor Sérgio Araújo, o grande incentivador para este doutorado. Aos meus sobrinhos, irmãos e minha mãe, que convivem comigo, sempre dando a força necessária, nas horas difíceis, no decorrer do tempo.

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AGRADECIMENTOS

Ao Deus, o grande criador, que me deu sabedoria, saúde, discernimento, disponibilidade e vontade para continuar construindo o mundo e a sociedade, por meio dos conhecimentos adquiridos ao longo da minha história.

À minha mamãe, Deusila Maria Vieira, que do seu ventre materno me gerou para o mundo. Mulher simples, humilde e sábia. Ao meu papai, Alonso Rodrigues (in memória), coparticipante da minha vida em todos os momentos. À Raimunda Maria, minha irmã, pelo cuidado e dedicação comigo. Ao grupo dos Carreiros, aonde tive a oportunidade de trabalhar a pesquisa da tese, por intermédio das entrevistas, participação, observações, de modo especial aos Carreiros, o Sr. João de Deus e sua esposa, com sua simplicidade e inteligência que muito me ajudou, me acolhendo em sua casa todas as vezes nas andanças da pesquisa.

À Arquidiocese de Goiânia, de modo carinhoso, à pessoa de Dom Washington, que muito contribuiu com as despesas financeiras, durante o período do curso.

À professora, Dra. Elianda Figueiredo Arantes Tiballi, pela sua amizade, dedicação, maturidade, paciência, organização e capacidade no acompanhamento da orientação da tese.

Aos professores Doutores: Sergio de Araújo, Luiz Eduardo Jorge, Heloisa Selma Fernandes, Beatriz Aparecida Zanatta e Pietro Sassatelli (Marcos Sassatelli), pela disposição de participarem da banca examinadora de defesa desta tese.

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RESUMO

Esta tese teve como propósito a investigação das práticas educativas dos Carreiros no município de Mossâmedes, Goiás, para perpetuar a tradição da romaria em devoção ao Divino Pai Eterno na cidade de Trindade, Goiás. Assim a tese é evidenciada nas práticas educativas, transmitidas pelas gerações mais velhas às gerações mais novas; são responsáveis pela tradição da romaria dos Carreiros de Mossâmedes. Práticas educativas que não se realizam apenas pela religiosidade, mas também pelas demais atividades que constituem o cotidiano deste grupo, como por exemplo: o trabalho na lavoura, cuidado com os animais, os serviços domésticos, especialmente o preparo dos alimentos, o mutirão para a ajuda na realização de determinada tarefa etc... Entretanto, estas práticas sustentam o aspecto religioso que prepondera na tradição da romaria dos Carreiros de Mossâmedes. Essas são práticas educativas e religiosas, exercitadas no dia a dia, como experiência de vida, transmitida na inter-relação sociocultural, filtradas e estabelecidas como costume que, na sua duração temporal, se transformaram em uma tradição educativa, religiosa e cultural. A problemática fundamental desta pesquisa: que práticas educativas são utilizadas para perpetuação da romaria dos Carreiros de Mossâmedes? Como eles transmitem para seus sucessores, a nova geração, a devoção, a tradição da peregrinação e o ritual da romaria ao Divino Pai Eterno? Quem são os sujeitos e instituições que contribuem para a manutenção da devoção e quem dela se beneficia? Objetivou-se nesta pesquisa explicitar e perceber como as práticas educativas são importantes para a perpetuação da romaria, como elas se constituem historicamente e em que elas contribuem para a preservação da romaria ao Divino Pai Eterno e porque numa romaria as pessoas percorrem longas distâncias em busca de um conteúdo simbólico do sagrado. Para apreender essas práticas educativas que delineiam o grupo dos Carreiros de Mossâmedes utilizou-se a metodologia da história oral, por meio da entrevista, da observação e da etnofotografia. Este estudo etnográfico resultou na compreensão da constituição deste grupo que, por meio da cultura, da educação, da memória, da tradição e da romaria vem mantendo por mais de meio século a tradição religiosa da devoção ao Divino Pai Eterno, na cidade de Trindade, Goiás. Nesse universo diferenciado dos Carreiros de Mossâmedes, nos símbolos, nas práticas cotidianas, culturais e religiosas encontram-se a presença marcante do sagrado. É esta tradição que mantém toda a harmonia da vida Carreira. A segurança para tudo isso é a fé no santo. É por meio da fé, que as práticas diárias desses homens e mulheres se transformam em meios de alcançar o seu objetivo: a busca da integração religiosa e social.

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ABSTRACT

This research paper proposes to investigate the educational practices of the Carriers (Carreiros) of Mossâmedes ± Goiás, to perpetuate the tradition of an annual pilgrimage in honor of the Divine Eternal Father in the city of Trindade ± Goiás. The thesis is proven by the educational practices which are transmitted by the older to the younger generations; these are responsible for the tradition of the pilgrimage of the Carriers (Carreiros) of Mossâmedes. The educational practices are not merely realized in the sphere of religion, but also through the other activities exercised on a daily basis by the group, such as: agricultural work in the fields, taking care of animals, domestic chores, principally the preparation of food, the help that members of the community give to each other to realize a specific enterprise, etc. However, these practices sustain the religious aspect which is preponderant in the tradition of the pilgrimage of the Carriers (Carreiros) of Mossâmedes. They are educational and religious practices exercised day after day as a life experience, transmitted in the social cultural relations, filtered and established as custom which, in their temporal duration are transformed into a educational, religious and cultural tradition. The fundamental set of problems that this thesis will attempt to resolve is: what educational processes are used to perpetuate the pilgrimage of the Carriers (Carreiros) of Mossâmedes, how are the devotion, the tradition and the rituals of the pilgrimage to the shrine of the Divine Eternal Father are transmitted to succeeding generations, who are the subjects and the institutions that contribute to maintain the devotion and who benefits from it. The object of this research paper is to explain how the educational practices are important for the perpetuation of the pilgrimage of the Carriers (Carreiros) of Mossâmedes, how they came into being historically, how they contribute for the preservation of the pilgrimage to the Sanctuary of the Divine Eternal Father in Trindade and why people would travel long distances to obtain a symbolic content of the sacred. In order to understand the educational practices that delineate the group of the Carriers (Carreiros) of Mossâmedes the methodology of oral history has been used by way of interviews, observation and ethnographic photography. This ethnographic study resulted in the understanding of the constitution of this group which, by means of culture, education, memory and tradition of the pilgrimage has maintained for more than half a century the religious tradition of the devotion to the Divine Eternal Father in the city of Trindade, Goiás. A distinct presence of the sacred can be found in the symbols, the daily cultural and religious practices of the differentiated universe of the Carriers of Mossâmedes. It is this tradition that maintains harmony in the cart drivers lives. Their security is in their faith in the sacred. Through their faith the daily practices of these men and women are transformed into means of arriving at an objective: the search for the religious and social integration of the group.

Key words: culture, education, pilgrimage, educational practice, Cart Drivers from Mossâmedes (conductors of carts that are driven by teams of cattle from Mossâmedes to Trindade in Goiás, Brazil).

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...12

Sobre as Categorias de análise...12

a) Romaria...12 b) Memória...15 c) Tradição...18 A escolha da metodologia...20 Os procedimentos investigativos...22 a) Entrevista...22 b) História oral...23 c) Etnofotografia...25 CAPÍTULO I ...28

1- A ROMARIA DOS CARREIROS ± DE MOSSÂMEDES A TRINDADE...29

1.1. A cidade e o município de Mossâmedes...29

1.2. Os Carreiros de Mossâmedes: história e identidade cultural...30

1.2.1 Caracterização dos Carreiros...33

1.2.2. Local e moradia dos Carreiros...35

1.2.3. Sociabilidade dos Carreiros...36

1. 3. O carro de bois...38

1. 3.1. Lotação do carro de bois...41

1. 4. Percurso da romaria ± de Mossâmedes a Trindade...42

1.5. A cidade e o município de Trindade...46

1.6. O desfile dos carros de bois...48

1.7. Os Carreiros em Trindade...50

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CAPÍTULO II...57

2. AS PRÁTICAS EDUCATIVAS DOS CARREIROS DE MOSSÂMEDES...58

2.1. Educação- uma prática sócio-cultural...58

2.2. Educação e Cultura se substanciam e se interagem...59

2.2.1. A educação popular, uma ação cultural entre os sujeitos...64

2.3. As práticas educativas: uma apreensão da cultura...69

2.4. Romaria dos Carreiros de Mossâmedes: um exercício contínuo de educação e cultura...76

2.4.1. As atividades de aprendizado...82

CAPÍTULO III...88

3. CULTURA E EDUCAÇÃO...89

3.1. A diversidade da cultura: conceituação e interpretação...89

3.2. Cultura popular: uma ação do sujeito social...92

3.3. A religião popular, um dos elementos da cultura...95

3.3.1 A festa religiosa: um dos elementos da religião popular...99

3.4. A romaria expressão de um processo educativo/cultural...102

CONSIDERAÇÕES FINAIS...114

TEXTO ETNOFOGRÁFICO DAS PRATICAS EDUCATIVAS ENTRE OS CARREIROS DE MOSSÂMEDES: FÉ E DEVOÇÃO AO DIVINO PAI ETERNO...119

Lâmina 1 ± vista parcial da cidade de Mossâmedes...120

Lâmina 2 ± vista panorâmica da Serra Dourada...121

Lâmina 3 ± igreja de São José de Mossâmedes...122

Lâmina 4- mapa de Goiás visualizando o município de Mossâmedes...123

Lâmina 5 ± vestuária e identificação carreira...124

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Lâmina 6a ± culinária em função da romaria...126

Lâmina 7 ± as refeições diárias...127

Lâmina 8 ± estradas vicinais (municipais)...128

Lâmina 9 ± fazendas de residências de carreira...129

Lâmina 10 ± residências rurais de Carreiro, com detalhes...130

Lâmina 10a ± interior das residências de Carreiros...131

Lamina 10b ± utensílios domésticos...132

Lâmina 11 ± o carro de bois e sua composição...133

Lâmina 11a ± composição do carro de bois...134

Lâmina 12 ± objetos que serão levados na romaria...135

Lâmina 13 ± alimentos para doação, frutos da produção anual...136

Lâmina 14 ± partida para a romaria ± a reza e despedida...137

Lâmina 14a ± inicio da viagem da romaria...138

Lamina 15 ± percurso (trajeto) da viagem dos Carreiros...139

Lâmina 16 ± chegada ao pouso para o descanso e pernoite...140

Lâmina 16a ± no pouso à tarde e à noite...141

Lâmina 17 ± mulas (alternativas)...142

Lâmina 18 ± a cidade de Trindade...143

Lâmina 19 ± mapa do Estado de Goiás visualizando o município e a cidade de Trindade...144

Lâmina 20 ± espera para inicio do desfile...145

Lâmina 20a ± desfile dos carros de bois pelas ruas de Trindade...146

Lâmina 20b ± desfile dos carros de bois e Carreiródromo...147

Lâmina 21 ± trajeto do desfile dos carros de bois em Trindade...148

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Lâmina 22a ± acampamento em Trindade...150

Lâmina 22b ± acampamento em Trindade...151

Lâmina 22c ± acampamento em Trindade...152

Lâmina 22d ± acampamento em Trindade...153

Lâmina 23 ± as refeições no acampamento em Trindade...154

Lâmina 24 ± comércio, barraquinhas e parques de diversões...155

Lâmina 24a ± pedintes (mendigos) durante os dias da festa...156

Lâmina 25 ± santuário velho do Divino Pai Eterno...157

Lâmina 25a ± santuário novo ± Basílica do Divino Pai Eterno...158

Lâmina 26 ± fé e os milagres...159

Lâmina 27 ± Missa com os Carreiros...160

Lâmina 27a ± procissão e celebração de encerramento da festa...161

Lâmina 28 ± as práticas educativas diárias de Carreiros...162

Lâmina 28a ± as práticas educativas diárias de Carreiros...163

Lâmina 29 ± cultura religiosa como forma de educação...164

BIBLIOGRAFICA...165

ANEXOS...170

ANEXO I: GRUPOS FAMILIARES OBSERVADOS ± CRITÉRIOS...171

ANEXO II: GRUPOS DE ENTREVISTADOS...174

ANEXO III: ROTEIRO DAS ENTREVISTAS...176

ANEXO IV: TRANSCRIÇÃO DAS ATIVIDADES...177

ANEXO V: ENTREVISTAS INFORMAIS ± DIÁRIO DE CAMPO...196

ANEXO VI: TRAJETO (PERCURSO) DOS CARREIROS NA ROMARIA...208

ANEXO VII: ROTEIRO PARA OBSERVAÇÕES DOS CARREIROS...209

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INTRODUÇÃO

Carreiros de Mossâmedes é a denominação de um grupo que vem mantendo a tradição religiosa de percorrer, anualmente, em carros de bois, o caminho que leva à cidade de Trindade, para participar da festa religiosa em louvor ao Divino Pai Eterno.

A festa ao Divino Pai Eterno é uma tradição da religiosidade popular goiana, com quase 150 anos de existência, que ganhou adeptos de todas as regiões do Brasil e de vários outros países. Trindade, cidade localizada a uma distância de 18 km de Goiânia recebe, por ocasião da festa ao Divino Pai Eterno, aproximadamente 500 mil peregrinos, considerada hoje um dos mais importantes centros de peregrinação e fé do Brasil (SILVA, 2001).

Pela mobilização da população católica, esta festa tornou-se uma expressão da cultura religiosa em Goiás e hoje compõe o contexto cultural do Estado. Este fato justifica estudos investigativos que tomam como objeto a manifestação religiosa dos que participam desta tradição cultural goiana.

Neste âmbito, situa-se esta pesquisa que tem como tema central as ações educativas praticadas pelos Carreiros de Mossâmedes para perpetuar a tradição da romaria em devoção ao Divino Pai Eterno.

A escolha desta temática deveu-se, portanto, à sua importância para o registro e análise da história cultural religiosa de Goiás e, também, à identificação e à familiaridade do autor desta pesquisa com esse grupo cultural, por vir de família humilde, lavradora e remanescente do mundo cultural rural.

Os laços de amizades, os parentescos, as práticas diárias, educativas e religiosas são experiências de vida transmitida na inter-relação sociocultural que, por sua duração temporal, se transformam em uma tradição educativa, religiosa e cultural entre os Carreiros. Assim, romaria, memória e tradição são categorias de análise imprescindíveis para a compreensão das relações entre os sujeitos que compõem o grupo de Carreiro de Mossâmedes e de sua romaria ao Divino Pai Eterno, em Trindade - Goiás.

Sobre as categorias de análise

a) Romaria

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para onde se dirigiam as primeiras peregrinações católicas.

Segundo Martins (2010, p. 08-11), a romaria é marcada pelo ato de peregrinação a um local sagrado, no exercício de sacrifícios, rituais, devoção e promessas de romeiros, movidos SHOD Ip $VVLP0DUWLQV  HQWHQGHDURPDULDFRPRXPD H[SHULrQFLDGH ³FDUDFWHUtVWLFD Q{PDGH>@VHQWLGRGHYLDJHPSHQLWHQFLDOXPULWXDOGHFKHJDGDHYROWD´HPTue as pessoas são levadas ao encontro de

poderes celestiais, deslocando-os por alguns momentos do lugar em que estão, ocorrendo uma ruptura no cotidiano estático e sólido do sujeito para uma busca de lugar mágico, desconhecido, mas que proporcionará a segurança tão desejada pelo individuo (BRANDÃO, apud MARTINS, 2010, p. 12).

A romaria, sendo uma jornada realizada essencialmente por motivos religiosos a um santuário, a um lugar sagrado e milagroso, para pedir graças especiais ou cumprir promessas pelas graças recebidas, pode ser também entendida na dualidade do profano e do sagrado, onde os dois se misturam na mesma composição, visto que no cotidiano das pessoas estão presentes tanto o mal como o bem, o imaginário do castigo e da penitência, assim como a bênção e os rituais sagrados.

A romaria é também entendida como devoção popular, que se define como a reunião de uma multidão de pessoas ou grupo em torno de uma crença a um santo; uma devoção que, pela sua característica, denomina-se de prática oral de religiosidade popular a rezar e fazer pedidos aos seus santos preferidos. As pessoas, na demonstração da fé, se sujeitam aos últimos limites, para a proximidade com o sagrado.

Isso significa reafirmar que a romaria é grande portadora de tradição. Mesmo que esta tradição seja reinventada, sempre objetiva legitimar os valores culturais e religiosos de um grupo específico, por meio de uma simbologia.

Para Carvalho (2007), a romaria oferece um amplo repertório simbólico e de ritos, conservados pelos sujeitos no âmbito da superação das transformações geradas pelos tempos atuais.

Quando evocam a tradição, esses diversos atores pretendem, na verdade, acionar um estoque de referências religiosas e práticas rituais que foram sendo acumuladas em torno do santuário, com ou sem o selo da ortodoxia, mas que hoje são usadas para socializar seus sistemas de ideias e padrões de comportamentos (STEIL, apud CARVALHO, 2007, p. 64).

A romaria é, portanto, uma organização religiosa popular que independe da religião oficial. As pessoas são livres e se contagiam pelo universo simbólico em toda jornada de uma

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romaria, seja no meio rural, pela fé ao santo, seja pelos valores culturais que se encontram nos centros urbanos. Assim a

romaria é uma forte tradição religiosa rural, que objetiva o fortalecimento dos laços comunitários, mas convive em harmonia com valores culturais urbanos e individualistas, que objetivam realizações pessoais. São valores aparentemente antagônicos, mas que se interagem (CARVALHO, 2007, p. 95).

Sanchis (2010, pp. 85-86) vê na romaria uma manifestação religiosa, sincrética em PRYLPHQWRWLSLFDPHQWH³RULHQWDGDSDUDXPDVDFUDOL]DomRGDH[LVWrQFLDKXPDQDQDVXDSUySULD GLPHQVmR SURIDQD´ 6HJXQGR HVWH DXWRU D URPDULD Mi VH ID]LD SUHVHQWH QD VHQVLELOLGDGH religiosa local desde a Alta Idade Média. [...] Uma manifestação popular religiosa que preenchia o imaginário religioso das populações. A romaria é a peregrinação que, por vezes, VHWRUQDSHQRVDGRORURVD³PDVFKHLDGHHQFDQWRV´SDUDRSHUHJULQRTXHYDLDXPVDQWXirio próximo ou longe.

A romaria é algo inexplicável aos olhos da razão, mas para a gente simples é o modo de perceber, seja no momento de alegria ou de aflição, de criar gestos e preces a uma GLYLQGDGH1DFRQFHSomRGH-DFRE S HOD³DFRQWHFHHQtre as pessoas mais simples, QRV OXJDUHV PDLV REVFXURV´ H VH SURMHWD QD KLVWyULD GR SRYR VHQGR PRYLGD SRU XP LGHDO comum. O peregrino se desloca de seu lugar rotineiro em busca de um lugar predileto, onde haja a divindade para adoração.

Para compreender o extraordinário é preciso crê. O extraordinário não se explica e nem se compreende sem fé. Então, nunca será possível entender uma peregrinação, seja ela cristã ou não, se o observador não cultivar a transcendência do espírito. Nunca será possível aceitar o milagre ou o extraordinário analisando-o simplesmente à luz da razão. A razão pode compreender o ordinário, o extraordinário necessita da mesma forma, de extra-razão. O motivo que leva o homem a buscar os lugares santos excede a luz da razão, é coisa interior, do espírito, e não da carne (JACÓB, 2010, p. 310).

A romaria de Trindade é entendida, ainda por Jacob (2010), como a maior manifestação religiosa do Brasil Central, e teve início no século XIX, no sertão de Goiás, entre gente simples, esquecida e dominada pelas autoridades políticas. Para isso, o autor cita a doutrina positivista de Comte, o racionalismo, o naturalismo e o liberalismo, aliados à UHYROXomRLQGXVWULDOHDRPDQLIHVWRFRPXQLVWDGH0D[FRPRIDWRUSULQFLSDOTXH³IHUPHQWDYD as mentes LQWHOHFWXDLV´ SDUD R PDWHULDOLVPR QR GHFRUUHU GR VpFXOR ;,; (P *RLiV HVVD VLWXDomR QmR IRL GLIHUHQWH ³2 SRYR HVTXHFLGR VREUHYLYLD HP PHLR j PLVpULD PDWHULDO H HVSLULWXDOSRLVWDPEpPUHOLJLRVDPHQWHHVWDYDDEDQGRQDGR´

Mas, são estranhos os caminhos da fé. Ao apelo do desapego total do homem para as causas da fé, o povo respondeu com inúmeras manifestações de busca do espiritual que ainda hoje impressionam e intrigam. O século XIX foi marcado por este

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paradoxo: apologia ao ateísmo e o nascimento de grandes centros de peregrinações que o mundo ainda reverencia. A França é o próprio exemplo desta assertiva: enquanto seus maiores filósofos disseminavam a descrença no meio do povo, por meio de uma humilde adolescente camponesa, em 1858, surgia o Santuário de Lourdes, o mais conhecido da terra (JACOB, 2010, p. 21).

Contudo, em meio a uma dicotomia de descrenças amparada pelas ideias dos grandes filósofos do passado, o povo do sertão de Goiás, o arraial do Barro Preto, hoje, Trindade, voluntariamente se reunia em volta de uma medalha de barro, representando o coração da Virgem Maria, pela Santíssima Trindade, encontrada pelo casal Constantino e Ana Rosa Xavier, dando início a mais uma manifestação religiosa no centro do Brasil, a romaria do Divino Pai Eterno.

Por fim, a romaria abrange os contextos históricos e geográficos, quando entre as pessoas há algo em comum, sobretudo o costume de percorrer grandes distâncias, rumo a locais especiais para receber graças, favores espirituais, cumprimento de promessas, agradecimentos e todo um conteúdo simbólico/religioso, apesar do enfrentamento das dificuldades das longas distâncias, além da fome, sede, doenças e outras intempéries no percurso de uma romaria.

b) Memória

Nos dias de hoje, há sempre um testemunho do passado. As lembranças do passado são relatadas pelas pessoas mais velhas e posteriormente lembradas pelas mais jovens. No HQWHQGHUGH%RVL S WRGDVDVOHPEUDQoDVIRUDPLQVSLUDGDVQDV³FRQYHUVDVFRPRV RXWURV´TXHFRPRSDVVDUGRWHPSRHQULTXHFHm as experiências do hoje. Assim, a memória se desenvolve a partir dos laços sociais, de amizade e familiares. Explica Bosi (1987), que as lembranças são constituídas:

a partir dos laços de convivência familiares, escolares, profissionais. Ela entretém a memória de seus membros, que acrescenta, unifica, diferencia, corrige e passa a limpo. Vivendo no interior de um grupo, sofre as vicissitudes da evolução de seus membros e depende de sua interação [... Enquanto que], cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva. Nossos deslocamentos alteram esse ponto de vista. Pertencer a novos grupos nos faz evocar lembranças significativas para este presente e sob a luz explicativa que convém à ação atual. O que nos parece unidade é múltiplo. Para localizar uma lembrança não basta um fio de Ariadne, é preciso desenrolar fios de meadas diversas, pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos, é um ponto complexo de convergência dos muitos planos do nosso passado (HALBWACHS apud BOSI, 1987, pp. 332-325).

Portanto, o grupo social, as instituições e a família são suportes para a identificação da memória. Essas organizações interferem na memória coletiva, ou seja,

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como o lugar que alguém ocupa na consideração de seu grupo de convivência diária, onde há desigualdade de pontos de vista, uma repartição desigual de apreço. O membro amado por todos terá suas palavras e gestos anotados e verá com surpresa, anos depois, seus menores atos lembrados e discutidos (BOSI, 1987, p. 337).

Em compensação, Bosi (1987, p. 339), ao tratar da memória coletiva, afirma que esta SRGH VHU XP SHULJR j PHPyULD LQGLYLGXDO SRUTXH ³R WHPSR VRFLDO DEVRUYH R WHPSR LQGLYLGXDO´(DUHVSHLWRGHVWHSHULJRHODHVFUHYH

se a memória grupal pode sofrer os preconceitos e tendências do grupo, sempre é possível um confronto e uma correção dos relatos individuais e a história salva-se de espelhar apenas os interesses e distorções de cada um. A memória pode percorrer um longo caminho de volta, remando contra a corrente do tempo. Ela corre o perigo de desviar-se quando encontra obstáculos, correntes que se cruzam no percurso. São as mudanças, os deslocamentos dos grupos, a perda de um meio estável em que as lembranças pudessem ser retomadas sempre pelos que as viveram. As transformações profundas por que passa a família, a perda e a chegada de novos membros são pontos de partida. Atrás deles os caminhos se perdem, descontínuos, apagados (BOSI, 1987, pp. 341-342).

Contudo, Segundo Bosi (1987), é por meio das lembranças formadas dentro de um grupo doméstico, na parentela de tios, primos e padrinhos que a memória é constituída. Na família, ainda há laços de coesão entre seus membros. Aquilo a que se refere Halbwachs, quando diz que à instituição familiar importa muito mais a experiência dos sujeitos, independentemente do status, dinheiro, prestígio.

Memória coletiva é integração, porque as ideias e as lembranças são inspirações de FRQYHUVDVFRPRXWUDVSHVVRDVTXHFRPRGHFRUUHUGRWHPSRYmRVHWUDQVIRUPDQGRHP³XPD KLVWyULD´QDPHQWHGDVSHVVRDV, como afloramento de experiências de vida. Assim acontece a sociabilidade entre os sujeitos.

Em consenso com Bosi, Carvalho (2007, p. 17) também fala da importância da memória. Para este autor, esta se dá pela simbolização do passado na reestruturação do SUHVHQWH HP GLUHomR DR IXWXUR (OD DSUHVHQWD XP ³FRQMXQWR GH DWLYLGDGHV FHUHEUDLV TXH permite ao [sujeito] a capacidade de armazenar, conservar e atualizar informações UHSUHVHQWDGDV´QRSDVVDGR

Segundo Carvalho (2007, pp. 17-22), nos estudos de Halbwachs, encontram-se descritos dois tipos de memórias: a memória individual e a memória coletiva. Na memória LQGLYLGXDOHVWmR³DVIXQo}HVSVtTXLFDV´TXHSRVVLELOLWDP³FRQVHUYDUFHUWDVLQIRUPDo}HV´QDV TXDLVR³KRPHPSRGHDWXDOL]DULPSUHVV}HVRXLQIRUPDo}HVSDVVDGDV´$PHPyULDLQGLYLGXDO Vy H[LVWH ³QDV SHUFHSo}HV SURGX]LGDV SHOD PHPyULD FROHWLYD´ RX VHMD ³FRQVHUYD-se na PHPyULDGRVRXWURVGDtSRGH VHUDSUHHQGLGDSHOD PHPyULDFROHWLYD´3RUWDQWRQmRpXPD memória isolada. Na memória coletiva é o sujeito que recorda. As lembranças se

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desenvolvem. A memória coletiva depende das investigações da memória individual, porque ³RLQGLYtGXRFDUUHJDHPVLDOHPEUDQoDPDVHVWiVHPSUHLQWHUDJLQGRFRPDVRFLHGDGH>FRP@ JUXSRVHLQVWLWXLo}HV´DTXHSHUWHQFHPRVVXMHLWRV

Para Carvalho (2007, p. 23), a memória coletiva se identifica coletivamente e é explicada pela experiência e pelo passado vivido pelos participantes de um mesmo grupo. (VWD³QmRHVWiVyOLJDGDjVLPDJHQVGRSDVVDGRGRLQGLYtGXRPDVGDVRFLHGDGH´HVXDIXnção SULQFLSDO p ³GDU VHQWLGR DR SUHVHQWH GH XP JUXSRRX GH XP LQGLYtGXR´ 3RUWDQWR GHYH VHU ³UHFRQKHFLGDHFRQVWUXtGD´HPXPDLQWHJUDomRVRFLDO

a memória individual pode, para confirmar algumas de suas lembranças, precisá-las, e mesmo para cobrir algumas de suas lacunas, apoiar-se sobre a memória coletiva, deslocar-se nela, confundir-se momentaneamente com ela, mas nem por isso deixa de seguir seu próprio caminho, e todo esse aporte exterior é assimilado e incorporado progressivamente à sua substância. A memória coletiva, por outro lado, envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas (HALBWACHS apud CARVALHO, 2007, p. 24).

Carvalho (2007, p. 25) declara que a memória é sempre viva e não pode ser confundida com a história escrita. Essa se inicia quando não há mais a memória, ou seja, o seleiro, as possibilidades de lembranças e trabalho, ou quando não há mais suporte no grupo social. Daí a história se sobressai para guardar as lembranças na extinção de um grupo, enquanto que a memória coletLYD VH GHVHQYROYH ³QXP TXDGUR HVSDFLDO´ TXH GXUD H QHVVH HVSDoR Ki ³LPDJLQDomR´ H ³SHQVDPHQWR´ FDSD]HV GH UHFRQVWUXLU H UHID]HU DV OHPEUDQoDV H experiências do passado dos sujeitos.

Nessa percepção, Filloux (1966, p. 07) assegura que as lembranças são sistemas que VXEVLVWHPHQTXDQWRDPHPyULDVREUHYLYHUHPXPJUXSR³/HPEUDUpHYRFDURSDVVDGRUHYHU RVREMHWRVMiYLVWRVSHQVDUQRVOXJDUHVXPGLDYLVLWDGRVQDVUHODo}HVGHRXWURUD´

Fica então evidente a concordância entre as teses de Halbwachs e Bosi, como também os relatos de Jaques Le Goff (1996, p. 434), todos concordam que a memória é a propriedade de conservar as informações do passado. Memória como o conjunto de funções psíquicas, onde os sujeitos atualizam as impressões ou informações passadas. A memória resgata e intervém nos vestígios do passado. Assim se compreende que na memória há fenômenos ELROyJLFRV RX SVLFROyJLFRV HVWHV IHQ{PHQRV VHUmR FRQILUPDGRV j ³PHGLGD HP TXH D RUJDQL]DomRJUXSDOVRFLHWDORVPDQWpPRXRVUHFRQVWLWXL´

Desse debate, depreende-se que somente a memória garante uma continuidade da história humana no tempo e no espaço. Esse tempo, para Rousso (2000, p. 94), na reflexão de 0DXULFH+DOEZDFKVPXGDHSHUPLWHUHVLVWLUjDOWHULGDGHH³jVUXSWXUDVTXHVmRRGHVWLQRGH

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toda a humDQLGDGH´Sendo assim, a memória é uma das categorias inseridas nas experiências dos sujeitos mais velhos. Experiências que os mais novos vão adquirindo ao longo do tempo. Trata-se de lembranças do passado, vivas no presente, por meio da história dos sujeitos.

c) Tradição

Falar de tradição é falar de crença, de memória e de costumes dentro da cultura de um povo, na transmissão oral dos conhecimentos e das práticas de hábitos que perpetuam nos grupos. Para justificar e sustentar essa tese, Porto (1997) explica que a tradição como algo que é passado de geração para geração, onde as mudanças e continuidades são experimentadas pelos sujeitos envolvidos no processo cultural. A tradição de um povo, no entanto, tem sua continuidade pautada na interação com o presente, que estabelece a ligação com o passado, respondendo às modificações inevitáveis que ocorrem no grupo, ou seja, a continuidade sustentada pelo vínculo do presente com o passado.

Para Hobsbawn (1997), a tradição é:

um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas. Tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento por meio da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado (HOBSBAWN, 1997, p. 9).

Em contrapartida, para Hobsbawn (1997, p. 10), a tradição é uma invenção, porque esta se diferencia do costume nos seguintes termos: enquanto a tradição inventada é caracterizada por sua invariabilidade, o costume tem a dupla função: motor e volante. A WUDGLomR QmR SHUPLWH DV ³LQRYDo}HV´ XPD YH] TXH D VXD IXQomR p UHVLVWLU j LQRYDomR ³$ decadência do costume, inevitavelmente, modifica a tradição à qual ele geralmente está DVVRFLDGR´$WUDGLomR

não possui nenhuma função simbólica nem ritual importante, embora possa adquiri-las eventualmente. É natural que qualquer prática social que tenha de ser muito repetida tende, por conveniência e para maior eficiência, a gerar um certo número de convenções e rotinas, formalizadas de direito ou de fato, com o fim de facilitar a transmissão do costume (HOBSBAWN, 1997, p. 11).

A palavra tradição é descrita como um termo neutro, empregado para designar transmissão, geralmente oral, de atividades, gestos ou crenças do passado de uma geração a outra. Por meio da tradição, os modos de vida, costumes, elementos do vestuário, da alimentação e outros são perpetuados.

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A tradição, para Ferretti (2009), traz na sua essência dois sentidos opostos: a transmissão e a traição. Esses dois lados se configuram na linha GH WRGD ³SUREOHPiWLFD UHOLJLRVD´'HXPODGRDSDODYUDWUDGLomRVLJQLILFD

(1) transmissão; (2) transmissão oral de lendas e fatos; (3) de valores entre gerações; (4) prática resultante de transmissão oral; (5) recordação, memória; (6) testemunhos conservados ou desaparecidos. [Do outro lado,] a palavra traição [...] significa: (1) ato de trair; (2) crime de entrega ao inimigo; (3) deslealdade; (4) infidelidade. [Segundo o Dicionário de Ciências Sociais, tradição designa transmitir oralmente, atividades, gostos ou crenças do passado, de uma geração a outra. Assim sendo, compreende como tradição, os] modos de vida, costumes, elementos dos vestuários, da alimentação e outros, são perpetuados. [...] conhecimentos e preconceitos acumulados. [...] Os elementos transmitidos recebem o status de tradições, considerado de valor e dignos de serem aceitos, como fatores de coesão do grupo social. [...] Continuidade, venerabilidade, sabedoria coletiva, herança dos antepassados. [...] fonte de legitimidade ou base da autoridade e ainda acúmulo de experiência pragmática (FERRETTI, 2009, p. 03).

Segundo afirmativa de Ferretti (2009, p. 04), na visão de Hobsbawn, a tradição é definida como um conjunto de elementos contidos nas experiências dos sujeitos de uma FXOWXUD(OD³VHFDUDFWHUL]DSHODLQYDULDELOLGDGHGHSUiWLFDVIL[DVHUHSHWLGDV´

Por outro lado, a tradição tem sentido de um segmento histórico de uma estrutura social, em que esta depende das instituições que se identificam com as relações políticas e econômicas. Ela pode ser de organização social e cultural, ou de interesse de um grupo específico.

/DPD\RULDGHODVYHUVLRQHVGHOD³WUDGLFLyQ´SXGHQVHUUiSLGDPHQWHGHPRVWUDGDVHQ su modalidad radicalmente selectiva. A partir de un área total posible del pasado y el presente, dentro de una cultura particular, ciertos significados y prácticas son selecionados y acentuados y otros significados y prácticas son rechazados o excluídos. [...]. La relación entre las instituiciones culturales, políticas y econômicas son muy complejas, y la esencia de estas relaciones constituye una directa indicación del carácter de la cultura en un sentido amplio. No obstante, nunca se trata de una mera cuestión de instiuiciones formalmente identificables. Es asimismo un cuestión de formaciones: los movimentos y tendências efectivos , en la vida intelecutal y artística, que tienen un influencia significativa y a veces decisiva sobre el desarrollo activo de una cultura y que presentan una relación varilable y a veces solapada con las instituciones formales (WILLIAMS, 2000, pp. 138-139).

Mas, tradição difere de costume. Os costumes podem ser codificados ou não, justificados, visíveis ou descritos. Um costume se encontra tanto na área rural quanto nas áreas manufatureiras. Um exemplo típico que caracteriza o costume:

o aprendizado, como iniciação em habilitações dos adultos não se restringe à sua expressão formal na manufatura, mas também serve como mecanismo de transmissão entre gerações. A criança faz aprendizado das tarefas caseiras, primeiro junto à mãe ou avó, mais tarde [frequentemente], na condição de empregado doméstico ou agrícola. No que diz respeito aos mistérios da criação dos filhos, a jovem mãe cumpre seu aprendizado junto às matronas da comunidade. O mesmo acontece com os ofícios que não têm um aprendizado formal. (THOMPSON, 2002, pp. 17-18).

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Para Thompson (2002, p. 22), os costumes sempre trazem algo em si de concreto e são associados e inseridos a uma determinada realidade histórica, dialética e social. O costume são os ajustamentos de interesses da coletividade, os sentimentos e emoções, servindo-se os GDGRVSDUD³H[FOXLURVIRUDVWHLURV´

Na explicação de Santos (2001), a tradição está na lógica das emoções festivas, no VHQWLGRGDWUDQVPLVVmRGRVFRVWXPHV$WUDGLomRDVVLPp³GDUHHQWUHJDU´

A tradição não é um guia normativo para a ação, mas um esquema interpretativo, uma estrutura mental para entender o mundo [...]. Mas, tradição comporta ainda, [...] um aspecto identificador, pois fornece material simbólico para a formação de identidade, tanto a nível individual, quanto a nível coletivo (THOMPSON, 1998, apud SANTOS, 2001, p.191).

1HVVDOLQKDSDUDHVWHDXWRUWRGDWUDGLomR³HQJORED´HOHPHQWRVIHVWLYRVHUHIHUH-se a um determinado lugar, caracterizado e identificado pela sua tradição.

Enfim, a tradição com suas práticas e normas, se reproduz ao longo das gerações, QXPDOyJLFDGLYHUVLILFDGDGRFRVWXPHHODVHSHUSHWXDHPJUDQGHSDUWHQDtQWHJUD³PHGLDQWH D WUDQVPLVVmR RUDO´ 'LDQWH GR H[SRVWR WUDGLomR WHP WXGR D YHU FRP D H[SHUiência de peregrinar numa romaria, em virtude das práticas e dos costumes constituídos e transmitidos às novas gerações.

Por meio destas categorias pretendeu-se compreender e explicitar a expressão social do grupo dos Carreiros de Mossâmedes, constituído pela experiência e pelo aprendizado, pela sabedoria dos mais velhos transmitida aos mais jovens, pelos valores e pelos costumes constituídos com o passar do tempo. Brandão (2001, p. 310) DILUPDTXHDHGXFDomRp³DOJR criado como cultura e nas culturas humanas (...), sendo a cultura o lugar social das SRVVLELOLGDGHVGHHPHUJLUWRGDDH[SHULrQFLDGHYLGDGRµFRQKHFLPHQWR¶GDµLQIRUPDomR¶HGD VDEHGRULDHPFRPSDUWLOKDPHQWRHQWUHRVVXMHLWRV´

A escolha metodológica

Ditada pelo próprio objeto investigado, a escolha metodológica desta investigação recaiu na pesquisa etnográfica, ou seja, na pesquisa de campo realizada por meio das técnicas da entrevista, da história oral, da observação participante, do diário de campo e da fotografia, que após serem transcritos, interpretados e analisados transformaram-se em evidências comprobatórias dos resultados apresentados. Assim, a observação de três romarias dos Carreiros de Mossâmedes a Trindade: em 2009, 2010 e em 2011, acompanhando o período da

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preparação da romaria, a saída dos Carreiros da cidade de Mossâmedes, o percurso da viagem até a chegada dos Carreiros a Trindade e o acampamento durante a festa ao Divino Pai Eterno, permitiu a coleta de dados bastante significativos para a compreensão e a análise cultural do grupo dos Carreiros de Mossâmedes, pois, conforme afirma Geertz, a pesquisa etnográfica consiste em:

apresentar cristais simétricos de significado, purificados da complexidade material nos quais foram localizados, e depois atribuir sua existência a princípios de ordem autógenos, atributos universais da mente humana [o que seria fruto de] uma ciência que não existe e [imaginação de] uma realidade que não pode ser encontrada. [...] a análise cultural é [...] uma adivinhação dos significados, uma avaliação das conjecturas, um traçar de conclusões explanatórias a partir das melhores conjeturas e não a descoberta do Continente dos Significados e o mapeamento da sua paixão incorpórea. (GEERTZ, 1989, pp. 14-15)

Ainda segundo Geertz (1989), se pode retirar das miniaturas etnográficas um conjunto de fatos e práticas, valores e conhecimento de uma realidade cultural. Nessa concepção, o uso GRPRGHOR³PLFURVFySLFR´ serve para justificar as verdades etnográficas, ou seja, capturar e interpretar os fatos e toda a realidade pesquisada.

Assim considerando, foram definidos como sujeitos desta investigação pessoas de significativa influência na organização do grupo de Carreiros de Mossâmedes, seja pelas relações de parentesco e afinidades entre as famílias, seja por serem vizinhos ou amigos mais próximos do grupo. Com este critério foram escolhidas pessoas de várias faixas etárias e com vários tipos de relacionamento parental ou social, como o pai, a mãe, os filhos, os tios, irmãos, parentes e amigos.

No conjunto, foram entrevistadas 35 pessoas, com as seguintes faixas etárias: de 10 a 20 anos - 06 pessoas; de 21 a 40 anos - 11 pessoas; de 41 a 60 anos ± 11 pessoas e de 61 a 90 anos - 07 pessoas. Os entrevistados encontravam-se distribuídos em 09 grupos: Grupo I - o pai, dois filhos, a sobrinha e o amigo; Grupo II - o marido, a esposa e a cunhada; Grupo III - o avô, dois netos, a comadre, o afilhado e duas amigas; Grupo IV - o pai, o filho e o neto; Grupo V - o marido, a esposa e o amigo; Grupo VI - o esposo, a esposa e a amiga; Grupo VII - o esposo, a esposa, o sobrinho e a mãe do sobrinho; Grupo VIII - o esposo, a esposa, o filho e o neto e Grupo IX - o pai, o filho e o neto.

Por razões éticas, para o registro das informações fornecidas pelos sujeitos da pesquisa, foram utilizadas letras, acompanhadas de números, como critério de identificação.

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Os procedimentos investigativos

a) Entrevistas

As entrevistas foram fundamentais para a pesquisa, sobretudo porque o pesquisador se inteirou do universo de vida dos Carreiros. Além disso, concordando com Cardoso (1986), ficou evidenciada a importância da entrevista para a coleta de material e para descoberta de pistas para a elaboração de novas entrevistas.

Também nesta mesma lógica, Deslandes (1994) argumenta que a entrevista é o procedimento mais usual no trabalho de campo, pois é por meio dela que o pesquisador busca obter as informações contidas na experiência cotidiana dos sujeitos da pesquisa.

Ampliando estas considerações, a citação de Menga (1996) complementa,

a entrevista representa um dos instrumentos básicos para a coleta de dados. [...] esta é, aliás, uma das principais técnicas de trabalho em quase todos os tipos de pesquisa utilizados nas ciências sociais. Ela desempenha importante papel não apenas nas atividades científicas como em muitas outras atividades humanas. [...] a entrevista permite correções, esclarecimentos e adaptações que a tornam sobremaneira eficaz na observação das informações desejadas. [...] a entrevista ganha vida ao se iniciar ao diálogo entre o entrevistador e o entrevistado (MENGA LÜDKE, 1996, pp. 34-35).

As entrevistas foram os instrumentos de pesquisa que possibilitaram o aprofundamento das questões formuladas no cotidiano das experiências dos Carreiros. Elas estiveram acompanhadas de uma cuidadosa observação participativa registrada em diário de campo, que permitiu identificar as práticas educativas dos Carreiros de Mossâmedes, que perpetuam a tradição das romarias.

3DUD5RPDK-DNREVRQQDSHVTXLVDGHFDPSRD³REVHUYDomRSDUWLFLSDWLYD´SHUPLWH ao observador o amadurecimento da compreensão da cultura dos sujeitos investigados. Para este DXWRU³XPDSHVTXLVDpXPFRPSURPLVVRDIHWLYRXPWUDEDOKRRPEURDRPEURFRPRVXMHLWR GD SHVTXLVD´ -$.2%621 DSXG %26,  S   $VVLP R ³REVHUYDGRU SDUWLFLSDQWH´ precisa de uma boa relação e da convivência com os sujeitos da pesquisa.

Partindo destas proposições foram consideradas como fonte de dados desta pesquisa a fala, o discurso espontâneo dos sujeitos, o conteúdo das respostas dadas às perguntas feitas durante as entrevistas, as observações participativas registradas em diário de campo, LPSOLFDQGRGHDFRUGRFRP)UDQFRXPD³FRQVWDQWHLGDHYROWDGRPDWHULDOGDDQiOLVHjWHRULD´ (FRANCO, 2005, p. 59).

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b) História Oral

A história oral, no final do século XVIII e inicio do século XIX, foi fortalecida pela sociologia, sobretudo pela contribuição incontestável de Karl Marx com as estruturas sociais, Émile Durkheim, com a explicação do fato social, e Max Weber com a análise sociológica das estruturas sociais, individual e grupal. Para eles, os fatos sociais podem ser explicados sem a interferência da crença religiosa e do domínio sagrado. Assim, a história oral se aproxima das ciências sociais.

De uma forma ou de outra, a história oral, baseada em fatos GRSDVVDGR³pDIDFXOGDGH KXPDQDGHFRQVHUYDUHOHPEUDUDVFRLVDVGRSDVVDGR´3RUWDQWRFRQVLGHUDDLPSRUWkQFLDGD relação com a memória como

fonte reconhecida como válida para armazenar o que já havia ocorrido ± ficava algo que lhe era exterior e não dependia mais exclusivamente da mente humana. Este novo elemento era formado pelo desenrolar do tempo, num meio homogêneo e indefinido, análogo ao espaço, no qual se desenvolve o séquito dos acontecimentos, cada um destes tendo a duração que lhe é própria; cada acontecimento e seu espaço de tempo passavam a ser encarados como objetivo, quantitativo e, portanto, mensurável, e a documentação vinha corrigir o que a memória humana não conseguia armazenar, ou então deturpava (FOULQUÉ, apud QUEIROZ, 1994, p. 106).

Todavia, para Queiroz (1994, p. 109), a história oral tem um grande relacionamento FRPRV³HVWXGRVGRVFRVWXPHVGDVWUDGLo}HVGDVFUHQoDVGDVQDUUDo}HVGDDUWHSHFXOLDUHVjV camadas sociais chamadas de populares, e nas quais os relatos escritos eram UDURV´

A história oral é o tipo de sacramentalidade contida e desenvolvida nas experiências de vida de homens e mulheres. São lembranças de fatos passados, atualizados e que dão sentido a um momento presente para os sujeitos. Para Amado e Ferreira (2000), essas lembranças encontram seu campo fértil na memória oral, pois esta, no seu sentido estrito, tem a presença de um passado inserido não somente no sujeito, mas no contexto familiar, grupal e social. Para esses autores,

há uma última dimensão em que os campos da história e da memória se entrelaçam numa dimensão em que a história oral tem tido especial importância, não tanto por seus produtos, mas mais por seus processos, pelo envolvimento maior na recuperação e na repropriação do passado que a história oral possibilita (AMADO E FERREIRA, 2000, p. 78).

Para Thomson, Frisch e Hamilto (2000), a memória oral e a memória coletiva são elementos culturais e psicossociais. Sendo de um lado,

a memória coletiva como um componente das novas compreensões acadêmicas do processo histórico, e como essas compreensões esclarecem o papel central da memória coletiva nos recentes, acalorados, amplos e políticos debates públicos sobre

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a natureza e o lugar ocupado pelo conhecimento histórico, pela consciência, pela sensibilidade e pela percepção na vida e na cultura {do outro lado,] as histórias orais ocupam o primeiro plano no conjunto mais amplo de estudos inovadores sobre história social e cultural que tiveram profundo impacto revisionista sobre os conceitos de processo e explicação históricos, mesmo em áreas tradicionais como a da história diplomática e política (THOMSON, FRISCH E HAMILTO, 2000, pp. 74-75).

Assim compreendendo é possível afirmar que há uma relação estreita entre história oral e memória coletiva. Na concepção dos autores Thomson, Frisch e Hamilto (2000, p. 75), D SULPHLUD p HQYROYLGD QD SRVVLELOLGDGH GH ³UHFXSHUDomR H QD UHDSURSULDomR´ GRV IDWRV passados, ou seja, explicita o passado e molda-o nas culturas. A segunda tem sua importância quando lembra o passado e relaciona-RFRPDKLVWyULDRUDOQDYLGDHQDFXOWXUD$³PHPyULD FROHWLYD´VXEYHUWH³DVDILUPDo}HVRUWRGR[DV´HQTXDQWRQDKLVWyULDRUDO³RVHVWXGRVKLVWyULFRV ganharam impulso por sua capacidade de subverter as categorias, as suposições e as ideologiaVGDVPHPyULDVFXOWXUDLVDFHLWDVHGRPLQDQWHV´

A história oral é avaliada como um contraponto da história, ou seja, contra a história oficial escrita. A história oral, por sua força, reforça e preenche as lacunas dos documentos escritos na história oficial, nas palavras de Trebitsch (1994) que, quando trata da epistemologia e ideologia da história oral, afirma:

a história oral vem se opor como contra-história, operando uma inversão historiográfica radical, tanto do ponto de vista dos objetos como dos métodos. História vista de baixo, história do local e do comunitário, história dos humildes e dos sem história, tira do esquecimento aquilo que a história oficial sepultou: [...] as sociedades sem escrita, isto é, sem história, as categorias inferiores dos mundos extra-europeus, ou das classes populares, ou ainda as disciplinas inferiores, como etnologia e o folclore. A história positiva estabelece uma hierarquia paralela das ciências, das fontes e dos grupos sociais que participam do mesmo grande mito unitário de uma história nacional (TREBITSCH, 1994, p. 23).

Como repara Trebitsch (1994, pp. 30-35), a história oral é um fenômeno de mediação jKLVWRULRJUDILDHVHDVVRFLDDRV³H[FOXtGRV´GDQGRDHOHVD³UHFRQTXLVWDGHVXDLGHQWLGDGH´ A história oral tem semprHXPLQWHUHVVHSHODYLGDFRWLGLDQDGRVVXMHLWRV³SHODIDPtOLDSHORV JHVWRVGRWUDEDOKRSHORVULWXDLVHSHODVIHVWDVSHODVVRFLDELOLGDGHV´$KLVWyULDRUDOQDVXD complexidade, se confunde com a memória coletiva, quando esta se refere às imagens do passado na sua recomposição.

Desta forma, a memória é norteada para o conhecimento e, somente por meio dela, se reconstrói os significados para o cotidiano e acumula as experiências de vida, quando estas são recuperadas. Vê-se na citação de Cascudo (1971),

a memória é a imaginação do povo, mantida e comunicável pela tradição, movimentando as culturas convergidas para o uso, por meio do tempo. Essas

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culturas constituem quase a civilização nos grupos humanos. Mas existe um patrimônio de observações que tornaram normas. Normas fixadas no costume, interpretando a maternidade popular (CASCUDO, 1971, p. 09).

)LOORX[ S DILUPDTXHXPDGDVJUDQGHVYLUWXGHVGDPHPyULDHVWiQRV³IDWRV da vida diária que parecem fáceis de compreender, porque se tornaram familiares à força de ID]HUPRV XVR GHOHV´ $VVLP D PHPyULD ID] UHFRUGDU QRV OLJD D QyV PHVPRV H DR QRVVR passado, porque as recordações são inseparáveis da vida pessoal. A memória não é sonho, mas atividade diária.

Ainda segundo Filloux (1966, p. 18), não se pode definir memória somente como uma ³SHUVLVWrQFLD´GRSDVVDGRSRUTXHDPHPyULDpDLPDJLQDomRHODQmRpKiELWR UHSHWLomR PDV XP³HIHLWRFRQVHFXWLYRGHHYHQWRVGHVDSDUHFLGRVVREUHRVIHQ{PHQRVDWXDLVpWRGDLQIOXrQFLD persistente de eventos passados VREUHDDWLYLGDGHXOWHULRUGRVVHUHV´

De uma forma ou de outra, a história oral, baseada em fatos do passado, é a faculdade humana de conservar e lembrar as coisas do passado. De acordo com Queiroz (1994, p. 109),

a história oral tem um grande relacionaPHQWRFRPRV³HVWXGRVGRVFRVWXPHVGDVWUDGLo}HV das crenças, das narrações, da arte, peculiares às camadas sociais chamadas de populares, e QDVTXDLVRVUHODWRVHVFULWRVHUDPUDURV´

Assim, para orientar a coleta de dados desta investigação, a história oral foi utilizada como recurso metodológico. Segundo Queiroz (1994), a história oral instrumentaliza a reconstrução histórica de elementos exteriores à memória, onde o historiador desempenha o SDSHOGH³WUDSHLUR´SDUDDGTXLULUPDWHULDOSRUYLDVLQGLUHWDV ou semelhantes entre os fatos e acontecimentos do presente e do passado. A história oral, na sua lógica, busca nos relatos pessoais um testemunho verdadeiro e confiável da história de vida dos sujeitos que representam o universo investigado.

c) Etnofotografia

A etnofotografia foi outro recurso metodológico utilizado para que, em composição com o texto escrito, fosse ampliada a compreensão do objeto investigado. A fotografia permitiu visualizar e ilustrar os comportamentos mais relevantes e característicos dos Carreiros.

O uso de fotografias, o todo de cada peça de comportamento pode ser preservado, enquanto que o desejo de cruzamento referencial especial pode ser obtido colocando a série de fotografia na mesma página. (MEAD M. e BATESON G., 1942, p. 02).

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As fotografias selecionadas foram colocadas no texto na sequência e em lâminas para descrever a história Carreira, antes, durante e depois da romaria. Todas as fotografias foram tiradas e produzidas num processo amador.

Dessa forma, o estudo foi amparado pelo que se observou, registrou, viveu, analisou e fotografou. Possibilitou analisar os sujeitos que constituem o grupo Carreiro de Mossâmedes, tendo como objeto de estudo suas práticas educativas cultural/religiosas.

Assim, com os procedimentos metodológicos descritos, foi possível obter as informações necessárias para responder à problemática fundamental desta pesquisa, que práticas educativas são utilizadas para perpetuação da romaria dos Carreiros de Mossâmedes? Como eles transmitem para seus sucessores, a nova geração, a devoção, a tradição da peregrinação e o ritual da romaria ao Divino Pai Eterno? Quem são os sujeitos e instituições que contribuem para a manutenção da devoção e quem dela se beneficia?

Explicitar e perceber como as práticas educativas dos Carreiros de Mossâmedes são importantes para a perpetuação da romaria, como elas se constituem historicamente e em que elas contribuem para a preservação da romaria ao Divino Pai Eterno e porque numa romaria as pessoas percorrem longas distâncias em busca de um conteúdo simbólico do sagrado foram os objetivos desta pesquisa, cujo resultado encontra-se nesta tese, organizada em três capítulos.

No primeiro capítulo encontra-se uma breve descrição histórica do município de Mossâmedes: história e identidade cultural, sua origem, bem como a caracterização dos Carreiros, suas atividades profissionais e sociais. Fez-se, portanto, um percurso etnográfico e etnofotográfico para a apreensão do grupo dos Carreiros de Mossâmedes e do seu cotidiano. Essas características foram de suma importância para desenvolver o roteiro deste estudo, que levou o pesquisador com suas idas e vindas para acompanhar os Carreiros em suas residências, nas longas distâncias entre as cidades, o trajeto da romaria, em estradas de chão, poeira e sol, cansaço e outras intempéries até a chegada ao santo, o Divino Pai Eterno, em Trindade.

No segundo capítulo foram analisadas práticas educativas cotidianas entre os Carreiros, tendo como suporte o diálogo com os autores que subsidiam o debate sobre a temática investigada. Essas práticas foram filtradas e esclarecidas como costume e transmissão oral/informal, conhecimentos utilizados como características principais de todos os Carreiros. Práticas que, por sua vez, garantem a permanência da tradição e têm como conteúdo principal a fé religiosa.

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Fica evidente que as práticas educativas, transmitidas pelas gerações mais velhas às gerações mais novas, são responsáveis pela tradição da romaria dos Carreiros de Mossâmedes. Essas práticas educativas não se realizam apenas pela religiosidade, mas também pelas demais atividades que constituem o cotidiano deste grupo, como por exemplo: o trabalho na lavoura, cuidado com os animais, os serviços domésticos, especialmente o preparo dos alimentos, o mutirão para a ajuda na realização de determinada tarefa etc... Entretanto, estas práticas sustentam o aspecto religioso que prepondera na tradição da romaria dos Carreiros de Mossâmedes.

No terceiro capítulo procurou-se entender a cultura, a religiosidade e a educação, na relação destas categorias que se entrelaçam a partir do modo de vida das pessoas numa sociedade, em um grupo, no clã ou na família, o que é característico neste grupo, objeto desta investigação: os Carreiros de Mossâmedes em sua romaria à festa em louvor ao Divino Pai Eterno, em Trindade ± Goiás.

Ao final são apresentadas algumas considerações gerais sobre o resultado deste estudo investigativo, visando, principalmente, contribuir com estudos posteriores e estimular a realização de novas pesquisas sobre a tradição da romaria dos Carreiros em louvor ao Divino pai Eterno como tema investigativo.

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1- A ROMARIA DOS CARREIROS ± DE MOSSÂMEDES A TRINDADE 1.1. A cidade e o município de Mossâmedes

Apesar da tranquilidade, Mossâmedes teve passagens que envolveram confrontos contra a presença dos descendentes de europeus: morte da índia Damiana da Cunha marca fim das aldeias (LIMA, 2008).

Situada no Centro Oeste brasileiro, Mossâmedes é uma pequena cidade do interior do estado de Goiás, povoada por aproximadamente 5.798 (cinco mil, setecentos noventa e oito) habitantes, conforme o censo, em 2010. A cidade preserva traços de seu passado materializados na arquitetura oitocentista. A história, a estética arquitetônica e a tradição cultural dos Carreiros são suas marcas características.

O município de Mossâmedes limita-se ao norte com os municípios de Goiás e Itaberai, ao sul com o município de Sanclerlândia e a leste com o município de Americano do Brasil. A cidade de Mossâmedes está localizada no centro goiano, nas encostas da grande Serra Dourada1 e da Pedra do Equilíbrio2, a 150 km da capital, Goiânia - Goiás; a 40 km da Cidade de Goiás (antiga capital de Goiás) e a 350 km da capital federal, Brasília. O município ainda é servido pelas GOs 164, 070 e 060 e sua principal economia hoje é a pecuária e agricultura.

Segundo Brandão (1977) e Silva (2001), Mossâmedes originou-se da pequena aldeia de São José de Mossâmedes no ano de 1755. Em 1º de novembro de 1780 a criação da Freguesia de São José de Mossâmedes; no dia 31 de julho de 1945 se tornou distrito de São José de Mossâmedes e passou a município em 14 de setembro de 1953.

Enquanto a antiga capital de Goiás povoada rapidamente por contingentes de brancos mineiros3 e negros mineradores4, a antiga Aldeia de São José de Mossâmedes foi, inicialmente, povoada por índios, que trabalhavam nas minas da antiga capital de Goiás.

Brandão (1977) confirma em suas pesquisas que no ano de 1774 o governador formou XP ³DOGHDPHQWR PRGHOR´ HVWH IRUPDGR SRU JUXSRV LQGtJHQDV HQWUH RV DFURiV FDULMyV H naudoz. No ano de 1778, esses índios construíram a pequena igreja de são José, a única Igreja Católica existente até hoje na cidade.

1 Nome dado por suas escapas e formações de arenito e campos altos, com seu valor ecológico, devido à fauna e

flora (papiro e a amica), estudos e pesquisas (pela UFG). Ficou famosa pelas areias das mais diversas cores, refletidas à tarde pela luz do sol. É uma das maiores formações rochosas do planeta. (conf. Ecoturismo no Brasil ± Goiás Velho, 2011).

2 Um dos pontos turísticos do município de Mossãmedes. 3 Donos de escravos

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Da antiga aldeia de São José, resta somente a igrejinha, com suas paredes de pedras robustas, construída pelos escravos na época da colonização e alguns casarões com arquitetura oitocentista. Mas, em consequência da secularização moderna, nos últimos anos, surgiram várias formas religiosas pentecostais, entre elas: Assembléia de Deus, Luz para os Povos, Igreja de Deus no Brasil, Igreja do Véu, Deus é Amor, além do Centro Espírita. Mossâmedes, apesar de ser uma cidade antiga e pequena, é muito acolhedora.

Atualmente toda a área do município foi repovoada por pecuaristas, donos das grandes e pequenas propriedades. Mas com a abertura de mercado para a venda de cereais, a atividade agrícola vem, aos poucos, suplantando a atividade de criação de gado para o corte. A expansão intensa do povoamento da cidade de Mossâmedes ocorreu somente nos últimos 50 anos, com a chegada de levas de migrantes mineiros, entre outros. Deste modo, o município produz arroz, milho, feijão e a criação de gado leiteiro, provocando, com isso, a repartição das grandes fazendas do passado, em pequenas propriedades.

1.2. Os Carreiros5 de Mossâmedes: história e identidade cultural

Eu posso assistir uma Missa em Trindade, mais não vô sem o carro de boi (A02).

Sô Carreiro desde criança e guardo bem na lembrança o tempo bom que se foi. E o transporte utilizado é mantido no carro de bois. Lembro dos meus bois devia, distancias percorriam indo na direção; indo pra Trindade Santa, pra cumprir com minha devoção. Aos pés do Pai Eterno o meu pedido eu fazia; me dê vida e saúde pra voltá no otro ano aqui nesta Romaria. Com o pará dos janeiros, tudo se acabô; meus bois de carro morreram meu carro na estrada nunca mais andô. Só me resta na parede, tudo amarelado, o retrato do carro de bois, a relíquia do passado. Com este carro de bois, há muito tempo patrão; cruzei vales e colinas, rios de àguas cristalinas bem antes do caminhão. Até as marcas deixadas, nas pedreiras das estradas, que o asfalto já cobriu, já fui tudo e hoje não sô nada. Sinto que minha jornada está chegando ao fim. Se você é carreiro também meu amigo, não deixa esta tradição tão bonita se acabá; peça seus filhos que coloque o carro na estrada

pra todos ouvir ele cantá6.

Os migrantes, provavelmente, são os principais responsáveis por algumas das tradições religiosas do lugar, entre elas a romaria dos Carreiros. Nos escritos de Brandão (1977) entende que a história dos Carreiros de Mossâmedes começou desde o surgimento da cidade na época da colonização, por volta do século XIX, pela influência do catolicismo, trazido pelas autoridades do governo da província de Goiás.

5 Homens e mulheres de jeito simples, humilde e perseverante, do meio rural ou da cidade, no uso de suas

práticas diárias têm no carro de bois um isntrumento primordial para o cumprimento de sua fé ao Divino Pai Eterno na cidade de Trindade Goiás.

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Entretanto, segundo Brandão (1977), entre o fim do século XIX e início do século XX, começa a aparecer um número significativo de agricultores e pecuaristas regionais vindos de outras localidades. Esses foram atraídos pela boa fertilidade das terras próximas da aldeia. Os índios atraídos em massa, após a conversão de Damiana da Cunha ao catolicismo, foram progressivamente se dispersando e desaparecendo da região, perdendo o seu espaço para a presença dos novos contigentes da raça branca.

Damiana da Cunha foi um marco fundamental para a história do município de Mossâmedes. Este fato exige uma referência à esta personagem, como condição necessária para a compreensão da composição étnica da população do município e, por conseguinte, para a composição do grupo dos Carreiros.

Na explicação de Nascimento (2009), Damiana da Cunha foi uma mulher indígena educada pela corte portuguesa, para intermediar com o povo caiapó, e esteve sob a responsabilidade de Cunha Meneses, governador e capitão-geral de Goiás, nos anos 1778 a 1783. Este tratou de educá-la com os bons propósitos em relação ao povo indígena. Funcionou como moeda de troca. Vivera no palácio bem tratada por alguns, ignorada por muitos, desprezada pela maioria e temida por outros, aprendendo a língua e as maneiras do homem branco. Segundo a historiografia oficial, Damiana morreu aos 56 anos e foi sepultada na igreja local como heroína brasileira.

Damiana da Cunha, segundo Lima, (2008), era neta do cacique Angraochá, um dos 36 índios caiapós que o governador Luiz da Cunha Menezes mandou buscar na selva e os recebeu em seu palácio, na cidade de Goiás, no ano de 1800. No batismo católico, Damiana recebeu este nome e o sobrenome foi de seu padrinho, o governador. A ideia corrente era de que os índios deveriam ser batizados no catolicismo e trabalhar como escravos. Damiana da Cunha fora criada por Cunha Menezes durante um tempo, aprendeu bem o português e, na vida adulta, foi pessoalmente buscar nos matos gente de sua raça. Ela casou-se duas vezes. Primeiro, com o sargento José Luiz da Costa, mais tarde, com o soldado Manoel Pereira da Cruz. Esses homens eram guardas de controle do trabalho indígena e pertenciam ao Regimento de Pedestres da Corte, que funcionava na aldeia de Mossâmedes.

Damiana foi um símbolo bem explícito da impossibilidade de convivência pacífica entre brancos e índios. Os índios caiapós, por exemplo, foram descritos pelo pesquisador francês August Saint Hilaire e por outros registros históricos como fortes e orgulhosos. Eram hábeis guerreiros. Combatiam a ocupação branca, na época em que viveu Damiana da Cunha, nas vastas extensões entre Vila Boa, a atual cidade de Goiás, e Cuiabá, no Mato Grosso. Ela

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fez seguidas expedições em busca dos índios caiapós, não resultando em nenhum benefício para o povo indígena. Bandeou-se7 com os brancos e prejudicou intencionalmente a sua raça, como uma inocente útil, que tentou mediar, honesta e ingenuamente, os conflitos entre as duas civilizações. Os homens iam para o tronco e podiam ser açoitados. As mulheres e crianças eram punidas com bolos de palmatória. Os índios eram livres para ir e vir, mas tinham que trabalhar e dividir os produtos das plantações.

A exploração dos povos indígenas era a meta da civilização branca, em beneficio próprio. Lima (2008), baseado nas pesquisas de Saint Hilaire, concorda que a civilização branca explorava os índios em proveito próprio e que Damiana da Cunha forçosamente teria que tomar conhecimento dos abusos indígenas, porque se enfurnava na selva, correndo todos os riscos na busca de índios em substituição aos que fugiam.

Damiana trouxe muitos [índios] para Mossâmedes. Eles nunca se integraram completamente. Trabalhavam vigiados pelos soldados. Sempre fugiam para o mato. Com a morte de Damiana, a aldeia entrou em decadência. Em 1774, os índios aldeados [...] já viviam e trabalhavam no local. Foram transferidos xavantes, acroás, javaés, carajás, naudós e caiapós. Acredita-se que três mil indígenas chegaram a morar na aldeia, que deveria ser modelo de participação dos nativos. Hoje não resta um único índio puro em Mossâmedes para contar a história (LIMA, 2008, p. 16).

Lima (2008), em seus escritos, fala da testemunha Maria de Jesus Sousa, moradora de Mossâmedes, com 103 anos de idade, que testemunhou os últimos conflitos armados que ocorreram na região de Mossâmedes, nos séculos passados. Maria de Jesus Sousa fala que o seu avô, de quem não se lembra o nome, era índio caiapó e viveu nos tempos em que a aldeia estava em plena atividade. Segundo o autor, Maria de Jesus Sousa fora criada no meio dos índios e que ainda tinham muitos deles quando ela era menina. O seu pai chegou a brigar contra os brancos. Maria se casou com um branco e viveu entre eles. O Sr. José Pedro Alves, com seus 88 anos de idade, nascido no município de Mossâmedes, filho de branco, descendente de português, conta que sua família viveu em perfeita harmonia com os índios, pois seu pai fora criado junto aos índios na época. Foi vaqueiro por 22 anos. Presenciou muitos vestígios indígenas, mas estes desapareceram completamente. A última vez que ele teve contato com um índio foi há mais 50 anos.

Com estas informações é possível perceber que embora os Carreiros de Mossâmedes sejam, em sua maioria, da raça branca, muitos deles devem ter vínculo parental com a etnia indígena e negra. É possível também que os Carreiros mais velhos, em sua maioria, sejam descendentes de mineiros vindos de outros estados como, Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais

Referências

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